quinta-feira, 7 de maio de 2020

(Contos da Escócia, vol.1) A Fantasma de Edimburgo

Nota do Guia de Ogum: este será o primeiro de uma série de cinco psicografias de diferentes espíritos escoceses que vieram expiar para com esta médium. Por isso sugeri que se intitulasse série contos escoceses.

“Vim acá porque os fantasmas, depois de tanto dançar, perdidos vêm lhe falar. Não lembro do meu nome, mas de um castelo no alto de uma colina. Se lá fiquei, foi porque me recusei a partir.


O ano era 1370, a ameaça de guerra era eminente entre os inimigos de países diferentes. Seus líderes foram homens de seu tempo, orgulhosos, gananciosos, que escondiam tais imperfeições sob o elmo e a cota de malha. Em suas respectivas cortes, a luz fraca da vela iluminava os rostos daqueles que os temiam. Ainda ouço a doce melodia do alaúde ser tocado, as risadas fingidas, os olhares ansiosos. O que seria, o que seria?

Entre guerras intermináveis, recordo de um rosto belo e estrangeiro, cujo par de olhos não fugia aos olhares que o lançava. Sorria, às vezes, a mim. E eu, a ele. Pediria permissão à senhora para que fosse cortejada, mas este nunca aconteceu. O mensageiro morreu a caminho. O primeiro se foi e, com ele, parte de meu coração o seguiu ao túmulo. Poucos foram os encontros em que trocávamos palavras, de fato. Ainda me recordava de sua postura confiante, da arrogância em seu semblante—do contrário, não seria levado a sério por seus superiores.

Nenhuma carta recebi, apenas soube através de mexericos inúteis. Não havia tempo para o luto, a vida tinha de seguir em vida. Viajamos, e acompanhei a comitiva real. Estava alheia ao mundo de esplendor que se abria diante de mim, a riqueza não me importava, nem títulos ou quaisquer similaridades.

“Às vezes, penso que a vida monástica lhe cairia bem”, me confidenciou a minha senhora uma vez.

Sorri. “Creio ser demasiada mundana para tomar os votos, senhora.”

E era verdade. A cada melodia, eu dançava com alegria. Não me importava com mais nada. Esforçava-me por me conter, mas a música era como um chamado. Gostava dos vestidos de seda, de sentir seu...

(Nota do guia de Ogum: ela foi recentemente liberada do estado em que estava no umbral, por isso não se recorda com precisão de seu nome ou de fatos firmes como datas, etc. Sua memória é escarça, porém, estamos ajudando-na com isso. Já aviso de antemão que ela não foi alguém que a História humana tenha se importado de registrar.)

...sentir o veludo escorrer em meu corpo. Meu cabelo... bem, ele era de um castanho, dourado, acho, e eu o deixava solto porque era solteira, mas sempre de acordo com a etiqueta.

Mas o segundo fantasma veio quando menos esperava. Ele era um príncipe de outro reino e havia representado seu pai em negócios. Recordo-me de sua arrogância, sua soberba. Sua postura evocava respeito e lealdade. Lembro que ele interrompeu a dança, atravessando o grande salão para se dirigir ao nosso senhor. Não me recordo de muitos detalhes, mas todos o observavam com interesse.

Falavam francês, o idioma que todos deveriam dominar naqueles dias. Observei-o sem qualquer pretensão e como poderia esquecê-lo? Alto, de cabelos negros e escuros, olhos entre o verde e o azul, não sei ao certo, e o nariz longo. O lábio movimentava-se com urgência, e ele falava aos sussurros. É claro, não desejava que fosse ouvido.

Em seu corpo, armaduras douradas e brilhantes reforçavam seu status e pensei que fosse... (Nota de Ogum: peço paciência para que ela tenha o tempo necessário a se expressar, isto tem sido uma tarefa relativamente difícil para a entidade). Não importa o que pensei, não me recordo. Entretanto, admirei-me com sua postura. Uma das damas ao meu lado me cutucou e disse:

“Pare de encará-lo, senhora. Ele está acima de nossa dignidade”.

