terça-feira, 29 de setembro de 2020

Contos Medievais, Romance V: Margaret e James.

Nota do guia de Ogum: "Estamos hoje concluindo o primeiro dos três ciclos de contos psicografados situados especificamente no largo contexto que a historiografia humana convencionou chamar 'Idade Média'. Este período compreende, ao menos em tese, dez séculos: desde o quinto século contado a partir do desencarne de Mestre Jesus ao décimo-quinto. Isto é, a partir da queda do Império Romano do Ocidente ao ano de 1500. Não estamos aqui para debater tais convenções de temporalidade, mas apenas para situá-los de tal contexto. O propósito dos romances vem para, além do ensinamento que toda psicografia carrega em sua mensagem, mostrar, ilustrar e ensinar a simplicidade do dia-a-dia do passado. Na contemporaneidade vossa, percebemos que os debates, os ensinamentos em torno deste assunto é superficial, limitado e muito marcado pela materialidade que vos cerca. Neste sentido, para os que desejam ser instruídos nos viés da humanidade e espiritualidade, os relatos aqui trazidos são riquíssimos. Nem sempre serão permeados de aventuras ou eventos extraordinários de qualquer natureza. Alguns destes, é verdade, poderão vos entediar. Mas que é a vida humana se não isto? Seja qual for o contexto histórico-social, ela é marcada por dificuldades, decepções, expectativas, felicidades de todo tipo que não são limitados pelo âmbito político, social, religioso da época. A beleza da vida criada pelo nosso Pai está nesta complexidade, na vida "comum" do ser humano, na busca e na conquista do amor desejado, independentemente dos padrões por vós criados. Desmistificando tudo isto abre-vos o pensamento de que o pretérito não se limitava apenas segundo a barbaridade de tais tempos, mas para o único elemento imutável através de todos os séculos: o amor, que a tudo vence, que a tudo supera. Deixo-vos com o espírito de James, que com muita bondade se dispôs a participar desta bela missão que transcorre. Como de costume, tecerei meus comentários conforme necessário. Desde já, meus agradecimentos deixo a vós que viestes nos acompanhar nesta longa tarefa. -George."

"O nome que foi me dado na encarnação sobre a qual vim discorrer a respeito permanece, ainda hoje, o mesmo que utilizo daqui do plano espiritual, muito embora tenha reencarnado duas vezes depois desta experiência na Terra no período considerado medieval. Chamo-me James e nasci em 1450 na Inglaterra. Minha vivência que contarei aqui abarca a guerra civil que manchou as terras inglesas por mais de 30 anos. Aqui, compartilharei como isto me afetou, pois creio que tempos difíceis como aqueles me trouxeram lições valiosíssimas que penso serem extremamente relevantes para vos compartilhar.

Meus pais eram simples comerciantes, daqueles que, apesar do esforço cotidiano para o sustento da casa e um sucesso relativamente crescente, permaneceriam na obscuridade. Um londrino comum com muita pouca probabilidade os teria conhecido, menos ainda um nortenho da cidade de York. De todo modo, garanto-vos que existiram. Era uma luta bastante complicada esta da qual vos falo, afinal, ser comerciante significava tratar com a sorte, lidar com uma competição acirrada pela venda de seu produto, todo um esforço inumano para não ser roubado, e por aí vai. O glamour que toda a gente pinta para a classe comercial, tecendo-a sob o nome de burguês, é bastante supérfluo, para não dizer que tal termo não imputa a verdade medíocre que existe sob ela. O comerciante que vivia em Londres precisava de patrocínio de homens ricos. E quando falo deste tipo de gente não me refiro aos grandes aristocratas, aos nobres em seus castelos, ou até mesmo o rei. Muito pelo contrário. Refiro-me aos "novos" ricos, ao povo que possuía riqueza o suficiente para estudar nas universidades, viajar a outras partes do país ou mesmo tentar a sorte na França. Estes adquiriram ouro a partir das profissões "clássicas", ou liberais: advogados, médicos, "dentistas", tutores, dentre outros. Neste meio, como falei antes, a concorrência era muito forte.

No entanto, minha família estava em melhores condições que outras. Na realidade, meu pai era neto e bisneto de camponeses da região de Yorkshire, nortenhos de sangue de ferro, como podem constatar. Ao que parece seu pai, meu avô, havia se cansado de trabalhar no campo. O que me foi contado foi que ele, cujo nome darei por William, não aceitava sua condição de camponês. Ao contrário de seu próprio pai, John, não era resoluto nem se contentava com a vida humilde. Desejava mais e foi motivado por uma ambição desconhecida que ele correu atrás de uma oportunidade que o tirasse do frio do Norte. Para encurtar a narrativa, meu avô William percorreu as terras de Northumberland, antes de partir para Peterborough e enfim se fixar em Salisbury. Foi neste condado em que ele conheceu minha avó, Mary, cujas ligações eram melhores que alguém de origens camponesas poderia esperar. Eventualmente, mudou-se ainda para Winchester, antes de passar o fim de seus dias em Londres, de fato. Os leitores poderão argumentar, e com razão, que as mobilidades para as pessoas mais desafortunadas, em comparação com os aristocratas etc, eram complicadas. Sim, não nego isso, mas não era nada impossível. E não digo que era uma questão de 'força de vontade', ainda que se meu avô estivesse a contar a história dele, teria usado estas palavras. Mas não me cabe me aprofundar nas memórias que não me pertencem.

Como disse, meu avô passou por uma longa trajetória até que sua descendência criasse raízes em Londres, ou em seus arredores. De seu casamento com a primeira esposa, ele teve cinco filhos: meu pai era o mais velho, e quatro rapazes os acompanharam. Dois deles foram enviados para a Igreja, um pela vocação, e o outro porque meu avô não tinha dote para lhe ceder caso viesse a casar. O mais novo conseguiu, seja por sorte, dedicação ou uma mistura dos dois, o patrono do bispo de Londres e entrou na Universidade de Oxford, de onde obteve diploma de advogado. Do segundo matrimônio, meu avô enriqueceu algo a mais, mas nada que diminuísse suas dívidas. Desposou uma senhora chamada Joanna, que gostava de dizer que tinha o sangue dos velhos Plantagenetas correndo em suas veias. Talvez tivesse sido isso que chamou a atenção de meu avô, mas, como disse papai, o orgulho de ambos não salvou a família de tempos obscuros que dali se seguiu. Contrair dívidas era um assunto asqueroso que, compreensivelmente, não se discutia à mesa do jantar. Contudo, meu pai era o primogênito, portanto, possuía mais direitos que todos os outros na questão da herança familiar. Foi determinado, como se para resolver a questão, que ele tomasse como esposa uma moça chamada Elizabeth, ou Isabel--segundo era chamada por alguns outros--, que tinha relações familiares com esse mesmo bispo que favoreceu meu tio paterno.

Elizabeth, minha mãe, era, na verdade, a sobrinha bastarda deste bispo. Ao que parece, seu pai era casado quando conheceu a mãe dela, minha avó, de quem nada sabíamos a respeito. Ela morrera no parto e, previsivelmente, nenhum registro sobre sua pessoa foi encontrado. Meu avô materno, de toda a maneira, a repudiou, já que ele tinha várias bocas a alimentar de sua união "abençoada e legítima". Mas o bispo era um homem honrável que não deixaria isso passar e se certificou de que Elizabeth fosse bem educada nas artes femininas e tivesse um casamento decente.

Apesar deste arranjo ter satisfeito as duas partes que o planejaram, tanto meu pai quanto a minha mãe se deram bastante bem entre si. Até que ponto houve um amor destes que se lê em histórias do rei Arthur não sei dizer, mas havia afeição e ternura de cada um e isto me inspirou a buscar um relacionamento adequado se possível. 

Bem, até aí vemos que os tempos eram prósperos para minha família. Quando nasci em 1450, porém, já tinha dois irmãos mais velhos, John e William, e uma irmã, Katherine. Em seguida, nasceu outra irmã, Emily. Mas as tensões políticas se agravavam e não tinha como não afetar todo o país e as classes sociais. O comércio sofreria pesadamente com a disputa que a realeza trocava entre si. Permitais que vos explique melhor. Em 1450, governava na Inglaterra um rei da casa de Lancaster chamado Henry. Era o sexto rei de toda a linhagem Plantageneta a ter este nome. Portanto, seria lembrado conforme havia sido coroado: como o soberano Henry VI. Ele havia desposado uma princesa francesa chamada Margaret de Anjou. Mas os ingleses tinham uma tendência, para não usar palavra mais forte, a detestar estrangeiros, principalmente os que viessem do continente.

Explico: Henry VI era o filho do grande leão Henry V. Ambos vinham, naturalmente, da mesma casa. Henry V fora forte, jovem e astucioso. Governara o reino com mãos de ferro. Embora seu caráter fosse questionável, seu carisma não o fora. Não à toa levara metade de nós para dominar a França. Meu pai conta que serviu em seu exército, embora lutasse ao "lado" de seu irmão mais jovem, John, duque de Bedford. Mas esteve presente em Agincourt: esta região havia canalizado os mais poderosos nobres de toda a França (ou do que era a França na época, já que regiões como a Borgonha e a Bretanha, por exemplo, não respondiam à autoridade política daquele reino) para expulsar os ingleses de suas terras. Aqueles foram tempos que preparavam para a chegada de Joana d'Arc, cuja encarnação marcaria o reinado deste Henry VI. Mas, como contava, Agincourt estava separada entre franceses e ingleses, e o número belicoso pendia favoravelmente para os primeiros. E, no entanto, foram os últimos que obtiveram legendária vitória. A maioria, é claro, gritava a todos os ventos que Deus favorecera sua causa. São Jorge é inglês, afirmavam! O santo da monarquia inglesa defendia e levava a cabo todos à frente da batalha que humilhou e esmagou os franceses. A vitória seria cantada nos próximos séculos.

Entretanto, Henry VI, o filho que o sucedeu ainda bebê, provaria ser, para a grande decepção das pessoas nascidas inglesas, fraco e débil. Ele não era como o pai e, pasmem, buscou a paz com a França. Os comerciantes se enraiveceram ainda mais quando souberam que o comércio francês ganhou mais vantagens nas questões de exportação que nós todos. Assim, seu destino era selado.

A insatisfação com sua incapacidade de governar refletia no nosso cotidiano. Produtos franceses eram mais baratos e, portanto, aumentavam sua demanda. As tapeçarias inglesas não satisfaziam mais os clientes, e os perfumes que poucos buscavam eram, é claro, trazidas do exterior. Os tecidos para o vestuário, tanto feminino quanto masculino, vinham dos Estados Papais e competiam acirradamente com os franceses. A moda da segunda metade do século XV era copiada da alta nobreza e, ainda que a rainha Margaret fosse odiada pela maioria das pessoas, as mulheres desejavam copiar seus maneirismos e a forma com a qual seus cabelos prendiam-se ao alto era visto em todas as donzelas. 

Naqueles tempos, embora a distância entre nobres e pobres fosse muito maior, não era impossível obter uma visão de tais pessoas. Conforme as tensões entre a aristocracia se aprofundavam, a procura pelo apoio popular de ambas as partes forçavam-nos a serem vistos publicamente. Se me perguntasse, só vi o rei uma única vez e não foi na posição mais gloriosa que alguém que ocupasse tal cargo devesse estar. Segundo o ditado popular, quanto mais alto se sobe, maior será a queda. A roda da fortuna girava para todos, era sabido.

Quando contei quinze verões, era um rapaz que preocupava-se em cuidar da família e dos negócios. Alguns de meus irmãos haviam sucumbido para as pestilências que os verões costumavam trazer para aqueles que não possuíam residências no interior para se refugiar. Desse modo, meu pai se preocupava, e com razão, para que eu não morresse antes do tempo, temendo que ele mesmo pudesse ser levado por Deus sem que me ditasse as ordens do que deveria ser feito. No entanto, estamos falando aqui de 1465. O pior, a princípio, já havia passado. Mas Henry VI não governava mais: em 1461,fora destronado por um moçoilo chamado Edward, de uma casa de York. Ele foi coroado no mesmo ano como rei Edward IV. Recordo que, à época, as ruas estavam enfeitadas, havia bastante celebração. Papai me falou:

"Ah, eis a vantagem de não ser rico como essas pessoas, meu filho. Em um dia, estão seguros no seu trono, mas no outro... a providência divina os encarrega a despacharem de lá. Eu me pergunto se isto seria evitado se o outro soubesse reinar como seu pai, mas falar disso é traição." Ele, que havia lutado pelo rei Lancaster, recebera perdão do novo rei depois de pagar uma alta multa. 

