sexta-feira, 29 de julho de 2022

Contos da Irlanda, vol.3: Guirlanda de Flores pelo Espírito Leprechaun

"Aos nossos amigos da Terra, saudações! Atendo pelo nome de Leprechaun e, como a tantos antes e depois de mim, venho aqui para cumprir com a missão designada pelo Alto com o propósito de servir nosso Pai Celestial. Entretanto, hoje venho trazer uma lição muito proveitosa em minha encarnação mais marcante nesta orbe. Na verdade, conto aqui a encarnação de uma amiga querida que, neste momento, se encontra encarnada. Nossos laços fluídicos seguem afins e é por isso que venho aqui. 
Nas terras verdes da Irlanda, longe do tempo marcado pelos cristãos, onde diferentes tipos de palmeira eram plantadas e pomares davam os mais belos frutos, diversas tribos druidas faziam daquele lugar abençoado seu lar. Ali, desde crianças, éramos educados para o conceito de transmigração da alma, das condutas em vida que nos influenciavam no pós-morte. E, claro, os sacerdotes nos instruíam sobre as crenças antigas de nossos antepassados, dos vícios e das virtudes que existiam em nossa alma. 
Foi no ciclo deste estudo que a conheci. Seu nome era Morgana. Filha de Astair e sobrinha da sacerdotisa Viviane, desde cedo ela mostrou conhecimentos muito vastos, profundos e amplos para sua idade. De longos cabelos ruivos, tinha sido abençoada pela deusa do fogo.
"Viverás para a guerra", disseram-lhe. "Mas viestes cumprir a paz."
Viviane acreditava ser seu dever educar Morgana para os ensinamentos místicos, a fim de que com mais consciência servisse à deusa. Todavia, desde cedo era questionadora. Lembro-me que uma vez ela causou espanto ao indagar:
"Mas se os deuses estão em nós, sempre conosco, por que razão precisam da matéria para se comunicar? Por que ritos se é chamá-los com o coração que somos aconselhados a fazer?"
Ninguém tinha a resposta para sua pergunta. Eram os mais velhos constrangidos por sua sabedoria precoce. Foi assim que nos aproximamos. Não éramos tão diferentes, embora ela fosse mais temperamental do que eu.
"Como se chama?"
"Aurélio Merlalf. Mas me chame de Merlalf." 
"Você é estranho", comentou.
"Meu pai é romano", disse eu. "Por isso o primeiro nome. Mas não o conheci, embora mamãe tenha dito que ele morreu em batalha."
"Lamento muito. O meu, segundo dizem, é um rei menor de Albion, mas nunca me reivindicou. Minha tia Viviane diz que não preciso dele, pois aquele foi o propósito da deusa. Ela acha que serei sacerdotisa e isso é melhor do que casar e ter uma vida comum."
De alguma forma, nenhum de nós dois acreditou nessa fala. Havia algo profético em Viviane, que, à época, era a sacerdotisa da Deusa Aine, que era, em resumo, a deidade atribuída aos poderes da lua e do amor, em suma do feminino, do sentimento, da emoção, uma vez que a lua rege tais caracteres humanos. O sol sempre foi atributo masculino pela energia da ação, da guerra, da iniciativa, da razão. Entretanto, o que os druidas buscavam no ensinar era que a alma precisava reunir as duas qualidades inerentes à alma: o equilíbrio do feminino e do masculino. Deste modo, precisávamos resgatar estes atributos se quiséssemos atingir à perfeição espiritual. 
Quanto a mim, desde criança fui abençoado com a vidência. Por essa razão, falei com a sinceridade de uma criança:
"Seu destino é maior do que ser sacerdotisa. Servir à deusa irá, mas fora dos meios comuns que sua tia espera de você. Aine tem outros planos."
Morgana tinha olhos castanhos que, à luz do sol, pareciam verdes. E neles vi o temperamento de ferro que ela trouxe de sua existência anterior, passada na Alexandria. E mesmo antes, quando derrubou os tiranos de Tébas, na antiga Grécia, pela espada. O sol ameaçava dominar a lua.
"E como você sabe?"
Dei de ombros.
"Apenas sei."
E foi quando ela sorriu.
"Gostei de você, Merlalf."
Nossos caminhos passaram a se separar vagamente após uma certa idade. Viviane ignorou os protestos da irmã e iniciou Morgana nas artes místicas. Para o leitor contemporâneo, isso vai além de meros rituais. À época, era como acreditávamos na comunicação com o 'além'. Guardados os exageros pitorescos do contexto, nas danças à fogueira estimuladas pelos tambores, vinham espíritos ancestrais para serem recebidos. Suas instruções eram mais morais do que outras coisas. De meu conhecimento, estou à par da grande romantização, quase nostálgica de alguns de vocês sobre a noção "bruxa", "deusa" e "rituais". Na verdade, a realidade era muito mais prática. Os conselhos eram voltados para a moralização do espírito decaído, perdido na vaidade, e o sacerdote ou a sacerdote cujas vocações os levavam àquela função de intermediário entre o "sobrenatural" e o "natural", eram espíritos experientes que deveriam expiar seus erros cometidos no passado. Um exemplo. Viviane antes de sacerdotisa fez mau uso do conhecimento espiritual para prender o marido, um rei, e por meio dele corrompeu um povo inteiro. Agora, deveria orientar seus escolhidos e, conseguintemente, o povo druida a fim de que a moral daquele grupo não se prendesse no orgulho e na vaidade.
Não havia nada essencialmente exagerado ou grandioso: cada um ali se ligava à boa espiritualidade segundo seu entendimento moral. E era o que via nela. Mas seu caminho seria difícil... Morgana ainda cedia à vaidade na primeira oportunidade.
Em sua juventude, Viviane foi clara quanto à castidade: seu corpo era o templo da deusa e, como tal, deveria ser resguardado. No ritual à Aine de Knocknaine, realizado na lua mais cheia, era prática oferecer as donzelas da deusa aos representantes do deus sol de maneira a reproduzir a lenda do cortejo de um ao outro, que nada mais é que o eclipse.
Mas Morgana era elogiada por seus conterrâneos pela beleza que floria. De cabelos cheios e sebosos, olhos intensos e esguia como uma lebre. Era dona de personalidade forte e não aceitava um "não". Era persistente e amável, sempre cheia de alegria. Adorava fazer tantos que a cercassem rir. Não havia quem não a gostasse dela, da aspirante à deusa na Terra. Entretanto, pelos mesmos motivos que a enalteciam, atraía rivais relativamente poderosos. Um deles foi seu próprio pai, que, nos anos de sua juventude, tentou invadir a tribo de Dublin de qualquer maneira. Ele quis capturá-la, recusando-se a crer que sua filha era qualquer coisa menos divina.
Essa rivalidade não era recente. A deusa explicou a Viviane que aquele pai em outra vida foi um marido muito ciumento do poder da esposa, e que terminou morto de ciúmes. Na anterior a essa, foi um irmão invejoso de sua glória militar e, ainda nos tempos de Platão, foi seu obsessor. Era um histórico que se alteraria somente quinhentos anos mais tarde, quando viria, melhorado, na condição de filho. Mas esses fatos escapam ao escopo de nossa história.
E mesmo em meio à guerra que não raro envolvia nosso povo, Morgana se mostrava líder. Tomou em armas, não obstante o conselho de Viviane. Mas ela era orgulhosa, sabia liderar e gostava de ser o centro das atenções. Queria o amor que ela achava não receber da família.
Eu estive lá quando ela pegou no arco-e-flecha. Em trajes típicos de uma druida guerreira, parecia Bodbh encarnada.
"Avante, guerreiros! Levantem suas armas e recordem os nossos inimigos que somos insubmissos à vontade alheia. Ninguém tem o poder de nos dizer o que fazer. O único merecedor de nossas contas a prestas é o Sol e a Lua em Um! Preparem-se! Não temam a morte, pois ela é, antes, nossa casa! E se falharmos hoje, tanto melhor! A casa nos regressará, os deuses nos receberão de braços abertos! Morreremos livres!"
Foi uma batalha muito bonita de se ver.. Não porque seja a favor do derramamento de sangue, muito pelo contrário, mas ela se libertou de suas próprias amarras por instantes. Aquele gesto poderia ter sido de outra guerreira mais conhecida, Boudica. Mas são espíritos diferentes.
Naquela luta, a ferocidade de nosso povo gerou um resultado que nos animou: o rei menor e pai de Morgana morreu. Contudo, mal imaginamos que aquele seria o primeiro de vários conflitos a sangrar a Irlanda.
Embora os romanos já desertassem a terra Britânia, regressando à Roma para impedir o desmantelamento de seu império, muitos tantos persistiram em ficar. Disso resultou uma guerra civil entre os generais romanos que se achavam reis, embora sujeitos à autoridade de Vortigern. Nisto, tribos da Jutlândia passaram a invadir novamente. E foi nessas invasões que um sujeito chamado Duncan tomou conta de Dublin em um longo processo de conquista que duraria décadas.
"Aposente a espada", dizia Viviane enquanto isso. "Não veio a nós como guerreira. Escute o que digo. Não se associe à guerra, fará somente mal a você."
No entanto, Duncan era um velho amor de Morgana. Ironicamente, durante o período homérico em que ela exerceu a função de sacerdote de Afrodite, os dois se apaixonaram, mas pelas forças das circunstâncias não puderam ficar juntos. Agora, ele voltava para cumprir o que uma série de encarnações impediu. Melhor dizendo, atrasou.
"Os anciões me alertaram o contrário. Minha função é mais do que me tornar sacerdotisa, minha tia. Lamento desapontá-la, mas minha grandeza não se restringe aqui."
