segunda-feira, 11 de maio de 2020

(Contos da Escócia, vol.3) A Guerra das Senhoras

Nota de Ogum: a entidade que aqui se aproxima possui um débito para com a médium por razões que não me cabem explicitar. Achei importante fazer esta colocação, todavia, para ilustrar ao leitor de que o psicografado pode sim ter relações com o psicógrafo mesmo fora do esperado (isto é, um parente recém falecido, um amigo desencarnado entre outras causas) da vida presente. Isto também reforça ao médium, quem quer que seja, que o espírito (independentemente da sua moral) que pedir ajuda e receber é também prática de caridade. E tal ato, como se sabe, é exercício da lei de Deus.

"Meu nome é Joan. Recordo-me de ter nascido em tempos bastante conturbados na Escócia medieval. Segundo me consta, porém, quando a pertubação não violou suas altas e frias terras? A paz foi um conceito que poucos de nós conheceu de fato e se um dia a víamos foi por uma brevidade que nunca deixou de surpreender. Sei que pareço embrutecida, mas falo isso com o conhecimento de agora, lamentando pelo passado sem deixar, com isso, de aprender com ele.

A história de hoje é uma memória minha, de uma de minhas últimas encarnações. A mais recente delas ocorreu no oriente, na verdade e hoje estou trabalhando no plano espiritual antes de seguir adiante. Bem, precisava retornar à Terra e que melhor forma do que compartilhar minha experiência e meu conhecimento sendo passado à frente, aos que delas necessitam?

Como falei, meu nome foi dado como Joan. Naqueles tempos, os nomes eram outros, mas este seria o mais perto com o qual os leitores poderiam se familiarizar. Afinal, não eram as tribos, que guerreavam umas com as outras, cristãs. Embora houvesse nascido no território que hoje compreende o nome de Glasgow, fui criada de minha infância à juventude mais ao norte, na zona montanhosa das Terras Altas. O ano era 845 e a iminência dos dinamarqueses àqueles campos era mais baixa em comparação com a vizinha terra dos ingleses. Não por isso, ainda éramos surpreendidos por aqueles homens de língua e costumes diferentes aos nossos.

A tribo da qual fiz parte crescia consideravelmente havia algumas gerações. O suficiente para estabelecer uma hierarquia dos mais poderosos aos mais "baixos" da sociedade, estipulando, com isso, uma relação de independência entre ambos. Como resultado disso, havia tensões, é claro. Às vezes, resultavam em rebeliões; em outras, em guerras civis. Mas tudo isso pareceu ter conhecido seu fim quando nos fixamos próximos às montanhas. Acostumei-me com o frio, gostava dele. Minha família era pobre e simples, mas não nos faltava nada. Meu pai havia morrido em guerra, sendo assim, dependíamos dos 'condes' (ou jarls, visto que o chefe da tribo descendia destes dinamarqueses que vinham nos invadir constantemente) e sua bondade. Minha mãe cuidava de seus cinco filhos com coragem, ousadia e orgulho: nos ensinava a erguer o queixo e dar a cara a tapa se necessário. Lembro de suas feições duras, os olhos azuis como gelo e os cabelos castanhos bagunçados num emaranhado de cachos. Era forte e nos alimentava com o que conseguia obter de vizinhos e amigos próximos. Jamais passávamos fome, embora nos invernos mais rigorosos dependíamos da sorte de outros. Aquilo somente nos havia fortalecido sobretudo quando os chamados vikings vieram tentar nos dominar. Expulsamo-los à força. Mas custou a vida de nosso chefe e de dois de meus irmãos velhos. Uhrosi e John lutaram pela nossa comunidade, mas não lamentamos por sua morte. Ao contrário, agradecemos aos deuses que os levaram para banquetear-se ao seu lado e celebrar o domínio da vida sobre todo o resto.

Neste cenário de instabilidade, era preciso que eu soubesse me proteger. Não se sabia até quando os dinamarqueses se dariam por vencidos. E havia outras tribos rivais também. Com isso, meu terceiro irmão chamado Hugh me ensinou a pegar em lanças e escudos. Não éramos ricos para segurar em espadas, quanto menos possuí-las, mas lanças eram mais fáceis de ser adquiridas e como Hugh sempre foi prestativo para com os senhores a quem servia, conseguiu obter como pagamento duas lanças. Afinal, agora éramos Hugh, eu e outro irmão a quem nomearei Fiurdan. Minha mãe, que só me tinha como sua única menina, concordou com a sugestão do novo filho mais velho. Estava determinada que a pobreza não nos tornasse meros coitados. Em uma ocasião, quando Fiurdan lamentou-se por voltar do trabalho com as mãos cheias de bolhas por arar o que, em sua perspectiva, deveria caber aos ricos, ela ralhou:

--Que os deuses não te escutem reclamar da boca pra fora, Fiurdan. Quer uma vida fácil? Ora, a morte oferece este caminho. Mas não te pranteie se acaso não puder desfrutar da tranquilidade que os deuses poderiam te guardar se fosse obediente e não leviano--virando-se para nós, naquele dia em que jantávamos, acrescentou--Temos uma vida difícil, eu bem sei. Perdi um marido e dois filhos, e vocês, um bondoso e honrado pai e dois irmãos que levavam seus deveres a sério. Estou ciente de que nada disso foi que pediram e que dos poderosos dependemos o suficiente para aguentar seus escrutínios. Mas nada os torna vítimas, absolutamente nada. Procurei inculcar em vocês a coragem, porque, do contrário, perderei-os para a maquinação dos outros. 

"Não possuo habilidades para ler, muito menos escrever, mas conheço as histórias dos deuses e seus ensinamentos me foram passados da mesma forma que à mãe da minha mãe e sua mãe até chegar a vocês. Não é porque possuímos diferente arma que se encontra em nossas pernas que faz as mulheres serem fracas. E nem o que vocês, meninos, têm entre as suas os faz decentes. Não será isso que os salvará quando o inimigo potente com sua espada afiada cortar sua garganta e fiar sua vida. Os deuses veem com bons olhos aqueles que enfrentam as adversidades com coragem."

Eu sempre me perguntava por que os deuses nos tratavam como peças em seus tabuleiros, mas preferia me ocupar com o que poderia fazer, e pensar demais me fazia melancólica, algo que minha mãe não tolerava. Ela insistia que nada nesta vida me fazia inferior a ninguém, e que, por pobre que pudesse ser, tal estigma não deveria determinar meu valor. Por isso, praticava com lanças e, conforme crescia e amadurecia, às vezes Hugh me treinava com espadas que, por mérito, conquistou.

