“Olá a todos. Esta é a minha primeira comunicação e, por isto, peço aos leitores paciência. Em acordo com o guia desta que transmite minhas palavras, vim com a permissão de Deus, o Pai misericordioso que a tudo sabe e vê, relatar um pouco de minha mais recente encarnação na Terra. Uma breve passagem fiz a cada ciclo terrestre segundo o merecimento espiritual. Penso ser relevante trazer minha experiência a fim de alertar aos que se propuserem ler criticamente estas minhas palavras para encorajá-los a uma reforma íntima que possam aproximá-los do Pai, lembrando que mais importam os bens celestiais que o tempo não corroerá do que aqueles adquiridos por meios ilícitos na Terra, o qual logo se encerrará. A verdade é que, durante nossa passagem por aqui, curta que é em comparação ao tempo da imortalidade do espírito, nada de fato nos pertence e se possuímos algo material é porque Deus, como Pai que se preocupa com o filho que fará longa e distante jornada, nos emprestou.
Como
falei, ainda que em termos muito resumidos, sobre a imortalidade da alma,
podeis presumir que vivi várias vidas, o que não me coloca de maneira diferente
da de vós. Tão somente experimentei sociedades, culturas, pensamentos, ideias
que, para os padrões do presente, podem ser questionados por não se enquadrarem mais no progresso cada vez mais rápido que a Terra tem sido observada se encaminhar.
E isto é muito bom. Mas, ainda que em vosso presente enfrentais dificuldades,
credes quando vos digo que as mesmas foram piores em outros tempos. E que quero
dizer com isto? Se conseguirdes serem “aprovados”, para usar um termo que pode
ser melhor compreendido por vós, em tais exames, por que agora seria diferente?
Ânimo, meus amigos. Nada é perdido, tudo se renova.
Agora, me permitais levar-vos à Inglaterra do século XVIII. O ano era 1751. No dia
31 de março daquele ano fatídico, desencarnava o controverso príncipe de Gales.
Ele era conhecido por suas fanfarronices, é certo, mas também por advogar
princípios vistos como “liberais demais” segundo diziam alguns conservadores. A
política movia aquele universo de farra, do qual Frederick Louis fazia parte.
Entretanto, sua grande rivalidade com os pais, os monarcas da época, era
conhecidíssima. Afinal, os reis George II e Caroline de Ansbach,
detestavam aquele seu primogênito. E digo que era um ódio que chegava a ser
cômico.
Em
minha meninice, lembro das fofocas que minha mãe trazia à casa. Susan Smythe
era casada com Leonard Smythe e tiveram cerca de oito filhos. Susan, minha mãe,
veio de uma família de camponeses provenientes de Yorkshire, mas que, alguns
diriam que era sorte quando, na verdade, tratava-se de muito esforço, conseguiu
um lugar de trabalho em Londres em uma das mansões que recebia a aristocracia
local. Ela trabalhava como lavadeira, tinha cabelos caracolados de cor laranja
e sardas enfeitavam seu rosto oval. Usava touca branca e roupas apertadas para
seu corpo, uma vez que estava acima do peso, mas não tinha como adquirir novas.
Susan era anglicana e muito devota. Desde que se mudara para Londres em sua
juventude, dizia que frequentaria a Abadia de Westminster de um jeito ou de
outro, nunca se contentando em ir às paróquias que ela afirmava ser para “gente
pobre”. Papai repreendia com severidade aquilo que ele chamava orgulho. Dizia
ele:
“Se
Deus nos colocou nesta posição, motivo há. Pare de reclamar, mulher, e se
contente com o que tem.”
O
senhor Leonard era pároco de uma igreja local, destas que o nome seria apagado
no curso da história por sua insignificância. Para o leitor que não conhece Londres,
devo ressaltar que não se trata de uma capital histórica que viveu e segue
vivendo inúmeros testemunhos da mobilidade humana, mas ela em si mesma é enorme
e contempla bairros igualmente grandes. Embora morássemos quase no interior, na
verdade, na parte mais desfavorecida de Greenwich, chegar à Abadia de
Westminster, para se ter uma ideia, era muito caro. Mamãe trabalhava como
lavadeira, é certo, e às vezes dormia em seu local de trabalho. Mas, sempre que
podia, fazia enorme esforço para ir lá. Isso, caro leitor, tem uma explicação:
em existência pretérita, dois séculos antes, no auge da Reforma Protestante na
Inglaterra, ela tinha sido um padre muito afeiçoado ao local e, em tempos mais
longínquos ainda, fora um dos obreiros que fizeram parte da construção da
Abadia. Por isto sua conexão tão forte, uma afeição tão profunda àquele espaço,
mas que igualmente remetia a um tipo de apego, que não entendíamos à época.
Mas
eu falava de meu pai. Trabalhador, foi enviado à igreja por seu próprio pai
quando criança, pois meu avô, o senhor Smythe, não tinha condições de criar
seus filhos. Teve somente três homens e quatro mulheres. Também camponês,
podia-se imaginar a dificuldade em criá-los. Não obstante, um deles saiu
advogado e outro entrou para o exército. Quanto as minhas tias, três vieram a
falecer em decorrência de doenças da época. Quando papai entrou na igreja de
Hillsborough, afeiçoaram-se a ele e, na primeira oportunidade, enviaram-no à
Londres. Prosperou o quanto possível, ao menos o suficiente para que tivesse
sua casa e, afinal, desposasse minha querida mãe. Desta curiosa união, ou
talvez não tão curiosa assim, vieram a encarnar eu e mais sete irmãos. Digo
seus nomes em ordem de nascimento: Claire, John, Edward, Robert, Laura,
Cassandra (eu), George e Mary. No entanto, quando cheguei à adolescência,
éramos somente quatro. Claire, Laura, Mary e John haviam falecido na infância,
todos por tuberculose. Era uma epidemia, mas não havia o que fazer, sobretudo
para nós, que nos encontrávamos muito limitados até para procurar medicamentos
naturais que pudessem amenizar os sintomas. Mamãe ficou arrasada, mas papai,
sempre resignado, disse no jantar:
“É
a vontade de Deus e deve ser maravilhosa aos nossos olhos, pois assim nossos
filhos não sofrem mais neste mundo infeliz.”
Talvez
por isto, crescemos, eu, Edward, Robert e George, religiosos. Se Deus nos havia
poupado, deveríamos ser gratos a Ele por isso. E até que eu atingisse os quinze
anos, conheceria uma vida relativamente reclusa. Nossa vizinhança evitava um pouco
a interação por causa da tuberculose que vinha levando tantos e tantos. No
entanto, o desespero não pagava as contas e era preciso que se seguisse a vida.
Vieram outras preocupações como a questão do emprego, pois somente mamãe e
papai não bastavam para sustentar a casa.