Duncan, em verdade, já estava disposto a tomá-la como esposa não somente porque a deusa lhe mostrou em sonho quem deveria ser sua rainha, mas porque, disfarçadamente, procurou se infiltrar naquele domínio a fim de conhecer melhor o território. Esse aqui era um excelente guerreiro, mas cessaria sua belicosidade apenas no século XVI. O resto, não posso informar, leitores.
E foi quando a viu dançar alegremente com seus amigos ao redor da fogueira que ele se apaixonou.
"É ela, é ela!" 
O curioso é que talvez fosse pela guirlanda de flores que havia em sua cabeça, embelezando-a mais, que ressuscitou o velho amor de Duncan por Morgana. E isso impediu um massacre violento e sangrento daquele povo.
No dia que ele apareceu para ela foi durante este ritual à deusa da lua que já mencionei. Era também entendido como ritual de passagem, no qual os jovens de quatorze e quinze anos eram vistos como adultos em sua maioria--se a menina não tinha sangrado, ela não recebeu o chamado, logo não seria convocada.
Na dança ao redor da fogueira, Viviane avistou Duncan e tentou alertar Morgana. Mas, ansiosa em ser amada, ela não a ouviu. A escolha estava feita. E os deuses tinham participado disso.
***
Era curioso como esses eventos transcorreram quase sem violência. Duncan me pediu que a coroasse. Em virtude dos nossos laços fluídicos, como falei, fiz sem pensar duas vezes. No entanto, não contei que, no dia, uma visão me abalou. Duncan estava fadado ao fracasso. A conquista que ele pretendia exercer sobre a Irlanda e, por conseguinte, por toda a Albion traria graves consequências. 
Diante disto, fui pedir conselho à própria Viviane.
"Merlalf, a que devo a honra? Vi que seu prestígio aumenta agora que foi requisitado para coroar nossos, uh, reis."
Ignorei o desdém que saía de suas palavras. Perder Morgana para a coroa custou muito dela.
"Nunca achei privilégio ver o futuro. Traz mais males do que bem. Imagino que seja por ter sido um péssimo sacerdote de Apollo no passado." Nos dias da invasão de Xerxes às ilhas helênicas, fui comprado pelas forças dele a fim de convencer a população de Delfos de que o melhor seria render ante o inimigo, ou Apollo enviaria pestilências. Não preciso dizer que foi um erro gravíssimo, cujas consequências se encerrariam na minha última existência na Terra, em 1715.
"Ainda se tortura pelo que não pode ser desfeito, caro rapaz?"
Corei.
"Minha consciência não está em paz com isso. Preferia o véu do esquecimento."
"Todos nós erramos na vida. E sem o erro, que somos?" Ela deu de ombros. "Queria lamentar por ter acolhido Morgana, mas vejo que foi o mais sensato a fazer. A vaidade dela é seu pior defeito. Insegura por conta da família." Riu sem humor. "Disse a minha irmã que controlá-la seria pior. E veja só onde está. Rainha. Sabe, pensei que fôssemos um povo livre."
"Ela está deslumbrada com o poder em mãos, mas é o amor que a move. São espíritos afins. Ficaram separados por três ou quatro encarnações. Achei que Deusa tinha lhe mostrado isso."
Viviane teve a decência de ruborizar.
"Não, não mostrou. Mas se é como diz, alertei pra nada."
Caminhei pela caverna que tinha tomado como sua, embora nada de humilde existisse ali. Joias adornavam as paredes. Com riqueza tamanha, me admirei que ela não vivesse no castelo. Foi quando percebi que era orgulhosa demais para aceitar residir junto ao casal real.
"Precisamos insistir. Morgana corre perigo. Haverão mais invasões em Albion que refletirá aqui. Os gnomos me contaram."
A magia, na verdade, era a manipulação do fluido cósmico universal que atua segundo a movimentação da energia, sobretudo em conjunto com aquela de seu possuidor. Assim como os médiuns em sua contemporaneidade que, por meio do mesmo fluido, faz passes e atua como intermediário de espíritos curadores para o processo de cura. Há uma grande mistificação sobre um processo que é simples e, como a mediunidade, neutra. Seu uso não faz de ninguém melhor ou pior, embora o caráter de uma vasta maioria de seus conhecedores no passado tenha sido predominada pela vaidade e pelo orgulho, infelizmente.
Viviane me encarou com seus olhos escuros e intensos.
"Ela me é como uma filha. Mas está longe de ser controlável."
"Ela foi sua filha, mas você nunca a entendeu realmente", disse eu. "Traz traços que a família não soube lapidar. E, no entanto, temo que esteja muito subjugada aos membros dela."
Ela suspirou. Levantou-se de onde estava sentada e veio a mim vestida ornamentada como a sacerdotisa que era.
"Que posso com isso? A mãe sempre a criticou. E os irmãos sempre encorajaram esse lado belicoso que floreia seu orgulho."
"Não a critique quando sabe que teve também parte nisso", falei com alguma impaciência. "Onde esteve você quando ela foi vendida aos sacerdotes naqueles tempos? Quando a família virou as costas quando precisou? Nos tempos de orfandade, da pobreza, e agora de relativo luxo? Será que você também não queria a coroa para si, o seu amado de ontem de volta aos seus braços?"
"Basta! Não tolerarei que me ofenda em meu território!"
"Não a ofendo. São as feridas de seus machucados que fazem isso. Antes estou lembrando que nenhum motivo há para deixar Morgana entregue a si mesma."
Isto bastou para convencê-la. Não muito longe da caverna de cristais, Morgana enfrentava seus problemas familiares. Uma vez enriquecida, seus parentes exigiam uma parte de sua fortuna. Havia briga, naturalmente. E ela era, desde já, portadora de uma nascente sensibilidade.
"Acho engraçado", dizia ela, rancorosa, "que quando me comparava à Jylva, a senhora era a primeira a listar meus defeitos. Não me lembro de ter que lhe dar satisfação de alguma coisa."
Dirigia-se à mãe, com quem sempre travava embate direto.
"Eu lhe dei a vida. Bastava para agradecer a tudo o que eu lhe dei! Se está aí, foi por minha causa! Onde está sua gratidão? Não lhe dei teto, comida e conforto?"
Palavras eram como flechas: uma vez jogadas ao vento, não tinham como voltar. As lágrimas se erguiam aos olhos dela. Abandonada e desprezada pelo pai, conhecia similar sentimento na mãe. 
"Poderia ter impedido que eu nascesse", ela disse. "Quem sabe a senhora não evitaria amarguras?"
"Como pode dizer uma coisas dessas? Ninguém a amou como eu amei! Eu que permiti que a deusa trabalhasse em você..."
Como cachorro machucado, Morgana se tornou agressiva:
"Você não deve nada a mim. Nem a Deusa! Como pôde? Como pôde? Eu só queria que me amasse e você me procura pelo ouro! Vá para Hades! É lá onde deve ficar! Não posso perdoá-la por seu coração mesquinho!'"
Aquilo foi somente o que aconteceu no início de uma semana terrível. Morgana teve um acesso de fúria quando flagrou a prima, filha de uma outra tia, tentando seduzir o esposo. Ciumenta, possessiva, rancorosa. Trazia traços que tinham origem há muitos séculos e que, entretanto, procurava expiar naquela encarnação. A prima era uma rival que a invejava, e sempre invejou. A rivalidade só deixaria de ter efeito quando Morgana a perdoasse pelas incontáveis vezes em que sofresse sua perseguição. Isso se verificaria na encarnação posterior.
Morgana a tomou pelos cabelos longos e dourados. Cortou-os com uma faca e não fez pior porque Viviane e eu chegamos na hora. A deusa intervinha. A verdade é que os sentimentos dela foram inspirados por antigo obsidiador. Viviane reparou nisso e manipulou o fluido cósmico universal para afastá-lo. A corte só não se escandalizava porque, moralmente falando, estavam todos os presentes sintonizados na mesma faixa vibracional.
A consciência de Morgana não demorou a despertar para o que fez. Ela cedia ao peso dos erros pretéritos e chorou tanto que era difícil não se comover. Seu marido, igualmente ciumento, me impediu de consolá-la. Ele a assegurou de seu amor, convencendo-a de que jamais compraria os truques da mulher em questão. Mas ela dizia que era imerecedora de ser um instrumento da deusa depois disso.
"Você está em desequilíbrio", eu me intrometi. "Não caia nas trevas dos ciúmes e da inveja, Morgana. Não conspire. Alimente seu lado masculino sem negligenciar seu feminino. Trate de suas emoções. Não as reprima."
Rei Duncan me lançou um olhar inquisitivo.
"O que quer dizer com isso?"
"Morgana não foi planejada. A mãe foi amante do rei menor do norte de Albion e se sentiu culpada por desejar crescer em seu ventre uma criança que o próprio rei declarou não querer. Era uma condição para se verem. Só que a mãe também foi alertada do crime que seria acusada se impedisse Morgana de vir. Ela tem uma missão a cumprir, a de preservar a paz da tribo ao lado de Viviane." Fiz uma pausa, reparando que Morgana me observava com atenção. "Morgana foi filha de Viviane em outra existência, contudo, quando esta optou pela vaidade em sua vida, negligenciou o caminho da filha que deveria orientar. E agora de certa forma o faz por amor e comprometimento espiritual. Minha amiga e irmã, a experiência militar não deve ser revivida. Por que lutar ferozmente com seus iguais? Já não os derrotou em Tebas? Agora siga em frente. Abrace a paz. Sem ela, o orgulho florescerá e será sua queda."
"A família dela não a merece", Duncan a defendeu. "Nenhum deles a ama como eu."
"Creio que o senhor ama o poder e a beleza que a Deusa deu a ela, não aquilo que ela tem em seu interior. Discipula do grego, ela guarda um tesouro de sabedoria. Mas me pergunto se o senhor se beneficia dele", disse a sacerdotisa com sua língua afiada.
