“A todos, minhas saudações. Esta é, para todos os efeitos, minha primeira comunicação. Espero que ela seja proveitosa e útil aos leitores bem-intencionados. Apresento-me aqui como Caboclo Lobo, tendo feito parte, em uma de minhas mais recentes encarnações nesta orbe, da Tribo do Lobo, situada entre o que hoje em dia é o Canadá e os Estados Unidos.
Essa
tribo era nômade e seu tempo de vivência escapa às primeiras tentativas de
colonização do homem “branco”. Minha memória, na verdade, volta para uma
existência que foi abreviada por uma pestilência daqueles tempos. Enquanto
outros continentes guerreavam entre si e padeciam a morte física, crendo-se
sofrerem o “juízo final”, vivi não muito longe de guerras entre meus
companheiros. Por mais que nos esforçássemos em ser pacíficos, a corrupção
moral se colocava diante de nós, resultando em nossa queda.
Quando
encarnei, portanto, minha mãe não tinha sobrevivido ao parto e meu pai
procurava por sinais de que eu era ‘decente’, isto é, ausência de todo e
qualquer tipo de deficiência em meu corpo físico e mental. Muitos de vocês
podem não entender atualmente, mas acreditávamos que aquele que vinha com suas
próprias dificuldades físicas sofreriam muito em Terra e, por isso, pedíamos ao
Grande Espírito que os levasse de volta à casa.
Éramos
dois: meu pai e eu. Ele era um guerreiro, mais um dos vários homens que
protegiam a tribo. Também eu era esperado seguir seu caminho. Quando era
criança, ele sentou comigo e disse:
“Passaram-se
sete luas. Acho que posso dar seu nome, Ivo. Diga-me, está preparado para sair
da infância?”
“Sim,
meu pai.”
Ele
me fitou com aqueles olhos grandes e escuros. De rosto longo e cabelos
compridos, escuros como a noite, ele conservava uma barba estranha em torno dos
lábios, raramente aparando. Não usava nenhuma blusa para cobrir seu corpo
delicado, embora vivesse sob pesadas camadas de pele de urso. Sempre levava ao
seu lado uma pesada lança.
“Ótimo.
Venha, você precisa conhecer a floresta.”
Aquele
seria um momento interessante em minha história de vida. As densas e escuras
florestas me assustavam. Em dado momento, hesitei adentrá-las. Meu pai virou-se
a mim e me fitou com paciência.
“Do
que tem medo, criança?”
“Do
escuro e dos animais selvagens, meu pai”, respondi eu.
Um
arrepio percorreu minha espinha dorsal.
“E
vai deixar que esse medo o impeça de conhecer seu lar? Debaixo dessa terra”, e
ele pisou os pés descalços sobre a terra molhada, “vivem seus ancestrais.
Mostre algum respeito.”
Eu
funguei e temi que meu pai explodisse impacientemente comigo, mesmo que em sete
anos jamais tenha visto nada que não fosse demonstração de ternura. Pelo canto
do olho, reparei em uma figura etérea, cercada de fumaça branca, fumando seu
cachimbo da paz. Fitava-me com curiosidade e suas vestimentas eram de couro
colorido. Ignorei-a, porém, muito concentrado em meu profundo e enraizado medo
da escuridão. Ante meu silêncio, ele disse:
“Não
temos o dia todo, venha. Quando o Deus Sol se vai para que venha a Deusa Lua,
você a teme?”
“N-Não”,
gaguejei.
“Pois
venha. Se confia em mim, confiará na Deusa também, que iluminará nossos passos.”
Enfim
fui convencido. Segui-o afinal, segurando minha respiração. Não falávamos
conforme caminhávamos floresta adentro. Era escuro e no céu despontavam as
estrelas. O que eu tanto temia? A presença de meu pai me inspirava segurança.
“Agora,
aqui ficaremos. Consegue me ver?”
“Não”,
murmurei.
“Precisa
se acostumar às trevas que nos cercam, filho. Aqui será seu novo lar.”
“O
senhor vai me abandonar aqui?!”, exclamei, desesperado.
“Não”,
ele riu. “Mas é um momento de aprendizado seu requisitado para seu crescimento.
Quando procuramos o equilíbrio e o respeitamos, o meio em que estamos nos
respeita de volta. O medo só atrai o caçador se faz daquele que a possui sua
vítima.”
“Não
entendi, meu pai”, falei, timidamente.
Mesmo
no escuro, pude jurar que ele sorria.
“Há
diferença entre cautela e medo, meu filho. A onça não o atacará se você
mantiver sua distância, mas se ela sentir o medo em você, entenderá que deseja atacá-la.”
