quinta-feira, 7 de maio de 2020

(Contos da Escócia, vol.2) O Reino Esquecido


Nota do guia de Ogum: embora pudesse ser mais coerente ter-se dado início aos contos escoceses a partir deste aqui, não achei pertinente que a cronologia se desse tanta importância quanto à mensagem. A autora deste conto, um espírito encaminhando para o desapego, voltará, mas muito mais à frente. Por ora ela optou dar espaço às três entidades de mesmo país que precisam resgatar o débito com a médium. Não obstante, foi respeitada sua vontade em não se identificar. Por isso, atentem-se à mensagem. O único elo que une a mensagem anterior a esta e às próximas três está no país em que encarnaram, Escócia.

"Vós que estais cercadas por fantasmas, que dançais com aqueles que não podeis ver, que visiteis em sonhos, sabeis disso: havia muitos e muitos anos atrás, quando o mestre ainda habitava este plano, embora sua palavra não houvesse chegado ainda aos cantos materiais, um reinado existia com seres de cabelos vermelhos com o fogo e pele tão branca quanto o gelo. Como se, porém, guardassem em sua intuição tudo o que aprenderam no plano espiritual, mantiveram-se, desta maneira, prósperos.

Em meio-oeste, ao leste e ao extremo oeste, dividiam-se em clãs e co-habitavam com outros ainda mais selvagens em maneiras e pensamentos. Não obstante, o equilíbrio se fazia entre a escuridão e a luz: um necessitava do outro, e o aprendizado era repassado a despeito das limitações materiais.

Havia um protótipo de castelo construído na região próxima onde dava-se o mar, ao leste. Suas ruínas seriam, um dia, derrubadas pelo tempo, mas a memória seria reciclada nos povos futuros que daquele mesmo ponto ergueriam residências mais resistentes. Lá, morava o chefe da tribo e sua família. De rosto robusto, longa barba e penetrantes olhos azuis, era alto e se vestia em cores verde, azul e branco. Na guerra, seu rosto era pintado de amarelo, vermelho e azul. As cicatrizes que marcavam seu corpo indicavam experiência no combate e sua resistência o elevara ao alto posto de chefe, ou deveríamos dizer rei?

Como esposa, tomou a filha de outro chefe de tribo magnânima do extremo-oeste. Bela moça de cabelos beijados pelo fogo e olhos tão verdes quanto a espessa mata que cobria os campos selvagens, essa possuía um temperamento feroz, adequado, porém, ao papel que lhe cumpria enquanto esposa deste homem. Como seus nomes são deveras complicados para a compreensão moderna, chamá-los-ei de Fergus e Linuse.

A despeito das aparências, o casal régio era muito sábio. Reconhecia as batalhas perdidas de antes, quando a diplomacia era necessária da mesma maneira como se deveria rumar com as armas ao ar. A coragem lhes era instrutivo. Linuse instruía aos filhos o seguinte:

“Não é a coragem que nos torna melhores que os outros. A humildade nos diferencia, ao contrário, e esta é qualidade que o líder deve construir. Saber ouvir e reconhecer tanto os erros quanto os acertos, mas que tudo se depende de pensamento coletivo e não individual. Sem nossos iguais, somos nada”.

A cada homem que nascia, Linuse os nomeou: Jarbas, Her’les, Shaorbin. Foram três rapazes criados para guerrear, mas sem esquecer da virtude que os conduzia, da honra que os liderava e da inteligência que configuraria sua respeitabilidade. Mas também nasceria três mulheres: Asha, Lya, Nub’y’a. E elas receberam a mesma educação, embora com focos diferentes. Asha foi criada para ser a princesa materna conforme sua inclinação moral; Lya, aquela que defenderia os interesses da tribo através da sabedoria; e Nub’y’a, pelo casamento, se responsabilizaria de atrair aliados e, ao seu modo, guerrearia quando necessário.

No entanto, assim pregava Fergus:

“Vós sois a geração que herdará divisões cada vez mais aprofundadas entre povos desiguais. Percebeis que o egoísmo, a ambição e a má fé têm se responsabilizado pela ascensão das trevas. Não vos criei com o pensamento de que sois inferiores uns aos outros. Não penso de meus filhos desta maneira e não gostaria que, enquanto irmãos, penseis desta maneira. Tempos difíceis estarão vindo, e vos pergunto: como estão preparados para isso?”