Antes que ele a retrucasse, Morgana, exausta de toda aquela confusão que lhe gerou um profundo trauma em seu psiquismo, disse:
"Tia, por favor. Está na hora de aceitar que não a sucederei desta vez. A deusa tem outros planos para mim e Duncan sempre me foi leal, mesmo com nossas diferenças. Ele é a família que eu preciso. Amo você e sempre amarei, mas que mais posso fazer? Já não sacrifiquei o suficiente por todos nós?" 
Lamento ter de reconhecer que olvidei um momento significativo que afetará o desenrolar da história. Por pressão da mesma mãe, Morgana arranjou casamentos nobres para todos os parentes, procurou arrendar terras para suas cinco tias, favoreceu algumas primas, uma das quais a traiu e quase foi punida com a morte. Quantas vezes não intercedeu por uma tia orgulhosa, não procurou apaziguar as vontades de outra maliciosa? Quantas não foram as vezes em que ela esqueceu de si mesma no processo?
Em verdade, Morgana sacrificou seu lado masculino e agora pagava o preço por isso. Em desequilibrio, isso significava agressividade, rancor, mágoa, depressão. E, na ironia do ciclo da vida, era Duncan quem amenizava tais efeitos, muito embora ele completasse-a com a belicosidade que diminuiu. Embora "incontrolável", era somente uma ilusão de temperamento. Na verdade, aquele espírito era, apesar das boas tendências, muito preso às influências de terceiros. E romper este processo tão enraizado custaria muitas encarnações. Ainda no presente, ele se desenrola, mas com a graça de Deus, em um grau menor do que antes.
Viviane aquiesceu. Compreendia mais do que muitos ali.
"Eu só quero seu bem."
"Sei disto." 
Mais tarde, quando Morgana se virou para voltar com seu marido para realizar os deveres que eram esperados, senti-me comovido repentinamente.
"Que diz a deusa?", ela indagou ao me ver empalidecer. 
Uma vez mais desejei não ter a visão do futuro.
"A história se repete e há de se repetir. Duncan morrerá como morreu em Jônia." Engoli em seco. "Não posso falar, nada há o que fazer."
"E o que será dela?" Quis saber ela, ansiosa.
"Sofrerá com a traição de seu irmão, tio dela. É tudo o que sei."
Em tempos onde a magia era embelezada com contos e tradições, não entendia o propósito da visão dos eventos futuros. Ainda era marcado pela velha sensação de punição. Hoje tenho outra perspectiva. A vidência não nos é dada para nos vitimarmos, ou buscarmos modificar tais eventos. Ela vem antes como preparo e conforto. Se é com outros, devemos cuidadosamente analisá-los logicamente para prestarmos socorro: sem caridade, nada somos. Se é conosco, devemos exercer a paciência e resignação. Mas eu me cria sabedor de tudo, não era menos vaidoso que Morgana ou Viviane.
Quando a guerra de fato aconteceu, me afastei. Não era guerreiro e meu destino me levaria a Albion. Antes disso, foi com tristeza que vi Dublin sangrar. A recusa em receber missionários cristãos acabou dando brecha para que o tio de Morgana, recém convertido, fosse influenciado por um padre para tomar o reino daqueles "pagãos". Viviane se sentiu mortalmente ofendida, é claro. Até os fins de seus dias ela lutou contra o próprio irmão. E eventualmente teria sucesso sobre sua morte. Mas a que isso lhe custou?
Enquanto isso, aprisionada, Morgana falhou como missionária da paz. Contudo, ao contrário da tia, não demorou a se converter. Como perdeu o marido para a espada, passou a desenvolver um horror profundo com batalhas de qualquer gênero.
Distante, vi-a com tristeza tomar o véu. Seu nome era outro. Mas, depois disso, percebi que ela não falhou na missão.
"A deusa escreve certo em linhas tortas", pensei comigo. "Se Morgana recusasse a conversão, a outrora rainha de Dublin prolongaria a guerra civil. Fez as pazes com seu tio, abençoando seu reino, e procurou viver silenciosamente no convento de Santa Bridget. Que curioso, que curioso. A paz reina, afinal."
Movendo-me ao norte, observei outras guerras mancharem as terras irlandesas, embora jamais com sucesso apagassem a herança céltica. No entanto, o véu já desaparecia quando aportei em Northumbria. Aquele reino de origem dinamarquesa voltava-se às práticas cada vez mais cristãs, muito embora se confundisse com as crenças folclóricas e populares.
Mesmo assim, foi ali e não em Jorvic, que eu me estabeleci. Cercava-me de crianças e alcei-me à reputação de médico local.
Um dia, seu rei veio a mim.
"Merlalf. Meus súditos falam de você como grande curandeiro. Suponho que tenha suas histórias a contar." Ele se sentou diante de mim. Pouparei os detalhes ao leitor, mas vale dizer que tinham olhos brandos, marcados pela sabedoria.
"Se o senhor não me condenar à fogueira, posso contar muitas coisas."
O rei me encarou assustado.
"Ora, por que faria isso?"
"Porque é cristão. Não é isso que fazem? Queimam, pilham, torturam os que pensam diferente?"
"Meu caro, Merlalf. Os pagãos fazem o mesmo. No entanto, asseguro que o problema não reside na crença que expressam, mas naquilo que está em seus corações." Sua resposta me surpreendeu, marcando-me a alma. "Não olhemos para títulos e ritos, mas para os exemplos que deixam. Jesus jamais enviou quem pensasse diferente dele à fogueira. Se eu quero segui-lo, por que faria isso? Foi-me dado uma pesada incumbência que, não raro, me pesa os ombros. Não desejo isso a ninguém. Mas tenho que perseverar na cruz que carrego."
Tomei o cachimbo nos lábios e traguei, reflexivo.
"Em que posso ajudá-lo?"
"A curar Albion. Não acho que conseguirei fazê-lo, mas podemos juntos plantar as sementes. Sei que sou visto pela minha fraqueza de ser pacífico, mas se escolhermos a violência sempre, mergulharemos em trevas."
Podia ouvir a deusa falando: busque a diplomacia, seja o missionário da paz. Morgana cumpriu com aquele dever, mas poderia eu também fazê-lo?
"Fraco é aquele que se esconde de si mesmo. E você, meu caro Ambrósio, não é um." 
Entreolhamo-nos.
"Que diz o futuro?"
"A união de Albion sob seu filho não será permanente. E não há a fazer com isso." Traguei outra vez. "Mas seu inimigo está em conluio com os destruidores. Acho que todos nós temos um papel a cumprir."
Ambrósio, o rei romano, me olhou com tristeza. Não era o que queria ouvir e eu menos ainda desejava ser o portador de más notícias.
"Devo desistir?"
Ser o curador de reis nunca foi minha pretensão. Mas a deusa era minha guia. Coroava-me uma guirlanda de flores como fez com Morgana. Mas as flores tinham espinhos.
"Não posso dar-lhe respostas, mas se há um papel dado a nós, por que atrasar isso? Recusá-lo me parece tolice."
E quando me dei conta, aquele filho de ontem que tinha tanta afeição me acolheu como seu curador. A vida é engraçada, não é mesmo? Traz-nos de volta nossas mais amadas criaturas por meios mais singulares.
Em resumo: nossa "falha" em manter Albion unida era, na verdade, a semente que ela precisava para virar o que hoje conhecemos como Inglaterra. E por essa ligação especial, reencarnei no final do século XVII para lutar no século XVIII em outra guerra. Irônico? Morgana teria rido. Não a encontrei porque ela reencarnou na França de Louis XV.
Mas, espiritualmente falando, estive ao seu lado quando foi injustamente condenada, outra vez mais pelos seus familiares, por traição na Inglaterra do século XVI. Desta vez, não foi pacificamente que perdeu a coroa.
No mais, sempre fomos irmãos e não "aceitamos" dentro do possível reencarnar de outra maneira. Mesmo fora do vínculo sanguíneo, estivemos próximos. No século XIV, ela progrediu o suficiente para me auxiliar enquanto guia espiritual durante minha caminhada na Polônia e na Rússia destes dias. No final das contas, sou muito grato por isso.
Deus, ou Deusa, como querem dar nome ao Grande Espírito, não nos deixa sozinho. Há irmãos de luz, benfeitores, amigos, mentores, anjos de guarda para nos amparar, nos guiar, nos encorajar. Nem sempre o meio em que estamos será o mais tranquilo, mas é o necessário para nossa encarnação. Aprendi nessa existência que somos os únicos responsáveis pela nossa evolução. Como também somos os mesmos a retardarem nosso progresso. A mágoa, a vingança, o ódio não afetarão aqueles que inspirou tais sentimentos, embora isso não signifique que não "sofram" por incitarem-nos, mas farão de vocês sofredores. E por quanto mais tempo hão de prolongar e alimentar a sua parte?
Se são responsáveis pelas feridas, também o são pela cura. Fazer o que podemos com aquilo que recebemos é o suficiente. Lembrem-se de que são fortes. E o amor há de modificar tudo e todos se não esquecerem de si mesmos. Fora da caridade não há salvação, mas ela também é nula se não é aplicada a vocês também. Não precisem provar aos outros, familiares ou não, quem vocês são de verdade. Os que são abençoados com amor não vão exigir nada em troca porque amor como Cristo ensinou não pede reembolso.
Espero ter ajudado de alguma forma. Sou grato pela oportunidade de proporcionar a reflexão que um dia me faltou. E por ser um instrumento Daquele que me enviou.
Que a Deusa siga os abençoando. E, menina, como é bom ver-te outra vez. Siga em frente hoje e sempre! De teu sempre amigo, Leprechaun."






