quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Contos Medievais, Tragédia III: A Queda de Constantinopla.

Nota do guia de Ogum: "Caros e caras leitores, concluímos hoje a segunda sessão do ciclo de contos medievais. Trago hoje comigo companheiro de longa data que se apresentará segundo o nome da encarnação que viveu nestes tempos e que compartilhará em seguida. Stephanos e eu já nos encontramos em vidas pretéritas, em particular ainda nas cruzadas. Como sabeis, "tragédia" aqui não deve ser interpretada à luz de seu significado literal, mas sob o entendimento da espiritualidade. Da mesma maneira como se foi dado em contos passados, este não será diferente e nos mostrará a vivência de um espírito que optou por provas que o regenerassem de erros pretéritos. Na próxima sessão, que provavelmente ocorrerá no mês que se segue, terminaremos estes contos com o ciclo de guerras, isto é, espíritos ainda marcados por existências belicosas que aceitaram participar desta missão conjunta que não se trata somente da médium que transmite com fidelidade suas mensagens, mas todos nós que caminhamos, com a graça e permissão divina, para um aprimoramento interno, moral e espiritual. Dito isto, como de costume, farei os comentários quando necessário. Agradecido por terem chegado aqui, rogo-vos meus melhores votos a vós. -George."

"A todos os que se dispõem a ler, eu vos saludo. Como já foi indicado acima por caro companheiro de vidas distantes, venho cá com a missão de auxiliá-los no que for possível a partir de memória de particular existência ainda na Terra no período histórico conhecido por vós como Idade Média. Meu nome é Stephanos Alexius e a memória da qual vim contar remete à queda de Constantinopla, a qual ocorreu no dia 29 de maio de 1453 depois de longos meses em cerco. Não pretendo me alongar muito porque, admito, não é com grandes alegrias que volto para estes tempos. As reencarnações posteriores, ocorridas outra vez na Grécia e, mais tarde, na Inglaterra e na Irlanda, me foram mais saudosistas se é que posso tratar desta maneira.

Mas, colocando as perspectivas de um espírito ainda em melhoramento de lado, vamos ao que nos interessa. Constantinopla, para os que desconhecem sua história, fazia parte de um império vasto que durou mais de 11 séculos. Este recebeu o nome de Bizantino, mas, na verdade, era reconhecido por ser o lado romano do Oriente. Tanto é que o grande imperador romano chamado Constantino deslocou a capital do império de Roma para Bizâncio e a renomeou segundo seu nome. A "cidade de Constantino" era extremamente bem localizada geograficamente por se situar entre os mares de Marmara e o Corno de Ouro, em ponto que "unia" tanto o continente europeu quanto o asiático. Não somente por isso, ela era rica em especiarias (eu, particularmente, como se verão depois, fui comerciante de cravo e canela), tecidos, artefatos, entre tantos outros. Isto permaneceu por bastante tempo e por ser cristã, atraía bastante os viajantes do ocidente. 

Mas, pelo mesmo motivo, foi saqueada até por aqueles que se diziam obedecer a Cristo. Digo os cruzados que, no século XIII, ocuparam Constantinopla. Antes deles, porém, os turcos já estavam de olho nesta rica cidade, capital de império histórico e longevo, pois enquanto Roma caía em torno dos anos de 400, Bizâncio prevalecia. Justiniano I, um dos sucessores de Constantino, foi responsável pelas edificações de leis que ainda hoje, em seus dias modernos, existem. Zoe Porphyrogenita foi outra das mais conhecidas imperatrizes, embora fosse a única a ser coroada como tal, com todas as particularidades que lhe couberam em tais tempos. Fui seu contemporâneo, mas lamentavelmente não a conheci pessoalmente naquela existência.

Nomeei estes imperadores, muito conhecidos na história da Humanidade, para demonstrar quão grande, poderosa e relevante havia sido o império bizantino que abarcou territórios que iam desde o sul da Península Itálica até Jerusalém. Entretanto, desde as cruzadas, este império começou a se desmantelar. Sabemos que, sejamos cristão ou não, o que é construído pelo homem não dura pela eternidade. Seu amor, conforme nos ensinou Jesus, por outro lado, marca-nos a alma no infinito e além.

No entanto, esta não é uma história de amor. Se esperam romance, lamento desapontá-los. Nesta vivência cujo contexto eu os expliquei parágrafos acima, optei por "sofrer" só todos os desenrolares da vida a fim de me regenerar de pretérito culposo. Na vida anterior, fui islâmico, mas radical e hipócrita. Antes desta, fui cavaleiro soberbo da Ásia. Como podem perceber, tais vidas me levaram, diretamente ou não, à Constantinopla. Quando renasci nessa "cidade de Constantino", o império estava a se desmantelar para sempre.

Fui órfão adotado pelo Estado, por assim dizer. Criado entre os empregados do palácio do imperador, recebi o nome de Stephanos. Do que haviam me dito dos meus genitores, que jamais conheci porque faleceram de pestilência (embora em diferentes tempos e por diferentes causos: meu pai, meses antes, desencarnou por ter sofrido da peste bubônica; e minha mãe retornou ao plano espiritual depois de passar pelo que a medicina do século XXI chama de "febre puerperal" que, até a Idade Moderna, era o responsável pelo falecimento "precoce" de mulheres após o parto), soube que era greco-romano segundo as ascendências parentais. Meu pai vinha de respeitável família grega e ele mesmo era chamado de Dyonisus. Fora comerciante, mas nunca prospera realmente. Minha mãe, por sua vez, descendia de romanos. Costumava afirmar orgulhosamente que seus ancestrais vinham de Júlio César, e por tradição de sua casa, recebera o nome de Júlia. De nada serviu-lhe "gabar-se" de tais linhagens porque éramos uma família pobre. Ao menos eu nasci em condições bastante humildes. E fui resgatado pela piedade de um amigo da família, que era um dos criados da família imperial.

Como podem ver, minha infância não foi das mais fáceis. Este amigo da família, a quem chamarei de Césarus tinha ascendência romana (e deixo isso claro para demonstrar a pluralidade das famílias que viviam em Constantinopla) foi um pai para mim, mas sua família nunca realmente me aceitou porque, em sua ignorância, eu os atrapalhava a ascender mais alto. Nunca sofri nenhum maus tratos, mas, caro leitor, a rejeição, por silenciosa que seja, deixa marcas na alma do sujeito. Mas por ter sido doutrinado no plano espiritual antes de encarnar, esperava por isso. Talvez seja por este motivo que eu nunca me rebelei. Creio que os espíritos em expiação e/ou regeneração guardam na consciência "instinto" de resignação e resiliência. Por outro lado, é claro que isto não isenta as dores pelas quais passei. 

Não vou me prolongar nestes primeiros doze anos (de 1430 a 1442) porque não houve quaisquer eventos significativos que acrescentem a esta narrativa. Devo dizer, porém, que fui educado segundo o cristão ortodoxo daqueles tempos, frequentava bastante a Hagia Sofia e estudava aritmética, filosofia e geografia com Césarus. Ele gostava de mim e queria arranjar-me cedo matrimônio com alguma moça rica, mas, diante dos protestos de sua esposa e dos filhos de seu sangue que me rejeitaram em seu seio desde tenra idade, o planejamento nunca se concretizou. 

Mas um dia me cansei disso tudo, de agradar e não ser agradado. De dar amor a quem me oferecia ódio. Há momentos em nossas vidas, prezados leitores, que não devemos ficar onde nós não somos queridos. Para tudo há um limite, e não devemos suportar mais do que nossa condição permite a fim de martirizarmo-nos em nome do Senhor. O Pai deseja ver-nos felizes, ou o Inferno seria uma realidade concreta. Nem mesmo Jesus permanecia no mesmo lugar quando seus ensinamentos não surtiam o efeito desejado. Nossa insistência vai até certo ponto, porque precisamos também respeitar e compreender o livre arbítrio desses com quem nos interagimos.

Pois bem, como dizia, fugi de casa aos doze anos. Procurei algum senhor que precisava de serviços. Para alguém que ainda tinha o orgulho marcado na alma, aquela não foi uma situação fácil. Correr pelas ruas de paralelepípedos em vestes simples e, como minha pele era mais amorenada, esperar não ser mal interpretado. De fato, o racismo já existia. Os mais pobres e desfavorecidos eram mal vestidos pelos "do alto", por mais que em ambos se enxergasse a mesma cor de pele.

Por alguns meses, morei na rua. Fugi de mendigos, me desviei de ladrões. Não foi fácil depender da fé, mas, mesmo em situação difícil, arranjava tempo de dirigir minhas preces a Jesus Cristo, à Virgem Maria, aos santos da Igreja. Mirava em silenciosa contemplação as iconografias que pintavam as vidas de espíritos elevadíssimos. Quando ouvia, ainda que escondido, as "missas", pranteava todas as vezes em que o padre fazia suas homilias. Tocavam meu coração e minha alma, por isso não desistia de rezar.

Era Páscoa quando vi (sim, eu sabia ler) um sapateiro anunciar pelas ruas que precisava de ajudante. Prontamente me apresentei.

--Você é muito sujo--ele me acusou assim que pôs os olhos sobre mim--Não quero você, saia.

--Não tenho lugar para ir--protestei--Preciso deste emprego, por favor. 

Este sapateiro me encarou, eu via em seus olhos a rejeição pronta, mas Deus se compadeceu de mim. Um guia espiritual tocou seu coração e a raiva se transformou em compaixão.

--Tudo bem, garoto. Como se chama?

--Stephanos Alexius, senhor--eu disse, desejando me mostrar obediente.

O sapateiro não se vestia tão bem quanto gostava de se pensar, embora certamente fosse mais limpo que eu. Até para a Idade Média, eu os digo, Constantinopla tinha bons padrões de banhos. 

--É um nome muito grego para um garoto como você--disse ele--Meu nome é Patroklus. Venha, vamos nos limpar. Imagino que não tenha casa tampouco, eh?

Sorri diante da perspectiva que parecia se apresentar diante de mim: teria Senhor Jesus se sensibilizado comigo e respondido minhas preces? Ansioso para agradar, eu falei:

--Sim, mas prometo que se o senhor me ceder até mesmo um lugar no porão de sua casa, me comportarei como uma ovelha obedece seu pastor.

Patroklus era um homem franzino de cabelos negros e encaracolados, de nariz grande e feições não muito belas, embora seus olhos fossem atipicamente esverdeados, cedendo-lhe uma suavidade que inspirava simpatia dos outros. Ao me levar para sua casa, grudada em tantas outras, notei simplicidade nos móveis e quão apertado era para sequer ter um porão. Apesar disso, ele me disse:

--Não preciso de muito, rapaz. E não há por que se rebaixar a tanto. Temos um quarto sobrando. Minha esposa e eu casamos uma filha recentemente de modo que há um cômodo vazio. 

A esposa, uma bondosa e rechonchuda senhora chamada Niceia, apareceu da cozinha no instante em que adentramos sua casa. Usava um véu branco a cobrir seus cabelos escuros e vestes longas e coloridas sobre o corpo. Em seus olhos castanhos, brilhava uma bondade que acalentou meu coração. Logo soube que havia sido recompensado.

--Niceia!--exclamou Patroklus--Venha cá! Olha só quem achei!

Como se tomada de familiaridade, Niceia me recebeu com os braços abertos e olhos quase lacrimejando de emoção. (Nota de Ogum: "Ela havia sido mãe dele em outra vida. Niceia era um espírito que não mais precisava reencarnar, mas pediu ao Senhor para acompanhar Stephanos naquela existência e ajudá-lo a livrar-se dos resquícios que o maculavam a alma ainda. Tal era o amor de mãe que, verdade seja dita, vinha desde muito tempo antes. Como sabemos, este amor é o que mais nos aproxima ao de nosso Pai).

--Menino querido!--e ela me beijou as duas bochechas, fazendo-me corar--O que estava fazendo na rua? Vamos, depois conte. Precisa se alimentar, mas antes disto, vá se lavar. Não, Patroklus, deixa que eu mesma o lave.

De olhos arregalados, mas profundamente tocado por aquele amor que me foi negado toda a vida, apenas a acompanhei, entre silencioso agrado e desconfiança. Mais tarde, já limpo, com outras vestes e apropriadamente alimentado, expliquei àquele casal o que se deu de mim. Niceia sorriu:

--Louvores daremos a Deus por tê-lo trazido a nós. Fico muito contente por isso, estava mesma me sentindo sozinha desde que Alexia se casou. Ela vive ao sul de Constantinopla agora, e tem sua própria família. Penso que a casamos bem, embora seu esposo seja judeu. 

--Não há nada de errado com os judeus, mulher, eu mesmo venho de uma família de uns--ralhou Patroklus.

Niceia ruborizou, constrangida.

--É verdade. Peço perdão por ter esta visão tão... enraizada, mas é que ultimamente os padres têm pregado contra os judeus, e Deus fala por tais homens. 

