Nota do guia de Ogum: "Bom dia, companheiros e companheiras encarnados neste belo planeta! Seguimos com o nosso trabalho espiritual que, como podeis ver, não é somente resultado da médium junto a mim, mas envolve todo um grupo que coordena estas psicografias segundo as instruções que nos são legadas pelo Alto com a permissão do nosso Pai Celestial. Para os que estão porventura familiarizados conosco, a psicografia de hoje é ditada por nosso velho conhecido: o Monge Antônio, que tem acompanhado a médium em seus estudos espiritualistas e cujas observações se encontram na rede de mídia social como já pudestes ver. Entretanto, aqui ele nos traz rico relato sobre a importância de levar a Palavra do Senhor mesmo àqueles que nos fazem surdos no dia-a-dia e como São Francisco, com sua paciência, ternura e brandura, foi de importância vital para que nosso amigo continuasse sua jornada na luz do Senhor em meio às sombras dos nossos irmãos que, mesmo hoje em dia, persistem na cegueira produzida pelo orgulho, vaidade, egoísmo, dentre outros vícios, que os afasta do nosso bondoso Pai."
“Na
humildade, na pobreza, longe das ilusões proporcionadas pelo luxo da carne, um
dia, enquanto pregava a palavra do Senhor nas ruas de Siena, reparei que duas
senhoras brigavam. Aproximei-me delas e, sem interesse em buscar entender o que
realmente se passava, falei:
--Louvado
seja nosso senhor Jesus Cristo e sua doce e santíssima mãe!
Ignoraram-me,
mas senti que elas precisavam ouvir, não obstante os olhares de desprezo que
outros por ali perto me dirigiam.
--Que
bênçãos caem sobre vós, senhoras! Não permitais que pequena desavença
interpunha-se entre vós! Sedes felizes com o que possuirdes e buscais a
fraternidade, eu vos rogo!
Uma
delas, vestida pomposamente, pareceu ouvir. Mas franziu a fronte e tornou:
--Dias
passarão sem que tal lição será discursada por um mero pedinte sobre nós. Que
quereis, monge? Se pregais o voto de pobreza, por que mendigais por ouro?
--Nenhum
ouro é melhor do que a Palavra pregada do nosso Senhor—volvi—Céu e Terra
passarão, mas a Palavra não passará.
A
segunda, olhando-me com desdém, disse:
--Por
que perder tempo com este? Ora, se quiséssemos ouvir a Palavra, estaríamos em
um lugar apropriado tal como a Igreja.
--Mas
senhora, a Palavra não se circunscreve à Igreja. Permita-me dizer que os
ensinamentos estão em nós mesmos. A alma, imortal, foi criada a partir do
Senhor para que se cumpra sua divina vontade.
A
primeira, levemente interessada, se pôs a inquirir:
--E
que vontade seria é essa?
Achei
que estava tudo correndo bem e sorri, acalentado por esperança desconhecida.
--A
de amarmos uns aos outros como ele nos amou. Vedes, perdão é um exemplo de amor
excelso. Quando perdoamos do nosso coração, esquecemos as dívidas e as ofensas
daquele que nos feriu. Por que não perdoais a vossa irmã?
Ela
pareceu hesitar por um instante, mas a outra tornou a vociferar:
--Que
quereis conosco, monge? Quem dás a vós o direito de intrometer em assuntos que
não vos dais respeito? Tendeis a pretensão de nos ensinar a caridade quando não
a praticais? Que eu saiba, homens como vós não possuem direito sagrado para
falar por nosso Senhor. Se quereis viver na pobreza, que viveis, mas não nos
atormenteis mais!
Como
se inspirada pela dama com quem discutia até pouco tempo antes, retrucou:
--Que
isto sirva de lição. Os franciscanos devem ficar onde os convém: na pobreza.
E,
rindo, as duas me deixaram na rua. Entristecido, me pus a indagar minha
consciência: em qual instância errei? Meu orgulho teria se camuflado de
humildade e me instado a crer que poderia pregar a palavra àquelas senhoras?
Questionei-me. Como posso ser útil ao Deus Pai daquela forma? Como falar à
gente surda?