No presente ano, pelo casamento polêmico do rei Edward como uma viúva chamada Elizabeth, ou Isabella, de família Wideville, os negócios pendiam favoravelmente para a casa de Borgonha. Papai se apressou em tentar aliar seus próprios acordos com aqueles que deixaram Flandres para fixarem residência em Londres. Como corriam boatos de que o rei favorecia o duque de Borgonha como pretendente à mão de sua irmã, era compreensível que, mais uma vez, a balança econômica pendesse muito mais positivamente para os borgonheses que os ingleses. No entanto, isto era melhor opção a ser vendido pelos franceses, ao que parecia.

Em meio a este turbilhão de eventos, papai se certificou de que eu aprendesse a ler e escrever. Vivíamos uma boa época e, para nossa surpresa, o regime de York nos favorecia relativamente bem. Não éramos exatamente prósperos, contudo, se mamãe e minhas irmãs e os irmãos que não foram atingidos pela pestilência vestiam-se bem e em tecidos importados... era porque os acordos comerciais provavam ser vantajosos. Começávamos a ter esperança de subir de vida. Nossa renda aumentava, éramos procurados pelos ricos londrinos que desejavam comprar as tapeçarias que obtínhamos de Sébastien Dijon, um vendedor borgonhês de Flandres que beneficiava-se tanto quanto nós destes acordos. Tudo encaminhava-se bem.

Um dos meus irmãos, por conta disso, foi viver com nosso tio, o advogado que mencionei no início da história, e graças ao patrocínio deste, obteve uma bolsa de estudos na mesma universidade que ele havia estudado. Em alguns anos, sairia outro advogado competente da família. No entanto, mamãe uma vez disse:

--Não vivemos em tempos estáveis para celebrar vitórias. Aconselharia cautela. Nada disso nos pertence.

--Como não nos pertence, mulher?--exclamou meu pai, chocado com o que ouvira--Não batalhamos duro todos esses anos para que possa copiar os penteados da rainha e vestir-se como uma boa senhora?

Mas mamãe se manteve impassível.

--O que eu digo é que não devemos nos apegar a isso. Veja só, um dia obedecíamos ao rei Henry e no outro estamos pagando multa ao outro rei, que nunca vi na vida, chamado Edward.

--Não fale isso fora de casa--disse papai, nervoso--Sabe que isto não é bom para os negócios. E, além do mais, é traição.

--Que seja, é apenas a verdade.

E, antes que pudéssemos falar algo, ela se retirou. Naquele dia, estava eu com papai somente na sala de jantar. Morávamos em uma casa mobiliada, maior do que nossas pretensões. Isto me preocupava de alguma forma.

--Mas ela tem razão, pai--falei, depois de momentos passados em quieta contemplação--Estão dizendo que um rebelde do norte foi apoiado pelo conde de Warwick. E todos sabemos que foi ele quem pôs o rei no trono que agora senta.

Meu pai levantou o olhar para me encarar. Para os padrões daqueles dias, era velho. Quase cinquenta anos ele contava, embora se sentisse como um jovem de vinte anos a menos. Seus cabelos, outrora negros como a noite, estavam aparados e quase branqueavam-se como a neve, salvo alguns fios que teimosamente permaneciam intactos. Em seu rosto, cicatrizes de batalha eram detectadas próximo ao  nariz, irremediavelmente torto, e uma barba extensa e escura cobria outras próximas do maxilar. Em seus olhos, marcados pelo tempo e as rugas de expressão que indicavam vívida juventude, o azul dos mares me fitava com seriedade. 

Ele se ajeitou na cadeira, os cadernos de contabilidade abertos em bagunça que somente ele entendia. Coçou a barba e, reclinando-se confortavelmente, depois de ter ajeitado o colarinho que estava na moda, disse:

--É verdade o que disse e me admira sua prudência em pensar como sua mãe. Mas tais pensamentos não podem ser ditos em voz alta assim. De todo modo, somos agora comerciantes e não guerreiros. Já temos certa independência econômica, embora jamais seja comparável ao próprio Sébastien, ou outros que atuam diretamente na corte de Windsor. O que devemos fazer, e sabiamente, é conduzir-nos de acordo com a maré--e, falando em voz mais baixa, acrescentou--Há homens de Warwick e do rei lá fora. Devemos tratá-los com diplomacia. E há de convir que os tempos para tratar de contratos são melhores agora do que antes. Deixemos a tradição de lado: que bem nos trouxe a francesada que a rainha trouxe cá? Perdemos Normandia, Anjou e tantas outras cidades que poderíamos ter exercido algum império por causa dela.

Como eu não entendia de política, apenas aquiesci. Mas senti verdade naquelas palavras, e ainda lembrava de quando mais jovem meu pai ter agradecido por eu contar menos de doze anos e não ser convocado para a batalha que dizimou tantas vidas e provocou a morte do pai do rei atual. Decidi que não mais olharia para o passado.

Na manhã seguinte, fui enviado para Greenwich para negociar com outro mercador borgonhês. Levava comigo prata e um bocado de ouro, já que o tecido importado era de valor inestimável e eu precisava me atentar principalmente para não ser roubado. Embora as estimativas de assaltos houvessem diminuído consideravelmente, já que a justiça do rei reforçou as penalidades e muitos dos detratores eram enforcados, quando não expostos à praça pública onde sofriam as mais diversas humilhações--algumas delas era até engraçada de comentar, me recordo de um jovem de uns dezesseis anos ter jogado três tomates e duas maçãs na cabeça de um infeliz ladrão--era preciso ter cautela. Lembro de ter encontrado um amigo meu chamado Robert neste dia.

--James, meu caro! É muito bom revê-lo. Como tem estado?

--Bem, agradeço. E você? Já se casou?--indaguei.

Robert era um sujeito de estatura média, meio rechonchudo e de cabelos escuros e pele rosada. Usava uma capa simples preta e no resto, tecido inglês barato no blusão à moda do rei e de calções verdes escuros. Era apenas mais um destes rapazes que, se passasse por ele, seria prontamente esquecido na esquina seguinte.

--Nada. Minha mãe estava me arranjando uma bela fidalga, favorecida pela Igreja que costumamos frequentar, aquela abadia, sabe?--disse ele, referindo-se à Abadia de Westminster--Mas que dote ela me traria? Não é para isso que serve os casamentos, meu caro? Para enriquecer?

--A minha costuma dizer que o casamento é sagrado aos olhos de Deus e da Igreja, mas, na prática, sabemos que há de tudo em uniões arranjadas menos o que se diz sagrado.

Ele riu.

--É verdade. Escute, estou indo à taverna resolver umas questões. Quer me acompanhar?

--À taverna?--indaguei, entre surpreso e divertido--Mas de manhã? A quem acha que engana, Robert?

Novamente, ele riu. Na verdade, se bem lembro, gargalhou.

--Digo a verdade. Lá não serve só para beber e outras coisas mais, mas para tratar de negócios.

--E que negócios você teria para resolver na obscuridade de uma taverna?

Robert colocou a mão ao redor dos meus ombros e, como eu era mais alto que ele, forçou-me a inclinar a cabeça para ouvi-lo sussurrar:

--Warwick está planejando ir à França. Quem o acompanhar, terá várias vantagens decerto a desfrutar.

Arregalei os olhos diante do que ouvi.

--Mas que...

--Shhh--ele me interrompeu--Vamos lá, meu amigo. Me faltam oportunidades, não sou como você. Não venho de uma família de comerciantes. Estou falido.

--Eu poderia ajudá-lo--falei, compadecido--Escute-me, Robert. Não entre nesta empreitada maluca, sabe que o conde não se importa com homens como eu e você. As chances de você terminar preso, ou, pior, morto, são grandes. Esse daí se livrará das acusações, certamente, mas não você. Escute o que digo.

Mas Robert estava preso em ilusões que nem mesmo os bons espíritos conseguiriam dissuadir. Por isso, recebi a seguinte réplica:

--Não, não é nada disso. Warwick tem razão em estar descontente, embora pouco me importe seus motivos para tal. Mas as oportunidades na França são prósperas, meu amigo! Todo homem que o acompanhar à França se beneficiará disto. Tenho certeza como nunca tive na vida.

Nada falei e, vendo meu desânimo, Robert sorriu-me alegre:

--Vamos lá, que mal há de lutar um pouco, eh? Serei feito mesmo cavalheiro.

Me perguntei se acaso estivesse na posição dele, teria me vendido tão baixo para um homem que, embora nobre fosse, nobreza faltava em suas ações. Mas nada mais falei do assunto.

--Se é assim que pensa, nada mais direi sobre isso. Preciso ir agora--falei, como se inspirado por força sobrenatural a partir logo para o destino que me aguardava--Se puder, escreva-me uma carta quando estiver lá.

Robert riu.

--Não sei escrever ou ler, para que me serviriam tais habilidades? Não somos da nobreza, meu caro amigo, e portanto desses troços não necessitamos. Mas enviarei algo a você por me ter sido tão bom companheiro em todos estes anos.

--Que Deus o proteja--roguei, antes de seguirmos caminhos diferentes para nunca mais nos vermos. Afinal, Robert morreria sem sequer ter colocado os pés em solo francês.

*                                                                                       *                                                                        *

Embora desajeitado, não era um rapaz tolo. Ao contrário, observava tudo e todos. Posso admitir sem vergonha que era desconfiado, mas como haveria de ser o contrário? Quando completei vinte anos, os tempos eram outros e a Inglaterra estava prestes a afundar-se em outra guerra. Irmão lutaria contra irmão, primo contra primo, pai contra filho... Vidas inocentes se perderiam para que as ambições de outrem fossem alimentadas.

Apesar da escuridão que pairava sobre a ilha que um dia recebera o nome de Avalon, os negócios encaminhavam-se bem. Meu pai, todavia, adoecia e minha mãe também, indícios de que não sobreviveriam por muito tempo. O cenário doméstico não parecia positivo. Minhas duas irmãs estavam casadas, como também outros irmãos. E, no entanto, eu permanecia solteiro.

--Rogo para que tenha bom senso e despose uma moça de boa condição--instigou-me o pai naquele solstício de inverno--E que seja rica, pelo amor de Deus.

Não passava pela minha mente o entendimento de seu apego material, ainda que precisássemos sobreviver. Havíamos estagnado na escala social e isso o preocupava. Nosso principal fiador, o borgonhês Sébastien Dijon, havia morrido e outro contato de mesmo lugar desaparecera. Não sabíamos, mas tudo isso estava ligado com a política. Afinal, vivíamos em Londres, a capital do reino. Deveria esperar diferente?

Mas concordei que era hora de tomar uma esposa e formar minha família, ainda que, em meu íntimo, preferisse a vida de solteiro. Afinal, me preocupava as bocas que teria de alimentar, as vidas a sustentar, quando aqueles eram tempos complicados, para não dizer instáveis. 

Vendo-me através da alma e percebendo minhas aflições, assim disse meu pai:

--É preciso que nossa família prossiga, meu filho. Não se esquece de seu dever conosco. Sei que a instabilidade nos cerca, mas, é como dizem por aí, mar calmo não faz bom marinheiro.

Sorri diante daquelas palavras de sabedoria. Como se inspirado por elas, juntei-me à mãe, que tinha uma conexão admirável com pessoas de Londres de quase todas as posições sociais, a fim de buscar uma noiva que nos servisse bem. Isto é, que nos trouxesse riquezas e fosse fértil, afinal, tal era o destino das mulheres daqueles dias.

