sexta-feira, 29 de julho de 2022

Contos da Irlanda, vol.3: Guirlanda de Flores pelo Espírito Leprechaun

"Aos nossos amigos da Terra, saudações! Atendo pelo nome de Leprechaun e, como a tantos antes e depois de mim, venho aqui para cumprir com a missão designada pelo Alto com o propósito de servir nosso Pai Celestial. Entretanto, hoje venho trazer uma lição muito proveitosa em minha encarnação mais marcante nesta orbe. Na verdade, conto aqui a encarnação de uma amiga querida que, neste momento, se encontra encarnada. Nossos laços fluídicos seguem afins e é por isso que venho aqui. 
Nas terras verdes da Irlanda, longe do tempo marcado pelos cristãos, onde diferentes tipos de palmeira eram plantadas e pomares davam os mais belos frutos, diversas tribos druidas faziam daquele lugar abençoado seu lar. Ali, desde crianças, éramos educados para o conceito de transmigração da alma, das condutas em vida que nos influenciavam no pós-morte. E, claro, os sacerdotes nos instruíam sobre as crenças antigas de nossos antepassados, dos vícios e das virtudes que existiam em nossa alma. 
Foi no ciclo deste estudo que a conheci. Seu nome era Morgana. Filha de Astair e sobrinha da sacerdotisa Viviane, desde cedo ela mostrou conhecimentos muito vastos, profundos e amplos para sua idade. De longos cabelos ruivos, tinha sido abençoada pela deusa do fogo.
"Viverás para a guerra", disseram-lhe. "Mas viestes cumprir a paz."
Viviane acreditava ser seu dever educar Morgana para os ensinamentos místicos, a fim de que com mais consciência servisse à deusa. Todavia, desde cedo era questionadora. Lembro-me que uma vez ela causou espanto ao indagar:
"Mas se os deuses estão em nós, sempre conosco, por que razão precisam da matéria para se comunicar? Por que ritos se é chamá-los com o coração que somos aconselhados a fazer?"
Ninguém tinha a resposta para sua pergunta. Eram os mais velhos constrangidos por sua sabedoria precoce. Foi assim que nos aproximamos. Não éramos tão diferentes, embora ela fosse mais temperamental do que eu.
"Como se chama?"
"Aurélio Merlalf. Mas me chame de Merlalf." 
"Você é estranho", comentou.
"Meu pai é romano", disse eu. "Por isso o primeiro nome. Mas não o conheci, embora mamãe tenha dito que ele morreu em batalha."
"Lamento muito. O meu, segundo dizem, é um rei menor de Albion, mas nunca me reivindicou. Minha tia Viviane diz que não preciso dele, pois aquele foi o propósito da deusa. Ela acha que serei sacerdotisa e isso é melhor do que casar e ter uma vida comum."
De alguma forma, nenhum de nós dois acreditou nessa fala. Havia algo profético em Viviane, que, à época, era a sacerdotisa da Deusa Aine, que era, em resumo, a deidade atribuída aos poderes da lua e do amor, em suma do feminino, do sentimento, da emoção, uma vez que a lua rege tais caracteres humanos. O sol sempre foi atributo masculino pela energia da ação, da guerra, da iniciativa, da razão. Entretanto, o que os druidas buscavam no ensinar era que a alma precisava reunir as duas qualidades inerentes à alma: o equilíbrio do feminino e do masculino. Deste modo, precisávamos resgatar estes atributos se quiséssemos atingir à perfeição espiritual. 
Quanto a mim, desde criança fui abençoado com a vidência. Por essa razão, falei com a sinceridade de uma criança:
"Seu destino é maior do que ser sacerdotisa. Servir à deusa irá, mas fora dos meios comuns que sua tia espera de você. Aine tem outros planos."
Morgana tinha olhos castanhos que, à luz do sol, pareciam verdes. E neles vi o temperamento de ferro que ela trouxe de sua existência anterior, passada na Alexandria. E mesmo antes, quando derrubou os tiranos de Tébas, na antiga Grécia, pela espada. O sol ameaçava dominar a lua.
"E como você sabe?"
Dei de ombros.
"Apenas sei."
E foi quando ela sorriu.
"Gostei de você, Merlalf."
