terça-feira, 5 de maio de 2020

Cemitério do Caribe

"Bom, não sei por onde começar. Meu nome é... era...Sarah Borges. Nasci na Escócia de muitos anos atrás, séculos mesmo. Se não me falha a lembrança... Se tratava do século XVII. Sim, agora me recordo bem."

(Nota da guia de Oxum: esta moça se liberou das energias umbralinas apenas recentemente, por isso peço encarecidamente que haja paciência com ela. Afinal, suas memórias, embora resgatadas, se apresentarão fragmentadas em alguns pontos. Se, no decorrer da história, ela apresentar maior coerência, terá sido por mérito de ambas.)

"Como dizia, nasci em 1603 na Escócia. Ao sul dela, mas não consigo lembrar bem de onde. Recordo de meus pais, porém. Seus nomes eram Anthony e Mary, éramos muito católicos como se pode atestar. No entanto, o reinado do rei James provaria ser muito conturbado para nós, denominados papistas. Sua intolerância era preocupante, mas para tudo havia solução. Principalmente no campo, onde a gente morava. Ali, todos se ajudavam, auxiliavam....
No entanto, estávamos em guerra ainda com a Espanha e muitas coisas ruins dali se sairiam desde a morte da velha rainha inglesa. Uma delas resultou na maior presença de corsários espanhóis na costa. E isso me custaria a vida, metaforicamente falando. Era a filha mais nova de uma família pobre, tinha dois irmãos mais velhos. O primogênito, James, foi enviado à Igreja e o segundo, Thomas, seria o herdeiro dos negócios da família. Quanto a mim, minha mãe somente esperava que um arranjo adequado me enriqueceria e tiraria a todos nós da pobreza. No meio tempo, era educada para ser uma esposa apropriada: minha senhora mãe ensinava a tecer, cozinhar, reger uma casa. Todo domingo, na pretensão de visitar um amigo, descíamos ao porão da casa deste para assistir à missa. Em seguida, retornávamos e líamos a Bíblia. Meu pai, porque nem minha mãe ou eu tínhamos condição de ler ou escrever em língua materna quanto mais em latim! 
Apesar de tudo, tive uma infância feliz. Recordei dos esforços de minha mãe em esconder os efeitos da pobreza de nós e... (Nota de Oxum: se ela chora, é para limpar-se também. Aproveito a oportunidade para adiantar que ela aceitou trabalhar sob esta linha, por isso a médium a vê chorando sob minha tutela)...e, bem, ela brincava conosco. Nossa casa era simples, pobre mesmo em sua construção de pedra sobre pedra. Segundo meu pai, mantinha-se assim desde duzentos anos antes, quando seu tatataravô dali se estabelecera depois de atravessar o norte da Irlanda. Com ele, não somente construiu uma casa preservada pelos descendentes como superstições não tão cristãs. Uma delas dizia respeito aos leprechauns. 
--Você precisa colocar uma moeda de ouro toda noite em um pires ao lado de um copo de leite. Ele a protegerá e jamais deixará se empobrecer.
Outra referia-se às fadas. Meu pai uma vez contou que eram como nós, seres humanos, porém pequeninos, podendo ser tanto homem como mulher cuja missão visava nos orientar a fazer o bem.
--No entanto, eles se alimentam de nossas preces. Se esquecermos tais criaturas, elas serão esquecidas e assim perderemos sua magia.
Meus irmãos, é claro, achavam aquilo tudo uma besteira. Havia também os duendes sobre os quais meu pai se divertia em me contar quando James e Thomas se achavam adultos o suficiente para cobrir suas orelhas de "heresias". Eu nunca dei importância para essas balelas que a Igreja Católica convenientemente chamou de "heresia". Desde criança, entendia tudo como parte da cultura irlandesa que minha família soube conservar. E adorava. Mas temia os maldosos duentes.
--Eles podem pregar peças e sumir com suas coisas se não oferecer moedinhas no canto da casa.
--Nossa, eles devem ser amigos dos leprechauns porque amam um ouro!
Apesar disso, acreditava piamente neles tanto quanto nos santos da Igreja. Quando sobrevivi à infância e completei doze anos, eu estava a começar a deixar de lado estas histórias até que um dia, voltando do mercado da cidade com uma cesta de pães e frutas, um homem alto de cabelos ruivos e vestes verdes se aproximou:
--Bom dia, senhora! Por onde estás indo?
Em minha inocência e me esquecendo de que não deveria falar com estranhos, mas igualmente achando a presença daquele ser calorosa, eu o sorri e disse:
--À casa, oras! Voltei do mercado!
--E como foi por lá?
--Muito bem--e contei dos vizinhos, e de como orgulhosamente cumpri com as tarefas que minha mãe designou.

(Nota de Oxum: o "leprechaun" em questão era um guia dela, um guardião à lá Exu).

--Gosto da sua coragem. Está amadurecendo.--e, como um enigma, acrescentou--O que pensa do futuro, mocinha?
--Nada sei, exceto esperar um casamento adequado--eu contei sem dar qualquer importância às suas palavras.
--Não quer mesmo pedir algo para você?
Arqueei as sobrancelhas diante de seu indagamento, e se por um segundo temi que estivesse diante de "Satanás", em meu íntimo suspeitava de algo a mais. Isto é, e se aquele homem fosse um leprechaun? Minha consciência debatia, mas eu não estava parada para ouvir seu julgamento final já que havia tarefas aguardando serem cumpridas. E, no entanto, aquele estranho me acompanhava.