“Eu
gosto mais do lobo”, pensei alto.”
Meu
pai riu.
“Claro
que sim, o pajé me alertou para este fato. Vejamos da seguinte forma. Por que
lobos atacam nossos irmãos vermelhos se eles não são seus alimentos?”
“Porque
se sentem ameaçados.”
“E
por que se sentem ameaçados?”
“Porque
respiram o medo que faz do nosso irmão ser imprudente.”
Meu
pai sorriu diante da minha resposta.
“Você
me surpreende a cada dia, meu filho. Mas se você se identifica com o lobo, por
que se alimenta do medo?”
Queria
responder que sou apenas uma criança, mas em meu coração temia saber a
resposta. Mas, ao invés de provocar-me com mais questionamentos, ouvi meu pai
se levantar e dizer:
“Essa
é uma pergunta para outro dia. Vamos, está na hora de retomarmos à tribo.”
Volvi
meu olhar uma última vez para ver a figura branca e etérea de um pajé envolto
em couro colorido. Ele sorria a mim, mas nada disse.
***
Sete
anos transcorreram desde então. Nada muito significativo aconteceu desde aquele
momento na floresta. Mas toda noite, ao menos a cada mês, meu pai me levava ao
seu centro para que pudéssemos meditar.
Em
uma dessas noites, um lobo apareceu. Mas meu pai não se sentiu ameaçado.
“Ah.
Deus Tupã fala com você, filho.”
Meu
corpo enrijeceu-se de medo. Teria segurado a respiração e me posto a correr se
ele não tivesse segurado meu braço.
“Fale
com o animal.”
“Como
é?”, eu me ouvi dizer, cético.
“Ora,
não seja ingrato. Fale com o lobo.”
Era,
na verdade, um lobo jovem. De olhos grandes e pele cinza, me fitava com
seriedade. E eu retornei seu olhar com outro. O silêncio na floresta era
rompido pelo farfalhar das folhas, da brisa quente e do canto das corujas.
“Eu...
Quando eu era criança, eu me via em você”, falei. Ajoelhei-me, meu corpo ainda
tremia. O lobo acompanhava meus movimentos, mas nada fazia. “Mas eu tinha medo.
Suponho que ainda tenho da escuridão que me cerca. Um dia, porém, o pajé me
disse que eu não poderia me tornar guerreiro enquanto não dominasse meu medo.”
Prendi
a respiração ao me lembrar da conversa que o pajé teve comigo. Chorei longe de
todos, envergonhado de mim mesmo. Quando meu pai descobriu o que se passou, ele
me levou à floresta de novo para que pudesse expelir meus sentimentos nocivos à
Mãe Que Tudo Acolhe.
“E
isso me feriu. Sei que todos esperam que eu seja como meu pai. Não sei se sou
paranoico, mas posso jurar que escuto vozes me acusando de coisas que jamais
sonhei em fazer.” Outro tremelique sacudiu meus ombros. “Guardo comigo esse
medo de não conseguir ajudar a tribo, mas mais ainda de mim mesmo.”
Esperei.
O lobo me fitava, mas rosnou. De alguma forma, senti que ele falava comigo
também. Reparei que havia uma ferida ao lado de sua barriga. Ele deu um passo
para frente.
“Sinto
que o Grande Espirito trouxe você a mim porque estamos sofrendo por conta de
nossos espíritos, lobo.” Falei e o lobo se aproximou, mas não rosnava mais. “Mas
vejo que, como você veio a mim sozinho, Ele está me dizendo que somente eu
posso me curar disso tudo.”
Soltei
um soluço.
“Queria
dar ao meu pai razão de se orgulhar de mim. Que ele jamais se envergonhasse de
mim.” Outro soluço. “Que eu fosse tão corajoso quanto ele. Queria não ser
chamado de covarde pelos meus confrades, nem olhado de forma debochada pelas
companheiras. Queria... Que queria eu ser? Não sei. Não sei.”
E
chorei. O lobo veio a mim, afinal, e, para minha surpresa, me lambeu no rosto.
Fez-me encará-lo, e, de novo, outra lambida. Foi quando o abracei. E nos
tornamos um só.
Meu
pai, emocionado, fez-se ouvir:
“Louvado
seja, oh Grande Espírito, por limpar as sinas que meu filho traz de suas
existências anteriores. Abençoe-o, oh Tu que reges o universo e a quem devemos
submissa obediência!”
Fui
o único da tribo que conseguiu domesticar o lobo cinzento. Embora nós nos
orgulhássemos de vir de Sirius, poucos foram os que se ligaram aos lobos
selvagens. Demorou alguns anos até que o pajé pedisse para conversar
pessoalmente comigo. Claro que o lobo me seguiu.
