domingo, 24 de julho de 2022

Contos da Irlanda, vol 1: Chuvas de Metais pelo Espírito Sabina

“Olá a todos. Meu nome espiritual é Sabina e vim à Terra contar uma história da qual fui apenas observadora naquela existência e, portanto, mais parcial a transmiti-la pelas vias escritas uma vez que uma das partes se acha encarnada e a outra, ainda em trabalhos de reencarnar. Como deveis saber, o propósito destas histórias é inculcar em vós a reflexão, o esclarecimento diante das leis divinas que regem o universo e quem sabe incentivar-vos à reforma íntima.

Pois, bem. Somos levados agora a um tempo muito distante do vosso, dias em que territórios não conheciam fronteiras, povos eram estranhos à concórdia e a crença na religiosidade era pluralista. Na distante Irlanda medieval, suas terras eram povoadas por tribos das mais diversas, embora muitas delas fossem célticas em sua essência e ascendência. Não obstante este aparente parentesco, guerreavam entre si, não confiavam nos vizinhos, eram independentes e nômades. Era cada um por si, sua família e pelos deuses cultuados.

Naqueles dias, conheciam os espíritos encarnados rituais materiais, movidos sobretudo pela carne que se impunha à alma. A maior parte era pouco esclarecida, mas à tribo em que volveremos nosso olhar, verificamos um grau surpreendentemente maior de conhecimento das leis espirituais e de certa equidade que regia as relações. Esta era uma tribo de origem icênica, a mesma que se encontrava na Inglaterra e cuja principal líder, Boadicea, permanece ainda hoje como grande figura de resistência a dominação romana no contexto bárbaro marcado por crueldades dos mais diferentes níveis. Depois de sua queda e da anexação pelos romanos, uma pequena, porém considerável, parte deslocou-se para a Irlanda, situando-se ao norte de Dublin. Ali, viveram, relacionaram-se com outros povos locais e eventualmente se multiplicaram.

À época de nossa história, muitos de seus membros reencarnados davam início a uma nova encarnação com mais entendimento e consciência de suas individualidades. Um deles era, na verdade, a sacerdotisa Bridget que, desde tenra idade, fora escolhida nas runas jogadas pelas anciãs tribais a ocupar tal posição. E o que consistia ser uma sacerdotisa da Deusa Mãe, deidade esta cultuada com mais fervor na Irlanda do que em outras partes dos reinos anglo-saxões e cujos nomes variavam? Tal função exigia preparo desde cedo. A menina era entregue ao templo por seus pais para que fosse educada junto às mulheres mais experientes da tribo. Sua educação consistia em domínio das tarefas femininas, tais como coser, por exemplo, mas igualmente nas artes místicas: conhecimento das ervas, da natureza, dos elementos que a compunham, e das runas. Contudo, somente seria iniciada de fato nestas artes após seu sangramento. Uma vez que as regras descessem, Bridget não seria mais vista como criança, mas como donzela e mulher. Sua pureza era essencial para o sucesso da função que viria desempenhar. Em outras tribos, porém, sobretudo nas que viviam em Avalon, a sacerdotisa da Deusa era iniciada através do coito junto ao sacerdote do Deus Pai de modo a unir, através dos corpos, os elementos feminino e masculino que regem o universo.

Naquela tribo druida, porém, prezava-se por distanciamento sexual, portanto, Bridget precisava ser criada longe de companhias masculinas e evitar qualquer embelezamento que os atraísse. Se porventura um engraçadinho tentasse flertar ou, pior, forçá-la a algo, o crime para ambos seria passível de morte, embora para Bridget constituiria em exílio, tornando-a uma pária para sua sociedade e o homem perderia seu falo. Mas Bridget preservava-se e, de temperamento doce e simples, seguir às regras obedientemente. Não dava motivo para as anciãs se preocuparem com sua herdeira. Sua entrada como sacerdotisa, porém, se realizaria aos quinze anos em decorrência da morte da primeira anciã, a “líder” das mulheres, Morgause. Bridget escolheria consigo duas mulheres para acompanhá-la na tarefa, uma vez que a sacerdotisa tribal não trabalhava só. As runas costumavam indicar o caminho, embora Bridget possuísse forte mediunidade: fazia uso da dupla-vista, da psicofonia e do transporte. Em outras palavras: ela enxergava com os olhos da carne os espíritos a quem devia respeito e obediência, seus guias, e outras entidades que cuidavam da tribo, além de outros enviados divinos que surgiam nos dias de consagração à deusa Ester. Bridget também incorporava aqueles seres etéreos, emprestando sua voz e corpo para que se manifestassem. Conseguia manipular objetos, além de ser exímia na arte da cura.

