quarta-feira, 13 de maio de 2020

(Contos da Escócia, vol. 4) A Última Celta

Nota de Ogum: trata-se de um espírito em adiantamento cuja história, devo alertar aos leitores mais sensíveis, é mais densa que às anteriores. Não obstante, é importante que ainda assim chegue a vós a fim elucidar-vos sobre a esperança e, talvez acima de tudo, a fé e a persistência. É preciso atenção na mensagem que a entidade deseja passar e não se prender nos pormenores que possam escandalizar vós da contemporaneidade.
“Rowena foi meu nome em dias muito antigos segundo a cronologia da Terra. Não escapei da barbaridade dos homens, lamento recordar desta maneira aqueles dias. Mas não há o que reclamar do passado imutável. Ao contrário, toda vivência é capaz de produzir ensinamentos se nós desejarmos aprender na sinceridade das leis de Cristo.
Quando encarnei por volta de 200 anos depois do nascimento de nosso Mestre Maior, suas palavras ainda não haviam chegado ao norte do país que, mais tarde, seria conhecido pelo nome de Escócia. Situado geograficamente em uma ilha, ou em um apanhado de ilhas, não fazia muito tempo que tanto o norte quanto o sul havia sido dominado pelos romanos. No entanto, ao contrário da Inglaterra, os escoceses resistiram com mais firmeza à esta dominação...e, apesar de construído o muro de Adriano (tão alta que, para muitos, significava magia), alguns dos centuriões tentavam destruir o povo reminiscente dos celtas. Em meio a este turbilhão, meus mais me deram à vida terrena. Aqui, recebi o nome de Rowena.
Quando vim à Terra, me encontrei em meio aos celtas, tribo nômade que, na verdade, era bastante heterogênea em sua essência. Havia celtas na Gália, na Germânia, mesmo nos países Nórdicos (cujos herdeiros, alguns diriam na posterioridade, vieram a ser os famosos vikings), mas principalmente na Britânia, em regiões que, para vós, são conhecidas como Gales, Irlanda e Inglaterra. Por que fomos todos reunidos sob um mesmo nome, como produtos sem distinção? Convencionou-se nos identificar daquela maneira pela similaridade com a qual mantínhamos determinadas práticas religiosas, pelos objetos feitos de materiais encontrados em cada parte destes lugares que citei. Havia troca econômica também, a maior parte do qual funcionava sob o esquema do escambo. Isto é, um oferecia o objeto de maior valor para o outro que precisava daquele, e vice-versa. Isto não significa que desconhecíamos a moeda, a prata ou outro tipo de moeda em voga. Apenas não detinha o mesmo valor substancial que tinha para outros povos.
Mas a genealogia dos celtas é longa e cobre mais que minha encarnação. O que aprendi a respeito foi antes de minha encarnação, quando optei por descer entre aqueles homens. Recebi instrução apropriada segundo meu avanço moral e espiritual, mas não posso dizer que aprendi tudo de uma vez só. Na verdade, isso daria muito mais que um mero parágrafo. Com isso, não vejo por que me aprofundar em sua história, ainda que adiante que os celtas vinham se desenvolvendo desde a Idade do Bronze. São muito antigos, de fato. Mas sabe-se que os povos conhecem seu apogeu e sua queda. Não seria diferente conosco, como o foi com o próprio Império Romano.
Não me cabe ater precisamente em datas fixas posto que a cronologia de outrora era contada diferentemente e temo dizer que as calendas daquela época quando traduzidas para a contemporaneidade... bem, provocariam bastante confusão. Assim, ainda que vós reconheceis o contexto histórico do qual abordarei e, mais ainda, sobre o que falarei, é importante ter em mente estas diferenças.
Com isso, estipulei o ano aproximadamente para 200 D.C. O império romano caminhava para seu declínio, tribos germânicas já eram uma realidade de oposição ao seu poder. Entrementes, rebeliões orientais e ocidentais puxavam-lhe os braços e as pernas, sem, com isso, obterem o cérebro. A Britânia é usualmente vista como o território que engloba a Inglaterra de hoje, mas mesmo ela contemplava geograficamente partes da Escócia. Northumbria, por exemplo, é apenas mais um condado em vossos dias presentes, mas nestes dias era um reino abrangente. Julgo dizer que era maior do que Kent e Wessex. Apesar disto, da mesma maneira como a Britânia romana não se enxergava como “ingleses”, muito menos havia os “escoceses”. Povos distintos ocupavam aqueles lugares, preocupando-se com a sobrevivência da espécie humana da qual faziam parte: uma terra para lotear e uma família para herdar esta terra. Em tese, tudo parecia simples, mas a sobrevivência era mais do que isso. Consistia no culto adequado aos deuses, nos rituais que marcavam a transição da infância para a juventude e, mais tarde, da maturidade para a morte. Diante disto, tudo tinha de funcionar perfeitamente. A guerra era feita como mecanismo de defesa, e talvez isso se explique porque dos celtas deram origem aos pictos, povo mais belicoso e resistente. Na verdade, foi a um deles quem meu pai pretendia casar. Recordo-me de tê-lo ouvido dizer, se gabando daquela “empreitada”, da “ousadia” em unir-me aos “rivais” pictos:
“Um futuro de glória a aguarda, Rowena”. Ele me assegurou. “Os que contestam esta união não estão preparados para que deixamos para trás passado a fim de rumarmos ao futuro. Nem mesmo os deuses são egoístas e mesquinhos”.