Aquela afirmação me feriu o orgulho, mas concordei e desviei o olhar. No entanto, havia tanto a me perder naquele jogo régio do qual fiz parte, ainda que sem vontade. Assim, na primeira oportunidade, decidi que precisava sair daquela multidão de cortesões falsos. Optei pela solidão e atravessei os corredores de janelas vazias que davam vista a um campo verde, onde jardins enfeitavam a paisagem com um chafariz ao centro. Não muito longe dali, podia-se situar os estábulos e me imaginei cavalgando com liberdade.

De todo modo, não fui ao exterior do castelo. Segui em passos firmes rumo à capela em busca de algum conforto. As paredes de pedra me assombravam, eu não saberia dizer o porquê. O peso de sua construção evocava a um passado de guerras, assassinatos e conspirações, um dos quais eu não fiz parte. Acho. Apenas recordo-me de ter estudado a ocasião porque meu senhor gostava de recontar as tragédias que encurtaram as vidas de seus ancestrais.

Era um longo corredor que dava lugar a outro que levaria a um hall onde mais uma escadaria encaminharia a outro andar. No entanto, a capela ficava ao final e foi ali que me achei. Entrei e havia apenas duas senhoras que rezavam. O tecido de seus vestidos indicava que eram membros da corte, embora não fizessem parte do séquito de minha senhora.

Pinturas de Nosso Senhor e sua Sagrada Mãe, cujas figuras eram iluminadas por um leve tom de azul e amarelo em contraponto à escuridão que os cercava paradoxalmente como se a intenção do pintor fosse ressaltar suas naturezas divinas, marcavam a capela. Uma cruz de material a mim desconhecido estava situada ao alto. Um vitral ao meu lado esquerdo mostrava uma santa... Possivelmente, Santa Catarina de Alexandria. Ao meu direito, um santo cujo nome não assimilo agora.

Não sei por quanto tempo mergulhei em preces, mas foi o suficiente para que as senhoras houvessem deixado o local e o príncipe, ao contrário, se fizesse presente. Quando me dei conta, constatei que ele me aguardava. Ruborizei diante disso e procurei me ausentar, cumprimentando-o com uma vaga mesura antes de desaparecer o quanto antes, afinal, era indigna de sua presença. Mas ele segurou meu braço gentilmente e o ouvi dizer:

“Caríssima senhora! Pensais que vim violá-la para agir com tamanha urgência? Ora, o que quer que tenham dito de mim, é o que não sou.”

Sequer conseguindo encará-lo nos olhos, obriguei-me a ficar. Em sussurros, respondi-o:

“Não é minha intenção, meu bom senhor, julgá-lo quando o desconheço. Ainda que estivesse familiarizada com vossa senhoria, não me compete dizer que sois definidos por vossas ações”.

Ele pareceu achar graça das minhas palavras, porque riu.

“Uma mocinha inteligente, é o que sois. Que fazeis sozinha em uma capela? A não ser que estejais casada, o que creio ser impossível pois vossos cabelos caem soltos pelas costas e não há nenhuma joia significativa que indique vosso status”.

Ruborizei outra vez.

“Vim rezar, meu senhor.”

Intrigado, ele persistiu:

“Só?”

“Sim, meu senhor. Minha senhora permite que eu ande livremente pelo castelo desde que não fuja aos vossos atentos olhos. Ela está ciente de que estou aqui, meu senhor.”

Ele sorriu.

“Não precisa agir como se fosse vosso general, senhorita. Por favor, olhe para mim. Como vos chama?”

(Nota de Ogum: ela ainda se encontra em grande dor, por isso momentos como esse lhe custarão a ser compartilhados, mas tudo em seu tempo. Em breve, se já não percebeu, perceberá o motivo que a levou permanecer em agonia por mais de 500 anos.)
...

