“Vim acá porque os fantasmas, depois de tanto dançar, perdidos vêm lhe falar. Não lembro do meu nome, mas de um castelo no alto de uma colina. Se lá fiquei, foi porque me recusei a partir.
O ano era 1370, a
ameaça de guerra era eminente entre os inimigos de países diferentes. Seus
líderes foram homens de seu tempo, orgulhosos, gananciosos, que escondiam tais
imperfeições sob o elmo e a cota de malha. Em suas respectivas cortes, a luz
fraca da vela iluminava os rostos daqueles que os temiam. Ainda ouço a doce
melodia do alaúde ser tocado, as risadas fingidas, os olhares ansiosos. O que
seria, o que seria?
Entre guerras
intermináveis, recordo de um rosto belo e estrangeiro, cujo par de olhos não
fugia aos olhares que o lançava. Sorria, às vezes, a mim. E eu, a ele. Pediria
permissão à senhora para que fosse cortejada, mas este nunca aconteceu. O
mensageiro morreu a caminho. O primeiro se foi e, com ele, parte de meu coração
o seguiu ao túmulo. Poucos foram os encontros em que trocávamos palavras, de
fato. Ainda me recordava de sua postura confiante, da arrogância em seu
semblante—do contrário, não seria levado a sério por seus superiores.
Nenhuma carta
recebi, apenas soube através de mexericos inúteis. Não havia tempo para o luto,
a vida tinha de seguir em vida. Viajamos, e acompanhei a comitiva real. Estava
alheia ao mundo de esplendor que se abria diante de mim, a riqueza não me
importava, nem títulos ou quaisquer similaridades.
“Às vezes, penso
que a vida monástica lhe cairia bem”, me confidenciou a minha senhora uma vez.
Sorri. “Creio ser
demasiada mundana para tomar os votos, senhora.”
E era verdade. A
cada melodia, eu dançava com alegria. Não me importava com mais nada.
Esforçava-me por me conter, mas a música era como um chamado. Gostava dos
vestidos de seda, de sentir seu...
(Nota do guia de
Ogum: ela foi recentemente liberada do estado em que estava no umbral, por isso
não se recorda com precisão de seu nome ou de fatos firmes como datas, etc. Sua
memória é escarça, porém, estamos ajudando-na com isso. Já aviso de antemão que
ela não foi alguém que a História humana tenha se importado de registrar.)
...sentir o veludo
escorrer em meu corpo. Meu cabelo... bem, ele era de um castanho, dourado,
acho, e eu o deixava solto porque era solteira, mas sempre de acordo com a
etiqueta.
Mas o segundo
fantasma veio quando menos esperava. Ele era um príncipe de outro reino e havia
representado seu pai em negócios. Recordo-me de sua arrogância, sua soberba.
Sua postura evocava respeito e lealdade. Lembro que ele interrompeu a dança,
atravessando o grande salão para se dirigir ao nosso senhor. Não me recordo de
muitos detalhes, mas todos o observavam com interesse.
Falavam francês, o
idioma que todos deveriam dominar naqueles dias. Observei-o sem qualquer
pretensão e como poderia esquecê-lo? Alto, de cabelos negros e escuros, olhos
entre o verde e o azul, não sei ao certo, e o nariz longo. O lábio
movimentava-se com urgência, e ele falava aos sussurros. É claro, não desejava
que fosse ouvido.
Em seu corpo,
armaduras douradas e brilhantes reforçavam seu status e pensei que fosse...
(Nota de Ogum: peço paciência para que ela tenha o tempo necessário a se
expressar, isto tem sido uma tarefa relativamente difícil para a entidade). Não
importa o que pensei, não me recordo. Entretanto, admirei-me com sua postura.
Uma das damas ao meu lado me cutucou e disse:
“Pare de
encará-lo, senhora. Ele está acima de nossa dignidade”.