Por ser excepcional, suas atitudes refletiam sua grandeza e gentileza. Bridget rompeu com velhas tradições e inseriu novas. Recordo da grande discussão quando ela decidiu pôr fim aos sacrifícios de animais. O chefe da tribo, um homem que se intitulava rei chamado Ured, era, por sua vez, muito apegado às formas das coisas. O culto prestado à divindade era muito mais exterior do que o interior. Ele era, afinal, o fariseu de seu tempo.

--Por que isso? Sempre sacrificamos segundo a vontade da deusa e agora me aparece com essa sugestão? —de temperamento colérico, aquele ruivo de barba grisalha era alto e quase gigante. Em batalha, assustava os inimigos e sua reputação era de impiedade para com os que ousavam discordar dele—Se tive um filho—e aqui ele apontou para seu herdeiro, o futuro rei Ulrike, que não contava mais que quinze verões à época—foi porque a deusa se sentiu agraciada com o sacrifício de um búfalo que fiz. Desde então, minha falecida esposa me deu mais dois varões!

Calmamente, Bridget, que desde cedo sabia que sua missão entre aqueles druidas não seria das mais fáceis, sorriu bondosamente e o respondeu:

--Meu caro rei, permita-me trazê-lo à luz dos fatos. A união de um homem e de uma mulher independe da vontade divina. Ela realiza-se porque temos a necessidade da procriação. De qual outra forma nascerão crianças a quem legaremos nosso conhecimento? Se até mesmo cervos fornicam e ensinam seus filhotes a caçarem, o que o faz pensar que conosco seria de outra forma? A Deusa o abençoou, é verdade, mas ela não precisa que sacrifique animais que, em seu reino, ela protege para apaziguar sua ira. E qual ira, eu pergunto, uma vez que se é robusto e as batalhas são ganhas, nada há que se poderia sugerir que somos desfavoráveis.

“A fé é o que ela pede de nós. Se não tivermos fé Nela, seria justo pedirmos que ela tivesse fé em nós? Acreditamos que ao oferecer a carne daquele bichano, estaremos incorrendo ao favor divino. Mas se no dia-a-dia praticamos outros tipos de sacrilégio, não estaríamos sendo incoerentes com a Deusa? Nossa conduta deve seguir àquela que nossos ancestrais nos ensinaram: respeitar o ambiente, os nossos companheiros, amar nossos antepassados e louvar a Deusa para que a comida e o lar não nos faltem jamais. Pedir além disto é requerer a uma responsabilidade que ainda não possuímos.”

Suas palavras, doces e cheios de sabedoria, foram ouvidos em silêncio ensurdecedor. Ali, estava uma mulher em trajes simples, sem ornamentação ou ostentação, somente com as longas madeixas ruivas soltas e tinta azul pintada sobre a face. Caminhava descalça sobre o mato, envolta do templo de pedras que se assemelha àquele do Stonehenge. No centro das pedras, uma bacia com água parada; fora das pedras, pequenas fogueiras iluminavam noite estrelada. Toda a tribo se reunia, sentada no chão, excetuando-se a realeza terrestre ali presente.

--Contra fatos não há argumentos—o rei zangado se viu forçado a aquiescer—E, no entanto, como saber se isso não a enraivecerá?

--Pergunto, ao contrário, meu bom senhor: qual momento a Deusa falhou contigo?

Sem respostas, o rei se calou. Mesmo às mulheres mais velhas da tribo se surpreendiam com a serenidade que emanava da presença de Bridget. A admiração era geral e sentida por todos. Que sabedoria de enorme espírito!

--Antes de terminarmos nossos ritos—ela prosseguiu, após um instante de silêncio—permitam-me que os lembre de detalhes que, me parece, seguem no esquecimento. Quando pedimos à Deusa, o fazemos motivados por nós mesmos, nossos próprios desejos, imperativos, angústias. Nas alegrias do dia, porém, esquecemo-nos de agradecê-la. Lembramos dela ao cair da noite, acendemos a fogueira diante da passagem de um cometa ou da ameaça de um inimigo. No desespero, esquecemos da razão. Esquecemos que ela não nos abandona quando precisamos, que quando estamos em paz, ela nos fortalece. É muito fácil pedir, meus senhores. Mas e agradecer? Não digo que não devemos pedir, mas sabemos que a vida não termina aqui, no hoje e no agora. Ela continua.