Nossos caminhos passaram a se separar vagamente após uma certa idade. Viviane ignorou os protestos da irmã e iniciou Morgana nas artes místicas. Para o leitor contemporâneo, isso vai além de meros rituais. À época, era como acreditávamos na comunicação com o 'além'. Guardados os exageros pitorescos do contexto, nas danças à fogueira estimuladas pelos tambores, vinham espíritos ancestrais para serem recebidos. Suas instruções eram mais morais do que outras coisas. De meu conhecimento, estou à par da grande romantização, quase nostálgica de alguns de vocês sobre a noção "bruxa", "deusa" e "rituais". Na verdade, a realidade era muito mais prática. Os conselhos eram voltados para a moralização do espírito decaído, perdido na vaidade, e o sacerdote ou a sacerdote cujas vocações os levavam àquela função de intermediário entre o "sobrenatural" e o "natural", eram espíritos experientes que deveriam expiar seus erros cometidos no passado. Um exemplo. Viviane antes de sacerdotisa fez mau uso do conhecimento espiritual para prender o marido, um rei, e por meio dele corrompeu um povo inteiro. Agora, deveria orientar seus escolhidos e, conseguintemente, o povo druida a fim de que a moral daquele grupo não se prendesse no orgulho e na vaidade.
Não havia nada essencialmente exagerado ou grandioso: cada um ali se ligava à boa espiritualidade segundo seu entendimento moral. E era o que via nela. Mas seu caminho seria difícil... Morgana ainda cedia à vaidade na primeira oportunidade.
Em sua juventude, Viviane foi clara quanto à castidade: seu corpo era o templo da deusa e, como tal, deveria ser resguardado. No ritual à Aine de Knocknaine, realizado na lua mais cheia, era prática oferecer as donzelas da deusa aos representantes do deus sol de maneira a reproduzir a lenda do cortejo de um ao outro, que nada mais é que o eclipse.
Mas Morgana era elogiada por seus conterrâneos pela beleza que floria. De cabelos cheios e sebosos, olhos intensos e esguia como uma lebre. Era dona de personalidade forte e não aceitava um "não". Era persistente e amável, sempre cheia de alegria. Adorava fazer tantos que a cercassem rir. Não havia quem não a gostasse dela, da aspirante à deusa na Terra. Entretanto, pelos mesmos motivos que a enalteciam, atraía rivais relativamente poderosos. Um deles foi seu próprio pai, que, nos anos de sua juventude, tentou invadir a tribo de Dublin de qualquer maneira. Ele quis capturá-la, recusando-se a crer que sua filha era qualquer coisa menos divina.
Essa rivalidade não era recente. A deusa explicou a Viviane que aquele pai em outra vida foi um marido muito ciumento do poder da esposa, e que terminou morto de ciúmes. Na anterior a essa, foi um irmão invejoso de sua glória militar e, ainda nos tempos de Platão, foi seu obsessor. Era um histórico que se alteraria somente quinhentos anos mais tarde, quando viria, melhorado, na condição de filho. Mas esses fatos escapam ao escopo de nossa história.
E mesmo em meio à guerra que não raro envolvia nosso povo, Morgana se mostrava líder. Tomou em armas, não obstante o conselho de Viviane. Mas ela era orgulhosa, sabia liderar e gostava de ser o centro das atenções. Queria o amor que ela achava não receber da família.
Eu estive lá quando ela pegou no arco-e-flecha. Em trajes típicos de uma druida guerreira, parecia Bodbh encarnada.
"Avante, guerreiros! Levantem suas armas e recordem os nossos inimigos que somos insubmissos à vontade alheia. Ninguém tem o poder de nos dizer o que fazer. O único merecedor de nossas contas a prestas é o Sol e a Lua em Um! Preparem-se! Não temam a morte, pois ela é, antes, nossa casa! E se falharmos hoje, tanto melhor! A casa nos regressará, os deuses nos receberão de braços abertos! Morreremos livres!"
Foi uma batalha muito bonita de se ver.. Não porque seja a favor do derramamento de sangue, muito pelo contrário, mas ela se libertou de suas próprias amarras por instantes. Aquele gesto poderia ter sido de outra guerreira mais conhecida, Boudica. Mas são espíritos diferentes.