“Essa
não era a vida que eu queria para vocês”, dizia mamãe, chorosa. “Se pudesse,
dava um mundo muito melhor. Mas há sacrifícios que, infelizmente, pedem muito
de nós. Deus sabe que eu não gostaria de pedir isso de vocês, mas está na hora
de aceitarmos com resignação o nosso destino. Nem sempre o casamento será a
resposta para as nossas preces, embora seja necessário em todos os sentidos
para nossa vida. Todavia, para que isso aconteça, as despesas precisam ser
sanadas...”
E
deu um longo discurso sobre a importância de sermos econômicos em nossos
lazeres e nos deveres também. Quis que entendêssemos que os bens materiais eram
somente o necessário, pois não era possível adquirir mais do que isso. Lembro
da dor que havia nos olhos de mamãe, aqueles olhos redondos e cheios de amor,
quando lamentou não poder nos oferecer uma educação adequada. E eu teria
aceitado de bom grado o que me oferecia, pois naquela tarde chuvosa em que
conversávamos abertamente sobre nossas dificuldades financeiras, percebia o
quanto ter um teto e comida me bastavam. No entanto, sabia que ela tinha
expectativas para os filhos, e como mãe já havia sofrido por enterrar tantos
sonhos com os que partiram. Resignou-se, sim, mas a dor não se curou
completamente. Contudo, papai, que sempre ficou desconfortável com esses
momentos melancólicos, bradou e disse:
“Chega
de autopiedade! Sim, passamos por dificuldades, mas Deus está conosco. Chega,
chega. Já disse, mulher, temos motivo para estar aqui e reclamar não mudará
isto.” Virando-se subitamente para mim, falou: “Lembrei aqui que sua mãe tem
uma irmã que é camareira em Londres. Vou escrever a ela para arranjar uma vaga.
Vá e faça o melhor que puder. No entanto, filha, não esqueça do que sempre digo
em minhas pregações: Deus conhece nossas atribulações e por meio delas nos
testa, mas sempre enviará as melhores ferramentas para que possamos resistir
com fé.”
“Farei
minha parte, senhor meu pai”, falei silenciosamente. Senti um calor em meu
coração e soube de imediato que meu destino estava escrito nas palavras de Deus
que as colocou na boca de papai.
Mamãe
subitamente se animou. É verdade, ela tinha exclamado, Joanna, sua meia-irmã
por parte de pai, estava muito bem em Londres. Camareira de uma baronesa ou
condessa, não se sabia ao certo. Escreveria logo. E assim o fez. Uma semana e
meia mais tarde, veio a resposta. Dizia a carta, dentre outros assuntos, que eu
seria muito bem-vinda para ficar com ela e que conseguira uma vaga para mim.
Quando
parti, não foi fácil. Guardei em mim a intuição de que não veria meu pai mais,
que já estava abatido com seu rosto endurecido de traços finos e olhos
acinzentados. Despedi-me dele e disse a ele que o amava. Fiz o mesmo com meus
irmãos e minha mãe, que rogava para que achasse um bom partido. Aproximava-me
de meus quinze anos e, ela afirmava com ansiedade, já era um bom momento para
me casar... Ainda que tenha ressaltado que não precisava fazê-lo com pressa nem
com qualquer um aos dezoito anos.
À
época, eu não tinha um mau exemplo de casamento para temer a instituição. Mas
sabia que os arranjos eram feitos, na maioria das vezes, sem o consentimento
dos noivos, sempre visando aos benefícios alheios, isto é, da família que
receberia bônus com isto. Dizia-se que os camponeses, trabalhadores, tinham mais
liberdade na escolha do par do que os aristocratas e a nobreza. Ora, isso era
sem dúvida uma verdade quase universal. Recordo-me de quando mamãe chegou em
casa com as seguintes notícias:
“Oh,
estão dizendo que os reis estão muito desagradados com a esposa que, forçados
pelo protocolo, escolheram para o filho tão detestado... Pois o príncipe a
estima muito e seu sentimento é recíproco!”
Papai,
na ocasião, lia os jornais com desinteresse.
“Que
pais, meu Deus, são esses que esperam causar tamanha infelicidade no próprio
primogênito?”
Edward
intrometeu-se com o seguinte comentário:
“Quem
se importa com a realeza? Vivem de aparências e são infelizes.”
“São
infelizes com dinheiro”, pontuou Robert com um sorriso na face. “Queria eu ser
infeliz com toda a pompa e o estilo que possuem.”
Papai,
severo como falei, baixou o jornal e encarou o filho com desaprovação estampada
no semblante.
“Meu
filho, não se revolte com Deus. Temos pouco, é verdade, mas somos felizes. Deus
nos deu saúde, teto e comida. Que mais precisa? Veja quão miseráveis são os que
tudo possuem. Só Deus sabe que, nas futilidades da vida, serão mais sofredores
do que se propõem a ser. Viver de aparências para quê?”
Na
ocasião, acusamos papai de não ter senso de humor, secundados fomos por mamãe,
que prosseguia com as fofocas diárias. Mas logo mais tarde, na carruagem que,
sabe-se lá como, conseguiram alugar para que eu chegasse à salvo mais para
Winchester, refleti sobre a ocasião e concluí que nada sabia. Nem da extrema
pobreza nem da extrema riqueza. Mas talvez, pensei, tenha sido afortunada em
nascer longe das misérias que afligem a aristocracia. E isso era uma reflexão
que me marcaria profundamente no restante de meus anos.
Minha
tia, Joanna, era viúva e vivia de pensão. Não era melhor de vida do que meus
pais, mas trazia uma vida bastante trágica que, conforme estreitávamos os laços
em nossa convivência nas salas “adequadas aos criados” como diziam por aí, ela
compartilharia comigo. Naquele ano de 1751, um pouco antes da morte do príncipe
sacudir Londres, conversávamos sobre casamentos.
“O
amor é muito idealizado, sobrinha”, ela me dizia enquanto limpávamos os quartos
da Baronesa que vim servir. “Ele é pintado em quadros como a última salvação do
coração perdido do homem pecador; é pregado com magnificência pelos pastores, e
proclamado por poetas como a redenção que precisávamos para pôr termo ao
sofrimento pelo qual passamos. Talvez isso tudo seja verdade, mas não é para
nós. E, suspeito, tampouco para os ricos, que só sabem amar a posse.”
“Por
que tanto desagrado, minha tia? Achei que tio Silvério a amasse.”
Ela,
que também tinha os mesmos cabelos alaranjados de mamãe, me encarou como se
fosse a mais ingênua das garotas de minha idade. Penso que tivesse razão sobre
isso.
“O
amor não é como nos romances.”
“Não
saberia dizer”, eu falei, “pois não sei ler.”
Rimos
disso porque era a nossa realidade e não sentíamos tanta falta disso. A verdade
é que me acostumei com isso. Não posso afirmar que nunca invejei aquela que
sabia ler, ou desejar uma vida que me seria quase impossível alcançar. Mas
quando tais pensamentos incorriam minha mente, eu me voltava para a oração. Que
Deus afastasse de mim ter aquilo que Ele, em sua sabedoria infinita, me
recusou.
