quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Relatos IV: Lições Espirituais pelo Espírito John.

Nota do Guia de Ogum: "Saudações aos meus nobres irmãos e irmãs em Cristo! Dando continuidade aos relatos espirituais, trazemos neste dia outro relato de nosso amigo do plano espiritual. Seu nome aqui foi dado como John e esta é sua primeira comunicação. Vale ressaltar novamente para que a identidade não sobressaia ao teor da mensagem. Do lado de cá, títulos, cargos, posições não têm nenhuma relevância em comparação ao caráter do espírito que traz consigo somente suas qualidades, defeitos, progressos morais, enfim, o aprendizado passado na Terra. Deste assunto não me prolongarei, uma vez que há vasto estudo sobre o assunto. Diante disto, deixarei a vós as ponderações sobre o que este bondoso amigo vem-nos ensinar. Que Deus  vos abençoe, meus amigos, e que a semana seja próspera a todos. --George."

“É somente no chamado outro lado que entendemos o que fomos, ou pior, a razão pela qual deixamos de ser. Quando o espírito se desprende do corpo e todos os laços que ligavam seu períspirito à matéria, o estupor vem. E quando assim cessa, os que entendem de imediato o que se passa, com horror verificam que nenhum privilégio terreno é transferido para cá.

Que importam títulos, propriedades, cargos à morte que ceifa a reis e camponeses igualmente? A História nos mostra exemplos de incontáveis espíritos que não obtiveram sucesso em suas missões, através de alguns dos quais a misericórdia divina se operou pela espiritualidade. Em todo o tempo da humanidade, discursos de ódio recebem sua dose messiânica com o objetivo de antagonizar-se aos princípios que Cristo nos ensinou, a própria Igreja Católica corrobora o que eu digo, e portanto resultou disto a Reforma, que, todavia, em seu próprio tempo também foi corrompida divino propósito por homens cegos por sua ânsia em ter razão acima de tudo e todos.

Ainda me é difícil refletir estes temas, e venho os estudado desde meu desencarne há mais de quatro séculos. Confesso que não me sinto pronto ainda para a envergadura da carne e, em sua infinita compaixão, o Pai Maior permitiu que eu mo fosse acolhido por espíritos divinos em sua colônia, cujo nome, entretanto, não fui autorizado aqui a escrever nem reproduzir.

Bom, como dizia, venho estudado as leis divinas que regem a verdadeira justiça que molda o mundo espiritual, nossa pátria genuína, da qual somos voluntariamente exilados (para não dizer impelidos, termo este que penso enquadrar os que se veem forçados a aceitar peremptoriamente sua reencarnação no Planeta Terra em face de criminoso pretérito a marcar-lhe profundamente a alma), esforçando-me, pois, para compreender um pouco da natureza divina do Pai que nos criou. Deste lado cá, convivendo com outros espíritos em certa similitude para comigo, concluí que livre me encontro das amarras dos preconceitos de outrora, muitos dos quais persistem na Terra. Não sei quem de fato lerá isto e ponderará em cima de minhas ponderações, tendo em vista ser esta minha primeira comunicação... Aos possíveis leitores, desde já peço desculpas por quaisquer erros (seja de grafia ou coesão gramatical), esta é minha primeira tentativa em estabelecer-me convosco, missão me concedida ao Alto por motivos que me são desconhecidos e não creio bem que seja merecedor, pois tanto há a que me aprimorar. De todo modo, grato sou por esta oportunidade e nenhum empecilho deve ser colocada como meio de servir à Luz. Aonde há trabalhador de boa vontade, bom trabalho se aparece.

Bem, direto ao assunto. Em princípio, não pretendia me identificar pela irrelevância em me apresentar numa comunicação que julgo ser mais relevante o conteúdo do que àquele que vos fala. Mas para o assunto tratado, não vejo como me desvincular disto. Meu nome espiritual é John e minha última encarnação foi na Inglaterra Tudor. Os eventos que falarei aqui são importantes para entenderem o que passei... A matéria não está desconexa do espírito, afinal.