Pois bem, na ocasião, contava quatorze primaveras. Era uma jovem de longos cabelos dourados e pele corada, olhos como os de oceano e feições típicas de alguém em formação, na transição para a maturidade. Gostava de usar sobre minha cabeça uma espécie de coroa de flores que eu, junto às minhas irmãs mais velhas (a quem chamarei de Catrina, Rimary e Lyanna), gostava de colher da floresta. Havia um cuidado com isso, pois havia rosas venenosas e outras tantas cujas belezas eram “apagadas”, insignificantes. Nossos irmãos (também mais velhos que eu, chamavam-se Jonas, Taneryn e Ylla) zombavam de nós por acharem-se superiores dada a sua natureza belicosa. Mas interpretávamos isso como “brincadeira de menino”, porque todo o resto brincávamos juntos. Cresci num ambiente feliz e fértil. Fui a última das crianças e meus pais pensavam mesmo ter considerado nomear “Hera”. Meu pai uma vez explicou:
“Um comerciante do norte [Grécia] veio a nós porque aportou em terras erradas. Apesar disso, recebemo-nos bem e, conversa vai e conversa vem, ele nos contou de seus deuses. E como nomeou uma de suas filhas em honra à Hera, deusa do casamento. O nome muito me apeteceu, mas sua mãe temeu que isso fosse visto como ofensa pelas divindades que aqui cultivamos”.
Se me perguntassem se havia algum deus favorito, diria que não, que os amava igualmente e isso era verdade. Seria o equivalente a perguntar qual irmão era favorito, ou se eu preferia meu pai ou a minha mãe. Não saberia dizer e nem poderia fazê-lo. Todos me eram muito caros.
Com isso, até o dia de meu casamento, vivi como uma criança. Colhia flores, costurava para os homens ao lado de minha mãe, cultuava a natureza e sua manifestação divina (e até antes do grande dia, era proibida a presença de jovens mulheres nos principais cultos), aprendia a cantar e a dançar com minhas irmãs, brincava com as filhas de outras senhoras e era, enfim, ensinada a como me portar com relação aos outros (quando havia banquetes) e no que era esperado quanto ao meu futuro marido.
Tudo parecia bastante feliz e memorável. Havia paz e era suficiente. Vi todos os meus irmãos se casarem e, a despeito da aparente ciumeira de minhas irmãs quanto ao pai optar por um noivo fora de nossa tribo, nada nos abalava. Éramos unidos, penso eu. E nada me deixava mais feliz do que agradá-los. Contudo, como disse um poeta vosso, ‘alegrias violentas têm finais violentos’. Se adaptarmos esta frase para toda aquela vida, verão o que quis dizer.
Às vésperas do casamento, portanto, meu pai selecionou duas irmãs (Catrina e Lyanna) para me acompanharem e um irmão para segui-lo, o segundo seu herdeiro, Taneryn. Era esperado que eu fosse ao encontro dos pictos e não o contrário, portanto, despedi-me de cada um. De minha mãe, de minha irmã e outros irmãos. Dos bons vizinhos. Do sacerdote, que não desperdiçou a oportunidade para me dar um sermão sobre o caráter sagrado do casamento. Aquiesci. Ainda lembro das palavras de minha mãe:
“Que os deuses a guardem, Rowena, filha minha tão obediente. Seja boa com vosso esposo e não esqueceis do que foi ensinado”.
Ajoelhei-me para receber sua bênção e disse:
“Prometo, senhora mãe. Não esquecerei”.
Com isso, ela depositou uma coroa de folhas verdes sobre minha cabeça. Murmurou uma prece e depois nos despedimos. Meus olhos verteram-se de lágrimas ante à despedida, principalmente quando recebi os abraços ternos de cada um dos meus irmãos reminiscentes. Não os veria de novo.
Logo, montei em um cavalo vestida em trajes célticos. Um vestido branco com rosas vermelhas e botões verdes tornava tudo fluido. Branco pela virgindade, rosa vermelha pelo amor e o verde pela sabedoria das matas. Ao meu lado, seguiam minhas queridas irmãs Catrina e Lyanna. Catrina era a mais próxima de mim em idade e já havia se casado. Seu esposo concedeu permissão ao pai para que me acompanhasse à ocasião. Seus cabelos eram um punhado de cachos negros e seus olhos refletiam esta cor, mas quando sorria, era como se a lua em pessoa iluminasse nossas vidas. Sua risada era doce como uma melodia e nada em sua companhia era desagradável. Era intelectual e astuciosa, sendo responsável por me elucidar nos mistérios das folhas. Uma vez, ainda criança quando passei mal de estômago, recomendou que bebesse uma poção quente de água, vinho e folhas de boldo. Foi terrível o gosto, o que nos fez rir por dias, mas melhorei instantaneamente. Naquele dia, usava o vestido azul, o que a deixava ainda mais bela.