--Conheço algumas moças que seria interessante desposar--contemplou minha mãe, cujos cabelos dourados escondiam-se sob o capelo em formato de cone e cujo vestido, embora simples no primeiro olhar, seguia em detalhes a moda do final daquele século--Uma delas, embora hierarquicamente superior, lhe traria prestígio e riqueza sociais. No entanto...--ela parou a costura para me fitar com aquele olhar tranquilo que também refletia preocupação--...serei sincera e expressarei o que penso disso tudo, meu filho. É verdade que não somos ricos nem atingimos o grau de reconhecimento social que seu pai tanto batalhou e desejou para si e nós todos. Mas veja, gostaria que muito dos arranjos que tracei para seus irmãos fosse motivado pelo amor do que outra coisa. Admito que tenho a consciência pesada por conta disso.

Me surpreendi com aquela fala, pois não esperava aquilo tudo.

--Senhora mãe, o que diz?

Como se estivesse cansada do mundo, ela me ofereceu a mão e, tomando-a, disse com um sorriso triste:

--Que muitas das vezes somos também os responsáveis pelas misérias de outros. Estes dias me chegou uma carta de sua irmã, ela está infeliz no casamento dela. Decerto me dirá que fiz o melhor para essa família, mas terei feito, de fato? Quando dizemos que fazemos o bem pelo outro, ao tomar uma decisão por esse outro, será que não estaríamos fazendo por nós mesmos? Queria que ela viesse para cá, mas seu pai, infelizmente, não permite. Como chefe da família, devo respeito às decisões que tomar, por mais que discorde de algumas delas. Mas seu destino, meu filho, permanece em branco. Se deseja prestígio, riqueza, e tudo aquilo que o material pode proporcioná-lo... que seja, desde que se recorde de que deva tratar a dama em questão com educação e respeito.

Aquele conselho muito me fez pensar e agradeci por ele. Saber do destino de Emily me chocou, e eu me perguntei até que ponto a família foi sacrificada por uma ambição do pai. Mas eu me resignei a cumprir meu dever em vez de fazer questionamentos que só fariam nascer mágoas. Por isso, naquela mesma semana, fui em uma destas festividades que celebravam os santos padroeiros. Neste caso, foi o dia 23 de abril, dia de São Jorge.

E lá estava ela! Sabem, leitores, por muitos anos costumei brincar com ela e nossos amigos de que São Jorge era um excelente cupido. Afinal, foi ele quem nos (re)uniu. Pois bem, retomando à nossa história, toda a Londres se preparava para as comemorações devotadas à São Jorge, unindo e atraindo os londrinos de todas as camadas sociais. Havia comidas preparadas para honrar o santo, a carne de vaca estava em evidência, lembro-me disto. Músicas altas ecoavam nas mais diversas partes da cidade, acompanhando danças típicas. Os mercados, principalmente, estavam lotados. Via-se damas de companhias, donzelas bem nascidas e vestidas, caminhando entre as moças da noite, jovens mulheres esposas de comerciantes entre outros. 

O céu estava azul neste dia atípico, com o sol brilhando alto. Ainda lembro do suor pingando na testa, esperando que, vestido como o rei Edward, atraísse o olhar de rapariga bem apessoada. Cercado de dois amigos e meu irmão advogado, John, partimos para aproveitar as festividades. E enquanto passávamos por uma feira em Greenwich, meu olhar recaiu sobre uma moça de cabelos tão louros que pareciam prateados. Estavam soltos, embora sobre a cabeça estivesse um par de tranças entrelaçadas uma nas outras. Em seu corpo recaía um vestido laranja de longas mangas com linhas em azul e um decote que deixava levemente à mostra o colo alvo, cujo tecido me parecia mais italiano que francês. Seu rosto era oval e suas feições, delicadas. Notei que seus olhos eram azuis, suas bochechas rosadas, o nariz longo e fino, quase aristocrático, e os lábios cheios estavam pintados de vermelho.

Devo ter sido bastante indiscreto na minha admiração, pois ela percebeu que a fitava e, acompanhada de duas moças de igual vestimenta, falou algo entre risinhos para elas. Quando John retornou e tomou ciência do que se passava, ele também riu e disse:

--Por que não vai falar com ela?

--Ela está acompanhada--repliquei cortesmente.

--Você está corando--desdenhou John, rindo--Vamos lá, meu camarada. Você precisa de uma noiva, esqueceu? E ela me parece ser rica, além de bela.

Revirei os olhos, impaciente para as questões que ele ressaltou, embora, na realidade, mais incomodado por ouvir que ele ressaltava as qualidades que eu também notei naquela moça. John era mais baixo que eu, mas falava com desenvoltura e era agradável aos olhos. Seus cabelos eram claros, quase como da cor de palha, tinha um nariz longo e os mesmos olhos de nossa mãe. Vestia-se bem e havia se acostumado com a riqueza de nosso tio. Segundo ele, iria à corte na próxima oportunidade. 

Embora bem sucedido e casado, John não permitia que tal status o impedisse de se relacionar com outras mulheres. Gostava dele, mas reprovava sua infidelidade, ainda que de nada servisse aconselhá-lo contra tal prática. A verdade é que ele havia se enfurecido quando nossos pais escolheram uma moça como sua esposa sem seu consentimento, e isso o deixou revoltado. Mas ninguém realmente é senhor de seu próprio destino, portanto, todo cuidado é pouco. Não que ele se importasse realmente com isso.

--Devemos mesmo procurar parceiras com base no dote?--eu me ouvi indagar, arrancando mais risadas de John. Mas antes que recebesse uma resposta que era provavelmente mal educada, a dama em questão veio a nós. 

--Bom dia, meus senhores--ela cumprimentou com uma doçura olhar e uma ternura na voz que de antemão me deixaram de joelhos bambos.--Espero não estar atrapalhando.

--De maneira alguma--John respondeu por mim, e, galanteador como sempre, se dirigiu às damas que a acompanhavam--Senhoras, por que não me mostram mais dos eventos que hoje enfeitam a cidade? É muito raro vir à capital esses dias...

E não era de se surpreender, realmente, que elas o acompanhassem. Assim, ficamos à sós, no que era possível.

--Como devo me dirigir à senhora?--falei, esforçando-me para não soar patético.

--Pelo meu nome--ela respondeu, sorrindo--Sou Margaret Durham.

Eu a cumprimentei adequadamente, levando a mão oferecida aos meus lábios. Sorri quando nossos olhos se conectaram.

--E eu sou James. James Smith.

--Muito prazer em conhecê-lo, senhor Smith. É daqui de Londres?

--Sim, sou nascido e criado londrino. Na verdade, sou comerciante e herdarei os negócios de meu pai quando aprouver a Deus.

Margaret me ouvia com atenção, e isso me deixou desconcertado.

--Oh, sim. Compreendo. Sou uma das damas de companhia da duquesa de Norfolk, mas estou livre de minhas tarefas pelo dia, por isso vim cá.

--Ah--eu exclamei, surpreso--a senhora é nobre, então?

--Não me colocaria nesta palavrinha--disse-me ela, divertida--Foi uma dureza entrar para seu séquito.

--Imagino que sair dele não esteja nos seus planos.

Ela riu.

--Que ousado é o senhor por fazer tal presunção. Devo dizer que gosto do que faço, poderia ser pior.

--E o que seria pior do que servir a uma senhora nobre? Digo...--eu me xinguei mentalmente pela falta de tato, mas Margaret pareceu achar engraçado.

--Não se justifique, bom homem, entendi o que quis dizer. Bem, casar-me com um qualquer, ser forçada a agir contra minha consciência. Gosto muito do que faço, a duquesa é uma senhora de idade, mas as histórias de vida são impressionantes--e com um ar de divertimento, ela acrescentou em voz baixa--Seu terceiro esposo é muito mais jovem do que ela.

Arqueei as sobrancelhas diante disto.

--Céus!--e então ri pela imagem que se formou em minha mente, mas mais por me divertir às custas de tola fofoca.

Margaret sorriu.

--Sim, e até hoje agarra-se ao título de seu primeiro marido, se não me falha a memória. Vai lá entender... Mas é uma pessoa fascinante de se conviver. 

--Fascinante? Não seria arrogante?

--O senhor é muito soberbo em fazer este julgamento--e, convidando-me a acompanhá-la pelo parque Hyde, disse enquanto entrelaçava seu braço no meu--Os títulos são apenas isto, títulos. Não devemos julgar os que possuem por isto. Sei que por trás disto tudo há riquezas, posses que fazem de um ser humano o mais insolente de seu ranque, mas garanto que não é o caso da duquesa.

--E o que poderia me contar a seu respeito que me fizesse mudar de opinião?--quis saber, genuinamente curioso com tudo aquilo.

--Ela é piedosa e caridosa, faz suas doações regularmente aos mais necessitados e não se gaba disto. Segue todos os preceitos da Igreja, é religiosa. A conduta moral de todos os que da sua casa fazem parte deve seguir seu exemplo. Ela espera que mesmo o criado esteja presente nas missas diárias que são realizadas na paróquia de sua jurisdição. E também é culta, lê bastante, embora goste que leiam os livros para ela. E fala do passado com muita propriedade. É, afinal, a neta do lendário duque de Lancaster, John de Gaunt. 

Encarei-a com perplexidade.

--Ela é?

Margaret aquiesceu e prosseguiu:

--Sim. John de Gaunt foi também filho do rei Edward III, aquele que renovou o ideal de cavalaria. Certamente já ouviu falar dele--ela me lançou um olhar curioso.

Enrubesci, mas protestei:

--É claro que já, senhora. Sou um comerciante, e não um camponês iletrado, embora mesmo esse saiba quem foi grandioso rei.

--E ainda que não soubesse, não o julgaria. É apenas curioso, acho que é porque convivo demais com nobilíssima senhora.

Por um tempo nada falamos, e o silêncio que entre nós se estabeleceu era bastante confortável. Por vezes, capturava um olhar lançado ao meu semblante, e eu me perguntava o que se passava em sua mente. Caminhávamos tranquilamente por entre as pessoas, fossem nobres ou não, que celebravam aquele dia.

--O senhor dança?--ela perguntou quando vimos músicos populares se ajuntarem para a dança.

Novamente, corei. O leitor pensará, e com razão, que era mui desajustado no tratamento com as donzelas. Mas, em minha defesa, devo recordar-vos de que passei pouco tempo cortejando qualquer uma delas.

--Lamento desapontá-la, senhora Margaret, mas não possuo esta habilidade.

Em vez de decepcioná-la, como esperava, provoquei nela outro riso.

--Não seja por isso. Aprenderá agora mesmo.

Quando dei por mim, estávamos no meio de pessoas que nunca conheci na vida, dançando. Foi o momento mais leve, se não o mais feliz, que compartilhamos naquele dia. Ainda que fosse longe de mim o mais gracioso dos homens, o sorriso nos lábios de mais bela dama me inspirava a tentar sê-lo. De imediato, senti algo estranho quando aquela música terminou. Era como se soubesse que ninguém mais teria posse de meu coração que não ela. E, no entanto, a vida colocaria alguns obstáculos antes de nos associarmos de uma vez por todas.

*                                                                                    *                                                                         *

Nós passamos a nos encontrar nas datas comemorativas de santos, e, no entanto, eram encontros quase sempre limitantes e que dependiam da boa vontade de tantos outros a permanecer em Londres. Em outras palavras, como Margaret era uma senhora cujas tarefas a sujeitavam à autoridade da duquesa viúva de Norfolk, nem sempre obtinha dispensa de seus serviços. Mas escrevíamos cartas quando podíamos, e nem mesmo o regresso do rei lancastriano para que, em seguida, fosse deposto novamente (e morto, coitado), impediram nossas comunicações.

O ano de 1471 passou-se intranquilo nestes aspectos, mas quando o rei Edward enfim se aquietou, a estabilidade veio e o comércio inglês voltou a ser favorecido. No ano seguinte, porém, vieram aquelas dificuldades que testam a nós todos. Meu pai desencarnara no inverno, e minha mãe o acompanhara não muito tempo mais tarde, na primavera. Herdei grandes dívidas e confesso que quase cedi espaço para o desespero. Meu irmão, para piorar minha situação, achava que deveria ser ele o herdeiro dos negócios da família já que possui condições melhores para resolver tais questões.

Senti-me um tolo, admito. A inércia de quem é bombardeado com tantas recepções negativas que a inclinação natural é afogar-se em bebida ou qualquer outro tipo de vício. Talvez se não fosse pela intercessão de Katherine, nossa irmã, tudo teria ido bueiro abaixo.

