“Filha, hoje serei sucinto. Mas que registre aqui, peço-te, valioso ensinamento a ser transmitido a todos os que precisem dele. Na tribo a que vivi por, pelo menos, três encarnações, tínhamos uma história contada de geração em geração, sobretudo para os pequenos que cresceriam guerreiros.
“Vocês
conhecem o silêncio sereno?” o cacique da minha tribo perguntou. Lembro-me
disto bem, era apenas um garotinho.
“Não,
senhor”, respondemos.
Com
seus grandes olhos castanhos ele nos fitou com uma experiência que ia muito
além de seu corpo, ainda que a matéria já sentisse o peso de longos anos. Ele
tomou o cachimbo em sua boca e assim que o ar saiu dele, disse:
“Deixemos
que a fumaça chegue aos nossos ancestrais e até ao Deus Pai-Sol e à Deusa
Mãe-Lua.” Um longo silêncio se fez, no qual dirigimos nossas orações e
acompanhamos a fumaça subir até se dissipar. Dito isto, ele prosseguiu. “O
silêncio sereno é, antes de tudo, quando alinhamos nosso espírito ao de nosso
animal protetor em conjunto com o corpo aqui.” Ele apontou para seu peito.
Diante
da confusão estampada em nossos rostos, ele sorriu, benevolente. A fogueira
brilhava com ardor e, em torno de nós, pequeninos, toda a tribo se reunia.
“Temos
um espírito, certo? É o que habita em nosso corpo. Ele guarda em si múltiplas
vivências e é imortal. Quando este corpo se dissolve, voltando ao pó que o
constituíra, o espírito se liberta desta matéria que o aprisionou. É por isto
que alguns de vocês apresentam determinadas aptidões que outros não as possuem,
e tudo bem, porque cada um veio com algo para ajudar no funcionamento de nossa
tribo.” Ele pigarreou. “No entanto, se trazemos coisas boas como essa, trazemos
também coisas ruins que pedem nossa atenção. Quem dentre vocês é o mais
temperamental?”
Rimos
todos, mas cada um se apontou. O cacique riu, mas disse, interrompendo-nos com
paciência quando nossas pequenices ameaçaram a tranquilidade do momento.
“Não
importa, crianças. Todos nós, afinal, guardamos resquícios de um temperamento,
em maior ou menor grau. Mas agora vejam. Isso é energia, sabiam? Energia mal
utilizada, mal direcionada, mal conservada. Os guerreiros sabem usá-la bem e ao
fazê-lo no campo de batalha, voltam mais serenos porque expulsaram-na do corpo.
Todavia, trabalharam bem ao longo dos anos por meio de disciplinas, meditações
e auto conhecimento. Parece difícil, não é mesmo? Mas garanto que não é. Este
temperamento é agitação do espírito, que quer controlar tudo e todos, mas isto
não é possível. Sabem por que? Porque a matéria nos aprisiona, com isso nos limita
as perspectivas. E, no entanto, não controlamos nem ela, que dirá o que há de
fora de nós. Contudo, podemos pôr limite neste temperamento ao silenciá-los.”
Ele
fez outra pausa, olhando de tal modo em nossos olhos como se lesse nossas
almas. Estávamos quietos, mas, apesar da pouca idade, entendíamos o que dizia.
Satisfeito, ele prosseguiu.
“Não
basta silenciar e dominar a língua”, disse o cacique. “É muito fácil nos
calarmos diante de uma discórdia, mas e nosso temperamento? Nossa mente
continua a turbilhões. Nosso coração bate mais forte. E sentimos o sangue
queimar. Não basta disciplinar o filho desobediente se não souber alcançá-lo na
alma”, e isto ele dirigiu aos pais da tribo.
Voltando
seu olhar para nós, o cacique disse:
“Quando
levamos uma repreensão, muitas das vezes achamos injusta. E, no entanto, nem
sempre o é. Mas, vamos supor que uma delas seja. Em vez de nos revoltarmos e
deixarmos o temperamento falar, saibamos dominar a língua. Em seguinte, a
mente. Tanto o Sol quanto a Lua conhecem nossas intimidades. Sabem o que se
passa conosco. Mas é preciso dirigir esse temperamento para outras atividades.
Pois não peço que, ao silenciar aquele fogo que queima nosso peito e atiça
nossos pensamentos, devam se reprimir e fingir algo que não são. Mas é preciso
saber escolher suas batalhas. Agora ouçam.”
Outra
pausa. O fogo queimava brilhante e nos acalentava a todos, espantando o frio da
meia estação. O cacique olhou a sua volta, sempre encarando dentro dos olhares
de cada um de sua tribo antes que fizesse o mesmo com os pequenos.
“Contarei
a lenda que nossos antepassados recontam sempre, tamanha é sua importância.
Quando o sol foi deitar para repousar de suas atividades, veio a lua, serelepe,
surgir ao céu cheio de estrelas, preparada para iluminar o caminho da morada
dos que já foram. Na floresta, os animais noturnos saíram de seus esconderijos.
