“Há muitos e muitos anos atrás, antes da chegada do homem branco à costa leste das Américas, desceu entre os povos sem nome uma rainha. Sem casa, porém, aceitou viver entre tais nômades de pele vermelha. Seu amigo, antes de lhe enviar àqueles que a receberiam na carne, lhe disse:
“É
um teste para ver como está. Esforce-se, por favor.”
Chamarei-a
de Esther para facilitar a compreensão do leitor, não porque tivesse sido judia
ou rainha daquelas terras, não, não. Portou cetro, é verdade, mas não nas
terras orientais. Bem, como dizia, Esther concordou. Como todos os espíritos
antes de reencarnarem, prometeu que aquela seria uma vida diferente.
Despediu-se de seu mentor e à Terra partiu.
Seus
pais a receberam com júbilo, é claro. Mas só a teriam como filha única.
Conforme crescia, Esther se afeiçoava ao pai, o único que conseguia fazer com
que ela obedecesse. A mãe, por outro lado, sofreu em transmitir à filha os
ensinamentos da tribo. Esther questionava tudo.
“Por
que devo me contentar a costurar? Não gosto.”
“Pois
deveria. De que outra forma lhe arrumaremos marido? Como arranjará amigos se
você se porta deste jeito?”
E
a mãe iniciava uma série de comparações, o que somente servia para aumentar o
distanciamento de sua filha, cuja primeira infância provou ser uma tormenta
para a mãe, que, embora se recusasse a dar surras na menina, gritava com ela.
Frequentemente, alheia aos sentimentos de Esther, que, em verdade, desenvolvia
uma forte sensibilidade, falava palavras para a magoar, certa de que, assim, a
educaria apropriadamente. Mas o pai uma vez a repreendeu por isto:
“Esquece
que criamos um ser humano, e não um cachorro. Chama a menina de dissimulada e
teimosa, mas onde está sua consciência? Crê mesmo que está certa acima do bom
senso?”
Embora
não reconhecesse sua impaciência e seu egoísmo pela falta de tato com os quais
lidava com a menina, filha “difícil” que Tupã lhe tinha enviado, a mãe se
esforçou em ser mais acolhedora. As tensões diminuíram, mas Esther permaneceu
orgulhosa. E este seu orgulho, herança dos dias em que era amada e carregava em
mãos um cetro e sobre a cabeça pesada coroa, não diminuía conforme adentrava a
adolescência. Não entendia porque os poucos amigos que tinha não se aproximavam
ou a tratavam mal. Como consequência, Esther passou a se isolar. Aprendeu a
caçar, a usar arco e flecha, e a viver na mata. Não aparecia às festividades e
com mais frequência era vista próxima do rio, onde fitava o reflexo da lua.
“Oh mãe. Por que me abandonou?”
Era ali que pranteava. Sentia-se só,
excluída e diferente da tribo. Isso também fez desenvolver um lado suave que
estava adormecido. Abria-se com a natureza e, como se ela a entendesse, foi
recebida em seu seio. Mas, dizem, a deusa não esquecia dos seus. E enviou, das
matas, aquele que lhe faria companhia por toda uma vida: o lobo branco que,
sabe-se lá por que, Esther o chamou de Trovão.
Quando regressou à tribo com Trovão ao
lado, Esther causou em todos espanto e admiração. A mãe, é claro, não gostou.
“Por que não pode agir como as outras
meninas?”
Foi quando o pai, que, deve ser dito,
era irmão de um grande guerreiro local, intrometeu-se e disse:
“Você deveria entender de uma vez por
todas que se Tupã nos entregou uma criança para educar e crescer entre nós, é
para que ela seja melhor que nós fomos. Incomoda-se com si mesma para cegar-se
aos melhores atributos de Esther? Se ela é orgulhosa e teimosa, foi porque você
incentivou que tais defeitos nela florescessem.” E prosseguiu dizendo: “Você
diz que toma as decisões para ela porque a ama. Quem ama, respeita. Quem ama,
não muda o filho que recebeu, sequer o compara com outros... Você diz que não
faz nada de errado. Mas será mesmo? Será que a orgulhosa e teimosa não é você?
São todos os outros errados e infelizes? Que me diz?”
Esther não gostava de discussão e menos
ainda de ver os pais brigando por conta de si. No crepúsculo de sua juventude,
entretanto, quando a soberba parecia diminuir e ceder espaço à razão, ela
começou a questionar suas atitudes, sua postura... E abraçou o silêncio,
entendendo que era responsável somente por si e não pelo que os outros diziam a
seu respeito. Mesmo quando sofria com as eternas críticas da mãe, lembrou-se do
velho ditado da tribo: “O falcão está à
espreita, pronto para caçar. Mas a águia é sábia para saber quando deve alçar
voo e partir para a caça.” Não seria como o falcão, mas prudente como a
água. Olhou, em uma dessas noites, para Trovão e disse:
“Não podemos mudar os outros, mas a nós
mesmos.”
Naquela noite, ao voltar à casa, pediu
para falar com a mãe. Surpresa ao se deparar com a mudança de atitude em
Esther, ela aquiesceu e, enfim, pela primeira vez em anos, viu sua filha
chorar.
“Por que motivo pranteia, minha filha?”,
indagou, assustada. Não sabia sequer o que fazer. Foi Esther quem a procurou e
a abraçou.
“Me desculpe por tudo. Por não ser a
filha que mais desejou. Por ter-lhe dificultado tanto...”
Naquela noite, a mãe caiu em si e chorou
também. Surpreso pela cena que transcorria dentro da cabana, o pai, que
espreitava às sombras, observou a esposa desmanchar-se em lágrimas e reconhecer
o erro. Houve, finalmente, reconciliação. Aos poucos, tudo mudou. Embora
preservando-se na interação com os outros da tribo, Esther fez amigos para toda
uma vida. E casou-se também.
Ao ser desposada por aquele que iremos
chamar de Pietro, seu orgulho suavizou. Como não poderia, diante de alma
boníssima e gentil? Em seguida, Esther recebeu em seu ventre filhos que,
inspirados pela mudança de gênio operada no espírito dela, tiveram atendidos o
desejo de retornar à mãe encarnada.
A experiência foi tão marcante
positivamente para Esther, que ela voltaria duas vezes mais à pele vermelha, a
última delas no Brasil quinhecista. Atualmente, a rainha domada se encontra em
vias de reencarnar... todavia, em esfera mais ditosa que o nosso.”
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