“Mas
é. Às vezes, ouço a senhora em questão ler para a filha, que tem a sua idade
como verá, e as duas debatem sobre heróis, heroínas... Triângulos amorosos,
quiçá, quando leram sobre a Morte do rei Arthur.” Ela deu de ombros. “No
entanto, filha, não é essa a realidade. Amor não deveria ser sofrimento nem idealização
demais para não ser alcançada. Ela corresponde a aceitação do próximo, ao
respeito, à paciência. Creio que se aproxima mais de Jesus, na maneira simples,
porém significativa, de suas palavras: amai o próximo como a ti mesmo.”
Ela
fez uma pausa. “Não acho que sou capaz de amar.”
Franzi
o cenho e a questionei a respeito. “Como não, tia? A senhora me recebeu aqui e
tanto fez para que pudesse trabalhar com a senhora...”
Ela
sorriu, e eu reparei que faltavam alguns dentes sob sua boca. Os que restavam
eram amarelados.
“Filha,
a você digo isso porque confio, mas cometi vários pecados em minha
existência... Alguns dele por falta de amor.” Ela se inclinou e baixou a voz.
“Não poderia conceber filhos pela pobreza de meu estado, mas também porque meu
esposo, seu tio, era incapaz de ser um pai adequado.”
Eu
pensei muito sobre aquelas palavras até que me ocorreu o verdadeiro significado
delas. E deixei cair de minhas mãos o lençol que estendia sobre a larga cama da
Baronesa. Arregalei os olhos e disse:
“A
senhora abortou?!”
“Shhh!”
Ela me repreendeu. “Não pode falar alto! Seja discreta, por favor!”
Eu
corei, envergonhada de minha atitude.
“Perdoe-me,
senhora tia. Não quis ofendê-la ou julgá-la de modo algum. Apenas...”
Mas
ela sacudiu a cabeça e, interrompendo-me, disse:
“Não
há o que perdoar, é uma sina minha com a qual terei de arcar diante do
Criador.” E deu-me um sorriso triste antes de prosseguir com os serviços.
Fiquei
a contemplar essa questão por uma grande parte do tempo. Quão pouco conhecia as
dores do mundo, sobretudo das pessoas que me eram próximas. Dias depois de tal
revelação, reparei na alegria com a qual minha tia cumprimentava outras
criadas, brincava com os pajens e conversava com outros trabalhadores, sempre
de bom humor. Mas ninguém julgaria que sob aquele sorriso e bondade em
maneiras, havia fantasmas que a assombravam.
Em
um desses dias, perturbada ainda com essas questões, fui à capela próxima e
rezei. Fechei os olhos e elevei meu espírito ao Criador, pedindo pela brandura
das expiações de minha tia. Rezei por ela com todo ardor possível. Não saberia
dizer por qual razão me senti tão emocionalmente impactada por aquela
revelação, confiando em meu íntimo, todavia, que nosso laço era forte. E de
fato o era: em outras encarnações, teria sido minha mãe.
Mas,
no presente, aquele fato me escapava. E em profunda meditação, não percebi que
a capela se enchia de pessoas, todas elas da mesma posição que eu. Foi quando o
conheci. William era seu nome. Ele contava dezesseis verões como eu, tinha
cabelos escuros como a noite e pele de porcelana. Em seus olhos de amêndoa,
brilhava bondade. Era um menino muito bom.
“Perdoe-me,
senhora”, ele falou com sua voz esganiçada. Tinha se ajoelhado para rezar e,
acidentalmente, esbarrou-se em mim. “Não quis atrapalhá-la.”
Abri
os olhos e, quando nossos olhares cruzaram, senti estranho calor em meu peito.
Sorri.
“Não
há o que se desculpar, senhor. Em nada me atrapalhou.” E, como movida por
estranha inspiração, falei. “Posso saber o seu nome?”
Ele
respondeu meu sorriso com outro. “William FitzWilliam, senhora. E o seu?”
“Cassandra
Smythe.”
William
inclinou a cabeça respeitosamente ao que eu copiei tal gesto. Não trocamos mais
palavras porque minha tia chegou, tendo ralhado comigo em murmúrios por ter
escapado de seus cuidados. O reverendo, afinal, começou a missa e nós todos nos
calamos. Fazia sol naquela manhã de domingo e uma paz emergiu em meu espírito
quando o pastor pregava a fé segundo o Evangelho de Mateus.
“Quem
tem ouvidos para ouvir, ouça”, dizia ele. “Quem tem olhos para ver, veja.
Afinal, recordamos que nas dificuldades do mundo, tudo é passageiro. A fim de
obtermos os tesouros do Céu, é necessário nos abstermos destes da Terra.
Bem-aventurados são os que sofrem a perseguição dos injustos, pois Deus não
faltará com Sua verdadeira justiça. Bem-aventurados os que sofrem, pois serão
consolados. E que sejamos como as crianças, puras e mansas de coração, pois
delas serão o Reino de Deus, que não é neste mundo.”
Ainda
lembrando das dores pelas quais passou minha tia, e somente uma delas tinha
ciência por ela ter me contado, recordei de sua alegria com a vida. Em
contrapartida, fui lembrada das lamentações de minha mãe, que nunca realmente
aceitou não ser de uma classe mais abastada. Mas e quanto a mim? Claro que, às
vezes, queria participar de bailes, cultivar amizades e poder ter uma
quantidade de dinheiro considerável para desfrutar da sociedade. No entanto,
era realmente tão miserável quanto os ricos gostavam de pintar? Deus me deu o
necessário e dela desfruto, pensei. Mas algo me faltava... Disso sentia, por
mais resignada que me sentisse na ocasião.
Saindo
contemplativa da pregação, não percebi que William também saía quieto. Os
demais aproveitavam a oportunidade para conversar, socializar, já que a Igreja
naqueles dias era também motivo para reunir a sociedade. Neste sentido, me
sentia estranha. Como, pensei, podíamos conversar sobre banalidades depois de
ouvir a Palavra? Optei por me isolar enquanto minha tia se reunia com suas
amigas. Ajeitei meu chapéu e a saia de meu vestido amarelo florido que me tinha
sido dado de presente pela minha mãe. Foi quando ele veio em minha direção.
“Minha
senhora, bom dia!” ele sorriu, e algo em mim gritou que era o pedaço que
faltava para completar minha vida. Meu estômago revirou diante daquela forte
intuição. “Peço desculpas outra vez mais por incomodá-la, mas queria saber sua
opinião sobre a palestra de hoje. O reverendo McCullen tem uma oratória
excelente, não acha? Embora seja irlandês, dizem que é um dos favoritos dos
condes de Southampton.”
“Meu
senhor FitzWilliam, não há nada pelo qual deva ser desculpado”, sorri de volta.
“Muito me alegra ter a oportunidade de conversar sobre a Palavra com o senhor.
E que grande prestígio o Senhor abençoou a vida do reverendo. Confesso que gostei
da palestra de hoje. Trouxe-me muitas reflexões, uma das quais a respeito da importância excessiva que damos aos bens materiais."