Bem, depois que nós nos apresentamos um ao outro, o príncipe quis saber mais de mim. Encabulada, disse-lhe que não era interessante para um homem daquela posição inquirir a respeito de mim. Para minha surpresa, ele se prostrou em perplexidade:

“Como podeis colocar-vos em tal baixa estima? Não, cara senhora, deixais que eu seja o juiz disso”.

Sendo assim contei a ele de minhas origens. Do que me recordo, vim de uma família aristocrática, cujas ligações me remontavam a um ancestral próximo de Carlos Magno. Como dama de companhia de minha senhora, porém, era aquela cujas conexões serviam para nada se em comparação a tantas outras mulheres. Todavia, ainda havia algo em mim que fez com que permanecesse naquele local.

Naquele exato momento, porém, uma de minhas superiores que respondiam diretamente à minha senhora, apareceu. Com horror, por me ver na companhia de um homem sem a supervisão de uma mulher, ela me chamou a atenção e demandou que regressasse aos meus serviços. Prontamente me pus a partir, mas o príncipe impediu-me de ir e disse, ao contrário, que eu deveria ficar. Diante disso, ela se viu sem respostas e foi-se.

“Como disse”, ele me sorriu, “não sou alguém de honra questionável”.

“E pela armadura”, ousei dizer, “reconheço que isso corresponde a vossa bravura”.

O príncipe, cujo nome ainda não me havia sido dito, riu. Era uma risada leve, e que prontamente me encantou. Não deveria, mas foi o que aconteceu.

“Não saberia dizer quanto a isso, mas é melhor que não saiba muito sobre ela.” Ele riu outra vez. “Não sou temível em batalha, é uma vergonha admitir isso, mas tenho qualidades de cavalheiro”.

“É claro que tem.” E então perguntei seu nome.

*                                                                      *                                                                 *
Ele estendeu sua visita à corte por um mês e foi o suficiente para que nos apaixonássemos. Minha senhora não fazia vista grossa, e ninguém parecia perceber. Foi algo incomum. Amei-o, como poderia tê-lo amado. Dancei junto a ele, como deveria ter dançado. Ninguém questionou, ninguém indagou. Não ouvi nenhuma fofoca. Apesar disto, não abusei de minha sorte. Descobriria mais tarde que havia sido uma peça nas maquinações políticas, pois meus senhores desejavam ter aquele príncipe em suas mãos para uma aliança contra a Inglaterra.

O príncipe havia desconfiado disso, pois em um dia que caminhávamos pelos jardins, ele indagou:

“Estais ciente de que Sua Graça pretende invadir a Inglaterra?”

“É uma empreitada ousada, porém, não surpreende”, falei sem dar importância ao fato. Ele me observava com cautela como se decidisse se eu era inocente ou não do que quer que estivesse acontecendo por sob os panos. “O que houve?” Questionei-o, confusa.

Ao ver a inocência em minhas faces, qualquer temor que tivesse, se dissipou. Ele sacudiu a cabeça e disse:

“Nada, ma belle. Venha, vamos prosseguir.”

Sem dar importância ao fato, contei a ele de minha rotina, como a tola que era. A tudo isso, porém, ele dava ouvidos, sempre atento. Conversávamos sobre histórias do rei Arthur, do amor cortês, de qualquer assunto... menos nós dois, ou política. Na verdade, não percebia que ele se distanciava de mim porque o momento da despedida se aproximava.

Apenas sei que, eventualmente, percebi que meu sangramento havia se atrasado. Contudo, mal pude contar a ele as notícias porque, naquela mesma noite, ele veio aos meus apartamentos privados e disse:

“Senhora, sou requisitado a voltar ao meu reino. É tudo o que posso dizer”. Ele estava sério, mas havia tristeza em seus olhos. Pus minha mão ao redor de sua face e disse, como se meu coração não estivesse sendo quebrado:

“Escreverá a mim?”

“Por certo que irei”, ele me garantiu.

Hesitei, e aquele que eu amei notou e disse:

“Há algo em vossos olhos. O que foi?”

