“Vivi muitas vidas e em todas as vezes que desencarnei, a surpresa de constatar a imortalidade da alma me abalou. Não era isso que ensinavam nas Igrejas, paróquias. Ainda que seja verdade que os patriarcas cristãos, os primeiros, concluíssem que a reencarnação não era mero dogma pagão, mas uma realidade. Entretanto, sabemos que o poder é cria da soberba e, voilá!, c’est ça! Olhem no que deu. Ela [a Igreja], enquanto instituição, foi culpada por desgraçar tantas almas. Mas, verdade seja dita, podemos realmente transferir a culpa para instituições humanas quando ela reside em nós, orgulhosos em nossos saberes, pretensões de ter a verdade mais que uns tantos e muitos outros?
Bom,
não quero desperdiçar teu tempo, oh escrevente, por isso vou me ater ao ponto.
Todos nós buscamos reconhecimento de um modo ou outro, na boa ou má intenção
segundo a índole para a qual a alma do sujeito se predispõe. Eu não fugi disso.
Criado cristão, não posso dizer que o fui na acepção da palavra. Nós, frutos do
medievo, não fomos cristãos verdadeiramente. Nós criamos uma moral hipócrita,
que julga os erros alheios, que não tolera pensamentos, crenças ou sequer
ideologias diferentes. Usamos da moral cristã para ir à guerra, subjugar nossos
irmãos em Cristo, e baseado no quê? Onde está escrito nas Escrituras “faça
guerra ao teu próximo”? Onde disseram os Apóstolos para matarmos uns aos outros
e esfregarmos nossas interpretações, pontos de vida, sobre os menos
esclarecidos?
Perdoe-me
a angústia. Mas vejo que hoje em dia isto não mudou e que tristeza isso me
traz. Por que reparamos mais nas faltas alheias do que nas nossas? Por que
esquecemos, ou melhor, deliberadamente adaptamos a máxima “não julgueis para não
serem julgados”, segundo melhor conforma nossa consciência? Esqueceis do
leproso que, curado por Jesus, foi e pecou. Aquele fui eu. Segui errando e me
envergonho disso.
A
posição que nasci depois veio me esclarecer melhor sobre os percalços da
riqueza. Novamente, pequei. Matei meus irmãos. Julguei. E, entretanto, me
entreguei à penitência. A verdade é que sombras e luzes coabitam em nós, minha
irmã. E tudo, absolutamente tudo, é passageiro. Muitas das vezes incorremos ao
ódio sem o sabermos. Na discordância veemente, na fala que não ouve, no
desinteresse ao que o outro nos traz... Quando perdi meus irmãos e meus pais,
soube que ali havia ensinamento. A vida é um sopro. E não podemos desperdiçar a
chance, como dizia Santo Agostinho, de questionar a nossa consciência.
Madame,
eu me arrependo de ter nascido na riqueza. Porque é pesado o jugo e faz-nos
esquecer de Jesus. Os erros nos volvem em lágrimas. Tudo é ilusão, passageiro.
No século das luzes, o Monsieur [senhor] cujos livros estudais me abraçou em
teu seio. [Nota da Médium: é provável que ele esteja se referindo a Santo
Agostinho, cuja obra eu lia na ocasião que ele se refere]. Lembrar de sublime
espírito me emociona. Em muitas das encarnações, vim leproso, de alguma forma.
Hoje,
emocionado, posso dizer graças a Deus, acima de todas as coisas, e ao mestre
Jesus, que consegui mudar um pouco. Deixo para trás a belicosidade, a soberba,
as lamentações, a autopiedade. Há sempre tempo para louvarmos ao nosso Pai de
todo nosso coração. Ele é misericordioso, perdoa, ama!! Mesmo com nossos
defeitos!
Meu
tempo se esgota, obrigado por ouvir-me, mademoiselle.
Me regozijo por esta oportunidade. Ajudastes-me muito mais do que poderíeis
saber. Agora me parto, pois preciso me preparar para o processo de
reencarnação. E se me permite um conselho, madame: vivas com alegria e espalhas
o amor na caridade de Nosso Senhor.
Estudas e buscas o conhecimento, pois a Verdade te libertará. É bem
verdade que estás cercada por testemunhas invisíveis, mas nada temais, pois não
te farão mal. Teu conhecimento, tua história te levarão a outros patamares. E
agradeçais sempre aos que te acompanham. Que Jesus a ilumine e Deus guarde teu
coração bondoso.
De
teu sempre amigo,
Theobaldo.”
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