Em seguida vinha Lyanna. Seus cabelos eram menos cacheados que as de Catrina, mas eram de um negro que, à luz do sol, pareciam quase ruivos. Seu olhar não era gentil como o de nossa irmã porque, desde cedo, acostumou-se a guerrear ao lado de nossas irmãs. Apesar disso, não era reservada conosco. Portava-se daquela maneira para que os homens a respeitassem. Preferia a cota de malha à seda do vestido. Mas era responsável pelas gargalhadas que ecoavam nos salões da tribo. Aqui, ela me seguia como devota irmã. Era casada também, mas suponho que sua preferência nunca havia sido homens.
Quanto a Taneryn, ele era tão belo quanto forte. Brincalhão como Lyanna, porém tão sério quanto ela em dever. Esqueci de mencionar que eram gêmeos. Aonde um ia, o outro seguia. Nosso pai desistira de dissuadir de que as ocupações de cada um os dirigia a lugares diferentes, mas nisso os gêmeos protestaram teimosamente até serem ouvidos. Eram iguais em tudo, embora surpreendentemente Taneryn era louro como eu. Exceto por isso, compartilhava do mesmo olhar de Lyanna.
Cercada por minha família e um punhado de homens, via meu pai, alto e careca, levar-nos todos até onde éramos esperados. A viagem seria longa, durando quase dois dias e meio. Mas assim que cruzamos o rio e chegamos ao outro lado, os portões de ferro abriu e fomos recebidos em uma pequena cidade. Ou o que vós chamareis de proto-cidade. Dali, no futuro, surgiria Edimburgo.
Pois bem. Os pictos nos receberam bem. Uma senhora de cabelos cor de palha e vestes estranhas nos recebeu com toda a hospitalidade merecida. Percebi que ali estava a anciã da tribo. Em seguida, veio uma comitiva de homens altos e trajados em vestes de guerreiro. Meu olhar recaiu sobre o segundo em comando: de cabelos quase raspados e teste larga, seus olhos eram de um castanho que, à luz de velas, pareciam âmbar. Era alto e forte. Havia tudo em si que me agradou. Quando nossos olhares se encontraram, soube que era ele quem me desposaria. Sorrimos um ao outro quase de imediato.
“Que os deuses sejam bons!” exclamou a senhorinha. “Espero que a viagem não tenha sido exaustiva”.
“Não mesmo”, mentiu meu pai, todo sorrisos. “Foi uma jornada tranquila e sem problemas.”
A senhora sorriu.
“Fico feliz em saber. Sejam bem-vindos! Permita-me conhecer a senhora Rowena melhor.” Ela pediu e meu pai pediu que desse um passo à frente. A mulher me avaliou com olhos frios, antes de me receber calorosamente. “Será desposada segundo nossos costumes. O que pensa disso?”
Humildemente, repliquei:
“Que os deuses são bons em ter-me trazido até aqui para cumprir meu dever. Disso não esquecerei”.
“Excelente.” Ela aprovou. “Venham conosco, meus caros, há um banquete em vossa honra.”
Foi uma noite memorável, de fato. Ninguém presumiria o que aconteceria na noite seguinte. Ocupei meu lugar ao lado de meu futuro marido, quem chamarei de Gwelin. Conversamos pouco, pois logo descobri que, embora dez anos mais velho que eu, era ainda mais tímido. Não por isso, todavia, a noite não foi aproveitada. Houve bardos que cantavam músicas de povos antigos, de chefes guerreiros filhos de deuses que comandavam a Britânia em glória outrora.
Não havia nada para que reclamar, de fato. Via meu pai conversar alegremente com a senhora anciã daquela tribo, dos risos que seguiam à conversa vindos dos pais de meu futuro esposo; a impressão favorável me foi passada de que haviam se dado bem. Outros jovens presentes eram os irmãos e irmãs de Gwelin. Mas não teria oportunidade para conhecê-los melhor.
A lua estava no auge da noite quando foi determinado que nos deitássemos a fim de aproveitar o dia seguinte. Era preciso que descansássemos bem, pois a senhora em questão era orgulhosa de saber como dar uma festa de casamento. Ah, se soubéssemos!
*                                                                   *                                                          *
Era cedo quando fui desperta. Limpei-me numa banheira romana e minhas irmãs se responsabilizaram por me vestir segundo os costumes dos pictos: colocaram em mim um vestido meio aberto aos lados e de ombros caídos de tonalidade azul. Pintaram em meu rosto, em particular nas bochechas, traços de mesma cor, que favoreciam os meus olhos. Enfim, trançaram meus cachos louros e puseram sobre minha cabeça uma coroa verde.
“Está tão linda!” Exclamou Catrina, emocionada.
“Vós muito nos orgulhais, querida irmã.” Até mesmo Lyanna pareceu piscar as lágrimas que subiam em seus olhos.
Ignorando o mau pressentimento que subia em meu peito, sorri a cada uma delas e abracei-as. Deveria tê-las aconselhado a fugir, mas ainda que o fizesse, não me dariam ouvidos. Ninguém desconfiava do que ocorreria em horas.
Uma vez pronta, meu pai e meu irmão adentraram os aposentos ao lado das irmãs de Gwelin, sua mãe e a senhora sua avó, a anciã.
“Vosso esposo a aguarda no altar.” Adiantou-se a mais velha, cumprimentando-me com louvor.
