domingo, 24 de julho de 2022

Contos da Irlanda, vol. 2: O Emitão pelo Espírito Dioniso Cabrera.

“Kildare, Irlanda. 490 D.C.

Estes eram tempos bastantes turbulentos como apoder-se-ia afirmar qualquer um que se dedicasse a estudar a Idade Média. Reflexo da materialidade primitiva do espírito terrícola, este era um período marcado por pestilências, guerras e ambições mascarados por uma falsa religiosidade. Todavia, nem tudo era escuro, e qualificar como “Idade das Trevas” aquela experiência de vida humana é fechar os olhos para a luz do renascimento espiritual que lutou bastante para semear os frutos da racionalidade que espíritos como Thomas de Aquino e outros filósofos menos conhecidos na Igreja (como fora dela) propagaram ao curso dos séculos. Nem tudo é para ser percebido pelo prisma extremista.

Minha experiência foi passageira e indigna de ser registrada nos avais da História, mas quantos de nós espíritos não fomos uma nota de rodapé, agrupados em uma única palavra, camponês, que buscava qualificar seres humanos que guardavam em si uma pluralidade de pensamentos, uma diversidade de sentimentos e ações que certamente diferenciavam uns dos outros? E isto somente no ocidente.

Pois bem. Permitam-me que me apresente. Meu nome não tem nada de irlandês, é verdade. Dionísio Cabrera é, em verdade, como sou conhecido no plano espiritual. Mas nesta encarnação, meu nome era mais complicado de escrever. Meu sobrenome, simplificando para a grafia moderna, era O’Donnel e o nome... Duncan. Duncan O’Donnel.

Encarnei no ano de 475 da era cristã. Filho segundo de meus pais Meera e Ivan O’Donnel, a doutrina cristã que fui educado conservava em si concepções que os mais ortodoxos olhariam como superstições tolas. A verdade era mais complexa do que as páginas empoeiradas pintadas pelos doutos da Igreja poderiam compreender. Sim, havia muita superstição. Nós, irlandeses, fomos criados em um ambiente completamente místico, no qual crenças simbólicas confundiam-se com a verdade, e o “sobrenatural” era confundido com o “natural”.

Acreditávamos em leprechauns, homens pequenos e cheios de traquinagens que, se não fossem alimentados com ouro e leite, nos roubariam e atrasariam nossas vidas. Deixávamos um pedaço de nosso pão às fadas, pois mesmo entre elas, temíamos as piores. O bem e o mal mesclava-se, e penso que esta noção das coisas veio dos gregos por meio dos romanos. De modo que entendia-se o bem como resposta ao agrado das deidades e o mal como reflexo do descuido do homem. Sempre em nós, nunca do divino, repousavam as faltas de nosso dia-a-dia, a sorte e o azar ponderados segundo o quão bem vivíamos...ou não. Se éramos pobres, não tínhamos cuidado de nossos ancestrais. Se éramos ricos, fomos abençoados. Naquele mundo, a natureza nos cercava. Se nos protegia de tempestades ao fornecer abrigos sem perigos e nos alimentava, ora... havia uma força por trás disso.

E quando ficávamos doentes, a magia curava. E que magia era esta? A realidade, meus bons amigos, é mais prática do que se pode pensar. O conhecimento de ervas, a observação prática e teórica, a manipulação do pensamento... Pois, como devem saber, pensamento é vida, é forma elementar de comunicação. Do pensamento, brota a intenção que pode vir a ser uma ação. Esta é a magia. É a vontade, o uso da razão posto em prática. Não há nada de místico nisso. E como somos espíritos milenares, o conhecimento continua conosco, não importa qual casca tomaremos forma.

Dito isso, os leprechauns eram, na verdade, seres elementais. Em transição de um reino para outro, são espíritos que não são tão racionais assim. São puros, mas obedecem ás ordens superiores. Não possuem muitos conhecimentos, não de ordem espiritual. O que com isso quero dizer? Eles são sábios em se tratando da fauna e da flora, mas não de questões humanas. E tudo bem, porque um dia chegarão a este estágio. Havia uma lenda muito primitiva na Irlanda, antes mesmo da chegada dos celtas, que afirmava que todo leprechaun era um espírito humano encapsulado. Metaforicamente ou não, a ideia é essa: de que um espírito em evolução sairá dali para ocupar o corpo humano. No mais, os leprechaus eram neutros, não faziam mal a ninguém, incapazes de ferirem a outrem como se temia. Contudo, nas mãos dos maquiavélicos, era outra coisa. E as fadas, por sua vez, não eram tão más como se supunha. Também, como os leprechaus, eram seres em desenvolvimento, cumprindo importante papel na proteção da natureza. Mas eram raramente vistas, ainda que o véu “místico” recaísse nas zonas de Albion.

Dito isto, o conhecimento amplo daquele povo sobre o plano espiritual e sua pluralidade era, na sua encarnação, recheada de superstições que refletiam suas limitações morais. E a própria Igreja cristã precisou se adaptar a isto. A santa Bridget, responsável por ser uma das fundadoras do condado de Kildare, à época do meu nascimento enfrentava dificuldades porque o povo temia bastante ataques de elfo e acreditava que Gaia os punia pelo breve período de seca. Como convencer aquelas pessoas que elfos não existiam (ao menos, não como pintavam; não eram seres malignos, mas muito mais evoluídos do que concebemos) e que a seca era um processo da natureza, nenhuma relação portando com a divindade? A verdade é que a noção espiritualista de punição divina veio com os povos exilados à Terra, que vieram habitá-la depois de terem cometido muitos crimes contra a lei divina em outros planetas. É por isso que aqueles espíritos de orbes sirianas, capelinas, dentre outros, ajudaram a criar na mente coletiva essa ideia de que somos punidos por algo Maior. Mas o umbral, que nada mais é do que estado da consciência do espírito culpado e que o une aos seus semelhantes segundo sua vibração, foi nomeado Hades, Hel, e, com o advento do cristianismo, inferno. Na verdade, são espíritos que se punem pelas péssimas escolhas feitas durante a existência corpórea, e por isso nosso planeta segue em provas e expiações.