--Homens falíveis--e Patroklus se mostrava mais sábio do que eu imaginava--Como Deus, ser perfeito que é, falaria através de tais criaturas? Ele não falha, mas os que atuam em Seu bom nome cometem erros diariamente. 

--Concordo--cedeu Niceia, contemplativa, sem resquícios de orgulho--Mas penso que seja para regenerá-los. Se todos são passíveis de cometer erro, igualmente podem acertar. Nosso Senhor sabe disso, e espera receber em Seus braços as ovelhas que, por descuido próprio, fugiram de Seu pastor. Mas, de todo modo, será agora nosso filho, se assim permitir, Stephanos.

Eu sorri em deleite.

--Obrigado--e, como se inspirado por energia divina, acrescentei espontaneamente--Que Deus os abençoe a todos.

Até os meus dezoito anos, não sofri grandes calamidades, embora não queira dizer que tenha sido fácil. Patroklus, por melhor educador que tenha sido, era exigente e isso provocava alguns conflitos que, pela graça intercessora de Niceia, apaziguava as reminiscentes tensões. De pouco em pouco, o negócio começava a frutificar: de sapateiros, viramos comerciantes. Afinal, um dos clientes tomou gosto pela forma como Patroklus vendia seu produto e, de repente, tornamo-nos seus empregados. Entramos em contato com os mais diversos produtos, dentre eles especiarias.

Cravo-de-noz, canela, açúcar mascado, etc, eram bastante procurados e vendidos. A perspectiva para a família era boa. Nada mais pensava nisso. Claro, ao longo da minha juventude, fiz amigos. Melhor dizendo, reencontrei-os. Alguns haviam melhorado, tanto moral e espiritualmente quanto fisicamente. Da classe dos guerreiros, fiz amizade com um dos subtenentes e generais. Até um parente distante do imperador eu também conheci. Da velha família que me rejeitou na infância, porém, não vi mais... até o meu vigésimo primeiro ano. 

Em 1451, dois anos antes da queda de Constantinopla, minha família e eu havíamos enriquecido mais do que nossos planejamentos. Não éramos ricos no sentido estrito da palavra, mas pudemos nos mudar para a região mais abastada da cidade. A prosperidade exigia cuidado, uma vez que entendemos que nada era definitivo. Observamos a sorte de conhecidos mudar de uma hora para a outra, pois assim se fazia valer a vontade do Pai.

Bem, como dizia, estava a vender uma dessas especiarias ao centro da cidade, que era muito agitada como podem pensar. Estrangeiros de todos os lugares passavam por ali e nós, eu e Patroklus, a quem passei a chamar de pai, tínhamos nossa própria tenda. Admito que era exibicionista quanto a isso, pois em tamanho era maior do que a dos companheiros. Mas não fazia questão de tornar mais óbvio do que era, já que Niceia, quem eu logo chamei de mãe, me ensinou com firmeza nos ideais cristãos. É verdade que moralmente havia me melhorado, mas não o suficiente, até porque é um processo em continuidade. 

E o verdadeiro teste veio nas pessoas que, desde o início, me rejeitaram de seu lar. (Nota de Ogum: "Foram inimigos de Stephanos, que ele provocou a morte na vida anterior e com muita dificuldade o haviam aceitado em seu seio somente para expulsá-lo dele. Sabemos, porém, que a lei do retorno jamais falha e pode ser inflexível com os que se recusam a aprender"). Mariah, esposa de Césarus, vinha ricamente vestida com três de suas belas filhas e dois rapazes que entendi serem seus filhos. À primeira vista, me pareceu que eram nobres, aristocratas, mas quando ela se dirigiu a mim, os cabelos castanhos escondidos sob o véu azul, vi de imediato que a aparência me enganara. Aqueles olhos olivas não me foram esquecidos da memória, e seu semblante, pouco envelhecido, não era fácil de se olvidar. Entretanto, pouco tempo tive para fazer o reconhecimento quando ela disse:

--É o senhor responsável pelas especiarias? Estão todos dizendo por cá que sua tende vende bastante produtos de tais espécies.

--De fato, senhora--eu falei, esforçando-me em ser gentil porquanto sua voz confirmou minhas suspeitas. Uma de suas filhas, tão bela quanto sua genitora, me fitava com divertimento. Mas não lhe dei atenção--Vendemos bem pela graça de Deus.

--Amém--disse ela, insincera--Desejo canela para o incenso.

--Incenso de canela?--disse eu, me esforçando para tratá-la como qualquer cliente--Já o vendemos pronto, madame.

--Oh!--exclamou Mariah, positivamente surpresa--Mas que maravilha é seu serviço. Gostaria de três, por gentileza.

E estava eu a me virar quando ela, gentilmente, me dirigiu novamente a palavra (parcialmente motivada pela filha que insistia-me em saber meu nome):

--Com licença, mas como poderia dirigir ao senhor?

Senti hesitação. Naquele dia, estava só. Patroklus havia ido ao norte da cidade para receber mercadoria vinda do porto, relegando a responsável das vendas a minha pessoa. Considerei inventar meu nome, sentindo uma ansiedade estranha bater em meu coração. Decidi confiar que a memória da mulher a trairia, portanto, optei em ser sincero:

--Stephanos, senhora--e entreguei-lhe o incenso desejado--Custam dez moedas de ouro.

O sorriso no rosto dela se esvaiu e os olhos se arregalaram. Ela se lembrara, mas seus filhos, não, pois um deles exclamou:

--Dez moedas de ouro por isso?!

--Eles vieram diretamente da Índia, senhor. A qualidade não permite ser vendida por baixos preços--e, não pude evitar, comentei--Certamente satisfará seus gostos.

O rapaz resmungou, mas concordou. Deu-me as dez moedas de ouro e se prontificou a ir embora, mas a mãe relutava e a filha estava a demonstrar em interesse quando notei que ela segurava seu pulso, impedindo-a de falar comigo.

--Stephanos?--disse Mariah, chocada--Seu nome é grego demais e pouco comum entre nós de cá. Conheci somente um e...

--Acho que a senhora deve ter se confundido--disse eu, recusando-me a ser rude. Ofereci-lhe um sorriso--Que Deus a abençoe, madame.

E, antes que ela pudesse responder, outro cliente apareceu. Para a minha sorte, aquele foi um dia cheio e que logo me distraiu daquele reencontro tenso. Mas com um canto de olho percebi o remorso transformar-se em raiva quando ela ralhou à filha que ela deveria prestar atenção em rapazes adequados. Não nego que ter ouvido aquilo feriu meu coração, ou melhor dizendo, meu ego. No entanto, minha consciência jazia tranquila: tratei-a bem como Jesus nos ensinou e sabia que deveria perdoá-la e sua família setenta vezes sete vezes. Não mais a reencontraria em vida.

*                                                                            *                                                                               *

1453. 

Hora atrás de hora, dia atrás de dia, semana atrás de semana, mês atrás de mês. Em um ano tudo estava bem, próspero, tranquilo. Em um ano, conseguia me desprender dos negócios para seguir os conselhos de minha mãe adotiva, que insistia que eu deveria arranjar esposa. Em um ano, eu descobria a vida noturna, flertava, mas nada além disso... Porque naquele ano, tudo iria por água baixo.

Patroklus já sabia o que estava acontecendo, mas decidiu manter a todos nós na ignorância. A ameaça dos turcos não era velha, ao contrário, era de conhecimento geral que eles planejavam tomar nossa capital e destruir nosso império. Cego pela juventude, não me atentei para os problemas que chegavam. Não percebi que a inflação que começava a dificultar nossas vendas foi por conta das tomadas das rotas que, um dia, haviam nos favorecido o comércio. Ou que os guardas dia e noite reconstruíam muralhas que, no passado, eram inexpugnáveis. Tudo ficou caro, mas a vida continuava. Muitos de nós, povo comum, acreditava que isso passaria. 

Certamente, a Cristandade nos ajudaria. Os cavaleiros do Papa não existiam mais, mas sua Santidade falaria com nosso Patriarca, enviaria ajuda necessária. Não se tratava de um inimigo qualquer, mas de um em comum: os muçulmanos. Quando demos por nós mesmos, ele estava à nossa porta. E o cerco havia começado.

*                                                                                  *                                                                          *

Não me lembro com precisão a que ponto deixei de ser um mero comerciante risonho para aspirante a soldado, temente à vida. A que ponto a guarda imperial precisou de civis para impedir que os inimigos tomassem-nos. Mas, então, veio o silêncio... E a desesperança chegou.

Lembro de minha mãe rezar em tranquilidade de três em três horas, do pai ficar nervoso, da minha inquietação. Até ele falar:

--Por cargas d'água, malditam sejam! Não seremos salvos se não fugirmos disso tudo!

--Como vamos fugir? Estamos sendo sitiados!--falei, frustrado.

--E acha que eu não sei! Deveria ter aproveitado oportunidade de antes--rosnou em resposta--Malditos sejam, se eles tomarem nossa cidade não seremos mais cristãos.

O cenário era caótico. Perdíamos batalhas navais, a ajuda cristã não chegava... A maioria dos desfavorecidos acreditava no abandono de Deus. 

--A morte não deve ser temida--disse-nos a mãe, depois de findar suas preces--É a alternativa que melhor devemos abraçar para chegarmos aos braços do Pai. Para que prolongar sofrimento?

--Valha-me Deus, mulher! Eu não quero morrer!--esbravejou-se o homem--Não, não. Ninguém vai morrer por esses mamelucos. Ninguém aqui virará islâmico.

E, sem esperar resposta, atravessou a porta. Mandou-me, porém, que ficasse com a mãe. Virei-me para ela, pois, e disse:

--Que será de nós? Sinto-me inútil. Por que isso está acontecendo?

Com serenidade, ela acariciou meu rosto e falou:

--Não deve se sentir inútil, pois que Deus guarda ocupações para todos nós desempenharmos em vida. Você fez o que pôde mediante as circunstâncias que foram criadas pelos homens. O que somos nós na guerra dos imperadores, de reis, dos bispos? A História não guardará nossos nomes, não saberá do que passamos, não recordará nossas alegrias e tristezas. Mas Deus tudo vê, tudo sabe, tudo guarda. Ele se lembrará e estenderá sua mão para nos ajudar mediante a misericórdia com a qual vem nos tratando. Não deve temer o porvir, meu filho. Antes deve lamentar os descuidos dos homens que, esquecendo-se de Deus, guerreiam contra seu semelhante em Seu nome.

Suspirei, mas entendi sua mensagem. Como para amenizar a tensão, falei:

--O pai discordaria de você.

Ela riu, e eu senti meu coração diminuir o peso que, há quase três meses, vinha me incomodando incessantemente.

--Seu pai é bravo porque os tempos exigem que o seja. Mas ele tem bom coração, e veja só, trouxe você a nós.

Aquilo me emocionou e, por um instante de fraqueza, permiti-me chorar. Ela me envolveu em seus braços e disse:

--Tudo dará certo.

E eu confiei em suas palavras.

*                                                                                   *                                                                         *

Havia aceitado que a morte era certa, não haveria escapatória e até mesmo ansiava por ela. Defenderia-me com o que quer que estivesse em minhas mãos. Tínhamos velhas espadas, corroídas pelo tempo, mas gostava de pensar que serviriam para causar mais dor ao inimigo. O desespero, apesar de tudo, permanecia. As preces atenuavam, mas a realidade inspirava medo. Não era como minha bondosa mãe, que não enxergava as circunstâncias segundo a carne, mas o espírito. Deste modo, ela não se amedrontava. Aceitava com paciência e recomendava que nós e os vizinhos, em rara oportunidade de encontro, fizéssemos o mesmo.

Mas, na madrugada para o dia 29 de maio de 1453, minha vida daria outra virada. Não minto nem iludo a vocês, leitores, nos detalhes que direi a seguir. Era quase uma hora da manhã, por suposto, quando o pai chegou à casa. Havíamos, eu e a mãe, pensado no pior. Mas antes que o recebêssemos com alívio, ele de imediato falou:

--Peguem suas coisas essenciais, nós vamos partir.

Minha mãe arregalou os olhos, mas eu disse:

--Como assim, pai? Estamos sendo sitiados.

--Isso eu sei--ele retrucou, impaciente--Mas consegui um jeito de sairmos daqui. Andem logo, não temos tempo a perder. O ataque dará início hoje mesmo, quando todos estiverem adormecidos.

Não esperamos por mais explicações. Pegamos somente o necessário, vestimos capas e, no calar da noite, deixamos tudo para trás. Rezei, a todo caminho, por proteção, mas também para que Deus abençoasse aqueles que ficassem e desconhecessem o destino. Estava tudo escuro, mas seguimos por caminhos que, mesmo à luz do dia, desconhecia o trajeto. Notei que um barco discreto nos esperava. Era de pesca. Não havia tempo para perguntas ou identificações. Corremos o quanto pudemos, renovando, a todo instante, as preces. 