domingo, 24 de julho de 2022

Contos da Irlanda, vol. 2: O Emitão pelo Espírito Dioniso Cabrera.

“Kildare, Irlanda. 490 D.C.

Estes eram tempos bastantes turbulentos como apoder-se-ia afirmar qualquer um que se dedicasse a estudar a Idade Média. Reflexo da materialidade primitiva do espírito terrícola, este era um período marcado por pestilências, guerras e ambições mascarados por uma falsa religiosidade. Todavia, nem tudo era escuro, e qualificar como “Idade das Trevas” aquela experiência de vida humana é fechar os olhos para a luz do renascimento espiritual que lutou bastante para semear os frutos da racionalidade que espíritos como Thomas de Aquino e outros filósofos menos conhecidos na Igreja (como fora dela) propagaram ao curso dos séculos. Nem tudo é para ser percebido pelo prisma extremista.

Minha experiência foi passageira e indigna de ser registrada nos avais da História, mas quantos de nós espíritos não fomos uma nota de rodapé, agrupados em uma única palavra, camponês, que buscava qualificar seres humanos que guardavam em si uma pluralidade de pensamentos, uma diversidade de sentimentos e ações que certamente diferenciavam uns dos outros? E isto somente no ocidente.

Pois bem. Permitam-me que me apresente. Meu nome não tem nada de irlandês, é verdade. Dionísio Cabrera é, em verdade, como sou conhecido no plano espiritual. Mas nesta encarnação, meu nome era mais complicado de escrever. Meu sobrenome, simplificando para a grafia moderna, era O’Donnel e o nome... Duncan. Duncan O’Donnel.

Encarnei no ano de 475 da era cristã. Filho segundo de meus pais Meera e Ivan O’Donnel, a doutrina cristã que fui educado conservava em si concepções que os mais ortodoxos olhariam como superstições tolas. A verdade era mais complexa do que as páginas empoeiradas pintadas pelos doutos da Igreja poderiam compreender. Sim, havia muita superstição. Nós, irlandeses, fomos criados em um ambiente completamente místico, no qual crenças simbólicas confundiam-se com a verdade, e o “sobrenatural” era confundido com o “natural”.

Acreditávamos em leprechauns, homens pequenos e cheios de traquinagens que, se não fossem alimentados com ouro e leite, nos roubariam e atrasariam nossas vidas. Deixávamos um pedaço de nosso pão às fadas, pois mesmo entre elas, temíamos as piores. O bem e o mal mesclava-se, e penso que esta noção das coisas veio dos gregos por meio dos romanos. De modo que entendia-se o bem como resposta ao agrado das deidades e o mal como reflexo do descuido do homem. Sempre em nós, nunca do divino, repousavam as faltas de nosso dia-a-dia, a sorte e o azar ponderados segundo o quão bem vivíamos...ou não. Se éramos pobres, não tínhamos cuidado de nossos ancestrais. Se éramos ricos, fomos abençoados. Naquele mundo, a natureza nos cercava. Se nos protegia de tempestades ao fornecer abrigos sem perigos e nos alimentava, ora... havia uma força por trás disso.

E quando ficávamos doentes, a magia curava. E que magia era esta? A realidade, meus bons amigos, é mais prática do que se pode pensar. O conhecimento de ervas, a observação prática e teórica, a manipulação do pensamento... Pois, como devem saber, pensamento é vida, é forma elementar de comunicação. Do pensamento, brota a intenção que pode vir a ser uma ação. Esta é a magia. É a vontade, o uso da razão posto em prática. Não há nada de místico nisso. E como somos espíritos milenares, o conhecimento continua conosco, não importa qual casca tomaremos forma.

Dito isso, os leprechauns eram, na verdade, seres elementais. Em transição de um reino para outro, são espíritos que não são tão racionais assim. São puros, mas obedecem ás ordens superiores. Não possuem muitos conhecimentos, não de ordem espiritual. O que com isso quero dizer? Eles são sábios em se tratando da fauna e da flora, mas não de questões humanas. E tudo bem, porque um dia chegarão a este estágio. Havia uma lenda muito primitiva na Irlanda, antes mesmo da chegada dos celtas, que afirmava que todo leprechaun era um espírito humano encapsulado. Metaforicamente ou não, a ideia é essa: de que um espírito em evolução sairá dali para ocupar o corpo humano. No mais, os leprechaus eram neutros, não faziam mal a ninguém, incapazes de ferirem a outrem como se temia. Contudo, nas mãos dos maquiavélicos, era outra coisa. E as fadas, por sua vez, não eram tão más como se supunha. Também, como os leprechaus, eram seres em desenvolvimento, cumprindo importante papel na proteção da natureza. Mas eram raramente vistas, ainda que o véu “místico” recaísse nas zonas de Albion.

Dito isto, o conhecimento amplo daquele povo sobre o plano espiritual e sua pluralidade era, na sua encarnação, recheada de superstições que refletiam suas limitações morais. E a própria Igreja cristã precisou se adaptar a isto. A santa Bridget, responsável por ser uma das fundadoras do condado de Kildare, à época do meu nascimento enfrentava dificuldades porque o povo temia bastante ataques de elfo e acreditava que Gaia os punia pelo breve período de seca. Como convencer aquelas pessoas que elfos não existiam (ao menos, não como pintavam; não eram seres malignos, mas muito mais evoluídos do que concebemos) e que a seca era um processo da natureza, nenhuma relação portando com a divindade? A verdade é que a noção espiritualista de punição divina veio com os povos exilados à Terra, que vieram habitá-la depois de terem cometido muitos crimes contra a lei divina em outros planetas. É por isso que aqueles espíritos de orbes sirianas, capelinas, dentre outros, ajudaram a criar na mente coletiva essa ideia de que somos punidos por algo Maior. Mas o umbral, que nada mais é do que estado da consciência do espírito culpado e que o une aos seus semelhantes segundo sua vibração, foi nomeado Hades, Hel, e, com o advento do cristianismo, inferno. Na verdade, são espíritos que se punem pelas péssimas escolhas feitas durante a existência corpórea, e por isso nosso planeta segue em provas e expiações.

Peço que me desculpem pela minha empolgação, que resultou em um pequeno desvio do assunto. Mas como posso recontar minha memória daquela encarnação sem apresentar a vocês o devido contexto do mundo em que vivi?

Como devem ter percebido, encarnei camponês. Carregava eu mesmo pretérito culposo. Fui ambicioso sacerdote na Roma de Augusto; antes disso, fui chefe tribal perto dos Hunos, que incentivava as guerras germânicas. Vivi na Grécia Antiga em diferentes épocas, buscando o esclarecimento que a filosofia proporcionava. Em algumas existências, obtive êxito; em outras, me desvencilhei do planejamento. A vida como camponês foi-me escolhida porque, desde os tempos de Augusto aos dias de Bridget, fui me educando e reeducando em longo processo espiritual. Pedi por isso antes de encarnar, pois precisava me conscientizar dos ensinamentos de Cristo. Eu tive toda a oportunidade de ter vivido até mesmo aos seus dias e o procurado, seguido para me evangelizar. Podem imaginar meu remorso. Fiquei perdido por uns dois séculos ao me dar conta disso, mas quando pedi por socorro, o Pai não me virou as costas. Dediquei-me, no Plano Espiritual, na colônia que não posso nomear, a estudar e esclarecer. A meditar sobre os erros, os desvios, as corrupções que submeti a mim mesmo por escolhas terríveis que, racionalmente, optei. E cheguei a conclusão que, até que o Pai decidisse que eu merecia uma existência melhor, precisaria viver em termos que exigissem de mim o melhor que poderia para expiar-me ante os crimes que realizei.