Peço que me desculpem pela minha empolgação, que resultou em um pequeno desvio do assunto. Mas como posso recontar minha memória daquela encarnação sem apresentar a vocês o devido contexto do mundo em que vivi?

Como devem ter percebido, encarnei camponês. Carregava eu mesmo pretérito culposo. Fui ambicioso sacerdote na Roma de Augusto; antes disso, fui chefe tribal perto dos Hunos, que incentivava as guerras germânicas. Vivi na Grécia Antiga em diferentes épocas, buscando o esclarecimento que a filosofia proporcionava. Em algumas existências, obtive êxito; em outras, me desvencilhei do planejamento. A vida como camponês foi-me escolhida porque, desde os tempos de Augusto aos dias de Bridget, fui me educando e reeducando em longo processo espiritual. Pedi por isso antes de encarnar, pois precisava me conscientizar dos ensinamentos de Cristo. Eu tive toda a oportunidade de ter vivido até mesmo aos seus dias e o procurado, seguido para me evangelizar. Podem imaginar meu remorso. Fiquei perdido por uns dois séculos ao me dar conta disso, mas quando pedi por socorro, o Pai não me virou as costas. Dediquei-me, no Plano Espiritual, na colônia que não posso nomear, a estudar e esclarecer. A meditar sobre os erros, os desvios, as corrupções que submeti a mim mesmo por escolhas terríveis que, racionalmente, optei. E cheguei a conclusão que, até que o Pai decidisse que eu merecia uma existência melhor, precisaria viver em termos que exigissem de mim o melhor que poderia para expiar-me ante os crimes que realizei.

Assim, nasci em uma família de algozes, se é que este termo pode ser utilizado com justiça. Não fui nenhum santo. Mas minha mãe, Meera, pretendia me remover de seu útero porque, bem, ela se relacionou com outro homem enquanto estava casada com meu pai, que não era lá um homem honesto. Meera, mulher de quem herdei os cabelos ruivos e os olhos claros, era bela e astuta, sabia disso, mas abusou da beleza. Apesar disso, tinha fé, mesmo que a recheasse com superstições. No entanto, seu espírito milenar conservava sabedorias. Foi ela quem me ensinou a identificar as ervas, a diferenciá-las entre medicinais, comestíveis e venenosas. Para se ter uma ideia, cultivávamos uma planta com propriedades medicinais bastante parecidas com as do boldo. Usávamos com cautela, pois o chá, que nada mais é que ferver em água quente a folha que se deseja consumir, tem suas contra-indicações. O boldo, por exemplo, se tomado diariamente (literalmente: segunda, terça, quarta-feira... e assim por diante), pode resultar em inchaço do fígado. Mas se preparado em determinados dias, observando o clima e a necessidade, é excelente remédio para o estômago, intestino e fígado. Nada em excesso é recomendável se fazer uso, alertava minha mãe. Outra planta próxima à família do bambu apresentava propriedades medicinais, e elas viriam me ajudar bastante mais adulto.

Suponho que a natureza foi bastante útil a minha mãe, que ajudou tantos doentes de nosso povo. Teria recebido o epíteto de bruxa pela Igreja, não fosse a intervenção de Bridget, hoje reverenciada como santa. Bridget era uma mulher bastante sábia, pacífica, cuja candura inspirou tantos a não desprezarem os ensinamentos de Cristo em tempos muito marcados pelo apego aos ensinamentos supersticiosos. E não entendam que aqui critico os ditos populares, mas aqueles que, à luz da razão, refletem mais a limitação do pensamento humano do que outra coisa.

Meera foi, certamente mais do que meu pai, a responsável pelo meu caráter. Quando criança, eu era muito teimoso e raivoso. Tinha pesadelos: o que eu afirmava serem demônios ou elfos do mal eram espíritos que eu havia destratado em outra vida e que não aceitavam minha encarnação. Meera me levou a Bridget, poderosa médium à época, que, olhando meu rosto sujo, levantou meu queixo e, mirando-me com profundidade, disse com sua voz doce:

“Você deseja se livrar do pecado, rapaz?”

“Não entendo o que isso quer dizer”, falei, ousadamente. Ou no que pensei ter sido ousado, na ocasião.

“Perdoe as maneiras do meu filho, senhora”, desculpou-se minha mãe, interrompendo a conversa. “Tento educá-lo, mas ele me respeita mais que o pai por conta do chicote que lhe dou de palmada quando me desacata.”

Bridget sacudiu a cabeça e, ainda sorrindo, disse com muita calma:

“A conversa seria mais sensata do que o uso da violência, minha irmã. Foi assim que nosso mestre Jesus expulsou os demônios. Conversando com eles, os educou e os direcionou a uma vida mais simples e sem maldades.” Virando-se a mim, disse: “Crê ser como um deles?”

Arregalei os olhos e, tendo em mente as figuras que me aterrorizavam em sonho, falei:

“Não, por favor! Sou desobediente, nada mais.”

“Quer se melhorar, meu jovem?”

“Sim, por favor!” Disse eu, como se impelido por uma força invisível.

Ainda se construía enorme catedral que marcaria aquele terreno por longos anos, consagrada ao senhor Jesus, mas o local onde estávamos, uma capela simples e empoeirada, guardava suas sementes.

