"Saudações, amigos e irmãos. Hoje, finalizamos os ciclos de mensagens ditadas por espíritos que atuam na falange dos caboclos, chefiada pela energia do orixá Oxóssi. A fim de concluí-los, eu, atendendo pelo nome Caboclo Hudson, venho trazer uma mensagem sobre o amor.
Na verdade, não falarei sobre minha vida terrestre, mas espiritual. Quando desencarnei há tantos e tantos séculos atrás, ainda antes de Cristo descer à Terra, minha consciência estava relativamente tranquila quanto ao que fiz em minha jornada. Mas existia em mim um grau de insatisfação que pedia por esclarecimento.
O amor que pensei conhecer era, em verdade, aspectos muito limitantes do meu "eu" daquela época. Na Antiguidade oriental quanto na ocidental, a humanidade pouco compreendia que amar a família, os amigos, a autoridade secular significava se submeter cegamente aos seus enseios e, portanto, abdicar-se de sua jornada enquanto indivíduo. O amor era constituído de posse. No Japão, por exemplo, muitas das tribos que residiam naquele território com autoridades diferentes pelas quais respondiam, um marido que amava sua esposa detinha todo controle sobre si: sua identidade, suas posses, seus dotes. E no momento em que a desobedecia, ele tinha a liberdade de puni-la garantida por seu chefe tribal. Por outro lado, uma esposa cujo marido cometia adultério tinha seus direitos reforçados. Ela também poderia puni-lo, guardadas suas devidas proporções. Nos cultos milenares devotados aos ancestrais, a mulher era silenciada.
Na China não era diferente. Nos países árabes também não, apesar de Maomé ter insistido aos seus seguidores que a mulher era igual ao homem (no sentido de par, de complementar), mas, infelizmente, como aconteceu com Cristo antes dele, suas palavras foram distorcidas e o tempo deturpou a riqueza de seu ensinamento espiritual.
Ora, no ocidente, via-se a mesma questão. O amor, na forma de Afrodite, Vênus, Ishtar e Ísis, era atrelado à sensualidade dos corpos. A alma seguia ignorada.
Nas tribos que encarnei, cuja História não as registrou, o amor era menos carnal, mas ainda formoso. E quando os laços que prendiam meu perispírito ao corpo se desfizeram, eu me perguntei: teria amado os meus próximos e inimigos como deveria?
Amante do conhecimento, após o torpor do desencarne e da alegria de estar junto aos amigos e familiares, me deparei com meu mentor. Darei o nome de Rafael. Ele atuava no campo da cura. Falei com ele sobre esta questão do amor.
"Mas o que é amor para você, Hudson?", ele me perguntou.
"Queria responder bem, como quem conhece o assunto, mas não sei dizer. Um amigo um dia me professou o ensinamento que guardo na minha alma: só sei que nada sei."
Rafael, em seus trajes de cor verde e branco, riu.
"Seu amigo ensinou-o muito bem sobre a humildade. Estamos em constante processo de aprendizado."
Ele me levou a uma colônia que priorizava os estudos. Mas não fomos até uma biblioteca. Ao contrário, sentamos na beira dela. Dali, observamos o planeta Terra, azul e verde, brilhando uma aura complexa para descrevê-la aqui.
"Todo ser espiritual que chega a este planeta guarda em si uma ânsia de amar e ser amado. É natural da humanidade ter este sentimento. Contudo, a inclinação moral do homem é que mostrará a direção que esse amor vai ser cultivado. Muitos ainda acham que o amor está nos prazeres do corpo, na posse do outro, confundindo com o desejo de si mesmo que se projeta no parceiro."
"Não entendi", eu falei.
Rafael sorriu a mim com gentileza. E explicou:
"Quando amamos com a alma, queremos que nosso ser amado seja uma pessoa de bem, que não se afunde em seus vícios. Buscamos encorajar suas virtudes e não alimentar suas sombras. A gentileza é a melhor forma de educar, respeitar e amar. No entanto, se me faltam tais ideias, por inatas que sejam a mim, como posso esperar que os outros me deem isso?"