Entramos, e mal nos havíamos recolhido sob toda uma capa que o pescador havia jogado para cima de nós... O sinal foi ouvido. Já não sabia mais aonde estava, o medo era terrível e me amedrontava tanto que quase fê-me tremer o corpo. Não via nada, não queria sequer respirar. Temia sermos descobertos, já que o barulho que aumentava a todo instante parecia estar perto de onde estávamos. Senti em meus pais a tensão que também fez de meu corpo rígido. Estávamos em posições desconfortáveis. Um nó amargurava minha garganta, e tudo o  que queria era sair dali.

Esse nó se dissolveu em lágrimas silenciosas quando os gritos transformaram-se em berros. Foi quando senti o barco movimentar-se. Gritos de angústia quebravam o silêncio, mas não ousava virar e ver de onde vinham. O desespero por si só era de cortar o coração. Ouvi barulhos de cascos, imaginei que estávamos ao mar. Mas o som continuava mesmo quando saíamos dali. Demorou tempo o suficiente para nos afastarmos de Constantinopla, embora nada apagaria o horror de ter ouvido meus compatriotas desfalecerem no jugo dos turcos.

Quando o silêncio eventualmente prevaleceu, meu pai foi quem disse:

--Este barco nos levará à Athenas. Tenho tudo preparado para ficarmos por lá. Se perguntarem, dizem somente que viemos de Lesbos para fixar residência na capital.

Ninguém mais falou nada, mas minha consciência pesava. Eu sobrevivia de novo contra todas as chances, mas sentia que deveria ter morrido junto com meus companheiros. Como se lesse meus pensamentos, minha mãe falou:

--Deus ouviu nossas preces e nos salvou para que pudéssemos exercer Sua vontade longe de qualquer perigo. Devemos dar a Ele graças por esta proteção. 

--Não sou merecedor dela--eu me ouvi dizer, as lágrimas queimando meus olhos--Não deveria ter sido salvo.

--Cale-se, garoto--resmungou o pai em voz baixa--Gostaria que o deixasse ser saqueado pelos turcos, morto e, sabe-se lá mais o que, por eles? 

--Deixei amigos, pai. Deixamos uma vida lá--foi tudo o que consegui dizer.

--Morreria por quem não faria o mesmo por você?--e, sem receber minha resposta, disse, mais calmamente--Devemos morrer por Cristo. Mas Ele não quis que assim se sucedesse. Agradeça-o em vez de se fazer de vítima. Você é melhor que isso.

Embora as palavras possam soar duras, eram verdadeiras em seu ensinamento. Em retrospecto, vejo que nunca pertenci inteiramente a Constantinopla. E não deveria ser ingrato por Deus, através de Seu filho, ter se compadecido de mim e de minha família. Eram provações duras, caros leitores, as que eu passava. Teste de fé, paciência, resignação e resiliência. Teste de humildade, lealdade e de amor. Amor pelos pais que me adotaram. E o desapego de tudo o que eu havia um dia possuído. Expatriado, exilado, pobre novamente. Mas, eu percebi, tinha comigo a fé em Pai, e que Ele retornava essa fé em mim ao me permitir viver. Carregava comigo meus pais que, para além da adoção, me ensinaram tudo o que eu sei. Desistir não era opção. E eu viveria pelos amigos que os turcos me tiraram.

De fato, concluí que eu possuía muito mais do que pensava. O amor e a fé bastavam. E foram estes pilares que me modificaram, afinal.

*                                                                                   *                                                                  *

Em verdade, fomos parar na Ilha de Creta, onde lá optamos por ficar. Vivemos sem a prosperidade de outrora, mas isso não mais nos importou. Continuamos nossos trabalhos de maneira mais humilde, trabalhando em conjunto com a Igreja Ortodoxa daquela região. O pai, no ano seguinte, regressou ao plano espiritual em paz. Em seus últimos dias, havia percebido isso. Ele nos disse:

--Vê-los vivos e bem foi o presente maior que o Criador me concedeu. Sou grato por isso. Filho, gostaria que se casasse e desse continuidade à esta família, mas Deus sabe o que faz.

Naquele ano de 1454, recebemos também a volta da filha biológica do casal, minha "irmã", Alexia. Ela também sobreviveu à queda de Constantinopla, conseguindo fugir com os filhos pequenos. Mas o marido ficou para trás, falecendo na tomada da cidade que surpreendeu a todos. Nós nos demos muito bem e nossa mãe renovou suas energias que, por pouco tempo, perdeu quando o pai se fora. 

Mas logo ela também cumpriu sua missão. Alexia e eu, junto às crianças, optamos por deixar o conforto de Creta e fomos à Athenas. No entanto, foi ali que o cansaço bateu forte meu espírito. A tuberculose me enfraqueceu em meio ás dificuldades econômicas pelas quais passamos, mas não desisti até vê-la casada novamente com um bom homem. Apesar de todas as misérias, aprendi a ser forte através delas. Fui grato, mas também, de certa maneira, infeliz. Não nego que morri saudosista dos alegres dias de Constantinopla, de vender as especiarias, de frequentar as "missas" dentro da Hagia Sofia. 

E, no entanto, fui um sobrevivente. Aprendi o desapego a todo custo, a confiar na fé, a ser humilde diante de tudo e entregar minha vida ao Pai. Penso que isso tudo está presente nesta narrativa que, à princípio, pode parecer absurda. Eu mesmo, nos últimos dias, ainda estava perplexo por ter escapado ao domínio do Império Otomano. Tudo foi para meu ensinamento. Na existência seguinte, como já mencionei no início deste relato, voltei à Athenas para completar essa aprendizagem. Instruí-me muito mais nos trabalhos filosóficos de Platão, Aristóteles e tantos outros pensadores destes tempos. Foi uma curta missão para que a outra, na Inglaterra renascentista elisabetana, pudesse concluí-la adequadamente.

No entanto, foi na Irlanda e no seu processo de independência que eu, de fato, pude me desprender destes últimos vícios que tantas marcas deixaram em meu períspirito. Hoje em dia, trabalho do plano espiritual, a partir de colônia situada sobre o norte do Brasil.

No mais, concluo aqui com meus agradecimentos ao Pai Maior por esta bela oportunidade de auxiliar os que precisam através da escrita. Agradeço ao guia de Ogum desta médium paciente e de belo coração pelo líndissimo trabalho que vêm feito juntos. É um honra ter podido participar e contribuir de alguma forma. Que Deus os abençoe a todos nós, iluminando nossos caminhos!- Stephanos."

domingo, 18 de outubro de 2020

Contos Medievais, Tragédia II: A Queda dos Templários

Nota do guia de Ogum: "Caros e caras, seguimos com os contos medievais. De antemão aviso que este será um conto mais curto do que o anterior pelo motivo de que o espírito em questão ainda se encontra em recuperação na colônia de 'Nosso Lar' antes de ser transferido para outra que não posso ainda revelar o nome. Isto se explica por ter sido resgatado das zonas umbralinas de encarnação mais recente. Em conversa com nossos superiores, ficou acordado que a mensagem aqui a ser transmitida trata do maior evento daquela existência como verás a seguir. O importante disto tudo é, como deveis saber, o conteúdo e não a forma. Ressalto a atenção para este detalhe porque, conquanto títulos são dirigidos por vós a outros na Terra, os mesmos pouco importam, quando nada trazem, para o plano espiritual. Consequentemente, a História nunca é bilateral, principalmente daquela escrita pelos encarnados da Terra. Quando necessário, aparecei novamente. Desde já grato, George."

"O nome que me foi dado naquela existência foi Louis Philippe e penso que, apesar de ter reencarnado mais duas vezes, seja importante manter-me atrelado a esta designação. Penso que para o aprendizado de vós, seja relevante apresentar um contexto de minha vida espiritual e terrena. Sou espírito que, desde que me foi relevado de passados vividos, possuía fortes tendências belicosas. Na Antiguidade, estive nas mais diversas guerras que podeis imaginar. Chipre, Roma, Jerusalém, Israel e outros lugares da Península Itálica como da Germânica... foram locais que deixei minha presença. Nem sempre o bem foi cultivado. Em Chipre e Roma, por exemplo, abusei do poderio que me foi legado. Em Israel, porém, conheci a pobreza. Não obstante, cometi o crime do furto e do assassínio. A vida dá seus retornos e foi preciso que me limpasse de tais pecados até o grande destino que me aguardava no período que se convencionou chamar de Idade Média. Confesso, ainda, que para esta comunicação em particular senti dificuldade na comunicação porque a língua francesa e também inglesa ainda me confundem. São resquícios de vidas mais recentes. Depois de meu desencarne na fogueira em 1308, voltei à França outra vez mais para cumprir resgate com o homem que me condenou. Foi na época das Guerras Religiosas. Mais recentemente, vivi na Inglaterra da época de Napoleão. Lutei contra ele, isto não deve surpreender-vos. Mas guardei rancor e apego, por isso demorei a entender o que se passava. Fui resgatado somente no início dos anos 2000, na virada deste milênio e desde então tenho me esforçado para me curar destes resquícios que ainda me marcam.

Mas, enfim. Daremos início a este trabalho. Na França de Philippe IV, outrora reconhecido como "O Belo" mais pelas suas feições físicas do que espirituais, brigavam entre si a política religiosa e a dos homens. O materialismo era muito mais forte do que vejo ser nos dias de vossa contemporaneidade. Nasci no final do século XII, em 1290. Portanto não tinha mais de dezoito verões quando desencarnei em 1308. 

Vim de uma família pobre que buscava se refugiar dessa politicagem do rei que, sem quaisquer escrúpulos, somente conhecia o amor carnal e frívolo de seu casamento com a rainha de Navarra. Embora houvesse genuína afeição entre ambos, o amor que ali existia não transformou o pobre rei. Digo pobre porque, embora possuísse vastas terras e riquezas, vivia em débito com terceiros e usava de sua autoridade régia para cometer crimes terríveis contra inocentes. Ai daquele que estivesse na mira da raiva de tal homem! Philippe de Capét era cruel e frio, não havia qualquer sentimentalismo na face daquela criatura. Governava com mãos de ferro e mesmo seu inimigo conterrâneo das ilhas britânicas o respeitava, quando não o temia.

Em nome de nosso Pai, o Criador, e de nosso irmão, mestre Jesus, o rei Philippe, quarto de seu nome, não se limitou a incentivar, quando não renovar, as cruzadas contra os sarracenos, mas também promoveu uma caçada contra aqueles que deveriam ter sua proteção e sua aliança: seus súditos. Embora os nobres cavalheiros Templares respondessem exclusivamente à autoridade do Papa, restringindo, desta maneira, o poder secular do rei, isso não os isentava de agirem como "franceses". A identidade pode parecer complexa e em constante oposição: teoricamente, os templários eram "sem terra": ocupavam territórios, mas a única autoridade que deveriam obedecer era a do Senhor Patriarca, o bispo de Roma.

Em meio às constantes tensões políticas entre a Igreja e a Coroa, já que a primeira detinha sob si vastos territórios e ordens militares, ou militias, a seu favor, e a segunda precisava centralizar todo o poder para si, a popularidade dos templários vinha decaindo bastante e o próprio rei começava a perseguir os que detinham propriedades ao sul da França. Ou perigosamente perto de Navarra, reino de sua consorte, e que, portanto, lhe daria a desculpa de que precisava para impulsionar ação contra tais cavalheiros.

A Ordem dos Cavalheiros do Templo de Salomão nasceu em Jerusalém ainda no século XII, no auge das cruzadas dos cristãos contra os sarracenos, ou os chamados infiéis por serem muçulmanos, e tinha como principal função não somente lutar contra tais inimigos da verdadeira fé, mas lutar em nome de Cristo, viver em prol do voto de pobreza feito, cultuar o Pai e honrá-Lo diariamente. É verdade que através dos séculos, a ordem templária foi corrompida pelo acúmulo de riqueza e de terras, mas isto somente se deu por uma minoria que não soube fazer o bem com o poder que recaiu em suas mãos. A reputação da ordem, por conseguinte, foi manchada. No entanto, permaneceu ainda em alta estima pelos papas, mesmo depois de sua queda.

Eu era o terceiro filho de uma vasta família. Meu pai, camponês paupérrimo, entrou em desespero diante do nascimento de mais uma criança. Minha mãe morreu após me dar à luz, já que as condições de parto, aliadas à pobreza higiênica, eram terríveis para a mulher. Com isso, era o mais novo menino na casa. Tinha dois irmãos mais velhos, a quem chamarei de Charles e Louis, e três irmãs, Janette, Christine e Marie. Fiquei, a princípio, sem nome porque o senhor meu pai esperava que eu partisse logo. Afinal, era de comum conhecimento que as crianças não sobreviviam à infância. Em 1290, a França havia recentemente se livrado de outro ataque de peste negra. Mas enquanto eu me mostrava robusto, meu irmão Louis desencarnava com somente cinco anos. Disto se deu que eu recebi seu nome e Philippe em honra ao forte rei cristão que meu pai admirava.