Quando completei dezesseis anos, nossa mãe faleceu. Queimamos seu corpo na pira como determinava os rituais de outrora, embora fossem mais apropriados para os mais favorecidos pela fortuna divina. Éramos agora Hugh, Fiurdan e eu, Joan. 

"Você deveria se casar", sugeriu Fiurdan logo depois de vermos as cinzas de nossa mãe serem espalhadas pelo ar frio. "Já sangrou, não?"

Ruborizei diante daquela questão. Não pensava muito nisso e nem mesmo minha mãe fez tal sugestão. Ouvia comentários de ser bela, mas nunca dei importância para isso. Meus cabelos louros estavam presos constantemente em uma trança mal feita, e meu rosto, suficientemente sujos para não atrair atenção indesejada. Mesmo assim, guardava comigo uma adaga para o caso de algum sujeito tentar contra minha honra. 

É verdade que houve pedidos, mas nunca prestei muita atenção e nem mesmo minha mãe o fez. Por isso, respondi:

"E há necessidade de se livrar tão rápido de mim assim?"

Sorri, e Fiurdan franziu o cenho para mim. Era mais querida à Hugh que ele, e talvez isso fosse o motivo de seus ciúmes. 

"Estou apenas preocupado porque é nossa única irmã." Ele procurou Hugh por apoio, mas nosso belo irmão de cabelos claros e olhos azuis apenas deu de ombros, o que o frustrou.

Mas, na prática, a questão do casamento não parecia tão urgente mesmo porque corriam rumores de que nosso chefe tribal preparava-se para outra guerra. Sendo verdade ou não, demos início a uma preparação militar, já que os custos caíam sobre nós. Não digo apenas em termos de pilhagem, de queimar, roubar ou violar os mais pobres, mas guardar os alimentos a fim de conservar nossa parte enquanto a maioria era direcionada para os homens mais... abastados. 

A princípio, seguimos, eu e meus irmãos, com a rotina de costume. Até o dia em que Hugh e Fiurdan foram convocados. A guerra de fato ocorreria e foi quando eles perceberam que não poderiam me deixar sozinha sem uma proteção masculina. Protestei diante disso, mas, como de praxe, precisavam da aprovação do senhor. Ah, se eu soubesse! Pois foi quando havia decretado o fim de meus dias sem sabê-lo,

Arthur era o homem mais belo que havia visto, e eu havia sido criada entre os rapazes para ter algum entendimento de seus pensamentos, gostos e beleza. Assim, reconhecia nele uma simetria que faltava aos que pertenciam à classe dos desfavorecidos. Uma ou outra cicatriz rabiscava sua face oval, mas que estava coberta por uma vasta barba ruiva. Seus cabelos, um emaranhado de cachos mal penteados, recaíam sobre seus ombros e os olhos eram de um castanho âmbar. Havia ouvido falar que aquele era Marte encarnado, o próprio Vulcano. Não à toa o desenho das armas de sua casa representava um fogaréu. A espada que carregava ao lado era de um aço fino e belo, o que reforçava sua posição social--já que mencionei anteriormente a respeito de que somente os chefes das tribos e seus parentes e amigos próximos possuíam considerável ouro para pagar a um ferreiro que soubesse montar tal material. Suas vestes eram de um couro negro que contrastavam grandemente com o ruivo dos cabelos e da barba. Seu nariz era longo e boca parecia ter uma pequena cicatriz. Era forte, e notar suas características fê-me enrubescer. Afinal, não era dada às tolices. 

"Meus senhores e minha senhora", disse o chefe Arthur ao nos receber e seu olhar recaía sem qualquer significativo sobre nós. Aquele era o dia propício para recepcionar as demandas de seus "súditos". Estávamos em um salão de pedras, embora seu teto fosse feito de um material pouco resistente, tal era minha impressão. O local era frio, mas havia duas lareiras nos extremos do salão para aquecer. Numa cadeira acima, como se fosse um trono, ocupava-o nosso líder. "A que devo a honra?"

Na verdade, pouco conhecia a seu respeito. Não prestava atenção no que meus vizinhos diziam ou deixavam de dizer sobre ele. Quem era mais afeita a ouvir tais observações era minha mãe, que costumava comentar que precisávamos nos atentar ao tipo de comandante que nos guiaria, afinal, dependíamos de sua proteção. Se forçasse a memória, todavia, recordaria que Arthur era falado com admiração pelos mais pobres, que acentuavam sua honestidade e o jeito calmo de falar. Aquilo pareceu ser reforçado pela maneira com a qual conduzia aquele tipo de reunião, ouvindo de verdade os pedintes e não somente fingindo fazê-lo.

Hugh, como o homem da família por ser o primogênito, cumprimentou Arthur respeitosamente e logo se pronunciou:

"Senhor, estamos cientes de que irá à guerra já que fomos convocados. Contudo, não temos mãe ou outra figura que possa ser responsável pela minha querida irmã Joan." Ele fez uma pausa para que soubesse do que se tratava. Embora mantivesse meus olhos sobre meus pés, meu rosto queimou quando foi mencionado meu nome e pressenti que o homem me fitava com atenção. 

"Sendo assim", Fiurdan tornou a acrescentar, "gostaríamos que encontrasse um marido apropriado para nossa irmã, se aprouver ao senhor. Ela só tem a nós e tememos que se o pior nos acontecer, não terá ninguém a quem recorrer."

Houve um silêncio entre as partes e eu cuidadosamente levantei meu olhar. Admito ter-me sentido como um mero objeto sem voz, frágil diante do espetáculo guerreiro que ocorreria em breve como costumava acontecer naqueles tempos. Todavia, reconheci que isso não se tratava se não de orgulho meu, porque, não podendo seguir meus irmãos à guerra, estava só. Além disso, eu pensava com meus botões, por melhor que pudesse manusear a espada, como me defenderia se acaso despertasse, sabe-se lá por qual razão, ódio de meus vizinhos? Com tristeza, constatei minha dependência sobre meus irmãos e mais ainda de um marido. Mas rezei aos deuses para que me encontrassem um homem bom e que me tratasse com respeito. Contudo, não pensava que eles tinham outros planos para mim.