--Sabe, gostei de seu coração puro. Mas você está muito presa ao material.
Não dei muita importância às suas palavras e por que deveria? O rei James perseguia os católicos, não somente isso como havia uma verdadeira caça às bruxas. Se fosse vista falando com alguém que, eu percebia, ninguém mais via, então poderia arrumar problema para mim. Uma vez o ignorando, ele desapareceu de minha vista e agradeci a Deus por isso.
Quando cheguei em casa, porém, dei de cara com meus pais arrumando as coisas. Havia uma urgência no ar que prontamente me assustou.
--O que está acontecendo?
--Temos de partir--meu pai falou.
--Para onde vamos?--exclamei, preocupada.
--Para ao sudeste da Escócia. Lá teremos paz--explicou minha mãe.
Logo, soube que havíamos sido descobertos e o conde de Buckingham foi o responsável por varrer nossas terras de cultos considerados impróprios. Recordo-me de tê-lo ouvido gritar a quem quisesse ouvir que os papistas deveriam conhecer a morte se acaso se recusassem a submeter a lei do rei. Os covardes logo se submeteram, mas os mais corajosos morreram com sua fé. Em todo o caso, fugi. Talvez fosse uma covarde também, não sei dizer. Mas aquela fuga me custaria muito.
*                                                                              *                                                                            *
A viagem havia sido longa e lembro de ter visto o rapaz ruivo ao lado de fora. Exclamei, assim:
--Oh, mamãe! Vê o moçoila ali fora? Ele está rindo de nós.
Na carruagem, minha mãe pôs o rosto contra o vidro, mas não viu nada se não capim verde enfeitando os morros enlamados onde o vento rugia e as ondas do mar, lá embaixo, batiam contra as pedras.
--Perdeu o juízo, Sarah? Não há nenhum louco lá fora que ousasse ir contra a tempestade.
--Mas eu o vi--insisti.
Thomas, motivado pela curiosidade de saber o que se passava, copiou o gesto de nossa mãe, mas sacudiu a cabeça e falou:
--Não há nada lá fora.
Uma vez que duas pessoas tiveram um julgamento melhor do que eu, concordei que estava errada. No fundo, porém, não aceitava aquilo. O ruivo ria e me acenava, mas limitava-me a observá-lo.
Enfim, quando chegamos na cidade próxima ao mar... as coisas não poderiam ser piores. Uma tempestade pairava sobre nós como se tivesse nos acompanhando e, para piorar, demos de cara com uns espanhóis que invadiam a terra que não lhes pertencia. Tentamos nos esconder, mas éramos recém chegados. Para a eterna tristeza de minha mãe, porém, fui sequestrada. Não me recordo dos pormenores, era criança. Mas das palavras do leprechaun eu lembro bem. Ele disse:
--Não se preocupe, Sarah. Estarei com você.
Rezava para que pudesse ter um galeão de ouro e um copo de leite para onde quer que estivesse indo se acaso me deixassem viva. E Deus certamente me pôs em sua misericórdia, pois cheguei ao navio são e salva.
*                                                                                 *                                                                         *
Aqueles homens eram piratas. Sujeitos sujos que mais pareciam maltrapilhos de bafos fedorentos e sem boas maneiras. Além de serem pagãos. Na verdade, minha perspectiva estava maculada pelo pré-conceito xenófobo a que fui criada em meus tempos, pois tanto os escoceses quanto os ingleses detestavam os espanhóis. Que dizer de piratas que vinham de lá?
Mas a realidade era diferente. Lembro do capitão gritar em sua língua nativa (que eu viria aprender meses depois):
--TROUXE UMA MULHER À BORDO? NÃO É POSSÍVEL QUE TE FALTEM MIOLOS. PEDI QUE TROUXESSE GALEÕES DE OUROS E HOMENS SE POSSÍVEL.
--Não vi que se tratava de uma menina, senhor--o meu abdutor se defendeu--Estava uma confusão. Não contávamos que os habitantes da cidade fossem se defender com tanta ferocidade.
O capitão, um homem por volta dos quarenta anos, era forte, usava um chapéu "dobrável" preto e roupas velhas. Era forte e carregava tatuagens nos braços em formato de caveira; em seu rosto, cicatrizes diversas enfeitavam-no e no sorriso que se podia ver entre os berros dirigidos ao infeliz subordinado, via-se poucos dentes e alguns mais dourados. Seus olhos eram castanhos, embora pudesse ver que um fosse menor que o outro. Mais tarde, descobriria que isso foi resultado de um ataque violento (e malfadado) à Companhia das Índias. Seu nome era Jack, mesmo que fosse hispânico.
--NENHUMA CONFUSÃO É CAPAZ DE FAZÊ-LO CONFUNDIR UM HOMEM COM UMA MULHER, CABALLERA!--e aquele, eu descobri, era o nome do infeliz captor que me trouxe à bordo--VÁ E SAIA DA MINHA FRENTE, NÃO QUERO VÊ-LO OUTRA VEZ, SEU ESTRUPÍCIO.
Uma vez que ele arfava de raiva, aprendi a temê-lo. Na verdade, temia a todos os homens, mas, curiosamente, nenhum deles me encarava (porque, diriam-me depois, uma mulher no navio traz má sorte). Enfim, o capitão se atreveu a me encarar, uma moiçola que ainda não havia sangrado, de cabelos negros como a noite e olhos como o mar.