“Ainda mal acredito nisso”, disse-me aquela que deveria ter sido minha sogra. “Foi um trabalho árduo para convencer o menino a se casar. Ele gostava de uma vida devassa, e...”
“Não assuste a menina, Alyssa”. A velha a repreendeu e eu não pude evitar rir. Imaginei-me se Gwelin seria devasso comigo e tal pensamento me fez ruborizar.
Tomando este sinal como de meu valor donzelesco, Alyssa se desculpou, mas estávamos todo rindo. Nada estragaria aquela ocasião. À luz do sol das dez da manhã, porém, sem desconfiar que nossos inimigos entravam naquele território incontestavelmente, fui levada ao altar.
As portas se abriram. A família nobre e tantos outros aguardavam, mas meus olhos repousavam na augusta figura de Gwelin. Ele estava lindo, eu pensava, e um trocar de olhares com minhas irmãs nos fez dar risinhos baixos. Éramos jovens e somente nos preocupávamos com maridos. Na véspera da ocasião, falamos mesmo da consumação carnal.
“Doerá no princípio”, disse-me Catrina. “Mas não se preocupe, a prática torna melhor. E produzir bebês será tão prazeroso quanto dá-los à luz”.
“Você nem sequer deu à luz ainda”, riu Lyanna. “Infelizmente, querida irmãs, não posso dar minha opinião sobre o assunto.”
“É porque sua preferência está em outras pessoas, não é mesmo?” eu falei, arqueando as sobrancelhas antes de fazer todas nós rirem. “Lya, querida, nunca pensei que a veria ruborizar!”
Foi uma noite muito engraçada, deveras. Como o golpe de misericórdia dos deuses antes do pior...
Assim, fui deixada às mãos do esposo. Trocamos votos, mas antes de selá-los... A doce melodia do bardo parou abruptamente...e quando nos viramos para ver por quê, o choque passou pelos rostos de nós ao ver que sua garganta fora cortada. Os romanos adentraram nos salões e, em menos de dois segundos, havia um banho de sangue no salão. Gritos de dor, pedidos de socorro. Não sabia o que acontecia. Foi tudo rápido demais. Pensei que iria desmaiar, mas precisava fazer algo. De repente, só conseguia ver aquele que deveria ser meu marido no chão, sem vida. Minhas irmãs, não muito longe de mim, morreram. Meu pai... também. Sangue me ensopava a roupa e eu não saberia dizer se vivia ou não. Paralisada pelo choque, entorpecida pela dor, eu congelei.
Ainda hoje não sei dizer com precisão quando fui descoberta em meios aos corpos. Mas o romano que verificou que havia uma sobrevivente na carnificina do meu casamento, se apiedou de mim.
“Fique quieta”, ele falou. “Apenas me acompanhe se deseja viver”.
Sem capacidade de trespassar o trauma vivido, como um boneco, o acompanhei. Minha vida mudaria dali para sempre.
*                                                                           *                                                                      *
Meu salvador, ou captor, era um romano chamado Julius Tibetus e era quase quinze anos mais velho que eu. Alto, de ombros largos e forte, era sério, mas não desprovido de emoções. Seus olhos refletiam os meus azuis e a pele morena indicava a exposição ao sol. Seu nariz largo e a barba recém-feita me indicavam que fazia parte de uma nobreza guerreira. Mas nem mesmo isso me chamou atenção ou para o ruivo dos seus cabelos curtos que se escondiam sob o helmet.
Ele me levara longe do mais novo domínio romano e pediu a uma criada de confiança que me limpasse do sangue e vestisse roupas velhas. Para minha própria segurança, também tive minhas longas madeixas cortas à altura dos ombros. A tudo isso vi, sem reação.
Tibetus é como o chamarei daqui em diante. Ele me colocou à sua frente enquanto montávamos o cavalo. Tinha medo, e por mais que quisesse esconder dele, meu corpo me traía. Eu tremia.
“Sei que é muito pedir para se acalmar”, ele falou. “Mas estou fazendo o que posso. Vou tirá-la daqui.”
“Por que está fazendo isso?” perguntei e minha voz saiu rouca.
“Eles também fizeram o mesmo comigo”, ele respondeu friamente e eu não ousei fazer mais perguntas.
Foi uma longa jornada, as estradas eram feitas de paralelepípedo e isso dificultava cavalgar. No decorrer do caminho aonde quer que ele me levasse, eu não conseguia assimilar o trauma pelo qual passei. Quando parávamos para descansar, porém, acordava ouvindo gritos. Temia dormir. Em uma destas noites, Tibetus me fitou. Foi quando o silêncio pesou para ele, e o homem se viu obrigado a interagir comigo.
“Está tudo bem?”
Minha voz soava rouca quando tentei falar, provavelmente porque por três dias e três noites nada disse. Era como se estivesse com a garganta presa ao pescoço. Tibetus prontamente identificou a dificuldade e me ofereceu um copo de vinho. Agradeci e tomei a fim de emudecer minha garganta e meus lábios.
Vi que ele aguardava uma resposta minha, por isso respondi:
“O que acha?’
Não pretendia soar rude, mas estava exausta. Não conseguia liberar minha dor, meu luto, sequer os compreendia. Tibetus, porém, não se sentiu ofendido.