Por um instante, Arthur coçou a sua barbicha e seu olhar penetrante me causava.. não sei dizer o que sentia, mas certamente intimidada. Lançou um olhar aos homens que guardavam o salão, todos eles, presumi, de sua confiança e que compartilhavam um mesmo status de riqueza e terras. Notei, não sem espanto, a ausência de presenças femininas... até que uma delas resolveu aparecer no instante em que o chefe parecia ter deliberado algo a meu respeito.

Ela era bem vestida, indicador de sua posição como esposa (assim presumi) de Arthur. No entanto, percebi que uma cota de malha fazia parte do longo vestido roxo que grudava em suas formas. Seu rosto era oval, mas não a achei tão bela, ainda que tampouco fosse feia: seus cabelos eram negros como a noite e haviam sido trançados; seus olhos eram verdes e o nariz, arrebitado. A pele era corada, e eu me perguntei por que se alguém como ela provavelmente havia sido criada para casar e procriar. No entanto, deveria ter percebido que, como muitos de nós, era guerreira também. Duas espadas, embora mais curtas que a de Arthur, embainhavam seus quadris. Estava tão confortável quanto um homem.

"Senhor marido", ela se dirigiu a ele, confirmando minhas suspeitas, "não se esqueça de que devemos partir em breve."

Arthur soltou um suspiro e lançou à consorte um olhar impaciente. Pareceu-me que havia naquele gesto uma encenação e, de fato, nada havia de natural nele. Digo isso porque ele logo respondeu:

"Já disse à senhora de que deve se ocupar com as tarefas daqui. Como posso seguir com meus homens e deixar a casa desprotegida? Estes aqui" ele apontou a mim, aos meus irmãos e aos outros camponeses que aguardavam sua vez de falar, "dependem de nossa proteção".

A mulher, cujo nome Valyria eu descobriria mais tarde, não gostou do que ouviu. No entanto, diante do público, foi forçada a acatar a ordem e deu um sorriso azedo.

"Mas é claro."

E quando ela se preparava para ir, foi o instante em que Arthur a chamou de volta.

"Preciso que me faça um favor." Ele pediu. "Esta moça aqui ficará desprotegida porque os irmãos me acompanharão à guerra e ainda não tem um marido. Gostaria que a aceitasse em seu serviço e encontrasse um marido que lhos aprouvesse."

Mantive meus olhos baixos para que não criasse nenhuma suspeita de qualquer parte daquela mulher, que já havia me dirigido um olhar, como aos meus irmãos, de superioridade. Ouvi-a soltar uma exclamação: foi pega de surpresa, não esperava aquilo. Sua hesitação quase me fez perder as esperanças. Até que, afinal, concordou.

"Tudo bem. Como posso chamá-la?"

Sua voz de trovão me acordou para a realidade, mas um pressentimento não muito bom me tomou conta quando nossos olhares se encontraram. Ainda assim, limpei minha garganta e, humildemente, respondi:

"Joan, senhora. Tal é o meu nome."

Como se me avaliasse, a esposa do chefe tribal assentiu e disse:

"Sou a senhora Valyria. Espero-a antes do crepúsculo no salão dos fundos. E, por favor, venha limpa."

Logo, ela partiu e Arthur pareceu ter se satisfeito com a questão.

"Muito bem, senhores. A donzela, sua irmã, ficará a salvo conosco aqui. Não há nada a temer."

Com um sorriso, dissolveu as preocupações de meus irmãos; mas com um olhar, renovou as minhas. De todo modo, havia algo enigmático em sua presença que não saberia explicar o que. A verdade é que, daquele dia em diante, sua imagem não escaparia de meus sonhos.

*                                                                            *                                                                          *

Antes do crepúsculo, conforme combinado, meus irmãos me deixaram à porta do salão dos fundos, como fui instruída pela senhora Valyria. Ali, novamente fui tomada por um pressentimento não muito bom, o que me deixou emotiva.

"Tomem conta um do outro", falei. "Não briguem e se protejam."

Hugh sorriu e se inclinou para depositar um beijo sobre minha testa em um gesto que foi copiado por Fiurdan.

"Pode deixar, querida irmã. Voltaremos a tempo para vê-la ser desposada com um homem de boa escolha pela senhora Valyria." 

"Confesso que imagino que logo virá a cumprir com seu dever como nossa mãe e produzirá filhos de uma vez", animou-se Fiurdan. "Nomeie um de seus meninos em minha honra, por favor. É o que peço."

Eu ri, sem saber que aquela seria nossa última conversa.

"Não sei se serei tão fértil assim, mas decerto carregue a promessa de que farei como pede, amado irmão. Agradeço aos deuses por tê-los tão protetores comigo. E, no entanto, como poderei protegê-los da guerra?"

Hugh sorriu.

"Não há o que fazer, irmã. Mas agradecemos, sabe que a amamos." E, mais uma vez, despediu-se ternamente de mim. "Que os deuses a protejam."

"Em breve, retornaremos." Prometeu Fiurdan, e assim nos abraçamos uma última vez.

Não contei a eles do meu pressentimento. Sei que Fiurdan teria acreditado em mim e até mesmo sugerido me levar ao vidente, mas, no final, seríamos persuadidos por Hugh, o mais racional de todos, de que aquilo não mudaria nada. O que teria de ser feito, haveria de ser feito.

Foi pensando nisso que, afinal, entrei no salão com meus cabelos louros trançados, usando um vestido simples de linho azul claro e esperando que os deuses me acompanhassem, de fato. No entanto, uma vez que a porta se fechou, me deparei de cara com o chefe Arthur.

"Minha senhora!" ele exclamou e seu sorriso me tomou de surpresa tanto quanto sua presença. Tropecei e quase caí, mas ele me preveniu de tomar um tombo. "Opa, não caia, por favor."

"Perdoe-me, senhor", gaguejei. "Não desejava atrapalhá-lo."

"Não atrapalha", assegurou-me. "Estou feliz de tê-la auxiliado de alguma maneira, senhora...."

"Joan".

"Senhora Joan." Ele assentiu com a cabeça. "A guerra não deverá demorar muito. O conde do leste me pediu auxílio para livrar suas terras dos malditos jutos. Conhece-os, senhora?"

Ruborizei e sacudi a cabeça em negativa. Minha reação o divertiu, mas ele não zombou de minha ignorância. Ao invés disso, Arthur explicou:

"Os jutos são povo antigo, vem próximos dos anglos e dos antigos saxões. Alguns dizem serem parentes dos vikings. Podemos chamá-los assim também. Ocupam-se do mesmo ofício, que é invadir e pilhar a terra que não lhes pertence."

