sexta-feira, 1 de julho de 2022

Ciclos de Gaia II: Uivo à Lua pelo Espírito Caboclo do Lobo.

 “A todos, minhas saudações. Esta é, para todos os efeitos, minha primeira comunicação. Espero que ela seja proveitosa e útil aos leitores bem-intencionados. Apresento-me aqui como Caboclo Lobo, tendo feito parte, em uma de minhas mais recentes encarnações nesta orbe, da Tribo do Lobo, situada entre o que hoje em dia é o Canadá e os Estados Unidos.

Essa tribo era nômade e seu tempo de vivência escapa às primeiras tentativas de colonização do homem “branco”. Minha memória, na verdade, volta para uma existência que foi abreviada por uma pestilência daqueles tempos. Enquanto outros continentes guerreavam entre si e padeciam a morte física, crendo-se sofrerem o “juízo final”, vivi não muito longe de guerras entre meus companheiros. Por mais que nos esforçássemos em ser pacíficos, a corrupção moral se colocava diante de nós, resultando em nossa queda.

Quando encarnei, portanto, minha mãe não tinha sobrevivido ao parto e meu pai procurava por sinais de que eu era ‘decente’, isto é, ausência de todo e qualquer tipo de deficiência em meu corpo físico e mental. Muitos de vocês podem não entender atualmente, mas acreditávamos que aquele que vinha com suas próprias dificuldades físicas sofreriam muito em Terra e, por isso, pedíamos ao Grande Espírito que os levasse de volta à casa.

Éramos dois: meu pai e eu. Ele era um guerreiro, mais um dos vários homens que protegiam a tribo. Também eu era esperado seguir seu caminho. Quando era criança, ele sentou comigo e disse:

“Passaram-se sete luas. Acho que posso dar seu nome, Ivo. Diga-me, está preparado para sair da infância?”

“Sim, meu pai.”

Ele me fitou com aqueles olhos grandes e escuros. De rosto longo e cabelos compridos, escuros como a noite, ele conservava uma barba estranha em torno dos lábios, raramente aparando. Não usava nenhuma blusa para cobrir seu corpo delicado, embora vivesse sob pesadas camadas de pele de urso. Sempre levava ao seu lado uma pesada lança.

“Ótimo. Venha, você precisa conhecer a floresta.”

Aquele seria um momento interessante em minha história de vida. As densas e escuras florestas me assustavam. Em dado momento, hesitei adentrá-las. Meu pai virou-se a mim e me fitou com paciência.

“Do que tem medo, criança?”

“Do escuro e dos animais selvagens, meu pai”, respondi eu.

Um arrepio percorreu minha espinha dorsal.

“E vai deixar que esse medo o impeça de conhecer seu lar? Debaixo dessa terra”, e ele pisou os pés descalços sobre a terra molhada, “vivem seus ancestrais. Mostre algum respeito.”

Eu funguei e temi que meu pai explodisse impacientemente comigo, mesmo que em sete anos jamais tenha visto nada que não fosse demonstração de ternura. Pelo canto do olho, reparei em uma figura etérea, cercada de fumaça branca, fumando seu cachimbo da paz. Fitava-me com curiosidade e suas vestimentas eram de couro colorido. Ignorei-a, porém, muito concentrado em meu profundo e enraizado medo da escuridão. Ante meu silêncio, ele disse:

“Não temos o dia todo, venha. Quando o Deus Sol se vai para que venha a Deusa Lua, você a teme?”

“N-Não”, gaguejei.

“Pois venha. Se confia em mim, confiará na Deusa também, que iluminará nossos passos.”

Enfim fui convencido. Segui-o afinal, segurando minha respiração. Não falávamos conforme caminhávamos floresta adentro. Era escuro e no céu despontavam as estrelas. O que eu tanto temia? A presença de meu pai me inspirava segurança.

“Agora, aqui ficaremos. Consegue me ver?”

“Não”, murmurei.

“Precisa se acostumar às trevas que nos cercam, filho. Aqui será seu novo lar.”

“O senhor vai me abandonar aqui?!”, exclamei, desesperado.

“Não”, ele riu. “Mas é um momento de aprendizado seu requisitado para seu crescimento. Quando procuramos o equilíbrio e o respeitamos, o meio em que estamos nos respeita de volta. O medo só atrai o caçador se faz daquele que a possui sua vítima.”

“Não entendi, meu pai”, falei, timidamente.

Mesmo no escuro, pude jurar que ele sorria.