“Se a Deusa pousasse aqui entre nós, a consciência os faria se envergonhar porque enquanto bebiam, se esqueciam de que ela prouve sua bebida; enquanto se fartavam de comida, ela os dava de comer. E na vitória sobre os inimigos, olvidam da força que os inspirou. Quando pensaram em desistir de suas tarefas, um farfalhar do vento os fizeram levantar o olho e observar a grande árvore da vida resistir às intempéries. Era a Deusa, naqueles pequenos sinais, mostrando: sejam como a árvore, fortaleçam suas raízes e nada os derrubará. Nenhuma insegurança, nenhum medo, nenhuma tempestade. Uma divindade que está acima de nós, compreensiva e Mãe, exigirá que sacrificamos o outro para aplacar sua raiva? Será que não fazemos isso em prol de nós mesmos, porque nos recusamos a ver o que seremos no próximo ciclo? O sofrimento repousa em nós unicamente. Mas se assim é, também podemos fazer outra coisa: reparar esta dor com alegrias. Sorriem, meus amigos. A Deusa sorri a vocês e oferece diariamente a face para que possam tomá-la. Se o Pai recorda de nós em todos os instantes, que dirá da Mãe, que nos acolhe constante? Reflitam, meditem no que digo. Pois através de mim, fala a Deusa.”

Palavras profundas, mas verdadeiras. E, no entanto, teria alcançado todos da tribo? Em graus diferentes, por certo. Cada homem, mulher, criança, idoso, voltava contemplativo para sua casa. Aonde estava sua fé? A vergonha inundava a uns, o constrangimento, a outros. Entretanto, ao fim daquela lua, rezavam com mais sinceridade do que ao início dela.

*                                                                       *                                                                *

Quando Ulrike se tornou rei, a prosperidade era uma realidade. A paz naquele pequeno povo era verdadeira, embora se conservasse a intuição de que seria temporária. Ulrike, de temperamento oposto ao do pai que o antecedeu na tarefa de liderar a tribo nas dificuldades e nas amenidades, tornou-se belo homem e admirável espírito. Era gentil, caridoso, amoroso. Esforçava-se por fazer o bem, e tratava todos, de seu irmão de sangue ao camponês, sem distinção.

Não havia quem o detestasse, apesar de sua tendência a ser mulherengo. Gostava tanto da companhia das mulheres que o único defeito que todos não podiam se fazer de cegos era ser aquele que partia o coração das donzelas. No entanto, mesmo aí, diziam-se que a deusa do amor, Aine, o abençoava e recusá-lo seria como virar-se contra a deidade.

Entretanto, havia uma que estava cega às qualidades físicas e psicológicas de Ulrike. Morgana era seu nome, e ela era uma das companhias da sacerdotisa. Em verdade, era sua irmã mais jovem que a visitava de quando em quando.

Morgana tinha cerca de dezesseis anos e seus cabelos ruivos viviam trançados. Era doce, embora possuísse temperamento afiado que demorou três encarnações para domar. Naquela existência, todavia, rompiam-se ciúmes e ira quando contrariada, mas se assim acontecia, era raramente. E seus pais a castigavam por tais demonstrações. Não obstante as imperfeições daquele espírito em progresso, ela era cativante. Sua aura emanava luz verde e havia quem dissesse que a Deusa a tomava como favorita depois da irmã. Morgana tinha senso de humor que lhe era peculiar e gostava de cuidar de todos da tribo, embora fosse mais popular com os jovens. A maternidade lhe era natural e ela constantemente se oferecia para tomar conta dos filhos de suas amigas casadas ou de senhoras que acompanhavam os esposos em longas expedições.

Assim, ocupava-se os dias, ignorando que sua beleza florescia de maneira ímpar. Tornou-se alta, esbelta e com postura quase régia. Falava com simplicidade e meiguice, era gentil com todos de igual forma, e possuía um coração terno com muita sensibilidade. Magoava-se com a mesma facilidade que se enamorava pela vida. Gostava de poemas e todas as vezes que o rei Ulrike passou pela aldeia de seu reino, encontrava Morgana proclamando com sua voz de sereia.