Havia uma rainha bela e admirada por todos os cortesões que reinava em 1532. Arrancava de seus súditos admiração e rancor de igual maneira, era objeto de fofoca nas bocas de todos, pois era a “meretriz” que substituíra a boa rainha Catarina nas afeições do rei Henrique. Notoriamente, Ana Bolena havia alçado à cobiçada posição de consorte da Inglaterra por meios incomuns ao cortejo da época: fazendo-se de difícil e agindo como francesa em sua coqueteria. E seu espírito era impecavelmente francês: falava tão bem aquela língua que muitos duvidariam ter nascido em terras inglesas. Adaptara-se tanto à corte da senhora Claude que somente elogios eram tecidos sobre seu caráter. Embora forte, impetuoso e orgulhoso, imponente quiçá, era decidida em todos os aspectos. Gostava de conquistar, recusava-se a ser conquistada. Flertar era o esporte que dominava com afinco. Não era tão bela fisicamente como sua irmã, mas toda sua confiança inspirava outro exame. Era cruel, como paradoxalmente sabia ser bondosa. A verdade é que era desconfiada por natureza, guardando em si mesma a intuição de que veio reparar, naquela existência, crimes cometidos no pretérito, e como tal levar a cabo importante missão, cujo sucesso implicaria muito na condução de sua vida material quanto na espiritual.

Quando Ana foi falsamente acusada de crimes que não cometera, quais absurdos contidos em tamanhos impropérios que não me cabe divagar aqui, o mais leal dos amigos se virou contra ela e o mais ferrenho dos inimigos cresceu sobre ela. Entretanto, foi vítima? De modo algum, ainda que a história goste de pintá-la como pobre ovelha sacrificada em prol da família. Mas esquecem-se com frequência os homens que, não obstante seu apego à matéria, estão “cercados por uma nuvem de testemunhas”, como já os havia alertado Paulo de Tarso. Quem são estas testemunhas se não criaturas vivas, invisíveis, no entanto, a olho nu? Não sabeis que casos de obsessão atravessam os séculos, quase sempre incentivando o aumento dos defeitos em vez da correção dos mesmos.

Em vez de sabedoria, a soberba. O poder corrompe os bons, dir-se-ia, mas aponto que não poderia corromper àquele que superara suas faltas anteriores. Prefiro dizer que ele traz à tona o que muito se busca reprimir sob os bons costumes, a moral religiosa que controla ainda hoje a mentalidade de tantos encarnados (e, quiçá, desencarnados também). Se há muito entendessem que reprimir as faltas equivale a alimentar profundo rancor e estímulos a sentimentos nocivos em vez de abraçá-las para o trabalho, esclarecimento e a correção, tantas almas teriam sido salvas ou, melhor dizendo, evitariam a perdição. No entanto, Aquele que nos criou, princípio inteligente de todas as coisas, consciência cósmica Maior, tudo sabe, conhece e respeita que em Seu devido tempo nenhuma ovelha se perca de seu pasto--e mesmo aquela que tenha, porventura, se desviado uma hora encontrará o caminho de volta.

A acusação. Embora sabemos que raríssimas foram as rainhas felizes em sua domesticidade e fora dela, mais comum sendo aquelas que foram maltratadas a níveis absurdos por seus soberbos reis, não se tinha conhecimento de ter colocado qualquer delas à par de execução. Ora, dir-se-ia que na história britânica, uma fora supostamente envenenada por seu marido, outra, aprisionada, mas ainda assim... Acusada de incesto? Executada por separação forçada do membro superior de seu corpo? Barbaridade, mesmo para aqueles cruéis tempos. E, no entanto, a “representante de Deus” ungida pelos filhos da Igreja... sofreu tal penalidade.