Confuso
e desanimado, voltei o caminho percorrido. Fui, antes, a uma igreja e dali fiz uma
pequena prece, rogando ao Senhor por perdão. Falhei, mas admitia desconhecer em
que ponto exatamente errei e por que aquilo era-me como uma flecha em meu
peito. De cabeça baixa, voltei às sombras a comunidade. Lá, Francisco de pronto
me recebeu. Alma boníssima e de olhos repletos de luz, de imediato afastou as
nuvens que carregava comigo. Sentamo-nos longe de nossos irmãos. Ele disse:
--Que
é isto, irmão Antônio? Lembro de tê-lo visto receber as instruções que o dei
com alegria e agora volta abatido.
--Falhei
em minha tarefa, senhor—e, sensível, expus o que pesava sobre meu coração.
Ele
ouviu e pareceu ponderar por instantes antes de dizer em meio ao sorriso que me
oferecia, sempre cândido.
--Todo
erro é necessário para aprendizado. Não faça dele teu flagelo. Não há
necessidade disso. Quando nosso Deus nos colocou aqui para que recordássemos
aos nossos irmãos em Jesus, nosso mestre divino amado, das leis que há tantos e
tantos séculos ele, encarnado, veio ensinar a nós todos, preparou-nos para os
vícios que se enraízam nas almas dos homens. Sabeis me enumerá-los, meu irmão?
--Luxúria,
cobiça, soberba, ira, glutonia, preguiça e vaidade.
Francisco
sorriu, brando.
--Sim,
estes são os piores, mas bem sabemos que o orgulho, em si, é o pai destes
todos. Deparamo-nos, meu irmão, com aqueles que se acham na razão de dizer aos
outros como devem viver, pensar, sentir, agir... Aqueles que não ouvem e, no
entanto, querem ser ouvidos. Para tanto, pavoneiam-se. E, contudo, devemos nos
apiedar destes irmãos nossos que estão feridos por dentro. Quem briga, fere. Quem
precisa mostrar ao mundo as morais que possui, está triste, infeliz. Diga-me,
quem poderia ser feliz quando é governado pelas paixões?
--Muito
difícil—volvi—é crer-se feliz quando a mente é governada por tais paixões,
mestre.
--Por
favor, sem títulos—ele me repreendeu com doçura—Sou apenas Francisco, meu
irmão. Mas sim, a mente, quando indisciplinada, nos leva as ilusões,
alimentadas pelo orgulho. É mui difícil levar a Palavra a estes nossos irmãos
porque eles acreditam conhecer tudo, e, no entanto, não valem de tal
conhecimento. É preciso paciência, misericórdia e compaixão. Haverá um dia em
que estes irmãos vão despertar de suas paixões. São todos fortes em Deus Pai
para livrar-se disso, mas a tudo segundo seu tempo. Não te entristeças. Credes
em mim quando digo que tua exortação não caiu em ouvidos surdos.
Hesitante,
perguntei:
--Mas
como podes ter certeza?
--Acaso
não confias no Pai que te enviou aqui? Não confias em nosso mestre Jesus?
Lembrais, meu irmão, que Jesus também sabia que no tempo do Pai os
trabalhadores de última hora chegarão para vir buscar sua boa nova, seu pão de
cada dia—ele sorriu, otimista—E mesmo quando eles chegarem, cabe a nós
acolhermos, pois são como irmãos que foram fazer uma viagem distante e depois
de tanto tempo, regressam à casa. E como os receberemos? Não será com alegria?
--Sim,
assim o será.
--E
desistirias de um irmão que te fazes surdo às tuas exortações?
--Não.
Acredito que, se me permite, apenas mudaria o local das mesmas—Inseguro, pus a
acrescentar—Iria aonde minha ajuda seria aceita.
--E
mesmo ainda aí, deveis não desperdiçar a oportunidade em lembrar aos nossos
irmãos e nossas irmãs de que o jugo no Senhor é leve para aquele que crê. Que
tudo é passageiro, mas não a Palavra, e por que isto, eu o pergunto?
--A
Palavra não muda porque ela traduz as leis do nosso Pai que as determinou. Ele
é justo e coerente, é resistente às coisas mundanas—especulei.
Francisco
me sorriu com ternura e pôs uma mão sobre meu ombro.
