quarta-feira, 22 de maio de 2019

Velhas Memórias. Ciclo II.

Serra Leoa, continente africano.

Ainda naqueles tempos antigos, onde a era dos heróis conflagrava-se em seu crepúsculo e valores aparentemente altruístas maculavam-se sob uma selvageria que, refletindo o sobrepujo da razão pelos instintos, não raro transformava atos nobres em guerras sangrentas, um conjunto de tribos vivia no local que no futuro se chamaria Serra Leoa.
A geografia era mais natural, é verdade. Cada povo dava início a contos que repassava aos seus herdeiros, contribuindo para que alguns destes tornassem-se nômades e levassem tais estórias para outros lugares, outras pessoas, uma prática tradicional que criaria raízes profundas. Mas não é este o foco que pretendo abordar aqui. Minhas memórias me levam de volta a um corpo mais forte do que o anterior, mais saudável e robusto, preparado para o contexto que me inseria. Como falei, a era dos heróis estava declinando e já não era mais fácil identificar o homem que defendia seu povo bravamente dos inimigos e monstros afora daquele que, corrompido pelo poder destes mesmos inimigos, vendia-se facilmente na falsa escusa de ser o escudo dos mais frágeis. Desta vez, nasci num corpo social mais fragmentado, por assim dizer: as guerreiras silenciosas. 
A distinção entre uma hierarquia a outra era determinada, até então, pela sabedoria em contraponto a possessão de ouro, embora aquele valor também estivesse em mutação. Os anciãos a tudo isso observavam com cautela, mas mesmos os mais sábios não demoravam a se entregar aquelas práticas corruptas também. Tudo em prol de uma causa... patriarcal.
A figura do herói, do homem viril que, em sua demonstração de poder cada vez mais incontestável, salvava seu povo dos destruidores, dos amaldiçoados pelos deuses, ressaltava a ideia de uma fraqueza feminina cuja sabedoria provava ser incapaz de defender a si própria e os demais em tempos de caos. A paz não era mais admirável quando a força apontava para um caminho mais glorioso. E o custo para tal para poucos importava. Naturalmente, ainda que a mulher ocupasse um cargo em armas em determinadas tribos, foi o herói quem minou o exercício de seu poder. Sua fragilidade exposta, em meio a gravidezes e doenças (como o sangramento da lua), quando as vitórias conquistadas por outros que não padeciam destas infelicidades, corroborou para fortalecer a crença de que a mulher precisava ser protegida. Sua liberdade, aos poucos, começou a ser circunscrita. 
As guerreiras silenciosas eram, como bem diz o nome, um grupo de mulheres que agiam quando podiam na ausência de seus valorosos heróis para o bem do povo. Agiam de uma maneira que os líderes tribais não fariam, pois a coragem, a bravura, a ousadia não combinavam com o silêncio. Um erro, meus leitores, muito associado ao orgulho, a cobiça, a vaidade... Na tribo onde nasci, porém, elas ainda eram relativamente respeitadas. Defendíamos a senhora que, ao lado do nosso chefe, poderia se encontrar em perigo. Isso incluía tanto internamente quanto externamente... E, como pode-se esperar, eu pagaria o preço por não ter aprendido com meus semelhantes.

Dito isso, permita-me que me apresente. Gandhira foi o nome que me concederam naquela época tão longe e esquecida pela História, cuja memória sabemos ser bem seletiva. Meu pai morreu quando era criança e, após minha mãe ter se casado novamente com um homem qualquer de nosso povo, tão logo engravidou e eu me vi aos cuidados de meu novo pai. Jor'a era seu nome, ele era escuro como a noite, mas seus cabelos eram brancos e os olhos, esverdeados como a mata. Tinha lá seus outros filhos, alguns dos quais dirigia especial afeição, mas a mim me tratava com certa indiferença, o que me fez ressentir dele logo quando me vi órfã antes de completar 12 voltas do sol.
Possuíamos uma relação um pouco complicada. Ele ignorava que eu tinha algo especial em mim, como poder enxergar nossos ancestrais -um traço que trouxe comigo de outra vida, aquela primeira, sem dúvida- ao nosso redor. Nem sempre eles me viam com bons olhos, o que me dava medo -e como haveria de ser, quando a ignorância cegava-me para a verdade como o véu misericordioso divino que me impedia de ter conhecimento sobre o passado- e fazia nascer em mim um ímpeto não muito positivo. 
Apesar disso, cresci em um ambiente normal onde, das crianças que nasciam homens, esperava-se que treinassem em armas e conhecessem todo o espaço marcado onde vivíamos, isto é, ter conhecimento da natureza, de seus ciclos e de como os deuses se comunicavam conosco: cada sinal era um indicativo de favorecimento (ou da ausência deste) de que eles estavam o tempo todo ao nosso redor, de olho em nossas ações. Quanto aquelas que nasciam mulheres, a educação voltava-se para o tricô, os contos ancestrais que repassavam aos filhos, a educação destes e das filhas que tinham, consultadas apenas em questões necessárias, pois mesmo os mais arrogantes dos homens reconheciam que a sabedoria divina recaiu sobre elas.
Em uma manhã, eu acompanhava uma senhora amiga de Jor'a e minha mãe que, com a permissão dele, tomou-me em seu círculo feminino para que pudesse desfrutar desta educação informal. Era costume que as mulheres passassem tempo juntas e não era de surpreender que Jor'a aquiescesse, permitindo que me juntasse a elas. Todavia, jovem como era, via naquela permissão uma maneira de livrar-se de mim.