Mas este suplício traz ensinamento que poucos se propõem estudar. No âmbito espiritual, veremos nocivas influenciações de detratores embrutecidos em acusações forjadas que nenhuma comprovação factual seus obsidiados terrenos possuíam. Para a “vítima”, entretanto, era preciso passar por tal violento fim: fosse para limpar os crimes do passado (e até então do presente), fosse para ensinar-nos que a realeza é uma ilusão. Ela não impede a morte, não modifica o caráter do espírito que encarna com dolorosa expiação neste meio. A própria corte é evidência de um mundo que não correspondia à realidade. Seus nobres envaideciam-se às custas dos camponeses que exploravam, olhavam para seus ancestrais com um quê de culto, e não se distinguiam da corrupção que manchava o clero da Igreja. Uma boa parte se desviava de seus propósitos espirituais para viver segundo a matéria. Quando fui ao umbral da última vez para auxiliar no resgate que a misericórdia divina jamais cessa em ofertar aos filhos perdidos, entristeci-me profundamente por rever velhos companheiros ainda obstinados no erro. Mas fé tenho de que o Pai um dia os esclarecerá como me esclareceu também.

Apesar de violento desencarne, reflexo da brutalidade do século XVI, Ana Bolena foi bem amparada pelos nossos amigos espirituais e sua virtude foi reforçada pela forma com a qual encarou seu fim, demonstrando fé e resignação em seus momentos finais. E, embora houvesse compreensivelmente tristeza em seus olhos negros até os últimos instantes, também havia perdão e compaixão. Hoje em dia, é certamente mais esclarecida que em seu tempo, e ouso dizer que poucos são os que, com a oportunidade dada em mãos pelo Pai, recusam ante necessidade de reencarnar e aprimorar-se à luz do evangelho.

Sem dúvida, todos nós carregamos arrependimentos com relação ao pretérito. Nossa Ana também tem as suas e as expressou sobretudo com a princesa Mary e àquela cuja posição “usurpou”, Catarina de Aragão. Por ambas foi perdoada em seu devido tempo. O perdão sincero é capaz de nos unir aos nossos detratores.

Ana nos diria que não devemos ter autopiedade quando olharmos para o caminho repleto de erros que nos trouxeram o presente. E é verdade. Também eu errei tanto que não me orgulho (e como poderia?!), na verdade, é natural que eu me envergonhe. Mas falo com naturalidade, leitor, porque me perdoei. Aceitei... E digo mais, aceitei Jesus em meu coração. Quando aceitamos os ensinamentos daquele que o Pai nos trouxe para aspirarmos a ser como irmão maior que nosso mestre é, entendemos que ele jamais nos abandonou. Jamais cerrou as portas de seu reino para nós. Nós, ao contrário, é que optamos por nos afastar. E quando retornamos ao seu abraço, ele nos receberá com júbilo! Pois filho pródigo regressa ao lar! E com ele, através dele, celebra também o Pai que nos criou, emocionado em receber em seu seio àquele que recebeu como Sua herança a centelha divina.

A reencarnação existe também para isso. Entendermos nossas falhas e corrigi-las sem repressão, sem autoflagelo, sem glorificar ou terrorizar o passado, questionando o que poderia ter sido feito. Parafraseando nossa amiga que inspirou-me esta reflexão, “os erros nos impelem ao progresso, sem os quais não teríamos chegado ao presente”. E o presente, creem quando digo, é sempre melhor que o passado e será logo ultrapassado por nascente futuro.

Disto concluo que, enquanto o pretérito traz importantes ensinamentos para nossos esclarecimentos, não podemos viver cercado por ele nem alçar ao futuro incertezas que não nos compete lançar. Não devemos nos inferiorizar a todo instante nem nos elevar acima do bom senso, mas aceitar-nos como verdadeiramente somos e entender que Deus já nos perdoou e nos aceitou, e continua nos amando ao depositar diariamente Sua Fé em nós através dos constantes amparos a que nos envia. Sem comparações, somos Sua criação em nossas individualidades. Não é momento de se envergonhar do que foi feito, mas entender que foi preciso passar pelo passado para nos esclarecermos e melhorarmos. Para tudo há um motivo.

