"Caros leitores, irmãos em Cristo, saúdo-os e espero encontrá-los bem. Na espiritualidade amiga que me encaminhou aqui atendo pelo nome de Josué, mas, na existência cujo ensinamento aqui contarei, recebi outro nome. Não pretendo me prolongar nesta tarefa que Deus me encarregou com o objetivo de convidá-los ao bem, chamando-os para o serviço à luz de nosso Pai Celestial.
Na Irlanda oitocentista, me chamei Joseph. A região, Belfast, onde morei sofria com uma disparidade social absurda e muitos eram os que padeciam sob a fome e a extrema pobreza enquanto uma minoria desfrutava de um poder e uma concentração de riquezas muito mal aproveitadas.
Nasci em uma família que oscilava entre as duas posições: não éramos nem ricos, nem pobres, mas tínhamos o que comer e um teto para morar, roupas para usar. Minha mãe era camareira, meu pai, proletário de uma fábrica. Tive três irmãos: Louis, Mary e Angele. Todos os três foram nomeados em homenagem aos santos católicos. Lembro que minha mãe, Anne, disse ao meu irmão mais velho:
"Roga sempre ao seu padrinho para teu caminho. Embora ele abençoe a França, não vai jamais deixar de velar por você. Faça o que digo, filho, e sua jornada será reta."
Louis era um bom menino e por ser muito próximo de minha mãe, fez conforme lhe era ordenado. Curiosamente, terminaria seus dias em Saint-Denis, comunidade situada dentro da cidade de Paris, na França, e cuja abadia repousa a ossada de seu padroeiro. Meu irmão trilhou uma vida voltada para o mundo: batalhou para ter conhecimento, foi à escola e não desistiu até entrar na universidade. Formou-se advogado. À época em que ele estava com um cliente na França, foi apresentado às ideias espiritas e chegou mesmo a integrar a Sociedade Espírita de Paris. Mas não posso aqui me prolongar contando seus causos.
Minha irmã, Mary, já era um pouco mais espirituosa. Mamãe queria que fosse freira e seguisse os passos da Virgem, de quem recebeu o nome. Como podem ver, vim de uma família católica. Mas Mary nunca realmente aceitou sua encarnação. Aquela provação que a afastou do contato da sua vida anterior, passada no luxo e na ostentação da aristocracia escocesa, foi uma dificuldade que a opôs a mãe e ao pai, gerando em conflitos que, infelizmente, não seriam resolvidos naquela vida. Mary recusou a ajuda de Louis tanto em questão de esclarecimento quanto de ajuda financeira e terminou a vida infeliz, fugindo com um rapaz que provou ser um marido inadequado.
Angele era igualmente temperamental, mas mais racional. Não era propensa a rebeldia segundo o entendimento. Éramos, na verdade, muito próximos. Gostávamos de ler e escrever, principalmente comentar as Epístolas dos Apóstolos. Ela dizia se identificar com Maria Madalena, a quem se devotou.
"Eis a serva do Senhor que a Igreja nunca realmente aceitou", dizia. "Um exemplo omitido pelos homens orgulhosos e vis."
Sua opinião era reprovada pela mãe, mas, mesmo diante destas diferenças, jamais a ouvi reclamar da personalidade forte dos filhos. Resignou-se a fazer o que podia. Angele também terminaria sua vida em Paris ao lado de Louis, tendo se casado com um Monsieur de la Pachalle, outro espírita convicto. Mas quanto a mim, jamais saí de minha amada Irlanda.
Surpreendi meus pais quando disse que queria me tornar padre. Minha mãe se alegrou, embora o pai achasse desperdício. Mas era melhor dar utilidade à vida do que vê-la passar.
"Como dizia o Apóstolo Paulo, vá e seja útil em tudo o que fizer."
Optei, entretanto, por seguir a ordem agostiniana. Mas não vim aqui contar a minha vida, pois nela pouca utilidade há de fato para vocês. O que gostaria de reforçar é que, muitas das vezes, fazemo-nos surdos aos apelos de Deus que toca em nosso coração.
Uma vez, padre James sentou-se comigo e, olhando nos meus olhos, disse:
"Filho, por que quer ser padre?"
"Porque", respondei sem pensar, "quero servir a Deus. E Ele fala comigo no meu coração."
A vocação religiosa ou material pode surgir em nossas mentes segundo as convicções das épocas que vivemos, isso é inevitável. E muitas das vezes ela se apresenta a partir do caminho mais fácil. No entanto, isso contribui para a nossa infelicidade.
Durante a minha peregrinação, encontrei uma bela jovem infeliz. Esperava os pais terminarem de se confessar. Parei diante dela e perguntei:
"O que a entristece?"
"Padre, meus pais não desejam que eu estude: mas que eu me case por obrigação ou que eu vire freira. Não quero nenhum dos dois caminhos."
"O que tem feito para mudá-los de ideia?", indaguei.
"Não há o que fazer. Eles não me ouvem".
"Mas você se faz ouvir?"