Por isso, a rebeldia em meu espírito prevenia-me de completar alguns deveres como o tricô, a cozinha, dentre outras tarefas que esperava-se que alguém como eu devesse cumprir. Neste dia, a mulher em questão, a quem chamarei de Shilloha, pediu para conversar comigo a sós. Longe daquela oca de palha sob o qual eu e  outras meninas trabalhávamos, me vi ao lado daquela mulher de corpo esguio, olhos castanhos vivos e lábios carnudos. Seu semblante era sério, e a ausência de cabelos que cobrissem sua cabeça dava-lhe um aspecto de guerreiro deveras assustador. Encolhi-me, o pouco que meu orgulho permitia.
--Gandhira--ela disse, rigidamente--seu comportamento não tem sido muito exemplar.
Em silêncio, fiquei. Não sabia o que dizer, nem o que era esperado de mim responder. Shilloha prosseguiu:
--Seu pai ficará desapontado se...
--Jor'a não é meu pai!--retruquei, sem pensar no que estava fazendo.
Mas Shilloha compreendeu logo a questão.
--Então, é disso de que se trata--ela suavizou o semblante--Venha comigo, Gandhira.
A confusão estava estampada em meu rosto infantil, mas, apesar disso, a segui. Confiava naquela mulher não apenas porque era meu único elo com aquela que me concedeu a vida, mas porque era quem mais genuinamente se importava comigo.
Caminhamos por entre as relvas, as longas árvores, passando por animais de tamanhos diferentes que não constituíam qualquer ameaça a nós e nem nós a eles. Enfim, adentramos uma floresta densa antes de alcançarmos a foz de um rio. Ali, ela pediu para que eu me sentasse:
--Peça licença à divindade do rio antes--alertou-me Shilloha e, quando o fiz, ela disse--Aqui estamos em paz. Diante dos deuses, podemos conversar sem temer os homens.
Nada respondi, pois, diante de nós, via uma mulher de pele bronzeada e olhos escuros, toda pintada em ouro, embora seus cabelos fossem crespos como os meus. Uma áurea ao seu redor me dizia que ela era quem protegia aquela região onde eu e Shilloha nos intrometíamos, mas a deusa apenas nos observava, sem nada a dizer ou fazer. Pus me a concentrar, portanto, em Shilloha.
--Sei que suas aptidões inclinam-se para a guerra--ela continuou--Em outros tempos, tais qualidades a teriam valorizado. Mas os dias de nossos avós e antes deles, temo, acabaram.
Eu bufei.
--Isso é injusto.
--É assim que nós funcionamos, Gandhira. Quer você goste ou não--afirmou ela, com firmeza--Já sangrou?
Corei diante daquela pergunta. Sacudi a cabeça, ainda infantil em minhas maneiras embora quisesse provar-me como mulher.
--Por isso seu pai não a tem procurado tanto--ela especulou mais consigo própria, antes de dizer--Os deuses têm um propósito para você.
Lancei um olhar a deusa dourada, mas ela não estava mais ali.
--Desposar um rival de meu pai para fazer as pazes com a tribo dele? --eu perguntei, desdenhosa. Aquilo me soava estranhamente familiar e, como se para confirmar essa estranha sensação, um arrepio percorreu minhas costas.
--Nem sempre alianças são ruins. Os deveres devem ser cumpridos a todo o custo--respondeu ela, dura, antes de suavizar--Há missões que os deuses nos concedem, esperando que possamos levá-las a cabo. Sempre soubemos tecer nossas forças de outras formas que não envolvesse o linho, e agora não seria diferente. Os desafios mudam, e nós também. Em meio a tempestades que avistamos no horizonte, precisamos encontrar nossa força e resistir a elas. Ser derrubada não é uma questão.
A tudo isso ouvia, sem saber se entendia, de fato, a mensagem que ela me passava. Mas, conforme ela falava, tudo pareceu começar a fazer sentido.
--Não sei qual missão os deuses conceberam a você, mas sei que estou nela, de alguma maneira. Você precisa usar esse seu temperamento para algo... claramente, é abençoada pelo deus da guerra--fez uma pausa, e um sorrindo apareceu em seus lábios--As guerreiras silenciosas... Já ouviu falar delas?
Quase caí no rio diante do nome que, certamente, me era familiar. Aquele era um grupo seleto que, nos dias anteriores a ascensão dos heróis, reinava sobre seus povos e os comandava para longe da guerra, sem, contudo, fugir de um embate bélico caso ocorresse a necessidade. As amazonas, por exemplo, derivaram diretamente destas mulheres que pegavam em armas para defender a tribo que viviam e, sem qualquer medo, prostravam-se contra os que desafiavam sua autoridade.
--Já--eu falei, perplexa.
--O deus da guerra as apadrinha, embora muitos tenham dito que ele as havia abandonado--ela riu, ainda que seus olhos não refletissem o divertimento de sua risada--A guerra nem sempre está nas armas, no derramamento de sangue, criança. O mal está a espreita e é nosso dever empurrá-lo para longe. O silêncio é nosso maior aliado, pois o som expõe as sombras barulhentas como haveria de ser. Um exibido contará tanto para o mundo que, em verdade, fez nada. Mas sua ambição, sua forte e destreza não serão questionados porque a língua é tão poderosa quanto a espada.