"Quando encarnei entre os Bírios*, procurei respeitar aquelas que tomei como esposa, mas a bem da verdade... poderia ter feito mais."
"Você fez o que pôde com o conhecimento que tinha, Hudson. É por isso que a experiência na carne é tão importante para os espíritos que chegam aqui neste planeta: para que se desenvolva o sentido de amor até o ponto em que amarão segundo os ensinamentos dos discípulos do Grande Espírito que reverenciamos." Ele fez uma pausa e no silêncio que o seguiu, acompanhei seu olhar. Ambos admirávamos a região planetária. "É uma pena que não viveu o suficiente para conhecer o divino mestre que desce a este orbe. Ele levará o consolo para tantos espíritos encarnados. Todavia, em meu íntimo sinto que não serão muitos os que pensarão entendê-lo. No entanto, como falei, a semente que é plantada aqui dentro em nosso peito, amanhã virará uma árvore com belos frutos."
"Mas por que tantos se apegam à matéria para amar o próximo?", eu quis saber.
"É como muitos na Terra ainda entendem o amor. Colocam a responsabilidade em seu par, independentemente de quem vão se relacionar, e se acham no direito de possuí-lo por essa razão. Em suas experiências passadas, você mesmo observou de perto como o amor, na verdade, era confundido com paixão, usado como objeto de magia para remover o lívre-arbítrio do irmão nosso a fim de submetê-lo à vontade alheia. Amor não é propriedade. Mas até quando vão perceber que aquilo que damos é responsabilidade nossa e não dos outros? Na encarnação, o espírito esquece-se de que conhece as leis da afinidade: se estou cultivando o orgulho em mim, meu parceiro será orgulhoso. Se não sou feliz comigo mesmo, o par que espera por mim estará na mesma vibração."
"É preciso cuidar de si mesmo antes", eu pensei em voz alta.
"Sim. Cada um ali é filho de um mesmo Deus, seja como for a maneira que os encarnados O percebem e trabalham sua fé", disse Rafael. "Mas não são poucos os que usam o nome Dele para satisfazer suas vontades primitivas."
"O que quer dizer com isso?"
Meu mentor sorriu a mim e disse, bondosamente:
"Quero dizer que, quando o espírito sai do reino animal e se torna humano, por assim dizer, ele conserva em seu âmago vontades que não mais o pertencem como o ímpeto da cópula desenfreada, a caça, etc. A maior parte da humanidade há muito se livrou disto, não obstante a vaidade e orgulho que as prendem no curso do sofrimento que incontáveis encarnações hão de limpá-la. Mas há os que persistem nisso. Recentemente, removemos do planeta alguns destes nossos irmãos e os transferimos para Plutão. Lá, terão a oportunidade de se melhorarem. Deus não desampara a ninguém, como vê."
Assenti em concordância.
"A posse que está presente em tantas tribos humanas da Terra reflete isso?"
"Vem do sentimento de insegurança e de poder. Se eu não tenho, por exemplo, um livro, você também não terá. Estamos falando de objetos materiais, certo? Mas por que muitos transferem essa visão para seus parceiros? É daí que vêm as leis de casamentos arranjados para perpetuar uma linhagem que, se soubessem que nada disso afeta o espírito, só reforçam ilusões e promovem infelicidades. Quando você força alguém a se casar contigo para que desfrute de inúmeros benefícios na sociedade, você está se enganando ao viver em orgulho, mas provocando a infelicidade de seu parceiro. Deus apoia as uniões, desde que sejam formadas por afeição. Nada que não tenha amor sincero, e olhe só o que vínhamos falando, é digno de sentir, obter e viver. É por isso que a humanidade sofre. E pelo andar da carruagem, ainda sofrerá."
Fiquei refletindo sobre aquele ensinamento por uns instantes. Rafael esperou que fizesse mais umas perguntas, ainda que meu entendimento começasse a se estender sobre aquele assunto tão singelo.
"Mas como pode o homem amar em sua imperfeição sem incorrer à infelicidade?"