Ao que Linuse respondeu:

“Não só de espada vive o homem. A língua é tão afiada e potente quanto ela. Useis o cérebro, e sereis abençoados. Há uma recompensada para o bem que praticam, sabeis disso. Aqui, não somos eternos. Pois que cuidem de vós e de vossas almas, se não desejeis ser feitos prisioneiros da vicissitude humana”.

Era um reino pensante, de fato. Não só de guerra viviam, embora as tensões marcavam aqueles tempos. A terra dos clãs logo seria manchada de sangue, sangue tal que ecoaria por mais mil, dois mil anos. Se recentemente não há da mesma maneira, é porque está invisível aos olhos da carne.

Conforme os anos passavam, os bons cumpriam suas missões e partiam de volta à pátria de que saíam. Cabia a responsabilidade de guiar os cegos à nova geração. Mas conseguiriam os irmãos completar a tarefa? Asha foi logo casada assim que completou quinze verões com um senhor de terras distantes. Infelizmente, lá não duraria muito: aquele povo tão embrutecido temia às beijadas pelo fogo. Não fracassou em sua missão, mas, para sua segurança, partiu quando possível.  Nub’y’a poderia ter enfrentado similar destino, mas, ao contrário de Asha, detinha de uma personalidade mais dura e resistiu ao ponto de enfim dominar seus rivais. E à Lya? O que lhe coube?

Responsável pela sabedoria, foi inculcada a uma educação doméstica pela infância. Em seu primeiro sangramento, porém, como mulher pronta para seu destino, seria dirigida a aprender à cultura oral de seu povo. E mesmo em contato com as anciãs, apaixonou-se por outro beijado pelo fogo de olhos azuis como o gelo.

“A tempestade virá, menina, se não souber conter-se”, ela foi avisada. Aquela paixão não seria para ela, mas o que fazer diante de uma colisão de almas? Ele a reciprocava. E assim, se amaram. Mas Lya não se esquecia de suas outras tarefas: quando seu amado, que aqui chamaremos de Hórus, partia para caçar, ela retornava às velhas amas e com elas estudava o que deveria ser estudado. Ouvia canções de mortos, como este que vou lhes compartilhar:

A todo anoitecer,
Via a lua crescer
O guerreiro pronto a morrer
Pelo beijo doce da espada,
Pelo aço da lança,
Ele se punha à tal dança
Em mente conservava
De sua esposa a bela risada
De sua filha a balada cantada
De seu filho a herança amada
A todo anoitecer
Vinha à tribo defender
O guerreiro pronto a morrer
Havia outra também:
Nos tempos antigos
Éramos chamados de bárbaros
Por sermos indomados
Assim éramos desprezados
E pensados como seres inferiores a tantos outros
Mas amávamos nossa liberdade e nossos deuses
E prontos estávamos a defender nós mesmos
Não esquecemos o ontem
Nem almejamos o futuro
Mas nos tempos antigos
Havia paz
Medo, jamais
Nos acompanhavam nossos ancestrais
Para eles cantávamos, bradávamos e conquistávamos
Manteremos do verão ao inverno
O orgulho que fará dos nossos inimigos o inferno
Pois jamais olvidaremos
O que dos romanos nós fizemos

Na vez que esteve junto aos irmãos, o grande salão estava cheio de estranhos, homens todos guerreiros e experientes com armas que já haviam matado antes e contavam seus feitios em meio ao hidromel. Lya assistia das sombras, pois mesmo sendo irmã dos três líderes tribais, seu sexo a proibia de se apresentar às chamas que aquecia o local.
Em cada olhar de Jarbas, Shaorbin e Her’les, ela via a corrupção das trevas tomar suas almas e a luz se dissipar. Tentou lhos avisar, utilizar sua sabedoria e lembrar a todos eles, em oportunidade adquirida, de que perdiam o amor concedido pelos pais.
“Não sejais como nossos inimigos que tomaram conta do sul”, ela implorou. “A conquista só alimenta a soberba e não traz nenhum bom!”
Mas, como ocorrera com Cassandra na Guerra de Troia, sua previsão seria ignorada. Deveriam lutar contra os anglos? A tribo traidora dos saxões? Ou aliar-se aos jutes? A voz doce da mulher foi ignorada. A luz teria de se subjugar ao eclipse por ora. Sua temperança seria testada.
Foram tempos de guerra. Lya e Hórus foram separados por um tempo. Os irmãos, no entanto, jamais voltariam a vê-la. Afinal, como cantariam em breve:

