quarta-feira, 2 de março de 2022

A Dama e O Cavalheiro por Espírito Desconhecido

Nota do Guia de Ogum: "A todos irmãos e irmãs em Cristo, saúdo-vos outra vez. Encerrados os ciclos de relatos espirituais, voltamos a compartilhar outras psicografias de diferentes espíritos, cujas memórias que vêm a ser contadas a vós têm como propósito de ensinar, encorajar a enfrentar vossas batalhas no cotidiano terrestre e, sobretudo, promover a reforma íntima a fim de que vos aproximeis mais do Pai Celestial e menos da matéria que ainda muitos vos apegais. Como de costume, rogo para que ledes com atenção as palavras abaixo.--George."

"Jeanne era seu nome. Donzela bem nascida, era filha de um dos senhores mais poderosos da França. Seu pai pretendia que um duque ou um príncipe de sangue a desposasse, quiçá mesmo o rei. Não havia outro futuro que não o matrimônio e ela fora educada em um meio completamente orgulhoso. Como resultado desta criação, saiu da infância uma bela donzela de frios sentimentos. Na corte do senhor seu pai, recebera o apelido de rainha do inverno.

Seu porte era impecável e sua beleza era admirada por todos. De longas madeixas douradas, à luz do sol brilhavam ruivos; de rosto fino e traços delicados, possuía olhos esverdeados e longo nariz arrebitado, lábios cheios e vermelhos, bochechas rosadas. Quando sorria, era encantadora. Quando séria, admirada. Introspectiva, encontrava mais conforto nas preces do que entre sua própria família. Sussurravam os criados que a senhora Jeanne deveria ser enviada ao claustro do convento, mas o senhor recusava-se. Exibia a filha, sua única garota entre tantos rapazes, em incontáveis torneios. Diversos cavalheiros a presenteavam com livros, poesias, joias e no início tudo era maravilhoso. Mas Jeanne era impedida de interagir com tantos outros até o dia em que o pai fora à guerra e deixara seu homem de confiança a cuidar da única filha e da madrasta, sua segunda esposa.

Este homem chamava-se Henri, humilde escudeiro que, em outra vida, fora grande rei. Na obscuridade daquela encarnação, aprendera a custo a ser humilde e a desenvolver tantas outras virtudes. Era o momento dele lecionar a frente, e coube ao Senhor aproximá-lo da bela Jeanne.

“Senhora”, ele um dia a vira deslizar pelos gramados verdes dos jardins e se viu enamorado por ela, mesmo já sendo comprometido à outra dama. “Deve ficar no castelo como seu pai ordenou.”

Ela o lançou um olhar de desdém, velando sua própria alma para a verdade que a cercava.

“E quem pensa o senhor me dizer tais coisas? Não o compete me ordenar como pai fosse meu, que não é o caso.”

Acreditou Jeanne que ela fosse livre agora que o pai se fora, e que com isso mandaria e desmandaria em todos. Também nela marcava a alma a origem da alta aristocracia, e por isso tais espíritos se sintonizaram, ainda que por motivos diferentes.

“Vim protegê-la”, ele falou. “Nada mais reclamo que não isso.”

“Acha que é um cavalheiro das cantigas?”

Ele a acompanhou e quando, de canto de olho, viu o brilho resplandecer-se naqueles olhos azuis e em madeixas de cor iguais às suas, Jeanne sentiu as bochechas queimarem. Desconhecia o motivo.

“Poderia sê-lo se assim permitisse. Oras, senhora, só cumpro ordens de sua senhoria”, ele se defendeu.

Jeanne parou de andar e voltou a encará-lo.

“É somente um homem de armadura”. Naqueles tempos, ainda transitava o espírito entre a soberba e a humildade. Mas as circunstâncias incentivaram o aumento do primeiro e o declínio do segundo. “Não há poder em suas mãos.”

Jeanne acreditava que o melhor a fazer era afastar as pessoas de si, pois, insegura, não confiava que a amariam verdadeiramente. Era temperamental, temida e bela, um objeto para as poesias dos homens e um troféu a ser exibido pelo pai. Nada mais. Mas em todas as vezes que riam de sua piedade sincera, pranteava aos pés de Cristo que, apiedado, enviou a ela aquele homem. De outras vidas se amaram, mas por tantas outras tiveram de viver separados.

“Não crê no que diz”, ele riu, o que a chocou. “Não sou como outros homens que a temem na mesma medida em que a amam.”

“Um desses sempre diz algo parecido”, retrucou Jeanne.

Tornaram a passear juntos, não só neste dia como em todos os outros. Até o instante em que Jeanne vagarosamente o reconheceu.

“Não me relegará ao esquecimento”, disse ela, ansiosa.

Henri notou que caía o orgulho dela e disse, tomando a mão dela na sua, donde se pressionou os lábios cheios de ternura.

“Não cometerei este erro outra vez.”

“Jura?”

“Juro.”

Houve um reencontro, um despertar quando aqueles olhares se cruzaram. E, ousado, esqueceu-se Henri dos votos de aliança, pois que significavam ante o verdadeiro amor? Beijou-a amorosamente e ela o respondeu com a mais pura alegria.

 ***

Beijos escondidos, sorrisos secretos, risadas compartilhadas. Deitados ao alto da colina sob o sol quente de verão, Henri proclamava as mais belas poesias para a donzela mais linda do reino que lhe cedeu de boa vontade o coração, pronta para a humildade a que ele ensinava através de simplórias e profundas palavras.

“Amo-a como o vento desejou a folha da primavera, desejo-a como a lua deseja o sol, me despedaçaria se me separasse de ti, perdendo-me no espaço do frio toda a imensidão que me trouxe ao seu coração.”

De olhos esverdeados que podiam ser confundidos com um tom de castanho, tão escuros eram, ela virou-se ao seu cavalheiro e disse:

“Rogo, oh sim, para que nossos caminhos permaneçam juntos até o fim. Amor que desconheci, não me fará partir para longe de ti. Queria eu poder cantar quão bom é amar o senhor deste meu coração.”

E enlaçavam as mãos, desfrutando da alta temporada do verão. Quem se importava com a consequência de seus intrépidos atos? A madrasta, apiedada da menina, escondeu do pai, em seu retorno, tais secretos encontros. E enquanto isso, sob juras secretas, amaram-se Henri e Jeanne de corpo e alma, compartilhando mais que votos.

Mas aqueles não eram tempos de amor.

***

E o pai a castigou perante toda a corte, mas não contava que ela resistisse aos seus chicotes.

“Pois vá em frente. Mate-me se preciso, mas não casarei outro que não seja ele.”

Henri fora poupado da crueldade do senhor, que o enviara à guerra para morrer. E lá ele padeceu sob cruel espada, no tormento da infelicidade de saber que em um oceanos de lágrimas se afundava a amada Jeanne, donzela de seu coração, esposa de sua alma. Mas em seu desencarne, soube ele que pronto se reuniriam assim que Jeanne se desvencilhasse das amarras que a prenderiam em outras vidas até que, no presente, a luz pairasse sobre seu halo e a iluminasse de volta ao outrora guerreiro, conquistador e humilde amor de alma sua."

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