"Mas é na quietude que os deuses se comunicam conosco. Somos apenas seus instrumentos, nada mais, nada menos que isso. Somos carne e eles, os espíritos. Somos morte, e eles, os eternos. Somos o finito eles, o infinito. Quanto mais cedo compreender isso, melhor será seu caminho. Nem sempre é fácil, eu sei. Queremos mostrar aos outros que somos competentes, queremos ser amados e, por que não, temidos. No entanto, ao abraçarmos esses falsos fundamentos, não estaremos indo a lugar nenhum. Ao contrário, nos estagnaremos."
Mas é claro que uma garota como eu não havia compreendido muito bem o que havia dito e não precisou que eu verbalizasse isso. Shilloha me conhecia melhor do que eu mesma.
--Você está aprendendo. Talvez, eu tenha falado antes do seu tempo. Mas acredito que não, ou do contrário não estaríamos aqui. A deusa do rio a abençoou, não vê?
Eu me arrepiei, pois sempre tive uma ligação com os rios e as cachoeiras, mesmo sem saber que tenha morrido próximo a uma delas numa encarnação anterior.
--De fato--eu murmurei e, num ímpeto, falei--Eu a vi! Eu a vi, Shilloha! Ela estava aqui!
Como uma sábia, Shilloha fez um meneio com a cabeça raspada e disse, ternamente:
--É claro que estava. Ela é sua mãe. Você é a filha dos rios, Gandhira. Não percebe isso?
Outro arrepio tomou-me.
--Mas... Mas minha mãe, disseram, morreu ao dar-me à luz?
Naqueles tempos, outra linguagem fazia-se necessária.
--Não. Ela foi como um casulo para que a deusa pudesse ocupar seu corpo. Tenha certeza disso.
--A deusa veio a nós e me trouxe aqui?--tal perspectiva não me assustava, mas me admirava--Que missão tenho a desempenhar?
Shilloha viu algo em meus olhos que a fez hesitar, mas então sorriu e disse:
--Pouco importa isso, criança. Mas lembre-se: o silêncio é a manifestação dos deuses, o que não pode ser dito, é ouvido. O que não pode ser gritado, é sentido. E o coração é a porta de entrada. Uma pequena mácula e o barulho a tornará surda para eles.
Em verdade, por mais que tivesse sido afetada por aquelas palavras, assim que me levantei, fui tomada por uma coragem súbita. É claro que eu gostaria de fazer o bem, mas sua concepção ainda não me era clara. Eu estava perdida. E talvez Shilloha soubesse disso.
--Vou ser uma excelente guerreira! A guerreira dos rios! --eu exclamei, orgulhosa.
--É claro que sim, desde que aprenda tudo o que foi dito--ela me disse, com um tom de aviso.
Assenti com a cabeça e daquele dia em diante, comecei a frequentar os treinos com lanças e pequenas espadas. O vento, me diziam, seria meu amigo, meu companheiro, se eu soubesse domá-lo. Nas areias distantes do povoado, era lá que eu passava meu tempo com outras moças que, como eu, eram ensinadas a usar os quatro elementos a nosso favor: o vento, o fogo, a terra e a água.
Por um tempo, usufruí de uma paz incontestável e tudo parecia dar certo. Meus cabelos negros cresciam com rapidez e eu não ousava cortá-los, pois via neles a minha força... como também meu orgulho. Encorpei, e tornava-me mulher conforme envelhecia, embora não tivesse sangrado até os meus 17 anos. E foi então que tudo mudou.
Nesta época, por mais comprometida que estivesse com meu dever, por mais leal que fosse aqueles que me eram leais também, por mais entendida -embora não o suficiente- que fosse com as distinções entre o bem e o mal, eu estava cega pelo orgulho. Uma mácula que não foi removida de mim, mesmo então.
Achava-me digna de ser a líder das minhas companheiras e nas poucas batalhas que havia ocorrido, testemunhei todas. Lutava sem escudo, levava os inimigos para a profundeza das florestas, pois lá o rio corria, e lá eles encontravam a morte. Não percebi que maculava os domínios que jurei defender, não percebi que a cada vida que me pedia clemência, eu negava. Não conhecia o amor ao próximo, não conhecia a caridade.
E a fúria parecia me levar a um velho caminho quando Jor'a veio me dizer que eu me casaria com um irmão de armas dele. Fiquei ofendida. Estava comprometida com as guerreiras silenciosas, e não com a ideia de ser a esposa de alguém.
--Você me odeia--ele disse com um tom de sabedoria, aquele preto velho que não me tratava mais com indignidade. Por algum motivo que não compreendia, ele havia mudado absurdamente desde que eu passei a ser educada junto às guerreiras silenciosas sob a tutela de Shilloha--E acho que mereço esse ódio. Não fui o pai que você mereceu. Não fui o homem que deveria ter sido, mas sabe, criança, nós mudamos se aceitamos a mudança. Se não lutamos contra ela. E acho que não é para você esse destino sangrento que almeja seguir.
--Com que direito o senhor me diz isso? --eu resmunguei, esquecendo-me do meu lugar e certamente ávida por colocá-lo no dele. Ou no que eu pensava ser.--Não foi você um dos grandes guerreiros que desposou minha mãe?
Ele riu, mas havia tristeza na risada dele. Um lamento quase.
--Não receberei meu perdão, vejo isso--ele disse para si próprio--E tudo bem, mas que os deuses sejam misericordiosos--e sua voz endureceu ao me encarar--Você irá se casar. Pode berrar, gritar, xingar-me como quiser. Meu destino está atado e não tenho poder para mudá-lo. Mas já chega, não vou tolerar seu comportamento!
