“Fui
judeu em uma época muito distante da sua, minha cara. Temo que possa ignorar os
termos que outros estudiosos da Torá possam estar mais familiarizados. Mas não
será disso que falarei, não é o propósito que me move aqui.
A
verdade é que venho a acompanhando nestes últimos estudos do Evangelho e acerca
do Espiritismo, desta doutrina que, não nego, me fora desconhecida. Mas a sua
luz de conhecimento e sabedoria me atraiu até aqui, pois confesso que até então
me achava perdido.
Por
muito tempo fiquei muito vidrado, quase obcecado com a forma dos rituais que os
hebreus reproduzem tradicionalmente século após séculos com base nas leis
mosaicas. Casávamos entre nós mesmos não somente pelos motivos de cupidez que,
hoje mais esclarecido, me envergonham, mas também por segurança. Quando Moisés
nos libertou da escravidão egípcia, pensamos que éramos livres de fato, mas ao
contrário... por quanto tempo fomos perseguidos? Sei que sabe que, no caso da
Inglaterra, foi somente depois de 1743 que fomos dados a permissão de residir
lá. Muito mais recente foi o holocausto que dizimou mais de 1 milhão de almas,
a maior parte da qual era inocente de toda e qualquer acusação, e cujo único
crime era ter nascido hebreu. Recebemos século atrás de século a culpa pela
crucificação do Messias. Oh, que lamentosa vergonha sofremos pelos atos de
nossos antepassados! Todavia, devo dizer que ante a multidão que gritou pela
morte Dele havia pesada influência sobre os sacerdotes. Tudo isso aprendi aqui,
no plano espiritual.
Fui
português e, por muita sorte, escapei da perseguição judicial da “Santa”
Inquisição. Fui obrigado a tornar-me Oliveira, vergonha que carreguei em minha
consciência. Ao olhar para os percalços passados pelos meus antepassados, seria
justo procurar pela sombra mais tranquila? Desposei Elisabet e, depois, Esther.
Com ambas tive filhos. Crianças doces, uma delas que me lembra você porque
tinha voz doce que cantava melodia d’alma e uma sede por saber. Como pai
devoto, eduquei como podia. Preparei cada um para casamentos.
Mas
era mui difícil ouvir a pergunta das crianças: papai, por que abjurou de sua
fé? Nossos ancestrais morreram por ela. O décimo e oitavo século me trouxe
pesados questionamentos que somente agora pude compreender. Fui mercador, mas
me corrompi no caminho. Comprei a Igreja para que não me perseguisse. Fugi de
mim mesmo. Tornei-me quem não quis. Vivi da vaidade mundana e certamente ouvi
que era tão caracteristicamente hebraica.
Hoje
aprendo a não ter culpa por ter protegido minha família. Em um mundo duro e
cruel, fazer isso de bom grado contra as convenções é bom sacrifício aos olhos
do Pai. Sim, errei e bastante, mas também Ele me perdoou. A todo instante, Ele
nos oferece perdão e, no entanto, quantas não são as vezes em que fugimos dEle?
Conforme estudava no plano espiritual, antes mesmo de mo ser dirigido a você,
filha, soube que eu, do alto do meu ouro, julgava muitos. Descobri que os
crimes dos outros que julguei com tanta ferocidade... No pretérito cometi. Eis
outra valiosa lição: o que realmente sabemos? Podemos de fato medir por nossa
régua a vida alheia? O Pai mo ofereceu perdão e outra oportunidade de limpar-me
dos pecados. Por que recusamos o mesmo aos outros?
Sabe,
filha, sei que a situação anda difícil. Não sei o que seria de mim ou dos meus
se renascêssemos hoje em Israel. Ou em qualquer outro lugar do globo terrestre.
O que me move é a fé no futuro. É por isso que vim. Para animá-la. As energias
estão misturando demais e algumas das vezes recaem sobre você. Mas lembre-se de
sua candura, da sua doçura e sua sapiência. Sabe lá aonde vão levá-la? Os bons
espíritos a acompanham, crê no que digo. E, sem saber, me ajudou bastante.
Reencontrei, por sua causa, todos os filhos que temi ter perdido. Obrigado.
Aqui
está minha retribuição. O conhecimento é um caminho que vale a pena, e para os
que vivem com pressa, não percebem as pedras que somente você precisa passar
para superar até mesmo a si mesma. Confia, que os resultados vêm. Seja agora
como no futuro. O importante é sorrir e espalhar a sua alegria por aí. Nisso,
digo mais. Aprendi com você que o esclarecimento vale tudo a pena. Que
significa a fé sem a razão? Perdoe-se como perdoa os outros, paciência tenha
como tem com os outros. Assim, virá o que tanto busca.
De
seu sincero amigo.
Moisés-Joaquim.”
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