Assim, nasci em uma família de algozes, se é que este termo pode ser utilizado com justiça. Não fui nenhum santo. Mas minha mãe, Meera, pretendia me remover de seu útero porque, bem, ela se relacionou com outro homem enquanto estava casada com meu pai, que não era lá um homem honesto. Meera, mulher de quem herdei os cabelos ruivos e os olhos claros, era bela e astuta, sabia disso, mas abusou da beleza. Apesar disso, tinha fé, mesmo que a recheasse com superstições. No entanto, seu espírito milenar conservava sabedorias. Foi ela quem me ensinou a identificar as ervas, a diferenciá-las entre medicinais, comestíveis e venenosas. Para se ter uma ideia, cultivávamos uma planta com propriedades medicinais bastante parecidas com as do boldo. Usávamos com cautela, pois o chá, que nada mais é que ferver em água quente a folha que se deseja consumir, tem suas contra-indicações. O boldo, por exemplo, se tomado diariamente (literalmente: segunda, terça, quarta-feira... e assim por diante), pode resultar em inchaço do fígado. Mas se preparado em determinados dias, observando o clima e a necessidade, é excelente remédio para o estômago, intestino e fígado. Nada em excesso é recomendável se fazer uso, alertava minha mãe. Outra planta próxima à família do bambu apresentava propriedades medicinais, e elas viriam me ajudar bastante mais adulto.

Suponho que a natureza foi bastante útil a minha mãe, que ajudou tantos doentes de nosso povo. Teria recebido o epíteto de bruxa pela Igreja, não fosse a intervenção de Bridget, hoje reverenciada como santa. Bridget era uma mulher bastante sábia, pacífica, cuja candura inspirou tantos a não desprezarem os ensinamentos de Cristo em tempos muito marcados pelo apego aos ensinamentos supersticiosos. E não entendam que aqui critico os ditos populares, mas aqueles que, à luz da razão, refletem mais a limitação do pensamento humano do que outra coisa.

Meera foi, certamente mais do que meu pai, a responsável pelo meu caráter. Quando criança, eu era muito teimoso e raivoso. Tinha pesadelos: o que eu afirmava serem demônios ou elfos do mal eram espíritos que eu havia destratado em outra vida e que não aceitavam minha encarnação. Meera me levou a Bridget, poderosa médium à época, que, olhando meu rosto sujo, levantou meu queixo e, mirando-me com profundidade, disse com sua voz doce:

“Você deseja se livrar do pecado, rapaz?”

“Não entendo o que isso quer dizer”, falei, ousadamente. Ou no que pensei ter sido ousado, na ocasião.

“Perdoe as maneiras do meu filho, senhora”, desculpou-se minha mãe, interrompendo a conversa. “Tento educá-lo, mas ele me respeita mais que o pai por conta do chicote que lhe dou de palmada quando me desacata.”

Bridget sacudiu a cabeça e, ainda sorrindo, disse com muita calma:

“A conversa seria mais sensata do que o uso da violência, minha irmã. Foi assim que nosso mestre Jesus expulsou os demônios. Conversando com eles, os educou e os direcionou a uma vida mais simples e sem maldades.” Virando-se a mim, disse: “Crê ser como um deles?”

Arregalei os olhos e, tendo em mente as figuras que me aterrorizavam em sonho, falei:

“Não, por favor! Sou desobediente, nada mais.”

“Quer se melhorar, meu jovem?”

“Sim, por favor!” Disse eu, como se impelido por uma força invisível.

Ainda se construía enorme catedral que marcaria aquele terreno por longos anos, consagrada ao senhor Jesus, mas o local onde estávamos, uma capela simples e empoeirada, guardava suas sementes.

“Muito bem. Vou aceitá-lo para orientá-lo a uma vida monástica. Mas deve me prometer obediência ou sofrerá com estes seus perseguidores.”

Meera pranteou e disse:

“Meu marido e o irmão mais velho não o suportam. Queriam matá-lo, tem sido insuportável. Promete-me que ele estará seguro aqui?”

Em suas vestes brancas, jamais cinzas, aquela mulher de olhos azuis como o céu sorriu com bondade ao responder:

“Tranquilize-se, minha senhora. Jesus nos acolheu, e logo mais acolherá sua família também.”

A fim de esclarecer melhor o leitor, digo que meu pai e minha mãe eram espíritos que, em outra existência, padeceram do excessivo uso de riqueza que os direcionaram ao mal. Minha mãe buscou aprimorar-se logo, mas meu pobre pai ainda demoraria uns bons séculos até aceitar redenção. Bom, quanto a mim, eu os prejudiquei, assim como a meus irmãos. Por isso, além dos pesadelos, minha infância foi marcada por um pai que, embora não me batesse, me tratava com fria indiferença e claro favorecimento ao irmão mais velho. Além disso, havia irmãos mais novos, alguns dos quais não passariam da infância, que se uniam também em seu desamor a mim. Não os culpo agora, nem anteriormente, mas não posso negar que fui infeliz. Merecidamente, sem dúvida, mas adianto que nos resolveríamos naquela mesma existência. Pois minha mãe, depois de ter se convertido ao cristianismo quando criança, encantou-se com Maria na juventude e prometeu segui-la como seguira a Gaia. Acabaria confundindo as duas, mas que importa, se na prática significava mudança sincera de atitude? Abraçou-me e, mesmo quando me batia ou educava, via pouco a pouco amor dissolver seu antigo duro coração. Permaneceríamos próximos até o dia de sua morte.

Bem, retomando à narrativa, aquela que seria cultuada na posterioridade como Santa Bridget me acolheu em seu seio. Dedicou-se a me ensinar, até o dia em que completei dez anos, a leitura das Sagradas Escrituras, os atos dos apóstolos, a missão evangelista de Cristo na Terra. Certificou-se de que leria e escreveria bem, pois o servo da Igreja precisava destas aptidões para evangelizar o próximo. Ela pretendia me enviar a Dublin a fim de que encontrasse com um dos “filhos” (entenda-se aqui discípulos) de São Patrício. Mas antes disso, me educou como bondosa mãe, conversou comigo sobre o que era certo e errado e ficou bastante feliz quando comecei a me modificar. E, no entanto, foi preciso de bastante trabalho para que a reforma íntima rendesse frutos.

Ainda na infância, por conta do ambiente em que me inseri, acabei me tornando muito agressivo. Com isso, batia nos outros meninos, me envolvi em muitas brigas. Alguns dos padres não queriam me aceitar por conta do meu temperamento volátil. Mas aquela senhora de espírito ímpar e coração muito bondoso jamais desistiu de mim. Quando muitos acreditavam que as chibatadas fariam efeito, ela fez da conversa método eficaz. Um dia, estava emburrado porque me colocaram em um quarto escuro para “pensar” no que fiz. Ela entrou como uma rainha, postura admirável e nobre. Lembro de ter-lhe admirado a luz que a cercava. Abriu as janelas e, de bom humor, disse:

“O erro dos homens é achar que a cura para as trevas interiores está no mergulho às trevas exteriores.” Quando o quarto se iluminou com as luzes provenientes do sol que brilhava pátio afora, ela se virou para mim, em minhas vestes maltrapilhas, e se sentou. Sorriu-me e disse. “Você tem me dado muito trabalho, meu querido.”

Diante da afeição com a qual se dirigia a mim, senti-me instantaneamente envergonhado. Baixei o olhar para minhas mãos sujas. Percebi que a raiva e a cólera eram emoções com as quais havia me acostumado a lidar mais do que o amor, o carinho, o afeto. Minha consciência já brotava a reprimenda: é justo responder ao tratamento com o qual me dispensava daquela forma? Foi quando disse:

“Me desculpe, senhora. Não foi minha intenção.” Uma pequena pausa. Senti que não estava sendo sincero o suficiente. Lágrimas brotavam de meu rosto quando falei, entre soluços: “Eu tenho esse impulso, sabe-se Deus de onde, de querer me colocar acima de tudo e todos. Não gosto disso, só me faz mal. Acho que a culpa disso está nos meus pais. Digo, no meu pai, que nunca gostou de mim.”

Compadecida, aquela mulher me ofereceu misericórdia. Tomou seu banquinho, colocou ao meu lado e me envolveu em seu abraço. Senti emanar de si um cheiro de rosas brancas que me tranquilizou instantaneamente.

“Estamos melhorando. Já não é mais o menino orgulhoso e colérico que entrou aqui, Duncan. É verdade que esses traços que não te fazem bem vêm com você mesmo. Sabe que isso é uma herança de outra vida”. Mesmo cristã, Bridget conservava em si ensinamentos apreendidos de uma existência pretérita enquanto sacerdotisa druida. Era uma crença, todavia, que persistia entre os irlandeses à época. “Nosso Senhor pede que seja curado, mas isto cabe somente a você. Sem dúvida, seu pai errou quando não o acolheu com o amor que merecia e isso provavelmente o teria poupado de desenvolver uma personalidade mais violenta. Mas que importa isso agora? Quem é o responsável por suas ações: ele ou você?”

Depois de alguns segundos passados em silêncio, meditando comigo mesmo, respondi:

“Eu.”

Ela sorriu.

“Mas Deus teria vergonha de mim”, eu falei, rompendo-me em súbitas lágrimas, sentindo em mim inexplicável dor. “Não sou bom filho para Ele. Serei enviado ao inferno conforme os padres disseram.”