Naquela luta, a ferocidade de nosso povo gerou um resultado que nos animou: o rei menor e pai de Morgana morreu. Contudo, mal imaginamos que aquele seria o primeiro de vários conflitos a sangrar a Irlanda.
Embora os romanos já desertassem a terra Britânia, regressando à Roma para impedir o desmantelamento de seu império, muitos tantos persistiram em ficar. Disso resultou uma guerra civil entre os generais romanos que se achavam reis, embora sujeitos à autoridade de Vortigern. Nisto, tribos da Jutlândia passaram a invadir novamente. E foi nessas invasões que um sujeito chamado Duncan tomou conta de Dublin em um longo processo de conquista que duraria décadas.
"Aposente a espada", dizia Viviane enquanto isso. "Não veio a nós como guerreira. Escute o que digo. Não se associe à guerra, fará somente mal a você."
No entanto, Duncan era um velho amor de Morgana. Ironicamente, durante o período homérico em que ela exerceu a função de sacerdote de Afrodite, os dois se apaixonaram, mas pelas forças das circunstâncias não puderam ficar juntos. Agora, ele voltava para cumprir o que uma série de encarnações impediu. Melhor dizendo, atrasou.
"Os anciões me alertaram o contrário. Minha função é mais do que me tornar sacerdotisa, minha tia. Lamento desapontá-la, mas minha grandeza não se restringe aqui."
Duncan, em verdade, já estava disposto a tomá-la como esposa não somente porque a deusa lhe mostrou em sonho quem deveria ser sua rainha, mas porque, disfarçadamente, procurou se infiltrar naquele domínio a fim de conhecer melhor o território. Esse aqui era um excelente guerreiro, mas cessaria sua belicosidade apenas no século XVI. O resto, não posso informar, leitores.
E foi quando a viu dançar alegremente com seus amigos ao redor da fogueira que ele se apaixonou.
"É ela, é ela!" 
O curioso é que talvez fosse pela guirlanda de flores que havia em sua cabeça, embelezando-a mais, que ressuscitou o velho amor de Duncan por Morgana. E isso impediu um massacre violento e sangrento daquele povo.
No dia que ele apareceu para ela foi durante este ritual à deusa da lua que já mencionei. Era também entendido como ritual de passagem, no qual os jovens de quatorze e quinze anos eram vistos como adultos em sua maioria--se a menina não tinha sangrado, ela não recebeu o chamado, logo não seria convocada.
Na dança ao redor da fogueira, Viviane avistou Duncan e tentou alertar Morgana. Mas, ansiosa em ser amada, ela não a ouviu. A escolha estava feita. E os deuses tinham participado disso.
***
Era curioso como esses eventos transcorreram quase sem violência. Duncan me pediu que a coroasse. Em virtude dos nossos laços fluídicos, como falei, fiz sem pensar duas vezes. No entanto, não contei que, no dia, uma visão me abalou. Duncan estava fadado ao fracasso. A conquista que ele pretendia exercer sobre a Irlanda e, por conseguinte, por toda a Albion traria graves consequências. 
Diante disto, fui pedir conselho à própria Viviane.
"Merlalf, a que devo a honra? Vi que seu prestígio aumenta agora que foi requisitado para coroar nossos, uh, reis."
Ignorei o desdém que saía de suas palavras. Perder Morgana para a coroa custou muito dela.
"Nunca achei privilégio ver o futuro. Traz mais males do que bem. Imagino que seja por ter sido um péssimo sacerdote de Apollo no passado." Nos dias da invasão de Xerxes às ilhas helênicas, fui comprado pelas forças dele a fim de convencer a população de Delfos de que o melhor seria render ante o inimigo, ou Apollo enviaria pestilências. Não preciso dizer que foi um erro gravíssimo, cujas consequências se encerrariam na minha última existência na Terra, em 1715.
"Ainda se tortura pelo que não pode ser desfeito, caro rapaz?"
Corei.
"Minha consciência não está em paz com isso. Preferia o véu do esquecimento."
"Todos nós erramos na vida. E sem o erro, que somos?" Ela deu de ombros. "Queria lamentar por ter acolhido Morgana, mas vejo que foi o mais sensato a fazer. A vaidade dela é seu pior defeito. Insegura por conta da família." Riu sem humor. "Disse a minha irmã que controlá-la seria pior. E veja só onde está. Rainha. Sabe, pensei que fôssemos um povo livre."