“Muito bem. Vou aceitá-lo para orientá-lo a uma vida monástica. Mas deve me prometer obediência ou sofrerá com estes seus perseguidores.”

Meera pranteou e disse:

“Meu marido e o irmão mais velho não o suportam. Queriam matá-lo, tem sido insuportável. Promete-me que ele estará seguro aqui?”

Em suas vestes brancas, jamais cinzas, aquela mulher de olhos azuis como o céu sorriu com bondade ao responder:

“Tranquilize-se, minha senhora. Jesus nos acolheu, e logo mais acolherá sua família também.”

A fim de esclarecer melhor o leitor, digo que meu pai e minha mãe eram espíritos que, em outra existência, padeceram do excessivo uso de riqueza que os direcionaram ao mal. Minha mãe buscou aprimorar-se logo, mas meu pobre pai ainda demoraria uns bons séculos até aceitar redenção. Bom, quanto a mim, eu os prejudiquei, assim como a meus irmãos. Por isso, além dos pesadelos, minha infância foi marcada por um pai que, embora não me batesse, me tratava com fria indiferença e claro favorecimento ao irmão mais velho. Além disso, havia irmãos mais novos, alguns dos quais não passariam da infância, que se uniam também em seu desamor a mim. Não os culpo agora, nem anteriormente, mas não posso negar que fui infeliz. Merecidamente, sem dúvida, mas adianto que nos resolveríamos naquela mesma existência. Pois minha mãe, depois de ter se convertido ao cristianismo quando criança, encantou-se com Maria na juventude e prometeu segui-la como seguira a Gaia. Acabaria confundindo as duas, mas que importa, se na prática significava mudança sincera de atitude? Abraçou-me e, mesmo quando me batia ou educava, via pouco a pouco amor dissolver seu antigo duro coração. Permaneceríamos próximos até o dia de sua morte.

Bem, retomando à narrativa, aquela que seria cultuada na posterioridade como Santa Bridget me acolheu em seu seio. Dedicou-se a me ensinar, até o dia em que completei dez anos, a leitura das Sagradas Escrituras, os atos dos apóstolos, a missão evangelista de Cristo na Terra. Certificou-se de que leria e escreveria bem, pois o servo da Igreja precisava destas aptidões para evangelizar o próximo. Ela pretendia me enviar a Dublin a fim de que encontrasse com um dos “filhos” (entenda-se aqui discípulos) de São Patrício. Mas antes disso, me educou como bondosa mãe, conversou comigo sobre o que era certo e errado e ficou bastante feliz quando comecei a me modificar. E, no entanto, foi preciso de bastante trabalho para que a reforma íntima rendesse frutos.

Ainda na infância, por conta do ambiente em que me inseri, acabei me tornando muito agressivo. Com isso, batia nos outros meninos, me envolvi em muitas brigas. Alguns dos padres não queriam me aceitar por conta do meu temperamento volátil. Mas aquela senhora de espírito ímpar e coração muito bondoso jamais desistiu de mim. Quando muitos acreditavam que as chibatadas fariam efeito, ela fez da conversa método eficaz. Um dia, estava emburrado porque me colocaram em um quarto escuro para “pensar” no que fiz. Ela entrou como uma rainha, postura admirável e nobre. Lembro de ter-lhe admirado a luz que a cercava. Abriu as janelas e, de bom humor, disse:

“O erro dos homens é achar que a cura para as trevas interiores está no mergulho às trevas exteriores.” Quando o quarto se iluminou com as luzes provenientes do sol que brilhava pátio afora, ela se virou para mim, em minhas vestes maltrapilhas, e se sentou. Sorriu-me e disse. “Você tem me dado muito trabalho, meu querido.”

Diante da afeição com a qual se dirigia a mim, senti-me instantaneamente envergonhado. Baixei o olhar para minhas mãos sujas. Percebi que a raiva e a cólera eram emoções com as quais havia me acostumado a lidar mais do que o amor, o carinho, o afeto. Minha consciência já brotava a reprimenda: é justo responder ao tratamento com o qual me dispensava daquela forma? Foi quando disse:

“Me desculpe, senhora. Não foi minha intenção.” Uma pequena pausa. Senti que não estava sendo sincero o suficiente. Lágrimas brotavam de meu rosto quando falei, entre soluços: “Eu tenho esse impulso, sabe-se Deus de onde, de querer me colocar acima de tudo e todos. Não gosto disso, só me faz mal. Acho que a culpa disso está nos meus pais. Digo, no meu pai, que nunca gostou de mim.”

Compadecida, aquela mulher me ofereceu misericórdia. Tomou seu banquinho, colocou ao meu lado e me envolveu em seu abraço. Senti emanar de si um cheiro de rosas brancas que me tranquilizou instantaneamente.

“Estamos melhorando. Já não é mais o menino orgulhoso e colérico que entrou aqui, Duncan. É verdade que esses traços que não te fazem bem vêm com você mesmo. Sabe que isso é uma herança de outra vida”. Mesmo cristã, Bridget conservava em si ensinamentos apreendidos de uma existência pretérita enquanto sacerdotisa druida. Era uma crença, todavia, que persistia entre os irlandeses à época. “Nosso Senhor pede que seja curado, mas isto cabe somente a você. Sem dúvida, seu pai errou quando não o acolheu com o amor que merecia e isso provavelmente o teria poupado de desenvolver uma personalidade mais violenta. Mas que importa isso agora? Quem é o responsável por suas ações: ele ou você?”

Depois de alguns segundos passados em silêncio, meditando comigo mesmo, respondi:

“Eu.”

Ela sorriu.