Um dia, decidira tentar conquistá-la. Ulrike, ao alto de seus trinta anos, caminhava como sedutor que era, os cabelos ruivos caíam sobre as costas em formato de trança e sobre a fronte, pousava a coroa de ferro. Em seu corpo, usava roupas apropriadas a um homem de sua posição.

--Minha senhora, saudações—ele se fez ouvir.

Morgana, que naquele dia usava uma coroa de flores e usava um vestido simples branco com bordado florido, carregava consigo uma cesta de pães, pois voltava do mercado, e quase deixou-a cair ao ver quem lhe dirigia a palavra.

--Senhor—ela inclinou a cabeça respeitosamente e um leve rubor pintou suas pálidas faces.

--Não se assuste, apenas gostaria de falar com a senhora—esclareceu Ulrike, admirado com a inocência da flor mais bela, ciente, contudo, de que deveria ter espinhos. Agia, por isso, com cautela—Estará presente no solstício de inverno?

Embora admitisse que seu soberano fosse homem de beleza a ser admirada, Morgana era orgulhosa demais para ceder a qualquer tentativa de flerte dele, principalmente porque reconhecia suas galanterias de longe. A fama de conquistador era sabida por toda a tribo.

--Como poderia me ausentar de tão importante celebração? —ela respondeu polidamente—Mas não acho que seja isso que o tenha vido falar comigo.

Ulrike riu da ousadia que se escondia sob a feminilidade de Morgana. Havia, ele percebeu, uma vontade de ferro que a beleza mascarava. Aquilo o interessou de imediato.

--Por que não? É do interesse de um rei, de um chefe tribal, se certificar de que seus súditos estarão presentes na cerimônia que nos é tão cara.

Morgana titubeou por uns instantes, mas a desconfiança ainda estava em seu olhar.

--Bom, mas não sabia que era do seu interesse que eu fosse. Todos aqui sabem que sou irmã de nossa querida sacerdotisa. Não acho que Bridget me perdoaria se eu faltasse, mesmo que caísse doente—ela brincou, arrancando dele sorriso espontâneo.

--Sua irmã é séria e bastante sensata—disse Ulrike, sincero—Meu pai sempre a temeu por crer que sabia demais das coisas.

--A Deusa fala através dela—disse Morgana.

Puseram-se a caminhar. Ulrike cumprimentava todos, dos mais velhos aos jovens, que passavam por ele. Morgana ignorou a admiração que ele a inspirava.

--E, no entanto, fala com todos nós. Mas uma deidade precisa de um representante sábio, por isso sua irmã é a mais capacitada para ardilosa tarefa—contemplou Ulrike, sereno—Me pergunto, porém, se ela a está preparando para sucedê-la.

Morgana lançou ao rei um olhar que nem mesmo o próprio pôde compreender o significado.

--Isso somente a Deusa saberia dizer. Mas sabemos que o destino pertence aos deuses, que foi por eles escrito. As runas indicam o caminho a trilhar, mas nunca realmente me interessei em saber.

--Não? Por que isso?

--Porque a vida é mais interessante quando imprevisível. Se bem que tudo ocorre como é planejado por eles, logo...—ela deu de ombros, indicando resignação.

Mas Ulrike não foi convencido por suas palavras. Ao contrário, sentiu-se instigado por elas.

--Ora, senhora, quer mesmo que eu acredite que não tenha ambição? Se os deuses dissessem que é seu dever casar-se com um desdentado, aceitaria de bom grado?

Ela riu.

--Para alguém que admira minha irmã e cultua os deuses, me parece que é deveras questionador, meu senhor.

--Não diria que seja isso, mas suponho que haja mais que algo engessado. Temos que escolher no campo de batalha qual rumo indicar aos homens, o que fazer, como fazer. Na colheita, é preciso separar o joio do trigo. Tudo, absolutamente tudo envolve escolhas. E, no entanto, os deuses nos poupariam de fazermos nosso próprio caminho?