"Ela está deslumbrada com o poder em mãos, mas é o amor que a move. São espíritos afins. Ficaram separados por três ou quatro encarnações. Achei que Deusa tinha lhe mostrado isso."
Viviane teve a decência de ruborizar.
"Não, não mostrou. Mas se é como diz, alertei pra nada."
Caminhei pela caverna que tinha tomado como sua, embora nada de humilde existisse ali. Joias adornavam as paredes. Com riqueza tamanha, me admirei que ela não vivesse no castelo. Foi quando percebi que era orgulhosa demais para aceitar residir junto ao casal real.
"Precisamos insistir. Morgana corre perigo. Haverão mais invasões em Albion que refletirá aqui. Os gnomos me contaram."
A magia, na verdade, era a manipulação do fluido cósmico universal que atua segundo a movimentação da energia, sobretudo em conjunto com aquela de seu possuidor. Assim como os médiuns em sua contemporaneidade que, por meio do mesmo fluido, faz passes e atua como intermediário de espíritos curadores para o processo de cura. Há uma grande mistificação sobre um processo que é simples e, como a mediunidade, neutra. Seu uso não faz de ninguém melhor ou pior, embora o caráter de uma vasta maioria de seus conhecedores no passado tenha sido predominada pela vaidade e pelo orgulho, infelizmente.
Viviane me encarou com seus olhos escuros e intensos.
"Ela me é como uma filha. Mas está longe de ser controlável."
"Ela foi sua filha, mas você nunca a entendeu realmente", disse eu. "Traz traços que a família não soube lapidar. E, no entanto, temo que esteja muito subjugada aos membros dela."
Ela suspirou. Levantou-se de onde estava sentada e veio a mim vestida ornamentada como a sacerdotisa que era.
"Que posso com isso? A mãe sempre a criticou. E os irmãos sempre encorajaram esse lado belicoso que floreia seu orgulho."
"Não a critique quando sabe que teve também parte nisso", falei com alguma impaciência. "Onde esteve você quando ela foi vendida aos sacerdotes naqueles tempos? Quando a família virou as costas quando precisou? Nos tempos de orfandade, da pobreza, e agora de relativo luxo? Será que você também não queria a coroa para si, o seu amado de ontem de volta aos seus braços?"
"Basta! Não tolerarei que me ofenda em meu território!"
"Não a ofendo. São as feridas de seus machucados que fazem isso. Antes estou lembrando que nenhum motivo há para deixar Morgana entregue a si mesma."
Isto bastou para convencê-la. Não muito longe da caverna de cristais, Morgana enfrentava seus problemas familiares. Uma vez enriquecida, seus parentes exigiam uma parte de sua fortuna. Havia briga, naturalmente. E ela era, desde já, portadora de uma nascente sensibilidade.
"Acho engraçado", dizia ela, rancorosa, "que quando me comparava à Jylva, a senhora era a primeira a listar meus defeitos. Não me lembro de ter que lhe dar satisfação de alguma coisa."
Dirigia-se à mãe, com quem sempre travava embate direto.
"Eu lhe dei a vida. Bastava para agradecer a tudo o que eu lhe dei! Se está aí, foi por minha causa! Onde está sua gratidão? Não lhe dei teto, comida e conforto?"
Palavras eram como flechas: uma vez jogadas ao vento, não tinham como voltar. As lágrimas se erguiam aos olhos dela. Abandonada e desprezada pelo pai, conhecia similar sentimento na mãe. 
"Poderia ter impedido que eu nascesse", ela disse. "Quem sabe a senhora não evitaria amarguras?"
"Como pode dizer uma coisas dessas? Ninguém a amou como eu amei! Eu que permiti que a deusa trabalhasse em você..."
Como cachorro machucado, Morgana se tornou agressiva:
"Você não deve nada a mim. Nem a Deusa! Como pôde? Como pôde? Eu só queria que me amasse e você me procura pelo ouro! Vá para Hades! É lá onde deve ficar! Não posso perdoá-la por seu coração mesquinho!'"