“Mas Deus teria vergonha de mim”, eu falei, rompendo-me em súbitas lágrimas, sentindo em mim inexplicável dor. “Não sou bom filho para Ele. Serei enviado ao inferno conforme os padres disseram.”

Bridget fez uma negativa com a cabeça e, ainda me acolhendo contra si, disse:

“Não, não creia nisso, meu filho. Deus é bondoso demais para condenar qualquer filho. Jesus não disse: quem nunca pecou que atire a primeira pedra? Quem de nós não carrega pecados, sejam desta ou outra vida? É por isso que um de seus grandes ensinamentos consistia em não julgar a falta do próximo. Somente nós condenamos a nós mesmos quando escolhemos o caminho do erro. Deus é nosso Pai, criança, e por que Ele haveria de desertar um filho desobediente? Ao contrário, Ele aguarda pacientemente por nosso retorno. Pois se fomos capazes de nos afastar Dele, somos igualmente capacitados em nos volver a Ele.”

“Ele me perdoaria?” Eu indaguei, incerto quanto a concepção de um Pai que não pune.

“Sim. Jesus, quando foi enviado por Ele para nos ensinar sobre o amor e o perdão, não morreu por nós? Não nos perdoou? Por que o Pai recusaria isso sobre nós? Contudo, pergunto a você: se perdoaria, Duncan?”

Quase que instantaneamente, respondi:

“Não.”

“Mesmo que o Pai lhe oferecesse perdão?”

Baixei o rosto e disse: “Sou indigno.”

Mas ela me levantou o rosto e com olhar amoroso, disse maternalmente:

“Ninguém é indigno de receber o perdão do Pai. A questão é querer, e tudo se inicia de dentro para fora. Para que possamos perdoar os erros dos outros, meu filho, precisamos nos perdoar por tudo aquilo que cometemos. Esqueça o que os padres lhes disseram. Lembre-se de Jesus. Se ele estivesse aqui, agora conosco, o que diria?”

“Pediria perdão por ter sido ruim”, eu murmurei. E desatei a chorar novamente.

“Deixe as trevas irem embora, ele diria isso”, afirmou Bridget, consolando-me ternamente. Sem que soubesse, enquanto acariciava o topo da minha cabeça, aplicava passes e afastava de mim meus obsessores. “Ele o perdoaria e o amaria do jeito que é. A modificação que ele deseja de nós é apenas uma, Duncan. O amor que ofertamos aos outros é o mesmo que oferecemos a nós também. Como amar e auxiliar o próximo sem fazer isso conosco? Ama a si mesmo para que possa amar aos outros. Todos os que lhe fizeram mal foram ignorantes do amor de Cristo como também você um dia o desconheceu verdadeiramente.”

“Posso merecer este amor, senhora?”

“Claro que sim! Ora, Duncan, todos somos merecedores deste amor. Mas precisamos melhorar bastante para recebê-lo, compreende? Precisamos trabalhar em nós as imperfeições, desenvolver o hábito da misericórdia, da compaixão, do amor. Quando somos misericordiosos com nossa inferioridade, quando temos compaixão com nossas dificuldades, quando amamos nossas trevas, a luz suplantará as sombras. E é então que podemos levar a palavra de Cristo ao próximo. Precisa senti-lo em você, senti-lo nesta reforma, para que aquele a quem receberá de você o ensinamento do evangelho saiba que fala com Verdade.”

“Vou me esforçar para ser digno, senhora”, prometi, subitamente inspirado. E falei a verdade, pois a compaixão e o amor com os quais me havia recebido, sem jamais tendo levantando uma palavra contra mim, sem nunca ter defendido uma punição violenta que eu merecia sofrer, me fizeram crer no exemplo cristão que ela me passava. “Vou lhe orgulhar, não mais irei desapontá-la.”

Ela riu e me depositou um beijo sobre minha fronte e disse, emocionada:

“Sinto em você a Verdade. Jesus tocou em sua alma, fui apenas seu instrumento. E que graça o Pai nos concedeu. Não sei se viverei o suficiente para acompanhá-lo na jornada, mas saiba que o amor não morre. Ele permanece, ele é imortal. E jamais o desampararei aonde quer que esteja, Duncan.”

Foi naquele instante que, pela primeira vez na vida, eu falei:

“Eu a amo, senhora. Que Deus a abençoe.”

E quando a vi prantear, também rompei eu novamente em lágrimas. Mas desta vez, foram de felicidade. Pois eu havia dado os primeiros passos de minha renovação.

*                                                               *                                                                   *

A minha adolescência foi mais tranquila. Suportava as implicâncias de meu companheiro com resignação, carregando comigo o exemplo daquela que não tardaria a ser santificada. Fiquei muito triste quando Bridget veio a desencarnar, mas ao mesmo tempo alegre porque senti que havia sido arrebatada pelo Senhor. Todas as noites, desde então, guardava um momento de orações para dedicar a ela, cuja existência me foi tão impactante que foi a principal causa para minha reforma íntima.

Dominar meu temperamento foi muito difícil porque quando se é jovem como eu fui, temos a infeliz tendência de nos crer sabedores de tudo. Não há novidades, e quando tentam nos inculcar outras perspectivas, normalmente nos achamos mal humorados e fechados para o diálogo. Não ajudava muito a arrogância juvenil que me isolava dos outros porque não aprovava a conduta de muitos daqueles aprendizes de sacerdote passarem sua vida em devassidão. Sim, julgava o comportamento alheio, criticava a pobre leitura feita sobre o Evangelho e achava-me correto porque, na minha visão, eu era o mais certo de todos em questão de moral. Acreditava que já havia me reformado, quando, em verdade, eu me estagnei.

