quarta-feira, 2 de março de 2022

Relatos VII: Descobertas de Mim Mesmo, pelo Espírito Jules O'Donnel.

Nota do guia de Ogum: "Caros amigos, irmãos e irmãs em Cristo, saúdo-vos a todos! Em virtude das atuais circunstâncias, devo aconselhar que leiam este relato com cautela e sem qualquer julgamento terreno. Como já foi falado antes e nada custa relembrar, nosso propósito de auxílio aos irmãos desencarnados não dá relevância a sua identidade, pois ela nada mais é que uma memória de quem se foi, do que foi vivido em vosso plano terrícola. Diante disto, estes relatos trazem valiosos ensinamentos para aqueles que souberem buscá-los à luz do que nos foi legado por nosso mestre e guia, nosso irmão maior, Jesus o Cristo. Que Deus, nosso Pai celestial, vos abençoe hoje e sempre.--George."


“Meu nome é Jules O’Donnel. Nasci no ano de 1890, no final de novembro—seu guia diz que foi no dia 24—na região de Derby, na Inglaterra. Mas meus pais se mudaram para Dublin quando eu tinha dois meses de idade.

Éramos pobres, vivíamos mal. Mamãe era costureira e papai, operário de fábricas. Estava destinado a seguir similar destino. Provação difícil era a pobreza. Faz-nos desejar aquilo que não podemos consumir e nos incita ao ódio, sentimento baixo e vil, contra os que tudo possuem. É tudo uma grande injustiça, eu lamentava. Ignorava que os materialistas e privilegiados eram ainda mais infelizes que nós, dadas as ilusões que viviam, os casamentos arranjados, as superficialidades de uma vida de fachada. Mas nada disso compreendia.

Bem, apesar disso, jogava futebol com a rapaziada quando podíamos, porque à época os senhores de fábricas não gostavam de nos ver jogando bola. O serviço era absurdo. E acabou por matar meu velho. Tornei-me o homem da casa e teria mergulhado no desespero se não a tivesse conhecido.

Em um desses bailinhos, sabe, bares, pubs, seja lá o nome que se dá a tais espaços, conheci bela moça de enormes olhos azuis. Seu nome era Sophie. Sophie Delacour. Era francesa, veio da Normandia com os pais. Com a pouca escolarização que tinha, falei:

“Veio das terras de William para conquistar meu coração”.

Ela riu, mas foi minha. Cortejei-a e ela me ensinou tudo o que sabia. Apresentou-me às letras, embora não fosse rica nem de classe média. Longe disso. Sua mãe foi empregada doméstica na casa de um dos McLanney e foi aí que, pela bondade da patroa, enviou-a ao internato para meninas.

Sophie era ativista como eu. Mas ela lutava pelos direitos das mulheres enquanto eu, por melhores condições de trabalho. No meio disso tudo fui apresentado ao IRA. Tratava de um exército republicano que desejava libertar a Irlanda do jugo inglês. Moça, eu fui ingênuo. Pensa comigo, um homem que não se contenta com as condições humilhantes e precárias de serviço, vai acreditar nas promessas feitas. E, no entanto, veio a 1ª Guerra Mundial. Fui obrigado a me alistar. Mas se tinha algo que detestava mais que ingleses, era os alemães. Lembro de minha despedida de Sophie. Contra a vontade do pai dela, ficamos noivos. Mas falei que, voltando da Guerra, viria rico. Quantas ilusões!

A verdade é que estes são o alimento do pobre, quando não incorrem à violência nem à revolta. Nunca roubei porque minha mãe dizia que Jesus era pobre também, e por mais que tenha sido morto no final, tratou a todos com amor, mesmo seus inimigos.

“Se violência resolvesse alguma coisa, meu filho, a pobreza teria sido erradicada e a monarquia não continuaria [no poder] e até a Igreja sucumbiria à razão. A força não convence ninguém nem altera as circunstâncias. Ela só inspira mais ódio. Roube hoje, mas seguiremos pobres do mesmo modo. E ainda causará dor à mãe que tudo fez para amá-lo.”

Eu era filho único, tendo perdido dois irmãos mais novos para as doenças da pobreza. Achava que minha revolta tinha me salvado, mas estava enganado. Era muito limitado, mas ia à Igreja com minha mãe. Era um ninguém, desses que usava boina e ninguém se lembraria. Tanto melhor.

Além de minha mãe e Sophie, a Igreja me dava um conforto. Era devoto de São Patrício e Santa Brigida. Uma vez, às vésperas da guerra, fui me confessar. O padre Benedito era um velho amigo.

“Padre, eu pequei. Mas creio assim ser sempre, pois sou revoltado desde garoto. Deus deve me odiar, pois me fez pobre e me separará da família ao enviar-me para a guerra.”

“Lamento que esse seja seu pensamento, filho. O ódio ainda encontra lar em seu coração. Deus está acima de toda a maldade humana. Somos arrogantes em pensar que o inferno nos receberá para entretê-lo. Ora, o inferno é se não estado de consciência”, disse-me ele. “E tem examinado a sua consciência? Jesus, em forma humana, foi pobre e carpinteiro. No entanto, viveu sem julgar ninguém, sem mesmo se recusar a ser caridoso com o rico. Por que se ocupar odiando a vida que Deus lhe deu?”

