"A todos, meus cumprimentos. Este que os saúda atende pelo nome Caboclo de Iansã e virei transmitir minhas memórias a fim de que as mesmas lhes possam ser úteis. Na minha tribo, quando tínhamos o hábito de sentar à noite em família era costume ouviras memórias dos mais velhos, pois elas possuíam sabedoria que aos novos costumavam faltar. Movido por esse objetivo, e tão somente ele, que com a graça de Tupã venho cumprir meu dever.
Em verdade, serei breve. Embora fale como velho, a reconstituição da memória a seguir vem de minha infância passada nos lugares mais gelados que a mente de vocês pode conceber. Vivíamos em grupos, constituindo uma só tribo, e nossos corpos eram levemente diferentes dos de um ser humano comum porque eram mais adequados a um ambiente extremamente frio. Não é surpresa, ou não deveria ser, porque o corpo humano é constituída de elementos que o tornem adaptável ao meio em que virá a se inserir. Usávamos em nossos corpos peles de animais como o urso polar e alguns outros animais cuja pele era adequada ao ambiente. Isso não significava que nos alegrávamos com a caça, mas por estarmos ali, não tínhamos outra opção. A locomoção também era muito difícil para nós. Nada era tão simples quanto a contemporaneidade possa fazer crer.
Dito isto, era uma criança, não mais que meus dez anos, quando meu velho pai me instruiu sobre os deuses que nossas tribos cultuavam. O local onde morávamos era relativamente isolado do chamado homem "branco", ou "europeu", e por ora não oferecíamos interesse a sua incessante busca por novos horizontes. No silêncio da noite, em nossa casa (ou iglu), com delicadeza ele acendeu o fogo. Disse-me ele:
"Está na hora de aprender sobre nossos deuses. Os mais importantes são aqueles que nos regem. E soube em seu nascimento que a deusa da Lua rege suas emoções enquanto o deus da Guerra o conduz em suas ações. Mas para compreendê-los e, por consequência, entender a si mesmo, deve ouvir sobre nossa história."
Nossa tribo tinha um modo muito peculiar de enxergar o mundo, leitores. Entendíamos que havia mais do que nossos olhos poderiam captar ao mesmo tempo em que havia fatores responsáveis por fenômenos naturais como a chuva, os ventos, a tempestade, etc etc. Entretanto, nosso vocabulário era muito escasso. Como explicar que a natureza produzia eventos violentos como o terremoto sem associar a uma causa divina? Hoje em dia, é evidente que se tem termos que compreendem um entendimento maior do que gera os terremotos como a movimentação das placas teutônicas. Apesar desta explicação racional, entendemos que há, sim, espíritos de ordens ligadas á natureza por si só que realizam estes movimentos internos. De modo que, eu pergunto: seria equivocado associar tais movimentos naturais ao Deus Pai e a Deusa Mãe que em tudo há?
Nossa tribo tinha um modo muito peculiar de enxergar o mundo, leitores. Entendíamos que havia mais do que nossos olhos poderiam captar ao mesmo tempo em que havia fatores responsáveis por fenômenos naturais como a chuva, os ventos, a tempestade, etc etc. Entretanto, nosso vocabulário era muito escasso. Como explicar que a natureza produzia eventos violentos como o terremoto sem associar a uma causa divina? Hoje em dia, é evidente que se tem termos que compreendem um entendimento maior do que gera os terremotos como a movimentação das placas teutônicas. Apesar desta explicação racional, entendemos que há, sim, espíritos de ordens ligadas á natureza por si só que realizam estes movimentos internos. De modo que, eu pergunto: seria equivocado associar tais movimentos naturais ao Deus Pai e a Deusa Mãe que em tudo há?
A diferença, entretanto, reside no prisma com o qual olhávamos o mundo. Assim, grandes espíritos que um dia viveram na Terra recebiam o culto divino com atribuições que, em vida, teriam sido excelentes até mesmo acima da capacidade natural. Curiosamente, ou não, demos à deusa lua o nome de Jacy e ao deus belicoso o nome de Pinga. Adianto que aquele grupo particular que encarnei veio, em vivência anterior, da tribo dos tupis que se situava no Brasil. Coincidência não pode ser. Bem, não tínhamos como fazer o registro pela escrita, pois a oralidade era uma arte que nós dávamos muito mais importância.