Estávamos
na cabana e o fogo tinha se alimentado com pesadas toras de madeira,
aquecendo-nos, por conseguinte. Meu companheiro adormecia enquanto eu e o velho
ancião colocávamos as mãos perto da fogueira a fim de desfrutarmos mais do
calor que dali emanava.
Eventualmente,
ele disse:
“Venho-no
observando desde aquela conversa, meu caro. Você mudou muito. A fase pela qual passou
não é fácil para ninguém, mas seu pai soube educá-lo bem.”
“De
pouco em pouco, perco medo da escuridão.”
Ele
sorriu.
“Claro
que sim, pois permite que a luz se expanda dentro de você. Seu lobo sabe disso,
e foi por isso que, quando se abriu com a natureza, ela o ouviu e enviou seu
companheiro para que jamais se esquecesse de que não está sozinho. Nunca
esteve.”
Diante
do meu silêncio, o pajé prosseguiu:
“Todos
nós temos escuridão e luz dentro de nós. Mas o que temos escolhido alimentar?
Se não enfrentarmos as densas trevas que estão em nós mesmos, nos prenderemos a
uma ilusão que não nos pertence. Seria como viver acreditando que a paz é
duradoura, e que sempre está conosco. Ora, isso é besteira. Precisamos de
batalhas, mas corajosos são os que as tomam em seu próprio campo. Por que de
outro modo seu medo se anuiria?”
“Mas
ainda sinto medo”, ouvi-me dizer.
O
pajé riu e se apoiou em seu cajado, seus olhos marcados pelo tempo me fitavam
com gentileza e ternura.
“Tolo
é aquele que diz nada sentir. Quem de fato superou a si mesmo? Mas muitos de
nossos irmãos não gostam de ver o que trazem dentro de si. Nenhum deles
entraria na floresta como você entrou e se abriria a tal modo para o Grande
Espírito. Veja só. Quantos não o louvam em nossos rituais, mas diariamente se
fecham em si mesmos? Riam de você, criança, por ser emocional e sensível, mas
quem trouxe um lobo selvagem domesticado para a tribo siriana foi você.”
Senti
meu rosto queimar e baixei os olhos. Não me achava merecedor daqueles elogios.
O pajé soltou um suspiro e tragou de seu cachimbo, observando-me por um longo
tempo antes de dizer:
“Por
que se coloca para baixo dessa forma, filho? Acha que não é capaz de receber
elogios, por que?”
Ele
pressentia que tocava em uma ferida antiga, mas engoli minhas lágrimas e
balbuciei:
“Porque
me acho incapaz deles, senhor. Não sou sábio como o senhor nem forte como meu
pai.”
O
pajé sacudiu a cabeça.
“Resposta
equivocada. É verdade que se eu refizesse a pergunta a alguns de seus
companheiros, eles agiriam como um falcão pomposo que são. Mas não você. O
Grande Espírito mostrou a você suas feridas, algumas causadas por sua
consciência em tempos e lugares distintos dos nossos, outras porém provocadas
por terceiros. Não importa. Fazer você fraco isso não faz. Enfrentá-las, porém,
você deve.”
Mais
um silêncio se fez entre nós, ainda que eu compreendesse aquela lição. Soltei
um pequeno soluço.
“Você
está fazendo isso, meu filho. E o lobo é a demonstração da sua força. Mas para
crer em você mesmo, trabalhar mais você deve. O que o Grande Espírito veio me
dizer recentemente, entretanto, é que seu tempo aqui será curto. Hoje você
aprende e se acolhe. Amanhã, será servidor. Não mais devedor.”
Levantei
o olhar e súbita emoção tomou meu peito.
“O
senhor está me dizendo que estou seguindo o caminho correto?”
“Sim,
estou. A lição foi aprendida. Mas deve tirar dela bom proveito.”
“E
como posso fazer isso?”
“Oferecer
amor e benevolência àqueles que um dia o fizeram mal. Talvez não agora, mas no
momento certo saberá e de minhas palavras você lembrará.”
Fiz
um meneio com a cabeça, agradecido.
“Obrigado,
pajé. Não me esquecerei do que me disse”.
E
preparava-me para levantar quando ele pigarreou. Olhei de volta ao ancião que
disse:
“Mais
uma coisa”, e seu olhar se prolongou sobre mim. “Jamais se esqueça que as
emoções não fazem um homem fraco. Elas antes são importantíssimas para o equilíbrio
entre a alma e o corpo. Quem muito ruge o contrário, sofredor mostra ser.”