Pensei aquelas palavras e meditei sobre elas. Senti-me envergonhado por toda a culpa que carregava em meu coração. Jesus nunca sequer maldisse os romanos nem os hebreus que o crucificaram. E eu lá desprezando o trabalho e o amor que Deus colocou na minha vida.

“Eu entendo”, eu disse e era verdade. “Mas, padre, somos dominados diariamente pela fome, guerra, pobreza... Como aceitar tudo isso? Acha justo que tenha perdido dois irmãos para a doença?”

“Você enxerga com os olhos da carne e não do espírito, Jules. Deus está o testando. Aonde está sua fé? Jesus nunca disse para sorrirmos e nos felicitarmos com as misérias da vida. Ele pediu que levantássemos o olho para o céu e lembrasse do Pai que nos criou e jamais nos abandonou. O jugo será leve no Senhor. Não seja como Pedro, que cortou um pedaço de orelha do guarda que conduzia Jesus ao encontro de Pilatos. Afinal, aquele que fere com a espada, será ferido por ela. Seja como Paulo. Transforme-se. Na raiva, por que persegue a Deus? Seus irmãos aceitaram e não reclamaram. Assim, se libertaram. E você? O que tem feito com a vida que Deus te deu?”

Saí reflexivo. Quando reparei que o IRA ameaçava se tornar violento, aproveitei para ir à guerra. Estava confuso, mas sentindo que não era o mesmo. Uma vez disse a Sophie:

“O amor salva e nos eleva. Percebo só agora.”

“Mas que pode o amor nas atuais circunstâncias?”, ela indagou. “Sofremos a troco de quê?”

“À troco de nós mesmos. Vendi minha alma para a raiva. Ela não mudou minha vida. Vou partir, porém, na certeza de ser útil à nação do que ficar aqui, trabalhando na base do rancor.”

Minha mãe, presente naquela situação, disse:

“Tenha fé, meu filho! O sacrifício de nossas sombras importa mais a Cristo do que pensa.”

Saí desiludido, admito. Mais melancólico e ainda revoltado com minha vida. Dirigia-me à morte, mas com qual propósito? Senti-me perdido. Nas trincheiras, percebemos como não possuímos nada. Dei-me conta, tarde demais, do sacrifício que minha mãe fizera por mim, do esforço de meu pai em ser decente e trabalhador. De Sophie, com seu bondoso coração, sempre disposta a perdoar meus erros.

Sabe, garota, não posso mentir e dizer que me aterrorizei em meio aos tiros. Às bombas. Aos mortos. Era horrível, sem dúvida, mas pareceu que vim para aquilo. Lutei tanto que sequer senti a bala perfurar meu ombro e depois meu peito. Não ouvi meus companheiros gritarem meu nome. Continuei lutando. Não percebi que morri. Mas as preces de minha mãe e Sophie tocaram minha alma. São Patrício esteve comigo, juro. Ele falou:

“Meu bom rapaz, descanse. Sua luta terminou.”

E eu dormi. Quando acordei, estava em um hospital branco e esverdeado. Meu pai, veja só, era médico socorrista. Quando ele veio em minha direção, chorei... porque entendi. Não voltaria a Sophie, mas estava aliviado. Não era mais pobre. E, pior, eu concluí, que jamais aceitei verdadeiramente minha encarnação. Em outros tempos, fui secretário de Estado do rei inglês que me executou. Por isso odiava a monarquia e seus ricos criados. Era revoltado porque fui comerciante, aristocrata, sempre mandando e desmandando nos outros. Nunca fui verdadeiramente pobre, porque não despi de mim a avareza, o orgulho, o egoísmo... E quando entendi isso, chorei.

“Oh pai, tenha misericórdia do filho que sofre”, e fiz eu mesmo uma prece.

Meu pai não tinha falado nada até então, mas me envolveu em abraço e disse, emocionado:

“Bem aventurado aquele que despe o coração para Cristo.”

Dali em diante, tenho procurado melhorar verdadeiramente. Aceitei quem sou, com meus defeitos e minhas qualidades. Entendi que é melhor ser um ninguém do que alguém renomado com vazias exposições. Melhor trabalhar e ser útil do que viver na revolta. Passei a me conhecer melhor e perdoei todos os que me fizeram mal. Pedir perdão é libertador, sobretudo a mim mesmo por desperdiçar uma linda encarnação nas bobeiras humanas.

Recentemente, acompanhei um grupo de falangeiros de Gandhi e posso assegurar que o amor vence todo coração embrutecido. Devemos tolerar o que discordamos veemente, pois é mais fácil amar aqueles com quem concordamos. Dito isto, é hora de partir. Combinei de reencarnar no oriente, perto do Himalaia. Ainda preciso me descobrir melhor, pois é na prática com o outro que descobrimos quem realmente somos.

Mais uma vez, obrigado, jovem. Se permite um conselho, ouça sempre seu coração e sua consciência. Seja quem é, pois os tesouros do Céu são mais valorosos do que os da Terra. Pouco importa se o jardim do vizinho é mais verde, desde que no seu se colha os ensinamentos imortais de Cristo. Cuide de si, e o resto virá em seu favor.

De seu amigo,

Jules O’Donnel.”

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