Eu bufei e chorei. Joguei-me aos pés dele, humilhando-me para que aceitasse-me em seu lugar. Qualquer coisa que não envolvesse casamento. Mas Jor'a foi firme em sua decisão, e eu o odiaria por isso. Por manipular-me e brincar com minha vida como se ela nada significasse, como se eu fosse uma lança tão fácil de ser manuseada.
Contudo, bastou o dia para me trazer o noivo que era como se tudo mudasse, adquirisse outros aspectos. É engraçado como o amor pode funcionar em meio às leis dos homens, nos tempos mais sombrios que sucumbimos, ele nos aparece como redenção. Ainda assim, tal não era meu pensamento ainda.
Mas, no momento em que meus olhos pousaram naquele homem alto e forte de complexões suaves e pele dourada, eu senti meus joelhos fraquejarem. Senti uma estranha familiaridade quando ele se aproximou em suas vestes tribais, as pinturas ao redor do seu braço indicando que aquele era o herói de nossa tribo. E meu rosto queimou diante disso, baixando olhos enquanto ouvia comentários das senhoras que o admiravam.
--Gandhira--ele disse, suavemente. Sua voz tinha um tom intenso, o que combinava com a forma pela qual ele me olhava. Ao levantar o olhar, pensei que sucumbiria a uma estranha sensação que me queimava o corpo. Os deuses certamente não poderiam ser cruéis assim, eu pensei--É um deleite estar em vossa companhia.
Suas palavras saíam de uma forma estranha aos meus ouvidos. É verdade que a sensação que eu tinha era a de sair de uma caverna e, no instante em que me pus rumo à luz, ceguei-me rapidamente naquele brilho.
--Obrigada--eu agradeci, sem jeito--Como devo chamá-lo?
--Hul'u.--ele respondeu simplesmente--Terei a honra de conhecê-la melhor antes da cantiga dar-se início?
A cantiga que ele se referia era um momento único no qual todos nós, sem distinção qualquer de posições e formalidades, juntávamos ao redor da fogueira. O sacerdote alimentava esse fogo, alto o suficiente para chegar aos céus, enquanto oferecíamos parte de nossa comida aos deuses e nossos ancestrais. Ele fazia uma leitura, cantava nossas histórias com sua bela voz e depois passava a vez para o ancião da tribo falar por todos. Certamente, nossa união seria anunciada naquela noite, já que Jor'a não teria me oferecido em casamento ao irmão de armas dele sem o consentimento do velho Kah.
--Se for apropriado--eu respondi, ainda tímida.
--Acredito que seja--ele me assegurou, confiante.
E, com a permissão de Shilloha, seguimos em frente, caminhando rumo a uma lagoa próxima, passando por animais livres e selvagens que, acostumados com nossa presença, sequer nos deram atenção.
--Jamais pensei que teria a honra de desposar uma guerreira silenciosa, filha da deusa dos rios--disse-me Hul'u, sorridente--É mais bela do que pensei que seria, embora sua beleza pouco importasse para mim. Estou ciente, decerto, de seu temperamento. Seu pai foi o deus dos trovões?
Eu não pude evitar de rir diante daquele pensamento, pois, por mais orgulhosa que fosse, no fundo eu me via como indigna dos deuses. Uma contradição que poucos conheceriam.
--Não sei. Acredito que minha mãe, a deusa, se apaixonou por um mortal como contam as estórias.
Ele sorriu, e era como se eu estivesse olhando para um deus.
--Você certamente me parece como um ser divino--eu comentei, sem pensar muito em segurar a língua. Era curioso como alguém podia me sentir intimidade, ao mesmo tempo que incentivava a intensidade com a qual sempre me motivou a fazer tudo na vida--Que deuses o acompanham, eu me pergunto?
--Você é muito curiosa--comentou Hul'u, divertido--Mas agradeço seus elogios, minha senhora. É muito gentil. Não creio que tenha pais divinos como a senhora, mas costumo pedir bênção e fortuna ao deus da sabedoria. Conhecimento é bom e valoroso.
--Será um ancião sábio, respeitado e amado--pontuei, como se tivesse visto o futuro e talvez fosse verdade. Os deuses me concediam vislumbres sobre acontecimentos breves, e isso era algo que eu não contava a ninguém.
Hul'u me encarou e a forma com a qual o fazia era como se mergulhasse em meus olhos para ler minha alma.
--Você é especial--ponderou ele--mas há muito o que aprender.
Dei um sorriso levemente debochado.
--Aprender? Ensinaram-me tudo o que eu sei--disse, em tom de desafio.
Com sua paciência, ele riu. Pensei que fosse de mim, mas ele logo respondeu:
--Não faça essa cara. Acho que é demasiada jovem e os jovens costumam se perder nas poucas glórias conquistadas. Permita-me compartilhar o pouco que eu sei?
A verdade é que eu não me sentia preparada para ouvir a sabedoria daquele homem, da mesma forma que eu me senti pequena diante da grandeza de Shilloha quando contava 12 verões. No entanto, assenti. Escutar era algo que sabia fazer.
