quarta-feira, 2 de março de 2022

Relatos VI: Relato de um conde, ou um desabafo pelo Espírito Theobaldo de Blois.

“Vivi muitas vidas e em todas as vezes que desencarnei, a surpresa de constatar a imortalidade da alma me abalou. Não era isso que ensinavam nas Igrejas, paróquias. Ainda que seja verdade que os patriarcas cristãos, os primeiros, concluíssem que a reencarnação não era mero dogma pagão, mas uma realidade. Entretanto, sabemos que o poder é cria da soberba e, voilá!, c’est ça! Olhem no que deu. Ela [a Igreja], enquanto instituição, foi culpada por desgraçar tantas almas. Mas, verdade seja dita, podemos realmente transferir a culpa para instituições humanas quando ela reside em nós, orgulhosos em nossos saberes, pretensões de ter a verdade mais que uns tantos e muitos outros?

Bom, não quero desperdiçar teu tempo, oh escrevente, por isso vou me ater ao ponto. Todos nós buscamos reconhecimento de um modo ou outro, na boa ou má intenção segundo a índole para a qual a alma do sujeito se predispõe. Eu não fugi disso. Criado cristão, não posso dizer que o fui na acepção da palavra. Nós, frutos do medievo, não fomos cristãos verdadeiramente. Nós criamos uma moral hipócrita, que julga os erros alheios, que não tolera pensamentos, crenças ou sequer ideologias diferentes. Usamos da moral cristã para ir à guerra, subjugar nossos irmãos em Cristo, e baseado no quê? Onde está escrito nas Escrituras “faça guerra ao teu próximo”? Onde disseram os Apóstolos para matarmos uns aos outros e esfregarmos nossas interpretações, pontos de vida, sobre os menos esclarecidos?

Perdoe-me a angústia. Mas vejo que hoje em dia isto não mudou e que tristeza isso me traz. Por que reparamos mais nas faltas alheias do que nas nossas? Por que esquecemos, ou melhor, deliberadamente adaptamos a máxima “não julgueis para não serem julgados”, segundo melhor conforma nossa consciência? Esqueceis do leproso que, curado por Jesus, foi e pecou. Aquele fui eu. Segui errando e me envergonho disso.

A posição que nasci depois veio me esclarecer melhor sobre os percalços da riqueza. Novamente, pequei. Matei meus irmãos. Julguei. E, entretanto, me entreguei à penitência. A verdade é que sombras e luzes coabitam em nós, minha irmã. E tudo, absolutamente tudo, é passageiro. Muitas das vezes incorremos ao ódio sem o sabermos. Na discordância veemente, na fala que não ouve, no desinteresse ao que o outro nos traz... Quando perdi meus irmãos e meus pais, soube que ali havia ensinamento. A vida é um sopro. E não podemos desperdiçar a chance, como dizia Santo Agostinho, de questionar a nossa consciência.

Madame, eu me arrependo de ter nascido na riqueza. Porque é pesado o jugo e faz-nos esquecer de Jesus. Os erros nos volvem em lágrimas. Tudo é ilusão, passageiro. No século das luzes, o Monsieur [senhor] cujos livros estudais me abraçou em teu seio. [Nota da Médium: é provável que ele esteja se referindo a Santo Agostinho, cuja obra eu lia na ocasião que ele se refere]. Lembrar de sublime espírito me emociona. Em muitas das encarnações, vim leproso, de alguma forma.

Hoje, emocionado, posso dizer graças a Deus, acima de todas as coisas, e ao mestre Jesus, que consegui mudar um pouco. Deixo para trás a belicosidade, a soberba, as lamentações, a autopiedade. Há sempre tempo para louvarmos ao nosso Pai de todo nosso coração. Ele é misericordioso, perdoa, ama!! Mesmo com nossos defeitos!

Meu tempo se esgota, obrigado por ouvir-me, mademoiselle. Me regozijo por esta oportunidade. Ajudastes-me muito mais do que poderíeis saber. Agora me parto, pois preciso me preparar para o processo de reencarnação. E se me permite um conselho, madame: vivas com alegria e espalhas o amor na caridade de Nosso Senhor.  Estudas e buscas o conhecimento, pois a Verdade te libertará. É bem verdade que estás cercada por testemunhas invisíveis, mas nada temais, pois não te farão mal. Teu conhecimento, tua história te levarão a outros patamares. E agradeçais sempre aos que te acompanham. Que Jesus a ilumine e Deus guarde teu coração bondoso.

De teu sempre amigo,

Theobaldo.”

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