Aquela afirmação
me feriu o orgulho, mas concordei e desviei o olhar. No entanto, havia tanto a
me perder naquele jogo régio do qual fiz parte, ainda que sem vontade. Assim,
na primeira oportunidade, decidi que precisava sair daquela multidão de
cortesões falsos. Optei pela solidão e atravessei os corredores de janelas
vazias que davam vista a um campo verde, onde jardins enfeitavam a paisagem com
um chafariz ao centro. Não muito longe dali, podia-se situar os estábulos e me
imaginei cavalgando com liberdade.
De todo modo, não
fui ao exterior do castelo. Segui em passos firmes rumo à capela em busca de
algum conforto. As paredes de pedra me assombravam, eu não saberia dizer o
porquê. O peso de sua construção evocava a um passado de guerras, assassinatos
e conspirações, um dos quais eu não fiz parte. Acho. Apenas recordo-me de ter
estudado a ocasião porque meu senhor gostava de recontar as tragédias que
encurtaram as vidas de seus ancestrais.
Era um longo
corredor que dava lugar a outro que levaria a um hall onde mais uma escadaria
encaminharia a outro andar. No entanto, a capela ficava ao final e foi ali que
me achei. Entrei e havia apenas duas senhoras que rezavam. O tecido de seus
vestidos indicava que eram membros da corte, embora não fizessem parte do
séquito de minha senhora.
Pinturas de Nosso
Senhor e sua Sagrada Mãe, cujas figuras eram iluminadas por um leve tom de azul
e amarelo em contraponto à escuridão que os cercava paradoxalmente como se a
intenção do pintor fosse ressaltar suas naturezas divinas, marcavam a capela.
Uma cruz de material a mim desconhecido estava situada ao alto. Um vitral ao
meu lado esquerdo mostrava uma santa... Possivelmente, Santa Catarina de
Alexandria. Ao meu direito, um santo cujo nome não assimilo agora.
Não sei por quanto
tempo mergulhei em preces, mas foi o suficiente para que as senhoras houvessem
deixado o local e o príncipe, ao contrário, se fizesse presente. Quando me dei
conta, constatei que ele me aguardava. Ruborizei diante disso e procurei me
ausentar, cumprimentando-o com uma vaga mesura antes de desaparecer o quanto
antes, afinal, era indigna de sua presença. Mas ele segurou meu braço
gentilmente e o ouvi dizer:
“Caríssima
senhora! Pensais que vim violá-la para agir com tamanha urgência? Ora, o que
quer que tenham dito de mim, é o que não sou.”
Sequer conseguindo
encará-lo nos olhos, obriguei-me a ficar. Em sussurros, respondi-o:
“Não é minha
intenção, meu bom senhor, julgá-lo quando o desconheço. Ainda que estivesse
familiarizada com vossa senhoria, não me compete dizer que sois definidos por
vossas ações”.
Ele pareceu achar
graça das minhas palavras, porque riu.
“Uma mocinha inteligente,
é o que sois. Que fazeis sozinha em uma capela? A não ser que estejais casada,
o que creio ser impossível pois vossos cabelos caem soltos pelas costas e não
há nenhuma joia significativa que indique vosso status”.
Ruborizei outra
vez.
“Vim rezar, meu
senhor.”
Intrigado, ele
persistiu:
“Só?”
“Sim, meu senhor.
Minha senhora permite que eu ande livremente pelo castelo desde que não fuja
aos vossos atentos olhos. Ela está ciente de que estou aqui, meu senhor.”
Ele sorriu.
“Não precisa agir
como se fosse vosso general, senhorita. Por favor, olhe para mim. Como vos
chama?”
(Nota de Ogum: ela
ainda se encontra em grande dor, por isso momentos como esse lhe custarão a ser
compartilhados, mas tudo em seu tempo. Em breve, se já não percebeu, perceberá
o motivo que a levou permanecer em agonia por mais de 500 anos.)
...
Bem, depois que
nós nos apresentamos um ao outro, o príncipe quis saber mais de mim.
Encabulada, disse-lhe que não era interessante para um homem daquela posição inquirir
a respeito de mim. Para minha surpresa, ele se prostrou em perplexidade:
“Como podeis
colocar-vos em tal baixa estima? Não, cara senhora, deixais que eu seja o juiz
disso”.