--Tomamos para nós dores que não cabem a nós serem resolvidas ou mesmo compreendidas. Sentimo-las talvez porque seja inevitável sentir. Projetamos tais aflições, contudo, nos outros de tal forma que o ódio vem tomar conta do bem que existem em nós, como a noite devora a luz da estrela que queima de vez em quando.--ele fez uma pausa como se certificasse de que eu o ouvia atentamente antes de prosseguir--As sombras não são causadas pelos outros, eles apenas a despertam para que nós a enxerguemos apropriadamente. Tirar vidas não resolve o que está dentro de você. Açoitar-se tampouco.
--Eu não me açoito--retruquei, defensivamente. Por algum motivo, me sentia afetada por aquele discurso.
Mas Hul'u era paciente demais comigo para se deixar afetar pelas minhas provocações. Ele tomou minha mão na dele e senti minhas faces ruborizarem. Naquela hora, o sol se preparava para o crepúsculo. Não tínhamos mais muito tempo para desfrutar sozinhos.
--Quando digo açoitar-se, refiro-me a escravizar-se a culpa que carrega em prol de um evento passado. Você carrega ressentimentos, sentimentos não resolvidos e acredita que a violência seja a resposta para o que procura.--embora ele dissesse sem uma gota de julgamento em sua voz, me senti ferida--Há tempo para o resgate da luz que existe dentro de você se permitir.
--Você não me conhece.--disse, zangada, removendo minha mão da dele. Mas ouvir a verdade como ela era, sem máscaras, sem enfeites... doía--Não fale besteiras.
Hul'u suspirou, mas não foi frustração que vi em seu semblante, mas tristeza. Poderia ter me levantado e ido embora, mas havia algo nele que me fez ficar.
--Apenas gostaria de mostrar a você um caminho mais leve, Gandhira. Não seja tão dura consigo mesma.
Eu me recusei a mirar aqueles olhos tão profundos quanto o céu à noite e engoli o choro. Por que cargas d'água me sentia afetada por tais palavras? Quão significativas elas eram, na verdade? Tudo fazia sentido, eu comecei a perceber, porém, demoraria a aceitar. Porque não confiava nas palavras dos homens, por mais puro dentre eles que Hul'u pudesse se encontrar.
Meu silêncio era significativo por isso e ele compreendeu. Não insistiu no assunto. Em vez disso, hesitantemente procurou pela minha mão e eu, entendo o significado deste gesto, relutantemente concedi que a tomasse na sua. Enfim, ouvi-o dizer:
--Pretendo um dia sair daqui.
Eu me vi encarando-o, surpresa.
--Sair?
--Sim.--ele falava sério, eu notei, mas surpreendentemente não o julgava por aquela decisão.
--Por que?
--Vivemos em um mundo intenso. Há muito o que ser explorado, não acha? As perspectivas daqui não me interessam--disse Hul'u--Muitas guerras se fazem sem qualquer propósito. Penso que as montanhas são lugares mais tranquilos para se viver.
Ele apontou para um montanha não muito longe dali, onde se via apenas árvores e ouvia cantos de pássaros.
--Você gostaria que vivêssemos isolados de toda a gente?--eu inquiri, suspeitando de suas reais intenções.
--Não--admitiu ele--Nós dois somos guerreiros demais para viver longe de nosso povo, porém, acredito que um pouco de paz não faria mal.
Paz. Uma palavra que eu conhecia muito pouco, tanto externamente quanto internamente. Fitei-o, ainda intrigada.
--Quero conhecer as montanhas. Seja daqui, seja de lá. O mar, ouvi dizer, não fica muito longe daqui. Acha que o mundo como conhecemos termina aqui?
--São muitos questionamentos para os quais não tenho resposta, sequer algo que poderia ajudá-lo--eu disse, envergonhada de ser a consorte desse homem tão rico em palavras, certamente sábio e possuidor de um espírito livre das correntes mundanas que nos prendem ao material deste plano.
A verdade, contudo, era pior do que se poderia supor. Como fui educada nas armas, jamais me interessei no conhecimento passado oralmente. Sequer me aprofundei nos rituais que, sazonalmente, dirigiamo-nos aos deuses. Foi com Hul'u que eu percebi o quanto era limitada. Em apenas uma primeira conversa, senti-me instigada a melhorar. A deixar a escuridão que me cegava, que me acorrentava.
--Há reinos para o extremo norte--eu disse, subitamente--Ouvi dizer que eles receberiam-nos bem.
Mas Hul'u sacudiu sua cabeça e, para minha surpresa, disse:
--Não, minha querida. Aqueles do norte não se saciam pelo poder que descobriram. Não seria um lugar para nos estabelecermos. Não se preocupe, porém. Encontraremos nossa paz pelas montanhas.
Sua doçura não me enganava, porém, eu sabia que ele havia muito se decidido e não aceitava outra decisão. Isso poderia ter me abalado, admito, mas sua paciência com minha demonstração temperamental inclinava-me a perceber que ele era diferente, se não melhor, que outros de seu sexo. Jor'a sabia no que fazia ao decidir casar-me com ele. Contudo, por mais sábios que pudessem ser os homens, nossas opiniões continuavam a ser silenciadas.
--Que seja--eu disse, voltando ao meu mau humor--A última palavra há de ser a de vocês.
Novamente, Hul'u suspirou, mas havia um divertimento em seus olhos quando tomou minha mão contra seu lábios. E ao roçá-los contra minha pele, senti um formigamento que arrancou de mim um leve, doce sorriso.