Katherine, que era a senhora Turner por casamento, fazia parte de família próspera também de comerciantes. Adianto que terminará seus dias na França, em particular na Borgonha, onde o esposo lucrou bastante na região de Flandres. Bem, ela certamente tinha mais perspectiva que eu para os negócios. Mas mais que isso foi fiel cristã em seus ensinamentos. Em uma de suas visitas, conforme conversávamos sobre a vida, disse-me ela:

--O abatimento não deve ser duradouro, irmão, não permita isso. 

--É fácil falar--resmunguei.

--Não, não é, porque minha vida nunca me pertenceu e nem isso me impediu de construir um belo lar. William tem seus defeitos, mas jamais me tratou mal ou esqueceu-se de seus deveres para comigo. A confiança mútua permitiu que até mesmo o ajudasse nos negócios. O orgulho, James, corrói a alma. Por isso o padre sempre ensina-nos contra isso.

--Que orgulho? Não possuo nenhum--eu teimei, em minha limitação.

Ela riu.

--Claro que possui. Recusa minha ajuda e fica a reclamar, permitindo que John jogue os tentáculos na herança que é sua por direito. A capacidade de transformar isso tudo está em suas mãos. Deus nos deu o direito de escolha, de optarmos por qual lugar semearemos o que já habita em nosso coração. Mas Ele é justo, e colheremos segundo o que foi plantado. A roda da fortuna é isto. Não é uma superstição boba.

Fechei os olhos e procurei tirar qualquer inspiração daquele ensinamento. Confessei que me sentia perdido, que não sabia qual direção seguir, que não estava preparado. Mas Katherine tomou minhas mãos nas dela e disse:

--É claro que está. Ou o pai o teria deserdado faz tempo. Pensa com clareza no que quer, e depois trate de transfigurá-la em prática. Seu coração é bom, não permita que os outros o corrompam e o empurrem para as vicissitudes da vida. Se não tem fé em você, por que rezará por Deus?

Naquele mesmo instante, fiz o que me foi sugerido. Mas a primeira coisa que fiz foi escrever uma carta à nobre senhora. 

"Minha cara donzela, 

peço-lhe que me perdoe por tardar em enviar-lhe resposta e por causar desapontamento em seu coração. Mas não tem sido fácil para mim conduzir os negócios desde a partida de meus pais. A responsabilidade, admito, pesa em meus ombros e me pede que use sabiamente a razão antes de me comprometer com a senhora. Reconhecer isto fez-me buscar a bebida por momentos ilúcidos e que poderia ter colocado tudo a perder se Deus não colocasse um anjo na forma de minha irmã querida Katherine.

Não é justo pedir da senhora nada mais que perdão, mas professo nestas palavras, tão sem jeito quanto os dias que passamos juntos nas caminhadas pelo parque Hyde quando Londres festejava São Jorge, Santa Maria e tantos outros incontáveis santos, ser seu defensor mais sincero. Que permita que eu seja seu Lancelot, e te provenha um mundo mais seguro. Deveria, é verdade, ter me expressado quando a vi no mercado da última vez, mas fui covarde. 

Em minhas afeições permanecerá, independentemente do que me responderá.

Sempre seu, 

James."

Aguardei. Mas não parado. Voltei a me movimentar, frequentar as missas, a me confessar. Retornei contatos, fiz o que foi possível para lidar com os problemas de frente. Amadureci, afinal, mesmo quando a solidão batia à porta. E um dia soube por meu irmão, e às vezes rival, que Margaret havia se casado com um aristocrata do campo. 

--Se não ela, quem mais?--respondi friamente ante ao deboche que era tão natural a John.

Foi um golpe do destino, e eu me perguntava se um dia voltaria a vê-la. Paradoxalmente, foi quando as dívidas começaram a ser saldadas. Comecei a colher frutos do meu trabalho e isso me deixava bem. Passei a lidar com compradores de fora de Londres. No final da década de 70, não havia mais crise. Tudo estava bem. Confesso que desposei uma dama chamada Mary Bowling, de origem flamenga. Foi uma união estável que precisava e que enfim derrubou as pretensões de John, principalmente quando Mary engravidou em 1483 depois de três abortos.

Mas as dificuldades outra vez bateram à porta quando enviuvei e perdi a única criança que, não somente herdaria as pequenas propriedades que comecei a adquirir, me ensinaria a ser pai. Afinal, não havia mais reminiscentes da família que pudesse ter contato. Emily falecera também de complicações do parto dois anos antes, e Katherine estava com sua família em Flandres. John permanecia o único irmão que, ao meu lado, havia sobrevivido às pestilências e guerras civis. Havia me apoiado tanto quanto tentara me derrubar, em uma relação inexplicável de rivalidade entre irmãos. 

(Nota de Ogum: esta rivalidade entre irmãos já foi explicada no conto anterior).

Afinal, que devia eu fazer? Mas em 1483 estava em Northampton resolvendo questões de tratados comerciais quando chegou aos nossos ouvidos que Edward IV havia morrido. Seu filho o sucederia como Edward V, mas aparentemente quem reinava agora era seu irmão, Richard III.

--Que diabos está acontecendo com nossa Inglaterra?--John White, cliente que passara a ser amigo, me recebeu em seus ricos aposentos e me oferecera estadia no dia que soubemos disto. Agradeci pela gentileza, já que eram dias frios e, como se pode ver, complicados--Nenhum rei passa sua coroa tranquilamente desde o dia em que o leão suspirou e foi aos Céus.

Bebericava do vinho borgonhês e petiscava do queijo quando o respondi.

--Estamos colhendo os frutos do passado, acho. Deus deve estar nos castigando pelo que foi feito à donzela.

--Refere-se à Joana d'Arc?--indagou o velho homem--Mas ela é francesa, e os franceses que se mordam! 

--Mas não falavam que o rei Henry era cruel? Tirânico e déspota, amante da violência?

--Isto tudo é propaganda yorkista--retrucou White--Nunca nem foram competentes, sequer capazes, de fazer o que Henry V fez. Mas que temos nós a ver com isso, não é mesmo? Contanto que não nos carreguem para junto deles.

--Acha que outra guerra virá?--indaguei, temeroso.

White bufou.

--Sem dúvida, meu amigo. E vamos rezar para que a lei não nos envolva nisso.

Mas ela envolveu. Embora vivesse uma atípica prosperidade e estabilidade nos negócios, eu não era um nobre, cavalheiro ou rico o suficiente para dispor de homens que lutassem em meu nome quando o rei Richard convocou, anos mais tarde, para batalhar contra um tal de Henry Tudor. Supostamente, era um galês bastardo que vinha de longe, a mando da França, roubar uma coroa que não lhe pertencia. Mas Richard assegurou de que não haveria problemas contanto o derrotássemos. E isso era certo, afinal, Deus favoreceria sua causa.

Quem quer que fosse esse Tudor, porém, não me parecia que era como Richard III o pintava. Assim como eu, muitos dos que eram forçados pela lei a lutar por ele, não confiavam inteiramente em alguém que era responsável por um sumiço inexplicável, e por que não assassinato, dos príncipes da Torre. Filhos do soberano anterior, Edward IV, foram postos na Torre de Londres, de onde foram usurpados de seu título e até mesmo direitos consanguíneos, já que foram nomeados bastardos pelo tio que jurara os proteger.

Independentemente do que pensasse de qualquer um destes dois homens que disputavam por uma coroa, lá estava eu, convocado para ir à guerra e pronto para derrotar um bocado de francês. Havia me acostumado com a ideia de morrer em Bosworth, e aceitei de bom grado que a linhagem terminaria comigo. John, afinal, desencarnara alguns meses antes sem deixar filhos... legítimos.

Que mais pode um homem fazer? Mas havia muito a se fazer, e a vida era como a roda da fortuna: quando girava alto, temia-se sua eventual queda. E quando parava baixo, nunca permanecia realmente por lá.

*                                                                                      *                                                                        *

Admito que é risível constatar que eu sobrevivi à guerra dos primos, como se convencionou chamá-la; também nenhuma pestilência me tirou a vida, nem a melancolia voltou para me assombrar. O novo rei Henry provou ser mais clemente que seus antecessores e, graças a Deus, fui perdoado pela traição cometida. Não me perguntem muito bem por que, nem eu entendi muito bem a respeito. Imagino que seja porque ele anunciou que seu reinado tenha dado início antes da batalha, o que fazia daqueles que lutaram por Richard traidores. Implorei pela minha causa, expliquei o que havia ser explicado e tudo o que tive de fazer foi pagar uma multa considerável. Não obstante, fui um sobrevivente.

Em fins de 1485, contava 35 anos. Isso é muito, caro leitor, e eu sentia o peso da vida sobre os ombros. Mas é justamente nesses instantes que a vida, tal qual a roda da fortuna, dá seus giros. E me colocou, no dia que recebi o perdão do rei, de frente com Margaret Durham, a donzela que capturou meu coração e por quem jurei amor eterno desde os meus 22 anos. Fazia tanto tempo e a sensação era estranha, como se tivesse vivido duas vidas. Mas, quando partia da residência real, lá estava ela em seu vestido dourado.

--James!--e, como se o tempo sequer a houvesse envelhecido, veio correndo em minha direção na maior alegria--Pensei que jamais o veria de novo.

É claro que eu enrubesci. Certos hábitos nunca mudam.

--Senhora Margaret?--indaguei, um sorriso amarelo achando sua brecha em meu rosto costumeiramente fechado--Como...?

--Como poderia não reconhecê-lo, James?--falou ela, sorridente, emocionada quase--Seus cabelos negros como a noite não mudaram, embora admita que estejam mais claros do que antes. Seu rosto assombrou meus sonhos todas as noites, com olhos tão azuis que era como se o próprio céu me chamasse... --e ela tocou gentilmente minhas faces, acariciando-as com delicadeza; sentir sua pele de porcelana contra rosto tão áspero como o meu me fez arrepiar--Não assuma que eu o teria esquecido.

--Mas a senhora jamais me respondeu a carta--eu me ouvi dizer, soando não como um homem adulto, mas o jovem patife de 22 anos--Confiei meus sentimentos à senhora e, no entanto, casou-se com outro.

Apesar da dureza de minhas palavras, Margaret mostrou-se inflexível. Ao contrário, ela se aproximou de mim e disse:

--Senhor, a vida das senhoras em sua plena juventude pertence a outros. Pensava que não seria forçada a agir contra a consciência, mas, ao que parece, não tive escolha. Também eu escrevi cartas para o senhor, mas não obtive resposta. Mas confiei meu coração às preces e elas foram ouvidas.

Senti meus olhos lacrimejarem diante daquela declaração.

--Pensei que havia me esquecido.

--O amor pode demorar toda uma vida para passar, mas ele chega para nos arrebatar. Pois é uma expressão da alma e como haveria de ser insincera? Sê-lo-ia para os tolos que disto desconsideram firmemente, mas ele existe e com paciência nos reuniu aqui. 

Sem pestanejar, pressionei meus lábios contra os dela e ela, para grande júbilo meu, retornou o beijo. Dali selamos nosso destino, que custou 13 anos para ser cumprido.

*                                                                                *                                                                       *

Posfácio:

Margaret e eu nos casamos na Igreja de Windsor, e por lá vivemos por bastante tempo e na tranquilidade que almejamos. Tivemos cinco filhos, todos eles sobreviveram à idade adulta. Seus nomes são Henry, Arthur, William, Katherine e Joan. Henry herdaria os negócios como de costume, Arthur foi direcionado para uma vida no monastério agostiniano, e William decidiu ser advogado, obtendo uma vaga na prestigiada faculdade de Oxford. Katherine casou-se com um dos filhos de barão Hastings, nossa única menina a ter casado fora do âmbito social a qual foi criada. Mérito seu, e penso que meu pai teria se regozijado com esta união. Joan casou-se por amor com um rapaz que era conhecido de uma figura que deveis reconhecer pelo nome de Thomas Wolsey. As ambições, saudáveis, deram frutos muito satisfatórios. Mas, para além disso, esta família foi um presente de Deus, de fato.