No entanto, o que fazer com tantas bocas a alimentar? Era com o filho mais velho que o senhor pai se preocupava, pois ele herdaria sua ocupação na lavoura. Um dia, ele desabafava com o padre local quando ele sugeriu que eu enviasse dois de seus filhos à Igreja. Uma moça e um rapaz, dissera-lhe o padre, e para os outros, ajudaria arranjar matrimônios apropriadamente cristãos. Meu pai concordou de imediato e, antes do meu quarto ano de vida, estava entregue à Igreja Católica. Mas meu destino não era voltado para as letras, e sim para a guerra.

Cresci em um ambiente pacífico e gostava muitíssimo de ouvir as histórias do homem que seria celebrado séculos mais tarde, o grão mestre Jacques de Molay. À época, ele já era um grande cavaleiro e quem eu procurei emular em meu comportamento e ideais. Lembro que quando demonstrei interesse pela espada, o padre que me supervisionava, Augustine, exclamou:

--Ora, ora! Temos um talento entre nós!

E alegremente correu à procura de um contato da Igreja que tinha laços estreitos com os Templários. Seu nome era Johann, e ele já era velho quando me foi apresentado. Sua cabeça era tonsurada e suas vestes marrons indicavam que era um monge franciscano. Andava descalços e recusava qualquer bem material, embora dependesse de terceiros para se alimentar (e sobreviver).

--Esse aqui é o rapaz que me contou?

--Sim--disse o padre Augustine, depois de ter me chamado. 

Eu era um jovenzinho de oito anos. Meus cabelos eram pretos e cheios de piolho, mas sempre fugia dos padres da abadia que desejavam raspar meu cabelo. Também não gostava de tomar banho, era um rapaz um pouco rebelde, admito. A falta de disciplina, todavia, seria ajeitada depois que entrasse na ordem.

--Ele é muito agitado--prontificou-se a reclamar Augustine--e vivia nos dando trabalho até o dia em que o Senhor me falou em sonho para lhe dar uma espada. 

--O Senhor lhe falou em sonho, Augustine?--admirou-se o monge Johann.

--De fato, monge!--exclamou o outro, alegre--Ele me disse que a espada é importante e nos ajudará a enfrentar tempos difíceis--ele fez um sinal da cruz, copiado pelo outro--E precisamos de um defensor. Bem, decidi o teste e o rapazinho aqui não somente concordou como adorou! Quando lhe contamos de Daniel, demonstrou particular interesse.

(Nota de Ogum: "A história a que ele se refere aqui é a de um dos mártires da Igreja Católica, Daniel, que foi levado à cova dos leões e "sobreviveu" ao ataque de tais criaturas. Daniel viveu no contexto do Império Romano e, como o espírito aqui já explicou, também ele viveu nessa época como um pretor do imperador. Não à toa, guardou em sua alma instinto de lembrança e por isso a identificação inconsciente como ele retrata. Não me cabe me aprofundar em tais questões, mas digo que, embora nada pudesse ter feito para condenar Daniel, tampouco fez algo para ajudá-lo. E por ter testemunhado tal cena, sentiu-se culpado. Para os leitores interessados nessas circunstâncias, Emmanuel ditou suas memórias para Chico Xavier em uma série de "romances" que mostram essas conjunturas com precisão. "50 anos depois" e "Há dois mil anos", além de "Paulo e Estevão", entre outros, retratam esse momento histório vivido por Louis-Philippe em existência anterior.")

--Desde então--prosseguiu o padre--vim contando a ele histórias dos nossos mártires e defensores da Igreja que o aproximaram mais de nós. Ainda que continue indisciplinado, demonstrou bastante melhora em todo o resto.

--É verdade!--exclamei, ansioso por agradar. O olhar daquele monge me deixava intranquilo, ao contrário dos padres com quem convivia, com quem meu jeito traquinoso despertava sorrisos--Sou capaz e posso prová-lo disso.

Foi quando os lábios do monge tremeram em sorriso e ele disse:

--Ora, mas este mocinho é bem ousado e atrevido. Por que deseja tanto me mostrar que é capaz de segurar uma espada se eu não formei meu julgamento sobre você ainda, rapaz?

--Porque eu quero ser como Daniel e todos os outros--falei com firmeza e confiança--Quero lutar e morrer por Cristo.

O monge arqueou as sobrancelhas e trocou olhares com o padre, que sorriu, um pouco presunçoso. Mas eu falava com a verdade inspirada em meu coração e continuei:

--Senhor, o Cristo morreu por nós, e é somente justo que morramos por Ele. Não me interessa ler nem pregar, é verdade, me falta oratória para isso--eu sorri porque descobri que podia usar palavras "difíceis"--Mas quero defender os que mais de nós precisam, senhor. Quero defender os pobres dos ricos, buscar o santo graal! 

--Ah, então conhece o santo graal, não é mesmo?

--Sim, senhor. O rei Arthur era muito cristão e um dia sonhou com Deus, que o exortou a despir-se dos pecados de outrora ao procurar pelo santo graal. E ele juntou seus doze cavaleiros a fim de partir para cumprir com essa missão.

Com os olhos no padre, o monge Johann falou:

--É mesmo? Eu nem conhecia essa história.

--Mas é verdade!

--De fato--o padre Augustine interferiu, divertido--o rei Arthur era bastante cristão. Quer outro exemplo, monge?

--Não, não--e o sorriso dele se apagou--Mas vivemos tempos difíceis. Não sei se seria o correto aceitá-lo e...

--Por favor, senhor monge!--eu implorei, interrompendo-o e sentindo um terror afundar meu estômago diante de uma possível negativa--Eu farei tudo o que me pedir, não me importam os outros. Quero servir a Cristo dessa maneira! Por favor!

O monge suspirou, trocou um último olhar com o padre e, enfim, falou:

--Muito bem, pegue sua espada. Quero vê-lo do que é capaz.

*                                                                                 *                                                                             *

Eu o conheci quando abandonava a juventude e me preparava para a idade adulta, embora essa não duraria muito. Quando contava dezesseis anos, fui apresentado ao grão-mestre, Jacques de Maloy. Era um homem sereno, simpático e fiel a sua consciência em Cristo.

--Ouvi falar do senhor--disse-me ele, fazendo-me ruborizar de felicidade--Sua honra é admirável. E é verdade que tem visões?

Era perigoso falar em alto e bom som que se tinha visões. Mesmo para os homens, isso valeria como uma acusação de bruxaria. E eu já vinha testemunhando a queda gradual da ordem que eu me identificava. Apesar da jovem idade, pude praticar todo o ideal da cavalaria, cujo auge atingiria no final daquele século. Mas o monge Johann seguia como meu conselheiro, tarefa que ele dividia com dois outros homens que se tornaram amigos, para além de irmãos de armas, Geoffrey de Charney e Guy d'Aquitaine. E somente eles tinham conhecimento disso porque também eles viam de vez em quando figuras etéreas.

--Sim, senhor--eu admiti envergonhado--Mas só de vez em quando, senhor. Desejo fazer-me útil em tudo o que posso, isso é mais importante.

Jacques sorriu.

--E as visões, como presentes do Pai, também são úteis. Não devemos negá-los, jovem Louis. A caridade está no compartilhamento também, pois elas podem ajudar o próximo, não concorda?

--Sim, senhor. Eu só não sei muito bem o que fazer... 

--Todos nós um dia fomos inexperientes--ele riu, e colocou a mão sobre meu ombro--Mas me conte destas visões.

--Às vezes vejo anjos e santos--eu falei quase em sussurro--São eles quem me indicam os caminhos, de onde devo ir e o que me é esperado fazer.

(Nota do guia de Ogum: "Se acaso isto vos lembrar da história de Joana d'Arc, não vos acanheis por fazer esta associação. A mediunidade não é recente na História da Humanidade da Terra, embora somente sua decodificação, feita através de excelso homem, Allan Kardec, assim o seja. Mas na Idade Média ela existia e se manifestava singularmente. Sua explicação variava segundo as interpretações dos homens, mas para os que estavam presos à esfera da brutalidade e da ignorância, isso era quase uma acusação de bruxaria. Por isso a maioria não compreendia os sinais "divinos". No caso do espírito Louis-Philippe, pelo próprio histórico na Terra, contava como "karma", ou melhor dizendo dharma tendo em vista o ensinamento da 'Verdade' a que se propôs aprender no tempo que serviu à Igreja, essa mediunidade. Deus foi misericordioso ao permitir que ele fosse recebido no círculo de espíritos louváveis e mais adiantados moral e espiritualmente para que aprendesse, ainda que dentro do conhecimento segundo a sociedade da época, sobre isso. Conhecimento adquirido que, mais recentemente, tem-se dado frutos bastante louváveis, se posso dizer").

--E já agradeceu ao Senhor por essa oportunidade incrível? Afinal, também Jesus, nosso irmão e filho do Pai, via nosso Criador. Anjos os cercavam. E quando Ele curou o cego que o buscava, passou a ver também suas companhias aladas--contou-me o grão-mestre--Fico feliz de ouvi-lo, Louis-Philippe. Principalmente sabendo que vem moldando sua conduta para o bem.

--Uma vez falei ao velho Augustine e também para Johann que eu morreria por Cristo como Ele morreu por nós--e me passou despercebido à ocasião o arrepio que passou por ele, já que eu antevia a minha morte e não percebia isso, mas ele sim--É somente justo que a honra me leve a Ele.

--Ainda assim, é jovem. Não seja imprudente--ele me aconselhou--Muitas das vezes vivemos em razão da fé, mas, não sei se conheceu Thomas de Aquino, e eu o conheci. Ele dizia que a razão coabita com a fé. A fé vive pela razão. Sê paciente e verá que a vida criada pelo nosso Senhor está para além dos murais da Igreja. Do contrário, somos cegos guiando cegos e o resultado disso não é positivo. Como vivemos, porém, em tempos tais quais a fé camufla o pensamento livre e racional, aconselho-o a discrição. Não conte a outros o que me contou. E não seja tolo a ponto de se autosacrificar. Espero eu que não tenhamos de nos submeter a este tipo de coisa.

Foi uma breve conversa que não se prolongou por ele ter sido requisitado a outras tarefas. Quando me voltei a Guy, contei a ele disso e ouvi sua resposta:

--Como é sábio nosso grão-mestre. Sem dúvida, ele fala com bastante autoridade no assunto. Não vê como temos sido perseguidos por um rei que, em tese, deveria nos apoiar e trabalhar em conjunto contra os infieis? Que tipo de cristão persegue outro cristão e afirma ser ele o escolhido de Deus? Todos somos escolhidos de nosso Criador, Louis, apenas ocupamos cargos que Ele designa. 

--Não contarei a ninguém das visões, portanto.

Guy sorriu, mas havia tristeza em seus olhos azuis escuros.

--Não, menino, não faça. São tempos escuros esse em que vivemos.

--Sombrios, de fato--concordei--Mas por que ele faz isso?--perguntei, percebendo que já falávamos do rei e de sua política ambígua com relação a nós.

Na França do primeiro decênio do século XIV, os templários precisavam ser discretos. Se um dia muito me alegrou usar a cruz vermelha estampada em meu peito, me amedrontava ser visto com ela. Um a um seus membros eram julgados primeiro por um falso tribunal religioso, para em seguida ser posto pelas mãos dos homens. O rei já havia deixado claro que não gostava de que os templários, pecaminosos e problemáticos segundo suas próprias palavras, e, como ele ressaltou, por motivos tais foram responsáveis pela expulsão de Jerusalém e a queda de Acre, não eram franceses, embora nascidos na França. Não eram cristãos, embora defendessem a cruz de Cristo. Eram nada além de corruptos e sodomitas. A lista de ofensas era grande, e cada vez mais o papa se via pressionado a nos excomungar. 

--Alguns lhe diriam que foi inspirado pelo diabo--respondeu Guy, dando de ombros--Mas penso que não. Tomás de Aquino havia dito que cego guiar outro cego pela escusa da fé era como cair em um precipício de escuridão. Ele adaptou essa parábola de Cristo para indicar que a fé deve ser motivada e incentivada pela razão. Do contrário, que somos nós? Nada além de criaturas repetitivas e sem alma. Mas somos capazes de tomar decisões, por certo. O ponto é: há loucos usando o nome de Cristo em vão. Percebe o que digo?

--Extremistas--foi o que consegui murmurar.

--E, no fundo, tudo isso se leva às questões de riqueza. A honra, meu caro, por ela foi corrompida. E o pobre Cristo é usado como pano de fundo para tudo isto.

--Os hipócritas merecem o inferno--eu resmunguei.