--Você é bonita quando não está sendo teimosa--disse ele, e meu sorriso aumentou. Qualquer diferença que pudéssemos ter, rapidamente desapareceu. Senti que combinávamos e ele também parecia sentir o mesmo--Acha que a deixaria desprotegida? Sou um homem de deuses, herói do povo.
--Dizem que a era dos heróis está em declínio--eu pontuei, e o jeito como nós nos entreolhamos dizia muito sobre um reencontro das almas.
--Talvez esteja--ele concordou--E, no entanto, acha que todos os heróis são passíveis de ser corrompidos?
Antes que pudesse respondê-lo, porém, uma das filhas de Shilloha veio me procurar. Lançando um olhar sem significado a Hul'u, avisou-nos de que a hora da cantiga. Levantamo-nos e, em silêncio, a seguimos. Anoitecia quando chegávamos e a fogueira era acesa. O sacerdote louvou a todos que vinham, e, uma vez que toda a tribo estava ali, separou-nos para que sentássemos em nossos respectivos lugares. Juntei-me às filhas de Shilloha enquanto vi Hul'u sentar ao lado direito de Jor'a. Não prestei atenção a todos os outros. Pouco me importava se havia alguma distinção entre o chefe tribal e os outros.
O sacerdote pôs-se a falar, portanto:
--Hoje é um dia que deverá ser celebrado, pois os deuses enviaram suas bênçãos a nós! Sim, eu estive com eles, nossos ancestrais levaram-me alá! Cada deus solicitou-me que um trabalho fosse feito, e eu aqui repassarei o que deve ser feito--ele trouxe uma ovelha, um carneiro e um cavalo. Percebi de antemão que um sacrifício importante ocorreria em breve--Estamos sem chuvas há duas luas, e isso muito me preocupa, como doravante preocupa-os também. Não temem, meus caros, pois a colheita melhorará e, em breve, a provação pela qual passamos será resolvida!
Como se para corroborar o discurso do velho, ouvimos o retumbar de nuvens carregadas. De fato, como sofríamos com a colheita ultimamente, aquele barulho que anunciava chuva e trovões era como um prelúdio da presença divina. Assim, todos nós batemos os pés no chão e aplaudimos com as mãos, num gesto que agradecia como louvava os deuses.
O sacerdote pediu silêncio e nós, é claro, o obedecemos. Ele prosseguiu:
--Como gesto de agradecimento aos deuses que comungam conosco, nos protegem e auxiliam nos piores momentos, ofereço-os--e ele citou o nome de três dos grandes deuses--o sangue puro da ovelha, a carne do nosso cavalo mais feroz e os ossos do carneiro que nos livra de todo o mal a cada estação que segue. Não obstante, a deusa do amor pediu que fosse anunciado o noivado de nossos estimados guerreiros. Avante, Hul'u, filho de Esu, e Gandhira, filha de Osu!
Confesso que, mesmo ciente do que estava acontecendo, aquele anúncio me surpreendeu. Todavia, fiz como pediu e caminhei, como Hul'u também o fez, até o sacerdote. O sacrifício ocorreu e ele nos abençoou com o sangue da ovelha. Em seguida, retornamos aos nossos lugares e a cerimônia ocorreu tranquilamente.
--Nas águas da estação
  Pedimos aos vossos deuses por perdão
  Que nada do que fizermos for em vão
  Nas terras místicas das florestas
  Onde nada nesta vida nos resta
  Louvai o deus pai que nos testa
  A fim de alcançar nossos ancestrais
  E cobrir nossos ossos com vossos sais
  Nas chamas que aqui contemplamos
  Deuses fortes, deuses guerreiros,
  Nós vos saudamos
  A vós, pedimos; a vós amamos,
  Que a força nos conceda
  Para que nossas impurezas
  Queimem assim vossas labaredas
  Aos deuses que subjugam o ar
  Ensinem aqueles que não saibam amar
  Aqueles que se esqueceram a respeitar
  A tudo aquilo que de bom grado
  Nos ensinou a conquistar.
  Pelas quatro estações,
  Que os deuses escutem as canções
  Que dos homens vêm dos corações
  A fim de alcançar vossos perdões.
  Com sabedoria, energia e ardor
  Liderais aquele que sejas nosso protetor
  Para que inimigos não nos causem dor
  E se assim se faça ocorrer
  Que seja preferível morrer
  A permitir que nos façam sofrer.
  Sendo assim com humildade
  Pedimos aos nossos ancestrais pela trindade
  Que nos guie e abençoe
  Para os céus, para a torre.

E, assim, a cantiga terminava. Era muito bonita a forma como ele louvava nossos deuses e muito difícil não compartilhar do sentimento dele. Houve muitos sacerdotes que se mantiveram incorruptos,  na fé sincera e de coração devoto. Aquele homem não era exceção. Foi ali que eu percebi o quanto estava cercada de pessoas boas e sinceras. Ou assim achava. Deixá-las seria uma tarefa difícil, mas negar meu dever como esposa, seria também negar meu aprendizado como mulher também. Ademais, poderiam ter escolhido um marido pior para mim.
No decorrer dos dias, meu casamento aconteceu. Nada deslumbrante, belo ou memorável. Foi simples, como deveria ser, e íntimo. Poucas foram as testemunhas. E, logo em seguida, parti com Hul'u, sem olhar para trás.
--Sei que isso é difícil--ele comentou enquanto cavalgávamos para longe da nossa tribo--mas será um aprendizado para você.
--Se assim diz--eu retruquei, e não falamos muito no caminho.