"Oh, sim, de fato", ele fez um meneio com a cabeça. "Não poderia discordar de sua senhoria. A vida é um instante e quão pouco temos vivido para servir. Confesso que tenho considerado a vida na igreja. Me parece justa a forma de retribuição ao Senhor que fez tanto por nós."
Observei-o com estranha ternura que sua companhia me proporcionava. Como me era familiar! E, no entanto, somente nos conhecíamos naquele instante.
"Oh, não sou nenhuma senhoria", respondi com um sorriso. "Mas rogo para que atenda ao chamado do Senhor, se for este que chegou ao seu coração."
Nossos olhares se demoraram. O senhor William baixou a cabeça em movimento tímido, mas meu olhar foi incapaz de se desviar do seu.
"Agradeço o voto de confiança, minha senhora. Espero o mesmo, não obstante minhas inclinações mundanas", ele confessou e soltou uma risada discreta.
Confesso que aquilo me intrigou.
"O que quer dizer com isso, bom senhor?"
"Bem", ele arqueou as costas e colocou as mãos por trás delas. "Eu gosto de dançar. Acho que um reverendo não deveria ser dado às tais coisas. Mas não posso reclamar a perfeição moral, lamento dizer."
"Ninguém de nós pode fazê-lo", o corrigi com delicadeza. "E o que há de errado em dançar? Penso que se a música e o baile fossem inapropriados, o Senhor, em Sua infinita sabedoria, não teria permitido que surgissem. E a humanidade dança como canta, ou segue performando instrumentos, há muitos séculos."
Confesso ao leitor que, assim como meu querido FitzWilliam, eu não sabia de onde vinha aquele conhecimento. Não era letrada nem sequer segurei em mãos um exemplar destes que contavam a história do país onde nasci. Reparei que ele também pensava o mesmo pela admiração que vinha de seus olhos.
"Concedo a razão em seu argumento, senhora Smythe", disse ele. "Mas, devido a sua natureza, me pergunto se isso bastaria para que nos conhecêssemos melhor."
Admito que achei curioso o contraste de personalidade que percebi nele: por bondoso que fosse, às vezes era retraído, mas em outras agia movido pela intensidade de seu caráter. Não o julguei por isso, pois não raro eu era contemplativa demais, quando não deveras propensa a falar pelos cotovelos. O Espírito, quando caminha na seara do Senhor, se depara com resquícios de personalidades pretéritas que, entretanto, devem ser adequadamente aparadas a fim de que possa progredir moralmente. Era isto o que se sucedia conosco. Lutávamos contra nós mesmos para nos aprimorar à luz do Senhor.
"Gostaria muitíssimo", e teria dito mais, mas minha tia Joanna veio me buscar. Ela cumprimentou William com polidez e, virando-se para mim, indicou que era hora de voltarmos à casa. "Espero vê-lo novamente, senhor Fitzwilliam."
E fiz uma mesura enquanto ele inclinava a cabeça em um meneio respeitoso.
"Sem dúvida, senhora Smythe. Sinto em meu coração que nos veremos novamente."
Não foi sem um suspiro que seguíamos direções diferentes: enquanto voltava à casa da Baronesa, senhor FitzWilliam prosseguia em seu caminho. O silêncio, porém, que acalmava a ansiedade de meu espírito por temer não revê-lo, foi interrompido por minha tia.
"Ele é um belo rapaz, sobrinha.. Mas me pergunto se é o partido mais adequado a você?"
Segurei o ímpeto de lhe responder que o mais apropriado em um cavalheiro é o que reside em seu coração, que valores alguém como ele poderia cultivar. Entretanto, conhecendo minha tia, percebi sua preocupação genuína. Ela queria meu bem, por isso perguntava.
"Não me importam sua posição e o ouro, minha tia", repliquei. "Não acho que vim ao mundo associar-me a alguém por estas questões."
"Sempre romântica", disse minha tia, e eu senti que ela me repreendia por isso. "O amor não pagará suas contas, Cassandra. É somente movida pela apreensão que tenho para com seu futuro que digo estas coisas. Se ele não puder sustentá-la, com o que mais fará?"
Aquelas palavras me chatearam e meu humor leve e tranquilo sofreu o impacto da dureza da realidade que nelas havia. Contudo, por um íntimo pressentimento, percebi que Deus me tinha dado as ferramentas necessárias para construir minha vida.
"Não serei rica, minha tia, pois um homem de tal posição não buscaria conforto matrimonial em alguém como eu", disse-lhe simplesmente. "E ainda que o fizesse, pergunto: por que me sujeitaria à infelicidade em prol de coisas tão supérfluas e insignificantes aos olhos de Deus? Achamos com frequência que títulos, posições e ouro nos salvarão de nossas misérias. É claro que tê-las, a grosso modo, nos satisfaz. Não há nada de errado em querer obtê-los. Contudo, Deus quer que amemo-nos uns aos outros. Associar-me por outro motivo que não pelo amor em um arranjo que traria infelicidade às duas partes não é o correto. Prefiro seguir com minha consciência a me submeter a isso."
Minha tia me encarou entre o assombro e a admiração.
"Para alguém tão jovem, sua opinião é muito forte. Advoga com fervor em prol do amor, não a culpo por isso. No entanto, a vida é rude ali fora, Cassandra. E boazinha do jeito que é, como suportará os deslizes da vida?"
"O Senhor é meu pastor", falei com serenidade, "e nada me faltará."
Chegamos à mansão da Baronesa, onde nos separamos brevemente para cumprir nossos afazeres. Depois de ter me trocado, preparava-me para começar a limpeza da casa. Nisto, refletia nos ensinamentos de meu pai, por meio de quem Deus me educou. Em meu íntimo, agradecia por encontrar conforto nos salmos e no Evangelho.
Mas não posso dizer, caro leitor, que minha fé era forte. De modo algum. Havia dias difíceis em que meu eu passado tomava a frente da condução de minha vida, resgatando resquícios de temperamento, egoísmo, vaidade... Isso porque, em outros tempos, conheci a riqueza, desfrutei das vantagens da aristocracia, tendo vivido mais recentemente entre a nobreza nos dias da Reforma Protestante. Mas falhei no propósito de advocar pela reforma como nosso irmão Lutero havia pregado. Por isto que, quando meu mal humor ameaçava revoltar-me contra a imposição de mim mesma por viver na pobreza, fechava meus olhos e lembrava de uma frase tão significativa do apóstolo Paulo que Lutero reforçou em seus escritos: ser útil em tudo o que fizer.
Eu estava sendo útil como deveria? Bastava aquela pergunta para silenciar meu temperamento. E me propunha a servir minha tia e a todos os que nos cercavam. Como falei, não era fácil. Apesar do meu entendimento, tinha sentimentos como qualquer jovem em minha posição. Sofri com amizades, as fofocas que algumas das criadas do local fizeram de mim. Mas a fé me sustentava, me confortava, era o pilar sem o qual me desmoronava.