Bridget fez uma negativa com a cabeça e, ainda me acolhendo contra si, disse:

“Não, não creia nisso, meu filho. Deus é bondoso demais para condenar qualquer filho. Jesus não disse: quem nunca pecou que atire a primeira pedra? Quem de nós não carrega pecados, sejam desta ou outra vida? É por isso que um de seus grandes ensinamentos consistia em não julgar a falta do próximo. Somente nós condenamos a nós mesmos quando escolhemos o caminho do erro. Deus é nosso Pai, criança, e por que Ele haveria de desertar um filho desobediente? Ao contrário, Ele aguarda pacientemente por nosso retorno. Pois se fomos capazes de nos afastar Dele, somos igualmente capacitados em nos volver a Ele.”

“Ele me perdoaria?” Eu indaguei, incerto quanto a concepção de um Pai que não pune.

“Sim. Jesus, quando foi enviado por Ele para nos ensinar sobre o amor e o perdão, não morreu por nós? Não nos perdoou? Por que o Pai recusaria isso sobre nós? Contudo, pergunto a você: se perdoaria, Duncan?”

Quase que instantaneamente, respondi:

“Não.”

“Mesmo que o Pai lhe oferecesse perdão?”

Baixei o rosto e disse: “Sou indigno.”

Mas ela me levantou o rosto e com olhar amoroso, disse maternalmente:

“Ninguém é indigno de receber o perdão do Pai. A questão é querer, e tudo se inicia de dentro para fora. Para que possamos perdoar os erros dos outros, meu filho, precisamos nos perdoar por tudo aquilo que cometemos. Esqueça o que os padres lhes disseram. Lembre-se de Jesus. Se ele estivesse aqui, agora conosco, o que diria?”

“Pediria perdão por ter sido ruim”, eu murmurei. E desatei a chorar novamente.

“Deixe as trevas irem embora, ele diria isso”, afirmou Bridget, consolando-me ternamente. Sem que soubesse, enquanto acariciava o topo da minha cabeça, aplicava passes e afastava de mim meus obsessores. “Ele o perdoaria e o amaria do jeito que é. A modificação que ele deseja de nós é apenas uma, Duncan. O amor que ofertamos aos outros é o mesmo que oferecemos a nós também. Como amar e auxiliar o próximo sem fazer isso conosco? Ama a si mesmo para que possa amar aos outros. Todos os que lhe fizeram mal foram ignorantes do amor de Cristo como também você um dia o desconheceu verdadeiramente.”

“Posso merecer este amor, senhora?”

“Claro que sim! Ora, Duncan, todos somos merecedores deste amor. Mas precisamos melhorar bastante para recebê-lo, compreende? Precisamos trabalhar em nós as imperfeições, desenvolver o hábito da misericórdia, da compaixão, do amor. Quando somos misericordiosos com nossa inferioridade, quando temos compaixão com nossas dificuldades, quando amamos nossas trevas, a luz suplantará as sombras. E é então que podemos levar a palavra de Cristo ao próximo. Precisa senti-lo em você, senti-lo nesta reforma, para que aquele a quem receberá de você o ensinamento do evangelho saiba que fala com Verdade.”

“Vou me esforçar para ser digno, senhora”, prometi, subitamente inspirado. E falei a verdade, pois a compaixão e o amor com os quais me havia recebido, sem jamais tendo levantando uma palavra contra mim, sem nunca ter defendido uma punição violenta que eu merecia sofrer, me fizeram crer no exemplo cristão que ela me passava. “Vou lhe orgulhar, não mais irei desapontá-la.”

Ela riu e me depositou um beijo sobre minha fronte e disse, emocionada:

“Sinto em você a Verdade. Jesus tocou em sua alma, fui apenas seu instrumento. E que graça o Pai nos concedeu. Não sei se viverei o suficiente para acompanhá-lo na jornada, mas saiba que o amor não morre. Ele permanece, ele é imortal. E jamais o desampararei aonde quer que esteja, Duncan.”

Foi naquele instante que, pela primeira vez na vida, eu falei:

“Eu a amo, senhora. Que Deus a abençoe.”

E quando a vi prantear, também rompei eu novamente em lágrimas. Mas desta vez, foram de felicidade. Pois eu havia dado os primeiros passos de minha renovação.

*                                                               *                                                                   *

A minha adolescência foi mais tranquila. Suportava as implicâncias de meu companheiro com resignação, carregando comigo o exemplo daquela que não tardaria a ser santificada. Fiquei muito triste quando Bridget veio a desencarnar, mas ao mesmo tempo alegre porque senti que havia sido arrebatada pelo Senhor. Todas as noites, desde então, guardava um momento de orações para dedicar a ela, cuja existência me foi tão impactante que foi a principal causa para minha reforma íntima.

Dominar meu temperamento foi muito difícil porque quando se é jovem como eu fui, temos a infeliz tendência de nos crer sabedores de tudo. Não há novidades, e quando tentam nos inculcar outras perspectivas, normalmente nos achamos mal humorados e fechados para o diálogo. Não ajudava muito a arrogância juvenil que me isolava dos outros porque não aprovava a conduta de muitos daqueles aprendizes de sacerdote passarem sua vida em devassidão. Sim, julgava o comportamento alheio, criticava a pobre leitura feita sobre o Evangelho e achava-me correto porque, na minha visão, eu era o mais certo de todos em questão de moral. Acreditava que já havia me reformado, quando, em verdade, eu me estagnei.

Uma noite, enquanto era zombado pelos outros companheiros por viver para os estudos e achar-me acima deles por isso, um zelador da Igreja me pediu a palavra. À época, contava treze ou quatorze verões, e esse era um homem idoso, velho para os padrões daqueles dias, devendo contar uns cinquenta anos. Em vestes maltrapilhas, veio se dirigir a mim, reparando em minhas feições a arrogância de outras vidas que precisava ser despojada.

“Com licença”, ele disse com simplicidade. “Poderia ter a honra de falar com o senhor?”

Crendo-me sábio, senti o ego elevar-se quando o zelador, homem gentil, me tratou daquela forma. Aquiesci e, em um pequeno aposento, sentamo-nos à mesa. Ele acendeu a vela para melhor iluminar o ambiente e, encarando-me nos olhos, disse:

“Posso lhe falar com franqueza, senhor Duncan?”

Surpreendido com o conhecimento de meu nome, pois jamais havíamos trocado palavras até então, falei:

“Como o senhor sabe...?”

“Apenas sei.” Ele deu de ombros, como se aquilo não fosse relevante. “Acredito que há mistérios que não nos compete conhecer. Não é para tudo que fomos capacitados obter o conhecimento.”

Franzi o cenho, parcialmente surpreso pelo seu modo de falar, contrastando com suas roupas. Satisfeito com a impressão que me havia colocado, ele prosseguiu:

“Acredito que falte ao senhor uma figura paterna. Permita-me ocupar este espaço, menino. Você tem tanto potencial. Deixe-me orientá-lo.”

Com arrogância típica de quem crê saber mais que todos sobre tudo, retruquei:

“Não preciso de orientação, obrigado.”

Ele riu.

“Ao menos conserva suas boas maneiras. Mas se não precisasse, não estaríamos aqui. O senhor já teria partido.”

Com um suspiro, falei:

“O que quer de mim, zelador? Não sou padre ainda e nem posso auxiliá-lo com suas questões, sabe-se lá quais são. Hoje em dia, me dizem que não preciso de orientação.” E, soberbo, acrescentei. “Em breve, serei enviado à Dublin para minha primeira missão de catecismo.”

O zelador sacudiu a cabeça, mas disse com gentileza:

“O senhor, com todo o respeito, não está pronto para isso.”

Senti a velha cólera emergir-me e antes que a atirasse contra aquele pobre homem, uma voz feminina que me era conhecida disse, em alto som:

“Continuará a se comportar assim, Duncan? É esta a reforma íntima que prometeu ao Senhor? Sente-se e o escute.”

Envergonhado, pois reconheci de imediato que era Bridget quem me dirigia a justa reprimenda, percebi que meu rosto queimava. Mas, para além disso, em meu peito suas palavras pesavam sobre mim, recordando aquele momento. E percebi que pouco, muito pouco mudei e que traí a promessa feita a Bridget. Lembrando-me do remorso pelas atitudes infantis diante da sempre bondade com a qual me tratou e educou, sentei-me e baixei os olhos.

“Perdoe-me”, e como se finalmente percebesse porque era detestado por todos, admiti: “Continuo orgulhoso.”

O zelador pareceu se satisfazer com minha resposta e disse:

“Fico feliz que a voz da senhora o tenha chamado à razão. Sim, eu também a ouvi. Mas isso não vem ao caso. Infelizmente, nesta casa, raros são os que, investidos pelo poder religioso, cumprem seus votos junto a Cristo e não são corrompidos pelo secularismo. Sou um mero zelador, de fato. E à propósito, pode me chamar de Zacarias. Minha mãe era cristã e quis colocar meu nome em razão do esposo de Elisabet e pai de João, o Evangelista.”

Ofereci-o a mão, ele a aceitou e depois do cumprimento, Zacarias continuou:

“Em todo o caso, está cercado de muitos como você, menino. Movidos pela soberba, disfarçam-se de cristãos os julgadores da moral alheia; os crucificadores de Cristo agora levam a palavra Dele segundo seu entendimento. E não pode você, que se comprometeu a reformar-se, seguir este caminho. Não se prenda aos modismos. Escute sua fé.”