--Não tenho respostas para suas inquietações, mas o que eu sei, meu senhor, é que temos de crer que eles saibam melhor que nós. A Mãe nos deixaria desamparados? O Pai faltaria com sua sabedoria para conosco? Estaríamos tão sós em nós mesmos?—Morgana sorriu, como se sentisse as palavras serem sussurradas pelo vento. Assim como sua irmã, era médium poderosa—Pense e saberá.

Mas não havia muito tempo para conversas, pois Morgana chegou à casa, onde seus velhos pais a aguardavam. Ulrike, admirado por aquela presença, espírito que estava sendo preparado para sabedoria futura, sentiu-se arrebatado instantaneamente. Observou-a ir, resolutamente apaixonado.

Mais tarde, voltou-se para Bridget, que o aguardava.

--Já sei por que está aqui—ela disse, enquanto limpava o templo.

Ulrike sabia que não deveria se surpreender, e, no entanto, estava surpreso.

--Como?

Bridget virou-se para olhá-lo com divertimento.

--Os bons espíritos me contaram. Está enamorado por minha irmã, meu rei?

Um homem que estava acostumado a ter suas vontades feitas por mulheres, Ulrike sentiu-se estranho ante as duas irmãs que pareciam imunes ao seu charme. Uma, pelo forte senso de dever em servir à deusa e que ele respeitava; a outra, por motivo que desconhecia. Um ensinamento, pensou o rei, de que deveria ser mais humilde.

--Ela é muito bela e sábia para a idade—foi tudo o que conseguiu dizer.

--Precisa de uma esposa e não de uma amante—respondeu-lhe a sacerdotisa—Estava mesmo pensando em oferecê-la ao senhor.

Ulrike, sem saber o que dizer, permaneceu em silêncio, desconcertado. Bridget volveu seu olhar a ele, séria, e prosseguiu:

--A vontade divina é maior que a nossa e devemos respeitá-la. Os deveres têm predominância sobre nossos desejos pessoais. Mas, uma vez que vem a mim por afeição espiritual, sinto-me no dever em alertá-lo que toda rosa conserva espinhos. O senhor estaria disposto a arcar com eles, meu rei?

--A senhora fala em enigmas que não posso compreender—admitiu Ulrike, lamentoso—Diga-me, sacerdotisa, com clareza o que isso quer dizer. Afeição espiritual e espinhos? O que com isso diz?

Bridget parou seus afazeres para dar ao rei devida atenção. Ainda era dia e o sol brilhava forte no céu, apesar do outono. Com um suspirou, fechou os olhos por alguns instantes. Abriu-os e tomou nas suas as mãos do rei. Disse-lhe ela:

--Você e minha irmã estavam destinados a se reencontrar. Por dois ciclos de vidas viveram juntos, embora jamais de maneira correta ou moralmente adequada. Sofreram ambos nestas existências por desvio moral culposo, não obstante forte sentimento de profunda afeição que os unia. Morgana precisou aprender a duras penas que o temperamento dela não tem lugar no seu progresso espiritual, mas como resquício de difícil labor, persistem o ciúme e o orgulho. A insegurança é uma marca de vidas ainda mais antigas, uma ferida aberta que pede paciência. A união entre ambos, embora fadada a ser realizada por conta do planejamento de vocês antes desta encarnação, terá sucesso tão somente se estiverem dispostos a progredir juntos e superar obstáculos internos.

Ulrike arregalou os olhos e seu lábio inferior tremeu. Sentiu, porém, no âmago de seu ser a verdade professada pela sacerdotisa, que o fitava com ternura.

--Que fará? —ela o urgiu a dar uma resposta depois de um tempo em silêncio.

--Eu a terei para mim e lhe serei fiel—disse Ulrike, como se falasse mais para si mesmo.

A sacerdotisa, que via verdade no coração do rei, se satisfez com o que ouviu.

--Excelente. Falarei com ela sobre isso. A deusa os abençoará no solstício de inverno.

--Minha senhora, por vezes me pergunto se a senhora não se intromete nas vontades divinas—disse ele, entre o divertimento e a seriedade.

Mas Bridget limitou-se a sorrir.

--Eis o mistério que não o compete conhecer, meu rei.

E pôs-se a retirar.