A coruja saiu de sua toca e começou a piar quando ouviu grande barulho
estremecer a paz de seu ambiente. Não precisou voar para ver o que se passava,
a confusão ao seu lar chegou. A cobra tinha provocado o urso. Havia acreditado
possuir conhecimento e força para abocanhar aquele animal. Vocês riem, mas eu
falo sério. A cobra acha que tudo sabe, mais que todos. Afinal, sabe dominar
seu espaço, convencer os outros animais a tomar seu lado. Mesmo a tartaruga,
tão pacífica, cede terreno à cobra. O urso, entretanto, que sempre fugiu de
confusões e brigas, é chamado para o duelo, para defender-se. Dormir não mais
bastava. Esquivar-se, também não. O lobo de longe, em sua matilha, observava.
Temperamentos aqui, temperamentos acolá, a briga começou.”
“E
quem ganhou?” ouvi meu amigo perguntar.
O
cacique riu.
“Não
se trata nem de vencedores, nem de perdedores, pequeno. A coruja se sentia
sentada a se intrometer. Achava, segundo sua concepção, que a cobra era muito
injusta na forma como pretendia reinar sobre os espaços dos outros animais. Mas
o urso, ainda que temperamental, explodia porque não sabia se controlar.
Acreditava que um diálogo era necessário, mesmo que a maioria dos animais
apoiasse a cobra. No final das contas, a coruja decidiu, afinal, ser a árbitra
daquela briga a fim de poupar as vidas de ambos os animais, pois a cobra era
venenosa tanto quanto o urso era muito forte. Só que ao procurar se fazer
ouvir, o que aconteceu? Foi morta pelos dois.”
“Oh”,
ouviu-se o coro dos pequeninos.
“Mas
por que?”, alguém perguntou.
“Porque
o temperamento tanto da cobra quanto do urso chegou ao ponto da ira. E a ira,
crianças, é capaz de trazer o pior. Não apenas isso, mas por que a coruja se
intrometeu em algo que não lhe dizia respeito? É preciso escolher com sabedoria
suas caças, seus momentos.”
“Achei
que a cobra fosse sábia”, lembro de ter comentado.
O
cacique me encarou com benevolência.
“Sabedoria
nem sempre equivale às experiências. E afinal, eu o pergunto: o que é ser
sábio? É deter conhecimento de todas as coisas? Ora, a cobra sabia de tudo. E,
no entanto, era sábia? O Urso já viveu tudo o que tinha para viver, contudo,
por ter experiências, era sábio?”
Ninguém
respondeu. O cacique disse:
“Mas
não devemos esquecer dos lobos e dos falcões. Em meio àquela briga, observemos
os dois. Os lobos sentiam vontade de se intrometer também e eram atiçados pelo
duelo. Carne e sangue eram capazes de incitá-los a destroçar ambos animais.
Contudo, por que não o fizeram? Porque aquela não era um briga que lhes dizia
respeito. No silêncio da noite, os lobos sabem como dominar, discretamente, seu
próprio espaço. Sabem como, quando e onde devem caçar. Se procuram confusão, é
para se defender. E os falcões, assim como as águias, tem uma visão do todo.
Eles sabem que o urso, mesmo silenciosamente, provocava a cobra. Como também
conheciam a dissimulação da cobra. Por que deveriam tomar partido? Mas, ao
contrário dos lobos, que ainda estão em aprendizado, os falcões dominam seu
interior. Observam com frieza antes de selecionar a caça. Voam alto, miram
horizontes que nos escapam a vista. Por que são difíceis de domar? Porque não
aceitam ser domados. Eles têm a visão, mas o silêncio sereno que nos transmitem.”
Outra
pausa. Outro charuto.
“Agora,
crianças. Falei do espírito imortal. Mas os animais também possuem espíritos,
cujas energias ressoam em nós. Aprendamos com eles. Cada um tem seu aspecto
positivo e negativo. Isso falaremos depois. O importante é nos conectar com
eles. Somos todos energia, afinal de contas, e voltaremos para um mesmo mundo.
Quando mais velhos compreenderão o que digo. Por ora, elevem seus pensamentos e
me digam qual animal se sintam próximos e por qual razão.”
Ouvia
tudo, mas não respondia nada. Observava, contemplava aqueles ensinamentos. O
falcão de penas brancas e olhar penetrante veio a minha mente, mas não quis
dizê-la. Outras crianças seguiam entre o silêncio e o barulho. O cacique sorriu
diante daquela empolgação, mas achou melhor deixar para outro momento.
Levantou-se e disse:
“Sabem
de uma coisa? Gosto muito dos lobos. Eles têm muito a nos ensinar. Mas o lobo
ferido remete a nossa própria ferida. E cabe a nós silenciá-la com amor,
temperá-la com paciência e remediá-la com ternura como acolhemos um dos lobos
na semana passada. Por isso crianças, silenciem seu temperamento, saibam quando
devem pegar em armas e não entrem em batalhas que não os dizem respeito. Sejam
como os lobos e os falcões, mas jamais como as cobras, dissimuladas e
arrogantes, ou os ursos, que não sabem controlar seu temperamento. O equilibro
é o que importa e aprendemos sempre com os animais na floresta de Tupã.”
Este
é o ensinamento que deixo a todos vocês. Sucinto, simples, sem muitas
elaborações, mas um rico aprendizado que tirei daquele dia com sábio cacique.
Que Deus Pai e Deusa Mãe os acompanhe hoje e sempre.
Ahô.
Caboclo da Pena Branca.”
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