Naquela semana difícil, pus todas minhas energias no trabalho. Queria chorar, esconder-me de todos, mas não havia tempo para o pranto, menos ainda para o ranger de dentes. Concentrava-me no estudo quando minha tia me procurou. Eu estava no segundo andar, limpando as janelas.
"Minha filha, sabe o que ouvi?" Ela falava esbaforida, forçando-me a interromper minha atividade para dar-lhe atenção.
"O que a aflige, minha tia?"
Minha tia me puxou para o canto da escada e disse:
"O príncipe de Gales morreu."
Arqueei as sobrancelhas.
"Morreu?"
"Morreu", ela confirmou, tão perplexa quanto eu.
"Mas de quê?", quis eu saber. Ele era popular e ao meu ouvido só se chegavam notícias positivas a seu respeito, não obstante a súbita inimizade entre ele e seus régios pais.
"Alguns dizem que é tuberculose, outros que foi sífilis", minha tia deu de ombros. "Só sei que Deus o levou."
Fizemos inconscientemente o sinal da cruz.
"Que Deus o tenha", eu pensei em voz alta.
"E que Deus me perdoe por ser fofoqueira, mas sabe que ouvi que, quando sua mãe veio morrer, o príncipe foi barrado de vê-la? Ele procurava se redimir, segundo me contaram, mas o rei parecia estar possuído por algum demônio. Movido por ira, o proibiu de pisar no palácio. Sabe, dou graças a Deus por não fazer parte daquela família."
Recordei a lição de meu pai e aquiesci. Perguntei-me se o príncipe descansava em paz de fato ou se porventura teria agonizado. Meu coração pesou diante da perspectiva e prometi a mim mesma que oraria por ele na capela quando findasse minhas tarefas.
"Ele deixou um filho", prosseguiu minha tia. "Será o próximo rei quando este velho for para o túmulo."
"Não devemos desejar a maldade ao próximo, tia", repreendi-a com sutileza.
"Não estou desejando."
"A forma como falou deu a entender que sim. Não admiro muito nosso soberano, é verdade, mas devemos respeitá-lo. Deus conhece as cruzes de todos nós, e ainda que faça parte de um grupo privilegiado, isso não quer dizer que Sua Majestade não as tenha."
Conversamos mais um pouco sobre a família dinástica que estava constantemente nos jornais. De quando em quando, um dos criados lia-os em voz alta a nós, falando sobre as incursões militares do duque de Cumberland. Lembro-me de achar engraçado como nós nos reuníamos para ouvir sobre aquela família que, em verdade, só nos era diferente por ocupar uma posição socialmente superior a nossa. Mas, como esse mesmo criado falou:
"O irônico disso tudo é que essa gente acha que é melhor que nós por ter mais dinheiro e posição. Eu não nego, talvez eu também achasse se fosse rico e rei", ele arrancou risada com seu comentário mordaz. "Mas, francamente, são que nem a gente. E o melhor: nossos escândalos nos seguem nos túmulos, mas os deles estampam os jornais. Eu não gostaria que meus vizinhos soubessem quando cometi adultério por insistência da esposa que amo por faltar com hombridade em nosso casamento."
Mais risadas.
E, no fundo, a questão que ele trazia não era desprovida de lógica ou razão. No entanto, o que aquilo mudaria minha vida? Quando terminei meus afazeres, fui à capela, onde orei com sinceridade pela alma do príncipe de Gales. Intuitivamente, pressenti que ele não estava bem. Não sabia, à época, dizer por que me afeiçoei a tudo que lhe dizia respeito. Era mais provável por alguma parte de meu ser se identificar com ele. Contudo, qualquer que fosse a resposta, somente pretendi cumprir meu dever de cristã.
Nos dias que se seguiram, o luto na sociedade pela morte do príncipe prosseguia. Um baile que seria dado com a permissão da Baronesa foi adiado até que o rei George anunciasse que o luto já tivesse passado. Nem todos contentavam-se com aquela decisão, mas a maioria a apoiou. Lembro bem que, tão logo o luto se dissipou, a animação voltou a tomar as ruas, sobretudo a recém nomeada rua Charles II. Achei aquela nomeação de gosto duvidável: Charles II foi um dos monarcas britânicos que restaurou a monarquia após guerra civil que culminou num breve estado republicano transformado em ditadura por Oliver Cromwell, mas cuja dinastia Stuart continuava a dar de cabeça na dinastia germânica de Hannover. O rei George II não fazia muito tempo derrotou os insurgentes da Escócia que pretendiam destroná-lo em favor de um pretendente Stuart conhecido pelo nome de Charles.
À par destas rivalidades políticas tratadas com pouco cuidado pelos homens da rua e da vida política, mostrando crescente aversão a instituição da monarquia, a vida prosseguia. Uma das poucas amigas que conservaria pelo restante de minha vida chamava-se Jane. Ela era uma das criadas da Baronesa. E insistiu para que a acompanhasse na rua Oxford a fim de que fizéssemos compras. Minha tia se animou com aquela perspectiva e, por que não, eu também. Não pelo fato de obter novas roupas com o salário que eu recebia e a mesada enviada diariamente por minha mãe, mas por sair da rotina que me ligava o trabalho à Igreja sem grandes perspectivas de lazer.
Entretanto, a rua Oxford provaria ser um grande desapontamento para mim em virtude dos altos preços das roupas. O desapontamento era visível. Não possuía uma quantidade suficiente de dinheiro para obter um vestido rodado branco com detalhes em creme. Mas Jane, jovem como eu, de cabelos escuros e olhos castanhos, disse-me, sempre tão vívida em seu tratamento comigo:
"Acha mesmo que a trouxe para comprar um vestido elegante, minha amiga? Faça-me o favor. Oxford é conhecida pelas lojas elegantes que, segundo boatos, até a nobreza vem aqui. Mas é o último quiosque nos espera."
De braços dados, andamos aquela longa rua, passando por uma multidão de pessoas que caminhava em direções opostas. A maior parte delas era constituída de mulheres da alta sociedade e eu me senti não somente envergonhada como subitamente deslocada. O que fazia eu naquele espaço que não era voltado para pessoas que não nasceram em berço de ouro? No entanto, a alegria e a empolgação de Jane fizeram dissipar a nuvem de dissabor que emergiu em meu peito. Tão simples em sua animação que me contagiou. Ela não se importou com a disparidade de nossas posições, ensinando-me valiosa lição.
Finalmente, chegamos ao quiosque de roupas para onde quis minha amiga trazer. Eram vestidos usados, a maior parte dos quais foi trazida pela doação adquirida das paróquias.
"Como você descobriu isso aqui?", indaguei, surpresa com o que eu encontrava.
Havia de tudo: desde joias a sapatos, passando por livros e até cerâmicas de casa. Estupefata, senti meus olhos se demorarem em cada objeto, embora se fixassem nas revistas de moda e outros livros. Ao senti-los em minha mão, fui tomada por repentina tristeza. Via pequenas letras, mas nenhuma delas conseguia ler. Isso me entristeceu. Pus de volta, mas uma ideia me surgiu: por que não aprender a ler? A quem poderia pedir? O nome de William Fitzwilliam me veio à mente, mas será que Deus me ajudaria com aquela intenção?