Dito
isto, fechou seus olhos e voltou a tragar o cachimbo, perdido em suas próprias
contemplações. Conforme avisei no início desta memória, ou do trecho mais
importante dessa encarnação, padeceria sob desconhecida pestilência. E bem no
meio de um conflito civil.
Oh,
sim. A ambição e a soberba são doenças que não eram exclusivas do outro lado do
planeta. Assolavam homens e mulheres, independentemente de seu gênero e sua
raça, ou o ambiente onde se inseriam.
Deste
modo, os inimigos que meu pai e eu fomos forçados a combater foram nossos
próprios irmãos vermelhos. Foram anos sangrando nossa pátria porque se
recusavam a aceitar a paz proposta pelo pajé, cujo desencarne, embora pacífico,
piorou nossa situação. Perdi meu pai para as lanças daqueles que um dia pensei
terem sido meus amigos. Mas, curiosamente, ou não, quando adoeci, aqueles
mesmos vieram a mim.
Na
verdade, tinham vindo me capturar. O partido pró-guerra tinha vencido o resto
de nós. O lobo teria-os atacado, rosnando ao pressentir sua presença, mas eu,
deveras doente para me defender ou ousar fugir, pedi que se aquietasse.
Uma
vez se deparando comigo em tal estado que eles se avergonharam quase
imediatamente.
“Pelo
Grande Espírito, o que aconteceu com você?”
Não
vou mentir. Não posso dizer que senti paz ante aquelas palavras ou que o amor
floresceu instantaneamente ao me deparar com homens que, de amigos, se tornaram
meus inimigos, responsáveis pela partida precoce de meu pai. Contudo, antes que
uma palavra de veneno saísse de minha língua, senti a presença daquele pajé que
me acompanhava desde criança.
“A
vingança piorará seu estado e aumentará sua dor. Não faça aquilo que não
desejaria fazer consigo próprio. Se hoje eles se portam assim foi porque,
antes, também foi cruel com eles.”
Suavizei.
Concordei com aquelas palavras amigas, vendo razão nelas, mas também percebendo
por mim mesmo a inutilidade de escolher ódio sobre o perdão. O mal que fizeram
espelhava a dor que eles também passavam. Só poderia lamentar por eles não
verem isso.
“Queira
o Grande Espírito me levar. Não aguento mais o peso desta carcaça”, falei.
Hyukon
era o líder dos três rapazes que um dia foi meu melhor amigo. Ele se comoveu e,
ajoelhando-se ao meu lado, disse:
“Nunca
quis que chegasse a isso.”
No
fim da vida, queria que tudo se apressasse, mas, novamente, diante da inutilidade
de minha vontade ante Aquele Que Tudo Rege, falei:
“Eu
sei. E o perdoo por isso, Hyukon. Só espero que, caso seja eleito o novo líder
de nossa tribo, seja melhor do que foi. Não desejo nenhum mal. Mas que melhore
e veja que seu povo, sangue do seu sangue, deve permanecer unido a todo custo.
Já estamos cercados por inimigos. Não transforme seus aliados, seus irmãos, em
mais um deles.”
Hyukon,
tomado pelo remorso, pranteava. Os outros dois o copiavam no pranto, mas nada mais
a dizer a eles eu tinha.
“Está
pronto para a partida?”, o pajé me perguntou.
Cansado,
apenas anuei.
“Não
aguento mais esperar”, ouvi-me responder.
E
assim, parti. Sem delongas. Sem dores. Estava cansado, mas quando deixei meu
corpo, a matéria em nada pesava sobre mim. Pude ver com clareza os inimigos que
choravam por mim, agora transformados em amigos novamente. De alguma sorte,
doía a cena em meu coração. Tudo poderia ter sido evitado...
Mas
quando meus pais me receberam com minha família, o que deixei para trás não
importava mais.
Essa
é a lição que pretendo deixar a vocês, amigos leitores. Reencarnei uma vez mais
em uma das tribos na África meridional, mas desde então tenho procurado
trabalhar com as emoções dos encarnados e desencarnados no plano espiritual.
Cuidem-se. Deus, ou como quer que o chamem, está sempre cuidando de vocês.
Procurem ajuda. Há profissionais em serviço, não somente desencarnados, mas
sobretudo os encarnados. Há sempre tempo de melhorar. A vida é passageira, por
dolorosa que possa ser, mas essas dores estão em nossas mãos para serem
curadas. Ignorá-las não ajuda. Tenham fé de que tudo isso é transmutável. Nada
é rígido. Tudo pode ser mudado. Avante e ao progresso hoje e sempre! –Caboclo do
Lobo."
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