“Eu...” senti as palavras me faltarem, e o príncipe desconfiava do que era, mas fui incapaz de contá-lo. Ele esperou.

Mas em meus olhos as lágrimas roubaram o momento. E, por fim, ele me abraçou mais uma vez. Nunca mais o veria outra vez.
*                                                                            *                                                          *
Perdi a ambos no outono. A criança não nasceu e seu pai morreu sem ter o conhecimento de que o deixava para trás. Embora fosse censurada por ocultar isto do príncipe, julguei ter sido uma decisão sábia. Minha senhora pretendia me enviar à vida monástica depois do escândalo, mas sua vida fora ceifada antes disso. Seu esposo, todavia, não compartilhava do mesmo pensamento e permitiu que ficasse. E, como uma fantasma, permaneci.

Mas que prospectos uma senhora como eu teria? Os senhores não me admiravam mais, embora o que quer que eu tivesse que houvesse atraído os olhos do amado príncipe estivessem em mim ainda. Por vezes, podia ouvi-lo chamar meu nome às noites. Uma risada infantil o acompanhava, e eu tinha a visão de vê-los juntos. Ah, que tormenta, que tormenta!

Mergulhei nas preces, mas as semanas seguintes foram um terror! Os ingleses invadiram novamente e outra vez o cerco se fez. O terror nos enlouquecia e sabe-se lá como... como aconteceu e terminou. Ainda escuto gritos, canhões. A morte dançava sobre nós e eu me agarrei a ela...

Não me recordo como morri, mas sei que me deparei com um vazio a minha espera. O castelo era como conhecia, mas faltava algo. Não queria partir. Procurei por eles, pelos homens que amei, pela criança que perdi.

Não os encontrei, e somente Deus sabe por que. Desolada, corri por todos os corredores, entrei em todos os salões e nada vi se não o resquício do que já fora. Se vi outros que ali passavam, não me importei. Ainda procuro por ambos, minha senhora, e se os vir... por favor...

(Nota de Ogum: esta senhora não aceitou seu desencarne, que ocorrera, de fato, em um momento muito delicado para a história da Escócia, que buscava se libertar das correntes impostas pelos ingleses. Sendo assim, a cronologia, como pôde ver, está errada e confusa. Ela se lembra de seu amado príncipe e mesmo do mensageiro, mas esqueceu-se de seus nomes porque se afundou no sofrimento que impôs a si mesma. Da mesma forma como aconteceu com a outra senhora com quem estamos trabalhando, esta aqui precisou de muita conversa até permitir sair e passar pelo processo de cura no plano espiritual. Em breve, sua memória será recobrada e ela reencontrará os que procura.

Ela foi, como pôde ver, um espírito em expiação. Sua natureza era simples, e seu coração era bom, tendo sido percebido poucos resquícios de orgulho em seus traços de personalidade. Apesar disso, seu apego à carne dificultou sua transição para o mundo espiritual, o que indica o estado do seu avanço espiritual. Creio, porém, de que após a doutrina, ela terá muito o que melhorar. É um dos exemplos dos quais Kardec retratou em “Céu e Inferno”. Seria esta senhora uma entidade “mediana” cujo “crime” foi ter enlouquecido por amor. No mais, ela está sendo conduzida, enquanto conversamos, a um hospital.

Como podeis notar, o surgimento de espíritos perdidos está se manifestando neste período de “quarentena” que, sem qualquer coincidência, está ocorrendo dentro da quaresma. Não pretendo me prolongar sobre este assunto, sobre o qual muitos espíritos ainda mais evoluídos estão cuidando de elucidar, ilustrar e ensinar a todos vós. No entanto, ressalto que a limpeza e a cura não são conceitos excludentes, ao contrário, são comuns um ao outro. Os que buscam melhorar genuinamente tomarão partido neste período para isto. O trabalho aumentará, como já aumentou no plano espiritual. Isto está sendo além do desencarne coletivo neste plano da Terra. Em breve, voltarei a contatá-la.)

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