--Muito bem. Já que terminamos de saquear sua cidade, parece que agora fará parte de nossa tripulação--ele gritou "SILÊNCIO" para os que ousaram murmurar ou mesmo contestar sua ordem--Como devo chamá-la?
--Sarah--falei, sem saber de onde havia surgido essa coragem, já que nunca estivera em presença majoritariamente masculina antes e era tímida por natureza.
--Muito bem, Sarah. Sou o capitão Jack. Está no navio de... (Nota de Oxum: ela não se lembra do nome da embarcação). Agora, pertence a nós.
--Está me escravizando?--exclamei, horrorizada. Não sabia o que me surpreendia mais: seu sotaque pobre em inglês e sua gentileza ou a constatação que havia acabado de fazer, resultando em um estrondo de gargalhadas pelos homens presentes.
--Depende do seu comportamento--ele decretou, antes de ameaçar a tripulação que se tocassem a mão em mim, haveriam de ver.
No final das contas, por mais assustada que estivesse, não havia o que poderia fazer. Apenas ousei perguntar:
--Posso pedir algo?
O capitão ergueu a sobrancelha, curioso.
--Depende. Mas diga.
--Posso continuar minhas preces?
Ele deu de ombros.
--Se for uma menina obediente, poderá manter sua fé se isso a preocupa tanto.
Nada respondi, embora em meu íntimo me sentisse aliviada por saber que se rezasse direitinho, minha alma seria salva. No entanto, quanto mais tempo passaria naquele navio, menos este pensamento me assombraria às noites. Logo, eu tomava em espadas e o co-capitão da embarcação me ensinava a lutar.
--Seja ousada!--gritou ele--Ande! Seja como Grace O'Malley! Já ouviu falar dela?
Sacudi a cabeça.
--Não, senhor.
--Acaso é burra?
Antes que respondesse, ele disse:
--Grace foi a rainha dos piratas irlandeses há uns bocados cinquenta e poucos anos. Era respeitada por todos nós. E lutava como podia, como um homem!
Pensei por que lutar como mulher seria ruim, mas depois me recordei de que nós, mulheres, tínhamos a fama de ser fracas e pecadoras como Eva. A vida no navio me mostraria diferente. Na verdade, capitão Jack se tornou como um pai para mim, e ouso dizer que até mesmo melhor do que aquele que me deu à vida. Era atencioso, me ensinou as maneiras de uma vida no mar, colocou seus homens confiáveis (como o co-capitão que se chamava Hurley) para me instruir na auto-defesa e, assim que sangrei nos meus dezesseis anos, prontamente me pôs para saquear aos lados dos homens. Havia me afeiçoado a eles, e eles a mim: éramos como irmãos.
Logo, dominava a língua espanhola e deixava ao passado meus dias como escocesa católica. Gostava da liberdade e, embora alguns traços de timidez ainda persistiam, não era mais tola. A coragem me fazia mulher e não muito tempo mais tarde, era a segunda no comando. Dos dezesseis aos dezoito anos, saqueamos regiões próximas ao Caribe. Ali, entramos em guerra com outros piratas. Aquela região era rica em minério, ouro, prata e era apenas natural que atraísse tantos corsários que desejavam enriquecer.
Uma vez, na taverna, bebia cerveja com meus companheiros. Hurley, que era mais ou menos uma década mais velho que eu (e sua aparência desgastada pelo mar indicava ao menos mais dez anos), contava suas desventuras:
--Já fui às Índias antes do capitão Jack me contratar! Lá era temido, sabiam? Um fora da lei.
Todos nós ríamos.
--Aumentando um ponto sempre que conta um conto--retruquei, arrancando mais gargalhadas de nossos companheiros.
Hurley fingiu-se ofendido pelas minhas palavras.
--Oh cara donzela, desculpe-me se sua palavra é o martelo de Deus que determina a credibilidade do que conto.
Mas Sam, o Gordo, falou em minha defesa:
--Deixa de ser idiota, sabemos que gosta de contar mentiras de vez em quando. O fora-da-lei daqui era Dan, o Burro. Que de Burro não tem nada.
E todos nós ríamos, mesmo o orgulhoso Hurley. Dan, o Burro, era um irlandês católico que havia escapado da forca (condenado, segundo ele, por uma ofensa qualquer, ridícula, contra a figura régia do rei James e acabou indo parar na Espanha) e conquistou o respeito do capitão por ter roubado da Igreja espanhola sem que fosse percebido. Não era protestante, mas gostava de dizer-se "pagão". Ríamos dele, claro, porque, como Sam, o Gordo afirmou, ele podia ser tudo menos burro.
Nossas aventuras cotidianas consistia em dois meses no mar, algumas semanas na terra. Saqueávamos. Bebíamos. Fazíamos matreirices. Vivíamos a vida sem compromisso. Éramos livres e nosso destino não pertencia a ninguém. Apesar de conviver com aquele bando de bêbados, eles me protegiam. Eventualmente, era vista como a filha do capitão Jack. Éramos bem heterogêneos: eu era a única escocesa, mas havia dois irlandeses e dois ingleses; quatro espanhóis, dois portugueses e até mesmo um francês.  No final das contas, era minha família e talvez eu mesma estivesse esquecido da outra.