"Ah." Foi tudo o que consegui dizer.

"Em breve voltaremos e posso assegurá-la de que mal algum cairá sobre seus irmãos."

"O senhor é muito bondoso", eu falei e me vi sorrindo. Arthur retribuiu o sorriso e, pelo breve momento de silêncio que se fez entre nós, ele me fitou tanto quanto retornei seu olhar. Não devia, mas não conseguia me impedir disso.

"Tenho certeza de que minha esposa encontrará alguém apropriado para a senhora." Ele disse, quebrando a magia entre nós. Se é que houve alguma. Mas meu coração se acelerou, e desacelerou na mesma media quando desviou o olhar. "Agora, preciso partir. Que os deuses a acompanhem, senhora Joan."

"E ao senhor!" Foi o que consegui dizer. 

E, sem olhar para trás, ele seguiu em frente onde seu exército de homens à cavalo e camponeses à pé o aguardavam. Com uma pontada de decepção, e certamente me repreendendo por ter permitido qualquer tipo de expectativa ter entrado sobre minha boa razão, entrei para me encontrar com a esposa guerreira de Arthur. O inferno nunca seria tão frio.

*                                                                                  *                                                                   *
A sensação era como se houvesse sido enviada à Hel, embora esta deusa dos mortos não fosse nem de longe tão rude em sua hospitalidade ao receber os finados em sua casa ou fria com seus empregados. A senhora Valyria sentia-se superior a todos os que dela dependiam. No decorrer do inverno, ela não cumpriu com sua promessa ao marido. Na realidade, quanto mais tempo ele demorava, mais ela se apropriava do poder que lhe foi concedido.

Achava-se rainha, embora seu domínio fosse pequeno. Dormia com estranhos, a quem chamava de aliados. Logo temi que um golpe de poder pudesse estar sendo tramado. Apesar disso, nada falava. Fazia-me cega, surda e muda. Em contrapartida, era sua escrava. Pode parecer ressentimento, e talvez o seja ao lembrar-me deste período, mas não deixa de ser. Cumpri com todas as tarefas que os camponeses de minha posição fariam, com a diferença de jamais ter sido contratada ou paga. Era uma escrava. E tudo o que queria era um marido.

Um dia de dezembro veio a mim uma outra moça camponesa chamada Aliria. Era bela e tímida. Suas maneiras eram impecáveis e eu não suporia que fosse pobre, a não ser pelo vestido maltrapilho que usava. De cabelos ruivos e pele de porcelana, ela se aproximou de mim e disse:

"A senhora deseja livrar-se de você."

"De mim?!" eu exclamei, embora não fosse surpresa que Valyria me detestasse. (Nota de Ogum: em outra vida anterior, Valyria havia sido vítima de uma artimanha que esta entidade lhe provocou, quando guerras greco-troianas eram travadas. No entanto, se uma se reparou e despojou disso, não se pode dizer o mesmo da outra que guardava em seu íntimo tal rancor). 

"Sim. Acha que seduzirá o marido quando ele regressar da guerra. É a única loura daqui e ouvi mesmo os empregados comentarem que as nascidas de cabelo dourado são filhos de deuses."

Não consegui conter o riso daquilo. Mesmo sendo devota a tais divindades, reconhecia uma superstição tola quando via uma.

"Isto é besteira. Muitos dos camponeses possuem cabelos louros também." 

"E, no entanto, somente você está aqui" pontuou Aliria. 

Sacudi a cabeça, ainda em negação.

"Não pode ser."

"Creia ou não, o é. Com feitiçaria, pretende enviá-la à Hel."

"Hel não tolera tais práticas!" protestei e, não sabia bem por quê, me vi magoada quando escutei isto. "Por que não ela mesma pegar em uma espada e acabar com isto?! Ora, eu só estou aqui não por escolha minha, mas porque meus irmãos desejavam que eu me casasse! Eu poderia ter isso, uma vida de casada e quem sabe até mesmo um menino a quem nomearia em honra aos meus irmãos, mas isso me foi tirado ao que parece!"

Embora meus protestos houvessem assegurado a simpatia de Aliria, que, sem meu conhecimento, repassaria isto aos empregados e eles, por sua vez, espalhariam para os camponeses, não quis saber de nada disso. Desprezava política e mesmo a guerra. Não seria covarde, eu pensei ao me lembrar de minha mãe aconselhando a não me aceitar inferioridade por ser pobre, mas não buscaria travar batalhas desnecessárias.

Era crepúsculo do solstício de inverno-primavera quando corri aos jardins prantear. Ao que parece, chamei a atenção de um cavaleiro que por ali passava e veio descobrir quem chorava e por que. Contudo, não era um qualquer, mas regressava da guerra o senhor Arthur!

"Minha cara donzela!" ele exclamou ao me ver sentada em um banco abraçando meus joelhos e chorando. Ele sentou-se ao meu lado e, sem se assustar com minha reação, gentilmente limpou de meus olhos as lágrimas que faziam destes mais vermelhos. Enrubesci ao menor toque contra minha pele gélida. "O que te traz tão estresse para chorar desta maneira?"

"Peço perdão, senhor." Pensando em Valyria e em seu temperamento, temendo mesmo que fosse chicoteada por tamanha imprudência, me ajoelhei. "Não quis ser..."

Mas Arthur me interrompeu e me colocou ao seu lado outra vez. 

"Não há o que perdoar." Sua voz era gentil, um bálsamo para meu coração. "Gostaria de conversar sobre isso?"

"Não pretendo incomodá-lo com besteiras", falei com um pequeno sorriso. "Mas vejo que voltou da guerra. Presumo que tenha havido vitória?"

Arthur me fitava com preocupação e a demora em sua resposta logo fez meu estômago afundar e dissipar de meu rosto o sorriso que pretendia crescer em meu rosto. Notícias ruins, constatei. Pisquei meus olhos para não ter a vergonha de chorar outra vez em sua presença. Seu silêncio confirmava meus temores.

"Houve vitória, de fato", ele enfim disse. "Ao que parece, derrotamos os inimigos de vez. Não haverá incômodo e a perspectiva de residir pela Escócia não lhos é atraente. Wessex, por sua vez, os chama, e com isso seremos deixados em paz."