Guy riu.

--O inferno está entre nós. Mas vamos lá, meu jovem, não sejamos pessimistas. Temos uma missão para seguir para lá da Hispânia ou, como dizem, Andaluzia. Os mouros avançam perigosamente sobre Granada. 

--Achava que eles já ocupavam este território.

--É, e você não está errado. Mas Granada é um ponto perigoso que liga aquela região aos mouros do norte africano. Devemos impedir isso. O rei de Castela e Leão nos convocou.

Prontamente me animei diante disto. Fui designado para minha primeira missão fora da França! No entanto, a animação não duraria muito porque, naquele instante, fomos interrompidos por um dos nossos. Seu semblante era sério e havia gravidade em sua voz quando falou:

--Precisamos partir, imediatamente.

--Como assim?--exclamou Guy, surpreso--O que está acontecendo?

--Homens leais ao rei foram vistos próximos do terreno. Estão vindo em grande número.

Olhei de um para o outro, o coração acelerado.

--Mas por que?!--exclamei, ingênuo.

O portador das más notícias me encarou e falou:

--O rei nutra profundo ódio por nossa ordem porque o grão mestre se recusou a aceitá-lo. Na realidade, tal sentimento data antes disto, quando acumulou débitos para com a ordem e nem mesmo o papa ajudou seu lado. Está descontando sua raiva em nós, e já queimou um dos nossos bispos como retaliação. 

--Vamos enfrentá-los--eu disse, soando mais infantil do que pretendia--Daniel também enfrentou os leões...

--E morreu--interrompeu-me Guy, exasperado--Garoto, admiro sua coragem e ousadia, mas não é tempo para isso. Estamos sendo caçados. E se quisermos cumprir com nossa missão em Hispânia, precisamos sobreviver primeiro. Estamos em desvantagem aqui.

A contragosto, aquiesci. Foram momentos tumultuados e que me deixaram bastante apreensivo. Por que um rei que se afirmava cristão faria isso? Uma voz na minha consciência me lembrou que tantos cristãos cometiam atrocidades contra outros em nome do Pai. O amor ao próximo, a caridade, a honra... de nada serviam para aqueles obstinados em vingança.

Rezei enquanto colocava meu elmo e vestia minha cota de malha, colocando por cima a armadura com a cruz vermelha pintada no peito. Vesti-a com orgulho, ainda que minha mente se dividisse entre medo e raiva. Medo pela perseguição e raiva por não entender a ignorância daqueles homens. Acusavam-nos de excessiva riqueza, mas não sabiam, ou escolhiam não saber, que distribuíamos o ouro e outros objetos de valor para os necessitados. Acusavam-nos de sodomita, por ter uma cerimônia que reproduzia, ainda em tais dias, o valor de selar a honra através de beijo na boca. Acusavam-nos de heresia, por cultuar o diabo, quando em nada disso tinham argumentos que comprovassem a mentira por eles criadas. Não compreendiam que o diabo era a maledicência deles mesmos, da arrogância, da soberba de seu próprio caráter e sua heresia ao usar Cristo para perseguir os que por Ele tinham defendido incontáveis reinos de infiéis.

Fui criado pela e para a Igreja. Desconhecia outro entendimento da vida, por isso me faltou a compreensão do que foi feito aos nossos irmãos muçulmanos e mamelucos ter retornado a nós... ainda que nada justificasse a maldade das mãos de poderoso homem que era o rei da França.

Havia muito bons homens entre os templários. Honrosos e corajosos, cristãos em todo o sentido da palavra. Mas pela corrupção de poucos, nossas vidas custavam muito.

Encurtarei a narrativa e irei direto ao ponto. A guerra silenciosa teve seu fim por ora quando fomos capturados. Um dos meus captores pretendia me torturar, mas eu lhe disse:

--Leve-me à fogueira.

--Seu destino será poupado se contar a nós tudo o que precisamos.

Notei a malícia em seu tom, percebi que ele não cederia. Rezei em meu coração, e como se inspirado por força amor, olhei dentro daqueles olhos escuros e disse:

--Lamento pelo senhor que desconhece o amor de Cristo. Quando o conhecemos verdadeiramente e levamos sua palavra aos que dela precisam, não tratamos com rancor, violência nem soberba. Não somos melhores nem piores que ninguém. Não somos fanáticos. Sabemos igualar a fé com a razão. Não, meu senhor, sua língua é como serpente e ela aqui não me tentará. Sou forte naquele que eu creio e vim defendendo até então. Abraço a morte que me é injustamente condenada.

O captor me encarou, embasbacado. Não vale apena descrever pobre homem, obsidiado pela ignorância. Mas notei que minhas palavras o tocaram de alguma maneira.

--Ninguém enfrenta a fogueira assim--ele rosnou.

--Eu enfrento. Aguardarei meu julgamento.

--Que assim seja.

E me largou na prisão com meus companheiros. Fomos tirados de nossas malhas de cota, mas roupas simples nos deixaram vestir. Pouco me importei, embora tenha ficado feliz de ter conseguido um blusão velho com cruz vermelha estampada no centro. Guy estava ao meu lado quando retornei. Pouparei-vos de descrição porque o pobre coitado estava terrível.

--Não foi torturado?--indagou ele surpreso.

--Me recusei. Força maior impediu--disse eu, fazendo o sinal da cruz, gesto que ele copiou--Mas aguardo a morte com serenidade.

Para minha surpresa, ele chorou.

--Não era para isso acontecer! 

Sem jeito, procurei consolá-lo como podia.

--Como haveria de ser o contrário com o rei no poder? Devemos lamentar que a situação tenha chegado aqui... Entristeço-me como você, caro amigo, mas em breve tudo isso findará. Tal qual Daniel, os leões não nos arrebatarão. Mas Cristo, sim, Ele nos receberá de braços abertos.

Guy chorou ainda mais e me abraçou. Retornei-o e fechei os olhos. Éramos como um, almas afins enfrentando período tão difícil. A infelicidade inevitavelmente encontrou seu espaço no meu coração, afinal, que havíamos errado? Não entendia. E me angustiava saber que o rei não sofreria nada disto. Mas é claro que eu me enganava pensar daquele jeito.

Fui chamado pelo responsável da cela. Era o momento. Despedi-me de Guy e o abençoei antes de ir. Deixava para trás outros companheiros, de honras incomparáveis e indescritíveis, que, no entanto, mostravam-se abalados com aquela situação.

Fui levado ao tribunal que, para minha surpresa, não era nada clerical. Quem me julgaria seria os homens do rei, o que me enraiveceu ainda mais. Mas não cederia, agarrei-me ao orgulho naquele instante porque ignorava outra arma. Me faltava a serenidade de Guy ou do grão mestre Jacques, mas me recusava a ser quebrado por aqueles homens.

--Louis Philippe...--o guarda ao meu lado me levou para o homem que leria minha sentença--o bispo de Reins o condenou à fogueira por cometer lesa-traição contra Sua Graça, o rei Philippe de França e de Navarra, o quarto de seu nome da casa de Capét a reinar sobre estes territórios segundo a vontade de Deus.

Quase cuspi palavras mal criadas em responsa, mas algo me impediu de fazê-lo. Em vez disso, respondi:

--Que Deus dê longa vida ao rei.

O juiz em questão arqueou as sobrancelhas e disse:

--Detecto deboche em você, traidor? Rouba nossas terras, comete sodomia, espalha praga entre nossos homens e cultua o diabo...

E ele prosseguiu falando, mas eu não o ouvia. Encarei cada um dos homens que estava presente, e vi, afinal, não muito distante, a figura do bispo que me fitava com ódio. Imaginei que se tratava de vingança pessoal, embora não soubesse de imediato por qual motivo. (Nota de Ogum: "Relação pretérita de ódio que persistia nesta quase mútua obsidiação"). 

--...o senhor nega tudo isso?

Minha consciência estava tranquila, o que me surpreendeu. Mas eu me ouvi responder:

--De que adianta negar se serei condenado de mesma maneira? Afirmar ou negar, a morte me espera. Que seja. Nada tenho a temer porque em Cristo eu creio e disto não poderão tirar de mim.

--Mas que audácia!--ouvi o bispo vociferar--Condenem-no agora! Envie este homem à fogueira!

Lancei ao bispo um sorriso malicioso porque percebi que o afetei. Fui arrastado e levado até à madeira, onde fui amarrado ao lado de dois companheiros, pouco mais velhos que eu. Eles me receberam com tristeza em olhar, embora um deles tenha falado:

--Acalme-se, irmão. Iremos encontrar Cristo!

O guarda que raspou sem delicadeza meu cabelos pretos, retrucou:

--Que o diabo os carregue pessoalmente ao inferno!

Foi neste instante que percebi, verdadeiramente, quão cruéis podemos todos ser em nome daquele que, ao contrário, nos ensinou nada mais que o amor, o perdão, a caridade. A fé que matava era nada mais que a cegueira para a qual Thomas de Aquino nos alertava. E tudo me fez sentido enquanto era amarrado. E lancei um olhar para aquele guarda que esperava nos queimar logo e disse:

--Que Deus o abençoe, irmão. 

E, junto aos outros dois, rezamos o "Pai Nosso" várias vezes. Pedi perdão aos Céus pelos pecados cometidos, e rezei para que o grão-mestre não fosse afetado pelo pobre julgamento dos homens. Pedi ajuda ao padroeiro São Jorge. E vi-o me buscar enquanto as chamas queimavam a pele. Chorei, de fato, mas não gritei. Suportei em lágrimas, mas chorava pela queda dos irmãos, da humanidade. E quando despertei, amigo santo me recebeu em seus braços.

(Nota de Ogum: "O que ele quis dizer por amigo santo foi o anjo protetor dele. Todos nós possuímos um anjo da guarda, que está conosco em todos os instantes da vida. No momento do desencarne, ele está ainda mais perto para aliviar todo o peso desse momento em que se rompe a vida e chega a "morte". Louis-Philippe passou pelas chamas para "purificar-se" de energias daquela existência quanto de outras. Como merecimento, seu anjo o recebeu ao lado de amigos familiares. E foi a partir dessa vida que ele pôde avançar bastante espiritual e moralmente. Quando, em sua última vida, ele foi parar nas zonas umbralinas, isto se deve mais pelo remorso de não ter se achado possível de cumprir certas questões dele para com pessoas específicas sobre quem não falarei, do que em termos morais maiores. Como já mencionei, ele tem se recuperado e avançado consideravelmente. Este relato é uma prova disso. A complexidade varia de caso para caso, mas os trabalhos prosseguirão agora do plano espiritual porque ele também atuará junto a São Jorge e, na umbanda, na falange de Ogum.")

Desde então tenho me conscientizado e doutrinado cada vez mais. Não sou perfeito e acredito que longe de mim está ter esta pretensão. O que vim contar a vós todos é do aprendizado que tive sobre ter uma visão mais racional da fé. Isto é: que minha fé não é melhor do que a do próximo, que ela não é mais "experiente" que a do irmão, e, principalmente, não deve ser ela o pilar para minhas faltas. Ao contrário, a fé à luz da razão deve ser o pilar para nossas qualidades morais, intelectuais e espirituais. O estudo e a fé se complementam e quem afirmar o contrário, deve-se questionar seus motivos. O fanatismo está presente nas sociedades humanas, apesar de ser costumeiramente associado às guerras religiosas do século XVI e, mais recentemente, nas políticas do século XXI. A leitura da Bíblia é feita ao pé da letra e com significações draconianas, para não dizer que é manipulada segundo os interesses de poucos. Esta também é a mistificação de Cristo, para a qual deveis ter cuidado se não quiserdes ser enganados. O amor ao próximo é o respeito a cada um, e inclui-se disto nas "ideologias" que vos segregais e dispersais para um vazio. Ninguém é melhor que ninguém, de fato. Tampouco pior. A escalada da evolução deve ser o objeto final e não o princípio de todas as coisas, pois deve-se olhar para dentro antes de tudo. Com isso, deixo aqui este pequeno ensinamento que fê-me refletir tanto após esta encarnação quanto nas conseguintes. É um dever, uma tarefa e uma salvação ter me esforçado em contar esta anedota, me centrando nos pormenores que vos ajudará a refletir. O infortúnio daquele que opta pela arrogância, soberba, entre outras faltas, merece nossa compaixão e não nossas raivas, pois ele desconhece o amor de Cristo. Quem o conhece não pratica atos execráveis em Seu nome.