--Deverias
falar com mais confiança aquilo que de tua alma emana. Amais aqueles irmãos que
te olham com desdém, pois eles desconhecem a verdadeira ternura. Amais aqueles
que brigam para se fazerem ouvidos, pois eles olvidaram o amor e paciência.
Amais os intolerantes, pois haverá um dia em que sofrerão a intolerância de
suas pregações, e precisarão de quem os ame e os console. Amais os que pensam
de maneira tão diferente das nossas porque cada alma possui uma única
individualidade e o nosso Deus conhece a ela todas e não pediria que fossem
todas iguais, do contrário, seríamos todos uma única entidade. Se precisares,
pranteia hoje, pois a dor é válida tanto quanto é um excelente aprendizado, meu
irmão. Amanhã, te levantas e agradeças ao Pai por essa lágrima que escorre de
teus olhos, pois demonstra que em teu coração há a sensibilidade que ainda
falta ao mundo. Amais mesmo os frios e embrutecidos, pois se distanciaram do
ensinamento de Jesus. Tendes piedades dos que precisam usar da força para com
seu semelhante, pois vivem em ilusões que, na posteridade, será difícil desenlaçar.
E acima de tudo, amais sem diferenças e sem recompensas, pois é pelo amor que
servimos e nos devotamos, sem distinções, e movidos pela caridade que nos
enternece.
Emocionei-me
e um soluço escapou-me. Como se estivesse a ler meus pensamentos, disse
Francisco:
--E
não te sintas envergonhado pela sensibilidade de teu coração, meu irmão. Nem
por prantear por aquilo que te fere. Corajoso é aquele que reconhece o que
possui. Bens aventurados são os mansos de coração, pois é a eles que espera o
Reino dos Céus. Siga teu caminho, Antônio. Tendes paciência. E evitas te
colocar em posição de conflito, pois não te cumpre resolver tudo. Nosso mestre
Jesus não pôde curar a todos porque não era o tempo ainda. Vá semeando, meu
amigo, que o vento ajudará e a chuva regará o que plantou.
--Obrigado—foi
tudo o que consegui balbuciar—Obrigado por tudo. Desejo-te ser um irmão fiel,
um bom seguidor e um instrumento de nosso Senhor aonde for necessário.
Ele
sorriu e pude jurar que vi um halo formar-se sobre sua cabeça. Outra vez, bom
Francisco repousou sua mão sobre meu ombro e deu-me uma leve pressão.
--Credes
quando digo, meu irmão, que o Senhor nos porá aonde formos necessários para Ele.
O que reside em nossos corações Ele vê. Se buscas seguir o caminho corretamente
e oferecer amor em tuas caridades com o próximo, credes, estás fazendo muito
mais do que os que pregam por lábios, mas emudecem os corações. A verdadeira
humildade não está somente em reconhecer nossas limitações e aceitar a
autoridade do Senhor sobre a nossa em todas as questões temporais ou seculares,
mas em resignar-nos ante a sua vontade. Ele não rejeitará um irmão que, em meio
aos tropeços, busca a Ele de coração aberto. Nem tudo é preto no branco,
Antônio. Recordas disto.
Tomei
suas duas mãos nas minhas e tornei-as beijá-las, ajoelhando-me subitamente
diante dele. Mas Francisco sorriu e, pondo uma mão sobre minha cabeça, disse:
--Tranquilizais
teus temores, meu amigo. O dia de hoje é mais um para tantos de nós, mas,
credes, será o nascer do sol para os que viviam em escuridão até então. Não
desistas diante das pessoas mais difíceis, pois são irmãos que necessitam de
nosso amor e nossa compaixão. Ide, Antônio, e pregas como te ensinei. Um dia,
tornaremos a nos ver novamente e o receberei de braços abertos sob a luz de
nosso mestre Jesus. Ide em paz e que o Senhor esteja sempre convosco.
--Graças
a Deus—falei, emocionado.
E
não mais esperei. O dia havia recentemente passado do meio dia, e eu, ansioso e
renovado com as boas instruções daquele a quem servia com inflamado amor,
pus-me a trabalhar para o Senhor. Eis o ensinamento ao leitor, minha cara amiga.
Fazeis como eu, e espalheis a Palavra aonde fores necessária.”
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