Não me ocorria que, ao pilhar outras terras, me incorria ao erro. Que ao roubar, persistia no erro. Que ao beber, me apegava à carne. Alimentei tais vícios por anos e anos a fio numa falsa ilusão. Esquecia-me de alimentar o leprechaun e eventualmente o esqueci. Não percebi o que estava fazendo. Mas, não se enganem como eu me enganei: para tudo há um grande custo. A lei do retorno é infalível.
O ano era 1633. Havia se passado trinta anos desde meu nascimento e somente depois dos vinte e cinco comecei a me envolver com homens. Talvez mulheres também. Não me importava, na verdade, contanto que continuasse no eterno prazer. Foi quando percebi que vivia uma vida... vazia. De repente, tomava consciência disso. (Nota de Oxum: foi um trabalho em conjunto dos guias desta moça porque, todas as vezes em que adormecia, seu espírito estava sendo atraído às zonas umbralinas mais densas do que quando esteve em seu desencarne).
O capitão Jack ainda vivia quando testemunhamos a ascensão da marinha britânica, que em breve dominaria os mares. Também não nos escapou o poderio marítimo dos holandeses que competiam com os países ibéricos. Houve uma guerra nos sete mares e ninguém se importava de que lado estavam os piratas desde que escolhessem o lado correto. Jack determinou que lutássemos pela bandeira espanhola e, de repente, nos tornamos mercenários. Começamos a brigar entre nós por causa disso. Sam, O Gordo uma vez gritou:
--Nós somos homens livres! Respondemos apenas aos mares, e à mais ninguém. O ouro é nosso, tomamos e damos conforme nossas próprias leis e não a dos outros.
Dan, O Burro concordou:
--Se nós nos envolvermos nisso, seremos feitos gato-e-sapato por esses poderosos. Eles terão o controle da nossa vida e da nossa morte, capitão.
--Basta!--gritou capitão Jack, sempre autoritário--Farão o que eu disser que farão!
Mesmo então eu deixava a discussão para os homens. Nunca gostei muito disso e naquela época sentia falta do conforto. Comecei a me lembrar de casa, da vida feliz que costumava ter ao lado da minha família. Tecer, reger uma casa não eram assim tão ruins. Rezar me confortava. Prestar obrigações à Jesus, ter o colo de Maria e participar dos festejos católicos... Tudo aquilo começava a voltar com força.
Todas às noites, desde que a guerra dos mares se deu início, me via ao estibordo, sozinha, contemplando as estrelas. Passei mesmo a me perguntar se teria tomado a decisão certa em ter me permitido tornar-me pirata e não... não ter buscado regressar à vida casta outrora vivida. Hurley, o co-capitão, de quem me tornei próxima, veio sentar-se ao meu lado neste dia. Por ora ficamos em silêncio até ele comentar:
--O que te aflige, menina?
Sorri.
--Sou tão fácil de ler?
--Conheço-a desde seus treze anos quando chegou aqui. Sou mais observador do que muitos poderiam dizer.
Não sabia se podia confiar nele, algo que me surpreendeu. Não tinha percebido que possuía dificuldades de confiança desde minha juventude. Tal percepção me atingiu como um golpe de espada.
--Já se perguntou do que seria a vida se tivesse tomado outro caminho?
Hurley pareceu ponderar. Nunca soube exatamente como havia se tornado pirata. As histórias se confundem, mas é assim que é.
--Não. O passado é o passado porque não há nada que podemos fazer para mudá-lo. Todavia, o futuro... Este permanece em branco, aguardando a pena ser molhada no tinteiro para que seja escrita.
Percebi que me lamentava por permanecer obscura ao desconhecer os estudos, as letras, e constatei, num lampejo de consciência, que tudo o que fiz foi fugir de minha vida. Foi quando o revi. O leprechaun e quase chorei quando ele apareceu.
--O que foi?--indagou Hurley.
--Nada--menti--Por favor, me deixe sozinha.
Meu companheiro de espadas e irmão assentiu com a cabeça e se foi. O leprechaun apareceu diante de mim e disse:
--Até que enfim despertastes, senhorita. Por quanto tempo dormistes?
--Não sei o que quer dizer--retorqui, evitando encará-lo nos olhos.
Mas o belo ruivo riu. Não de deboche, embora tampouco houvesse humor em sua risada. Algo nele me compeliu a encará-lo.
--Claro que sabe, não sois estúpida. Na linguagem de vossos companheiros, "tens miolo a pensar".
Ruborizei e mal humorada, encarei o outro lado. Ainda assim, ali próximo de mim, ele tornou a se sentar.
--Vamos lá, esta vida a faz feliz? Persistirás em vosso orgulho?
--Não fale assim comigo--tentei comandar, mas minha voz fraquejou.
No entanto, o leprechaun me encarava com seriedade, ainda que sua voz evocasse bondade e familiaridade. Como um pai que repreendia a filha pelo mau comportamento.
--Não sejais tola, Sarah. Ainda há tempo de escapar a perdição.
E, como num impulso, explodi em lágrimas:
--Você se esqueceu de que fui trazida aqui contra minha vontade!
--É verdade--ele concordou--mas você tomou gosto pela coisa.
--E que outra escolha eu tinha?
Ainda sério, ele disse:
--Há sempre escolhas. Sempre. Poderia ter-me chamado, evocado, o que quer que pense. Esqueceu vossa família, vossos amigos, vossa fé. Adotou como companheiros e irmãos, espíritos perdidos em desgraça e desregramento. Se estivesses, de fato, feliz, por que o vazio a toma como garantida?