“Há diferença entre cautela e medo, meu filho. A onça não o atacará se você mantiver sua distância, mas se ela sentir o medo em você, entenderá que deseja atacá-la.”

“Eu gosto mais do lobo”, pensei alto.”

Meu pai riu.

“Claro que sim, o pajé me alertou para este fato. Vejamos da seguinte forma. Por que lobos atacam nossos irmãos vermelhos se eles não são seus alimentos?”

“Porque se sentem ameaçados.”

“E por que se sentem ameaçados?”

“Porque respiram o medo que faz do nosso irmão ser imprudente.”

Meu pai sorriu diante da minha resposta.

“Você me surpreende a cada dia, meu filho. Mas se você se identifica com o lobo, por que se alimenta do medo?”

Queria responder que sou apenas uma criança, mas em meu coração temia saber a resposta. Mas, ao invés de provocar-me com mais questionamentos, ouvi meu pai se levantar e dizer:

“Essa é uma pergunta para outro dia. Vamos, está na hora de retomarmos à tribo.”

Volvi meu olhar uma última vez para ver a figura branca e etérea de um pajé envolto em couro colorido. Ele sorria a mim, mas nada disse.

***

Sete anos transcorreram desde então. Nada muito significativo aconteceu desde aquele momento na floresta. Mas toda noite, ao menos a cada mês, meu pai me levava ao seu centro para que pudéssemos meditar.

Em uma dessas noites, um lobo apareceu. Mas meu pai não se sentiu ameaçado.

“Ah. Deus Tupã fala com você, filho.”

Meu corpo enrijeceu-se de medo. Teria segurado a respiração e me posto a correr se ele não tivesse segurado meu braço.

“Fale com o animal.”

“Como é?”, eu me ouvi dizer, cético.

“Ora, não seja ingrato. Fale com o lobo.”

Era, na verdade, um lobo jovem. De olhos grandes e pele cinza, me fitava com seriedade. E eu retornei seu olhar com outro. O silêncio na floresta era rompido pelo farfalhar das folhas, da brisa quente e do canto das corujas.

“Eu... Quando eu era criança, eu me via em você”, falei. Ajoelhei-me, meu corpo ainda tremia. O lobo acompanhava meus movimentos, mas nada fazia. “Mas eu tinha medo. Suponho que ainda tenho da escuridão que me cerca. Um dia, porém, o pajé me disse que eu não poderia me tornar guerreiro enquanto não dominasse meu medo.”

Prendi a respiração ao me lembrar da conversa que o pajé teve comigo. Chorei longe de todos, envergonhado de mim mesmo. Quando meu pai descobriu o que se passou, ele me levou à floresta de novo para que pudesse expelir meus sentimentos nocivos à Mãe Que Tudo Acolhe.

“E isso me feriu. Sei que todos esperam que eu seja como meu pai. Não sei se sou paranoico, mas posso jurar que escuto vozes me acusando de coisas que jamais sonhei em fazer.” Outro tremelique sacudiu meus ombros. “Guardo comigo esse medo de não conseguir ajudar a tribo, mas mais ainda de mim mesmo.”

Esperei. O lobo me fitava, mas rosnou. De alguma forma, senti que ele falava comigo também. Reparei que havia uma ferida ao lado de sua barriga. Ele deu um passo para frente.

“Sinto que o Grande Espirito trouxe você a mim porque estamos sofrendo por conta de nossos espíritos, lobo.” Falei e o lobo se aproximou, mas não rosnava mais. “Mas vejo que, como você veio a mim sozinho, Ele está me dizendo que somente eu posso me curar disso tudo.”

Soltei um soluço.

“Queria dar ao meu pai razão de se orgulhar de mim. Que ele jamais se envergonhasse de mim.” Outro soluço. “Que eu fosse tão corajoso quanto ele. Queria não ser chamado de covarde pelos meus confrades, nem olhado de forma debochada pelas companheiras. Queria... Que queria eu ser? Não sei. Não sei.”

E chorei. O lobo veio a mim, afinal, e, para minha surpresa, me lambeu no rosto. Fez-me encará-lo, e, de novo, outra lambida. Foi quando o abracei. E nos tornamos um só.

Meu pai, emocionado, fez-se ouvir:

“Louvado seja, oh Grande Espírito, por limpar as sinas que meu filho traz de suas existências anteriores. Abençoe-o, oh Tu que reges o universo e a quem devemos submissa obediência!”