“Imagino que seja difícil confiar em mim. Enxerga-me como inimigo e não a culpo.” Ele suspirou, decidido a falar. “Vim de longe, mas sequer recordo-me de onde porque minha tribo foi escravizada pelos romanos e me tomaram para ser educado, instruído e letrado em Roma, na sede do império. Não sabia quem eu era, mas não me deixavam esquecer de que eu também era escravo e vinha de uma família de escravos. Penso que seja como você, celta, embora de outro lugar. Por que estou dizendo isso, deve estar se perguntando. Porque, lhe responderei, eu não quis que tudo aquilo se realizasse. Sou apenas mais um seguindo ordens. Não participei daquilo tudo, entretanto. Na verdade, era para tê-la matado. Não consegui”.
“Por que?” Questionei-o.
“Porque me apiedei. Os deuses são seres divinos, cuja natureza está acima da nossa”, ele comentou. “Por que permitiriam que aquele massacre ocorreria e justificar-se-ia que foi porque Marte mandou? Não creio que assim seja. Os homens são responsáveis pelo seu destino. Por isso não quis participar do deles”.
“Pagará caro por isso”, comentei, sentindo-me indiferente a deuses e a homens.
“Não me importo”, ele retrucou, “contanto que esteja a salvo”.
Lancei aquele homem um último olhar antes de devolvê-lo o copo de onde beberiquei o vinho. Suspeitava de suas intenções por instinto, mas em minha alma sabia que poderia confiar nele. De que outro modo teria escolha, porém? Desanimada, enterrei-me em mim mesma e por mais que tentasse fugir dos sonhos, os gritos me envolviam e eu acordava assustada.
Os raios do sol partiam a noite em seu amanhecer do dia seguinte. Fazia frio, eu não sabia onde estava e nem do que seria minha vida. Foi naquele momento que me senti desamparada. Murmurei uma prece para todos os deuses, sem distinção:
“Amados seres divinos, vós que sois responsáveis pela criação dos Homens, que me pusestes aqui entre eles, escutai o apelo de vossa filha obediente. Desconheço o motivo pelo qual me trouxestes aqui diante de todo sofrimento, e se devo agradecer por ter sobrevivido, me faltam forças para isto. Deveria ter acompanhado minha família, mas sigo sem pestanear a vossa vontade”.
Instantaneamente, obtive uma resposta. Alguns de vós poderão supor que havia “cogumelos” ingeridos logo de manhã ou qualquer explicação psicológica para que eu houvesse enxergado a deusa do amor diante de mim, na aurora. Mas não foi o caso. Ao contrário, uma guia espiritual que me acompanhava e trabalhava sob a aura de determinada divindade assim apareceu a mim como ela:
“Filha querida. Diariamente escutamos os gritos surdos de vosso coração. A dor é a causa primitiva para transmutações e sinto que preciseis testemunhar tudo isso para compreender. No entanto, vos asseguro que a morte não é o fim da linha. Venho acá confortá-la e prepará-la para o caminho a seguir. Sê forte, filha. Verte lágrimas para aliviar o peso de vosso coração. Estão todos acá, velando por vós em paz e tranquilidade. Confie no amor, tenhais fé. Nenhum sofrimento é eterno e diário”.
Suas palavras tocaram meu coração, dando-me o conforto que buscava, mas também permitindo que expressasse a angústia que sequestrava meu bem estar. Dessa maneira, pus me a chorar. Não porque precisava de uma prova de fé, mas porque ela me confortou. Os deuses não me deixariam sozinha.
Assim, Tibetus despertou em desespero ao me ouvir em lágrimas. Sei que o desconcertei, mas não me importava. Eu punha, afinal, minha dor para falar. Não me escondia mais. Sentia o luto para que pudesse seguir em frente. E ele percebeu, pois, movido pela compaixão, se ajoelhou e me abraçou.
Foi um gesto que, embora estranho a princípio, me enterneceu. Retornei o abraço e ali fiquei até que cessasse o pranto. Quando assim aconteceu, Tibetus disse:
“Sinto muito. Espero que me perdoe”.
Mas em meu coração não senti espaço para ódio, rancor ou vingança. Apenas tristeza. E foi o que eu disse a ele. Não havia necessidade de perdão, ao menos da parte dele, porque o que ocorreu... teve de ocorrer. Foi com o consentimento dos deuses para que nós nos fortalecêssemos. De algum modo, Tibetus entendeu.
Assistimos ao nascer do sol, mas após termos desfrutado do desjejum, pusemo-nos a seguir para um lugar que, segundo ele, seríamos bem acolhidos.
“Estamos no reino do norte, mas pretendia seguir ao sul. Londinium é populosa e lá poderíamos nos ajeitar sem sermos notados.”
Lancei a ele um olhar curioso.
“Está desertando do exército. Será mal visto por seus colegas”.
Tibetus deu de ombros.
“Nunca concordei com este tipo de matança. Às guerras, procurei lutar sem derramar sangue. Era tachado de covarde por isso, e me amaldiçoaram para Marte.”
Ele pareceu achar graça naquilo e, quando viu minha expressão de choque e perplexidade, ele riu. Admito que gostei de ouvir a risada do homem. Era um som que me aqueceu por dentro, que muito me recordava de que existia vida para ser vivida.