"Jacy era uma bela moça que, toda a noite, andava pela tribo", contava meu pai. "Em vestes brancas, pois se recusava a adotar outras cores, era essencialmente pacífica. Não havia quem a admirasse. Na Terra, passou por muitos povoados até chegar ao nosso, sempre pregando a paz. Um dia, deparou-se com o deus do submundo. Dizia-lhe que a paz não trazia resultados, que ela perdia seu tempo. Enfim, ele a ofendeu de todas as maneiras. Jacy muito se entristeceu, mas não o respondeu. Sentou-se ao pé do rio, reparando no pouco leito que tinha. Mais uma vez, foi testada quando o deus dos lobos apareceu diante de si. Ele também a ofendeu, questionando-a sobre sua missão. Fê-la cair em prantos, o que muito o satisfez. Depois que ele se fez, veio o deus do meio-mundo. Quis ele saber por que ela perdia tempo em ensinar a paz e o amor para povos que sentiam prazer em gladiar-se uns com os outros. "Deixe-os a sua sorte", ele insistia, "e quem sabe não terá sua missão sucedida?". Novamente, chorou Jacy. Teria ela perdido mesmo seu tempo? Chorou ela, pois sentia-se quebrada. Até que um caçador chamado Pinga apareceu diante dela, do outro lado do leito do rio.
'Que causa fez bela moça a prantear interminavelmente?'
Jacy, muito sentida, respondeu:
'Fui ofendida por todos os deuses e sinto que meus conselhos caem a ouvidos surdos. As tribos só conhecem o orgulho e preferem o derramamento de sangue a silenciarem suas mentes e se comunicarem com o Grande Espírito'.
Era evidente que Pinga não gostou da resposta. No entanto, por mais que seu porte indicasse a função de caçador, a réplica que saiu dos lábios dele mostrou a força de seu caráter:
'Os fracos ofendem porque são fracos, minha senhora. Ai daquele que se acha no juízo de tomar o martelo e escolher a guerra desenfreada. No entanto, teremos deles piedade porque não sabem o que fazem. Se soubessem que as feridas pelo chicote da língua atravessassem a alma com afinco do que as gazelas promovidas pelas armas, usariam mais o cérebro. Ninguém é mau por natureza, mas por ignorância. É nosso dever acolher e fazer a nossa parte. Estão todos doentes, mesmo seus companheiros divinos.'
Ela o encarou com um misto de doçura e incompreensão. O caçador atravessou o leito, ignorando que, ao fazê-lo as águas aumentavam. Apesar disso, chegou ao destino.
'Senhora, é bela e pálida como a lua, sensível como as águas. Permita-me lembrá-la de que, neste mundo embrutecido, é preciso que as pessoas conheçam essas emoções. Sem as mesmas, afundam-se em lamas.'
E dali em diante, Pinga a tomou como esposa. Juntos, prosseguiram por todos os povoados de norte ao sul, ensinando e pregando, guerreando, no entanto, contra o maior inimigo que ousava atravessar seu caminho: o orgulho."
Meu pai deixou que aquele conto caísse em nós mesmos enquanto puxava o charuto. Seus olhos pequenos encaravam a nós todos: meus irmãos mais novos e eu, o primogênito. Nossa mãe também silenciava. Depois, virando-me para mim, disse:
"O que pode compreender depois que contei isso, filho?"
Hesitei. Temia falar algo de errado, mas o olhar que ele me lançava me encorajava a falar. Como se movido por inspiração divina, disse:
"Se esses deuses me guiam e regem meu caminho, creio que seja meu dever não somente guerrear contra o orgulho que habita em meu espírito, cuja chaga existe desde que Tupã me permite recordar, mas ter em mente o acolhimento de minhas emoções, buscando sensibilizar aqueles que estão do meu lado."
Ele sorriu.
"Essa é a sua missão, de fato. Muitos de nossos guerreiros acreditam ainda que o motivo da glória reside na conquista de terras, na caça e em tantas outras desventuras. Mas isso, creio eu, é apenas ilusão. Embora a guerra na Terra seja inevitável e que com lastimável frequência seja imprescindível tomar nas armas a fim de defender a família contra nossos inimigos, a verdadeira guerra está dentro de nós mesmos. Aquele que vencê-la está pronto para vencer o mundo. Nós somos nossas pedras. Nossas sombras são aquelas projetadas e encorajadas pelos deuses do submundo, mas é de nossa responsabilidade vencê-las, derrotá-las para que não sejamos por elas derrotadas. Você se deparará com muitos sofredores que usarão a discórdia como arma para explorar o orgulho alheio, mas cabe somente a você resisti-la. O mundo está cercado de tentações. Vivemos em constantes embates. Mas o melhor guerreiro é aquele que busca no esforço de si mesmo o equilíbrio. Para isso, Pinga toma a sua frente a fim de mostrá-lo que suas imperfeições pretéritas ressurgirão, mas, dependendo de como se conduzir, ele o ajudará a procurar a solução para que não incorra nos mesmos erros." Ele fez uma pausa, esperando encontrar compreensão em meus olhos.