Uma noite, enquanto era zombado pelos outros companheiros por viver para os estudos e achar-me acima deles por isso, um zelador da Igreja me pediu a palavra. À época, contava treze ou quatorze verões, e esse era um homem idoso, velho para os padrões daqueles dias, devendo contar uns cinquenta anos. Em vestes maltrapilhas, veio se dirigir a mim, reparando em minhas feições a arrogância de outras vidas que precisava ser despojada.

“Com licença”, ele disse com simplicidade. “Poderia ter a honra de falar com o senhor?”

Crendo-me sábio, senti o ego elevar-se quando o zelador, homem gentil, me tratou daquela forma. Aquiesci e, em um pequeno aposento, sentamo-nos à mesa. Ele acendeu a vela para melhor iluminar o ambiente e, encarando-me nos olhos, disse:

“Posso lhe falar com franqueza, senhor Duncan?”

Surpreendido com o conhecimento de meu nome, pois jamais havíamos trocado palavras até então, falei:

“Como o senhor sabe...?”

“Apenas sei.” Ele deu de ombros, como se aquilo não fosse relevante. “Acredito que há mistérios que não nos compete conhecer. Não é para tudo que fomos capacitados obter o conhecimento.”

Franzi o cenho, parcialmente surpreso pelo seu modo de falar, contrastando com suas roupas. Satisfeito com a impressão que me havia colocado, ele prosseguiu:

“Acredito que falte ao senhor uma figura paterna. Permita-me ocupar este espaço, menino. Você tem tanto potencial. Deixe-me orientá-lo.”

Com arrogância típica de quem crê saber mais que todos sobre tudo, retruquei:

“Não preciso de orientação, obrigado.”

Ele riu.

“Ao menos conserva suas boas maneiras. Mas se não precisasse, não estaríamos aqui. O senhor já teria partido.”

Com um suspiro, falei:

“O que quer de mim, zelador? Não sou padre ainda e nem posso auxiliá-lo com suas questões, sabe-se lá quais são. Hoje em dia, me dizem que não preciso de orientação.” E, soberbo, acrescentei. “Em breve, serei enviado à Dublin para minha primeira missão de catecismo.”

O zelador sacudiu a cabeça, mas disse com gentileza:

“O senhor, com todo o respeito, não está pronto para isso.”

Senti a velha cólera emergir-me e antes que a atirasse contra aquele pobre homem, uma voz feminina que me era conhecida disse, em alto som:

“Continuará a se comportar assim, Duncan? É esta a reforma íntima que prometeu ao Senhor? Sente-se e o escute.”

Envergonhado, pois reconheci de imediato que era Bridget quem me dirigia a justa reprimenda, percebi que meu rosto queimava. Mas, para além disso, em meu peito suas palavras pesavam sobre mim, recordando aquele momento. E percebi que pouco, muito pouco mudei e que traí a promessa feita a Bridget. Lembrando-me do remorso pelas atitudes infantis diante da sempre bondade com a qual me tratou e educou, sentei-me e baixei os olhos.

“Perdoe-me”, e como se finalmente percebesse porque era detestado por todos, admiti: “Continuo orgulhoso.”

O zelador pareceu se satisfazer com minha resposta e disse:

“Fico feliz que a voz da senhora o tenha chamado à razão. Sim, eu também a ouvi. Mas isso não vem ao caso. Infelizmente, nesta casa, raros são os que, investidos pelo poder religioso, cumprem seus votos junto a Cristo e não são corrompidos pelo secularismo. Sou um mero zelador, de fato. E à propósito, pode me chamar de Zacarias. Minha mãe era cristã e quis colocar meu nome em razão do esposo de Elisabet e pai de João, o Evangelista.”

Ofereci-o a mão, ele a aceitou e depois do cumprimento, Zacarias continuou:

“Em todo o caso, está cercado de muitos como você, menino. Movidos pela soberba, disfarçam-se de cristãos os julgadores da moral alheia; os crucificadores de Cristo agora levam a palavra Dele segundo seu entendimento. E não pode você, que se comprometeu a reformar-se, seguir este caminho. Não se prenda aos modismos. Escute sua fé.”

Engoli em seco e percebi que me sentia perdido.

“O que quer que eu faça?”

“Não é questão de querer, não sou dono de ninguém, nem pretendo ter esta pretensão de dizer a você o que deve fazer”, ele disse, sorrindo. “Apenas quero orientá-lo para os ensinamentos de Cristo. E não acredito que aqui seja o lugar mais adequado para isso. Precisa de trabalho, e não dos mais fáceis.”

Ele fez uma pausa, deixando que absorvesse suas palavras. Foi quando disse:

“Precisa regressar à casa e levar a palavra de Cristo ao seu pai.”

Meus olhos se arregalaram e foi quando a ferida que pensei ter sido cicatrizada bombeou.

“Não posso fazer isso!”, protestei.

“E por que não? Jesus escolheu a quem professar seus ensinamentos? Também ele não falou a Heródes, que se autointitulava “O Grande”? Jesus não se humilhou perante aqueles que os desprezavam?”

“Não sou digno de ser comparado a Jesus”, falei.

“E, no entanto, despreza seus ensinamentos. Será que é diferente dos que critica? Há um motivo pelo qual tantos semelhantes se reúnem em um mesmo local. Pense um pouco, meu filho.”

Depois de um tempo, contra minha vontade, disse:

“Pois bem. Vou me esforçar em cumprir essa missão.”

Observando meu desânimo, Zacarias depositou a mão sobre meu ombro e disse:

“Nessa cruz que carrega, não está só. Mas lembre-se de perseverar. A reforma começa dentro de nós mesmos e geralmente surte efeito quando nos propomos a trabalhar. Se seu pai persistir no erro, não lhe compete afundar-se com ele. A não ser que esta seja sua escolha.”

