Nota do guia de Ogum: "Começamos aqui o primeiro de uma séries de relatos muito ricos trazidos por espíritos que experimentaram na carne um número incontável de encarnações neste planeta. Estes relatos têm como propósito ilustrar os testemunhos de fé, as reformas íntimas, os processos encarnatórios pelos quais passaram tais entidades na Terra de modo a inspirar-vos a não desistir das batalhas diárias, a recordar-vos de que jamais estais sozinhos ao curso de vossa caminhada neste plano material e que, acima de nossas vontades, prevalece a do Pai Maior que tudo sabe e conhece nossas necessidades antes mesmos das nossas. Aproveito a oportunidade para salientar alguns pontos: o primeiro é a de que a identidade destes espíritos não é vos relevante diante do conteúdo que eles vêm apresentar a vós; o segundo é que, conforme vereis neste relato como nos próximos, a dor individual não é a mesma para o outro irmão na carne, logo, o sofrimento não pode e nem deve ser comparado. Contudo, disto se deve inferir que o amor deve vir antes do julgamento e o acolhimento consigo próprio se faz necessário. No mais, tecerei comentários se for necessário. Que Deus vos abençoe meus irmãos e minhas irmãs em Cristo. Fé e avante sempre!--George."
“Quando era pequena, lembro de minha mãe conseguir esconder-me na sombra da esfinge. Eram tempos mui difíceis. Nossa fé em Yeowah era testada a todo instante. Mas ao fim de cada dia, dormia feliz por ter comigo minha mãe e meus irmãos. Nosso pai desencarnou em consequência do árduo labor.
Quando
completei sete anos, todavia, caravanas se preparavam para o êxodo. Nosso
libertador desceu a nós. Seu nome era Moisés. Largando o conforto para libertar
nosso povo da tirania de espíritos mui apegados à matéria, ele confrontou o
faraó e nos prometeu levar à terra prometida. Era somente uma menina quando, no
colo de minha mãe, seguimos aquele moço de feições firmes e olhos cândidos,
cujas vestes eram laranjas e verdes. Portava um cajado e andava descalço.
Algo
em mim despertou e eu não sabia o que era. Uma voz dizia: Procure-o. Lembro de ter me esquivado de minha mãe, que,
desesperada, gritou:
“Miriam!
Aonde pensa que vai? Há muita gente, volte cá! Pode se perder!”
E
correu atrás de mim. Mas, empurrando a todos, logo antes da maré baixar, quando
as nuvens davam espaço para a luz de Yeowah entrar em nossa atmosfera, achei-o.
E puxei a bainha de sua veste para que me notasse. Um amigo seu me repreendia,
mas Moisés me levantou e disse:
“Que
Deus a abençoe, menina.”
E,
como se pressentisse a chegada de minha mãe, ele se virou e me entregou a ela.
Mamãe, humilde e de bom coração, implorava perdão por meu comportamento e teria
se jogado aos seus pés se ele não a impedisse de fazê-lo. Em vez disso, me
entregou a ela e, com serenidade, disse:
“Bem-aventurado
aquele que vê e crê de coração.”
E
mamãe sorriu, seus olhos cobertos por uma névoa de lágrimas. Quase depois,
atravessamos a passagem, maravilhadas pela divisão do mar, que nada mais era do
que a diminuição da maré.
Fugir
dos que nos perseguiam e, segundo diziam, do próprio faraó, era difícil. O solo
era pedregoso e, pobres que éramos, nossos pés criavam bolhas e machucavam na
subida da montanha. Logo mais, quando todo o povo, sem exceção, fez a
travessia, a maré subiu e derrubou nossos perseguidores. Lembro das palavras de
minha mãe, na ocasião:
“Bendito
seja Yeowah, a quem ouvimos e louvamos, pois Ele é justo.”