Engoli em seco e percebi que me sentia perdido.

“O que quer que eu faça?”

“Não é questão de querer, não sou dono de ninguém, nem pretendo ter esta pretensão de dizer a você o que deve fazer”, ele disse, sorrindo. “Apenas quero orientá-lo para os ensinamentos de Cristo. E não acredito que aqui seja o lugar mais adequado para isso. Precisa de trabalho, e não dos mais fáceis.”

Ele fez uma pausa, deixando que absorvesse suas palavras. Foi quando disse:

“Precisa regressar à casa e levar a palavra de Cristo ao seu pai.”

Meus olhos se arregalaram e foi quando a ferida que pensei ter sido cicatrizada bombeou.

“Não posso fazer isso!”, protestei.

“E por que não? Jesus escolheu a quem professar seus ensinamentos? Também ele não falou a Heródes, que se autointitulava “O Grande”? Jesus não se humilhou perante aqueles que os desprezavam?”

“Não sou digno de ser comparado a Jesus”, falei.

“E, no entanto, despreza seus ensinamentos. Será que é diferente dos que critica? Há um motivo pelo qual tantos semelhantes se reúnem em um mesmo local. Pense um pouco, meu filho.”

Depois de um tempo, contra minha vontade, disse:

“Pois bem. Vou me esforçar em cumprir essa missão.”

Observando meu desânimo, Zacarias depositou a mão sobre meu ombro e disse:

“Nessa cruz que carrega, não está só. Mas lembre-se de perseverar. A reforma começa dentro de nós mesmos e geralmente surte efeito quando nos propomos a trabalhar. Se seu pai persistir no erro, não lhe compete afundar-se com ele. A não ser que esta seja sua escolha.”

Ignorando as presenças espirituais de Bridget e de Patrício, respeitáveis espíritos que velavam pela Irlanda (e ainda seguem velando), eu me senti inspirado de coragem.

“Ao que parece, me encherei de Espírito Santo”, falei, timidamente.

Compreendendo o real significado de minhas palavras, Zacarias sorriu.

“Ótimo. É porque Deus abençoa a missão. Ide, meu filho, e quando regressar, tornaremos a partir novamente, se assim permite que o acompanhe.”

Tomado por estranha sensação de familiaridade que ele me inspirava, aquiesci com urgência e prometi que, quando voltasse, sairíamos juntos. Diante disto, concluímos aquele encontro, ou melhor dizendo, reencontro, com uma prece e partimos diferentes caminhos. Naquela noite, mal conseguia pregar no sono, pensando em tudo o que deixei de fazer desde que Bridget partira. Quando percebi, e desta vez sem intromissão do ego, que eu mesmo era o responsável pela minha infelicidade, meditei nas palavras daquela senhora que me guiava. Adormeci sem completá-las. Durante o sonho, ela veio me visitar e me ajudou a desprender-me do corpo para que pudéssemos conversar. Na ocasião, ela me recordou da minha missão, planejada na espiritualidade com meus mentores e guias espirituais. E não poderia esquecer-me da importância em modificar-me para não repetir os erros de vidas pretéritas, explicando-me como e porque errei aonde errei. Para minha surpresa, embora envergonhado, soube ouvir sem questionar, aceitando, resignando-me e me enchendo de coragem para a vida difícil que eu mesmo optara a fim de me corrigir diante de Deus.

Na manhã seguinte, inspirado, despertei antes do horário de costume, coloquei minhas vestes simples amarronzadas e parti para meu lugar de origem. Foi uma longa caminhada, mas finalmente sentia-me em paz comigo mesmo. Prometi ao Pai celestial que daria meu melhor, não desanimaria diante dos obstáculos que a vida preparava para mim. Quando cheguei à velha casa de palha, o velho homem, reconhecendo meus cabelos ruivos e expressão apática, veio em minha direção.

“Quem é você?” ele rosnou.

“Sou seu filho. Duncan O’Donnel”, respondi com tranquilidade, embora no fundo sentia-me nervoso.

Ivan O’Donnel estava careca e com rosto marcado por pestilência. Marcado pela gota, mal conseguia caminhar sem precisar de apoio. De seu corpo, vinha um cheiro desagradável. Além de sofrer no plano físico, na carne, também padecia espiritualmente. Deus permitiu que entrevisse com os olhos da alma a severa obsessão a qual estava submetido. Senti-me tremer pela insegurança, mas o bom anjo guardião que me acompanhava inspirava-me forças.

"Não tenho nenhum filho com este nome", retrucou. 

É difícil lidar com nossos adversários em nossa caminhada espiritual pela Terra. A provação pode ser muito severa, confundindo-se com o conceito de punição que trazemos de nosso exílio a esta orbe como falei. Senti-me magoado e ferido com aquelas palavras. Mas também percebi que tinha em minhas mãos a escolha: quem eu quero ser? Um espelho das faltas de meu genitor ou um seguidor de Cristo?

"Sim, o senhor tem", falei com gentileza. Percebi que sofria, mesmo que seu orgulho não admitisse isso. "Pode-se ter esquecido de mim, meu pai, mas o senhor jamais deixou meus pensamentos."

Ivan soltou um urro que, logo em seguida, percebi ser uma risada. Fria, sem qualquer resquício de humor. Em meu íntimo orei. Meu anjo da guarda sussurrou: "Não desista. Está amparado, prossiga".

"Que prepotente se tornou. Agora vejo que é o menino que sua mãe deu à luz e que, segundo ela, é de meu sangue." Ele cuspiu. Temi que viesse me agredir, mas a espiritualidade interferiu. "Você não é. Sei que é um bastardo."

"Por que me ofende? Vim visitá-lo. Sei que não é tão ruim quanto gosta de dizer." Ao me colocar no lugar dele, diante de tanto sofrimento, poderia culpá-lo por se portar assim? Embora uma parte minha respondesse positivamente, havia outra que negava. Optei por ignorar o conflito interno. "Há bondade no senhor, meu pai. Permita-me entrar em sua casa e oferecer um consolo para suas dores."

Novamente o homem me respondeu com ofensas, algumas das quais pouparei o leitor de conhecê-las. Como humano na carne, sobretudo naquele período, não posso negar as minhas emoções. Sim, sofri ouvindo-as e senti vontade de prantear. Mas confiava antes na missão designada pelo Pai.

"Estas palavras refletem o quanto se distancia de Cristo." E percebi que falei mais comigo mesmo ao fazer aquela constatação. "Quer tanto crucificar-me pela dor que padece, meu pai?"

"Já falei que não sou seu pai!" ele gritou.

"Sim, você é", eu disse com repentina tranquilidade, o que o irritou. "Cresci nesta casa. Comi do seu pão, trabalhei junto ao senhor na lavoura. Não me esqueci destes raios de luz que habitam em seu coração. Se achasse mesmo que sou um bastardo como quer me fazer crer, se o senhor desse vazão aos seus hábitos violentos, não teria me acolhido a sua maneira. Jesus o ama. E é por meio dele que o amo também. Eu o perdoo pelas suas imperfeições."

Ivan foi levado às lágrimas. Sabia que os espíritos imperfeitos que o rondavam sofriam com ele. Por isso fiz uma oração, aquela que Jesus ensinou aos seus apóstolos.

"Jesus que tanto nos amou e morreu por nós na cruz ensinou-nos sua misericórdia e o profundo amor que incorpora diretamente de Deus Uno. Ele se cercou de seus apóstolos e disse: eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz." Emocionei-me ao deixar que aquelas palavras, reflexos de inspiração divina, saíssem de minha boca. "Não olheis para os vossos pecados, mas para a fé que vos anima, personificando a igreja do Pai que nunca vos abandonou. Em verdade, em verdade, é a fé que salva. Olhai para si e verás que em ti mesmo resides a tua própria salvação. Mas se o dia há que esqueçais dAquele que vos criou, lembrai-vos de olhar para dentro de vosso coração. E dizeis as seguintes palavras: Pai Nosso, que reside acima das vontades mundanas, santificado é teu nome, que faça despertar em nós o teu reino, e que possamos respeitar a tua vontade, que é a mesma que opera na Terra como no Céu. Teu pão alimenta a fome de nossos espíritos. Perdoai-nos pelas ofensas que contra ti cometemos e inspirai-nos a perdoar as faltas de nossos ofensores. Ajudai-nos a não sermos tentados pelo mal que ainda reside em nós. Amém."

Caro leitor, não posso dizer que fui o responsável por professar bela oração. Seria incorrer no orgulho. De onde veio palavras tão ricas e profundas? Deus fez-me seu instrumento e foi ali que compreendi o que dizia. 

"Não sou digno deste Jesus", disse Ivan. Estava de joelhos no chão. Ajoelhei diante dele, não sentindo mais a presença de nossos irmãos espirituais que o obsidiavam. "Não posso aceitá-lo."

"Diz uma palavra e será salvo", falei. "Salva-se, meu pai. Eu rogo."

A consciência dele o atormentava. Estava, porém, enfraquecido demais: a obsessão que vinha sofrendo levou anos e quase o subjugou fisicamente. No entanto, agora encaminhava-se para o desencarne. Era preciso que isso se sucedesse uma vez que os laços fluídicos entre ele e seus obsessores tinha chegado aquele ponto. Todavia, só compreenderia isso depois.

