“É
somente no chamado outro lado que entendemos o que fomos, ou pior, a razão pela
qual deixamos de ser. Quando o espírito se desprende do corpo e todos os laços
que ligavam seu períspirito à matéria, o estupor vem. E quando assim cessa, os
que entendem de imediato o que se passa, com horror verificam que nenhum
privilégio terreno é transferido para cá.
Que
importam títulos, propriedades, cargos à morte que ceifa a reis e camponeses
igualmente? A História nos mostra exemplos de incontáveis espíritos que não
obtiveram sucesso em suas missões, através de alguns dos quais a misericórdia
divina se operou pela espiritualidade. Em todo o tempo da humanidade, discursos
de ódio recebem sua dose messiânica com o objetivo de antagonizar-se aos
princípios que Cristo nos ensinou, a própria Igreja Católica corrobora o que eu
digo, e portanto resultou disto a Reforma, que, todavia, em seu próprio tempo
também foi corrompida divino propósito por homens cegos por sua ânsia em ter
razão acima de tudo e todos.
Ainda
me é difícil refletir estes temas, e venho os estudado desde meu desencarne há
mais de quatro séculos. Confesso que não me sinto pronto ainda para a
envergadura da carne e, em sua infinita compaixão, o Pai Maior permitiu que eu
mo fosse acolhido por espíritos divinos em sua colônia, cujo nome, entretanto,
não fui autorizado aqui a escrever nem reproduzir.
Bom,
como dizia, venho estudado as leis divinas que regem a verdadeira justiça que
molda o mundo espiritual, nossa pátria genuína, da qual somos voluntariamente
exilados (para não dizer impelidos, termo este que penso enquadrar os que se
veem forçados a aceitar peremptoriamente sua reencarnação no Planeta Terra em
face de criminoso pretérito a marcar-lhe profundamente a alma), esforçando-me,
pois, para compreender um pouco da natureza divina do Pai que nos criou. Deste
lado cá, convivendo com outros espíritos em certa similitude para comigo,
concluí que livre me encontro das amarras dos preconceitos de outrora, muitos
dos quais persistem na Terra. Não sei quem de fato lerá isto e ponderará em
cima de minhas ponderações, tendo em vista ser esta minha primeira
comunicação... Aos possíveis leitores, desde já peço desculpas por quaisquer
erros (seja de grafia ou coesão gramatical), esta é minha primeira tentativa em
estabelecer-me convosco, missão me concedida ao Alto por motivos que me são
desconhecidos e não creio bem que seja merecedor, pois tanto há a que me
aprimorar. De todo modo, grato sou por esta oportunidade e nenhum empecilho
deve ser colocada como meio de servir à Luz. Aonde há trabalhador de boa
vontade, bom trabalho se aparece.
Bem,
direto ao assunto. Em princípio, não pretendia me identificar pela irrelevância
em me apresentar numa comunicação que julgo ser mais relevante o conteúdo do
que àquele que vos fala. Mas para o assunto tratado, não vejo como me
desvincular disto. Meu nome espiritual é John e minha última encarnação foi na
Inglaterra Tudor. Os eventos que falarei aqui são importantes para entenderem o
que passei... A matéria não está desconexa do espírito, afinal.
Havia
uma rainha bela e admirada por todos os cortesões que reinava em 1532.
Arrancava de seus súditos admiração e rancor de igual maneira, era objeto de
fofoca nas bocas de todos, pois era a “meretriz” que substituíra a boa rainha
Catarina nas afeições do rei Henrique. Notoriamente, Ana Bolena havia alçado à
cobiçada posição de consorte da Inglaterra por meios incomuns ao cortejo da
época: fazendo-se de difícil e agindo como francesa em sua coqueteria. E seu
espírito era impecavelmente francês: falava tão bem aquela língua que muitos
duvidariam ter nascido em terras inglesas. Adaptara-se tanto à corte da senhora
Claude que somente elogios eram tecidos sobre seu caráter. Embora forte,
impetuoso e orgulhoso, imponente quiçá, era decidida em todos os aspectos.