Fui o único da tribo que conseguiu domesticar o lobo cinzento. Embora nós nos orgulhássemos de vir de Sirius, poucos foram os que se ligaram aos lobos selvagens. Demorou alguns anos até que o pajé pedisse para conversar pessoalmente comigo. Claro que o lobo me seguiu.

Estávamos na cabana e o fogo tinha se alimentado com pesadas toras de madeira, aquecendo-nos, por conseguinte. Meu companheiro adormecia enquanto eu e o velho ancião colocávamos as mãos perto da fogueira a fim de desfrutarmos mais do calor que dali emanava.

Eventualmente, ele disse:

“Venho-no observando desde aquela conversa, meu caro. Você mudou muito. A fase pela qual passou não é fácil para ninguém, mas seu pai soube educá-lo bem.”

“De pouco em pouco, perco medo da escuridão.”

Ele sorriu.

“Claro que sim, pois permite que a luz se expanda dentro de você. Seu lobo sabe disso, e foi por isso que, quando se abriu com a natureza, ela o ouviu e enviou seu companheiro para que jamais se esquecesse de que não está sozinho. Nunca esteve.”

Diante do meu silêncio, o pajé prosseguiu:

“Todos nós temos escuridão e luz dentro de nós. Mas o que temos escolhido alimentar? Se não enfrentarmos as densas trevas que estão em nós mesmos, nos prenderemos a uma ilusão que não nos pertence. Seria como viver acreditando que a paz é duradoura, e que sempre está conosco. Ora, isso é besteira. Precisamos de batalhas, mas corajosos são os que as tomam em seu próprio campo. Por que de outro modo seu medo se anuiria?”

“Mas ainda sinto medo”, ouvi-me dizer.

O pajé riu e se apoiou em seu cajado, seus olhos marcados pelo tempo me fitavam com gentileza e ternura.

“Tolo é aquele que diz nada sentir. Quem de fato superou a si mesmo? Mas muitos de nossos irmãos não gostam de ver o que trazem dentro de si. Nenhum deles entraria na floresta como você entrou e se abriria a tal modo para o Grande Espírito. Veja só. Quantos não o louvam em nossos rituais, mas diariamente se fecham em si mesmos? Riam de você, criança, por ser emocional e sensível, mas quem trouxe um lobo selvagem domesticado para a tribo siriana foi você.”

Senti meu rosto queimar e baixei os olhos. Não me achava merecedor daqueles elogios. O pajé soltou um suspiro e tragou de seu cachimbo, observando-me por um longo tempo antes de dizer:

“Por que se coloca para baixo dessa forma, filho? Acha que não é capaz de receber elogios, por que?”

Ele pressentia que tocava em uma ferida antiga, mas engoli minhas lágrimas e balbuciei:

“Porque me acho incapaz deles, senhor. Não sou sábio como o senhor nem forte como meu pai.”

O pajé sacudiu a cabeça.

“Resposta equivocada. É verdade que se eu refizesse a pergunta a alguns de seus companheiros, eles agiriam como um falcão pomposo que são. Mas não você. O Grande Espírito mostrou a você suas feridas, algumas causadas por sua consciência em tempos e lugares distintos dos nossos, outras porém provocadas por terceiros. Não importa. Fazer você fraco isso não faz. Enfrentá-las, porém, você deve.”

Mais um silêncio se fez entre nós, ainda que eu compreendesse aquela lição. Soltei um pequeno soluço.

“Você está fazendo isso, meu filho. E o lobo é a demonstração da sua força. Mas para crer em você mesmo, trabalhar mais você deve. O que o Grande Espírito veio me dizer recentemente, entretanto, é que seu tempo aqui será curto. Hoje você aprende e se acolhe. Amanhã, será servidor. Não mais devedor.”

Levantei o olhar e súbita emoção tomou meu peito.

“O senhor está me dizendo que estou seguindo o caminho correto?”

“Sim, estou. A lição foi aprendida. Mas deve tirar dela bom proveito.”

“E como posso fazer isso?”

“Oferecer amor e benevolência àqueles que um dia o fizeram mal. Talvez não agora, mas no momento certo saberá e de minhas palavras você lembrará.”

Fiz um meneio com a cabeça, agradecido.

“Obrigado, pajé. Não me esquecerei do que me disse”.

E preparava-me para levantar quando ele pigarreou. Olhei de volta ao ancião que disse:

“Mais uma coisa”, e seu olhar se prolongou sobre mim. “Jamais se esqueça que as emoções não fazem um homem fraco. Elas antes são importantíssimas para o equilíbrio entre a alma e o corpo. Quem muito ruge o contrário, sofredor mostra ser.”

