quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Relatos II: Diálogos com São Francisco de Assis pelo Espírito Monge Antônio.

Nota do guia de Ogum: "Bom dia, companheiros e companheiras encarnados neste belo planeta! Seguimos com o nosso trabalho espiritual que, como podeis ver, não é somente resultado da médium junto a mim, mas envolve todo um grupo que coordena estas psicografias segundo as instruções que nos são legadas pelo Alto com a permissão do nosso Pai Celestial. Para os que estão porventura familiarizados conosco, a psicografia de hoje é ditada por nosso velho conhecido: o Monge Antônio, que tem acompanhado a médium em seus estudos espiritualistas e cujas observações se encontram na rede de mídia social como já pudestes ver. Entretanto, aqui ele nos traz rico relato sobre a importância de levar a Palavra do Senhor mesmo àqueles que nos fazem surdos no dia-a-dia e como São Francisco, com sua paciência, ternura e brandura, foi de importância vital para que nosso amigo continuasse sua jornada na luz do Senhor em meio às sombras dos nossos irmãos que, mesmo hoje em dia, persistem na cegueira produzida pelo orgulho, vaidade, egoísmo, dentre outros vícios, que os afasta do nosso bondoso Pai." 

“Na humildade, na pobreza, longe das ilusões proporcionadas pelo luxo da carne, um dia, enquanto pregava a palavra do Senhor nas ruas de Siena, reparei que duas senhoras brigavam. Aproximei-me delas e, sem interesse em buscar entender o que realmente se passava, falei:

--Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo e sua doce e santíssima mãe!

Ignoraram-me, mas senti que elas precisavam ouvir, não obstante os olhares de desprezo que outros por ali perto me dirigiam.

--Que bênçãos caem sobre vós, senhoras! Não permitais que pequena desavença interpunha-se entre vós! Sedes felizes com o que possuirdes e buscais a fraternidade, eu vos rogo!

Uma delas, vestida pomposamente, pareceu ouvir. Mas franziu a fronte e tornou:

--Dias passarão sem que tal lição será discursada por um mero pedinte sobre nós. Que quereis, monge? Se pregais o voto de pobreza, por que mendigais por ouro?

--Nenhum ouro é melhor do que a Palavra pregada do nosso Senhor—volvi—Céu e Terra passarão, mas a Palavra não passará.

A segunda, olhando-me com desdém, disse:

--Por que perder tempo com este? Ora, se quiséssemos ouvir a Palavra, estaríamos em um lugar apropriado tal como a Igreja.

--Mas senhora, a Palavra não se circunscreve à Igreja. Permita-me dizer que os ensinamentos estão em nós mesmos. A alma, imortal, foi criada a partir do Senhor para que se cumpra sua divina vontade.

A primeira, levemente interessada, se pôs a inquirir:

--E que vontade seria é essa?

Achei que estava tudo correndo bem e sorri, acalentado por esperança desconhecida.

--A de amarmos uns aos outros como ele nos amou. Vedes, perdão é um exemplo de amor excelso. Quando perdoamos do nosso coração, esquecemos as dívidas e as ofensas daquele que nos feriu. Por que não perdoais a vossa irmã?

Ela pareceu hesitar por um instante, mas a outra tornou a vociferar:

--Que quereis conosco, monge? Quem dás a vós o direito de intrometer em assuntos que não vos dais respeito? Tendeis a pretensão de nos ensinar a caridade quando não a praticais? Que eu saiba, homens como vós não possuem direito sagrado para falar por nosso Senhor. Se quereis viver na pobreza, que viveis, mas não nos atormenteis mais!

Como se inspirada pela dama com quem discutia até pouco tempo antes, retrucou:

--Que isto sirva de lição. Os franciscanos devem ficar onde os convém: na pobreza.

E, rindo, as duas me deixaram na rua. Entristecido, me pus a indagar minha consciência: em qual instância errei? Meu orgulho teria se camuflado de humildade e me instado a crer que poderia pregar a palavra àquelas senhoras? Questionei-me. Como posso ser útil ao Deus Pai daquela forma? Como falar à gente surda?