Sendo assim contei
a ele de minhas origens. Do que me recordo, vim de uma família aristocrática,
cujas ligações me remontavam a um ancestral próximo de Carlos Magno. Como dama
de companhia de minha senhora, porém, era aquela cujas conexões serviam para
nada se em comparação a tantas outras mulheres. Todavia, ainda havia algo em mim
que fez com que permanecesse naquele local.
Naquele exato
momento, porém, uma de minhas superiores que respondiam diretamente à minha
senhora, apareceu. Com horror, por me ver na companhia de um homem sem a
supervisão de uma mulher, ela me chamou a atenção e demandou que regressasse
aos meus serviços. Prontamente me pus a partir, mas o príncipe impediu-me de ir
e disse, ao contrário, que eu deveria ficar. Diante disso, ela se viu sem
respostas e foi-se.
“Como disse”, ele
me sorriu, “não sou alguém de honra questionável”.
“E pela armadura”,
ousei dizer, “reconheço que isso corresponde a vossa bravura”.
O príncipe, cujo
nome ainda não me havia sido dito, riu. Era uma risada leve, e que prontamente
me encantou. Não deveria, mas foi o que aconteceu.
“Não saberia dizer
quanto a isso, mas é melhor que não saiba muito sobre ela.” Ele riu outra vez. “Não sou temível em batalha, é uma vergonha admitir isso, mas tenho qualidades
de cavalheiro”.
“É claro que tem.”
E então perguntei seu nome.
* *
*
Ele estendeu sua
visita à corte por um mês e foi o suficiente para que nos apaixonássemos. Minha
senhora não fazia vista grossa, e ninguém parecia perceber. Foi algo incomum.
Amei-o, como poderia tê-lo amado. Dancei junto a ele, como deveria ter dançado.
Ninguém questionou, ninguém indagou. Não ouvi nenhuma fofoca. Apesar disto, não
abusei de minha sorte. Descobriria mais tarde que havia sido uma peça nas
maquinações políticas, pois meus senhores desejavam ter aquele príncipe em suas
mãos para uma aliança contra a Inglaterra.
O príncipe havia
desconfiado disso, pois em um dia que caminhávamos pelos jardins, ele indagou:
“Estais ciente de
que Sua Graça pretende invadir a Inglaterra?”
“É uma empreitada
ousada, porém, não surpreende”, falei sem dar importância ao fato. Ele me
observava com cautela como se decidisse se eu era inocente ou não do que quer
que estivesse acontecendo por sob os panos. “O que houve?” Questionei-o,
confusa.
Ao ver a inocência
em minhas faces, qualquer temor que tivesse, se dissipou. Ele sacudiu a cabeça
e disse:
“Nada, ma belle. Venha, vamos prosseguir.”
Sem dar
importância ao fato, contei a ele de minha rotina, como a tola que era. A tudo
isso, porém, ele dava ouvidos, sempre atento. Conversávamos sobre histórias do
rei Arthur, do amor cortês, de qualquer assunto... menos nós dois, ou política.
Na verdade, não percebia que ele se distanciava de mim porque o momento da despedida
se aproximava.
Apenas sei que,
eventualmente, percebi que meu sangramento havia se atrasado. Contudo, mal pude
contar a ele as notícias porque, naquela mesma noite, ele veio aos meus
apartamentos privados e disse:
“Senhora, sou
requisitado a voltar ao meu reino. É tudo o que posso dizer”. Ele estava sério,
mas havia tristeza em seus olhos. Pus minha mão ao redor de sua face e disse,
como se meu coração não estivesse sendo quebrado:
“Escreverá a mim?”
“Por certo que
irei”, ele me garantiu.
Hesitei, e aquele
que eu amei notou e disse:
“Há algo em vossos
olhos. O que foi?”
“Eu...” senti as
palavras me faltarem, e o príncipe desconfiava do que era, mas fui incapaz de
contá-lo. Ele esperou.