Dito isto, fechou seus olhos e voltou a tragar o cachimbo, perdido em suas próprias contemplações. Conforme avisei no início desta memória, ou do trecho mais importante dessa encarnação, padeceria sob desconhecida pestilência. E bem no meio de um conflito civil.

Oh, sim. A ambição e a soberba são doenças que não eram exclusivas do outro lado do planeta. Assolavam homens e mulheres, independentemente de seu gênero e sua raça, ou o ambiente onde se inseriam.

Deste modo, os inimigos que meu pai e eu fomos forçados a combater foram nossos próprios irmãos vermelhos. Foram anos sangrando nossa pátria porque se recusavam a aceitar a paz proposta pelo pajé, cujo desencarne, embora pacífico, piorou nossa situação. Perdi meu pai para as lanças daqueles que um dia pensei terem sido meus amigos. Mas, curiosamente, ou não, quando adoeci, aqueles mesmos vieram a mim.

Na verdade, tinham vindo me capturar. O partido pró-guerra tinha vencido o resto de nós. O lobo teria-os atacado, rosnando ao pressentir sua presença, mas eu, deveras doente para me defender ou ousar fugir, pedi que se aquietasse.

Uma vez se deparando comigo em tal estado que eles se avergonharam quase imediatamente.

“Pelo Grande Espírito, o que aconteceu com você?”

Não vou mentir. Não posso dizer que senti paz ante aquelas palavras ou que o amor floresceu instantaneamente ao me deparar com homens que, de amigos, se tornaram meus inimigos, responsáveis pela partida precoce de meu pai. Contudo, antes que uma palavra de veneno saísse de minha língua, senti a presença daquele pajé que me acompanhava desde criança.

“A vingança piorará seu estado e aumentará sua dor. Não faça aquilo que não desejaria fazer consigo próprio. Se hoje eles se portam assim foi porque, antes, também foi cruel com eles.”

Suavizei. Concordei com aquelas palavras amigas, vendo razão nelas, mas também percebendo por mim mesmo a inutilidade de escolher ódio sobre o perdão. O mal que fizeram espelhava a dor que eles também passavam. Só poderia lamentar por eles não verem isso.

“Queira o Grande Espírito me levar. Não aguento mais o peso desta carcaça”, falei.

Hyukon era o líder dos três rapazes que um dia foi meu melhor amigo. Ele se comoveu e, ajoelhando-se ao meu lado, disse:

“Nunca quis que chegasse a isso.”

No fim da vida, queria que tudo se apressasse, mas, novamente, diante da inutilidade de minha vontade ante Aquele Que Tudo Rege, falei:

“Eu sei. E o perdoo por isso, Hyukon. Só espero que, caso seja eleito o novo líder de nossa tribo, seja melhor do que foi. Não desejo nenhum mal. Mas que melhore e veja que seu povo, sangue do seu sangue, deve permanecer unido a todo custo. Já estamos cercados por inimigos. Não transforme seus aliados, seus irmãos, em mais um deles.”

Hyukon, tomado pelo remorso, pranteava. Os outros dois o copiavam no pranto, mas nada mais a dizer a eles eu tinha.

“Está pronto para a partida?”, o pajé me perguntou.

Cansado, apenas anuei.

“Não aguento mais esperar”, ouvi-me responder.

E assim, parti. Sem delongas. Sem dores. Estava cansado, mas quando deixei meu corpo, a matéria em nada pesava sobre mim. Pude ver com clareza os inimigos que choravam por mim, agora transformados em amigos novamente. De alguma sorte, doía a cena em meu coração. Tudo poderia ter sido evitado...

Mas quando meus pais me receberam com minha família, o que deixei para trás não importava mais.

Essa é a lição que pretendo deixar a vocês, amigos leitores. Reencarnei uma vez mais em uma das tribos na África meridional, mas desde então tenho procurado trabalhar com as emoções dos encarnados e desencarnados no plano espiritual. Cuidem-se. Deus, ou como quer que o chamem, está sempre cuidando de vocês. Procurem ajuda. Há profissionais em serviço, não somente desencarnados, mas sobretudo os encarnados. Há sempre tempo de melhorar. A vida é passageira, por dolorosa que possa ser, mas essas dores estão em nossas mãos para serem curadas. Ignorá-las não ajuda. Tenham fé de que tudo isso é transmutável. Nada é rígido. Tudo pode ser mudado. Avante e ao progresso hoje e sempre! –Caboclo do Lobo."

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