Engoli em seco. Palavras duras que martelavam minha cabeça. Fechei os olhos, mas ele continuava falando.
--Cometestes tudo a que, um dia, repugnastes. Seduzira quem não deveríeis ter seduzido, roubara o que não vos pertencia, matara inocentes, e pelo orgulho subjugastes tantos outros à vossa vontade. Preciso falar mais?
Abri os olhos e o encarei, sem perceber que chorava.
--Por favor, não.
--Não, filha, eu vou dizer--ele prosseguiu--Traístes os que vos acolheram aqui, recusastes o treinamento, foi contra todos os ensinamentos de vossa mãe. Sequer pensastes nela? Se vive, se morre, isto vos ocorreu? Não. Não quis aprender a ler, a escrever, a instruir-vos porque, dada à indolência, acostumou-vos a obter tudo o que desejava de maneira fácil. E, entretanto, todas as noites é dada à prantear pelo amor que nunca conhecera. Satisfazeis-vos com fornicação para não ouvir a dor que vem infligindo a vós mesmas. Que liberdade é essa pela quais luta? Sois criança que permaneceis presa ao medo de outrora. Não percebeis? Acorda, Sarah. Acorda!
--SAIA DAQUI!--eu berrei, trazendo à mim a atenção de Hurley.
--O que houve?
--Nada--menti, ríspida--Deixe-me enlouquecer em paz.
Hurley me lançou um longo olhar, mas me respeitou. Nas noites seguintes, mal trocávamos palavras. Na verdade, sequer dormia direito. Tinha pesadelos, perdia noção do tempo. Tudo estava ruim. O conforto, as alegrias... Nada mais eram que reflexos da carne. Até que um dia fomos traídos pelos espanhóis. Ou teríamos sido nós os primeiros a trair a barganha que, contra a vontade de sua tripulação, foi assinada pelo capitão Jack? Que importa se os erros estavam ali?
Bem, voltávamos ao Caribe porque ali havia um porto confiável para abastecer. Poderíamos comer nas tavernas de sempre, envolver com prostitutas, beber rum barato e celebrar pelas praias até o amanhecer. Mesmo pensar naquilo já me revirava o estômago. As palavras do leprechaun martelavam contra minha consciência. Ninguém desconfiava o que acontecia comigo, se é que eles se preocupavam em saber. De todo modo, quando chegávamos lá... Nossa embarcação foi atingida. Canhões, de repente, vinham em nossa direção. Foi tudo desesperador, muito rápido. Egoísta como era, vi minha chance de escapar. Afinal, homens como Sam, o Gordo e Dan, o Burro, ao verem a chance de derrota eminente, pularam no mar.
Mas estávamos encurralados e percebi que ainda que lutasse contra todos os homens, seríamos derrotados. Mortos, o que é pior. Meu orgulho martelava meu coração, dizia para acompanhar meus irmãos de aço na morte. O que está morto não pode ser morto. E, entretanto, quem era eu? Não sabia mais. Meu "pai" adotivo, Capitão Jack, me traiu na primeira oportunidade antes que pudesse fazer algo. Batalhávamos e foi quando ele me jogou aos corsários (que, mais tarde, descobriria serem espanhóis) em troca da própria vida. Não adiantou, fomos presos. Contudo, um dos homens de branco e faixa vermelha pediu para ter comigo no convés.
--Mas ela é uma traidora--eu os ouvi dizer em espanhol. 
--Basta--pelo tom de voz dele, gentil, embora firme ao mesmo tempo, supus se tratar de um capitão. O nome dele, me recordo, era Fernando. Vinha de uma região de Castela, mas descendia de nobres aragoneses. Apaixonado pelo mar, ele foi instruído nas artes da navegação em Lisboa e agora liderava uma esquadra ibérica (isto é, portuguesa e espanhola, visto que as duas foram unidas sob uma mesma cora de Felipe II, rei espanhol, em fins do século XVI com a morte do último rei de Avis. Sei disso porque me permitiram recordar uma vida pregressa, a qual havia atuado junto à dinastia Avis nos tempos de Isabel de Castela).
Fernando Assis era seu nome. Alto e esbelto de ombros largos, seus cabelos eram tão negros como o meu, porém muito mais curtos e lisos. O rosto estava manchado pela exposição ao sol, o que indicava experiência em alto mar, e seus olhos verdes eram perigosamente atentos. O nariz longo me parecia indica traços de ascendência italiana e os lábios carnudos estavam ressecados. Em torno de sua face, uma barba mal aparada enfeitava-o, e eu me pus a imaginar se seria mais bonito de olhar sem ela. De todo modo, não queria admitir, mas me atraí por aquele homem.
Enfim à sós, ele fechou a porta por trás de nós e, polidamente, me pediu para sentar enquanto eu tomava meu lugar. Lancei a ele um olhar desconfiado porque não podia ser aquele homem tão ininteligente assim.
--Sabe que posso escapar--comentei diante do convite dele, ciente de que a porta não havia sido trancada.
--Sei também que pode me matar--ele respondeu, me encarando sem medo, o que me fez ruborizar--Não fugirá porque há homens meus do lado de fora, e aqui não há janela fácil de manusear se acaso desejar escapar depois que tirar minha vida. Vejo apenas percalços para você.
Soltei um suspiro mau humorado, mas tornei a me sentar. Nada falei, então dom Fernando aproveitou e tomou a oportunidade para si:
--Sabe, senhora, tenho-na estudado desde o momento que minhas fragatas destruíram seu navio e posso afirmar que está mais perdida do que os outros.