*                                                                   *                                                                   *

Morgana sentiu o corpo tremer sob o tecido de seda que, sabe-se lá como, lhe fora arranjado para que usasse em cerimônia ilustre. Toda a família celebrava, saber que de todas as mulheres do povo, fora a ruiva de olhos castanhos que seria alçada à posição de senhora de Dublin. Mas sob a máscara da delicadeza e dos sorrisos simples, a insegurança fazia sua alma tremer. Como resultado, às vésperas sofreu do que hoje em dia conhece-se o nome de epilepsia, tremores do corpo que requerem cuidados com o cérebro. A sacerdotisa estava presente na ocasião e disse:

--Senhora, minha irmã e agora rainha, não é do seu feitio fugir das responsabilidades que lhe são encarregadas. Mesmo no pretérito devasso, cumpriu com muitos dos cargos a você atribuídos. Será que nesta existência, que lhe é menos penosa que as anteriores por mérito seu, optará por seguir rumo oposto? Logo você, que é tão cara à deusa? Os deuses velam por você, sabe disso. Volte ao corpo, minha irmã. Garanto que em você não faltam excelentes qualidades desenvolvidas de outras vidas para serem praticadas nesta.

E desde então, é verdade que as crises de Morgana cessaram-se de vez. A união, portanto, foi realizada em um monte verde cercado por pedras, ao alto da colina localizado à leste de Dublin. Lá, no solstício, celebrava-se em honra dos deuses, sobretudo a Mãe, que acolhia e aconselhava, e o casamento dos reis daquela tribo.

Ao final, foram levados a uma caverna apropriada onde, feitos os rituais, a Mãe e o Pai se uniriam através do rei e da nova rainha.

--Confesso que a amo—disse Ulrike, assim que foram deixados a sós. Enquanto a despia, ele a abraçava, sentindo-lhe o perfume que o inspirava familiaridade até então desconhecida. Morgana sorria diante de afeto sincero—E nada me alegra mais do que amá-la. Sua felicidade é o meu júbilo, sua ternura é bálsamo de meu coração, e sua gentileza... Oh, o que farei sem ela?

--Para um guerreiro, é um poeta—proclamou Morgana, suspirando serelepe. Virou-se para observá-lo e ao mergulhar naqueles olhos tão azuis quanto o céu, profundos como o mar, seu coração descompassou. Pois sua alma reconheceu a dele—Eu sou sua, se for meu.

--Não professei meus votos?—ele inclinou-se para beijá-la, desesperado para tê-la—Não jurei por todos os deuses que sou seu de corpo e alma? Por você, morreria e viveria quantas vezes for necessário.

--Não desejo que morra, mas que fique ao meu lado por toda a eternidade.

E o reencontro espiritual foi, enfim, consumado. Para a surpresa geral, Ulrike provou ser um esposo fiel e leal, renovado moralmente em muitos aspectos. Morgana estava deliciada com felicidade doméstica e tudo ficou em paz por um tempo, embora não tenha demorado fazer-se conhecer por suas crises de ciúmes, em uma das quais expulsou uma donzela da corte por crer que tentava seduzir seu esposo. Mas o fez depois de cortar os cabelos da senhora em questão como penitência.

--Pelo amor da Deusa—dizia Ulrike, que, no entanto, achava engraçado este tipo de coisa—Porque age desta forma? Não confia em mim?

--Não se trata de confiança, meu esposo. Mas não arrisco a dividi-lo com ninguém mais. E soube disso desde o instante em que me desposou.

Somente ele conseguia acalmar seu temperamento. Ele sorriu e, colocando a mão sobre sua bochecha, acariciou-a gentilmente. Sereno, falou:

--Eu a amo, minha esposa. É a senhora a quem devo tanto devotamento. Permita-me cantar uma canção que fiz em sua honra.

Tomou uma harpa que existia nos aposentos do casal e, para comoção da sensível rainha, cantou uma canção sobre almas destinadas a se unirem sempre quando convinha aos deuses. Havia um quê de melancolia, mas o amor sobressaía-se a todas as coisas mundanas.

Em um belo dia, Morgana descobriu-se grávida. Seria o primeiro de cinco filhos, embora as gravidezes provassem ser difíceis, muito para o desespero de Ulrike, que indagou tal causa à sacerdotisa. Bridget com muita calma o respondeu da seguinte forma:

--Tenha paz, meu rei e irmão. Os deuses estão testando sua paciência. O tempo de paz chegará ao fim logo e as crianças que vêm pressentem isso. Algumas delas não viverão muito, lamento dizer logo, mas isso é porque assim escolheram para que possam suportar com paciência o porvir.