“Não o incomoda isso?” Perguntei, curiosa.
“Não, porque penso que os deuses sejam justos’, ele respondeu. “Minha vida está nas mãos deles e aceitarei o destino que lhos convir”.
Dali em diante, conversamos sobre deuses e destino, mas também sobre os lugares que Tibetus havia visitado. Ele havia lido tanto em livros que logo me contou de heróis antigos como Alexandre o Grande, que conquistou quase todo o globo.
“Diziam que era justo em sua governança”, afirmava Tibetus. “Ele inspirou os grandes feitos de Júlio César”.
Com espanto, ouvi-o compartilhar seu longo conhecimento sobre tais personalidades comigo. Aprendi tanto sobre o macedônio que construiu um império quanto sobre o ditador por ele inspirado. Soube também de Augustus, seu herdeiro, e o primeiro imperador de Roma. Ouvi falar de poetas como Ovídio, Homero e tantos outros. Havia dias em que pedia que me contasse e recontasse o apogeu e a queda de Tróia e que fim teve a rainha Helena de Esparta.
Era assim que eu reconstruía minha esperança e conforme o tempo passava, Tibetus se preocupava em me distrair dos pesadelos que ainda insistiam em me assombrar. Ele se tornou um cuidador. Eventualmente rumamos ao noroeste da Inglaterra, seguindo a entrar nos domínios de Gales. Com muito cuidado, seguíamos o caminho pelas montanhas para não chamar a atenção. De repente, foi por ali, entre Gales, Inglaterra e Escócia, que nós nos fixamos por alguns consideráveis meses.
De manhã, Tibetus caçava e aproveitava para fazer a ronda. Depois, insistia para que eu aprendesse a me defender. Mas nas piores tempestades, era preciso que arranjássemos um local com mais resistência e apropriado para ficarmos. Foi quando percebemos que, apesar da instabilidade local, o ideal seria residir próximo da muralha de Adriano. Contudo, na prática, ficamos entre uns povos do norte da Inglaterra que faziam fronteira com a Escócia. Estes eram o resultado de romanos e celtas, se assim se pode dizer. Sua cultura, entrementes, era um efeito desta relação quase antítese uma da outra. Seu panteão abrangia deuses greco-romanos como celtas e mesmo germânicos, seu modo de vestir contemplava quase completamente o vestuário romano para os homens (principalmente os mais fortunados) e “local” para as mulheres. A guerra, porém, era ainda mais mista. Aquela sociedade era a prova de que o dominador não era imune ao dominado e sua complexidade é difícil de ser transmitida.
Uma vez aceitos por aquele povo, tivemos de mentir sobre nossas identidades e assumimos ser casados. Ninguém perguntou. Contanto que contribuíssemos, tudo seguiria em paz. Por um instante pareceu que minha vida havia se estabelecido de novo.
Não foi um processo fácil. O trauma existia e seus efeitos também, como no medo de criar laços com outras pessoas e temer sair de casa para cumprir com tarefas simples. Nesse sentido, Tibetus contribuiu bastante para que um passo de cada vez era importante e olhar para o passado em nada ajudaria neste momento. Precisava superar, mesmo se demorasse anos.
Foi quando percebi que estava irremediavelmente apaixonada por ele. Notei que seu sorriso amarelado me transmitia calma e serenidade, o modo como me olhava como ternura me fazia feliz. Gostava de me fazer rir, e se esforçou para aprender minha língua tanto quanto eu a dele. Construímos confiança a partir de trocas pequenas. E foi quando percebi que, ao nos deitarmos, me sentia segura em seus braços. Ele sempre foi respeitoso quanto a isso, mas em virtude dos pesadelos, foi preciso que me acalmasse e já nos acampamentos durante o frio, era preciso que um abraço nos esquentasse. Mas percebi que desejava mais que isso. Não sabia se ele sentia o mesmo, mas fui inspirada a ser corajosa.
Assim, era noite quando ele havia retornado da caça com alguns dos companheiros da ‘cidade’, e eu o aguardava nervosamente à lareira.
“Como foi o dia?” eu perguntei, logo depois de ter preparado o banho de água quente. Observava os traços ao redor de seu rosto, o suor que pingava em torno de suas sobrancelhas.
“Cansativo”, ele respondeu. “Aproveitamos para cortar umas árvores a fim de fornecer mais lenha para os que dela precisam”.
Ele me agradeceu pela banheira quente enquanto se despia, mas não consegui sair dali. Ouvia-o dizer sobre que animal haviam caçado, enquanto meus olhos passeavam pelos músculos torneados de suas costas e algumas cicatrizes que marcavam sua pele. Imaginei quantas histórias estavam por trás delas.
E, no entanto, não ousei perguntar. Apenas fiquei ali e aguardei. Pelo que, não saberia dizer, mas creio que em meu íntimo torcia para ser notada. No fundo, as jovens no florescer desejam ser amadas, independentemente das circunstâncias. Sem me dar conta, era o que eu aspirava, já que eu o amava também. Perdida em minhas contemplações, sequer notei que, já na banheira, Tibetus me encarava, encabulado.