Ignorando as presenças espirituais de Bridget e de Patrício, respeitáveis espíritos que velavam pela Irlanda (e ainda seguem velando), eu me senti inspirado de coragem.

“Ao que parece, me encherei de Espírito Santo”, falei, timidamente.

Compreendendo o real significado de minhas palavras, Zacarias sorriu.

“Ótimo. É porque Deus abençoa a missão. Ide, meu filho, e quando regressar, tornaremos a partir novamente, se assim permite que o acompanhe.”

Tomado por estranha sensação de familiaridade que ele me inspirava, aquiesci com urgência e prometi que, quando voltasse, sairíamos juntos. Diante disto, concluímos aquele encontro, ou melhor dizendo, reencontro, com uma prece e partimos diferentes caminhos. Naquela noite, mal conseguia pregar no sono, pensando em tudo o que deixei de fazer desde que Bridget partira. Quando percebi, e desta vez sem intromissão do ego, que eu mesmo era o responsável pela minha infelicidade, meditei nas palavras daquela senhora que me guiava. Adormeci sem completá-las. Durante o sonho, ela veio me visitar e me ajudou a desprender-me do corpo para que pudéssemos conversar. Na ocasião, ela me recordou da minha missão, planejada na espiritualidade com meus mentores e guias espirituais. E não poderia esquecer-me da importância em modificar-me para não repetir os erros de vidas pretéritas, explicando-me como e porque errei aonde errei. Para minha surpresa, embora envergonhado, soube ouvir sem questionar, aceitando, resignando-me e me enchendo de coragem para a vida difícil que eu mesmo optara a fim de me corrigir diante de Deus.

Na manhã seguinte, inspirado, despertei antes do horário de costume, coloquei minhas vestes simples amarronzadas e parti para meu lugar de origem. Foi uma longa caminhada, mas finalmente sentia-me em paz comigo mesmo. Prometi ao Pai celestial que daria meu melhor, não desanimaria diante dos obstáculos que a vida preparava para mim. Quando cheguei à velha casa de palha, o velho homem, reconhecendo meus cabelos ruivos e expressão apática, veio em minha direção.

“Quem é você?” ele rosnou.

“Sou seu filho. Duncan O’Donnel”, respondi com tranquilidade, embora no fundo sentia-me nervoso.

Ivan O’Donnel estava careca e com rosto marcado por pestilência. Marcado pela gota, mal conseguia caminhar sem precisar de apoio. De seu corpo, vinha um cheiro desagradável. Além de sofrer no plano físico, na carne, também padecia espiritualmente. Deus permitiu que entrevisse com os olhos da alma a severa obsessão a qual estava submetido. Senti-me tremer pela insegurança, mas o bom anjo guardião que me acompanhava inspirava-me forças.

"Não tenho nenhum filho com este nome", retrucou. 

É difícil lidar com nossos adversários em nossa caminhada espiritual pela Terra. A provação pode ser muito severa, confundindo-se com o conceito de punição que trazemos de nosso exílio a esta orbe como falei. Senti-me magoado e ferido com aquelas palavras. Mas também percebi que tinha em minhas mãos a escolha: quem eu quero ser? Um espelho das faltas de meu genitor ou um seguidor de Cristo?

"Sim, o senhor tem", falei com gentileza. Percebi que sofria, mesmo que seu orgulho não admitisse isso. "Pode-se ter esquecido de mim, meu pai, mas o senhor jamais deixou meus pensamentos."

Ivan soltou um urro que, logo em seguida, percebi ser uma risada. Fria, sem qualquer resquício de humor. Em meu íntimo orei. Meu anjo da guarda sussurrou: "Não desista. Está amparado, prossiga".

"Que prepotente se tornou. Agora vejo que é o menino que sua mãe deu à luz e que, segundo ela, é de meu sangue." Ele cuspiu. Temi que viesse me agredir, mas a espiritualidade interferiu. "Você não é. Sei que é um bastardo."

"Por que me ofende? Vim visitá-lo. Sei que não é tão ruim quanto gosta de dizer." Ao me colocar no lugar dele, diante de tanto sofrimento, poderia culpá-lo por se portar assim? Embora uma parte minha respondesse positivamente, havia outra que negava. Optei por ignorar o conflito interno. "Há bondade no senhor, meu pai. Permita-me entrar em sua casa e oferecer um consolo para suas dores."

Novamente o homem me respondeu com ofensas, algumas das quais pouparei o leitor de conhecê-las. Como humano na carne, sobretudo naquele período, não posso negar as minhas emoções. Sim, sofri ouvindo-as e senti vontade de prantear. Mas confiava antes na missão designada pelo Pai.

"Estas palavras refletem o quanto se distancia de Cristo." E percebi que falei mais comigo mesmo ao fazer aquela constatação. "Quer tanto crucificar-me pela dor que padece, meu pai?"

"Já falei que não sou seu pai!" ele gritou.

"Sim, você é", eu disse com repentina tranquilidade, o que o irritou. "Cresci nesta casa. Comi do seu pão, trabalhei junto ao senhor na lavoura. Não me esqueci destes raios de luz que habitam em seu coração. Se achasse mesmo que sou um bastardo como quer me fazer crer, se o senhor desse vazão aos seus hábitos violentos, não teria me acolhido a sua maneira. Jesus o ama. E é por meio dele que o amo também. Eu o perdoo pelas suas imperfeições."

Ivan foi levado às lágrimas. Sabia que os espíritos imperfeitos que o rondavam sofriam com ele. Por isso fiz uma oração, aquela que Jesus ensinou aos seus apóstolos.