No meu desencarne, demorei, admito, a entender tudo isso. Pois quando o choque inundou minha alma, me flagelei. Não me acolhi, mas torturei minha consciência. Não busquei compreender, mas me sacrifiquei... pelo ego. Custei a entender que, de fato, fiz escolhas ruins. Mas, perguntei-me, seria possível mudar o curso de minha essência? Entendendo que era espírito e permanecia vivo, logo reencontrei outros em similar posição. Todos em sofrimento. E perguntei-os, ora que causas tanto pranto e ranger de dentes? A resposta recebida era a mesma: nenhuma missa paga os preparara para aquele infindável tormento, a Igreja, em nome de Deus, os enganara, enfim, terceirizavam a culpa para não ver que eles mesmos se colocaram naquela situação.

Em 1607, lembro da chegada ao local de certa personalidade a qual não posso me referir com detalhes. Todos se aproximaram porque seu lamento, seu uivo de dor transbordava abertamente. Veio a nós, porém, tal qual donzela, aquela que em paz se prontificou a ajudar todos nós. E uma vez entendendo que eu mesmo me causei aquilo, pedi-lhe perdão. Disse-me ela:

“Por teu excelso amor nada posso perdoá-lo, meu caro. Ferira a ti próprio ao fugir de tuas responsabilidades tal qual eu, em Terra, fizera e colhera, pois, os resultados do que semeei. É o amor, contudo, que nos une e eleva ao Criador que tudo perdoa e nos recebe com a mansidão e infindável doçura que nos falta. É isto que importa. Títulos e propriedades, vestidos e joias? Que são isto em comparação com o amparo que Deus, através de Cristo Jesus, nos lança bálsamo para cristalizar as feridas por nós mesmos causadas? Entendais, bom amigo e irmão, que somos responsáveis por nós mesmos. Não é o rei, nem o campesinato que nos trouxeram aqui. E, no entanto, a luz não nos é negada. Perdoai e amai-te para que possas perdoar e amar aos outros em seguida. Esta é a principal lição. Pois tu também és filho do Pai que o criou e cruz também carregaste por dolorosas existências.”

Diante de meu pranto, ela me segurou e disse: “Levantais, meu amado homem, pois te trago oportunidade da redenção que buscais. Já passaram-se meio século e ainda permaneces na erraticidade pela recusa de quê? Não enxergas ainda que ouro nenhum compra o amor e a ternura de nosso Mestre para conosco, por quem se sacrificou e aceitou calúnias sem responder? Sê bravo e corajoso, tens ainda missões a desempenhar, mas preciso seja que te cures, pois a ti também compete curar outros e consolar mais ainda. Neste caminho, se aceitares Jesus como teu mestre de coração e alma, a luz se expandirá. Olvidam os homens de que o amor verdadeiro transborda de dentro, da alma, e não somente de poemas e ouro que a toda matéria compre. Nenhuma coroa pesa como a de espinhos pesou sobre fronte doce de Jesus e ele a suportou valorosamente. Pensais que olvidei Dele naquele instante?” E com sorriso terno, disse-me: “Não, e creio que tampouco tu. Coloco em tuas mãos este “sacrifício”. Diga-me, que te queres escolher, embora espere que escolha com sabedoria.”

“À ajuda de Jesus, eu aceito, embora não a merece”, foi o que respondi em soluços.

Bondosa dama me respondeu, amparando-me em seus braços: “Todos nós somos merecedores dele. Basta abrirmos o coração, pois o fechamos a ele em tortuoso passado.”

E dali em diante, unimo-nos, ou melhor dizendo, reunimo-nos à luz de Cristo para trabalho incessante. Atualmente, ela se encontra reencarnada, mas nada mais posso informar. Quem sabe eu reencarne pronto para outra missão? Todo o conhecimento deve ser passado à frente como de costume.

Agradeço, portanto, à médium pela oportunidade de me dar voz neste instante. E certo estou de que em breve nos reuniremos outra vez. Que Deus a abençoe e ilumine seus caminhos. Grato sou também aos seus guias que mui pronto me ofereceram auxílio para difícil tarefa. Que Deus os ampare e rogo para que os ame a todos sempre, inspirando-nos constantemente à seguir o caminho que Cristo nos convidou a trilhar.

Espírito John.”


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