Esperei. 

"Mas sofremos baixas." Lamentou ele. Arthur baixou os olhos e tomou minhas mãos entre as suas. "Admito que não esperava encontrá-la aqui tão cedo, senhora. Pensei que estaria desposada e com uma família própria. Pensei mesmo que, assim, teria uma desculpa evitá-la."

Não deixei que minhas mãos se desvinculassem das suas. Que os deuses fossem bons, eu rezei. Estava sozinha. 

Arthur hesitantemente me envolveu em seu abraço. Não sei explicar o que foi aquilo. Na verdade, em retrospectiva foi uma afinidade que nos uniu. 

(Nota de Ogum: eles seriam o que vós chamais de 'almas gêmeas': espíritos afins que sempre regressam um ao outro quando encarnados, decididos a sobrepor os mais diversos obstáculos sem que isso constate separação definitiva, de acordo com o merecimento das entidades e de seu avanço moral.)

De todo modo, não houve estranhamento. Chorei em seu ombro e ele permitiu que assim fizesse, consolando-me tal que era como se estivesse em casa. A solidão não mais me assombrava e era como mesmo se os deuses me reconfortassem. Contudo, aquilo foi breve e logo quando me recompus, nos desvencilhamos. 

"Perdoe-me, senhor. Não... Não devia..." Eu não sabia o que dizer. Levantei-me e, ignorando seu chamado, adentrei a casa.

No restante do dia, evitamos um ao outro, exceto pelo jantar quando a senhora Valyria me convocou. 

"Eis aqui a vadia." Ela apontou seu copo para mim. Os empregados estavam presentes e vi Arthur franzir o cenho. Valyria foi a minha direção e, em questão de segundos, derramou um copo de vinho sobre minha cabeça. "Abusada é isso que é. O que a faz pensar ser melhor do que nós? Por possuir um cabelo de ouro?"

E teria feito coisas piores se Arthur não tivesse imediatamente interferido. "Mulher! Pelos deuses, o que está fazendo? Não foi educada para a posição que ocupa, por certo age como uma selvagem desmiolada. Poderia batê-la para lembrar-se disto, mas não é digna desta baixaria que pertence a você!"

Com isso, aproveitou a situação para dispensar os empregados, lembrando-os de sua generosidade--algo que, no futuro não muito distante, seria bem lembrado de fato. No mais, fez questão de me levar aos seus aposentos. Tremia e eu não sabia se poderia confiar nele, mas que outra opção tinha? Minha vida estava em suas mãos, eu constatei com tristeza.

"Perdoe-me, senhora. Não tolero injustiças." Ele suspirou. "Deveria ter pressuposto que isso ocorreria em minha ausência, mas confesso que não quis ver..."

Ele se interrompeu e pediu que chamasse Aliria para me lavar. "Tomarei precauções para que isso não se repita."

Assim, tornei a chorar e falei:

"Só desejava cumprir com as vontades de meus irmãos, senhor. Não vim aqui tomar seu ouro ou tempo. Apenas casar e viver como outrora."

"Eu sei." Ele fechou os olhos por um momento e quando os reabriu, vi ternura neles. "Prometo que isso se deverá no momento oportuno."

"Permita-me deixar este lugar." Me ouvi dizer, e mesmo as palavras surpreenderam meus ouvidos. Percebi que não venderia minha dignidade. Não mais. "Por favor, senhor."

Naquele momento, fomos interrompidos com a chegada de Aliria. Arthur pediu que fosse limpa no aposento seu, onde ele mesmo costumava se banhar. Logo em seguida, dispensou-a com a gentileza de costume, mas vi que uma moeda de ouro foi-lhe dada.

"Sente-se comigo à lareira", ele pediu. Hesitantemente, obedeci. Meus cabelos estavam molhados e mal desembaraçados, mas ainda tremia. Carregava o trauma da humilhação de mais cedo e ainda estava enlutada pelos irmãos que perdi pelas espadas. "Posso pentear seus cabelos?"

Surpresa com o pedido, eu, no entanto, não quis negá-los. Logo, estava mais perto dele do que pensei. Ficamos em silêncio, mas foi um bastante confortável. É verdade que fiquei chocada ao ver a destreza com a qual o chefe manuseava um pente e isso deve ter transparecido em mim de alguma maneira porque, em seguida, Arthur riu.

"Sou um homem, senhora, mas não um brutamontes. Quando criança, observava as senhoras que cercavam minha mãe fazer isso. Uma vez, longe de meu pai, tive a audácia de copiar este gesto quando me concedida a permissão de fazê-lo. Ao que parece, não esqueci."
Sorri com aquela história.

"Imagino que a senhora sua mãe tenha sido de boa índole como o senhor."

Arthur sorriu.

"Foi uma mulher de caráter indescritível, sem dúvida. Não sei se conhece sua história?"

Sacudi com a cabeça. "Lamento que não, senhor."

"Não se lamente, senhora. Bem, ela se chamava Morgana e vinha do sudeste. Era corajosa e detinha vários conhecimentos para uma mulher. Entendia de leis, de guerras e de homens na mesma medida em que havia sido instruída nas artes da medicina, da cura, das ervas. Alguns a chamavam de bruxa. Mas nem todos detinham a audácia de fazer isso em sua cara. Morgana era gentil e bondosa, mas possuía um temperamento inegável. Quando o senhor meu pai foi lhe fazer corte... teve de provar sua coragem ao envenenar um lobo e derrotar um urso."

"De pais corajosos, vêm um filho tão bravo quanto." Comentei, sem mesurar as palavras.

Arthur riu.

"Espero ser o suficiente, senhora. O que diz o povo sobre mim? Por favor, não poupe a língua. Estou muito familiarizado com gente que fala o que pensa."

Poderia ter hesitado, ou mesmo mentido, mas fui fiel ao que minha mãe havia inculcado em mim a dignidade de ser honesta. E pressupus que Arthur compartilhava, de alguma maneira, este tipo de pensamento. Por isso, disse somente a verdade:

"O senhor é popular mesmo entre nós, os mais desfavorecidos. Enxergamos justiça na maneira com a qual conduz a guerra, resolve as disputas de terra, embora não possamos dizer que tenha escolhido uma boa esposa."

Arthur riu.