Ofendida, levantei o olhar e rosnei:
--Para alguém de sua posição, é um tanto burro.
Ele riu e eu me enfureci, mas um gesto de mão dele pediu por paz. Pelo canto do olho, observei o leprechaun ruivo e eu me perguntei se aquilo teria sido obra dele. Ainda que fosse, eu pensei, seria merecedora porque faltei com ele muitas vezes. E isso me envergonhou, fazendo-me cessar o comportamento infantil.
--Não precisa ficar na defensiva, estou apenas tentando conversar.
--Da mesma maneira como fez com meus irmãos de aço?
--Eles a traíram, senhora. O capitão a vendeu para que poupasse sua própria vida. Os piratas são o que são: pensam em si mesmos.
Diante disso, não soube contra-argumentar. Senti o olhar do leprechaun pesar sobre mim e só pude sentir a vergonha aumentar. Ignorante do que se passava comigo, dom Fernando prosseguiu, gentilmente:
--Poderia conhecer o seu nome, senhora?
Hesitei.
--Não vou fazê-la mal. Prometo--ele jurou e eu senti sinceridade na voz dele. Quase me enterneci diante daquele tratamento. Homens e mulheres conheciam-me por rudeza e me tratavam na mesma moeda. Não estou reclamando, mas eu me ressentia disso. E estava exausta de tudo isso.
--Pode me salvar da força?--eu me ouvi perguntar, minha voz falhando ao falar e eu me amaldiçoei por isso.
--Posso tentar--ele respondeu vagamente, como se isso também dependesse de meus esforços.
--Muito bem--suspirei--Sarah é o meu nome.
--Sarah, meu nome é dom Fernando Assis de Borges, capitão das fragatas ibéricas--ele se apresentou tão galantemente que eu ruborizei novamente e me peguei pensando quantas mulheres seduzira desta maneira.--Atuo diretamente sob as ordens do rei de Espanha e Portugal, Felipe IV. Sarah, eu vejo pelas suas feições e pelo seu sotaque, que não é daqui.
Embora de má vontade, concedi e disse:
--Sou escocesa--e, relutantemente, acrescentei--Católica.
--Católica?--ele repetiu, divertido--Não me parece que piratear seja um ato cristão.
Aquela reprimenda era verdadeira, e isso me atingiu no âmago. Ouvi o leprechaun rir e eu me irritei. Por isso retruquei:
--Que entende por isso se seus companheiros mataram outros homens em navios? Matar outros cristãos não o faz mais cristão que eu apenas por servir a um rei.
É verdade que eu tinha a intenção de irritar dom Fernando, mas quando percebi que falhei, me frustrei. Na verdade, isto era uma forma de me autosabotar, já que não estava acostumada com gentilezas e aquele belo homem percebeu.
--Há razão em suas palavras--ele aquiesceu--De certa maneira, a lei fecha os olhos para uns, tornando-se permissiva até demais, enquanto para os outros condena da mesma maneira. Eu penso diferente, embora seja obrigado a servir as leis dos homens. Creio no perdão de Deus, na compaixão de Cristo e no amor de Maria.
Senti meus olhos marejarem e por mais que me esforçassem em esconder, dom Fernando falava diretamente a mim com uma bondade que poucos concederam.
--Você tem uma origem, Sarah. Todos nós temos e agimos conforme nos convém. Eu poderia ter sido mais um homem rico e privilegiado trabalhando com burocracias. Poderia ter escolhido uma vida na Igreja, ou me tornado um fora da lei. Sou um segundo filho de uma grande família e meus pais, embora aristocráticos, não possuíam ambições para mim. Lutei por mim mesmo.
Ouvi, e me senti uma criança apreendendo aqueles valores que conversavam com meu coração, com minha essência católica. Diante de meu silêncio, ele prosseguiu:
--Sabe por que eu a tirei daqueles homens? Porque você tem chance de se redimir. Não é uma vida que escolheu, mesmo sendo pobre. Presumo isso porque já conheci tantos outros antes de você. Não é especial, nem por isso deve ser desprezada. Sua defesa é sua arma para se proteger do mundo cruel que a pirataria lhe incutiu. Pense comigo: o capitão Jack, a quem chama de pai, vendeu todo o código dos piratas de honra e libertinagem quando o rei francês ofereceu ouro para atacar os holandeses, ingleses e franceses em alto mar. Agora mesmo, para salvar sua pele de traição, enviou a filha querida aos inimigos desprezíveis e vis. Nem entre meus homens há honráveis, reconheço isso e nada posso fazer quanto isso. Perdoe-me, senhora, mas o que seria de você sem mim?
--Já lidei com violadores antes--retruquei--E matei-os antes que tocasse em mim.
--Sem dúvida porque seus "irmãos de aço" estavam por perto, o que quer que seja. Aqui, nenhum deles a protegeria. Provavelmente, ainda que não atacássemos, a venderia por ouro. Conhece bem seus companheiros.
Engoli em seco.
--O que fará comigo?
--Enviarei-a a um convento em Valladolid para sua segurança. A não ser que prefira a forca.
As opções eram poucas e, de canto de olho, vi que o leprechaun a tudo observava. Podia ouvi-lo dizer que eu não era mais adolescente, precisava amadurecer. O orgulho me levaria à morte e o inferno me aguardava. Por isso, optei pela redenção. Assim, disse:
--O convento, senhor.