Aquilo foi somente o que aconteceu no início de uma semana terrível. Morgana teve um acesso de fúria quando flagrou a prima, filha de uma outra tia, tentando seduzir o esposo. Ciumenta, possessiva, rancorosa. Trazia traços que tinham origem há muitos séculos e que, entretanto, procurava expiar naquela encarnação. A prima era uma rival que a invejava, e sempre invejou. A rivalidade só deixaria de ter efeito quando Morgana a perdoasse pelas incontáveis vezes em que sofresse sua perseguição. Isso se verificaria na encarnação posterior.
Morgana a tomou pelos cabelos longos e dourados. Cortou-os com uma faca e não fez pior porque Viviane e eu chegamos na hora. A deusa intervinha. A verdade é que os sentimentos dela foram inspirados por antigo obsidiador. Viviane reparou nisso e manipulou o fluido cósmico universal para afastá-lo. A corte só não se escandalizava porque, moralmente falando, estavam todos os presentes sintonizados na mesma faixa vibracional.
A consciência de Morgana não demorou a despertar para o que fez. Ela cedia ao peso dos erros pretéritos e chorou tanto que era difícil não se comover. Seu marido, igualmente ciumento, me impediu de consolá-la. Ele a assegurou de seu amor, convencendo-a de que jamais compraria os truques da mulher em questão. Mas ela dizia que era imerecedora de ser um instrumento da deusa depois disso.
"Você está em desequilíbrio", eu me intrometi. "Não caia nas trevas dos ciúmes e da inveja, Morgana. Não conspire. Alimente seu lado masculino sem negligenciar seu feminino. Trate de suas emoções. Não as reprima."
Rei Duncan me lançou um olhar inquisitivo.
"O que quer dizer com isso?"
"Morgana não foi planejada. A mãe foi amante do rei menor do norte de Albion e se sentiu culpada por desejar crescer em seu ventre uma criança que o próprio rei declarou não querer. Era uma condição para se verem. Só que a mãe também foi alertada do crime que seria acusada se impedisse Morgana de vir. Ela tem uma missão a cumprir, a de preservar a paz da tribo ao lado de Viviane." Fiz uma pausa, reparando que Morgana me observava com atenção. "Morgana foi filha de Viviane em outra existência, contudo, quando esta optou pela vaidade em sua vida, negligenciou o caminho da filha que deveria orientar. E agora de certa forma o faz por amor e comprometimento espiritual. Minha amiga e irmã, a experiência militar não deve ser revivida. Por que lutar ferozmente com seus iguais? Já não os derrotou em Tebas? Agora siga em frente. Abrace a paz. Sem ela, o orgulho florescerá e será sua queda."
"A família dela não a merece", Duncan a defendeu. "Nenhum deles a ama como eu."
"Creio que o senhor ama o poder e a beleza que a Deusa deu a ela, não aquilo que ela tem em seu interior. Discipula do grego, ela guarda um tesouro de sabedoria. Mas me pergunto se o senhor se beneficia dele", disse a sacerdotisa com sua língua afiada.
Antes que ele a retrucasse, Morgana, exausta de toda aquela confusão que lhe gerou um profundo trauma em seu psiquismo, disse:
"Tia, por favor. Está na hora de aceitar que não a sucederei desta vez. A deusa tem outros planos para mim e Duncan sempre me foi leal, mesmo com nossas diferenças. Ele é a família que eu preciso. Amo você e sempre amarei, mas que mais posso fazer? Já não sacrifiquei o suficiente por todos nós?" 
Lamento ter de reconhecer que olvidei um momento significativo que afetará o desenrolar da história. Por pressão da mesma mãe, Morgana arranjou casamentos nobres para todos os parentes, procurou arrendar terras para suas cinco tias, favoreceu algumas primas, uma das quais a traiu e quase foi punida com a morte. Quantas vezes não intercedeu por uma tia orgulhosa, não procurou apaziguar as vontades de outra maliciosa? Quantas não foram as vezes em que ela esqueceu de si mesma no processo?
Em verdade, Morgana sacrificou seu lado masculino e agora pagava o preço por isso. Em desequilibrio, isso significava agressividade, rancor, mágoa, depressão. E, na ironia do ciclo da vida, era Duncan quem amenizava tais efeitos, muito embora ele completasse-a com a belicosidade que diminuiu. Embora "incontrolável", era somente uma ilusão de temperamento. Na verdade, aquele espírito era, apesar das boas tendências, muito preso às influências de terceiros. E romper este processo tão enraizado custaria muitas encarnações. Ainda no presente, ele se desenrola, mas com a graça de Deus, em um grau menor do que antes.
