Nota do Guia de Ogum: "A todos irmãos e irmãs em Cristo, saúdo-vos outra vez. Encerrados os ciclos de relatos espirituais, voltamos a compartilhar outras psicografias de diferentes espíritos, cujas memórias que vêm a ser contadas a vós têm como propósito de ensinar, encorajar a enfrentar vossas batalhas no cotidiano terrestre e, sobretudo, promover a reforma íntima a fim de que vos aproximeis mais do Pai Celestial e menos da matéria que ainda muitos vos apegais. Como de costume, rogo para que ledes com atenção as palavras abaixo.--George."
"Jeanne era seu nome. Donzela bem nascida, era filha de um dos senhores
mais poderosos da França. Seu pai pretendia que um duque ou um príncipe de
sangue a desposasse, quiçá mesmo o rei. Não havia outro futuro que não o
matrimônio e ela fora educada em um meio completamente orgulhoso. Como
resultado desta criação, saiu da infância uma bela donzela de frios
sentimentos. Na corte do senhor seu pai, recebera o apelido de rainha do
inverno.
Seu porte era impecável e sua beleza era admirada por todos. De longas
madeixas douradas, à luz do sol brilhavam ruivos; de rosto fino e traços
delicados, possuía olhos esverdeados e longo nariz arrebitado, lábios cheios e
vermelhos, bochechas rosadas. Quando sorria, era encantadora. Quando séria, admirada.
Introspectiva, encontrava mais conforto nas preces do que entre sua própria
família. Sussurravam os criados que a senhora Jeanne deveria ser enviada ao
claustro do convento, mas o senhor recusava-se. Exibia a filha, sua única
garota entre tantos rapazes, em incontáveis torneios. Diversos cavalheiros a
presenteavam com livros, poesias, joias e no início tudo era maravilhoso. Mas
Jeanne era impedida de interagir com tantos outros até o dia em que o pai fora
à guerra e deixara seu homem de confiança a cuidar da única filha e da
madrasta, sua segunda esposa.
Este homem chamava-se Henri, humilde escudeiro que, em outra vida, fora
grande rei. Na obscuridade daquela encarnação, aprendera a custo a ser humilde
e a desenvolver tantas outras virtudes. Era o momento dele lecionar a frente, e coube ao
Senhor aproximá-lo da bela Jeanne.
“Senhora”, ele um dia a vira deslizar pelos gramados verdes dos jardins
e se viu enamorado por ela, mesmo já sendo comprometido à outra dama. “Deve
ficar no castelo como seu pai ordenou.”
Ela o lançou um olhar de desdém, velando sua própria alma para a verdade
que a cercava.
“E quem pensa o senhor me dizer tais coisas? Não o compete me ordenar
como pai fosse meu, que não é o caso.”
Acreditou Jeanne que ela fosse livre agora que o pai se fora, e que com
isso mandaria e desmandaria em todos. Também nela marcava a alma a origem da
alta aristocracia, e por isso tais espíritos se sintonizaram, ainda que por
motivos diferentes.
“Vim protegê-la”, ele falou. “Nada mais reclamo que não isso.”
“Acha que é um cavalheiro das cantigas?”
Ele a acompanhou e quando, de canto de olho, viu o brilho
resplandecer-se naqueles olhos azuis e em madeixas de cor iguais às suas, Jeanne
sentiu as bochechas queimarem. Desconhecia o motivo.
“Poderia sê-lo se assim permitisse. Oras, senhora, só cumpro ordens de
sua senhoria”, ele se defendeu.
Jeanne parou de andar e voltou a encará-lo.
“É somente um homem de armadura”. Naqueles tempos, ainda transitava o
espírito entre a soberba e a humildade. Mas as circunstâncias incentivaram o
aumento do primeiro e o declínio do segundo. “Não há poder em suas mãos.”
Jeanne acreditava que o melhor a fazer era afastar as pessoas de si,
pois, insegura, não confiava que a amariam verdadeiramente. Era temperamental,
temida e bela, um objeto para as poesias dos homens e um troféu a ser exibido pelo pai. Nada mais. Mas
em todas as vezes que riam de sua piedade sincera, pranteava aos pés de Cristo
que, apiedado, enviou a ela aquele homem. De outras vidas se amaram, mas por
tantas outras tiveram de viver separados.
“Não crê no que diz”, ele riu, o que a chocou. “Não sou como outros
homens que a temem na mesma medida em que a amam.”
“Um desses sempre diz algo parecido”, retrucou Jeanne.
Tornaram a passear juntos, não só neste dia como em todos os outros. Até
o instante em que Jeanne vagarosamente o reconheceu.
“Não me relegará ao esquecimento”, disse ela, ansiosa.
Henri notou que caía o orgulho dela e disse, tomando a mão dela na sua,
donde se pressionou os lábios cheios de ternura.
“Não cometerei este erro outra vez.”
“Jura?”
“Juro.”
Houve um reencontro, um despertar quando aqueles olhares se cruzaram. E,
ousado, esqueceu-se Henri dos votos de aliança, pois que significavam ante o
verdadeiro amor? Beijou-a amorosamente e ela o respondeu com a mais pura
alegria.
Beijos escondidos, sorrisos secretos, risadas compartilhadas. Deitados
ao alto da colina sob o sol quente de verão, Henri proclamava as mais belas
poesias para a donzela mais linda do reino que lhe cedeu de boa vontade o
coração, pronta para a humildade a que ele ensinava através de simplórias e
profundas palavras.
“Amo-a como o vento desejou a folha da primavera, desejo-a como a lua
deseja o sol, me despedaçaria se me separasse de ti, perdendo-me no espaço do
frio toda a imensidão que me trouxe ao seu coração.”
De olhos esverdeados que podiam ser confundidos com um tom de castanho,
tão escuros eram, ela virou-se ao seu cavalheiro e disse:
“Rogo, oh sim, para que nossos caminhos permaneçam juntos até o fim.
Amor que desconheci, não me fará partir para longe de ti. Queria eu poder
cantar quão bom é amar o senhor deste meu coração.”
E enlaçavam as mãos, desfrutando da alta temporada do verão. Quem se
importava com a consequência de seus intrépidos atos? A madrasta, apiedada da
menina, escondeu do pai, em seu retorno, tais secretos encontros. E enquanto
isso, sob juras secretas, amaram-se Henri e Jeanne de corpo e alma,
compartilhando mais que votos.
Mas aqueles não eram tempos de amor.
***
E o pai a castigou perante toda a corte, mas não contava que ela
resistisse aos seus chicotes.
“Pois vá em frente. Mate-me se preciso, mas não casarei outro que não
seja ele.”
Henri fora poupado da crueldade do senhor, que o enviara à guerra para
morrer. E lá ele padeceu sob cruel espada, no tormento da infelicidade de saber
que em um oceanos de lágrimas se afundava a amada Jeanne, donzela de seu
coração, esposa de sua alma. Mas em seu desencarne, soube ele que pronto se
reuniriam assim que Jeanne se desvencilhasse das amarras que a prenderiam em
outras vidas até que, no presente, a luz pairasse sobre seu halo e a iluminasse
de volta ao outrora guerreiro, conquistador e humilde amor de alma sua."
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