Diante de seu silêncio, disse:
"Deus criou todos nós com alma, individualidade. Nossas vontades, nossos anseios, nossas ambições são nossas. Não são herdadas. Se Ele quisesse que fôssemos infelizes, ora, para isso imporia uma infelicidade a todos sem exceção. Mesmo aos mais materialistas, encontram-se felizes. Isso quer dizer que somos um, mas não somos iguais. O que é bom para mim nem sempre será a você. Não se anule. Deus não a criou igual sua mãe ou seu pai. Seu espírito não veio deles, mas Dele. O caminho que quer seguir não é o mesmo dos que geraram sua vida. Nos mandamentos, somos instruídos a obedecer, respeitar e amar nossos pais, mas não diz para nos anularmos em prol deles."
Não sabia, confesso, de qual outra fonte que não a de Deus vinha essas palavras. Mas Louis, quando veio me visitar, dizia que estava bem acompanhado. O anjo do Senhor o inspira, dizia ele, usando de termologia que pudesse entender.
"Mas se eu falar o que quero, gerarei briga. Não quero criar conflitos", a menina me disse.
"Tudo depende de como você fala. Não se responsabilize se o escândalo partir dos outros. Ore. Sei que Deus a orientará bem, contudo, pergunto: está preparada para trilhar o caminho que Ele preparou para você?"
O que quero dizer, bom leitor, é que sempre terão os que creem saber o que é melhor para nós, induzindo-nos a seguir o caminho com mais facilidade. Mas quando nos propomos a ouvir o que diz nosso coração longe das ambições do mundo, será que sabemos pegar as ferramentas que Deus nos deu e a partir disso fazer a trilha? Precisamos mesmo agradar aos irmãos que são tão falhos como nós, em vez de nos indagar se isso ressoa em nosso espírito e, por consequência, a Deus?
Nas cobranças da vida, tendemos a esquecer da fé e da paciência. Queremos respostas rápidas e soluções que amenizem os espinhos que coroam nossas cabeças e sangram os nossos pés. Queremos o sucesso temporário, esquecendo da alma no processo.
Mas quando São Mateus disse "tenhamos ouvidos para ouvir e olhos para enxergar", que quis ele dizer com isso? Enquanto pais que saibamos ouvir as aptidões dos nossos filhos e as projeções morais de seus espíritos sem que projetamos nossas fraquezas neles, aceitando-os como são e orientando-os para o bem desinteressado. E enquanto filhos, que enxergamos a fortaleza e destreza dos nossos pais, não obstante suas imperfeições. Saibamos aprender em família sem nos anular e nos inviabilizar neste meio.
O senhor Jesus disse que o Espírito vem do Espírito e não da carne. Quis dizer com isso que o espírito não somente vem do plano espiritual em sua origem, mas traz suas imperfeições, suas conquistas, seus conhecimentos de outras existências. Diante disto, pode um pai lhe dizer para ser carpinteiro quando tem habilidades para ser pintor? É preciso antes de tudo aceitarmos como somos e aqueles também que Deus encarrega para a orientação.
Modificar a criança para que aja segundo sua vontade é anulá-la. Quando o silêncio emudece, deve-se perguntar: por que se cala? E digo isto como no caso da menina que, não querendo desagradar aos pais, preferiria viver uma encarnação inteira infeliz. E Deus não quer que sejamos infelizes. Antes é preciso ter paciência com nossos processos e saber esperar no Senhor segundo recomenda Isaías.
Trago essas reflexões que fui fazendo ao curso da vida. Guardo em mim o espírito de um cigano que estava sempre a seguir como andarilho. Portanto, como padre, fui coletando essas experiências porque andei de um lado ao outro, sem deixar minha amada Irlanda para trás.
Às vésperas de meu desencarne, aos trinta e oito anos, meu irmão esteve comigo. De porte de clarividência, ele disse:
"Conseguiu a proeza de contar ao seu lado Patrício, o protetor da Irlanda. Que exemplo é, meu irmão!"
"Ainda tenho muito a caminhar e a aprimorar. Nada fiz que não tenha sido servir a Cristo e ao Pai." Tossi. Padecia do mal da tuberculose, comumente chamada de doença dos românticos. "Se ele abençoou minha jornada, sou-lhe grato. Rogo para que o mesmo ocorra a você, Louis. Estou me cansando..."
"É hora de regressar, amigo, tem muito a fazer do lado de cá", eu o ouvi dizer.
Louis se emocionou e eu também. Ser útil em tudo o que fizer, um lema que tomei ao meu coração. Roguei a Deus para que cuidasse dos meus. Assim, como sorri quando Patrício me socorreu. Sabem, penso ser útil dizer-lhes o que ouvi dessa generosa alma:
"Aqui deste lado não existem títulos, cor de pele, nada do que em Terra se distingue. Somos espíritos, filhos de Deus e, graças a Ele, irmãos de nosso mestre, modelo e guia Jesus Cristo. Nada impede que a fé e a boa vontade nos aproxime daqueles que têm o coração devoto e as intenções puras. Se repousa hoje, Joseph, amanhã trabalhará e levará a palavra do consolador aos que devem ouvir. Jamais estamos só menos ainda desamparados."
Aqui, concluo este meu relato na esperança de que estas reflexões possam tocar-lhe as almas e inspirá-los ao bem. Sigam seu coração, mesmo que o caminho seja difícil. É por ele que Deus o fala. E jamais sofrerão só. Para Ele, nada é impossível.
Que Deus a abençoe, minha menina, hoje e sempre. Grato sou por essa oportunidade. Juntos estaremos sempre com a graça divina.
De seu amigo e irmão, Josué."
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