Confesso que me sentia culpada por tê-lo destratado logo depois de termos casado, e admito que era alguém muito difícil de se lidar. Uma guerreira silenciosa ainda assim é uma guerreira, e não pensava que um dia deixaria de desempenhar esse papel. Perguntava-me a mim mesma se era isso o que os deuses queriam de mim, que relegasse a minha força para submeter-me a uma união.
Conforme cavalgava e passava por animais bastante curiosos e livres, percebi que estava sendo ingrata e isso me entristeceu. O novo e desconhecido era assustador, porém, igualmente incrível. Ao adentrarmos as florestas, o que eu fiz logo depois de pedir bênção ao deus caçador, eu senti uma paz que jamais senti antes.
--Gostei daqui--comentei enquanto subíamos a estrada engrume que nos levava para algum povoado distante que Hul'u queria conhecer--É bom, embora essa densidade me assuste um pouco.
Hul'u virou a cabeça para me encarar, e eu soube que ele se surpreendera comigo. Estava me abrindo, ou me esforçando em fazê-lo, e começava a admitir minhas falhas. Ele sorriu, pois isso o agradava. Por minha vez, não acreditava que alguém como ele tinha a paciência em lidar comigo e todas minhas faltas.
--Quando eu acompanhava seu pai nas buscas por aqueles inimigos que, outrora, atacavam nosso povoado, decidi que conheceria toda essa redondeza para que pudesse  me prevenir. Nos tempos de paz, precisamos nos preparar para a guerra, portanto pus-me a averiguar cada caminho possível a trilhar e que me levasse aos atacantes. Eventualmente, tive sucesso--ele contou, com um sorriso que faltava o orgulho que tanto conhecia--Mas nunca passei daqui. Soube de um ou outro povoado, mas sei que há muito mais por tudo aqui. Quero conhecer esse mundo. E fico feliz que tenha aceitado em vir.
Sorri a ele. Aos poucos me acostumava com a ideia de aventuras, e mais ainda gostava da companhia dele. Para um guerreiro forte e destemido, sua fala era suave e calma. Sempre que conversávamos, sua sabedoria estava em evidência. Por todo um dia e meio, apreciei sua companhia.
--Tudo acontece rápido demais conosco--uma vez, ouvi-me dizer enquanto chegávamos a esse povoado novo, estranho aos meus olhos--Seria obra dos deuses?
--Provavelmente--Hul'u disse com seu sorriso charmoso. Meu coração disparou--Ou talvez seja algo anterior a isso.
Ele me deu uma piscadela e antes que eu tivesse tempo de processar aquele mistério todo, Hul'u desmontou de seu cavalo e, por mais que protestasse que não precisava de ajuda, ele fez o mesmo comigo. Guiamos nossos preciosos animais até a vila, onde, curiosamente, vimos pouca quantidade de mulheres, homens e crianças de pele escura porém de cabelos prateados. Recordei-me de Jor'a e, instintivamente, senti remorso por não ter falado com ele antes da minha partida.
Observei Hul'u ir à frente e, logo, todos haviam cercado-no com curiosidade. Logo, ele me apresentou também. Falávamos um dialeto diferente, porém, surpreendentemente, conseguíamos nos compreender. Passamos a noite por ali, e foi diante da fogueira que aquecia nossa oca que consumamos nosso casamento.
A sensação de um corpo aquecer o outro me era nova, e mais ainda senti-lo dentro de mim. Não era apenas desejo, mas uma ânsia de amá-lo. Algo que, instintivamente, me pertencia. Gostei de como ele brincava com meu cabelo, como ele beijava cada parte de mim, e como suspirava seu amor por mim. Em pouco tempo, nos amávamos, mas como haveria de ser diferente?
Ficamos naquele vilarejo o suficiente para construirmos uma rotina. Aprendi o dialeto deles e, não muito tempo depois, concebemos uma criança. Ali tivemos nosso primeiro filho, um menininho saudável que chamamos de Olorum. Logo depois, deixamos aquele vilarejo para trás e seguimos subindo, sempre pelas montanhas.
Quando nos perdíamos e seguíamos a leste, avistávamos o mar, mas, temendo-o, mantivemos distância. Fizemos nossas saudações a deusa que tomava conta de toda aquela imensidão azul e, em seguida, contamos pequenas estórias dos deuses para nosso menino. Tudo parecia caminhar bem. De vez em quando, também avistávamos um povo que morava na imensidão das florestas, mas não nos fizeram mal.
Tudo parecia bem, de fato, até chegarmos a um vilarejo a extremo norte de Serra Leoa. Apesar de termos sido recebido bem, com leve desconfiança, descobrimos que aquele povo estava em guerra com outros.
--Se ficarem aqui, terão de ajudar-nos!--exigiu seu chefe, um homem quase velho de pele não tão escura e longos cabelos trançados. Sua ferocidade me lembrou daquela que um dia possuíra. E teria-me feito resguardá-la se não fosse Hul'u e sua calma a interferir na questão.
--Paz--ele disse com firmeza e mesmo aquele chefe teve de obedecê-lo--Viemos em paz. Se precisam de nossa ajuda, que assim seja. Ofereço-me como seu guerreiro se assim aceitar que eu, minha esposa e meu filho vivamos em paz aqui.
O chefe pareceu hesitar, mas seus conselheiros eram sábios o suficiente para identificar força quando vinham uma. E Hul'u tinha traços divinos em si próprio, o que aumentava sua áurea. Prontamente, receberam-no.