Gostava de conquistar, recusava-se a ser conquistada. Flertar era o esporte que
dominava com afinco. Não era tão bela fisicamente como sua irmã, mas toda sua
confiança inspirava outro exame. Era cruel, como paradoxalmente sabia ser
bondosa. A verdade é que era desconfiada por natureza, guardando em si mesma a
intuição de que veio reparar, naquela existência, crimes cometidos no
pretérito, e como tal levar a cabo importante missão, cujo sucesso implicaria
muito na condução de sua vida material quanto na espiritual.
Quando
Ana foi falsamente acusada de crimes que não cometera, quais absurdos contidos
em tamanhos impropérios que não me cabe divagar aqui, o mais leal dos amigos se
virou contra ela e o mais ferrenho dos inimigos cresceu sobre ela. Entretanto,
foi vítima? De modo algum, ainda que a história goste de pintá-la como pobre
ovelha sacrificada em prol da família. Mas esquecem-se com frequência os homens
que, não obstante seu apego à matéria, estão “cercados por uma nuvem de
testemunhas”, como já os havia alertado Paulo de Tarso. Quem são estas
testemunhas se não criaturas vivas, invisíveis, no entanto, a olho nu? Não
sabeis que casos de obsessão atravessam os séculos, quase sempre incentivando o
aumento dos defeitos em vez da correção dos mesmos.
Em
vez de sabedoria, a soberba. O poder corrompe os bons, dir-se-ia, mas aponto
que não poderia corromper àquele que superara suas faltas anteriores. Prefiro
dizer que ele traz à tona o que muito se busca reprimir sob os bons costumes, a
moral religiosa que controla ainda hoje a mentalidade de tantos encarnados (e,
quiçá, desencarnados também). Se há muito entendessem que reprimir as faltas
equivale a alimentar profundo rancor e estímulos a sentimentos nocivos em vez
de abraçá-las para o trabalho, esclarecimento e a correção, tantas almas teriam
sido salvas ou, melhor dizendo, evitariam a perdição. No entanto, Aquele que
nos criou, princípio inteligente de todas as coisas, consciência cósmica Maior,
tudo sabe, conhece e respeita que em Seu devido tempo nenhuma ovelha se perca
de seu pasto--e mesmo aquela que tenha, porventura, se desviado uma hora
encontrará o caminho de volta.
A
acusação. Embora sabemos que raríssimas foram as rainhas felizes em sua
domesticidade e fora dela, mais comum sendo aquelas que foram maltratadas a
níveis absurdos por seus soberbos reis, não se tinha conhecimento de ter
colocado qualquer delas à par de execução. Ora, dir-se-ia que na história
britânica, uma fora supostamente envenenada por seu marido, outra, aprisionada,
mas ainda assim... Acusada de incesto? Executada por separação forçada do
membro superior de seu corpo? Barbaridade, mesmo para aqueles cruéis tempos. E,
no entanto, a “representante de Deus” ungida pelos filhos da Igreja... sofreu tal
penalidade.
Mas
este suplício traz ensinamento que poucos se propõem estudar. No âmbito
espiritual, veremos nocivas influenciações de detratores embrutecidos em
acusações forjadas que nenhuma comprovação factual seus obsidiados terrenos
possuíam. Para a “vítima”, entretanto, era preciso passar por tal violento fim:
fosse para limpar os crimes do passado (e até então do presente), fosse para
ensinar-nos que a realeza é uma ilusão. Ela não impede a morte, não modifica o
caráter do espírito que encarna com dolorosa expiação neste meio. A própria
corte é evidência de um mundo que não correspondia à realidade. Seus nobres
envaideciam-se às custas dos camponeses que exploravam, olhavam para seus
ancestrais com um quê de culto, e não se distinguiam da corrupção que manchava
o clero da Igreja. Uma boa parte se desviava de seus propósitos espirituais
para viver segundo a matéria. Quando fui ao umbral da última vez para auxiliar
no resgate que a misericórdia divina jamais cessa em ofertar aos filhos
perdidos, entristeci-me profundamente por rever velhos companheiros ainda
obstinados no erro. Mas fé tenho de que o Pai um dia os esclarecerá como me
esclareceu também.