"Jesus que tanto nos amou e morreu por nós na cruz ensinou-nos sua misericórdia e o profundo amor que incorpora diretamente de Deus Uno. Ele se cercou de seus apóstolos e disse: eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz." Emocionei-me ao deixar que aquelas palavras, reflexos de inspiração divina, saíssem de minha boca. "Não olheis para os vossos pecados, mas para a fé que vos anima, personificando a igreja do Pai que nunca vos abandonou. Em verdade, em verdade, é a fé que salva. Olhai para si e verás que em ti mesmo resides a tua própria salvação. Mas se o dia há que esqueçais dAquele que vos criou, lembrai-vos de olhar para dentro de vosso coração. E dizeis as seguintes palavras: Pai Nosso, que reside acima das vontades mundanas, santificado é teu nome, que faça despertar em nós o teu reino, e que possamos respeitar a tua vontade, que é a mesma que opera na Terra como no Céu. Teu pão alimenta a fome de nossos espíritos. Perdoai-nos pelas ofensas que contra ti cometemos e inspirai-nos a perdoar as faltas de nossos ofensores. Ajudai-nos a não sermos tentados pelo mal que ainda reside em nós. Amém."

Caro leitor, não posso dizer que fui o responsável por professar bela oração. Seria incorrer no orgulho. De onde veio palavras tão ricas e profundas? Deus fez-me seu instrumento e foi ali que compreendi o que dizia. 

"Não sou digno deste Jesus", disse Ivan. Estava de joelhos no chão. Ajoelhei diante dele, não sentindo mais a presença de nossos irmãos espirituais que o obsidiavam. "Não posso aceitá-lo."

"Diz uma palavra e será salvo", falei. "Salva-se, meu pai. Eu rogo."

A consciência dele o atormentava. Estava, porém, enfraquecido demais: a obsessão que vinha sofrendo levou anos e quase o subjugou fisicamente. No entanto, agora encaminhava-se para o desencarne. Era preciso que isso se sucedesse uma vez que os laços fluídicos entre ele e seus obsessores tinha chegado aquele ponto. Todavia, só compreenderia isso depois.

"Desculpe", ele disse. O orgulho o cansava. Apesar disso, não era forte o suficiente para se desculpar pelo que fez. "Fui um pai terrível. Perdoe-me, meu filho, por não tê-lo amado como deveria. Concede este perdão para que eu vá em paz."

Mesmo no final, ele não tinha aceito a Jesus. Não era o momento dele. Apesar disso, assenti com a cabeça.

"Sim, meu pai. Eu o perdoo. E peço que me perdoe por não tê-lo amado como devia."

Meu pai sorriu. Havíamos finalmente dissolvido séculos de rivalidade. Era um progresso para aquele espírito, não obstante as suas demais fraquezas que eu desejava remediar. 

"Não há o que perdoar. Obrigado por me dar paz." 

E seus olhos se fecharam. Fiz um sinal da cruz sobre sua cabeça e, mesmo em meio aos soluços, abracei-o contra mim. E roguei pela misericórdia divina. Foi naquele momento que meu anjo guardião se mostrou a mim.

"Eis a lição que desatou o grande nó que pesava sobre a mácula que, em seu espírito, precisava ser resolvida nesta existência. Muito embora seu pai não fará a passagem tranquilamente, seu perdão e suas preces aliviaram sobremaneira a carga que ele carrega. No entanto, nada tema. O socorro virá quando ele estiver pronto para auxiliá-lo. Cuida agora da sua jornada e cumpra sua missão, Duncan."

Deste modo, o enterrei apropriadamente. Enquanto o fazia, porém, meu irmão mais velho apareceu. Não fosse pela intercessão divina, ele teria me agredido. Tanto com palavras quanto com gestos. Contudo, ele baixou a guarda ao contemplar o enterro e disse:

"Que fez dele, Duncan?" 

"Deus acho por bem chamá-lo de volta", respondi. "Acho que a terra o guardará bem aqui, provendo proteção ao seu corpo."

Meu irmão deu uns passos a frente, indeciso quanto ao que julgar minhas ações. Finalmente, ele se comoveu. 

"Ele merecia a morte. Não foi justo com você, vejo agora. E quão tolo fui por agir injustamente com você."

Virei-me para ele. O irmão orgulhoso cedia às lágrimas e reconhecia suas faltas. Observei como Deus operava nos corações mais duros. E como eu não poderia me comover? 

"Agradeço a Deus por isso. Mas antes preciso que me ajude aqui."

No final do dia, éramos nós dois. Depois de enterrar o pai no quintal do terreno que, entretanto, não nos pertencia em razão da posse da propriedade residir no senhor de Kildare, sentamos juntos com uma cerveja na mão na casa que caía aos pedaços.

"Me conte do seu Deus", pediu ele. "Acho que Ele falou comigo. Não acho que os velhos deuses tenham me impelido a perdoá-lo, Duncan."

Eu sorri diante do conflito que passava por sua consciência.

"Também acho que eles não são muito inclinados ao perdão", disse eu. "Mas quem somos nós para conhecer as divindades? Querendo ou não, são criações do Pai que devemos obediência. Talvez nós, em nossas limitações, as tenhamos mal compreendido."

"Faz sentido", ele aquiesceu. "Mas me diga dele."

E falei de Jesus, da sua trajetória na Terra. Contei sobre seus milagres, sobre os apóstolos. Para minha surpresa, meu irmão desatou a soluçar quando contei sobre a crucificação. Mal sabia eu que ele tinha feito parte dos sacerdotes hebreus que tinham instado o povo a pedir pela morte de Cristo. Não obstante, fui tomado por misericórdia e compaixão.