"Quanto a este último, permita-me defender-me, senhora. Homens que são preparados para dar cabo à liderança de um povo, seja ele qual for, não podem pensar em si mesmos no tangente ao prazer próprio. Aquele que o faz... é egoísta e viciado na carne." Ele suspirou, e percebi que devia ter conhecido homens dados à luxúria em vez da governança. "Por isso, para os mais sérios de nós, precisamos pensar em alianças. Como vê, há ameaças constantes do lado da Germânica, dos povos nórdicos que podem chegar a nós. Isto sem falar daqueles que, por motivos bárbaros, procuram nos destruir. Nem sempre tais alianças provam ser frutíferas, e por isso muitas delas são desfeitas facilmente. Outras, porém, por difíceis que possam ser, necessitam ser mantidas."

Compreendi o que queria dizer e foi quando me virei para encará-lo.

"Homens de governança não desposam por prazer ou amor."

"Amor não existe", ele riu, tristemente. "E mesmo assim... o dever tampouco me prouve aquilo que preciso. Herdeiros."

"Sinto muito pela pressão que pesa sobre seus ombros, senhor." Disse, e falava de coração. Ouvir tudo aquilo me fez abrir os olhos para uma realidade que somente conhecia a partir do julgamento dos vizinhos. Ele era muito amado, mas ninguém suportava sua esposa. O leitor poderá me interpretar mal, posto que ela me maltratou, mas Aliria e outros empregados não compartilhavam de outro pensamento. Seu esposo não apetecia estar perto de sua presença. E não preciso de motivos para alterar uma realidade vivida. De outro modo, pouparia-os de detalhes 'humilhantes'.

"Não sinta. Os deuses me puseram aqui por algum motivo." Arthur disse com tranquilidade e aquilo me fez sorrir. "Espero que me perdoe por ter levado seus irmãos à morte, senhora. Não tive nenhuma intenção."

Falar de repente de meus finados Hugh e Fiurdan me doeu o coração, mas senti verdade em suas palavras. Percebi que este assunto oprimia sua consciência, por isso ousei em tomar sua mão na minha e disse:

"Senhor, não há o que se desculpar. Eles morreram cumprindo com seus deveres como seus súditos. Nossa mãe costumava dizer que aqueles que se recusarem a fazê-lo seriam vistos como covardes e nada há pior do que ser desertor." Um pensamento daquela época que não fugia de mim. "Por mais que me doa a partida dos que eu amo, senhor, sei que os deuses estão banqueteando com eles agora."

Arthur sorriu e foi como se o calor da lareira houvesse se expandido para o restante de seus aposentos outrora frios.

"É corajosa, senhora. Vejo isso em você." E acrescentou, sem esperar resposta minha: "Vejo Freyja ao seu lado. Ela a protege."

(Nota de Ogum: Arthur era clarividente. Não preciso dizer que o espírito sob a luz de 'Freyja' é como o guia que, sob a vertente de determinado orixá, atua sob seu nome. Como eu, George, que sigo na linha de Ogum/São Jorge nos trabalhos espirituais. Assim foi naqueles dias e assim é no presente, os espíritos mais avançados se adaptam segundo a cultura terrícola).

"Vê mesmo?" exclamei, feliz.

"Sim. Ela a abençoa." E, quase sem perceber, Arthur comentou. "Não a vi ao lado de Valyria. Algo de errado está em curso, temo dizer."

Pensei em comentar sobre a feitiçaria, mas não ousei expressar minha preocupação. Em decorrência daquilo que ocorrera mais cedo, supus que estivesse ciente. Mas não queria estragar aquele momento, portanto o interrompi.

"Vamos falar de momentos mais alegres, senhor. Por que se ocupar com aflições agora se não poderá resolvê-las de imediato?"

Arthur riu. Um som alegre e cordial que muito me aprouve.

"A senhora é muito sábia, minha cara Joan. Gostaria que passássemos mais tempo conversando. Imagino que esteja cansada e deseja se retirar?"

Sua pergunta não me foi ofensiva ou sugestiva de que pretendia se livrar de mim. De fato, algo em mim transparecia cansaço. Mas eu não queria partir, não agora. No entanto, nem tudo era possível submeter ao meu controle.

"Aprecio bastante nossas conversas, senhor. Obrigada por ser tão gentil comigo. Que os deuses o abençoem."

Assim, ele se levantou e me levou à porta. Antes de ir, ele tomou minha mão aos seus lábios e ali depositou um beijo. Seu gesto me pegou desprevenida, mas o rubor em minhas faces traiu meus pensamentos e Arthur pareceu ter gostado disso, pois riu.

"E que eles a acompanhem, minha senhora. Amanhã a visitarei outra vez se permitir."

Sorri. Não havia tristezas quando ele se dirigia a mim daquela maneira tão carinhosa. E ao que parecia, pensei romanticamente, nem tudo estava destinado a ser ruim. Mas como eu estava enganada.

*                                                                                   *                                                                 *
Por cinco verões e cinco invernos nós nos amamos. Fui de fato feliz e protegida por este tempo. Amadureci e ouso dizer que conheci o conforto. Não via necessidade de pensar em nada mais do que no amor de Arthur. Valyria, neste meio tempo, foi obrigada a me aceitar. Mas eventualmente partiu para o reino de Northumbria. Por ora não teria notícias dela.

Quanto aos empregados, não fazia distinção deles. Tomei Alíria como grande amiga, e ela seria leal até o fim de nossos dias. Na breve ausência de Arthur, quando ele tinha de resolver assuntos políticos, eu usava de meu tempo para praticar com a espada. Alguns me repreendiam por isso, especialmente quando me descobri emprenhada pela primeira vez no primeiro verão. Tive de aceitar as convenções da época e pus-me a descansar.

Para a alegria de Arthur, nasceria um menino a quem chamaríamos de Anduor. Dali em diante, conceberíamos mais duas crianças. Um segundo rapaz chamei de Fiurdan, não tendo me esquecido da promessa feita ao meu irmão. E uma menina me acompanharia, essa sim sobrevivente. A ela dei o nome da mãe de meu amado, Morgana. Anduor, infelizmente, morreria cedo. Quanto a Fiurdan... Bem, eu o veria crescer, mas ele não sobreviveria à infância. Felizmente para meu amado, Arthur não veria isso acontecer.

Por mais felizes que tenham sido aqueles dias, onde o amor prosperava e tudo parecia encantador, quando poetas cantavam os feitios de Arthur e o nomeavam o grande guerreiro do Norte, o eclipse surgiu para nos anunciar o final dos tempos. Os deuses já diziam que o Ragnarok existia por um motivo: o findar de um ciclo é o início de outro. Após o eclipse, Arthur caiu enfermo. Uma ferida de uma batalha anterior o incomodava e nada o curava. 