Apesar
de violento desencarne, reflexo da brutalidade do século XVI, Ana Bolena foi
bem amparada pelos nossos amigos espirituais e sua virtude foi reforçada pela
forma com a qual encarou seu fim, demonstrando fé e resignação em seus momentos
finais. E, embora houvesse compreensivelmente tristeza em seus olhos negros até
os últimos instantes, também havia perdão e compaixão. Hoje em dia, é
certamente mais esclarecida que em seu tempo, e ouso dizer que poucos são os
que, com a oportunidade dada em mãos pelo Pai, recusam ante necessidade de
reencarnar e aprimorar-se à luz do evangelho.
Sem
dúvida, todos nós carregamos arrependimentos com relação ao pretérito. Nossa
Ana também tem as suas e as expressou sobretudo com a princesa Mary e àquela
cuja posição “usurpou”, Catarina de Aragão. Por ambas foi perdoada em seu
devido tempo. O perdão sincero é capaz de nos unir aos nossos detratores.
Ana
nos diria que não devemos ter autopiedade quando olharmos para o caminho
repleto de erros que nos trouxeram o presente. E é verdade. Também eu errei
tanto que não me orgulho (e como poderia?!), na verdade, é natural que eu me
envergonhe. Mas falo com naturalidade, leitor, porque me perdoei. Aceitei... E
digo mais, aceitei Jesus em meu coração. Quando aceitamos os ensinamentos
daquele que o Pai nos trouxe para aspirarmos a ser como irmão maior que nosso
mestre é, entendemos que ele jamais nos abandonou. Jamais cerrou as portas de
seu reino para nós. Nós, ao contrário, é que optamos por nos afastar. E quando
retornamos ao seu abraço, ele nos receberá com júbilo! Pois filho pródigo
regressa ao lar! E com ele, através dele, celebra também o Pai que nos criou,
emocionado em receber em seu seio àquele que recebeu como Sua herança a
centelha divina.
A
reencarnação existe também para isso. Entendermos nossas falhas e corrigi-las
sem repressão, sem autoflagelo, sem glorificar ou terrorizar o passado,
questionando o que poderia ter sido feito. Parafraseando nossa amiga que
inspirou-me esta reflexão, “os erros nos impelem ao progresso, sem os quais não
teríamos chegado ao presente”. E o presente, creem quando digo, é sempre melhor
que o passado e será logo ultrapassado por nascente futuro.
Disto
concluo que, enquanto o pretérito traz importantes ensinamentos para nossos
esclarecimentos, não podemos viver cercado por ele nem alçar ao futuro
incertezas que não nos compete lançar. Não devemos nos inferiorizar a todo
instante nem nos elevar acima do bom senso, mas aceitar-nos como
verdadeiramente somos e entender que Deus já nos perdoou e nos aceitou, e
continua nos amando ao depositar diariamente Sua Fé em nós através dos
constantes amparos a que nos envia. Sem comparações, somos Sua criação em
nossas individualidades. Não é momento de se envergonhar do que foi feito, mas
entender que foi preciso passar pelo passado para nos esclarecermos e
melhorarmos. Para tudo há um motivo.
No
meu desencarne, demorei, admito, a entender tudo isso. Pois quando o choque
inundou minha alma, me flagelei. Não me acolhi, mas torturei minha consciência.