Vim a esta vida para expiar pecados de existências pregressas. Precisei conhecer a humildade nas suas várias formas. Não cultivei nenhum rancor com meu irmão, John, e na verdade pedi que ele nascesse como um filho meu na encarnação seguinte. Também não me entristeço pelos comportamentos de meu pai e seus descomedimentos. Os erros são importantes para nos aprimorar. E também ele me ensinou muito.

O amor com Margaret pode aqui parecer florido, mas ocorreu desta forma. Alguns de vós duvidareis da precisão dos detalhes, mas não tenho por que alterar ou influenciar a médium, que me é conhecida de tempos atrás, inclusive, a escrever o que foi real. Isto cabe a cada um de vós, de todo modo. Finda aqui a minha missão com ela e convosco. Nada há mais belo que esperar pelo amor verdadeiro na certeza de que, vindo da alma, é a expressão mais divina que nosso Pai maior nos concedeu. Apesar do planeta estar ainda em transição para a regeneração, prevalece bastante as provas e expiações. Por isto o amor a que vários de vós conceituam provocam tantas decepções. O amor em si não é um resgate da carne nem de exigências ilusórias, mas a abnegação de si mesmo para o outro, o entendimento, a empatia, enfim, a compreensão e o respeito mútuo. Mesmo se tratando da Idade Média, o amor desta forma existiu e uniu as mais diversas almas. O que vós leis a respeito não cobre o todo, apenas uma parte. Deixo aqui, com isto, minha contribuição. Agradeço a Ogum pela oportunidade deste belíssimo trabalho e pela médium, pela paciência, bondade e gentileza com as quais me atraiu novamente acá. Que continue assim! A fé e o amor caminham sempre de mãos dadas. De seu amigo e irmão, velho companheiro de tantas estradas, Espírito James.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Contos Medievais, Romance IV: Charlothe e George

Nota do guia de Ogum: "Sejam bem-vindos a mais um conto medieval, dentro da seção que, em conjunto, catalogamos como 'Romance' conforme aviso prévio, no qual, é bom recordar, faz parte de uma missão de resgate através da psicografia. Estes contos medievais foram divididos em três seções: 'Romance', 'Tragédia' e 'Guerras', todas elas contendo lições valiosas para aqueles que se dispuserem a apreendê-las. No processo de aprendizagem, como se sabe, é uma via de mão dupla: contem tanto ensinamento para aquele que ele dá, quanto ao que recebe. Nosso maior objetivo consta em dar voz aos espíritos que a História ignorou e que têm também suas próprias missões a cumprir. Cada um deles que veio e ainda virá viveu vidas comuns, extraordinárias nos mais diversos aspectos, embora para o leitor acostumado com uma ideia mais romantizada dos períodos pretéritos possa assim parecer enfadonho. Entretanto, nem todos foram destinados à grandeza, mas nem por isso são demeritórios de expor seus aprendizados na esperança de incitar aquele que ler o caminho para o bem. A luz não cerca somente os santos e grandes figuras da humanidade, ela também se apresenta a todos os que se dispuserem a abraçá-la, independentemente das categorias que vós da Terra colocais sobre cada um. É neste sentido que nós revisitamos a Idade Média com um olhar mais humanizado e menos concentrado em abordagens historiográficas, pois não estamos estudando-a ou categorizando-a segundo as concepções medievalistas. A humanidade é muito complexa em si mesma para que seja limitada às interpretações de alguns que, por confiáveis que possam ser, nem sempre bastam para a compreensão. Sabe-se, deste modo, que a vida é mais do que o apanhado de um todo ou de um singular para além da mentalidade que se transforma ao longo dos séculos, acompanhando a evolução espiritual. Ela também vai para além de ideologias terrestres que distorcem e segregam o próprio ser humano. Assim é que tecemos este trabalho em conjunto e esperamos que, no devido tempo, resulte em boa colheita. Que a luz do Pai nos inspire diariamente a buscar melhorarmos constantemente, respeitando nossas limitações sem, contudo, permitir ser refreados por elas. Na energia do embate, da luta e do conhecimento é que nós nos renovamos. Dito isto, ressalto o que já digo de praxe: farei minhas interpelações no momento oportuno. Deixo cá meus agradecimentos a vós, leitores fieis.- George."

"Wurttemberg, 1450.

67 anos antes de recebermos Lutero e abraçarmos suas ideias revolucionárias, dignas de um espírito que veio cumprir missão importantíssima para o avanço moral da humanidade, Wurttemberg permaneceu obscuro para os grandes homens e sua história contemplativa. Nem por isso é indigna de ser mencionada, confesso que até hoje em dia grande carinho nutro por aquela cidade-estado. Mas antes de nos envolvermos em passado longínquo, permitam-me que eu me apresente. Charlothe, sem sobrenome de importância. Nasci na região já mencionada neste ano de 1450 depois de Cristo ou, como se catalogava à época, no ano do senhor. Fui somente uma mera criada para os senhores de Wurttemberg, que ora se percebia como reino, ora era intitulado como ducado. Nunca me atentei às tais questões porque me passavam do conhecimento, mas que importa isto? O que cabe dizer é que servi nas sombras, nunca nem mesmo pousei os olhos sobre poderosos nobres e talvez fosse melhor assim. Minha vida nesta ocasião foi certamente para expiar passado glamoroso, gasto por excesso de vaidade e soberba. Tudo que excede as faculdades espirituais e não é transmutado para o bom valor acaba provocando destino laboroso para o futuro próximo.

Imagino que alguns de vós venham a perguntar-vos quem havia sido e por que mereci tamanho "castigo", mas isso não tem relevância alguma para a história. Asseguro-vos, todavia, de que conscientemente optei por aquele tipo de vivência, que, por incrível que vos possa parecer, me trouxe muito frutos bons e dos quais me alegro relembrar. Após esta encarnação, como, pela graça do Pai, cumpri com os créditos que devia, pude optar em trabalhar no plano espiritual e permanecer segundo o valoroso labor a cumprir, ou reencarnar no plano terrestre. Optei por reencarnar novamente a fim de me limpar dos resquícios pretéritos, acompanhada nesta decisão por meu parceiro, que também hão de encontrá-lo na história a seguir. Apesar desta última reencarnação, decidi que, para o propósito do próprio labor desta médium que vos transcreve meus pensamentos, seria mais aproveitável retomar o ano de 1450, decisão que não tomei só, mas acompanhada de meus mentores também. E cá estamos. Peço-vos perdão por esta delonga, mas achei necessário expor tudo isto para vosso entendimento da complexidade do 'ser' espírito que todos nós somos. 

Enfim, como apresentei no início, nasci em Wurttemberg, reino germânico (atual Alemanha), no ano de 1450. Podemos ver que, apesar dos feudos e a manifestação estamental que, guardadas as devidas proporções, dava maior poder à Igreja, a sociedade era uma mistura intricada do camponês, clero e nobre. Isto não significa que havia facilidade para a mobilidade social, isto é, um camponês não enriqueceria da noite para o dia com todo seu trabalho. Na verdade, somente 2% da colheita lhe cabia e todo o resto era passado para a Igreja se o camponês lhe respondia autoridade, ou ao nobre a quem devia obediência. Nos mercados populares, dificilmente teria-se vislumbre das senhoras e seus esposos, ou mesmo de sua corte: eles se mantinham fechados entre si, recusando-se a interagir com o populacho. No entanto, esta arrogância era amenizada diante de seus deveres cristãos. Mesmo ali em Wurttemberg os nobres saíam de seus castelos nas datas comemorativas (sejam elas a Paz de Cristo, a Páscoa, a Crucificação, além de outras associadas aos santos locais) para fazer sua caridade. Alguns eram sinceros em sua prática, lavando os pés e beijando as mãos dos infectados pela lepra. Outros eram mesquinhos e contentavam-se em jogar um punhado de ouro para os desafortunados que, desesperados por qualquer oportunidade de enriquecimento ou chamar a atenção de tais pessoas, brigavam entre si como animais por uma moeda. Decadente, imagino que pensais isto, mas digo-vos que é lamentável que muitos permaneciam apegados a um estado de vivência pretérita e, escolhendo a pobreza como missão expiadora, não passavam por ela com resignação. 

Mas disto não me estenderei. Meus pais, cujos nomes darei Sophia e Karl, tinham mais cinco filhos à época de meu nascimento: pela graça de Deus, diziam, eram todos homens. No entanto, apenas três sobreviveriam à infância. Chamarei-os de Urban, Pepino e Djan. O mais velho de nós acompanharia nosso pai nos trabalhos das terras que, embora sobre ela atuássemos, não nos pertencia. O segundo se destinaria, tal como eu, à taverna que nossa mãe abriu como outra fonte de sustento para grande família e de alto custo. Djan, porém, foi prontamente dado à Igreja Católica. Digo "dado" não como um peso, embora papai tenha se aliviado por não ter de sustentar mais uma cabeça, mas não havia outra opção a ele. Éramos pobres, entendais, e em um mundo com tão poucas perspectivas para nós, que mais faríamos?

Mencionei no início que fui uma criada no castelo principal de Wurttemberg, residência de seus senhores, que quase nunca os via. Mas antes disto, cresci na taverna de nossa mãe. Sophia, como seu nome indicava, era sábia e tinha um espírito inabalável e incansável diante de perspectivas tão limitadas. Ela era extrovertida e logo depois do casamento com meu pai, Karl, passou a conhecer e se familiarizar com os vizinhos para que por eles fosse respeitada e, por que não, admirada. Era robusta e diria que o estereótipo alemão lhe cairia bem: seus cabelos encaracolados eram dourados como o sol e sua pele caucasiana queimava com tanta facilidade à exposição solar que seu rosto rechonchudo era vermelho com umas sardas ao redor do nariz. Seu nariz era curto, quase lembrando o de um porco, e os lábios eram naturalmente vermelhos. Usava sempre a mesma roupa: um vestido verde com bordados--feitos por ela mesma--em branco. Quase nunca trançava os cabelos e seu jeito de ser a fazia popular com todos. Quando abriu a taverna ao centro de Wurttemberg, todos os jovens e velhos camponeses frequentavam-no e mesmo suas mulheres também os acompanhavam. Dali surgia uma boa renda, que aumentou um pouco quando mamãe decidiu fazer da taverna lugar para hospedar os mais desafortunados que não podiam pagar um "hotel" decente. Cobrava-os, claro, mas de acordo com o que podiam dar. Neste sentido, era bastante generosa e produzia excelente cerveja também, fruto do que papai obtinha do pouco que recebia da colheita. 

Havia dificuldades, é claro. De vez em quando um clérigo tentava fechar a taverna por ser algo "pecaminoso", desculpa para a qual dava por ver que o ofício de um negócio como aquele era bem administrado por uma mulher. Como falei, porém, mamãe era bastante popular entre os camponeses e contava com seu apoio quando estas questões surgiam. Por mais que a Igreja de vez em quando tentasse fechar com a taverna, o prefeito local não tinha nada concreto para que pudesse fechá-lo de fato, reconhecendo que era bom para a cidade em si. No entanto, ainda havia aqueles "rivais", desafetos pretéritos, que batiam à nossa porta como se a vida quisesse nos testar. Mas mamãe era espirituosa o bastante para permitir que fosse restringida pelo seu sexo e posição. Era esperta para manter pública sua devoção--algo de que nem mesmo seus filhos duvidavam--e por isso qualquer acusação de heresia (afinal, que mais irritaria um mundo predominantemente masculino do que ver uma mulher capaz de se defender e viver uma vida desprendida de suas regras mesquinhas?) caía em baixos panos. 

Por isso, não posso dizer que tive uma infância infeliz, de fato. Apesar de tudo, sobrevivíamos e isso bastava. Apenas quando a praga levou meus outros irmãos--que não nomeei--que sentimos a tristeza da vida. No mais, não era nada incomum. Mas, conforme crescia, meu pai passou a se preocupar. Uma vez, ele comentou na mesa do jantar:

--Que será de Charlothe? Está na hora de casá-la... e isso me preocupa, já que a primeira noite é a de um nobre e não de seu senhor como deveria--ele fez uma careta como para ressaltar seu desagrado.