Dom Fernando sorriu e eu constatei que nunca havia visto um sorriso tão bonito. Ele disse:
--Minhas congratulações, senhora. Sabia que seu espírito cristão ainda habitava em vós.
*                                                                           *                                                                               *
Foram dois longos e árduos anos no convento. Era tratada como noviça e eu já não tinha esperanças de voltar a ver dom Fernando. Sabia que, a qualquer momento, a abadessa aguardava pelo minha maturação espiritual a fim de fazer-me noiva. Mas eu pensava muito no meu salvador. Não nos envolvemos emocionalmente, mas nos últimos dois anos, ele me manteve a salvo. Teria pensado em seduzi-lo, mas nos seis meses em mar que estivemos juntos, nunca aconteceu. Primeiro, porque era casado e respeitava o santo matrimônio; segundo, porque eu mesma percebi que havia muito a que me limpar dos vícios. Se ele desconfiava de que me apaixonei por ele, não demonstrou.
Valladolid era bela com suas torres e campos. Espanha era quente, contraponto à minha terra natal na Escócia, embora por mais de vinte anos tivesse vivido em locais de climas diferentes. Contava trinta e cinco anos e minha personalidade, entretanto, parecia ter fixado nos quinze. Rebelei-me, à princípio, e me entristeci profundamente quando o leprechaun que eu conhecia e amava me abandonou. Assim, eu pensava. Será que haveria redenção para mim?
Conheci, nesta época, uma moça chamada Angélica. Parecia um anjo em vestes brancas. Inocente e pura, esforçou-me para doutrinar-me nas leis de Cristo. Ao contrário do que pregavam os padres em missas comuns ou as freiras em toda semana, ela dizia que Deus não nos queria ver infelizes e eternamente punidos no inferno.
--Do contrário, como poderia haver perdão? Mas para isso precisamos ser merecedora Dele. 
Conforme me esclarecia, a vergonha pelo meu passado aumentava. Um dia decidi tomar os votos de silêncio, pois percebi que cometi mais castigos usando a língua do que tirando vidas pela espada (não que, desta maneira, um pecado fosse menor que o outro). Novamente, foi Angélica quem disse:
--Não se cobre tanto, irmã. A perfeição só virá na ressurreição e enquanto não compreender a verdadeira palavra de Cristo, Nosso Senhor, não poderá se curar.
E ela não se referia às incansáveis leituras bíblicas, mas ao entendimento que faria destas. Angélica também foi a responsável por me ensinar a meditar, de maneira que assim canalizaria todo o rancor, o orgulho e a vaidade para fora de mim. Aos poucos, me aceitava como era e como fui. Rezava em mais horas, pedia penitência com mais frequência e, ainda que elogiassem meu comportamento e esperassem que me tornasse freira, não me via com merecedora. Um dia, o leprechaun voltou a aparecer para mm. No crepúsculo da tarde, me achava vestida em branco próximo ao jardim quando aquele homem de vestes irlandesas e cabelo ruivo virou-se para mim e disse:
--É incrível como a transformação sincera torna-se o evento dos mais belos para Deus.
--Eu errei muito. Sou pecadora.
--Todos nós erramos--salientou ele--Nem por isso seu erro é pior, maior ou menor que os outros. Mas não negarei que a corrupção do seu coração me entristeceu em todos estes anos. Não foi o esquecimento do ritual que me magoou, Sarah, foi ter-se permitido levar por leviandades que, desde cedo, reconhecia como incorretos.
Não o respondi desta vez, apenas abaixei a cabeça e disse:
--Perdoe-me, senhor.
O leprechaun riu.
--Senhor? Ora, sou senhor de ninguém. Sou seu amigo e protetor, Sarah. Apenas desejo seu melhor. Mas fico feliz, de verdade, que tenha conseguido te resgatar das trevas que a cercavam. (Nota de Oxum: ela estava sendo obsidiada, principalmente dos 30 aos 33 anos).
--Não me deixe só, eu peço encarecidamente--e logo me ajoelhei--Perdoa me?
Um sorriso gentil iluminou suas faces e finalmente nos havíamos reconciliado. Chorei, e ele me abraçou.
--Claro que vos perdoo. Somente um tolo a condenaria e ninguém aqui tem moral para fazê-lo. Acalmai vosso coração, pranteie se desejardes, mas no final da tempestade uma luz se vem.
Na época, não havia compreendido. Quando estava a fazer meus votos de freira na mesma semana, dom Fernando Borges apareceu. Com um sorriso cansado, mas um júbilo que não entenderia, ele exclamou:
--Procuro pela noviça Sarah! Onde a encontro?
*                                                                                *                                                                         *
Foi na cidade de Leão que eu deixei de ser a noviça Sarah para me tornar a senhora Borges. Doña Sarah, como me chamariam pelo restante da vida. Dom Fernando havia enviuvado logo depois de ter-me deixado em Valladolid, e tomado pela culpa optou por se concentrar no trabalho. Culpa esta por ter desenvolvido sentimentos comigo e, ainda que não houvesse deixado isso claro nos seis meses de viagem, o fê crer que foi culpado de adultério. Principalmente por ter ficado tão pouco tempo com a esposa enferma. Demorou dois anos para que fosse aconselhado a se casar outra vez, já que não havia herdeiros e ele agora tornou-se senhor das propriedades da família (visto que seu irmão falecera sem deixar filhos) como o segundo filho antes menosprezado pelos parentes.