“Mas oras, senhora! Que fazeis aí?”
Corei e desviei o olhar.
“Perdoe-me, Tibetus. Eu...” Sem conseguir arranjar uma resposta adequada, porém, me virei de costas e fui me ocupar com o que quer que fosse, a fim de tirar de minha mente a imagem do corpo esculpido de Tibetus, dos seus sorrisos e do anseio em agradá-lo.
Mas ele era um homem esperto e perspicaz, atento aos detalhes como um guerreiro deveria ser. Uma vez terminado o banho, já limpo e vestido, ele veio a mim em nossos aposentos. Ali, me fitou e, com um leve sorriso brincando em seus lábios, disse:
“Deveria ter percebido isso antes. Venha a mim, Joan, por favor.”
Obedientemente, segui aonde ele estava. Tibetus mirou-me com seus belos olhos e, tomando minhas mãos nas dele, disse:
“Minha preocupação em mantê-la a salvo e com seu bem-estar constante me fizeram cego para o que estava diante de mim. Talvez já soubesse disso antes, mas não queria reconhecer pelo orgulho que me velou para a realidade. Em parte por mim, também temi no que poderia acontecer se admitisse a verdade. Desejo esposá-la perante os deuses para que vejam no sagrado ato do matrimônio o quanto a amo, Joan.”
Aquelas palavras me tocaram o coração. Martelava em mim o peso do trauma passado, mas, como se para se assegurar de que isso não interferisse no momento, ele me levou ao altar não muito longe de Juno, a deusa romana do casamento. Mesmo ali, presentes estavam os deuses greco-romanos que não nos abandonariam. Diante dela, fizemos nossos votos. Diante dela, proclamamos o amor que sentimos um pelo outro.
Naquela noite, consumamos o casamento. A união era firme e sólida, e toda noite repetíamos o ato. Não me cansava, nada me trazia mais alegria do que estar em seus braços. Éramos como um, e a felicidade parecia ter chegado no auge. Já contava dezesseis anos quando, afinal, concebi.
A princípio, o passado teria sido superado. Vivia a vida que almejei e planejava o futuro da criança que carregava em meu ventre. Se eu soubesse que aquela era a paz antes da tempestade, teria alterado alguma ação? Não sei responder esta pergunta mesmo hoje. De todo modo, não carrego nenhum arrependimento. Tibetus foi mais que mero cônjuge, foi o amor de toda uma vida.
Nota de Ogum: como vimos, Joan e Tibetus eram espíritos em expiação. Pela afinidade que nutriam desde o momento em que se conheceram, de fato, na primeira existência em ainda em outro planeta, era preciso que, a partir de comum acordo, passassem pelas provações mais duras para se atingir a “iluminação”. Não obstante, seguem juntos ainda hoje em trabalhos conjuntos no plano espiritual.
Nossa rotina era a mesma, segundo aquela que previamente descrevi. A cada manhã, nós cumpríamos diferentes funções e, não raro, o via somente pela noite ou ao crepúsculo. Nos cultos, já desempenhava o papel de assistente da sacerdotisa da deusa Juno, a quem nos foi jurado proteção. Este culto era reforçado pelas gravidezes da comunidade, a minha e de outra senhora chamada Lys.
Às vezes, instruía algumas das moças mais jovens na arte das ervas, transmitindo o conhecimento que possuía de tudo o que aprendi convivendo com as florestas em tenra infância. Ensinei poções (prelúdios do que são os chás em vossos dias) e tipos diferentes de cura para os mais variados ferimentos. Conversava com as mulheres mais anciãs e, mesmo no estágio mais avançado de gravidez, insistia em cuidar delas.
Recordo-me de ter conversado sobre a companhia das idosas com meu esposo em uma ocasião.
“Nada me alegra mais do que ser útil ao próximo. Recordo de que, em minha aldeia, aprendia bastante com minhas irmãs e as mulheres mais velhas sobre poções e todo o tipo de erva”, contei, alegre, ao revisitar memórias que não me doíam mais ser relembradas. “É possível mesmo curar com uma poção de ervas, sabia? Fiz isso esses dias com a senhora Dyurch. Ela sofria de um mal de estômago e quando descobri uma folha de propriedades similares ao boldo, prontamente apliquei junto ao vinho quente e no dia seguinte ela me contou melhoras!”
Tibetus sorriu a mim, sua face se iluminando conforme compartilhava de meu dia. Aquele era um homem de coração bom e puro, que sabia ouvir.
“Isto é ótimo. Se continuar assim, teremos uma sábia em nossa família”.
Senti meu rosto queimar diante de seu elogio e ele riu.
“Sois linda quando enrubesce”.
“Não seja tolo”, eu o repreendi entre risos.
Naquela noite, ele me abraçou forte e o mesmo pressentimento daquela ocasião me abateu. Dei por mim aflita e falei:
“Amor, creio que deveremos partir”.
“Hm?” Ele estava quase adormecendo quando o cutuquei nas costelas a fim de ter sua atenção. Quando me viu nervosa, rapidamente a obtive. “O que foi? O que há de errado?”
“Estou com o mesmo pressentimento daquele dia... do meu casamento”, engoli em seco. “Sinto que algo de ruim acontecerá amanhã. Precisamos nos precaver”, falei nervosa.