Viviane aquiesceu. Compreendia mais do que muitos ali.
"Eu só quero seu bem."
"Sei disto." 
Mais tarde, quando Morgana se virou para voltar com seu marido para realizar os deveres que eram esperados, senti-me comovido repentinamente.
"Que diz a deusa?", ela indagou ao me ver empalidecer. 
Uma vez mais desejei não ter a visão do futuro.
"A história se repete e há de se repetir. Duncan morrerá como morreu em Jônia." Engoli em seco. "Não posso falar, nada há o que fazer."
"E o que será dela?" Quis saber ela, ansiosa.
"Sofrerá com a traição de seu irmão, tio dela. É tudo o que sei."
Em tempos onde a magia era embelezada com contos e tradições, não entendia o propósito da visão dos eventos futuros. Ainda era marcado pela velha sensação de punição. Hoje tenho outra perspectiva. A vidência não nos é dada para nos vitimarmos, ou buscarmos modificar tais eventos. Ela vem antes como preparo e conforto. Se é com outros, devemos cuidadosamente analisá-los logicamente para prestarmos socorro: sem caridade, nada somos. Se é conosco, devemos exercer a paciência e resignação. Mas eu me cria sabedor de tudo, não era menos vaidoso que Morgana ou Viviane.
Quando a guerra de fato aconteceu, me afastei. Não era guerreiro e meu destino me levaria a Albion. Antes disso, foi com tristeza que vi Dublin sangrar. A recusa em receber missionários cristãos acabou dando brecha para que o tio de Morgana, recém convertido, fosse influenciado por um padre para tomar o reino daqueles "pagãos". Viviane se sentiu mortalmente ofendida, é claro. Até os fins de seus dias ela lutou contra o próprio irmão. E eventualmente teria sucesso sobre sua morte. Mas a que isso lhe custou?
Enquanto isso, aprisionada, Morgana falhou como missionária da paz. Contudo, ao contrário da tia, não demorou a se converter. Como perdeu o marido para a espada, passou a desenvolver um horror profundo com batalhas de qualquer gênero.
Distante, vi-a com tristeza tomar o véu. Seu nome era outro. Mas, depois disso, percebi que ela não falhou na missão.
"A deusa escreve certo em linhas tortas", pensei comigo. "Se Morgana recusasse a conversão, a outrora rainha de Dublin prolongaria a guerra civil. Fez as pazes com seu tio, abençoando seu reino, e procurou viver silenciosamente no convento de Santa Bridget. Que curioso, que curioso. A paz reina, afinal."
Movendo-me ao norte, observei outras guerras mancharem as terras irlandesas, embora jamais com sucesso apagassem a herança céltica. No entanto, o véu já desaparecia quando aportei em Northumbria. Aquele reino de origem dinamarquesa voltava-se às práticas cada vez mais cristãs, muito embora se confundisse com as crenças folclóricas e populares.
Mesmo assim, foi ali e não em Jorvic, que eu me estabeleci. Cercava-me de crianças e alcei-me à reputação de médico local.
Um dia, seu rei veio a mim.
"Merlalf. Meus súditos falam de você como grande curandeiro. Suponho que tenha suas histórias a contar." Ele se sentou diante de mim. Pouparei os detalhes ao leitor, mas vale dizer que tinham olhos brandos, marcados pela sabedoria.
"Se o senhor não me condenar à fogueira, posso contar muitas coisas."
O rei me encarou assustado.
"Ora, por que faria isso?"
"Porque é cristão. Não é isso que fazem? Queimam, pilham, torturam os que pensam diferente?"
"Meu caro, Merlalf. Os pagãos fazem o mesmo. No entanto, asseguro que o problema não reside na crença que expressam, mas naquilo que está em seus corações." Sua resposta me surpreendeu, marcando-me a alma. "Não olhemos para títulos e ritos, mas para os exemplos que deixam. Jesus jamais enviou quem pensasse diferente dele à fogueira. Se eu quero segui-lo, por que faria isso? Foi-me dado uma pesada incumbência que, não raro, me pesa os ombros. Não desejo isso a ninguém. Mas tenho que perseverar na cruz que carrego."