Não se sabia à época, embora Bridget por certo tinha conhecimento, de que o pequeno e feliz reino de Dublin ocidental não duraria o suficiente para ser registrado pela história. Como se pressentisse isso, Ulrike preparou-se para o pior. Um espírito, é sabido, quando pouco mais esclarecido é dado a ele o pressentimento do fim de sua missão em Terra. E Ulrike preocupava-se com Morgana, tão afeita a ele, tão intensa quanto o mar e, por isso mesmo, tão imprevisível quanto as ondas.

Ciente de sua insegurança, esforçou-se por mostrar-se presente e afastar todas as aflições, como se a protegesse do mundo. Mas Morgana ainda aprenderia que precisaria suportar o peso de suas escolhas. Enquanto isso não acontecia, nasciam as cinco crianças preditas por Bridget: Uther, o primogênito; Viviane, a próxima sacerdotisa; Brigitta; Tyrinn e Aurel. Destes cinco, somente dois sobreviveriam à infância.

Ignorante quanto ao futuro, Morgana esforçou-se por domar seu temperamento ao ocupar-se educando suas crianças e confiando ao marido quando ele precisava se ausentar. A consciência já a punia por injustiça cometida contra a donzela expulsa tantos anos atrás e ela desejava ser útil tanto quanto podia. E inicialmente... tudo estava bem. Viviane foi entregue, ainda que com muita dificuldade, aos cuidados de Bridget, e quando Aurel veio a desencarnar aos três anos, a pior das tormentas caiu sobre bom povo druida.

As tribos anglos, saxãs e jutas invadiam constantemente as ilhas britânicas e a Irlanda não era exceção. Embora outras ramificações dos druidas e celtas sobrevivessem a este período turbulento, os últimos descendentes do povo de Boadicea pereceria com o tempo. Os mais ignorantes culpariam os deuses por isso, mas os mais sábios compreenderiam que tudo é um ciclo.

Quando Ulrike retornou ao plano espiritual, ele a avisou em sonho e qual não foi o desespero que abateu pobre criatura! Sobretudo porque acreditava que não tinha sido boa o suficiente para seu esposo, e sofreria com a punição da separação.

--Não pode me deixar, eu rogo!—ela pranteava—Por favor, meu rei, meu marido. Outra vez mais, não suporto isto!

Com tristeza, Ulrike repousou sobre a figura de Morgana toque quase místico e lhe disse:

--Nós nos reencontraremos e seremos ainda mais felizes. Seja forte, e eu a acompanharei. Nosso amor é imortal, não duvide disso.

Embora mais resignada ali, quando de volta ao corpo, não foi do mesmo jeito. Morgana sofreu com mais dor, embora engolisse o pranto porque precisava fugir com Uther e Brigitta. As terras que eram suas agora queimavam e o povo que amava perecia. Perguntou-se, amargamente, que mal havia feito para que inocentes sofressem. Revoltou-se em seu coração, mas não havia tempo para alimentar catástrofes. Por isso, Morgana, que estava em luto por Tyrinn e Aruel, e por ter legado Viviane a Bridget, apegou-se ainda aos que restavam. Mas, ao longo da fuga para o norte da Irlanda, esperando encontrar refúgio em Gwynedd, reino distante de Gales, perdeu Brigitta para a pestilência do ar.

--Seja forte, minha mãe, eu peço—ela ouviu tais palavras de seu menino, Uther, de onze anos. Uther, que seria entregue aos romanos depois de seu desencarne, e que um dia mais ganharia reputação por expulsar os saxões de suas terras ao sul.

Morgana se esforçou, ninguém poderia supor o contrário. Ensinou ao filho tudo o que sabia, lutou contra a melancolia que a envolvia em infindável tristeza. Cortou o contato com o plano espiritual como resultado. E quando veio a desencarnar, a Mãe foi lhe piedosa ao enviar ao seu lado o amado Ulrike, esposo seu por três encarnações, conforto que abrandou as chagas de seu coração.

--Venha, minha esposa. Está na hora de regressarmos à verdadeira casa.

Finalmente em paz, a mística rainha que amou seu marido, devotou-se ao seu povo, de bom coração, não obstante as imperfeições que corrigiria nas encarnações seguintes, dissolveu-se em pretérito olvidado pelas gerações seguintes...

 

 

 

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