O fogo se faz anunciar
A necessidade de despertar
Para a volta do lar
Se não desejarmos perder
O que foi tão difícil de ter
Tradições nos fazem fortes
Bravos hemos de ser
Se quisermos viver!
Vejam o céu queimar
Testemunhem a ira dos deuses
Que caem sobre nós
O crepúsculo cá chegar
E não há hora se não
A batalhar!
Assim seguiram os três guerreiros
À armadilha da soberba
Ignorando o aviso da donzela
Ajoelharam-se para a traição da escuridão...

Não preciso informar mais do que as velhas canções disseram. Mas vou além ao dizer o que não disse: Jarbas era o sensato, Her’les o corajoso e Shaorbin o amoroso. Se foram contaminados, foi pelo pecado de insistir em ver a luz onde não tinha. E se foram desonrados, foi pela ação de outros e não de si próprios. Afinal, pretendiam evitar que a tribo que reinavam sobre, fosse perdida e dominada por inimigos mais poderosos. No final das contas, foi necessário que perdessem... para que o fruto fosse colhido tantos e tantos anos depois.

Quanto à Lya...  Um dia estava ao centro do grande salão, desacompanhada. Acendeu ela mesma a lareira e esperou o frio se dissipar. Mas ele não ia embora... Ela viu pela neve que a sombra espreitava. O ataque vinha avante. Seu amado prostava-se ao seu lado, assim como os irmãos mortos. Já não se distinguia mais os fantasmas das criaturas vivas. A verdade, no entanto, era bem diferente do que poderia transparecer.

Lya viveu o suficiente para ver o fogo e sangue queimar suas terras. O saxão que ousou ir até lá a convidou a se retirar. Seria poupada do fogo, ele lhe gritara, e da violação dos homens se fosse sábia a se entregar.

“Se eu o fizer”, ela retrucou, “farás o mesmo de forma igual. Não vos dou consentimento de me obter a seu bel prazer. Sirvo à minha família. Sois, por outro lado, o inimigo. Nada podeis comigo”.

Suas palavras foram motivos de risada, mas ela permaneceu fria e corajosa. Para o deleite de seus inimigos, o grande salão, a casa de pedras da qual um dia sua família reinou feliz, foi posto em chamas. Embora lágrimas vertessem de seus olhos, Lya permaneceu fria e de onde estava. Sua resignação, no entanto, logo varreu a alegria dos homens. Pois o eclipse, afinal, se dissipara.

E, assim, ouviram:

Duvideis de minhas palavras
Rireis de minhas loucuras
Mas sois cegos pela escuridão
Nada mais é que o resultado de incompreensão
De mim, não verterá raiva,
Mas lágrimas
Pois desperdiçaram a mudança
Para se afundar na lamança
E amontar-se sobre a lança
Dos deuses que nunca virão
A socorrer, entregarei minha fé
Dançarei abençoada
Por aqueles que perdi
Aqueles que amei
Aqueles que reverei
Aqueles que visitarei
As chamas não hão de queimar
O amor que a tudo fiz
Foi entregar
À paixão, ao deleite de meu coração
Não por isso manchareis meu corpo
Pois breve voltarei e os ensinarei
A amar-vos e a perdoar-vos
De vossas incredulidades
Escutais, escutais,
Nunca irei embora de fato
Tampouco sou como um rato
Não me esconderei
Entre estas pedras viverei
E pelas chamas reinarei
Entre todos os que eu amei

E assim, a última dos ruivos de pele azul se fora para sempre. Com sua partida, o reinado se dissociou e não mais prosperou. Como vos falei, o sangue manchado permaneceu queimando por muitos séculos. Nesta regeneração, os que naquele tempo pecaram, enfim superaram suas faltas”.

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