Deixo cá, pois, meus agradecimentos sinceros à vós que transcreveis com fidelidade minha memória, pela paciência que tiveres comigo, não sendo fácil para mim ainda me desvincular das línguas que me marcaram, em particular o francês. Espero ter sido útil de alguma forma, e agradeço também ao benfeitor de São Jorge por ter-me trazido acá. Que Deus vos abençoe a todos! E que vós prossigais neste belo caminho, menina, com a honra de seu bom coração. Agradecido, saudações de Louis Philippe.





sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Contos Medievais, Tragédia I: Enrique e Rosalinda

Nota do guia de Ogum: "Caros companheiros e companheiras que vêm acompanhando este nosso projeto de psicografias, missão espiritual concedida por Deus a todos nós que dela participamos e levamos cabo a frente, eu vos saludo. Hoje, daremos início a um novo ciclo dentro dos contos medievais como já vos havia avisado precedentemente. Não vos assustem com este subtítulo, tão comumentemente associado ao grego da antiguidade e suas peças de tom excessivamente dramático. Que podemos compreender deste termo pelo viés espiritual? Certamente, o bom senso assim classificará como 'algo de bom que sucedeu terrivelmente errado'. Ainda que, todavia, não deixa de assim o ser para vossos olhos, a realidade é outra. Nada mais é do que um resgate pedido por determinado espírito a fim de curar-se de vez de erros profundos cometidos em pretérito distante. 'Que dizeis por erros profundos, Ogum?' é o que pergunteis. Vos responderei: 'Pelos crimes cometidos contra as leis divinas durante o período da erradicidade, isto é, da ignorância do espírito'. Em suma: assassinato, roubos, violações físicas e/ou mentais, enfim, o desrespeito contra o próximo. São os extremos dos vícios, se quiserdes entender desta outra forma. Há casos e casos, de fato. No entanto, três entidades se prontificaram a auxiliar-nos nesta missão e bondosa e pacientemente vieram expor acá com nós todos, segundo permissão concedida pelo Alto, as encarnações que se encaixariam nestas "tragédias" a fim de expiar distante pretérito. Adianto que, das três narrativas, todos encontram-se em trabalhos regenerativos no presente e em colônias espirituais diferentes. Quando for necessário, farei meus comentários como de praxe. Desde já deixo meus agradecimentos.---George."

"Boa tarde a todos. Meu nome é Enrique e vim cá contar-vos uma de minhas vivências, como o guia desta que vos escreve mui bem já avisou de antemão. Vivi na Espanha durante a guerra civil que opôs a realeza castelhana, dividindo-a em lados sangrentos. Vim como um camponês que foi envolvido na disputa pela coroa de Castela e Leão entre dona Isabel e sua sobrinha, dona Joana. O centro desta história, no entanto, remontará aos reflexos que tal luta inculcou aos que, sem condições de sustentar tal conflito, por ela foram envolvidos. Creio ser relevante expor minhas ações pretéritas a fim de contextualizar o sofrimento por qual optei passar nesta época.

Com a permissão do conselho dirigido por Emmanuel, posso dizer-vos que em outra existência cometi erros para além dos vícios "comuns" que costumam atrasar nosso adiantamento. Não fui apenas vaidoso, orgulhoso e insincero. Fui mais que isso, lamento muito dizer, pois foi um desperdício, a meu ver, permanecer na escuridão por tantos séculos! Já fui um rei de Navarra e um conde germânico, e em ambas as existências, deliberei o caminho tortuoso contra tantos de meus irmãos. Assassínio e tantos outros crimes que nem vale a pena discorrer sobre, eu cometi. Feri as leis do Pai Maior. Quando escolhemos o caminho da riqueza, a responsabilidade é enorme, e eu, no entanto, fui irresponsável. Antes disto, havia sido uma dama da noite, que, mesmo na pobreza de outrora, seguiu na luxúria, na sensualidade errante. Também eu fui um ator na Roma Antiga, e neste contexto participei de tantas conspirações. De nada me orgulho contar isto, mas é necessário expor meu pretérito a fim de que entendam como a lei do retorno me "atingiu" desde cedo nascimento. E digo com tranquilidade porque foram aprendizados necessários pelos quais meu espírito precisou passar. Entre a última encarnação como conde de um dos principados germânicos medievais a um mero e esquecível camponês espanhol, fui doutrinado no plano espiritual depois de ter passado por breve tempo no umbral, cercado de inimigos. Quando perdoei a mim mesmo, pedi perdão e fui perdoado por tudo isso, compreendi melhor o que, de fato, significava ser filho de Deus. Nosso Pai nos ama incondicionalmente, Ele não deseja nos castigar em inferno flamejante ou duras penas para renovar sofrimento eterno. A causa de tudo isto está em nós. Somos falhos e, no entanto, tão capazes de acertar quanto optar pelo devaneio da vida. Quando apreendi isto, recebi permissão para reencarnar. Teria a oportunidade, não apenas em uma única existência, de me aprimorar e demover de minha alma erros obscuros. Adianto também de que pude avançar ainda mais, no que foi possível, quando reencarnei posteriormente na Alemanha da Reforma Protestante. Minha última vivência na Terra, enfim, foi, na verdade, no Brasil entre os povos indígenas, na tribo ao norte de Manaus. Desde então, venho trabalhado constantemente no mundo espiritual e hoje, graças dou ao Pai por esta oportunidade, estou para compartilhar este ensinamento convosco, proporcionar nem que seja um bocado de reflexão sobre nossas ações, as leis do Pai e como em meio aos dissabores é possível encontrar a cura e a paciência dos quais muitos de nós precisamos. Esta existência em particular me foi muito cara por estes motivos, e é por isto que optei por contá-la e apresentar-me com este nome.

Daremos início, portanto, a este conto. Nasci na região de Valladolid, capitão do reino de Castela e León, em 1455. Nesta época, reinava rei que compartilhava o mesmo nome que o meu, Enrique. Era o quarto soberano que se intitulava daquela forma. Era filho terceiro de vasta família camponesa, que trabalhava nas lavouras e desconhecia outro destino. Meu pai se chamava Fernando e minha mãe, Ana. Haviam se conhecido quando mui pequenos e seus destinos foram planejados pelos seus respectivos familiares, meus avós, que sonhavam fazer deste arranjo uma bela perspectiva para a resposta de seus problemas financeiros. No entanto, a mobilidade social, embora possível de realizar, era mui difícil de concretizar, já que a dependência dos nobres senhores era alta. A cada taxa devedora paga, outra se renovava. O capitão da guarda do rei detinha um castelo seu, favorito que era e portanto recebedor de tais presentes, e com isso ordenava como se fosse mesmo detentor de uma coroa. Mandava e desmandava conforme seus humores do dia determinavam. A verdade, digo-vos mais, é que aquele era um homem obsidiado, mas não tenho permissão para me aprofundar nas amarguras alheias. Pobre criatura.

Com isso, os que agiam em seu nome, nossos superiores, eram forçados a ser tão cruéis quanto. Quando minha irmã mais velha se casou em 1462, foi obrigada a passar sua noite de núpcias com o tal capitão. Um trauma que teria de conviver para o resto de sua vida. Enfim, os costumes eram muito bárbaros, sem dúvida, e para os que não possuíam riquezas para se proteger da parcialidade de tais leis, contavam com a "sorte". Naturalmente, cresci revoltado com aquelas condições. Quando contava oito anos, detestava capinar e achava que era nosso direito possuir todos os frutos colhidos no verão. Mas mamãe era uma santa, como o nome de quem recebeu e pacientemente dizia:

--O mundo não funciona segundo nossa vontade, meu filho. Tão jovem e tão revoltoso, não compreendo por que se comporta desta maneira. Te falta comida?

Franzi o cenho, sem entender.

--Não.

--Te falta cama?

--Não.

--E roupas?

--Também não.

--Acaso não desfruta de tempo livre para brincar com seus amigos quando não ajuda seu pai nas tarefas do dia?

Senti o rosto queimar e baixei o olhar. Mas a senhora Ana me encarava com ternura e bondade enquanto, naquela manhã, punha os alimentos à mesa. Era o pouco que tínhamos de pão e o que conseguíamos obter de mel para produzir hidromel. Também tinha duas frutas e uma torta de maçã.

--Filho--disse ela, aproximando-se de mim e fazendo com que a encarasse em seus olhos acinzentados--não vivemos em conforto, em luxo, sei que você deseja bens materiais que não temos condições de lhe dar. Mas tem saúde, comida para se alimentar e cama para dormir. Deus foi bom conosco ao permitir que crescesse sem deformidades, que não sucumbisse às pestilências quando muitas e muitas crianças não passam da infância. O mundo funciona assim desde sempre, há os que mandam e os que obedecem. Que de bom há em desobedecer?

--Mas por que eles mandam?--indaguei, tentando se esquivar da consciência que já colocava sua força sobre meu ser.

--Porque possuem riqueza--respondeu-me ela--Mas vou-lhe dizer mais ainda, filho. O ouro compra tudo e todos, mas também corrompe o coração das pessoas. Deus prefere que vivemos em honesta pobreza do que viver em fausta riqueza. 

--Como pode o ouro corromper se ele resolve tudo?--perguntei, mas era meu espírito avarento quem fazia aquelas perguntas. 

[Nota de Ogum: "Para o leitor moderno, perguntas assim podem parecer absurdas aos vossos olhos. E, no entanto, quantos de vós já não ouvistes comentários impertinentes ou fora do senso comum por essas crianças? Quantos de vós já não detectaram o caráter bondoso ou malicioso destes seres? Na infância, guarda-se ainda muitas impressões de vidas pretéritas. Para alguns, a facilidade em resgatá-las do subconsciente é maior do que outras. O recomendável é não estimular a retomada de memórias passadas nesta faixa etária. Mas neste caso exposto pelo espírito Enrique, vemos que se trata, é claro com permissão divina, de uma instrução espiritual para seu aprimoramento, em consoante com a explicação que ele vos deu na introdução de sua memória reencarnatória. Como nos dias presentes o conhecimento espiritual é ainda maior do que neste século XV, cabe os adultos responderem de maneira como a senhora Ana fizera aqui, sem adentrar nos pormenores (sejam eles religiosos ou não). Tudo no seu tempo, não devemos nos esquecer disto. A espiritualidade, aquela à luz de Cristo e de nosso Pai que nos criou, é paciente. E a infância deve ser preservada, pois cada experiência é importante para a aprendizagem daquele espírito encarnado.] 

--Não sei de onde tira tantos questionamentos, filho--ela riu--Mas veja, o ouro compra tudo, como já percebeu, e isso dá poder para aqueles que o possuem em excesso para mandar em seu semelhante. É por causa dele, por causa da terra, que esses mais poderosos brigam entre si. Acaso vê nós brigarmos?

Ponderei em silêncio antes de dizer, teimosamente:

--Mas por que brigariam pelo ouro se ele tudo compra e resolve? Por que os que o têm em excesso não compartilham com aqueles que nada possuem?

--Porque as pessoas são apegadas ao que o ouro proporciona, meu filho, e acreditam que somente elas detém direito a isto. E, no entanto, são as mais infelizes. Você sabia que os nobres não podem se casar por amor?

--Por que?

--Porque, para eles, o amor é um sentimento irrisório. É tolo. E você acha que amor é tolo?

Pensei na forma como meu pai tratava amorosamente minha mãe. Embora não fosse regra, era comum que muitos dos camponeses tivessem relacionamentos mais felizes que os dos nobres, por assim dizer.

--Não--eu admiti--mas não é feito para as mulheres?

Ela riu. E eu, sem saber o por que, fiquei envergonhado de ter falado o que pensava.

--Muito pelo contrário. Veja, Jesus nos amou a todos, eu e você também, mesmo sem ter-nos conhecido.--e, vendo que eu corava de vergonha, falou--Não fique envergonhado, Enrique. Não o criei para isto. Mas veja como o amor de Jesus tem mais valor do que o ouro.

--As pessoas que têm ouro não amam a Jesus?--eu perguntei, confuso.

--Amam mais suas posses do que a Ele, meu filho--ela respondeu e eu percebi que falava disso com naturalidade, sem rancor. Seu rosto rechonchudo brilhava quase de divertimento ante o assunto que falávamos--E é o ensinamento dele que devemos seguir, embora prevaleça a lei dos homens e nem sempre ela está em igualdade com os de Deus.

Pensei nos bispos que passavam pela cidade em suas carruagens ricas, ou nos arcebispos que apareciam cavalgando seus belos cavalos, ricos em vestes roxas e gordos enquanto metade da população estava magra e sem ter o que comer. Mesmo criança, compreendia o que me era dito.

--Por que Deus não os pune, mamãe?

--Os homens que punem uns aos outros, meu filho. Fazem do livre-arbítrio o que desejam, despreparados para a colheita de suas decisões--ela deu de ombros--Creio que o peso do poder naqueles ombros é castigo o suficiente de Deus com eles.

--Mas a senhora, se tivesse poder, não ia gostar de castigar essas pessoas?

Minha mãe arqueou as sobrancelhas diante daquela pergunta.

--Primeiro, eu já o castiguei, Enrique?

Confuso, e com um ar matreiro, respondi com uma negativa na cabeça.

--Segundo, já o puni pelas vezes que mentiu para mim?