"Por que tanto sofre, meu irmão?"

Ele demorou um pouco para se acalmar. Seu coração pesava e eu sentia sua dor. Meu Deus, pensava. Que Ele pudesse dar ao irmão a compaixão que requisitava. 

"Não sei explicar", e ele me lançou um longo, significativo olhar. "Me parece que fui um dos responsáveis por Cristo partir. Por que, eu pergunto? Sou tão cruel?"

"Não se odeie, por favor", implorei. "Pense comigo: o passado está no passado. Se Deus permite que o saiba, é para esclarecê-lo para o futuro. Este ainda está em aberto para que possa se redimir. Acha que eu também não carrego comigo pecados? É justamente por trazê-los de outras vidas que procuro me corrigir agora. Ainda é tempo de se modificar. Jesus o convida a tal."

Ele ainda chorava, mas, graças a bom Deus, compreendia a mensagem. 

"Muito bem. Se Ele o trouxe aqui, imagino que possa me perdoar?" A hesitação persistia. Um sentimento que me era familiar.

"Vamos caminhar juntos, meu irmão. Você há de conhecer Zacarias. Ele tem planos para você."

Apesar do olhar desconfiado, meu irmão aquiesceu. No dia seguinte, partimos de volta para a Igreja cristã. Lá, éramos aguardados por Zacarias. 

"Veja bem! Você não somente teve êxito em sua missão, meu amigo, como trouxe seu irmão! Aleluia, aleluia! Eis aqui os servos do Senhor!"

"Faça-se em mim a sua vontade", disse meu irmão, surpreendendo-me positivamente.

"Não há por que se surpreender, Duncan." Fez uma pausa o velho Zacarias antes de dar um novo nome ao meu irmão. "Paulo, legou finalmente o Saulo aos dias de ontem. É tempo de agora expiarmos, nós juntos, em direção ao Senhor. Jesus se rejubila com sua mudança. Nada tema, nenhuma ovelha se perde do pasto." 

Tendo nos tornado emitões, seguimos sob a orientação espiritual de Patrício para converter o restante da Irlanda. De vilarejo em vilarejos, descalços e dependentes da boa vontade alheia, deixamos para trás nosso eu.

Não foi nada fácil. Sofremos hostilidades e perseguições. Chamo meu irmão de Paulo, nome que adotou com fervor. Ele me disse, em uma das noites geladas que nos forçou a procurar abrigo em um poço:

"O senhor é meu pastor e nada vai me faltar. Que Ele nos abençoe, meus irmãos. O sofrimento nos eleva. Queria eu modificar meu passado, mas entendo que tudo foi necessário para que compreenda nosso senhor Jesus melhor."

Eventualmente, porém, as perseguições dos reis irlandeses nos fizeram separar uns dos outros. Não voltei a ver Paulo nem Zacarias. A fim de expiar os pecados de ontem, segui com minha cruz, persistindo em minha missão. Muitos foram os surdos, mas incontáveis foram aqueles que ouviram com os ouvidos e enxergaram com seus olhos.

No entanto, meu desencarne não seria pacífico. Minha existência ali não tinha sido. Lembro-me de ter visto Bridget ao meu lado quando os soldados do rei de Belfast me capturaram. 

"Tenha coragem. Sua dor se encerrará. Suportou muito mais do que esperávamos, meu corajoso amigo. Jesus o aguarda."

Assenti com a cabeça. Meus inimigos de outrora se deleitavam em me reencontrar.

"Ora, se quer ser tanto cristão seja um exemplo e aceite a crucificação", o sacerdote druida me recebeu com escárnio.

"Que assim seja", eu disse. "Poupam-me de conhecer mais tormentas. Agradeço."

Sorri quando ele esperavam de mim as reações que, no ontem, partilhei. Mas aquele dia era diferente. E agradeci a Deus por isso. Fui à morte com coragem, embora ainda humano tenha cedido lágrimas com relação a dor. Mas Bridget jamais me abandonou.

"Seja firme. Estamos com você. Cante, cante com alegria!"

E mesmo então, cantei. Olhei para os céus e cantei em latim a mesma música que os primeiros cristão cantaram quando foram sacrificados em Roma para deleite do imperador. Oh doce ironia! E quando a morte me deu seu suave beijo, deixava as testemunhas petrificadas e era recebido na alegria de Nosso Senhor.

Termino aqui, meus amigos, este relato em formato de conto, uma narrativa que me deleita em compartilhar com vocês porque tenho esperança de que possam se beneficiar com minha experiência na carne. A vida na Terra é difícil para cada um, isso é verdade, e não estamos aqui para medir os sofrimentos que os acometem. Contudo, devo lembrá-los que estes sofrimentos são temporários. Encorajo antes a olhar em seus corações e procurar trazer do conflito interno o Cristo Interior que em suas almas reside. Fomos feitos à semelhança de Deus. Jesus venceu o mundo e também nós podemos vencê-lo!

Coragem, bons amigos! Tem com vocês uma equipe de luz que os auxilia e encoraja a seguir o caminho reto. Os erros são os melhores professores. E lembrem-se de que aquele parente difícil é importante teste na perseverança do amor. A espiritualidade amiga não procura santos, mas ampara a todos igualmente, encorajando sem distinção de fé e crença. O esforço é muito importante, acreditem: sabemos que muitas das vezes a ajuda não depende só de vocês. Mas fazem sua parte, e ela conta muito!

Não desistem, eu rogo. Deus está sempre com vocês.

Obrigado, minha querida menina, por seu tempo e disposição em transmitir esta memória. Que Deus a abençoe hoje e sempre. De seu velho amigo, Dioniso Cabrera."










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