Papai era como qualquer outro camponês que trabalhava incansavelmente e, portanto, apresentava suas rugas antes do tempo. Qualquer um lhe daria cinquenta anos à época em que conto este fragmento, quando ele tinha trinta e cinco somente! Seus cabelos oleosos eram mais escuros que os de mamãe e recaíam sobre os ombros com alguns fios cinzas; sua pele era bronzeada e qualquer "vermelhidão" de resultado ao sol já não se fazia ver, como era o caso de mamãe. Seus olhos eram de um azul escuro e bastante profundos quando se mirava neles, azuis este que herdei. O nariz era longo, porém torto, resultado de alguma briga que jamais me contaram. Uma barba mal feita cobria-lhe os lábios e algumas cicatrizes pelo pescoço se destacavam em um olhar mais analítico. Vestia-se também com as roupas de costume, e em temperamento era mais sério, contemplativo e introspectivo. Era de surpreender que ele e mamãe se dessem tão bem e, apesar de ter sido uma união arranjada pelos meus pais (sim, meus caros, o casamento de livre-escolha dos camponeses é um mito), transformou-se em amor. Eram devotos um ao outro. 

--Precisa mencionar este assunto a esta hora, Karl?--suspirou mamãe, cansada--Charlothe não completou quinze verões ainda. 

--Ela está bonita e esguia, Pepino me contou que os homens na taverna já a desejam--resmungou ele em resposta--Não quero nenhuma tragédia aqui.

Franzi o cenho e, pela primeira vez, me manifestei.

--Que há de errado nisto? Poderia arranjar um pretendente entre tais rapazes, embora não me recorde de tê-los chamado a atenção.

--Sempre tão espirituosa, Charlothe--reprovou papai--Não é possível que seja ingênua.

Antes que pudesse responder, mamãe interferiu.

--Já disse que não é o momento--e, virando-se para mim, disse--Seu pai tem razão quando diz sobre estes assuntos e acho que não fiz bem em tê-la colocado para trabalhar junto a mim, na taverna.

Mas eu, jovem tola como era, protestei:

--Mamãe, isso é tolice! Eles gostam de você, e de mim também porquanto riem de minhas piadas, e não poderiam nos fazer mal.

Ela riu, mas não havia humor em seus olhos claros.

--Conhece muito pouco da vida, filha, se acredita mesmo que uma cerveja conquistará a simpatia benevolente de tais criaturas. E se acha mesmo que suas piadas são de fato engraçadas, penso que a tenho criado mal.

Enrubesci, furiosa, mas nada mais falei. Tentei rememorar qualquer situação incômoda na taverna, mas, a princípio, não havia nenhuma. Eu gostava de servi-los cerveja, pão e doce de abóbora quando pediam, e nenhum deles me tratava com desrespeito. Havia até um bardo que recitava belos poemas para mim quando não estava ocupada. Mas, fosse pela inexperiência de vida ou não, me faltava a compreensão da natureza de certos espíritos e era por isso que via a vida com olhares coloridos, quase romanceados. Isto não é um problema, mas não se pode prender-se a isto o tempo todo. 

Pensando nisto, percebi que fui boba, mas não quis admitir isto em voz alta por receio de ouvir mais reprimendas. Que jovem gosta de escutar várias e várias vezes sobre seus erros cometidos? Não é diferente do 'adolescente' moderno, que é orgulhoso demais para pedir desculpas. Eu mesma havia sido enfeitiçada pela ilusão da juventude. 

No entanto, não havia tempo para me prender a tais devaneios, pois foi mamãe quem mudou o rumo do assunto ao falar, direto como era de seu ser:

--Arranjei um outro ofício para você.

Arqueei as sobrancelhas e notei que não era a única surpreendida com aquele anúncio. Papai e meus dois irmãos, Urban e Pepino, também encararam com surpresa a matriarca da família. Sem pressa, no entanto, tornou ela a explicar:

--Antes mesmo desta questão de chamar demasiadamente a atenção indesejável masculina, me preocupava que se atarefasse em um lugar mais adequado. Não preciso explicar que tenho clientes fieis, amigos quase, e um deles conhece o chefe da criadagem dos reis de Wurttenberg. 

--Reis?--indagou meu pai, interrompendo-a--Eles são duques, mulher. Não existe tal coisa de reis por aqui!

--Eles certamente se comportam como tais--desdenhou mamãe, ácida como sempre--Bem, como ia dizendo, este meu amigo disse que vagou a posição de criada do castelo do duque de Wurttenberg e eu prontamente a ofereci. Ele a conhece, querida, portanto sabe que é qualificada para o posto.

Ruborizei novamente. Em tese, deveria ter me alegrado por oportunidade, mas uma coisa era ter de lidar com homens inconvenientes e ter amigos plebeus com quem se pudesse contar, outra completamente diferente era de trabalhar em um castelo. Mas me assustava diante de enorme possibilidade. Eu, que nunca entrara em contato com nenhum nobre da região, tremia só de imaginar. Vendo a perplexidade dançar em meus olhos, minha mãe se apressou a me tranquilizar, ainda que com um tom de censura em sua voz:

--Muitas jovens adorariam estar na sua posição, Charlothe. Não sei por que esta reação, francamente, mas se for pela insegurança, asseguro-a de que estará em boas mãos. Além do que a criadagem feminina não é a mesma que a masculina. Não há por que se preocupar.

Assenti, embora relanceasse para meu pai a fim de ouvir sua opinião. Mas ele apenas deu de ombros e, levando um copo de cerveja aos lábios, disse:

--Se assim for, que seja. Receberá pelos serviços?

Minha mãe, é claro, foi quem respondeu:

--Mas é claro! Uma quantia adequada de acordo com sua ocupação. O que mais poderíamos querer, Karl?

--Você é ambiciosa demais, Sophia--ele a reprovou, sacudindo a cabeça--Deveria pensar no casamento de Charlothe e não em tais baboseiras.

--Baboseiras que sustentarão esta casa--retrucou mamãe, impaciente--Recomendo ao senhor ser mais grato pela comida que temos na mesa e um lar que não foi derrubado pela corrupção do clero.

Papai, como já mencionei, era introspectivo e, portanto, menos dado às discussões do que mamãe. Por isso, ele se limitou a um suspiro e se retirou. Mas é claro que ela não deixaria por barato, ela era espirituosa demais para aceitar a resignação de papai. Ao final, eu me preparava para deitar quando Urban veio se juntar a mim:

--Por que tem medo de trabalhar para a nobreza, irmã? Qualquer um mataria por isso.

Colocava um lenço ao redor de minha cabeça quando o respondi:

--Porque todos sabemos que eles são cruéis. 

--Nunca ouvi nada do gênero sobre o duque ou a duquesa--ele se surpreendeu.

Dei de ombros.

--Apenas guardo a intuição. Se eu tivesse metade do que eles possuem, creio que seria arrogante em meu castelo--foi quase inconscientemente que eu pronunciei as palavras, reflexos de uma vida pretérita, mas que eu, naquele instante, não recordava.

Urban arqueou as sobrancelhas e replicou:

--Mas por que? O que acha que a faria melhor do que um camponês?

--Eu sou uma camponesa--eu o lembrei, rindo.

Mas, ansioso, ele insistiu na pergunta. Para a curiosidade do leitor, adianto que nós dois havíamos sido rivais em vida pretérita. E eu havia causado sua queda política nesta existência, mas, a fim de remendar isso, concordamos reencarnar como irmãos. 

(Nota de Ogum: "Embora não seja regra geral, dada as circunstâncias de reencarnação familiares, as rivalidades entre irmãos apontam para poderosos resgates a serem feitos. Para uma das partes que se coloca como vista é porque, em existência pretérita, se foi o algoz deste irmão. Inconscientemente, este, por sua vez, age com "rebeldia" para com o outro pela inspiração que o espírito guarda. Rancores inexplicáveis são, na verdade, explicáveis. E nem sempre quando falamos 'algoz' e 'vítima' deve ser interpretado literalmente. Como no caso de Charlothe, ela em outra vida havia sido poderosa duquesa, de influência inestimável, e que provocou a queda de seu rival na corte em que habitava. Esta queda não foi, como de se pensar, em imediata morte, ainda que esta ocorrera como resultado dos complôs políticos, mas nem por isso isenta um resgate a ser realizado. Depois de instrução espiritual, ambos concordaram, como ela mesma expôs acima, em reencarnar juntos a fim de sobrepor rivalidades passadas que, na verdade, haviam atingido o auge naquela vivência. No mais, as críticas excessivas, as implicâncias motivadas por rancor, têm seu fundo na base reencarnatória. Do contrário disto que expus, vemos almas bastante afins que, a fim de se auxiliarem no avanço moral e espiritual um do outro, voltam à vida terrícola como irmãos. Disto se sucede que, seja qual for o caso, a irmandade nada mais é que dois (ou mais) espíritos com débitos a pagar ou afinidade, ambos aqui colocando seus esforços para a evolução e findar o ciclo kármico. Em casos extremos, isto se resolve em mais de uma encarnação, mas o aprendizado e a supressão dos infelizes termos eventualmente chegam a todos."

--E que importa se é?--ele insistiu--Gostaria que me fosse sincera.

Franzi o cenho a ele, sem entender de verdade por que tanta importância dava aquilo. Mas ponderei e o respondi francamente:

--O luxo não é aquilo que todos desejam obter? De fato concordo com você quando diz que não somos diferentes dos ricos ou de outros mais desafortunados que nós. Mas obter a riqueza não é para tantos...É quase como se fossemos selecionados para aquilo, entende?

Urban sacudiu a cabeça. Tínhamos a idade aproximada, eu era apenas um ano mais nova que ele. Éramos diferentes, mas ao mesmo tempo iguais em temperamento. E crescemos muito próximos um do outro.

--Mas na missa não diz que Jesus ama a todos incondicionalmente?

--Diz. E Ele ama.

--No entanto, por que somente há um pedaço do céu reservado aos mais ricos? Eu não quero parar no inferno.

--O que isto tem a ver com a questão de trabalhar para os duques?--eu falei, sorrindo.

A vela tremulava, e a escuridão pairava sobre o quarto, mas ainda conseguia enxergar os olhos azuis-quase-esverdeados de meu irmão, o rosto sujo e os cabelos dourados oleosos que caíam em seus olhos. Havia herdado toda a beleza de mamãe.

--Que talvez você já esteja apta para ir ao céu, e nós, mero camponeses, não--ele retrucou, rancoroso.

Levantei-me da cama estendida ao chão e tomei a mão dele na minha. Senti que uma inspiração pairava sobre nós dois naquele instante.

--Isto não é verdade. Você é meu irmão e eu não permitirei que irá ao inferno. E acaso for, também irei com você--falei firmemente.

Ele me encarou, surpreso.

--Mas...

--Não há "mas", Urban. Somos irmãos, e por mais que tenhamos nossas diferenças, eu o amo. Sempre amei--disse eu, ciente de que, nos nossos piores momentos, ele tinha o costume de me chamar de 'vadia' para os amigos dele.

E talvez fosse pensando nisso que ele enrubesceu. Como se num momento significativo, com os olhos baixos, ele disse:

--Sou muito duro com você, admito. Mas é que sempre me irritou que tivesse todo o favoritismo de mamãe. 

Eu ri, mas dei um aperto na mão dele como se para assegurá-lo de que aquilo era uma inverdade. Disse eu a seguir:

--Sou a única donzela da família, Urban. Você não precisa se preocupar com essa questão de favoritismo, pois quem herdará a propriedade do pai e suas colheitas será você, não eu. Eu quem dependerei de sua boa vontade até mesmo para arranjar marido caso, que Deus não permita, nosso pai se vá antes do tempo. Sinto muito que veja as coisas desta maneira, mas não é assim. Não deixa que isso afete nosso laço, sabe que é meu irmão favorito.

Urban deu um sorrisinho e me deu um abraço forte. Senti que, a partir daquele momento, não existia mais rupturas entre nós dois.