Perdida em meus devaneios, não prestei atenção nas desventuras de Jane pela cidade de Londres, capital do emergente império britânico que, graças às Companhias das Índias, enriquecia cada vez mais com novos tecidos e cerâmicas importadas da China, da Índia e outros países. Mas ao final daquele dia, comprei um vestido simples de cor azul com detalhes em vermelho. Segundo Jane, era o mais adequado para o baile que teríamos no final de semana.
E este baile era relativamente importante na escala social como viria a saber. Entretanto, me interessava mais descobrir o paradeiro do rapaz cujas feições se fixaram em minha mente. Mas não quis perguntar a ninguém, tanto por receio de ser má interpretada como por proporcionar mais fofocas para meus companheiros de profissão. Forçada a lidar com aquela frustração, restava-me esperar. Ao final de cada noite, quando me deitava na cama que compartilhava com outras criadas, Jane dentre elas, fitava o teto, cercada pela escuridão, e rogava a Deus para que tudo isso pelo qual passava tivesse algum propósito. Por mais que me contentasse com a vida que Ele tinha me dado, existia algo em mim que se perguntava: mas a vida é somente isso? Não há nada mais que posso fazer?
Comecei a contemplar uma vida na Igreja. Talvez Deus pudesse me dirigir lá, para fazer de mim Seu instrumento e cumprir Suas vontades. Reconhecia em mim a vaidade de outrora ao me flagrar desejando ardentemente para que o sábado raiasse e o baile começasse. E esperava que ele estivesse lá. Mas em meu coração sabia que sim. E foi o que me confortou para que dormisse melhor naquela noite.
O dia começou com a típica algazarra no quartinho onde eu e mais quatro jovens criadas dormíamos. Cada uma se empertigou para se arrumar. Para minha consternação, reparei que meus grampos tinham sumido. Mas ousaria questionar? Não. Tinha suspeitas de quem os teria tomado, mas não podia acusar sem evidências.
Jane, reparando a infelicidade em meu semblante, indagou:
"Que razão há para abalar-lhe o espírito quando o dia ainda está raiando?"
"Meus grampos sumiram. Já verifiquei em todos os cantos", falei. "Não sei como poderei prender meus cabelos. Será que serei censurada por isso?"
"Não", ela me respondeu com tranquilidade. "Mas acho que podemos prender alguns cachos seus com dois grampos que tenho."
Não podia crer no que ouvia.
"Mas você não tem quatro? São tudo o que possui, Jane. Não posso aceitar sua oferta, minha amiga", protestei.
"Insisto", disse ela. "Pressinto que fará destes grampos melhor uso do que eu."
Fiquei atordoada, admito, com aquela lição tão valiosa de desprendimento material. Como alguém que não tinha quase nada ofertava-me o que tinha? Mas, em virtude de sua insistência, não busquei dissuadi-la. Apenas, ao contrário, procurei agradecê-la com o carinho que por ela sentia. Em seguida, procurei o vestido, mas, uma vez mais, me deparei com seu sumiço. Achei que o tinha guardado em um espaço adequado e escondido, mas, não posso negar, me consternei diante daquela situação.
"Fui roubada!", exclamei, entristecida. E, como se esquecendo a lição que me foi ensinado por espírito amigo, ainda acrescentei: "Nada tenho com o que ir!"
O motivo de minha revolta repousava, talvez, menos na perda material do que na probabilidade que aumentava em não ver meu querido senhor William. Havia esperado semanas para reencontrá-lo, ainda que não tivesse a certeza de que ele se apresentaria na tal festa. Jane, apiedando-se de mim, teria oferecido seu vestido, mas recusei veemente.
"Não, minha amiga. Não posso aceitar. Você já me emprestou seus grampos, os únicos que têm..." E, de repente, uma luz veio a minha mente. "Talvez minha tia possa me ajudar com esse problema."
Ela me lançou um olhar carregado de indagação, sem, porém, expressar sua inquietação em voz alta. Seguiu-me, antes, pelos corredores até que me deparei com minha tia. Quando contei sobre minha situação, ela ficou bastante zangada.
"Aposto que foi.."
Mas eu a interrompi.
"Tia, não sabemos quem de fato teria me furtado. Não vamos acusar ninguém sem evidências. Tudo o que quero saber é se porventura a senhora possui um vestido, remendado que for, que eu possa fazer uso."
Ela suspirou, colocou as mãos em torno da cintura. Entendendo-me como uma mãe que compreende as apreensões de jovem filha, ela assentiu com a cabeça. Adentramos seu pequeno quarto naquela casa, no qual dividia com uma criada com quem trabalhava. Debaixo do colchão velho e amarrotado de sua cama, ela arrastou um baú pesado e empoeirado. Abriu-o e retirou dele um vestido rosa com detalhes em azul e bordado em branco. Estava amarrotado e, apesar de ser mais largo, ela prometeu que, uma vez que eu o vestisse, faria as remendas necessárias.
No final daquela tarde estressante, estava pronta. Acompanhando Jane, seguíamos para o baile dos criados mais moços que eram de nossa faixa etária. Em geral, os trabalhadores tinham seus próprios bailes, mas não era raro que se juntassem para um grande bailão, como ocorria no interior. Era crepúsculo quando chegamos ao local. Jane deu-me o braço e juntas, guardávamos as expectativas da juventude setecentista.
Mães casamenteiras se reuniam em grupos enquanto damas das mais diversas faixas etárias se reuniam, separadas dos bons homens. Não se viam muitos adultos que não fossem os responsáveis das mais novas. Não era incomum que os bailes servissem ao propósito casamenteiro, o qual, muitas das vezes, ofereciam uma alternativa menos ruim às donzelas de famílias desfavorecidas. Uma vez que Londres viva uma era de hipocrisia, no qual casas da noite disfarçavam-se de ambientes benignos para que suas matronas cooptassem à força as moças do interior para lhes servir, ao mesmo tempo em que tal prática era condenada pelos homens do Parlamento, os mesmos que frequentavam aqueles ambientes, todo cuidado era pouco.
Lembro-me mesmo de ter conhecido uma rapariga na ocasião. Seu nome era Emily e ela não era muito mais velha que eu. A pobrezinha escondia-se em trapos e beirava à implorar para que qualquer moço a levasse legalmente. Quando me virei para conversar com ela, adquirindo olhares de julgamento de tantas outras pessoas que estavam ali, Emily explicou sua situação:
"O casamento, ainda que forçado, é a melhor solução, senhorita. Do contrário, serei forçada à viver em pecado novamente. Mesmo que tenha sido forçada por aqueles que deveriam me proteger e guiar nesta vida, não pretendo me submeter a isto de modo algum."
No início, não compreendi.
"O que quer dizer com isso?"
