quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Relatos I: Moisés e a Fé pelo Espírito Miriam

Nota do guia de Ogum: "Começamos aqui o primeiro de uma séries de relatos muito ricos trazidos por espíritos que experimentaram na carne um número incontável de encarnações neste planeta. Estes relatos têm como propósito ilustrar os testemunhos de fé, as reformas íntimas, os processos encarnatórios pelos quais passaram tais entidades na Terra de modo a inspirar-vos a não desistir das batalhas diárias, a recordar-vos de que jamais estais sozinhos ao curso de vossa caminhada neste plano material e que, acima de nossas vontades, prevalece a do Pai Maior que tudo sabe e conhece nossas necessidades antes mesmos das nossas. Aproveito a oportunidade para salientar alguns pontos: o primeiro é a de que a identidade destes espíritos não é vos relevante diante do conteúdo que eles vêm apresentar a vós; o segundo é que, conforme vereis neste relato como nos próximos, a dor individual não é a mesma para o outro irmão na carne, logo, o sofrimento não pode e nem deve ser comparado. Contudo, disto se deve inferir que o amor deve vir antes do julgamento e o acolhimento consigo próprio se faz necessário. No mais, tecerei comentários se for necessário. Que Deus vos abençoe meus irmãos e minhas irmãs em Cristo. Fé e avante sempre!--George."

“Quando era pequena, lembro de minha mãe conseguir esconder-me na sombra da esfinge. Eram tempos mui difíceis. Nossa fé em Yeowah era testada a todo instante. Mas ao fim de cada dia, dormia feliz por ter comigo minha mãe e meus irmãos. Nosso pai desencarnou em consequência do árduo labor.

Quando completei sete anos, todavia, caravanas se preparavam para o êxodo. Nosso libertador desceu a nós. Seu nome era Moisés. Largando o conforto para libertar nosso povo da tirania de espíritos mui apegados à matéria, ele confrontou o faraó e nos prometeu levar à terra prometida. Era somente uma menina quando, no colo de minha mãe, seguimos aquele moço de feições firmes e olhos cândidos, cujas vestes eram laranjas e verdes. Portava um cajado e andava descalço.

Algo em mim despertou e eu não sabia o que era. Uma voz dizia: Procure-o. Lembro de ter me esquivado de minha mãe, que, desesperada, gritou:

“Miriam! Aonde pensa que vai? Há muita gente, volte cá! Pode se perder!”

E correu atrás de mim. Mas, empurrando a todos, logo antes da maré baixar, quando as nuvens davam espaço para a luz de Yeowah entrar em nossa atmosfera, achei-o. E puxei a bainha de sua veste para que me notasse. Um amigo seu me repreendia, mas Moisés me levantou e disse:

“Que Deus a abençoe, menina.”

E, como se pressentisse a chegada de minha mãe, ele se virou e me entregou a ela. Mamãe, humilde e de bom coração, implorava perdão por meu comportamento e teria se jogado aos seus pés se ele não a impedisse de fazê-lo. Em vez disso, me entregou a ela e, com serenidade, disse:

“Bem-aventurado aquele que vê e crê de coração.”

E mamãe sorriu, seus olhos cobertos por uma névoa de lágrimas. Quase depois, atravessamos a passagem, maravilhadas pela divisão do mar, que nada mais era do que a diminuição da maré.

Fugir dos que nos perseguiam e, segundo diziam, do próprio faraó, era difícil. O solo era pedregoso e, pobres que éramos, nossos pés criavam bolhas e machucavam na subida da montanha. Logo mais, quando todo o povo, sem exceção, fez a travessia, a maré subiu e derrubou nossos perseguidores. Lembro das palavras de minha mãe, na ocasião:

“Bendito seja Yeowah, a quem ouvimos e louvamos, pois Ele é justo.”

Dali em diante, seguíamos Moisés sem questionar. Seriam longos passados no deserto, enfrentando intempéries e desconfortos, provações que, todavia, não se comparavam a servidão. Naquela rotina simples, porém, transcorreram-se dez anos. Foi quando Moisés subiu à montanha. Quando voltou, se decepcionou com o que encontrava: abjuração da fé e outros crimes que não me compete falar. Foi preciso dureza com um povo duro. Daí vieram as leis mosaicas, ou os dez mandamentos. Lembro que, de manhã, ouvi a mesma voz de quando era criança, me urgindo a buscar Moisés.

De novo, deixei minha mãe e meus irmãos para trás. Contava na época dezessete anos. Mais tarde, seria repreendida por ter sido imprudente, mas sabia que aquilo era necessário. Embora acampássemos na mesma região, não foi até o crepúsculo que o alcancei. Alguns dos guardas tentaram me apartar, mas Moisés pediu que me tratassem com dignidade.

“Viestes a mim de novo”, disse ele, sereno.

“O senhor te lembras?”, indaguei, surpresa.

“Como não haveria de ser? Me parece que fostes trazida a mim por alguma razão”, e vendo que nervosa estava, ele disse com suavidade: “Não temas, criança. O que te afliges?”

Pensei por uns instantes antes de tomar o lugar que ele me ofereceu.

“O Senhor... saberia dizer se vai demorar para chegarmos à terra prometida? Por favor, não me interprete mal”.

Mas ele riu. Vi em seus olhos cansaço, a dureza de liderar um povo ignorante, mas igualmente vi paciência, sabedoria e candura.

“Quem sou eu para julgar o ímpeto do coração de uma jovem?” E riu. “Também eu outrora fui como ti, embora mais paciente. Veja ali, menina.” E apontou para o céu, que se esverdeava, enquanto as estrelas subiam com seu brilho. “De lá, vem as ordens do nosso Pai, que tudo sabe, tudo vê. Que é o tempo para Ele? Não foi quem nos libertou depois de 300 anos de escravidão? Por espíritos como os de tua mãe que a paciência foi recompensada. A fé, veja, é importante. Mas só acreditar, não basta. É preciso confiar. Confiar que, para aquele que busca, será encontrado. Confiar naquele que é inteira e infinitamente mais sábio que nós. O que quero dizer é que, sim, chegaremos lá.”

“Mesmo que demore, seguiremos o tempo Dele”, falei.

“Muito bem”, Moisés sorriu. “Viestes para aprender. Agora vá e transmita aos seus irmãos. Nas pequenas coisas, mesmo que possamos ignorá-las, há trabalho. E se há ocupação, haverá recompensa. Tendes fé como recomendei e todo o mais se resolverá.”

“Pois chegaremos aonde Ele nos guiar”, arrisquei e ele sorriu.

“Exatamente. Ide, minha filha, e que a Paz do Senhor te acompanhe.”

Agradeci, mas antes de ir embora, voltei e o chamei novamente. Quando ele me viu, respondi:

“E que Yeowah o abençoe, mestre!”

E saí, feliz e grata por rica oportunidade. Mais à noite, quando me juntei aos meus irmãos e a nossa mãe, contei o que aconteceu e acrescentei:

“Precisamos confiar que, nos males, há cura. Que o tempo não nos pertence. E que somos formiguinhas na seara do Senhor.”

Não vivi para chegar a Jerusalém, é verdade. Mas na encarnação seguinte, desci a Israel, preparando-me para ser chamada pelo Mestre em Carfanaum no tempo devido. Assim, se voltei, é para lembrar a todos que, por mais longa que seja a caminhada, aos que cultivam no coração a boa vontade e a fé sincera, a confiança genuína Naquele que nos prove, auxilio não faltará. Afinal, buscais e encontrareis. No tempo de Deus, as portas serão abertas.”

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