Confuso e desanimado, voltei o caminho percorrido. Fui, antes, a uma igreja e dali fiz uma pequena prece, rogando ao Senhor por perdão. Falhei, mas admitia desconhecer em que ponto exatamente errei e por que aquilo era-me como uma flecha em meu peito. De cabeça baixa, voltei às sombras a comunidade. Lá, Francisco de pronto me recebeu. Alma boníssima e de olhos repletos de luz, de imediato afastou as nuvens que carregava comigo. Sentamo-nos longe de nossos irmãos. Ele disse:

--Que é isto, irmão Antônio? Lembro de tê-lo visto receber as instruções que o dei com alegria e agora volta abatido.

--Falhei em minha tarefa, senhor—e, sensível, expus o que pesava sobre meu coração.

Ele ouviu e pareceu ponderar por instantes antes de dizer em meio ao sorriso que me oferecia, sempre cândido.

--Todo erro é necessário para aprendizado. Não faça dele teu flagelo. Não há necessidade disso. Quando nosso Deus nos colocou aqui para que recordássemos aos nossos irmãos em Jesus, nosso mestre divino amado, das leis que há tantos e tantos séculos ele, encarnado, veio ensinar a nós todos, preparou-nos para os vícios que se enraízam nas almas dos homens. Sabeis me enumerá-los, meu irmão?

--Luxúria, cobiça, soberba, ira, glutonia, preguiça e vaidade.

Francisco sorriu, brando.

--Sim, estes são os piores, mas bem sabemos que o orgulho, em si, é o pai destes todos. Deparamo-nos, meu irmão, com aqueles que se acham na razão de dizer aos outros como devem viver, pensar, sentir, agir... Aqueles que não ouvem e, no entanto, querem ser ouvidos. Para tanto, pavoneiam-se. E, contudo, devemos nos apiedar destes irmãos nossos que estão feridos por dentro. Quem briga, fere. Quem precisa mostrar ao mundo as morais que possui, está triste, infeliz. Diga-me, quem poderia ser feliz quando é governado pelas paixões?

--Muito difícil—volvi—é crer-se feliz quando a mente é governada por tais paixões, mestre.

--Por favor, sem títulos—ele me repreendeu com doçura—Sou apenas Francisco, meu irmão. Mas sim, a mente, quando indisciplinada, nos leva as ilusões, alimentadas pelo orgulho. É mui difícil levar a Palavra a estes nossos irmãos porque eles acreditam conhecer tudo, e, no entanto, não valem de tal conhecimento. É preciso paciência, misericórdia e compaixão. Haverá um dia em que estes irmãos vão despertar de suas paixões. São todos fortes em Deus Pai para livrar-se disso, mas a tudo segundo seu tempo. Não te entristeças. Credes em mim quando digo que tua exortação não caiu em ouvidos surdos.

Hesitante, perguntei:

--Mas como podes ter certeza?

--Acaso não confias no Pai que te enviou aqui? Não confias em nosso mestre Jesus? Lembrais, meu irmão, que Jesus também sabia que no tempo do Pai os trabalhadores de última hora chegarão para vir buscar sua boa nova, seu pão de cada dia—ele sorriu, otimista—E mesmo quando eles chegarem, cabe a nós acolhermos, pois são como irmãos que foram fazer uma viagem distante e depois de tanto tempo, regressam à casa. E como os receberemos? Não será com alegria?

--Sim, assim o será.

--E desistirias de um irmão que te fazes surdo às tuas exortações?

--Não. Acredito que, se me permite, apenas mudaria o local das mesmas—Inseguro, pus a acrescentar—Iria aonde minha ajuda seria aceita.

--E mesmo ainda aí, deveis não desperdiçar a oportunidade em lembrar aos nossos irmãos e nossas irmãs de que o jugo no Senhor é leve para aquele que crê. Que tudo é passageiro, mas não a Palavra, e por que isto, eu o pergunto?

--A Palavra não muda porque ela traduz as leis do nosso Pai que as determinou. Ele é justo e coerente, é resistente às coisas mundanas—especulei.

Francisco me sorriu com ternura e pôs uma mão sobre meu ombro.