Para meu horror, ela me explicou:
"Sou uma pária da sociedade, senhorita, porque por muito tempo trabalhei na casa...", ela me deu o nome aos sussurros. "Quando tinha chegado do interior, pretendia ser atriz. Mas meus pais achavam que era melhor se obtivessem lucro por minha causa. Eles me venderam à senhora Grace. Não consegui ser atriz de teatro muito menos enriquecer com isso."
"Pobrezinha!", exclamei. Como podiam julgá-la? Uma moça vendida pelos próprios pais! "Existe algo que possa fazer por você? Emily, por que não procura a Igreja? Tenho certeza de que será acolhida lá. É uma alternativa, não acha?"
Emily me ofereceu um sorriso triste, ainda que em seus olhos era possível ler sua resignação. Tomou minhas mãos nas suas e disse:
"Agradeço sua preocupação comigo, senhorita, mas a vida é o que é. Tenho pecados a expiar. E, para o bem ou para o mal, o casamento é um remédio amargo que me ajudará no que preciso."
Tanta resiliência, pensei, comovida. Nenhum sinal de revolta com os pais nem com a mencionada senhora Grace. No final, despedimo-nos. Confesso que perdi a alegria daquele baile depois disso. Como eu ignorava a maldade no mundo. Oh, Senhor. Tenha piedade de nós.
Diante do meu abatimento, Jane disse:
"No que pensa, minha amiga?"
Tornei a enxugar minhas lágrimas com a palma da minha mão.
"Não vejo propósito em estar aqui. Como fui egoísta em pensar nos meus prazeres... Ah, Jane! Tenho tanto a aprender! Nada conheço deste mundo." Sacudi a cabeça. "Não posso julgar a situação em que está o outro, mas por que uma mãe e um pai faltariam com seus deveres de pais para vender uma criança para uma casa pecadora? Que Deus tenha misericórdia. Sabe, um dia procurarei ajudar essas crianças."
Não tinha condições, e sabia disso, mas não podia viver com a informação que tinha. Aquela moça passou pela minha vida por tempo o suficiente para me comover com sua situação. Mentalizei uma prece, esperando que ela fosse envolvida por Deus. Emily não conseguiria casar, infelizmente, e viria a desencarnar por ter contraído doenças venéreas em apenas algumas semanas depois do baile. Mas no sonho que teria mais tarde, ela disse:
"Você não se lembrará deste nosso encontro, minha cara Cassandra. Mas queria antes de tudo agradecer por sua prece, que me foi essencial no auxílio do desprendimento do meu espírito do corpo. Não se entristeça comigo, sei que, da sua parte, fará o possível segundo as ferramentas que o Todo Poderoso colocar em suas mãos. Mas foi preciso que eu passasse por isso, uma vez que, em minha vida pretérita, abusei da riqueza, do luxo, da beleza. Os pais que me venderam foram os filhos que eu abandonei em mais de uma encarnação. Tudo tem sua razão de ser. Embora esteja longe do caminhar de encontro à Jesus, sinto minha fé mais segura depois desta experiência. Lembre-se: as pessoas hão de julgar os mais pobres assim como os mais ricos. Mas a cada julgamento de hoje, amanhã Ele nos colocará nos nossos devidos lugares. Tranquilize-se quanto a isso. E acredite, a parte que faz hoje será o louro que colherá amanhã. Deus não espera de nós santidade, mas apenas um pouco de esforço naquilo que nos foi dado. Perdoe hoje, ame sempre. Que Ele siga o amparado."
De fato, só me recordaria deste encontro no meu desencarne. De volta à narrativa, encontrava-me, como dizia, muito comovida pela situação de Emily. Senti o ímpeto de ajudar os mais pobres. Foi Jane, entretanto, quem disse:
"A sua hora vai chegar. Pense comigo: você tanto quis vir aqui, e desperdiçará este momento que tantas gostariam de estar? Alegre-se, minha amiga. Deus está somente mostrando o caminho que pode trilhar se quiser, mas não a impede de desfrutar da música e da boa companhia. Seja útil em tudo o que fizer, e há grandeza nas coisas pequenas aos olhos dos homens."
Pensei estas palavras, que vinham como um bálsamo no meu coração. Tudo no seu devido tempo.
"Pois tudo isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos."
***
Depois de tudo isso, admito ter-me esquecido de meu pobre William quando nos esbarramos. Como fomos felizes! O sorriso de um espelhou-se no de outro. E foi tão impactante aquele reencontro que Jane deu um risinho e se afastou discretamente.
"Senhora Cassandra!", ele exclamou ao me cumprimentar com um meneio. Ao que o respondi com uma mesura. "Como é bom vê-la novamente!'"
"Não consigo crer que o encontrei aqui, meu caro William. A que vem fazer por estas bandas?"
Ao nosso redor, a música era alta e não raro as pessoas se esbarravam em nós, mas sentíamos como se fôssemos nós contra os outros.
"Vim com um amigo", ele disse. "Ele se perdeu de mim, porém, e devo buscá-lo."
"Que não seja eu a atrasá-lo em sua procura", eu respondi, mas me arrependi de ter dito aquilo. Oh céus, como eu me sentia tola.
"Muito pelo contrário", apressou-se a dizer. "Acho que, adulto que é, é capaz de achar seu caminho. Antes de tudo, gostaria de saber se a senhora dança."
Sorri, acanhada.
"A dança sempre me foi um prazer agradável, embora raramente disponha de tempo para apreciá-la." Trocávamos olhares. Ah, como suspirava por dentro! "Vejo que o senhor mudou sua opinião a respeito da música, ou não o veria aqui."
Ele riu, e o som que saía de seus lábios agradava-me.
"Na verdade, se me permite corrigi-la, eu temia ser impossível conciliar os deveres de pároco com os de um homem que se deleita na música. Mas conversei com meu padrinho, o padre Nestor da paróquia de Windsor, e ele riu de mim. Disse quase o mesmo que você: que se Deus não quisesse que nos entretecemos com a música, por que teria dado aos homens a capacidade de criar instrumentos e inspirá-los a compor canções?"
"É um argumento sensato", disse eu. "Estamos acostumados a viver em tempos onde todos gritam que são cristãos, mas agem como fariseus que são. O problema a meu ver não é desfrutar daquilo que podemos ter, mas o excesso."
Em um gesto espontâneo, senhor William tomou minha mão e a levou aos seus lábios. Senti meu rosto enrubescer.
"Minha senhora, como é sábia! Detém tanto conhecimento e sensatas ponderações para pouca idade."
Ora, ele não cessava em provocar-me deliciosas sensações do ser amado, algumas das quais eram: ser ouvido, percebido, compreendido. Aquele era, meu amigo leitor, o parceiro que Deus designou para me complementar na missão.
"Rouba-me as palavras, senhor William", falei entre risinhos. "Não acho justa as qualificações que usa para me descrever. Devo antes negá-las, acusando-o de serem usadas para florear meu caráter."
Ele riu. Reparei que não tinha largado minha mão. Oh, bom Deus. Sentia-me frívola em afeições que ele despertava em mim. Como seria possível sentir profunda atração por alguém que somente vi uma única vez?