Dali
em diante, seguíamos Moisés sem questionar. Seriam longos passados no deserto,
enfrentando intempéries e desconfortos, provações que, todavia, não se
comparavam a servidão. Naquela rotina simples, porém, transcorreram-se dez
anos. Foi quando Moisés subiu à montanha. Quando voltou, se decepcionou com o
que encontrava: abjuração da fé e outros crimes que não me compete falar. Foi
preciso dureza com um povo duro. Daí vieram as leis mosaicas, ou os dez
mandamentos. Lembro que, de manhã, ouvi a mesma voz de quando era criança, me
urgindo a buscar Moisés.
De
novo, deixei minha mãe e meus irmãos para trás. Contava na época dezessete
anos. Mais tarde, seria repreendida por ter sido imprudente, mas sabia que
aquilo era necessário. Embora acampássemos na mesma região, não foi até o
crepúsculo que o alcancei. Alguns dos guardas tentaram me apartar, mas Moisés
pediu que me tratassem com dignidade.
“Viestes
a mim de novo”, disse ele, sereno.
“O
senhor te lembras?”, indaguei, surpresa.
“Como
não haveria de ser? Me parece que fostes trazida a mim por alguma razão”, e
vendo que nervosa estava, ele disse com suavidade: “Não temas, criança. O que
te afliges?”
Pensei
por uns instantes antes de tomar o lugar que ele me ofereceu.
“O
Senhor... saberia dizer se vai demorar para chegarmos à terra prometida? Por
favor, não me interprete mal”.
Mas
ele riu. Vi em seus olhos cansaço, a dureza de liderar um povo ignorante, mas
igualmente vi paciência, sabedoria e candura.
“Quem
sou eu para julgar o ímpeto do coração de uma jovem?” E riu. “Também eu outrora
fui como ti, embora mais paciente. Veja ali, menina.” E apontou para o céu, que
se esverdeava, enquanto as estrelas subiam com seu brilho. “De lá, vem as
ordens do nosso Pai, que tudo sabe, tudo vê. Que é o tempo para Ele? Não foi
quem nos libertou depois de 300 anos de escravidão? Por espíritos como os de
tua mãe que a paciência foi recompensada. A fé, veja, é importante. Mas só
acreditar, não basta. É preciso confiar. Confiar que, para aquele que busca,
será encontrado. Confiar naquele que é inteira e infinitamente mais sábio que
nós. O que quero dizer é que, sim, chegaremos lá.”
“Mesmo
que demore, seguiremos o tempo Dele”, falei.
“Muito
bem”, Moisés sorriu. “Viestes para aprender. Agora vá e transmita aos seus
irmãos. Nas pequenas coisas, mesmo que possamos ignorá-las, há trabalho. E se
há ocupação, haverá recompensa. Tendes fé como recomendei e todo o mais se
resolverá.”
“Pois
chegaremos aonde Ele nos guiar”, arrisquei e ele sorriu.
“Exatamente.
Ide, minha filha, e que a Paz do Senhor te acompanhe.”
Agradeci,
mas antes de ir embora, voltei e o chamei novamente. Quando ele me viu,
respondi:
“E
que Yeowah o abençoe, mestre!”
E
saí, feliz e grata por rica oportunidade. Mais à noite, quando me juntei aos
meus irmãos e a nossa mãe, contei o que aconteceu e acrescentei:
“Precisamos
confiar que, nos males, há cura. Que o tempo não nos pertence. E que somos
formiguinhas na seara do Senhor.”
Não vivi para chegar a Jerusalém, é verdade. Mas na encarnação seguinte, desci a Israel, preparando-me para ser chamada pelo Mestre em Carfanaum no tempo devido. Assim, se voltei, é para lembrar a todos que, por mais longa que seja a caminhada, aos que cultivam no coração a boa vontade e a fé sincera, a confiança genuína Naquele que nos prove, auxilio não faltará. Afinal, buscais e encontrareis. No tempo de Deus, as portas serão abertas.”
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