Disse também que Deus havia falado com ele e que sua finada esposa não desejava que vivesse em um luto desnecessário. Precisava, segundo ela, se desapegar da dor que o atormentava e de uma culpa que nem de longe foi responsável. Assim era a vida e dom Fernando, livre de tal peso, veio a mim. Não é preciso dizer que prontamente aceitei. Pela primeira vez em quase trinta e cinco anos, eu fui feliz de verdade. Curiosamente, concebi na noite de núpcias, que ocorreu, se não me engano, em janeiro. Um menino saudável viria em fins de outubro para alegrar nossas vidas. Dei o nome dele de Guillermo, já que descobri o nome do leprechaun ser William.
Em mais um ano, conceberia outra vez e em setembro de 1639, daria à luz a uma menina a quem chamamos de María (em homenagem à Virgem e à minha mãe biológica). Ainda viriam mais duas crianças: um rapaz que chamei de Antônio e outra moça a quem nomeamos Isabel. Pela graça de Cristo, todos foram saudáveis e cresceram bem. Seguindo-se à cada nascimento, as pessoas comentavam com surpresa porque isso se dava visto que eu era "velha" pelos padrões da época. Mas pouco me importava.
Admito que ainda era vaidosa: preocupava-me com a aparência e gostava de arrumar meus cabelos negros, usar a maquiagem e vestir os tecidos que a rainha ibérica usava e vestia. Como aristocrata, era preciso imitá-la. Não obstante, pensei em minha família na Escócia. Como fui esclarecida em minha época no convento (aprendi a ler e escrever bem), escrevi para meus pais. No entanto, não obti nenhuma resposta, o que me atormentou. O amor ao mar ainda persistia, porém, e eu mesmo incentivei ao marido para navegar à Escócia.
--Por mais admirável que seja seu espírito piratês--ele falou em tom de brincadeira--sabe que não podemos nos arriscar mais. Eu mesmo me aposentei agora que tenho tarefas a serem cumpridas. Perdoe-me, esposa, mas o que me pede é demais.
Reconhecendo derrota, aquiesci. Em outros tempos, talvez houvesse insistido e sido tempestuosa em minha decisão. Mas era preciso usar da razão. Apesar disso, rezei pelas almas de cada um (minha mãe, meu pai, e meus dois irmãos) e me devotei à Igreja Católica até o fim dos meus dias.
Meu bondoso esposo faleceu antes de mim e, segundo me foi dito até então, posso revê-lo assim que findar minha tarefa em relembrar minha história. Criar meus filhos não foi fácil e tivemos mesmo muitas desavenças, mas conseguimos superá-las. Casei cada um deles bem, sempre certificando, no entanto, de que desposassem gente de bem. Vi o nascimento de meus netos, creio que tive uma vida longa. Contudo, no meu desencarne, fui tomada por muito arrependimento... e que me levou aonde estive até... até recentemente.

Nota de Oxum: permita-me explicar o que se deu. Embora tenha se redimido, não foi o suficiente para apagar os traços de uma vida imperfeita para trás. Os outrora companheiros a quem, de início, Sarah chamou de "irmãos de aço" em sua imperfeição vieram atrás dela, tendo desencarnado antes. Exigiam dela a culpa pela forca e outros tipos de morte que sofreram e a obsidiaram no astral, impedindo a atuação da falange de luz porque ela acabou baixando sua vibração ainda que sem intenção. O remorso imposto atraiu "velhas" vítimas e assim Sarah tornou-se a velha "pirata" que tentou dissuadir de existir: não no sentido de malandragem, mas na perdição que tomo este sentido. Eventualmente, porém, ela foi se esforçando cada vez mais para se dissociar de tais companheiros quando percebeu que não estava cercada daqueles que amava. Ao procurar por eles, descobriu que só poderia revê-los se melhorasse. Condição imposta com mais severidade pelo "leprechaun" que era, como falei antes, o exú que a seguia. Isto é, seu guardião. Este irlandês a conhecia de outras vidas e se esforçou, tanto no momento da encarnação quanto no do desencarne, para o melhoramento dela. Foi árduo por conta da obsessão, mas quando ela, afinal, aceitou que nem tudo era culpa sua ou que se resumia necessariamente à culpa, as falanges de luz sobre ela atuaram. Se for preciso utilizar termos da sociedade da terra, Sarah se livrou do umbral por dois anos e meio. Sim, meus caros, ela deixou para trás o astral em pleno século XXI.
Uma vez mais foi esclarecida e posto no caminhamento da luz, foi avançando até ter recebido esta tarefa de ditar sua história a fim de auxiliar aqueles que, por alguma inspiração, possam encontrar solução de seus problemas aqui. Seus deveres continuarão no plano espiritual e será encaminhada à Aruanda para onde atuará, segundo sua escolha, no campo da umbanda sob a luz de Oxum. Percebo, com satisfação, que os resquícios de outrora se foram de fato e nada é mais justo do que receber seu marido e os filhos que ansiosamente a esperam. Daqui para frente cabe a Deus, mas ficamos muito feliz por ver a criança do Pai retomando à morada de corações e braços abertos, retornando à luz que, por um momento que houvesse sido, fora perdida.
Fica aqui os agradecimentos à médium, cujos conhecimentos históricos e espirituais nortearam a entidade e a encaminharam para o esclarecimento de que necessitava. Tal é a importância combinada da matéria com o espírito e, principalmente, da psicografia.

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