Um dia, ele me chamou à cama e disse:

"Senhora, creio que está na hora de partir. Confesso que gostaria de ter-me ido com a espada em mãos, rumo à morada dos deuses. Mas estou cansado disto tudo." Arthur suspirou. "Serei lembrado como covarde? Terá minha morte sido em vão?"

"Se fala besteiras é porque está cansado, como disse." Eu falei, na tentativa de dissuadi-lo de dizer besteiras. Mas a verdade é que todos nós sentíamos a morte pairar sobre nós. Os mais supersticiosos de nós temiam que o amado chefe Arthur fosse à morada de Hel, e não aos grandes deuses liderados por Wotan.

Mas a piedade divina o impediria de viver tal vergonha. Afinal, Valyria, desconhecendo que o marido estava a desencarnar, veio com um pequeno exército de Northumbria pronta para reclamar o que lho era seu por direito--como acreditava ser a herança por matrimônio. Ignorando meus avisos, Arthur esforçou-se para combatê-la.

"Isso precisa ser feito", ele falou com tamanha calma que até eu me surpreendi. "E que seja. Mas quero que se prepare."

Eu engoli em seco.

"Arthur..."

"Despeço-me de você, amada minha. Não pude tomá-la como esposa, mas nem por isso amei-a menos. Um dia, nós nos reencontraremos. Nossos filhos são meus herdeiros e nada do que aquela mulher dirá mudará isso. Defenda-os como sei que defenderá em minha ausência."

Quando vi, dei por mim em lágrimas.

"Amor meu, peço-te que fique."

Ele me depositou um beijo na testa e assim disse:

"Aguardarei o momento oportuno para te receber em paz sem que ninguém nos atrapalhe. Guarde-me em suas preces, senhora. É tudo o que peço."

Entre soluços, ouvi-me dizer:

"Que os deuses sejam bons e o poupem das malícias dos outros! Que os deuses o tragam de volta a mim, meu senhor, para meus braços e nossa cama quente."

Mas Arthur jamais voltaria com vida.

*                                                                                      *                                                                *
A guerra duraria por quase dez anos. Os leais à Arthur tomaram minhas dores e perceberam a razão quando disse que se havia motivo para que Valyria ficasse, os deuses teriam me enviado embora e sem filhos. 

"Wotan manteve minhas crianças vivas por um motivo." Falei-os. "Não ouso tomar o lugar de Arthur como aquela mulher pretende, apenas quero reivindicar a herança de Fiurdan e Morgana."

A menina que um dia brincou de lanças e sonhava com espadas agora era uma mulher que usava cota de malha e carregava espadas de aço afiado. De cabelos trançados, liderava os homens leais à Arthur contra a usurpadora. No início, montei à cavalo, mas queria acompanhar os camponeses que sairiam perdendo mais do que a mim ou a meus filhos. Logo, a vantagem à pé foi nossa. Mas Valyria insistiu em utilizar-se de magias obscuras para derrubar-me. Foi uma guerra sangrenta, de fato. Havia noites em que me desesperava, mas vinha Freyja a mim dizer e falar:

"Sê paciente. As batalhas mais duras testam a vossa fé para enfrentar as piores tempestades e sairdes forte. Sê resiliente e não vos esqueçais de quem sois."

No terceiro ano, quando havia ameaça de sítio, levantei minha espada e falei no conselho dos homens:

"Sou aqui uma única mulher. Para muitos, a meretriz de baixo calão. Para outros, uma camponesa sem lugar de fala. Creio que todos concordarão que me faltam atributos apropriados para alguém de posição forte. Ora, mas as escudeiras de Gales que repudiaram os romanos de onde vieram? Será que teriam a mesma ousadia de acusar-me de feitiçaria como fizeram com a mãe de seu chefe? Vejam, meus caros, não tenho nenhuma pretensão de governá-los. O único crime que cometi foi amar um homem acima de minha posição. Morrerei por ele se necessário, mas não antes de ver meus filhos onde Arthur gostaria que estivessem: desfrutando de sua herança."

No entanto, no quarto ano, Fiurdan veio a desencarnar. Os boatos de que teria sido vitima de feitiçaria enfureceram a hoste contra Valyria, que vinham nela culpada. Isso desfavoreceu sua causa, mas não me apropriei disto para derrubá-la. Afinal, tudo o que fazemos há consequências. Não era difícil de se ver isto.

Lembro-me do sonho que tive às vésperas de sua morte. Primeiro, vieram meus irmãos amados, Hugh e Fiurdan. Estavam todos de branco e carregavam felicidade em seus semblantes.

"Sentimos saudades, irmã." 

"E eu, de vocês" falei com a voz embargada logo após tê-los recebido em meus braços. O cheiro de capim era tão familiar em Fiurdan quanto o de suor em Hugh. E, mesmo assim, me apareciam limpos e em trajes de.. de quê? À época, eu não entendia.

"Perdoe-me por ter-lho causado tanto perjúrio desnecessário" disse Fiurdan. "A culpa carrego desde o dia que parti deste mundo. Hugh deseja que o acompanhe para Valhala, mas não posso sem ter seu perdão."

Chorei quanto a isso, mas o abracei com tanta força. Até ele se surpreendeu, mas senti que havia se acalmado quando retornou o abraço.

"Não há nada que se perdoar, meus irmãos. Eu os amo, como sinta sua falta. Nunca estive tão só!"

"Precisa ter forças, irmã." Interveio Hugh. "Tudo há um fim. É sabido."

"É sabido", ecoou Fiurdan."Não há necessidade de se culpar também, irmã. Confie nos deuses."

"E lembre-se que jamais estará sozinha", pontuou Hugh.

Antes que eu pudesse desfrutar mais de suas companhias, o cenário de um jardim cheio de pomares mudou para outro ainda mais alegre. Não pude reconhecer de imediato, mas lá estavam Arthur, Morgana, Anduor e Fiurdan. 

"Minhas crianças!" exclamei ao vê-las. Abracei a todas. Morgana era a única ruiva e havia herdado de mim apenas os olhos claros. Os outros três, loiros, porém com os olhos dos pais. Diante daquela reunião, me enterneci. "Amo-as, amo-as."