Não busquei compreender, mas me sacrifiquei... pelo ego. Custei a entender que,
de fato, fiz escolhas ruins. Mas, perguntei-me, seria possível mudar o curso de
minha essência? Entendendo que era espírito e permanecia vivo, logo reencontrei
outros em similar posição. Todos em sofrimento. E perguntei-os, ora que causas
tanto pranto e ranger de dentes? A resposta recebida era a mesma: nenhuma missa
paga os preparara para aquele infindável tormento, a Igreja, em nome de Deus,
os enganara, enfim, terceirizavam a culpa para não ver que eles mesmos se
colocaram naquela situação.
Em
1607, lembro da chegada ao local de certa personalidade a qual não posso me
referir com detalhes. Todos se aproximaram porque seu lamento, seu uivo de dor
transbordava abertamente. Veio a nós, porém, tal qual donzela, aquela que em
paz se prontificou a ajudar todos nós. E uma vez entendendo que eu mesmo me
causei aquilo, pedi-lhe perdão. Disse-me ela:
“Por
teu excelso amor nada posso perdoá-lo, meu caro. Ferira a ti próprio ao fugir
de tuas responsabilidades tal qual eu, em Terra, fizera e colhera, pois, os
resultados do que semeei. É o amor, contudo, que nos une e eleva ao Criador que
tudo perdoa e nos recebe com a mansidão e infindável doçura que nos falta. É
isto que importa. Títulos e propriedades, vestidos e joias? Que são isto em
comparação com o amparo que Deus, através de Cristo Jesus, nos lança bálsamo
para cristalizar as feridas por nós mesmos causadas? Entendais, bom amigo e
irmão, que somos responsáveis por nós mesmos. Não é o rei, nem o campesinato
que nos trouxeram aqui. E, no entanto, a luz não nos é negada. Perdoai e
amai-te para que possas perdoar e amar aos outros em seguida. Esta é a
principal lição. Pois tu também és filho do Pai que o criou e cruz também
carregaste por dolorosas existências.”
Diante
de meu pranto, ela me segurou e disse: “Levantais, meu amado homem, pois te
trago oportunidade da redenção que buscais. Já passaram-se meio século e ainda
permaneces na erraticidade pela recusa de quê? Não enxergas ainda que ouro
nenhum compra o amor e a ternura de nosso Mestre para conosco, por quem se
sacrificou e aceitou calúnias sem responder? Sê bravo e corajoso, tens ainda
missões a desempenhar, mas preciso seja que te cures, pois a ti também compete
curar outros e consolar mais ainda. Neste caminho, se aceitares Jesus como teu
mestre de coração e alma, a luz se expandirá. Olvidam os homens de que o amor
verdadeiro transborda de dentro, da alma, e não somente de poemas e ouro que a
toda matéria compre. Nenhuma coroa pesa como a de espinhos pesou sobre fronte
doce de Jesus e ele a suportou valorosamente. Pensais que olvidei Dele naquele
instante?” E com sorriso terno, disse-me: “Não, e creio que tampouco tu. Coloco
em tuas mãos este “sacrifício”. Diga-me, que te queres escolher, embora espere
que escolha com sabedoria.”
“À
ajuda de Jesus, eu aceito, embora não a merece”, foi o que respondi em soluços.
Bondosa
dama me respondeu, amparando-me em seus braços: “Todos nós somos merecedores
dele. Basta abrirmos o coração, pois o fechamos a ele em tortuoso passado.”
E
dali em diante, unimo-nos, ou melhor dizendo, reunimo-nos à luz de Cristo para
trabalho incessante. Atualmente, ela se encontra reencarnada, mas nada mais
posso informar. Quem sabe eu reencarne pronto para outra missão? Todo o
conhecimento deve ser passado à frente como de costume.
Agradeço,
portanto, à médium pela oportunidade de me dar voz neste instante. E certo
estou de que em breve nos reuniremos outra vez. Que Deus a abençoe e ilumine
seus caminhos. Grato sou também aos seus guias que mui pronto me ofereceram
auxílio para difícil tarefa. Que Deus os ampare e rogo para que os ame a todos
sempre, inspirando-nos constantemente à seguir o caminho que Cristo nos
convidou a trilhar.
Espírito
John.”
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