Mas em meus olhos
as lágrimas roubaram o momento. E, por fim, ele me abraçou mais uma vez. Nunca
mais o veria outra vez.
*
*
*
Perdi a ambos no
outono. A criança não nasceu e seu pai morreu sem ter o conhecimento de que o
deixava para trás. Embora fosse censurada por ocultar isto do príncipe, julguei
ter sido uma decisão sábia. Minha senhora pretendia me enviar à vida monástica
depois do escândalo, mas sua vida fora ceifada antes disso. Seu esposo,
todavia, não compartilhava do mesmo pensamento e permitiu que ficasse. E, como
uma fantasma, permaneci.
Mas que prospectos
uma senhora como eu teria? Os senhores não me admiravam mais, embora o que quer
que eu tivesse que houvesse atraído os olhos do amado príncipe estivessem em
mim ainda. Por vezes, podia ouvi-lo chamar meu nome às noites. Uma risada
infantil o acompanhava, e eu tinha a visão de vê-los juntos. Ah, que tormenta,
que tormenta!
Mergulhei nas
preces, mas as semanas seguintes foram um terror! Os ingleses invadiram
novamente e outra vez o cerco se fez. O terror nos enlouquecia e sabe-se lá
como... como aconteceu e terminou. Ainda escuto gritos, canhões. A morte
dançava sobre nós e eu me agarrei a ela...
Não me recordo
como morri, mas sei que me deparei com um vazio a minha espera. O castelo era
como conhecia, mas faltava algo. Não queria partir. Procurei por eles, pelos
homens que amei, pela criança que perdi.
Não os encontrei,
e somente Deus sabe por que. Desolada, corri por todos os corredores, entrei em
todos os salões e nada vi se não o resquício do que já fora. Se vi outros que
ali passavam, não me importei. Ainda procuro por ambos, minha senhora, e se os
vir... por favor...
(Nota de Ogum:
esta senhora não aceitou seu desencarne, que ocorrera, de fato, em um momento
muito delicado para a história da Escócia, que buscava se libertar das
correntes impostas pelos ingleses. Sendo assim, a cronologia, como pôde ver,
está errada e confusa. Ela se lembra de seu amado príncipe e mesmo do mensageiro,
mas esqueceu-se de seus nomes porque se afundou no sofrimento que impôs a si
mesma. Da mesma forma como aconteceu com a outra senhora com quem estamos
trabalhando, esta aqui precisou de muita conversa até permitir sair e passar
pelo processo de cura no plano espiritual. Em breve, sua memória será recobrada
e ela reencontrará os que procura.
Ela foi, como pôde
ver, um espírito em expiação. Sua natureza era simples, e seu coração era bom,
tendo sido percebido poucos resquícios de orgulho em seus traços de
personalidade. Apesar disso, seu apego à carne dificultou sua transição para o
mundo espiritual, o que indica o estado do seu avanço espiritual. Creio, porém,
de que após a doutrina, ela terá muito o que melhorar. É um dos exemplos dos
quais Kardec retratou em “Céu e Inferno”. Seria esta senhora uma entidade
“mediana” cujo “crime” foi ter enlouquecido por amor. No mais, ela está sendo
conduzida, enquanto conversamos, a um hospital.
Como podeis notar,
o surgimento de espíritos perdidos está se manifestando neste período de
“quarentena” que, sem qualquer coincidência, está ocorrendo dentro da quaresma.
Não pretendo me prolongar sobre este assunto, sobre o qual muitos espíritos
ainda mais evoluídos estão cuidando de elucidar, ilustrar e ensinar a todos vós.
No entanto, ressalto que a limpeza e a cura não são conceitos excludentes, ao
contrário, são comuns um ao outro. Os que buscam melhorar genuinamente tomarão
partido neste período para isto. O trabalho aumentará, como já aumentou no
plano espiritual. Isto está sendo além do desencarne coletivo neste plano da
Terra. Em breve, voltarei a contatá-la.)
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