*                                                                                      *                                                                        *

A primeira semana no castelo dos duques de Wurttemberg não foi fácil como temia. A criadagem feminina, embora separada da masculina, não havia me acolhido e as mulheres eram cruéis. Em sua maioria, tendiam para a libertinagem, eram mais velhas e, portanto, mais experientes. Conheciam todo o castelo, as áreas em que deveriam entrar ou não, quem lhes passava as ordens, a quem deviam responder. Algumas delas tinha mesmo uma quartinhola para chamar de sua. E nenhuma delas quis me ajudar, apenas me davam ordens: limpe aqui, limpe ali.

Não vou negar e pintar um quadro extremamente humilde para pensarem que aceitei aquela condição de bom grado e que tolerava tudo de mente silenciada. A verdade é mais dura, pois, colocada em uma situação para expiar a vida pretérita e seus excessos que nela cometi, minha mente se rebelava e chicoteava em frustração por limpar janelas, esfregar o pano molhado trezentas vezes até ganhar calos nas mãos, e observar com inveja os aposentos ricamente enfeitados e saber que jamais deitaria em camas confortáveis, acenderia lareiras e desconheceria o frio, ou a fome.

Era difícil para mim receber desaforos diariamente e não ter a chance de réplica, já que precisava daquele cargo. Era solitário também, e naquele primeiro mês, teve um momento que, enquanto esfregava o chão, caí em prantos. Foi doloroso ver que aquilo não me pertencia, e não viria a me pertencer; concluir que a vida não era feita de risos, sorrisos fáceis e flertes inocentes; que havia pessoas que se antipatizavam comigo a troco nenhum. Estar só me parecia um castigo e, como todos alguma vez na vida fazem, me perguntava ao Pai o que havia feito para merecer aquilo. 

Mas mal havia me indagado a respeito, ainda que silenciosamente, quando ele me apareceu. Demoraria, lenta que eu era, a ler os sinais, mas eles estavam ali. Enquanto a dor me ensinava em meio a tantos suplícios, o amor vinha para curar as cicatrizes. Sendo mais clara, um dos homens que servia a corte passava por ali quando me viu no canto, prantear em silêncio.

--Misericórdia!--ele exclamou--Suas mãos estão um sabugo! Permita-me, senhorita, ver o que há nesses calos.

Quando meus olhos se dirigiram a quem, pela primeira vez, havia notado minha existência naquela residência fantasmagórica, me assustei e recolhi contra a parede. Afinal, temia ser castigada, era tudo o que conseguia pensar, e o pobre homem teve de se esforçar para conquistar minha confiança.

--Senhorita, não vou lhe fazer mal--ele se sentou ao meu lado, falando quase baixinho--Não sou desse tipo de homem que pensa que sou.

Com a palma da mão, enxuguei meus olhos e pude avaliá-lo como era, de fato. Era mais alto que eu, embora não tão alto assim, e seu rosto, oval, transmitia bondade. Sua tez era larga e seus olhos, esverdeados como a oliva, eram muito simpáticos. O nariz era longo, mas não fino; seus lábios, rosados, tinham um corte na parte inferior, e imaginei qual teria sido a causa para tal. Seus cabelos puxavam para um louro acobreado, e, para meu horror, meu coração palpitou contra meu peito. Mas me recusei a reconhecê-lo como o mais belo dos homens que havia visto. 

Não me passou despercebido tampouco que suas vestes eram de camurça, com linhos dourados ao longo de blusa que nunca havia visto antes. Concluí que deveria ser algum cortesão, o que me fez ruborizar de vergonha.

--Peço perdão por isso, senhor--falei, enfim--Não quis... Juro que...

--Não precisa se justificar--ele me interrompeu, gentil--Sei que estava fazendo seu trabalho, e ele é exaustivo. Entendo como se sente, ser o jardineiro do duque nem sempre é fácil. Adaptar seu jeito de lidar com as plantas para embelezá-las segundo o gosto de sua senhoria... --e ele sorriu--Silenciar-se diante da crueldade alheia é a pior provação pela qual qualquer sujeito deva passar, mas, não me leve a mal, sou grato pelo trabalho.

Encarei-o com um misto de choque e surpresa.

--O senhor é jardineiro?

--Sim--ele respondeu--Já tem algum tempo. Na verdade, uns bons sete anos. Estou surpreso de manter esta ocupação por quase uma década. 

--E por que isso?

Ele deu de ombros.

--Não sei. A bem da verdade, só vi o duque uma única vez e ele não me dirigiu a palavra. Como deveria ser o contrário se sou apenas um criado?--em seu tom de voz, havia humor e não ressentimento, o que me deixou atônita--Não é ruim viver na obscuridade, sabe. Contato que faço direito o trabalho, nada mais importa.

--Mas por que aguentar tantas crueldades?--me ouvi indagar. Ainda não havia compreendido o propósito de estar lá.

--Porque Deus assim quis--ele me disse, tranquilamente--Cada um carrega a Cruz que Ele deu. Não somos como o Cristo, mas podemos nos aspirar a segui-Lo. Não acha? Cada santo, veja, sofreu duras provações em Seu nome, muitas das vezes em silêncio. 

Notei que meus olhos vertiam lágrimas, tocada por aquelas palavras.

--Não sei se consigo.

--Claro que consegue--disse ele, surpreso por sua vez ao me ver sensível--Por que não conseguiria? 

--As pessoas são más--eu me ouvi dizer.

--O mundo não é belo como muitos bardos gostam de pintar--ele concordou--mas nem por isso deixa de de ter sua beleza. Para a escuridão, existe a luz; para o ódio, existe o amor. Já ouviu falar da oração de São Francisco de Assis? Gosto muito dele.

--Não me recordo muito bem--admiti, envergonhada--Não sei ler.

--Não precisa se justificar--disse ele, animado--São Francisco foi um nobre que se despiu de toda a riqueza e adotou o voto de pobreza, pregou a caridade, a humildade, o amor ao próximo, dentre outras coisas que Jesus tanto se esforçou em nos ensinar. Sua oração, em resumo, nos incentiva a levar a união onde houver discórdia, o amor onde prevalecer o ódio, o amparo para aqueles que necessitam. Que mais vale amar do que ser amado. Que damos o que temos sem esperar nada em troca.

Um arrepio percorreu minha espinha e senti que minha alma foi verdadeiramente tocada por aquelas palavras. Ainda assim, perguntei:

--Como sabe tanto disso?

--Eu queria muito ir à Roma e me tornar padre, quiçá adentrar a ordem franciscana--disse ele--mas Deus tinha outros planos para mim, e cá estou.

Refletindo ainda todo aquele ensinamento, virei-me para ele e disse:

--Acha que os santos nos ajudariam se pedíssemos por eles?

--Por que haveria de ser o contrário?

--Porque--eu falei, triste, ao lembrar das palavras de meu irmão--somente os ricos possuem o direito de entrar no Céu.

--Se assim fosse--disse ele, bondosamente--teria São Francisco sido expulso da Morada do Pai porque ele se despiu de toda a riqueza ao optar pela pobreza. O Pai, nosso Criador, ama a todos igualmente, minha senhora. Ele não deseja nosso dinheiro, nosso pão, nossas velas, mas o que nós tivermos em nosso coração. A fé sincera e a humildade é o que mais importa. O resto é o resto. 

--Mesmo que eu não entenda direito as orações?--falei, me recordando de repente de que nada entendia do latim, tendo aprendido somente o básico de mamãe, que nunca hesitava em perguntar aos padres o que significava tudo aquilo da missa. 

--Eu irei ensiná-la a você, mas vou dizer que nem isso importa--ele falou isso sussurrando, porque, tirando do contexto, poderia ser interpretado como herético--Se amor existe em seu coração e se permite pelo Pai sofrer, nada mais há o que temer. Jesus também sofreu e foi recompensado, por que o mesmo não ocorreria conosco? 

Sorri.

--Obrigada, senhor. Sinto-me renovada com suas palavras. Teria sido um excelente padre, mas tenho certeza de que é muito bom jardineiro.

Ele riu.

--Nada me alegra mais do que levar a Palavra aqueles que dela necessitam. Pense no que eu te disse. 

Assenti a cabeça, e ajeitei o vestido, renovada.

--Obrigada. Como posso chamá-lo, caro amigo?

Já se levantando, disse o bom homem:

--George, senhorita. 

Sorri, feliz, e preparava-me para voltar ao trabalho quando me surpreendeu que ele se interessasse em saber meu nome.

--E como posso me dirigir à senhorita?

--Charlothe é o meu nome.

Foi quando nossos olhos se encontraram verdadeiramente. Outro arrepio percorreu minha espinha e em meu íntimo, senti que estava em casa. Senti que havia encontrado meu amor de igual.

*                                                                                     *                                                                     *

A primavera dava espaço para a chegada do verão e logo as festividades tomavam conta da cidade. A taverna de minha mãe lotava e havia cada vez mais pedidos para que as damas da noite fossem ali empregadas, para a consternação de meu pai, que achava aquilo um absurdo. Mas mamãe começava a se perguntar se não seria ótimo para os negócios, ainda que desaprovasse sobre a questão em si. Enquanto isso, Urban desposava a filha do concorrente de mamãe, dono de outra taverna tão popular quanto a nossa. Seu nome era Frederica e ela era simpática. Cativou o coração de meu irmão e a união provou ser certeira. O próximo a casar foi Pepino, que tomou como esposa a sobrinha ilegítima de um arquidiácono da cidade. Foi um excelente arranjo, todos estavam de acordo, e parecia que a família ascendia. Mas, com os rapazes casados, voltava papai a se preocupar com a única filha que tinha. Embora houvesse sido proibida há mais de um século, ainda estava em voga, de certa forma, a triste tradição de que o nobre local deveria consumar a noite de núpcias com a noiva camponesa antes do próprio marido. Com receio de tais complicações e desejando preservar minha honra, ele sugeriu me enviar a algum convento. Mas, é claro, mamãe, a casamenteira, não permitiria que isso se fizesse.

--Ela é muito bela para viver presa enclausurada--retrucou ela, decidida.

Neste meio tempo, estamos na década de 70. 1471, contava 21 anos e permanecia solteira. Minhas companheiras de trabalho zombavam de mim, é claro, mas não lhes dava a satisfação. Não poderia. Encontrava conforto nas preces, e tornei-me amiga do padre local, que era o capelão do duque de Wurttenberg, mas tal associação pouco significava para mim. Era um homem bondoso e gentil, que escutava e me protegia dos escárnios de povo tão baixo.

Um dia, porém, reencontrei George e foi com muita alegria que o havia visto. Poucas foram as ocasiões nas quais de fato nos encontrávamos e podíamos conversar sem qualquer interrupção. Estávamos às vésperas de um grande festival para celebrar a entrada do verão, a despeito da reprovação da igreja que, entretanto, todos, independentemente dos níveis sociais, deliberadamente ignoravam. Mamãe estava muito empolgada e também papai estava com os ânimos à toda. Minhas cunhadas, a quem me associei com alegria, também compartilhavam dos sentimentos e assim era o estado geral de espírito. Já não me importava de limpar janelas, lavar chãos, costurar e remendar tecidos. Havia me acostumado em fazer parte do castelo que, agora via, não me alegraria de pertencer. Percebi que, ao contrário dos nobres que faziam dali seu lar, era mais feliz com a simplicidade que a pobreza trazia.

--Senhorita Charlothe!--ele exclamou ao me ver.

Aquela era uma tarde tranquila, eu estava livre das supervisões de meus superiores, por isso fui serelepe caminhar pelos jardins. Georg sorria e eu me encantei com tamanha demonstração de alegria em me receber, algo que nem meus antigos amigos da taverna da minha mãe haviam feito.

--Meu senhor--eu falei, sorrindo com as bochechas coradas. Tentei fazer uma mesura, mas temi que não fosse uma graciosa o suficiente.

--Não, não, sem mesuras--ele pediu--Não sou um senhor que mereça isto. E me chame pelo meu nome, eu peço.

Era como se o sol brilhasse com mais vigor quando estava perto dele. Ousei tocá-lo delicadamente no braço.

--E que valha o mesmo para você, George.

Ele corou. Que adorável, pensei, ainda me demorando no braço dele.

--Como tem estado, Charlothe? Deveria tê-la visitado com mais frequência, afinal, prometi ensiná-la as orações que Cristo nos legou, mas...