A urgência em minha voz o despertou.
“O que quer dizer com isso?” Mas sem esperar minha resposta, ele disse: “Joan, acalme-se. É o trauma ressurgindo em um pesadelo. Está ansiosa porque o bebê se agitou em seu ventre, mas dará tudo certo. Você confia em mim?”
Meus olhos vertiam lágrimas e meu corpo tremia. Tibetus me cobriu com seu corpo, delicadamente, e beijou minha testa quando fiz que sim com a cabeça.
“Confie nos deuses, meu amor. Nossa criança nascerá saudável, você verá. Nada de mal acontecerá”.
Assenti com a cabeça, mas, antes de partir para o sono, sabia que não havia como fugir do meu destino. Assim, o aceitei.
*                                                                    *                                                               *
As parteiras foram chamadas assim que minhas contrações começaram a incomodar. Deu-se início ao trabalho de parto, e apesar de insistirem que a presença masculina em ambiente feminino como naquele momento sagrado era má sorte, insisti que Tibetus estivesse ao meu lado.
Tudo parecia correr bem, embora fosse um parto trabalhoso e cansativo. Meus medos pareciam infundados e o sorriso de Tibetus ao meu lado me tranquilizava... Mas tão perto o bebê estava a finalmente nascer quando ouvimos sinais de lutas. Antes que pudesse me conter, dei um grito.
“Acalme-se, amor. Verei o que...”
“Não!” Eu o puxei para perto de mim. “Fique!”
Como da última vez, marcharam os romanos para dominar o ambiente a ferro e fogo. Melhor dizendo, a aço e fogo. Suas espadas ceifaram vidas inocentes e por mais que eu implorasse, também tiraram de mim qualquer auxílio que as parteiras pudessem dar. Vendo que eu sangrava com um bebê recém-nascido em meus braços, hesitavam no que fazer.
“Piedade, senhores!” eu gritava mesmo sabendo que não entendiam o que dizia. “Piedade, eu imploro!”
Meu marido prontamente se pôs a me defender, mas sua garganta foi cortada. Como ocorrera com meu prometido dois anos atrás. Seus olhos me pediam perdão antes que sua vida dissipasse deles.
Desta vez, ninguém me viria em socorro. O homem, vendo que uma poça de sangue se formava ao meu redor, decidiu que aquilo bastaria. Eu me enfraquecia, era verdade, e meu corpo estava exposto à infecção. Cercada pelos mortos, em breve me juntaria a eles.
“Ajude-me, por favor!” eu berrava, mas aqueles centuriões me largaram para trás. Começaram a queimar tudo o que me era caro, deixando para trás os mortos que eu amava.  Tentei alimentar meu bebê e aquecer seu corpo que esfriava cada vez mais, mas... ele também logo partiu para o plano espiritual. Estava, assim, sozinha. Enlouqueci na dor e gritei. Chorei. Agarrei ao meu esposo e ao meu filho, sentindo que a vida se esvaía. O fogo se aproximava, mas não o temia.
Foi quando o vi ao meu redor. Acompanhava-o um menino de cabelos louro-arruivados, de cerca de uns sete anos, e olhos tão azuis quanto os meus. Sorria-me com um sorriso infantil. E chorei porque o identifiquei. Meu menino, pensei, que nunca cresceria. À época, em meio ao terror que me abatia, eu não compreendia.
“Não seja dominada pelo sofrimento, minha amada princesa”, a voz doce de Tibetus me tranquilizava o espírito. “Venha conosco, está na hora de partir. Não se martirize, veja que aqui estou com nosso menino, e sua família deseja reencontrá-la”.
“Tenho medo. Perdoe-me pela fraqueza”, solucei enquanto me deitava no sangue ao meu redor.
“Está tudo bem. Não sentirá mais dor se apenas se permitir”, ele tocava minha testa e fazia carinho. Mesmo assim eu chorei. “Eu a amo, minha cara Joan. Amei-a no passado, no presente e seguirei amando-a no futuro. O amor é infinito. Crê no que digo?”
“Sim”, e afinal eu compreendia. “Eu o amo. Estou cansada...”
“A febre está avançando, mas ela impedirá que sinta mais dor. Durma, é apenas um sonho. O sofrimento é mutável, não é permanente.”
Segurei em sua mão e, assim, aquiesci. Em meio ao calor do ambiente, tornei a dormir para não mais despertar. Não senti as chamas tocarem meu corpo porque, em sua misericórdia divina, Deus concedeu que meu espírito deixasse o corpo momentos antes da explosão de fogo.
Quando abri os olhos novamente foi no chamado de meu esposo. Tibetus me aguardava e meu filho, meu menino, estava ao seu lado. Abracei-os para em seguida ser recebida pela minha família.
Atualmente, sigo trabalhando no plano espiritual tendo optado por atuar na colônia “Nosso Lar”. Todavia, em breve seguirei para Júpiter junto ao meu amado Tibetus para que possamos auxiliar no adiantamento moral de algumas sociedades daquele planeta. Meus agradecimentos à médium pela atenção, dedicação e boa moral como índole ao transcrever esta memória sem julgamentos morais.
De sua querida irmã e amada amiga,
Espírito Joan.





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