Tomei o cachimbo nos lábios e traguei, reflexivo.
"Em que posso ajudá-lo?"
"A curar Albion. Não acho que conseguirei fazê-lo, mas podemos juntos plantar as sementes. Sei que sou visto pela minha fraqueza de ser pacífico, mas se escolhermos a violência sempre, mergulharemos em trevas."
Podia ouvir a deusa falando: busque a diplomacia, seja o missionário da paz. Morgana cumpriu com aquele dever, mas poderia eu também fazê-lo?
"Fraco é aquele que se esconde de si mesmo. E você, meu caro Ambrósio, não é um." 
Entreolhamo-nos.
"Que diz o futuro?"
"A união de Albion sob seu filho não será permanente. E não há a fazer com isso." Traguei outra vez. "Mas seu inimigo está em conluio com os destruidores. Acho que todos nós temos um papel a cumprir."
Ambrósio, o rei romano, me olhou com tristeza. Não era o que queria ouvir e eu menos ainda desejava ser o portador de más notícias.
"Devo desistir?"
Ser o curador de reis nunca foi minha pretensão. Mas a deusa era minha guia. Coroava-me uma guirlanda de flores como fez com Morgana. Mas as flores tinham espinhos.
"Não posso dar-lhe respostas, mas se há um papel dado a nós, por que atrasar isso? Recusá-lo me parece tolice."
E quando me dei conta, aquele filho de ontem que tinha tanta afeição me acolheu como seu curador. A vida é engraçada, não é mesmo? Traz-nos de volta nossas mais amadas criaturas por meios mais singulares.
Em resumo: nossa "falha" em manter Albion unida era, na verdade, a semente que ela precisava para virar o que hoje conhecemos como Inglaterra. E por essa ligação especial, reencarnei no final do século XVII para lutar no século XVIII em outra guerra. Irônico? Morgana teria rido. Não a encontrei porque ela reencarnou na França de Louis XV.
Mas, espiritualmente falando, estive ao seu lado quando foi injustamente condenada, outra vez mais pelos seus familiares, por traição na Inglaterra do século XVI. Desta vez, não foi pacificamente que perdeu a coroa.
No mais, sempre fomos irmãos e não "aceitamos" dentro do possível reencarnar de outra maneira. Mesmo fora do vínculo sanguíneo, estivemos próximos. No século XIV, ela progrediu o suficiente para me auxiliar enquanto guia espiritual durante minha caminhada na Polônia e na Rússia destes dias. No final das contas, sou muito grato por isso.
Deus, ou Deusa, como querem dar nome ao Grande Espírito, não nos deixa sozinho. Há irmãos de luz, benfeitores, amigos, mentores, anjos de guarda para nos amparar, nos guiar, nos encorajar. Nem sempre o meio em que estamos será o mais tranquilo, mas é o necessário para nossa encarnação. Aprendi nessa existência que somos os únicos responsáveis pela nossa evolução. Como também somos os mesmos a retardarem nosso progresso. A mágoa, a vingança, o ódio não afetarão aqueles que inspirou tais sentimentos, embora isso não signifique que não "sofram" por incitarem-nos, mas farão de vocês sofredores. E por quanto mais tempo hão de prolongar e alimentar a sua parte?
Se são responsáveis pelas feridas, também o são pela cura. Fazer o que podemos com aquilo que recebemos é o suficiente. Lembrem-se de que são fortes. E o amor há de modificar tudo e todos se não esquecerem de si mesmos. Fora da caridade não há salvação, mas ela também é nula se não é aplicada a vocês também. Não precisem provar aos outros, familiares ou não, quem vocês são de verdade. Os que são abençoados com amor não vão exigir nada em troca porque amor como Cristo ensinou não pede reembolso.
Espero ter ajudado de alguma forma. Sou grato pela oportunidade de proporcionar a reflexão que um dia me faltou. E por ser um instrumento Daquele que me enviou.
Que a Deusa siga os abençoando. E, menina, como é bom ver-te outra vez. Siga em frente hoje e sempre! De teu sempre amigo, Leprechaun."






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