"Desculpe", ele disse. O orgulho o cansava. Apesar disso, não era forte o suficiente para se desculpar pelo que fez. "Fui um pai terrível. Perdoe-me, meu filho, por não tê-lo amado como deveria. Concede este perdão para que eu vá em paz."

Mesmo no final, ele não tinha aceito a Jesus. Não era o momento dele. Apesar disso, assenti com a cabeça.

"Sim, meu pai. Eu o perdoo. E peço que me perdoe por não tê-lo amado como devia."

Meu pai sorriu. Havíamos finalmente dissolvido séculos de rivalidade. Era um progresso para aquele espírito, não obstante as suas demais fraquezas que eu desejava remediar. 

"Não há o que perdoar. Obrigado por me dar paz." 

E seus olhos se fecharam. Fiz um sinal da cruz sobre sua cabeça e, mesmo em meio aos soluços, abracei-o contra mim. E roguei pela misericórdia divina. Foi naquele momento que meu anjo guardião se mostrou a mim.

"Eis a lição que desatou o grande nó que pesava sobre a mácula que, em seu espírito, precisava ser resolvida nesta existência. Muito embora seu pai não fará a passagem tranquilamente, seu perdão e suas preces aliviaram sobremaneira a carga que ele carrega. No entanto, nada tema. O socorro virá quando ele estiver pronto para auxiliá-lo. Cuida agora da sua jornada e cumpra sua missão, Duncan."

Deste modo, o enterrei apropriadamente. Enquanto o fazia, porém, meu irmão mais velho apareceu. Não fosse pela intercessão divina, ele teria me agredido. Tanto com palavras quanto com gestos. Contudo, ele baixou a guarda ao contemplar o enterro e disse:

"Que fez dele, Duncan?" 

"Deus acho por bem chamá-lo de volta", respondi. "Acho que a terra o guardará bem aqui, provendo proteção ao seu corpo."

Meu irmão deu uns passos a frente, indeciso quanto ao que julgar minhas ações. Finalmente, ele se comoveu. 

"Ele merecia a morte. Não foi justo com você, vejo agora. E quão tolo fui por agir injustamente com você."

Virei-me para ele. O irmão orgulhoso cedia às lágrimas e reconhecia suas faltas. Observei como Deus operava nos corações mais duros. E como eu não poderia me comover? 

"Agradeço a Deus por isso. Mas antes preciso que me ajude aqui."

No final do dia, éramos nós dois. Depois de enterrar o pai no quintal do terreno que, entretanto, não nos pertencia em razão da posse da propriedade residir no senhor de Kildare, sentamos juntos com uma cerveja na mão na casa que caía aos pedaços.

"Me conte do seu Deus", pediu ele. "Acho que Ele falou comigo. Não acho que os velhos deuses tenham me impelido a perdoá-lo, Duncan."

Eu sorri diante do conflito que passava por sua consciência.

"Também acho que eles não são muito inclinados ao perdão", disse eu. "Mas quem somos nós para conhecer as divindades? Querendo ou não, são criações do Pai que devemos obediência. Talvez nós, em nossas limitações, as tenhamos mal compreendido."

"Faz sentido", ele aquiesceu. "Mas me diga dele."

E falei de Jesus, da sua trajetória na Terra. Contei sobre seus milagres, sobre os apóstolos. Para minha surpresa, meu irmão desatou a soluçar quando contei sobre a crucificação. Mal sabia eu que ele tinha feito parte dos sacerdotes hebreus que tinham instado o povo a pedir pela morte de Cristo. Não obstante, fui tomado por misericórdia e compaixão.

"Por que tanto sofre, meu irmão?"

Ele demorou um pouco para se acalmar. Seu coração pesava e eu sentia sua dor. Meu Deus, pensava. Que Ele pudesse dar ao irmão a compaixão que requisitava. 

"Não sei explicar", e ele me lançou um longo, significativo olhar. "Me parece que fui um dos responsáveis por Cristo partir. Por que, eu pergunto? Sou tão cruel?"

"Não se odeie, por favor", implorei. "Pense comigo: o passado está no passado. Se Deus permite que o saiba, é para esclarecê-lo para o futuro. Este ainda está em aberto para que possa se redimir. Acha que eu também não carrego comigo pecados? É justamente por trazê-los de outras vidas que procuro me corrigir agora. Ainda é tempo de se modificar. Jesus o convida a tal."

Ele ainda chorava, mas, graças a bom Deus, compreendia a mensagem. 

"Muito bem. Se Ele o trouxe aqui, imagino que possa me perdoar?" A hesitação persistia. Um sentimento que me era familiar.

"Vamos caminhar juntos, meu irmão. Você há de conhecer Zacarias. Ele tem planos para você."

Apesar do olhar desconfiado, meu irmão aquiesceu. No dia seguinte, partimos de volta para a Igreja cristã. Lá, éramos aguardados por Zacarias. 

"Veja bem! Você não somente teve êxito em sua missão, meu amigo, como trouxe seu irmão! Aleluia, aleluia! Eis aqui os servos do Senhor!"

"Faça-se em mim a sua vontade", disse meu irmão, surpreendendo-me positivamente.

"Não há por que se surpreender, Duncan." Fez uma pausa o velho Zacarias antes de dar um novo nome ao meu irmão. "Paulo, legou finalmente o Saulo aos dias de ontem. É tempo de agora expiarmos, nós juntos, em direção ao Senhor. Jesus se rejubila com sua mudança. Nada tema, nenhuma ovelha se perde do pasto." 

Tendo nos tornado emitões, seguimos sob a orientação espiritual de Patrício para converter o restante da Irlanda. De vilarejo em vilarejos, descalços e dependentes da boa vontade alheia, deixamos para trás nosso eu.

Não foi nada fácil. Sofremos hostilidades e perseguições. Chamo meu irmão de Paulo, nome que adotou com fervor. Ele me disse, em uma das noites geladas que nos forçou a procurar abrigo em um poço:

"O senhor é meu pastor e nada vai me faltar. Que Ele nos abençoe, meus irmãos. O sofrimento nos eleva. Queria eu modificar meu passado, mas entendo que tudo foi necessário para que compreenda nosso senhor Jesus melhor."

Eventualmente, porém, as perseguições dos reis irlandeses nos fizeram separar uns dos outros. Não voltei a ver Paulo nem Zacarias. A fim de expiar os pecados de ontem, segui com minha cruz, persistindo em minha missão. Muitos foram os surdos, mas incontáveis foram aqueles que ouviram com os ouvidos e enxergaram com seus olhos.

No entanto, meu desencarne não seria pacífico. Minha existência ali não tinha sido. Lembro-me de ter visto Bridget ao meu lado quando os soldados do rei de Belfast me capturaram. 

"Tenha coragem. Sua dor se encerrará. Suportou muito mais do que esperávamos, meu corajoso amigo. Jesus o aguarda."

Assenti com a cabeça. Meus inimigos de outrora se deleitavam em me reencontrar.

"Ora, se quer ser tanto cristão seja um exemplo e aceite a crucificação", o sacerdote druida me recebeu com escárnio.

"Que assim seja", eu disse. "Poupam-me de conhecer mais tormentas. Agradeço."

Sorri quando ele esperavam de mim as reações que, no ontem, partilhei. Mas aquele dia era diferente. E agradeci a Deus por isso. Fui à morte com coragem, embora ainda humano tenha cedido lágrimas com relação a dor. Mas Bridget jamais me abandonou.

"Seja firme. Estamos com você. Cante, cante com alegria!"

E mesmo então, cantei. Olhei para os céus e cantei em latim a mesma música que os primeiros cristão cantaram quando foram sacrificados em Roma para deleite do imperador. Oh doce ironia! E quando a morte me deu seu suave beijo, deixava as testemunhas petrificadas e era recebido na alegria de Nosso Senhor.

Termino aqui, meus amigos, este relato em formato de conto, uma narrativa que me deleita em compartilhar com vocês porque tenho esperança de que possam se beneficiar com minha experiência na carne. A vida na Terra é difícil para cada um, isso é verdade, e não estamos aqui para medir os sofrimentos que os acometem. Contudo, devo lembrá-los que estes sofrimentos são temporários. Encorajo antes a olhar em seus corações e procurar trazer do conflito interno o Cristo Interior que em suas almas reside. Fomos feitos à semelhança de Deus. Jesus venceu o mundo e também nós podemos vencê-lo!

Coragem, bons amigos! Tem com vocês uma equipe de luz que os auxilia e encoraja a seguir o caminho reto. Os erros são os melhores professores. E lembrem-se de que aquele parente difícil é importante teste na perseverança do amor. A espiritualidade amiga não procura santos, mas ampara a todos igualmente, encorajando sem distinção de fé e crença. O esforço é muito importante, acreditem: sabemos que muitas das vezes a ajuda não depende só de vocês. Mas fazem sua parte, e ela conta muito!

Não desistem, eu rogo. Deus está sempre com vocês.

Obrigado, minha querida menina, por seu tempo e disposição em transmitir esta memória. Que Deus a abençoe hoje e sempre. De seu velho amigo, Dioniso Cabrera."










Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...