"Mamãe, senhor pai me falou de que vou ficar." Contou Morgana no sonho. "Preciso cuidar de você e depois seguir meu caminho para o sul."

Recordo-me de ter sentido, mesmo em sonho, um arrepio percorrer minha espinha. Olhei-a, confusa, mas foi Arthur quem veio. Depois de um tempo, dispersou nossos filhos para conversar comigo.

"Peço perdão pela confusão que a leguei. Não desejava, sequer pensava, que uma guerra civil dividiria todos os que amei e jurei proteger." Ele lamentou.

Sorri como sorria diante de uma preocupação que o fazia franzir o cenho como ocorrera no sonho, a fim de apaziguar sua aflição.

"Não havia como prever que tudo isso se desenrolou do jeito que ocorreu. Foi a vontade dos deuses que prevaleceu."

"Talvez..." ele disse, não inteiramente convencido pelo que disse. "Mas não me conformo com o que te passa. Não está sendo fácil."

"As tempestades nos tornam fortes e em breve nós nos reuniremos." Lembrei-o. "Mas o que Morgana quis dizer...?"

Estava a perguntá-lo quando, gentilmente, Arthur colocou um dedo indicador sobre meus lábios. Havia tristeza em seus olhos ao dizer:

"O futuro não se precisa saber. Mas estarei sempre com você."

E, tão de repente, sem despedidas, acordei. Fui desperta para ser comunicada que meu amado filhinho partira segundo o chamado dos deuses. Era hora de queimar seu corpo e esperar que os deuses o levassem não à morada de Hel, mas à Valhala.

*                                                                                   *                                                                    *

Ensinei o que podia à Morgana. Mas não permiti que, como eu, se tornasse uma guerreira de espadas. Havia outras armas com as quais poderia se combater batalhas. Para isso, implorei que um dos tutores ensinasse a ela tudo o que poderia tal qual como sua avó. De repente, o sonho fazia sentido. E precisava enviá-la ao reino de Northumbria. Desejei torná-la rainha, mas ela, sabiamente, disse:

"Não aspiro ao que não é meu por direito divino ou terreno, mãe. Ao contrário, serei mais útil aconselhando e apontando caminhos para que os homens não se ceguem pelos erros do que ser aconselhada e tornar-me um jogo para tão poucos jogadores acreditarem-se no direito de jogar."

Em outras palavras, ela não seria manipulada. Sua paciência me ensinou bastante. E mesmo seus conselhos salvaram várias batalhas diversas vezes. Tão jovem e tão sábia. Como uma vez lho falei, conflitos rompantes com a paz nos crescem mais rápido.

Não obstante o lento curso da guerra, ainda assim consegui auxílio de Northúmbria na condição de casar o irmão do herdeiro das terras de Bamburg com minha filha. Foi difícil a persuasão ao consentimento de Morgana, mas não havia outra opção. No final das contas, não houve vencedores ou perdedores. Os camponeses cansados fugiram quando puderam, e os que ficaram, pereceram. Valyria não morreria sem antes me ferir em batalha. E, ainda assim, um de meus homens ceifou sua vida não muito tempo depois. Como previsto, Morgana me curaria. Mas os deuses não quereriam que eu vivesse anos a fio.

Assim como aconteceu com meu amado Arthur, carregaria comigo uma ferida que dissiparia de mim a minha vida em um longo processo. Como Morgana não era automaticamente "maior de idade" e não havia sangrado ainda, lutei para me responsabilizar por ela mesmo quando fomos levados à Northúmbria. Foi na jornada em que ela finalmente deixou de ser uma criança para se tornar mulher.

"Gostaria que vivesse comigo nos próximos anos", disse Morgana. Às vésperas de seu casamento, estava moribunda. 

"Sinto que esteja assim, filha. Mas é a vontade dos deuses. Sei que viverei através de você e sua descendência."

Antes de chegarmos aos domínios de Bamburg, foi em um castelo que me deitaram na cama. Não era a morte preferível, mas naquelas terras, mesmo que nós fôssemos vistas como pagãs, havia misericórdia. Um bispo muito paciente conseguiu o efeito de converter-me e minha menina, mas não tenho tanta certeza de que a conversão tenha surgido uma mudança estrutural nas crenças e no comportamento de Morgana. 

Contava cerca de quarenta anos quando deixei aquele plano. Arthur e os três meninos que perdi vieram me reencontrar. Em seguida, juntei-me aos demais membros de minha família. Quanto à Morgana, ela viveria uma longa e próspera vida, mas não me cabe aqui contar o que ela fez ou deixou de fazer. Asseguro o leitor, porém, de que está em paz. E reencarnou recentemente de volta ao plano terrícola.

[Meus agradecimentos à médium pela transcrição da história. Os nomes são, de fato, difíceis para transcrição. Quando pude, alterei sua caligrafia para torná-la mais familiarizada para o leitor sem que isso alterasse significantemente o contexto que me inseri. Creio que agora estamos "quites" e posso-me ir. Obrigada, menina. Com amor, Joan.] 

Nota de Ogum: do que podemos inferir desta memória? Joan foi um espírito em expiação que, de sua parte, "cumpriu" com as consequências de outras vidas, incluindo sua relação com Valyria. Para tudo há, surpreendentemente, um ensinamento. Vejam só: após o desencarne de Joan, Valyria foi lhe pedir perdão, o que foi garantido. Por isso Joan reencarnou no oriente com Valyria, a fim de que os últimos resquícios de rivalidade pregressa fossem superadas. Posso dizer que, de fato, isso se ocorreu e Valyria vem avançando bem. Não reencarna mais neste planeta como Joan tampouco. Os atores desta história, na verdade, cumpriram com seus carmas e expiações. Não obstante, Arthur e Joan seguem juntos como comentei no meio do conto. Para os leitores curiosos, este não foi o lendário rei Arthur, apesar de determinadas similaridades em suas peculiaridades. Aqui se trata mais de um caso em particular de expiação que ajudou, ainda que a passos lentos, na conformação da Escócia enquanto território político. Dali em diante, virão outras tribos que, aos poucos, formarão cidades e elegerão sujeitos capazes de defendê-los nos tempos mais difíceis. Nem todos estes, os chamados reis, cumpririam com fervor esta tarefa, mas não é nosso propósito analisar a formação política, social e espiritual da Escócia. Não obstante, esta é uma tarefa para a própria médium expiar uma de suas vivências outrora naquela região.

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