--Eu nunca menti para você!--protestei, mas fui calado com um olhar que, pelo Pai, somente ela conseguia fazer para aquietar meus atrevimentos--Desculpe.

--Bem melhor--ela aprovou, e prosseguiu--E terceiro, gostaria que eu o punisse todas as vezes em que tivesse errado comigo? O que eu fiz com você das vezes em que errou?

Ruborizado, falei:

--A senhora me fez rezar 30 pai nossos de joelhos em cima de milhos, e mais 50 ave-marias e 20 credos. Mas também conversou comigo.

--Acha que os poderosos fariam isso com você, mesmo sendo um menino de oito anos?

--Não--admiti, vencido--Mas isso é injusto!

--O mundo não é justo, meu filho, e é por isso que devemos agradecer ao Pai pela condição que temos. Nosso padecimento aqui é com as lavouras e rezar para que, dos desentendimentos da nobreza, não recaia sobre nós. Porque eles, em suas vidas confortáveis, não irão à guerra acaso ela aconteça. Eles enviarão a nós para fazer o trabalho sujo. Quando falo de ser humilde e agradecer, não digo que é para ser feliz o tempo todo com essa situação, mas é para fazer do que nos foi dado o melhor possível. 

--Desculpe, mamãe--eu falei, choroso. Afinal, havia entendido a mensagem que ela me passou--Não quis ser ingrato nem mal filho com você.

E, abraçando-me como a bondosa mãe que era, acariciou meus cabelos, que eram curtos e da cor da areia, e depositou sobre eles um beijo para dizer:

--Não há o que se desculpar, meu menino. Como sua mãe, só quero o seu bem. Sei que queria ganhar bonecos e receber uma espada de madeira, mas eu e seu pai tentamos providenciar o que Deus permite nos dar. Sabe, você não se lembra, mas tinha um irmãozinho que nasceu antes de você. E ele não viveu o suficiente para ser seu companheiro como o é Juan. Às vezes, penso vê-lo brincando com os dois, mas sei que nada passa de minha imaginação e que papai do céu o levou para lugar melhor. O mundo é cruel, Enrique, mas nem por isso devemos ser cruéis também.

Aquele foi o dia em que meu espírito passou pela mais bela doutrinação que alguém com penas a pagar poderia apreender. Depois de valorosa lição, passei a levar mais a sério os ensinamentos da Bíblia, as escrituras, as homilias do padre... E, curioso que era, o importunava todo domingo depois da missa para fazer perguntas, fossem do Antigo ou do Velho Testamento. Certa vez, quando completei doze anos, me perguntou se eu não queria ser padre também. Mas meu pai, horrorizado com aquela sugestão, disse que não. Quando o indaguei a respeito, senhor Fernando falou:

--Oras, preciso de você e seu irmão aqui para me ajudar. Um braço e meio não dá conta, não--ele bradou. 

Fernando era de estatura média, forte como touro e bravo em trabalho. Levava seus deveres à sério. Quando não estava trabalhando com a lavoura, servia de pedreiro na construção de catedrais ou reforma de igrejas por ali perto. Juan, meu irmão mais velho, era sua companhia constante. Havia até herdado seu temperamento e sua introspecção. Apesar disso, nos dávamos muito bem e crescíamos juntos.

Quando chegamos aos dezesseis anos, porém, nosso pai veio a desencarnar. O ano era 1471. Enrique IV havia entrado em políticas que desabariam com o reino. Dominado por favoritos, era indeciso e não era confiável para tomar as rédeas do seu próprio reino. Era carismático, porém, e quando saía à público, todos o saudavam com alegria. No entanto, em 71 passávamos fome e, para piorar a situação, havia a questão de sua herdeira, Joana, não ser sua filha legítima. A rainha consorte teve um caso extraconjugal, segundo diziam, e se o fizera posteriormente, que dizer da jovem infanta? As tensões eram tantas que seus opositores passaram a apoiar o irmão mais novo de Enrique, filho do segundo casamento de seu finado pai, o velho rei. Alfonso era seu nome, embora seja pouco lembrado pela história de Castela por ter sido ofuscado pelo reinado de sua irmã mais velha. 

O cenário político era catastrófico e tudo indicava que surgiria uma guerra civil. Como resultado disto, o bispo de Toledo veio a Vallalodid para manter sua corte conspiratória. E os nobres da região que lhes eram leais, aumentaram os impostos. Lembro-me de ter revoltado diante disto em casa:

--Como sobreviveremos se eles desejam tirar toda nossa produção? Tudo o que nosso pai veio construindo, para que?

Juan, o mais sensato e herdeiro de nosso pai, disse:

--Confiaremos em Deus que ninguém morrerá de fome.

Ao que eu, rebelde de natureza, retruquei:

--E onde estará Deus enquanto os nobres brincam conosco como se fôssemos ratos e eles, gatos?

Minha irmã, nascida dois anos depois de mim, interviu e disse:

--Não culpe Deus pelos pecados dos homens, irmão.

Vendo que todos da família se resignavam com essa situação, bufei. Mas mamãe, cansada e preparando-se para seu desencarne que seria em breve, disse:

--De que adianta esta fúria, Enrique? Acaso como pretende aplacá-la? Rebelar-se contra os poderosos resultará em nada, e poderá ser morto por isso. E sua morte beneficiará a quem? Não houve outra rebelião esses dias que causou a morte de amigo querido seu? E do que disto se resultou?

Calei-me ante repreensão, e me pus a sentar no chão mesmo, preocupado. Novamente, foi minha irmã, a quem chamarei de Joana, que disse:

--Fica calmo, irmão. Temos de ter fé em Deus, confia e verá que tudo se resolverá.

Assenti com a cabeça. Disse eu, portanto:

--Peço perdão a quem ofendi. Eu só estou preocupado.

Juan me lançou um meio sorriso. 

--Todos estamos, Enrique, não somente você. Mas de nada adianta sermos levado pelo temperamento, as coisas são o que são, e os homens são quem são. Que há de fazer diante da natureza disto tudo?

--Fala a verdade--assenti em concordância--Vou rezar.

Passava das três da tarde quando me encaminhei à Igreja de São Tiago. Na verdade, era mais uma capela do que uma igreja em si. Entrei nela, necessitado de reza, mas decidi que deveria, antes de tudo, me confessar. O padre local, chamado Benício, me recebeu cordialmente.

--Por que vem aqui, meu caro irmão? Já não se confessou no início da semana?

Eu suspirei.

--Sinto que carrego um peso nas costas, padre.

[Nota de Ogum: "Vale lembrar que Enrique passava por um período de obsessão: um de seus rivais passados, não aceitando a mudança de temperamento do rapaz, decidiu a todo custo testá-lo como se desejasse trazê-lo de volta ao erro que um dia compartilharam. Como Enrique vibrou na faixa do descontentamento, deu margens para que isso acontecesse. Afinal, o que é estar obsidiado? É quando um espírito que insiste em permanecer no erro vibra na mesma faixa do encarnado, ou mesmo desencarnado, desta maneira ligando-se por uma série de questões: mesmos valores, pensamentos, etc. Neste caso, era vingança. Mas o guia espiritual de Enrique, à ocasião, manifestou a inspiração de ida à capela que tinha por costume frequentar. Tudo isso ocorreu como parte, de certa maneira, deste resgate que Enrique tinha de fazer em consequência das faltas prévias cometidas."]

--E por que isso, meu filho?

Já sentávamos em nossos lugares quando desabafei:

--Cansa-me o estado de pobreza, desanima-se saber que tantos outros podem fazer o que desejarem conosco. Juan está a desposar boa moça da vizinhança, mas se o nobre souber disso...

--Primeiro, o rei Enrique baniu este costume, não fique tão desolado por seu irmão--disse o padre, calmamente--Segundo, este estado a que se encontra é um chamado a Deus. Tem rezado?

Envergonhado, falei:

--Admito que têm duas semanas que venho falhado nesta tarefa, padre.

--Ora, mas você sempre foi um menino tão piedoso!--exclamou o padre Benício--Cede fácil às tentações, meu rapaz? Deixará que os demônios tomem conta de suas faltas?

--Não, padre.

--Por que cargas d'água permitisse que eles tomassem as rédeas de sua vida? Onde está sua fé?

--Sou fraco, padre--falei, desanimado.

--Ninguém é fraco, meu caro. Você, menos ainda. Já conheci jovens de condições ainda piores que as suas, que estavam a morrer de fome e, nem por isso, cederam ao roubo. Não vivemos em uma realidade tranquila, eu bem o sei, mas nem por isto devemos nos dar à desesperança. Não foi prometido que Jesus voltaria?

--Sim--falei, mastigando aquele ensinamento.

--E deixará que Jesus o encontre cercado por demônios?

Como se uma luz banhasse em meu interior, senti uma mudança fazer-se. Renovei minhas forças e falei:

--Não, pelos santos apóstolos e por nosso Deus, nosso Senhor, não!

O padre sorriu.

--Reze, meu filho, e de coração aberto. Deus não te deixou só para que se ocupasse com criaturas malévolas.

Assenti a cabeça com propósito renovado e falei:

--Obrigado, padre. Bênção?

Ajoelhei-me e, depois que ele colocou a mão na água benta que carregava, fez o sinal da cruz em minha testa. Disse em voz alta:

--Eu te absolvo, Enrique Ruárez. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

--Amém--falei, com toda a crença que senti pulsar em meu ser.

E depois daquele dia que rezei como o padre me instruiu, não senti mais nenhuma dor nas costas nem qualquer outro incômodo.

*                                                                                *                                                                            *

Quando a conheci, contava dezoito anos. As circunstâncias estavam estáveis, embora em alguns anos, não se poderia dizer o mesmo. Neste meio tempo, porém, enquanto me corrigia nas atitudes e pensamentos, cada vez me voltando para uma religiosidade que me surpreendia de mim mesmo, tudo corria com tranquilidade. Juan desposou Ana Maria e, como o padre confirmou, nenhum nobre ousou tomá-la para consumir a noite de núpcias, para alívio de nós todos. Mas, em seguida, nossa mãe desencarnou.

Juan, três anos mais velho que eu, era como nosso pai. Alto, de ombros largos, e cabeleira negra que recaía pela nuca, possuía olhos igualmente escuros que a tudo estavam atentos. Não falava muito, mas era bom homem. Ana Maria, sua esposa e quem era minha irmã por lei, era-lhe quase o oposto: rechonchuda, de pele alva como o leite e um belo par de olhos azuis, ela gostava de falar e tagarelava comigo e com minha irmã mais nova, Joana, quando não se ocupava de suas tarefas domésticas. Quando a mãe a conheceu, lembro de ter-lhe ouvido:

--Essa daí tem quadris largos. Vai fazer seu irmão feliz.

E foram felizes, de fato. A cada ano, Ana Maria deu-lhe um filho, todos robustos. Chamarei meus sobrinhos de: Isabel, Clara, Alicia, Ricardo, Juan, Felipe. Nomes um pouco incomuns, mas de consonância com a moda da época, principalmente Isabel, Juan e Felipe.

Joana, minha irmã, optou por ser freira franciscana. Entrou em um convento de Santa Clara, em região próxima de Vallalodid. A mais velha, Catarina, veio a falecer no parto há alguns anos atrás, mas infelizmente não tivemos mais notícias dos dois filhos que deixou em vida, embora eles não viessem a sobreviver à infância.

Com isso, sentindo que era um peso à família que crescia, procurei por oferecer meus serviços fora da lavoura, a contragosto de Juan. O padre com quem eu me confessava me pôs para ser um pedreiro à serviço do bispo local e, como grande ironia que a vida é, auxiliei nas construções das residências reais, uma delas que viria a ser a corte da rainha Isabel em futuro próximo.

Não era uma rotina fácil. A tecnologia da época era limitada, naturalmente, e por isso muitas das pedras eram levadas a braço. A mentalidade masculina também não permitia que se reclamasse. Aquele ditado que ainda se ouve na contemporaneidade, "Engole esse choro", já se ouvia aí. A maioria dos meus companheiros eram retraídos também, e muito mal humorados. Ninguém aceitava as condições de vida, embora se resignassem em grande parte disso. Mas em ocasiões de festa, esquecíamos disto tudo e celebrávamos. Foi quando a conheci.

Rosalinda era uma bela moça, filha do responsável maior pelas obras das quais fazia parte. Seus cabelos eram de um ruivo esplendido e bastante cacheados também, caindo até suas cinturas. Seu rosto era oval e o nariz, embora achatado, combinava com suas feições. Sorria de vez em quando por ser criatura introspectiva, mas era adorável. No entanto, quando a conheci pela primeira vez, ou devo dizer, a reconheci, foi para celebrar seu noivado com outro rapaz. Seu prometido era um dos escudeiros do bispo de Madrid. Sabe-se lá o que ele fazia ali, mas a união era aquela. Mas estava profundamente enamorado por tal moça.