--Oh, por favor--falei, rindo--Não se reprimenda tanto, meu caro. Estivemos ambos ocupados. Tenho certeza de que teremos tempo para isso.

Ele me lançou um olhar enigmático que eu não saberia decodificar bem, mas antes que pudesse mesmo enrubescer, notei que ele permitiu que nossos braços se entrelaçassem enquanto caminhávamos. E disse, então:

--Perdoe-me se estiver sendo ousado demais em minhas maneiras, mas amanhã... a cidade festejará o verão. Poderia acompanhá-la?

Pensei que o dia não poderia estar quente. Lancei um olhar a ele, meu coração batia rápido demais, acreditei mesmo que meus joelhos fossem fraquejar. Mas tudo isto ele interpretou de outra maneira, pois deu um pouco de distância entre nós e indagou:

--Perdoe-me se a ofendi...

--Oh, não!--eu exclamei, por minha vez, interrompendo-o bruscamente--Não é isto, não é isto. Eu sou uma boba, perdoe-me eu, George. Apenas... É claro que poderá me acompanhar. Estive apenas perplexa ante a ideia de ser convidada por alguém como você.

George, por sua vez, corou. Em breves segundos, que, para mim foram eternizados na memória, ele entrelaçou seus dedos nos meus e falou:

--Como poderia pensar isto, senhorita? É a mais bela de todas as senhoras.

--O senhor soa como um poeta--eu o repreendi levemente, sorrindo apaixonadamente.

Mas antes que pudesse ele dizer algo a mais, fomos interrompidos com um limpar de garganta. Era hora de George voltar ao trabalho e eu regressar ao meu. Nada mais havia a ser feito, e, por isso, voltei alegremente ao castelo.

*                                                                                      *                                                                        *

Não é preciso especificar data e época na história da humanidade para fazer valer a máxima de que a inveja é um mal que corrói os espíritos desde sempre. Sei bem que já fui corrompida por ele, mas me curei quando compreendi que, mesmo na pobreza, era mais feliz com o que eu tinha do que o seria na riqueza, sob o jugo do homem como era o caso da duquesa que a tudo devia ao seu esposo. Encontrei forças na prece e me dediquei a uma vida mais despretensiosa. E, no entanto, não escapei daquele velho reencontro de almas opostas, para não dizer o contrário.

Penso que não era relevante me aprofundar na rivalidade que existia entre eu e as senhoras que, comigo, faziam parte da criadagem feminina. É verdade que, ao longo dos anos, consegui "mudar de lado" algumas que haviam me julgado erroneamente. Amélia, Justiniana e Augusta foram três "inimigas" de vidas pretéritas que, com a graça de Deus, converti-as como irmãs de alma. E elas me alertaram de que a principal opositora a minha presença naquele lugar, que darei o nome de Johanna, descobriu que George, o jardineiro, me cortejava e pretendia seduzi-lo.

Entrei em desespero e foi quando contei, não a minha mãe, mas a Urban sobre a questão. Para minha surpresa, ele se demonstrou bastante sábio e disse:

--Irmã, por que te afligir com questões mesquinhas? Acaso, não confia neste homem?

Ruborizei.

--Confio, ele me parece de bom caráter, admito, mas homens são falíveis e entregam-se à carne.

Urban arqueou as sobrancelhas.

--Isto é uma generalização muito feia de fazer. E burra também, se me permite a palavra. Não conhece o caráter geral de todos os homens para assumir isso.

--Mas é sabido que os homens tendem para os desejos carnais mais do que as mulheres--eu temei. 

Ele suspirou.

--Os comportamentos de alguns apresentam semelhanças porque a Igreja assim determina, embora condene o adultério. Não é o caso aqui. Não foi ele quem te ensinou a respeito de São Francisco de Assis?

--Sim--falei eu, lentamente.

--E o que dizia sábio santo?

--Onde houver discórdia, que leve o amor--eu falei de imediato, confusa.

--Onde houver discórdia, que leve a união--meu irmão me corrigiu--Onde houver o ódio, que leve o amor. Onde houver guerra, que leve a paz. Afinal, é melhor....

--...amar a ser amado, compreender a ser compreendido--completei.

Urban sorriu.

--E então?

Corei de vergonha.

--Sinto muito. 

--Por que sente? É humana, isto acontece. Confie mais naquele que dá seu coração e ame sem esperar nada em troca. Funciona muito bem, eu garanto.

--Mas e quanto à...

--Não vamos mencionar o nome de quem não merece ter o nome mencionado--interrompeu-me Urban, gentil--Deveríamos rezar por ela, coitada. Não sente qualquer amor para precisar inferir nas relações alheias. Quem muito inseguro é, muito barulho faz. Minto, quem muito vazio é, pois quem tem o coração cheio de ternura, não perderá tempo fazendo o que ela faz.

Sorri.

--Tão sábio. Parece mesmo Djan.

E nós rimos em sintonia.

*                                                                                     *                                                                         *

Mamãe, com aquele pressentimento de mãe, exclamava pela casa toda de que, em breve, eu seria desposada. Meu pai, com um revirar de olhos, não se esforçava em comentar o contrário, apenas pedia que ela se comportasse. Mas era o mesmo que tentar agarrar o vento.

--Mamãe, por favor!--eu dizia, rindo, enquanto ela me banhava, penteava meus cabelos dourados e os trançava segundo a moda da época--Quanto exagero.

--Não existe exagero--retrucava ela--Você é minha única filha e é mais bela que todos. Se vai mesmo encontrar esse rapaz, que vá arrumada a fim de capturar seu coração. Certeza tenho de que terá sucesso nesta missão.

Eu ri. A casa estava contagiada com sua típica alegria e isso acalmava meu coração. Mais tarde, quando todos estavam vestidos adequadamente, a ocasião surgiu e fomos encontrá-la. Toda a cidade festejava, homens e mulheres dançavam, crianças brincavam, e os idosos bebiam como se não houvesse amanhã. Encontrei minhas amigas com seus respectivos pares e as saludei de longe. Naquela tarde, preferia a companhia de minhas cunhadas, uma delas, Frederica, já estava próxima dos últimos meses de gestação.

Por um momento, admito que me sentia aflita por não encontrá-lo, mas o sentimento não durou muito tempo, pois logo mais o encontrei, vestido em suas melhores roupas. Quem diria que era um mero jardineiro? E que isso tampouco importava? Sorri, e tentei não soar empolgada demais, como mamãe havia me censurado, embora fosse demasiadamente transparente para que isso não ficasse evidente em meus olhos.

George se aproximou e cumprimentou todos da família igualmente depois de tê-lo apresentado aos meus pais. Não deveria surpreender quando mamãe, sempre ela, falou:

--E quando é que devemos esperar uma proposta do senhor, George? Minha bela filha está solteira há muito tempo e há outros pretendentes esperando sua vez.

--Mamãe!--eu a repreendi, em uníssono aos meus irmãos.

Mas, para meu alívio, George apenas riu da insensatez de mamãe. Ao contrário, para surpresa geral, ele já tinha uma resposta.

--No mais breve possível, minha senhora, eu garanto. Não pretendo ser substituído por outros--assegurou ele, me fazendo corar e provocando risinhos de minhas jovens cunhadas, arrancando até mesmo um sorriso de aprovação de meu pai.

--Ah, mas muito que bem, meu jovem!--tornou minha mãe, orgulhosa da réplica--Deixaremos os dois, portanto. Se cuidem, meus queridos!

E assim desapareceram de nossa vista, embora Alicia e Frederica virassem suas cabeças e tentassem verificar meus passos. Ignorei-as, pois, e logo tentei remendar a situação.

--Peço que perdoe minha família, meu senhor. E-Eu...E-Eu não esperava por isso--disse eu, gaguejando como a tola que era.

Mas George ofereceu seu braço para que eu o tomasse e, em seguida, sussurrou ao meu ouvido.

--Não há nada a ser perdoado, afinal, em breve farei parte dela e ela será minha mãe também, não é?

Eu nunca senti meu rosto queimar tão intensamente quanto antes e se eu fosse cardíaca, sem dúvida teria partido havia muito para o Céu. Diante de minha reação, ele riu e depositou um beijo contra minha bochecha.

--Nenhum retrato poderia capturar a beleza de suas faces como meus olhos percebem este momento--declamou ele.

--É um poeta--falei, sorrindo timidamente.

--Seria minha musa, pois?--inquiriu ele.

Ri quietamente.

--O senhor traz outra coloração para o amor.

--E a senhora o intensifica, ouso acrescentar.

Trocamos olhares e foi quando ele disse:

--Tenho a impressão de conhecer sua alma, bela donzela. E digo isso sem receio nenhum de ser rechatado.

--Ofende minha inteligência presumir que o faria isso--disse eu, cativada pelo olhar intenso com o qual dirigia a mim--Acha que não partilho de similar impressão?

E foi dali, brotado em espontânea declaração, que ele se virou e disse:

--Sê minha esposa, é o que peço. É aqui e agora que se faz o propósito de Deus.

Sorri alegre, sentimento que transbordava pelos meus olhos.

--Qualquer que o seja, espero que esteja sempre ao meu lado. 

George enrubescia, mas seu sorriso o embelezava a tal maneira que poderia ser um dos anjos de Michelangelo.

--É assim que haverá de ser se me conceder uma resposta.

--Precisaria de uma, seu tolo? Acaso ignora que desde o primeiro dia meu coração é seu?

Ao nosso redor, havia barulho, música de um lado, sons diversos de outro, mas o mundo silenciava quando nossas almas se inclinavam tão perto uma da outra, em um reencontro mágico. Que importava todo o resto quando ele era meu e eu era dele? Quando nossos corações batiam como um? Quando o amor a tudo vencia? E foi quando desafiamos as convenções quando selamos nossos votos ao público em beijo doce...

*                                                                                     *                                                                         *

Posfácio: 

Casamos na capela segundo os ritos da Igreja Católica Apostólica Romana. Em 1475, determinadas questões sociais vinham sendo questionadas e, portanto, a chamada primeira noite foi abolida. Os nobres da capital não mostraram qualquer interesse em prosseguir com isso, embora nas redondezas outras senhoras de similar posição não pudessem comentar o mesmo desfecho com alegria. 

Tivemos uma vida comum, da qual o extraordinário era o amor que nutríamos um pelo outro. Ao todo, tivemos quinze crianças, das quais somente duas desencarnaram na crise da peste bubônica que ocorreu no fins do século XV. Em tranquilidade prosseguimos com a vida, na qual ciclos deram prosseguimento aos outros. Meus amados pais desencarnaram quase juntos, no ano de 1480, com dois meses de diferença. Estão reencarnados novamente na atualidade. Meu irmão Urban cumpriu com sua missão até antes do prometido e, portanto, desencarnou antes de 1490. Foi sucedido pelo filhinho e sua mãe, Frederica, se viu forçada pelo destino a desposar outra pessoa para dar mais respaldo financeiro à família. Seu segundo marido foi um comerciante rico, mas ela não se esqueceu de tantos outros. A mim, me ajudou bastante, principalmente com os partos. Mais tarde, se mudaria para Flandres, onde prosperaria. No final das contas, Pepino e Alicia ascenderam também e mudaram-se para Berlim. 

Mas eu e George não nos incomodamos por permanecer na posição que nascemos e viríamos a morrer. Nada nos faltava e o conforto daquilo que possuíamos nos bastava. Nossos filhos eram robustos e os casamos bem, alguns optaram pela vida monástica, três dos nossos seguindo para a ordem franciscana. Aprendi a ler e a escrever, e vivi segundo as leis de São Francisco até o fim dos meus dias. Aprendi que o amor a tudo perdoa, e sem amor não há perdão. 

Como almas "gêmeas", continuamos eu e George a trabalhar no plano espiritual. É provável que em breve experimentaremos a vida corpórea novamente, mas isso cabe somente ao Pai determinar. Aqui, deixo minha memória desta vida que me ensinou muito sobre humildade, caridade, e, claro, amor sobre todas as coisas. Agradeço à médium pelo tempo que se dispôs a este trabalho e à proposta feita por seu guia que irradia na linha de São Jorge. Que com o tempo possamos nos reencontrar. De sua amiga e irmã, meus mais sinceros votos. ~Charlothe. 











Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...