--Eu não me lembrava mais como era viver em guerra--eu disse, em tom acusatório enquanto Olorum dormia--Pensei ter melhorado como gostaria que melhorasse, e, contudo, nos traz até aqui.
--Os deuses têm seus propósitos e não cabe a nós questioná-los--ele retrucou, antes de suavizar e tomar-me em seus braços--Perdoe-me, amada. Estou apenas cansado. Mas é verdade que estamos cumprindo uma missão, e que assim ela seja feita.
Um sentimento ruim havia me assolado e eu me entreguei em seus braços. Havia conhecido o amor na sua forma mais pura em Hul'u, e com ele também aprendi suas outras dimensões, seja carnalmente ou através de nosso filho, Olorum. Não queria perdê-los.
--Prometa-me algo--ele disse abruptamente, fazendo-me encará-lo nos olhos--Não importa o que aconteça, cuide de nosso menino. Eduque-o para ser o homem que está destinado a ser.
Encarei-o e senti-me tão frágil que sacudi a cabeça. Ele não estava confirmando meus temores, certamente não estaria.
--Não seja tolo--retruquei, e quando o fiz, coloquei minhas mãos ao redor de suas faces--Não compre a guerra deles. Não foi você mesmo quem me explicou sobre os conflitos armados? O valor dos heróis?
Ele via as lágrimas que surgiram em meus olhos e beijou-me a testa antes de dizer:
--Estou orgulhoso da mulher que veio a se tornar. O amor é capaz de resgatar a luz que, por vezes, pensamos ter perdido. É preciso experimentar a escuridão, ser tomado por ela para que se sobressaia outra vez. Lembre-se disso--ele beijou meus lábios--Eu a amo. Como sempre amei, como hei de amá-la. Peço perdão por ter-nos trazido até aqui e...
--Shh--eu disse, e o beijei para que o impedisse de falar--Não diga mais nada. Eu sou sua e você é meu, e nada, nem ninguém mudará isso. Não é culpa sua se a honra, outrora valiosa mas agora esquecida pelos homens, o leva a tomar um caminho que não te pertence. Entrego-o aos deuses com pesar, mas peço que volte para casa. Se não por mim, por seu filho.
Não houve troca de palavras naquela noite porque o adeus já havia sido pronunciado. Amamo-nos em carne e em espírito e isso importava. Mas eu nunca mais o haveria de vê-lo outra vez.

A notícia chegou em um mês, antes do verão tornar-se outono, quando os ventos do mar começavam a esfriar e as folhas das árvores, a cair. O chefe daquela tribo retornou destroçado e acompanhado de poucos homens. A que custo a vitória foi conquistada? A ausência de Hul'u dizia tudo. Chorei, pranteei sua dor, e a sensação de coração quebrado foi sentida com tamanha comoção que as mulheres tentaram me ajudar, apaziguando o  que, na verdade, eu já sabia.
Então, me lembrei de Olorum. Ele estava crescendo, precisava da mãe. Portanto, depois de sofrer o luto, contei a ele. Já não era mais um bebê, mas uma criança que, um dia, se tornaria homem. Aprendi a educá-lo sozinha e, ao contrário do que esperavam de mim, me recusei a ficar naquela tribo. As memórias doíam e eu queria continuar o caminho que eu e Hul'u pretendíamos seguir.
Mas as noites ficavam frias e uma mulher, por mais guerreira que fosse, e seu filho poderiam ser alvos fáceis para aqueles de má índole, livres por aí. No entanto, os deuses foram bons e chegamos salvos a outra tribo. Que, curiosamente, estava sendo liderada por uma mulher como em outros tempos mais antigos.
A anciã me recebeu bem, e ali eu e Olorum ficamos. Recebemos permissão de ficar por um determinado tempo. Uma vez que aprendi os costumes daquele povo, passei-os a frente a Olorum. Procurei ser uma mãe presente, uma ânsia que vinha de não ter cumprido meu dever como mãe em outra vida, contudo, essa missão também logo seria cumprida.
Ele tinha sete anos quando sua saúde fragilizou-se e sua alma deixou seu corpo para retornar a imensidão onde os bons espíritos o aguardavam. Mas sua perda foi ainda mais pesada que a de Hul'u. Eu estava sozinha, sem amigos, sem conhecidos, sem família. O amor da minha vida partira, e nosso filho o seguira em seguida. Aquela tribo, por mais amigável que fosse, me era desconhecida. Eu poderia ter enlouquecido, é verdade. E talvez o tenha. No entanto, não me permiti ficar.
O outono se foi e eu me preparava para o inverno. O inverno da alma. Nos lugares quentes, é sabido que o frio vem com a mesma intensidade. E como lutar contra isso? Decidi, afinal, voltar ao meu lugar de origem, cada vez mais abatida. Só os deuses sabem como escapei de várias tentativas de violação, sequestro e outros tipos de violência.
De vez em quando, buscava refúgio numa cachoeira e no rio, mas a dor era demais para que eu ficasse ali. Me conformei. Deixei-me ser abalada. A verdade é que nem todas as guerras podemos vencer, por mais que colecionamos uma quantidade de batalhas vencidas. Derrotei inimigos, subjuguei meu próprio orgulho, mas era ali, sozinha, a caminho da minha tribo, que eu conheci a solidão. O amargor da perda. O aprendizado que a vida me propunha a duras penas. Enfim, poderia dizer que conheci a humildade.
E isso me bastou. 

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