"Ao final das contas", disse minha mãe pela primeira vez, "Jacy estará ao seu lado para que seja sempre humano no seu caminhar. Não somos melhores ou piores que ninguém. Cada um no seu cada um. Lembre-se disto, meu filho."
E não me esqueceria jamais. A seu modo, meu pai tinha previsto uma guerra sobre nossa tribo, como ela de fato veio a acontecer. Por cerca de dez luas cheias, não conhecemos paz. Em minha juventude, não fugi da ira, sendo-me ela inevitável. Fui temperamental e isso me cegou. É muito difícil enxergar a razão quando somos atacados por todas as frontes possíveis. É quase impossível buscar a lógica em nosso sofrimento.
Perdi minha família em uma idade que meu caráter se formava e o velho eu voltou a mim com toda a intensidade, pois sabe-se que o espírito encarnado só toma as rédeas de sua encarnação após a idade dos quatorze anos. E, por eu mesmo ter sido um guerreiro em momentos anteriores da minha vida (servindo a Genghis Khan, aos imperadores chineses, conhecendo o Tibete, mas dando lugar ao belicoso em prol da filosofia, e, antes disso, ao lado de Maomé, ao lado de quem fui, pela primeira vez em longa existência obscura, esclarecido sobre as leis divinas. Apesar de incontáveis falhas, houve progresso também e estudei muito, mesmo em meio às armas que me chamavam à guerra), era quase inevitável que eu conhecesse a vingança e procurasse responder a injustiça na mesma moeda.
Todavia, lembrando-me da sensibilidade de Jacy e da racionalidade de Pinga, como eu poderia investir minhas energias contra tudo o que meu pai e minha mãe haviam me ensinado? Revoltar-me contra as dores de meus irmãos não mudaria em nada o que se passou. Chegou a um ponto que eu cansei de lutar e me recusei a fazer parte daquela sangria desnecessária. Foi como se meus olhos abrissem para a realidade. A quem eu servia: aos propósitos do Grande Espírito ou aqueles do homem? Todo o popular era a favor da guerra, mas seria por isso que estavam corretos em sua acepção? Ninguém pensava ou questionava o que se passava mais. E foi ali que eu percebi qual era minha missão.
Foi por isso que conversei, pacificamente, com cada um dos meus irmãos sobre como estávamos mergulhando numa guerra sem propósito. Justificávamo-nos que era somente assim que nos defenderíamos, nos salvaríamos da invasão, mas teríamos, por ventura, procurado uma solução mais diplomática?
Foi difícil. Conversar com surdos exige muito de nós: disciplina e paciência. Neste sentido, as sombras são úteis, pois se fizéssemos tudo de bom grado sob o olhar atento do sol, do que nos serviríamos de aplausos? Minha missão, porém, foi interrompida. Morri antes de completar vinte anos. A guerra custou-me a vida, mas, sabem de uma coisa? Valeu a pena. Pois em seguida, a tribo aprendeu com os deuses que me fizeram seu instrumento.
Às vezes, o diálogo é muito difícil, mas necessário. Precisamos ouvir, mas também ser ouvidos. O Grande Espírito não quer que nos humilhemos. Mas se queremos servi-lo, devemos nos servir. Isto é, e uma vez mais repito, ouvir a nós mesmos, acolher nossas sombras, nossos sentimentos, e, ao invés de procurar um embate direto com nossas imperfeições, que possamos antes fazê-lo mais pacificamente. Esta é a lição que pretendo trazer a vocês e que aprendi tanto enquanto nativo brasileiro quanto como nativo das terras geladas. Na encarnação posterior, completaria minha missão entre os incas, mas esta memória não posso ainda narrá-la.
Agradeço à médium por seu tempo, esforço e carinho comigo. Que Iansã a abençoe, tal como nosso Grande Espírito que nos rege a todos.
Com amor, Caboclo de Iansã."
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