quarta-feira, 2 de março de 2022

Relatos VIII: A Rainha Domada por Espírito Desconhecido.

“Há muitos e muitos anos atrás, antes da chegada do homem branco à costa leste das Américas, desceu entre os povos sem nome uma rainha. Sem casa, porém, aceitou viver entre tais nômades de pele vermelha. Seu amigo, antes de lhe enviar àqueles que a receberiam na carne, lhe disse:

“É um teste para ver como está. Esforce-se, por favor.”

Chamarei-a de Esther para facilitar a compreensão do leitor, não porque tivesse sido judia ou rainha daquelas terras, não, não. Portou cetro, é verdade, mas não nas terras orientais. Bem, como dizia, Esther concordou. Como todos os espíritos antes de reencarnarem, prometeu que aquela seria uma vida diferente. Despediu-se de seu mentor e à Terra partiu.

Seus pais a receberam com júbilo, é claro. Mas só a teriam como filha única. Conforme crescia, Esther se afeiçoava ao pai, o único que conseguia fazer com que ela obedecesse. A mãe, por outro lado, sofreu em transmitir à filha os ensinamentos da tribo. Esther questionava tudo.

“Por que devo me contentar a costurar? Não gosto.”

“Pois deveria. De que outra forma lhe arrumaremos marido? Como arranjará amigos se você se porta deste jeito?”

E a mãe iniciava uma série de comparações, o que somente servia para aumentar o distanciamento de sua filha, cuja primeira infância provou ser uma tormenta para a mãe, que, embora se recusasse a dar surras na menina, gritava com ela. Frequentemente, alheia aos sentimentos de Esther, que, em verdade, desenvolvia uma forte sensibilidade, falava palavras para a magoar, certa de que, assim, a educaria apropriadamente. Mas o pai uma vez a repreendeu por isto:

“Esquece que criamos um ser humano, e não um cachorro. Chama a menina de dissimulada e teimosa, mas onde está sua consciência? Crê mesmo que está certa acima do bom senso?”

Embora não reconhecesse sua impaciência e seu egoísmo pela falta de tato com os quais lidava com a menina, filha “difícil” que Tupã lhe tinha enviado, a mãe se esforçou em ser mais acolhedora. As tensões diminuíram, mas Esther permaneceu orgulhosa. E este seu orgulho, herança dos dias em que era amada e carregava em mãos um cetro e sobre a cabeça pesada coroa, não diminuía conforme adentrava a adolescência. Não entendia porque os poucos amigos que tinha não se aproximavam ou a tratavam mal. Como consequência, Esther passou a se isolar. Aprendeu a caçar, a usar arco e flecha, e a viver na mata. Não aparecia às festividades e com mais frequência era vista próxima do rio, onde fitava o reflexo da lua.

“Oh mãe. Por que me abandonou?”

Era ali que pranteava. Sentia-se só, excluída e diferente da tribo. Isso também fez desenvolver um lado suave que estava adormecido. Abria-se com a natureza e, como se ela a entendesse, foi recebida em seu seio. Mas, dizem, a deusa não esquecia dos seus. E enviou, das matas, aquele que lhe faria companhia por toda uma vida: o lobo branco que, sabe-se lá por que, Esther o chamou de Trovão.

Quando regressou à tribo com Trovão ao lado, Esther causou em todos espanto e admiração. A mãe, é claro, não gostou.

“Por que não pode agir como as outras meninas?”

Foi quando o pai, que, deve ser dito, era irmão de um grande guerreiro local, intrometeu-se e disse:

“Você deveria entender de uma vez por todas que se Tupã nos entregou uma criança para educar e crescer entre nós, é para que ela seja melhor que nós fomos. Incomoda-se com si mesma para cegar-se aos melhores atributos de Esther? Se ela é orgulhosa e teimosa, foi porque você incentivou que tais defeitos nela florescessem.” E prosseguiu dizendo: “Você diz que toma as decisões para ela porque a ama. Quem ama, respeita. Quem ama, não muda o filho que recebeu, sequer o compara com outros... Você diz que não faz nada de errado. Mas será mesmo? Será que a orgulhosa e teimosa não é você? São todos os outros errados e infelizes? Que me diz?”

Esther não gostava de discussão e menos ainda de ver os pais brigando por conta de si. No crepúsculo de sua juventude, entretanto, quando a soberba parecia diminuir e ceder espaço à razão, ela começou a questionar suas atitudes, sua postura... E abraçou o silêncio, entendendo que era responsável somente por si e não pelo que os outros diziam a seu respeito. Mesmo quando sofria com as eternas críticas da mãe, lembrou-se do velho ditado da tribo: “O falcão está à espreita, pronto para caçar. Mas a águia é sábia para saber quando deve alçar voo e partir para a caça.” Não seria como o falcão, mas prudente como a água. Olhou, em uma dessas noites, para Trovão e disse:

“Não podemos mudar os outros, mas a nós mesmos.”

Naquela noite, ao voltar à casa, pediu para falar com a mãe. Surpresa ao se deparar com a mudança de atitude em Esther, ela aquiesceu e, enfim, pela primeira vez em anos, viu sua filha chorar.

“Por que motivo pranteia, minha filha?”, indagou, assustada. Não sabia sequer o que fazer. Foi Esther quem a procurou e a abraçou.

“Me desculpe por tudo. Por não ser a filha que mais desejou. Por ter-lhe dificultado tanto...”

Naquela noite, a mãe caiu em si e chorou também. Surpreso pela cena que transcorria dentro da cabana, o pai, que espreitava às sombras, observou a esposa desmanchar-se em lágrimas e reconhecer o erro. Houve, finalmente, reconciliação. Aos poucos, tudo mudou. Embora preservando-se na interação com os outros da tribo, Esther fez amigos para toda uma vida. E casou-se também.

Ao ser desposada por aquele que iremos chamar de Pietro, seu orgulho suavizou. Como não poderia, diante de alma boníssima e gentil? Em seguida, Esther recebeu em seu ventre filhos que, inspirados pela mudança de gênio operada no espírito dela, tiveram atendidos o desejo de retornar à mãe encarnada.

A experiência foi tão marcante positivamente para Esther, que ela voltaria duas vezes mais à pele vermelha, a última delas no Brasil quinhecista. Atualmente, a rainha domada se encontra em vias de reencarnar... todavia, em esfera mais ditosa que o nosso.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...