--Deverias falar com mais confiança aquilo que de tua alma emana. Amais aqueles irmãos que te olham com desdém, pois eles desconhecem a verdadeira ternura. Amais aqueles que brigam para se fazerem ouvidos, pois eles olvidaram o amor e paciência. Amais os intolerantes, pois haverá um dia em que sofrerão a intolerância de suas pregações, e precisarão de quem os ame e os console. Amais os que pensam de maneira tão diferente das nossas porque cada alma possui uma única individualidade e o nosso Deus conhece a ela todas e não pediria que fossem todas iguais, do contrário, seríamos todos uma única entidade. Se precisares, pranteia hoje, pois a dor é válida tanto quanto é um excelente aprendizado, meu irmão. Amanhã, te levantas e agradeças ao Pai por essa lágrima que escorre de teus olhos, pois demonstra que em teu coração há a sensibilidade que ainda falta ao mundo. Amais mesmo os frios e embrutecidos, pois se distanciaram do ensinamento de Jesus. Tendes piedades dos que precisam usar da força para com seu semelhante, pois vivem em ilusões que, na posteridade, será difícil desenlaçar. E acima de tudo, amais sem diferenças e sem recompensas, pois é pelo amor que servimos e nos devotamos, sem distinções, e movidos pela caridade que nos enternece.

Emocionei-me e um soluço escapou-me. Como se estivesse a ler meus pensamentos, disse Francisco:

--E não te sintas envergonhado pela sensibilidade de teu coração, meu irmão. Nem por prantear por aquilo que te fere. Corajoso é aquele que reconhece o que possui. Bens aventurados são os mansos de coração, pois é a eles que espera o Reino dos Céus. Siga teu caminho, Antônio. Tendes paciência. E evitas te colocar em posição de conflito, pois não te cumpre resolver tudo. Nosso mestre Jesus não pôde curar a todos porque não era o tempo ainda. Vá semeando, meu amigo, que o vento ajudará e a chuva regará o que plantou.

--Obrigado—foi tudo o que consegui balbuciar—Obrigado por tudo. Desejo-te ser um irmão fiel, um bom seguidor e um instrumento de nosso Senhor aonde for necessário.

Ele sorriu e pude jurar que vi um halo formar-se sobre sua cabeça. Outra vez, bom Francisco repousou sua mão sobre meu ombro e deu-me uma leve pressão.

--Credes quando digo, meu irmão, que o Senhor nos porá aonde formos necessários para Ele. O que reside em nossos corações Ele vê. Se buscas seguir o caminho corretamente e oferecer amor em tuas caridades com o próximo, credes, estás fazendo muito mais do que os que pregam por lábios, mas emudecem os corações. A verdadeira humildade não está somente em reconhecer nossas limitações e aceitar a autoridade do Senhor sobre a nossa em todas as questões temporais ou seculares, mas em resignar-nos ante a sua vontade. Ele não rejeitará um irmão que, em meio aos tropeços, busca a Ele de coração aberto. Nem tudo é preto no branco, Antônio. Recordas disto.

Tomei suas duas mãos nas minhas e tornei-as beijá-las, ajoelhando-me subitamente diante dele. Mas Francisco sorriu e, pondo uma mão sobre minha cabeça, disse:

--Tranquilizais teus temores, meu amigo. O dia de hoje é mais um para tantos de nós, mas, credes, será o nascer do sol para os que viviam em escuridão até então. Não desistas diante das pessoas mais difíceis, pois são irmãos que necessitam de nosso amor e nossa compaixão. Ide, Antônio, e pregas como te ensinei. Um dia, tornaremos a nos ver novamente e o receberei de braços abertos sob a luz de nosso mestre Jesus. Ide em paz e que o Senhor esteja sempre convosco.

--Graças a Deus—falei, emocionado.

E não mais esperei. O dia havia recentemente passado do meio dia, e eu, ansioso e renovado com as boas instruções daquele a quem servia com inflamado amor, pus-me a trabalhar para o Senhor. Eis o ensinamento ao leitor, minha cara amiga. Fazeis como eu, e espalheis a Palavra aonde fores necessária.”

 

 

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