"Muito pelo contrário. Deveria antes, senhorita, dar-me crédito por professá-las sinceramente de meu coração. Mas antes que entremos em uma disputa desnecessária, permita-me a honra de dançar com a senhorita?"
Dei um risinho. Era jovem e tola. Achava-me afortunada por encontrar o amor em tenra idade. Juntamo-nos ao grupo de outros jovens que se preparavam para dançar. Os músicos prepararam seus talentosos dedos e, voilá!, logo em seguida o pequeno salão que recebia um aglomerado de gente, enchia-se de risadas mescladas à melodia animada da música que suscitavam nos espíritos sincera e espontânea alegria.
Dançamos mais de uma vez. Era, penso eu, viciante! Não tiramos os olhos uns do outro. Com que alegria que não compartilhamos aquele momento. Mais tarde, quando eu e Jane preparávamos para voltar à casa, ele me disse:
"Senhorita, gostei muito de ter dançado com você. É uma dançarina muito talentosa."
Senti meu rosto ruborizar.
"Como sempre, gentil, meu caro William. O prazer foi meu. Agradeço por ter alegrado minha noite com uma presença tão satisfatória como a sua."
"Verei-a de novo", ele me prometeu. Tomou minha mão na sua, e a beijou. "Em meu coração, sinto isso. Perdoe meu atrevimento, mas você me completa, senhorita Cassandra."
Ri outra vez, mas meus olhos brilhavam. Ele via que, neles, encontrava a resposta para seus questionamentos particulares;
"Certamente. Aguardarei por você, meu amado."
Reuniões de almas, ainda que por alguns instantes.
***
A realidade foi dura. Senti como se o véu de ilusão fosse rompido diante de mim. A semana começou com a notícia do desencarne de meu pai. Lembro de ter sonhado com ele ás vésperas. Ele sentava na cadeira de costume e punha de lado os jornais que lia. Quando adentrava na sala, ele me mirou com alegria.
"Veja filha. O pródigo filho retorna à casa. Seus irmãos me aguardam."
"Oh papai", lamentei. "Não pude me despedir do senhor, peço que me perdoe."
"Nada que se perdoe, filha. Mas venha, senta-se aqui." E quando o obedeci, ele disse. "Não parti de imediato porque me preocupo com você. Londres é bem perigosa e você se rodeia de tentações. Assim será o resto de sua vida que, pressinto, será curta. Cuide de sua alma, menina. Prometa-me."
Engoli em seco.
"Prometo, meu pai. Obrigada por ter me acolhido nesta vida. Sou profundamente grata pelas lições de nosso mestre Jesus que o senhor me ensinou."
Ele se emocionou e eu também. Juntos, dizemos:
"Ser útil em tudo o que fizermos."
E assim, despertei com os olhos marejados de lágrimas.
***
Outro sonho premunitivo veio a mim não muito tempo depois. Foi, na verdade, dois dias mais tarde do desencarne de meu pai. William estava nele e vestia branco.
"Minha senhora, minha consciência me atormenta. Precisava vê-la antes de partir."
Oh não. Meu coração se apertou, embora em minha mente houvesse a compreensão.
"Deus permitiu que nos reencontrássemos para encorajá-la nas próximas provas da vida. Mas garanto que, no futuro, estaremos juntos outra vez. Eu a amo. Não se esqueça disso. Obrigado por me ajudar a desapegar dos bens materiais e ver com mais leveza a vida. Que seríamos de nós sem a música, a dança, o risto? Cuide-se, meu bem amado. Estarei sempre velando por você."
Acordei em lágrimas igualmente e descobriria que ele desencarnou pela mesma doença que, anos mais tarde, tiraria minha vida: a tuberculose.
Estava tendo mais um surto daquela pestilência nos bairros mais pobres da cidade. Meu amado William, sempre tão querido, estava ajudando os tuberculosos de sua paróquia quando sofreu com a doença. A sensação era de que eu estava ficando sozinha. E ali começava minha provação: a de não me rebelar contra Deus.
Afinal, é sempre fácil nos esquecermos Dele em nossas alegrias e mais ainda quando, nas dificuldades, não suportamos as provações e viramos nossas costas a Ele em nosso orgulho e vaidade. Minha tia e minha amiga Jane partiram em meses. Não foi difícil, leitor. Não vim aqui para fazer uma leitura do luto. Mas cito esses momentos de minha vida, os quais não detalharei porque estou me alongando mais do que devia, para encorajá-los a pensar sobre duas questões:
1. Tudo é passageiro. O sofrimento e o deleite escapam de nossas mãos. Nada é fixo. Mudamos a cada instante, pois a lei do progresso assim nos impele. Diante disso, também nós somos passageiros da vida. O corpo cede ao tempo, mas o espírito o ultrapassa. Isso não quer dizer que devemos esperar santidade em nosso comportamento. Cede-se às lágrimas como ao grito, mas não à raiva ou ao rancor. Por que querer controlar aquilo que escapa ao seu controle? Tenha paciência. Paciência consigo mesmo, com seu processo, com suas emoções. Acolha-se. Tudo passa.
2. Nada nos pertence. Pessoas, corpos, matérias. De nada vale exercer controle sobre cada um, cada coisa. Pouco importa se maquiar nas vaidades que encobrem o que há na sua alma. Cuidar de si não quer dizer ignorar o tempo. Antes, aproveite-o. Por que perder-se em julgar aquilo que desconhece? E se assim o é, agradeça. Se Deus permite que não carrega extremas durezas, seja grato. Compreenda, pense, e sinta o amor Dele, sua misericórdia.
Foi o que compreendi. E é difícil ser prejudicada por pessoas que prometeram auxiliar. Após o luto, saí da casa da Baronesa. Não foi simples. Ela tentou-me com promessas vazias, mas procurei a Igreja. Lá, atuei para tirar as crianças da rua e as mulheres da prostituição. Não foi fácil. Com dezenove anos, também eu fui acometida com a tuberculose. Minha pobre mãe iria ao túmulo não muito tempo depois, mas ignorando meu destino.
Contudo, o porvir foi mais otimista. Deus nos recompensou com o reencontro familiar, com um lugar onde pudéssemos repousar antes de voltarmos ao trabalho. E, de fato, não demoraria muito a encarnar. Nasci uma vez mais na Inglaterra do século seguinte para enfrentar outras dificuldades que, no seu devido tempo, abriria os olhos para a humanidade. Fui escritora, mas não vivi muito também. Cumpri aquilo que deveria cumprir.
Aqui e agora trabalho na espiritualidade, sempre temente ao Pai. De meu coração, espero que estas palavras possam ter gerado alguma reflexão à luz daquilo que Jesus, nosso mestre, modelo e guia, procurou nos ensinar. Amem, hoje e sempre. Perdoem e não julguem o próximo.
Que sua vontade seja sempre cumprida. Agradeço à médium e aos seus guias pelo tempo precioso que me recebeu.
Espírito Cassandra."
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