"Diga-me você. O que sua experiência entre os nativos o ensinou a este respeito?"
Pensei por longos instantes. Lembrei-me do ancião de minha tribo, com quem tive semelhante conversa. Ele teria me dito que o amor não pode corromper aquele cujo espírito já está maculado pelos sentimentos negativos como o ódio e o rancor, mas aquele que se esforça para chegar ao Regente Uno por meio da docilidade, da candura, da suavidade, este saberá como ser um bom filho, um bom irmão, um bom marido, um bom pai e, acima de tudo, um bom chefe.
"O amor cura", ouvi-me dizer.
"Sim, é verdade. Mas não nos esqueçamos da lei de afinidade. Pode uma alma se curar sozinha?"
Hesitei. Rafael sorriu.
"Meu caro, a cura não é feita em um processo isolado. Se Deus quisesse que vivêssemos longe uns dos outros, por que razão estaríamos aqui e agora? Se vivemos em comunidade, motivo há. E dentre as diversas razões que poderia citar, digo que o amor entre os seus tem mais efeito no processo de cura do que o amor só. Por isso, a família constitui importante papel neste processo. São vários indivíduos doentes que merecem não o nosso julgamento nem nossa raiva, mas nosso amor. É assim que aprendemos a amar. Imagina como deve ser infeliz, por exemplo, o membro familiar que não se contenta com absolutamente nada. Que está sempre insatisfeito com o que possui e deseja mais. Que critica os que não contribuem com suas ambições."
Lembrei que tive um irmão na Terra que agia daquela forma. Quando dei por mim, disse:
"Mas não consegui amá-lo como deveria, não o salvei de sua cupidez."
"Cada um faz a sua parte como pode. Isso é mais importante. Por mais que o amor salva e modifique, não cabe a você ser o salvador. Outra lei aqui, meu amigo: a do livre-arbítrio. Não podemos forçar o outro a caminhar com os nossos pés. Nem devemos obrigá-lo a aceitar nossa ajuda. No entanto, creia quando digo que, no meio daquele sofrimento pelo qual passa seu irmão, a consciência dele o lembrará de que, em meio a um mundo de guerra, você foi o que ofereceu a paz. Imagina o remorso que o atormentará! Por isso, tenha antes piedade daquele que vive de facilidades materiais, do que projeta suas frustrações no próximo. Antes, ame. Como pode, como acha que deve. Quando vemos um irmão que não prejudica o outro na Terra, vibramos e muito! A jornada foi trabalhosa, mas olha o progresso!"
Ele se levantou e eu senti que bebia muito de seu otimismo. Levantei-me, emocionado. Não compreendia tudo, mas entendi bastante.
"Obrigado", falei.
"Agora vamos. É sua missão espalhar essas palavras, ensinando nossos irmãos a se amarem bem antes de amarem seus parceiros. Até porque, meu irmão, o amor como Deus nos ensinou é muito pouco apreendido pelos terrícolas. Mas tenhamos paciência, pois aquele que venceu o mundo nos encoraja a seguir seus passos. Se ele venceu, também podemos vencê-lo."
"Agora vamos. É sua missão espalhar essas palavras, ensinando nossos irmãos a se amarem bem antes de amarem seus parceiros. Até porque, meu irmão, o amor como Deus nos ensinou é muito pouco apreendido pelos terrícolas. Mas tenhamos paciência, pois aquele que venceu o mundo nos encoraja a seguir seus passos. Se ele venceu, também podemos vencê-lo."
Esta é a lição que deixo para vocês, bons e amados irmãos. Que o Grande Espírito possa encorajá-los na constante busca pela reforma íntima, lembrando-os de se amarem mais, aceitarem, e que somente vocês são os responsáveis pelas suas alegrias e tristezas. Há sempre tempo de se melhorarem. Jamais estão sós.
Que assim seja. Tudo passa, tudo é.
Ahô.
Caboclo Hudson."
*nota da médium: os bírios são uma tribo indígena que ainda hoje se encontram na região que conhecemos pelo nome de Austrália.
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