Recordo-me de ter ouvido de um amigo, Abelardo, conselho sensato:

--Mas tire seus olhos da donzela, rapaz. Não vê que ela está prometida a outro?

--Noivados podem ser quebrados, não?--me ouvi responder.

Abelardo me encarou, nervoso.

--Não seja rídiculo.

Mas sentia-me compelido a falar com aquela donzela. E, ignorando a prudência de Abelardo, eu fui até ela. E quando Rosalinda me viu, um sorriso encantador cruzou seus lábios e, juro por vós, leitores, que não me enganei de ter visto um rubor subir às bochechas. Cuidadosamente, é claro, me aproximei. Apresentei-me desajeitadamente.

--Vim desejar à senhora as congratulações pelo motivo que celebramos todos hoje.

Ela arqueou as sobrancelhas e disse:

--E sabe que motivo é esse?

--Seu noivado.

--Acha que é para celebrar alguma coisa?

Aquilo me pegou de surpresa. Quando viu que eu não sabia o que responder, ela se adiantou e disse:

--Nós, mulheres, pertencemos a ninguém. Nosso destino, porém, induz o oposto. Não consenti com isso tudo, mas que posso fazer diante da força de meu pai?

--Lamento por esta intranquilidade, senhora--falei, franzindo o cenho diante da menção de ter sofrido com o pai.

--Estou acostumada, mas obrigada por tal gentileza--disse-me ela, intrigada--Percebo que foi o único a falar comigo. Poucos são os corajosos ou, devo assumir, atrevidos?

Ri. A sensação de familiaridade somente aqueceu meu peito.

--Não significariam o mesmo? E por que pensaria isto de mim?

--Pelo seu olhar, incomumente verde como a natureza, vejo que gosta de desafios--ela acusou.

--Acha que vejo a senhora como um desafio?--falei, surpreso.

--Meu noivo concordaria com sua percepção--disse ela, dando de ombros.

--De fato, é bela como o fogo e, penso eu, indomável como tal, mas permita-me discordar desta visão.

Rosalinda me encarou.

--E o que faria discordar disto se eu não sei o seu nome?

Corei.

--Meu nome é Enrique Ruarez, senhora.

Ela sorriu.

--Seu nome parece conhecido aos meus ouvidos. É um prazer conhecê-lo, senhor.

--Oh, eu não sou nenhum senhor--ouvi-me dizer, encabulado.

Provocativamente, disse-me Rosalinda:

--E tampouco sou alguma senhora, mas cá estamos--e nossos olhos se prenderão em longo olhar--Gosta da vida que leva sob meu pai, Enrique?

--Não tenho motivos para reclamar--disse eu, sorrindo--Poderia servir a homens piores.

Ela riu.

--Minha finada mãe discordaria do senhor.

Mas antes que a conversa se prolongasse, foi o pai dela quem se aproximou com o noivo a tiracolo. Homens de postura arrogante, prontamente agiram como se eu não existisse. E em questão de segundos, vi que Rosalinda não se esforçou em esconder a infelicidade que era em ser tratada como um objeto pelo pai e aquele que em breve desposaria. Senti um ímpeto de tirá-la dali, mas não era o momento, e eu me retirei.

*                                                                                  *                                                                         *

Quando voltamos a nos reencontrar, Rosalinda ainda era noiva. Novamente, era uma ocasião de celebração, provavelmente a de um santo local, e ela estava com duas companheiras que supus serem amigas ou irmãs. Abelardo foi cortejar uma delas, incentivo que dei prontamente quando elas se aproximaram. Dispensando a outra dama, Rosalinda sentou-se ao meu lado e disse:

--Por que o senhor está em todos os lugares?

--Lamento desapontá-la, senhora, mas eu vivo aqui em Valladolid. 

Ela riu e eu sorri por vê-la alegre naquele dia.

--Gosta de dançar, senhor?

--Se eu não puder evitar, danço.

De novo, Rosalinda gargalhou.

--O que te impediria de dançar, pergunto eu?

--Não ter em minha companhia a mais bela das senhoras--respondi, olhando diretamente em seus olhos castanhos e falando com repentina paixão.

Rosalinda enrubesceu, mas não desviou o olhar.

--Creio ter acertado quando o acusei de insensatez.

--Foi atrevimento--eu a corrigi com um meio sorriso--E, no entanto, cá está. Não íamos dançar?

--Sou prometida a outro homem--ela me lembrou, com tristeza na voz.

--E ele está aqui para impedi-la de dançar?

--O senhor iria mesmo tão longe?

Levantei-me e ofereci-lhe a mão.

--Não tenho nada a perder.

E quando ela se levantou, soube de imediato que encontrei minha perdição.

*                                                                                 *                                                                   *

Nós nos encontramos por toda a semana, parcialmente escondidos, com a ajuda de suas irmãs mais novas, e parcialmente em público, quando toda a cidade tomava conta de festas aqui e ali.  Foram dias alegres, que, logo mais, se transformaram em um mês e, depois, em outro. Como o escudeiro estava ocupado com questões para além de meu alcance, ninguém se preocupava, de imediato. Mas a guerra civil eclodiria, de fato. E quando ela veio, ninguém estava preparado para ela.

*                                                                                   *                                                                   *

Poderia me alongar mais na narrativa, mas não tenho essa pretensão. Vou direto aos fatos. Embora Rosalinda eventualmente houvesse se casado com o escudeiro, não renunciei ao amor que por ela sentia. Em uma de suas visitas à cidade, consumado por sentimento que, sem exceção, consome a alma do apaixonado seja qual vida for, procurei por ela urgentemente. Para minha sorte, estava só e com uns poucos criados.

--Oh!--ela exclamou ao me ver, a incerteza dividindo aqueles belos olhos com a esperança--O que faz aqui, Enrique?

--Vim ser aquilo do qual fui acusado ser quando nós nos conhecemos. Insensato, atrevido, seja qual palavra for, mas não posso deixar escapar a chance de dizer que...

--Não!--ela veio em minha direção e pôs as mãos sobre minha boca, seus olhos cheios de lágrimas--Não diga isso. Por favor! Tem sido uma tortura toda esta vida, mas aceitei porque... me conformei que não pertenço a isso, nunca fui de mim mesma, mas daqueles que detém controle sobre mim. Foi o que aconteceu com minha mãe e minhas irmãs, por que comigo seria diferente?

--Porque o amor não se trata de sofrimento nem de posse, mas de liberdade e respeito!--eu proclamei, também com os olhos vertendo lágrimas--Como posso consentir que sofra? Como posso vê-la em interminável dor? Seu pai e seu esposo não são bons o suficiente para você!

--E eu sei que você é--ela disse, colocando as mãos ao redor de meu rosto--Nunca duvidei disto, Enrique. Nem por um momento. Acha que não passa pela minha mente todas as vezes que o vejo do que poderíamos ter sido? Acha que não sei que você teria me feito feliz e sido o melhor pai para os filhos que teríamos? 

Meu coração se despedaçava diante daquelas palavras, pois senti a verdade nelas. Não era para ser, e isso me corroía por dentro. Conhecer o amor da minha vida e, no entanto, não amá-la como deveria. Sim, caro leitor, eu chorei. Mas também entendi que tudo o que eu sentia era com relação a ela, não a mim, e foi naquele instante que me abneguei de quem era.

--Eu morreria por você--murmurei--Fuja comigo.

--Não posso, meu amor--disse Rosalinda, decidida--Por mais que eu ame você, não posso ceder a tão belo sentimento que nos reúne aqui e agora. Há um dever que deve ser cumprido, sabe disso.

Como se minha alma compreendesse que, naquela vida, não devíamos ficar juntos, eu assenti. Como disse um poeta por aí, das mais violentas alegrias se termina nos mais violentos fins. E eu respondi:

--Perdoe-me.

Ajoelhando-se junto a mim, Rosalinda tomou meu rosto contra o seu e disse:

--Não há nada a ser perdoado. Eu o amo, não se esqueça disso.

--Também a amo, minha senhora. Meu coração e minha alma são suas.

--Como também são suas todas as partes que montam meu ser.

E, como se para selar a despedida, beijei-a nos lábios. Aquele foi o último dia que a vi em vida.

*                                                                           *                                                                        *

Alguns de vocês, leitores, poderão supor que eu me tornei amargurado. É compreensível este pensamento dada a separação, em vida, do amor de meu ser. Mas, ao contrário, fiquei resignado. Não entendia o propósito de Deus para minha vida, mas entreguei-me a Ele, de todo modo. Não nego que fiquei abatido e triste por muito tempo, mas a guerra veio e eu soube de imediato que o fim estava por perto.

Em tese, Isabel de Castela não era rainha por direito, mas sua sobrinha, Joana, apelidada de "a beltraneja" por um nobre de sobrenome parecido ter sido o amante de sua mãe. Não me recordo o nome do sujeito agora. Era uma guerra de senhoras, ao que parecia, mas Joana, por mais que permanecesse conhecida como "a rainha por direito", não era ambiciosa. Não almejava o trono. A vitória para rainha Isabel veio fácil. O problema, porém, centrou-se em seus nobres problemáticos e excessivamente ambiciosos.

Como mais um dos homens que lutavam contra seus conterrâneos, pouco importava a causa da guerra. Foram quase dez anos em tensões que ora eclodiam em conflitos físicos, ora dificultavam a diplomacia com países como Portugal e França. Mas quem sangrava era Castela e seus castelhanos. Mas aprendi a ter paciência, a canalizar toda minha tristeza, de ter o coração partido, para a guerra. Não pensava em Rosalinda, embora estivesse em meu coração.

Abelardo, certa vez, me disse:

--Amar é libertar-se das correntes do apego, pois não a desejou como tantos a desejaram, amou-a como era, aceitou seus defeitos tanto quanto acolheu suas qualidades. E, no entanto, jamais buscou a belicosidade para fazer valer sua força. Você entendeu que as circunstâncias os separaram e se resignou. Isso demonstra a coragem de seu espírito, e o quão valoroso e honroso é. Pois tantos outros em seu lugar, entregaria-se ao desespero e isso, a meu ver, é tudo menos amor. Afinal, amar não é posse, meu caro. E é preciso ter sabedoria para enxergar além do sentimento e ver que Deus escreve certo pelas linhas tortas. A Ele submetemo-nos e confiamos, para que os dissabores um dia sejam transformados em sabores. Nada é permanente, tudo muda.

Como se para testar-me, Abelardo desencarnou em meus braços em meio às lutas contra as forças de quem quer que fosse o inimigo. Afinal, eu era apenas um dos homens que serviam ao nobre que, ora favorecia a rainha, ora se rebelava contra ela. Que importava? Deste amigo, eu pranteei com o coração. Que são as perdas? Senti-me vazio, sem propósito. Mas lembrei-me desta palavra dele: "amar é libertar-se das correntes do apego", e eu não podia me prender ao buraco que ele deixou. Ele se foi para os braços de Deus e eu deveria me contentar com isso. 

Quando tomei consciência disto e entendi, enfim, que nada me pertencia, que eu não detinha controle sobre nada, foi próximo do momento de desencarne. Ao contrário do que pensam, leitores, não foi um aprendizado "à toa". Muito pelo contrário, se eu aprendi e exercitei na prática todos os ensinamentos, foi porque chegou a hora. Não nego, eu chorei quando senti o frio da espada trespassar minha pobre armadura. E continuei a chorar quando a dor, como resultado desta ação, me ultrapassou o corpo e atingiu a alma. Na inconsciência, chorei. Mas quando despertei para o outro lado, não chorava mais. Havia eu me curado, enfim! 

As lágrimas são curativas, e elas deveriam ser incentivadas e não vistas como sinais de fraqueza. Se não nos curarmos, quem fará isso por nós? Um médico, psicólogo? Sim, podem auxiliar-nos a melhorar, mas tudo depende de nós. Não há vergonha nisto, nem nos sentimentos que sentimos. Afinal, o amor é isso tudo que trouxe, seja ele maternal, familiar ou espiritual. Não se demore onde há posse, é o conselho final que deixo antes de concluir este conto. E o problema de hoje em dia, digo mais, não é romantizar o amor e a vida, mas ser engolido pela miséria e incontáveis desesperanças. Forte é aquele que ama e sorri nas adversidades, mas também chora em todo o resto. 

Agradeço à médium pelo belíssimo trabalho que tem feito, não é fácil, de fato, mas a perseverança é sua maior aliada. Não deixe que a insegurança atrapalhe sua caminhada, estamos todos torcendo e acompanhando de longe. Que o amor seja celebrado, e adianto para não se preocupar quanto a mim, já há muito reunido com Rosalinda. Que Deus a abençoe e a ampare. Agradeço aos seus guias, em particular o de Ogum, que me trouxe aqui. Que a luz do Pai nos envolva a todos! Gratidão, irmãs e irmãos! ~Enrique.

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...