quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Poemas XVI: Soneto Do Amor.

"Em vias de entrar a primavera

Ponho-me à janela

A mirar bela quimera

Sol pintava céu alto

Com seus raios, tudo ficava dourado.

 

Era, pois, anúncio de primavera

E vedes, quem se aproxima, donzela

Quem é ela?

Da janela, de pedras,

Colorida vidraça

Impede-me que de lá me arrasta

Aos pés de beleza ímpar.

 

Sorriso dócil nos lábios

E olhar curioso

Balançou sua presença a corte.

Deixando-nos todos iluminados

Ante presença de luz

Que da inocência me seduz.

 

Quem era eu ante beleza

Dona de tal porte, era princesa

Do reino onde eram curtos os dias

E longas as noites

Todos queriam cortejá-la com flores

Mas ofereci, mero cortesão, palavras doces.

 

Ouvis o riso de Afrodite

Conspirando com Urânia

Amor, doce tirania.

A que ponto sou subjugado

Pelas deusas, jamais perdoado.

 

Assim, na primavera

Veio ela, tão bela

Quanto Helena e Isabella.

A mim, cantou

E encantou

Logo de mim, se enamorou!

 

Amores impossíveis

São peças de deuses

A rirem de mortais

De quem se compraz

O vazio de deidades

Que amam pela metade.

 

Donzela, intensa

De temperamento criou desavença

Na corte visitante

Fez de mim teu amante.

O rei enfurecido

Teria me despedido

Não fosse a interferência

De minha amada Hortência.

 

A história me esqueceu

A corte entardeceu

Mas o amor jamais morreu.

Pois em seguida renasceu

A princesa da primavera

A quem me recebeu em outra era

Com permissão divina

Para amarmos sem sina."

 

Poemas XV: Ode Ao Amor (III).

“Nas estrelas, o luar

Diante do mar

Põe-se a mirar

A inspirar pobre homem

Ao amor devotar

 

Na Antiguidade,

Por lá passei,

Teu caminho eu cruzei

Em teus braços amei

E à deusa cantei.

 

Cânticos esquecidos

Através de eras renascidos

Alguns redimidos

Outros ainda perdidos

Oh, Afrodite

Não foste tu quem me dissestes

Que o amor suportaria a

Separações causadas pela dor?

 

Lá na Antiguidade

Fui heleno, persa, tibetano,

Caminhei, sempre procurando

Sem de fato ver o que estava me faltando.

 

Mares engoliram navios

Lá qual fizeram percursos de rios

Em meu rosto

Marcava para sempre

O desalento da paixão

 

À cada noite, à cada dia

Nos sonhos acordados dormia

Pensando em teu nobre rosto

Donzela que morreu de desgosto.

 

Se porventura fui causa de tristeza tua

Afrodite presenteia-me com doce amargura

Mas a verdade não pode ser lamentada

Nem transportada para

A mentira, caluniada.

 

E, no entanto,

Não é do pranto que vem o sorriso

Não é da tempestade que vem a luz

 

Sê ti em ti

Enquanto fui em mim

Donzela, não ria deste

Que te canta lamentosa canção

Que outrora a faria prantear no

De pedra salão.

 

Cabe a nós viver

Sem, contudo, esquecer.

As promessas da alvorada

Que à Afrodite amada

Para ela serão professadas

Em ternura e candura

Infinito amor

Que a ela nos une."

Poemas XIV : Amor, Meu Grande Amor.

A lua subiu ao céu

No momento em que ministréu

Convidado foi pelo rei

A participar de sua ceia

 

Àquele que o amor semeia

Motivo algum pranteia

E naquele instante

Fui tão somente figurante.

 

Em cada castelo, em cada jardim.

Andei eu sem fim

De dia, de noite

Hospedei-me à corte

E lá como balei!

E lá como cantei!

 

Donzelas arrogantes

Havia outras preponderantes

Das quais uma se destacou

E meu coração tomou.

 

De arrombo, que tombo

Desavisado fui,

Amado enlaçado

Por bela dama de olhos azuis.

 

Lucrécia, italiana

Nascida romana

Orgulhosa por fora

Mascarava por ora

A bondade de outrora.

 

À Inglaterra uma vez veio

E a tantos cativou

Muitos mais a mão ela recusou

Mas oh que bela

Aquela donzela

Dos ingleses a terra cativou

 

Oh, Lucrécia!

Ouviu-me paciente

Sorriu-me contente

Inspirou-me somente

Sonhos a sonhar

Que infelicidade, porém,

Jamais viriam a se realizar

 

Mas doce Lucrécia! A mim, escutai!

Fico para trás

A fim de esperar

Momento outro a te tomar

Em meus braços e te amar!

 

Lucrécia, amor meu

Objeto de minhas afeições

Com quem vivi dois verões

Em puras ilusões

Como pranteei tua partida

Doce amiga, cuja ternura

Me virou cantiga.

A inspirar-me a velar antiga

Junção d’almas

A outra vez reunir

No futuro de Deus a porvir."

Poemas XIII: Ode ao Amor (II)

“É preciso reunir coragem para falar do amor

Para superar a dor

Para silenciar o dissabor

Ofertado por aqueles movidos a rancor.

 

É preciso ter serenidade

Em contemplar os vícios e as qualidades

Cultivadas na mocidade

Para separar o joio do trigo

E o amor formar

 

A experiência, cabe vivenciar

Para dos tropeços saber levantar.

Das dores, saber reconhecer

Nada há a temer

Pois há tanto a aprender.

 

É preciso defender o amor

Difícil possa ser este labor.

Fácil é amar e tolerar os que conosco convivem

Mas aos adversários da razão,

Que outra pois há solução

Devemos dar que não ensinar a amar?

 

Perdoar é tolerar

Aquilo que no passado viemos a semear

Para no presente plantar

A fim da ignorância curar

E nos recordarmos do que é amar.

 

Sem expectativa, sem matéria,

Sem histeria, sem miséria.

Amar é dar,

Todas as qualidades que n’alma

Soubemos cultivar.

 

Olvidemos hoje

A necessidade no passado

De ser amado e

Também perdoado

Pelos velhos pecados.

 

Amem como amam

Sintam como sentem

Perdoem, meus irmãos

É hora de seguir em frente.

 

Ódio gera ódio

Cuidado com o que propagais

Ao alto

Olhais para o percalço

Que um dia te fostes dado.

 

Amar é tão simples e belo

Ainda que pareça singelo

Cultivar fraternidade

Àquele que pratica maldade

Mas com que frequência

Perdemos a paciência?

Esquecemos a sapiência

De labutas difíceis.

 

Esclarecei-vos, peço!

Ao amor, eu confesso

Que tudo liberto

Dos cárceres da carne

Elevou-me ao Pai

Naquele belo dia de desencarne."

Poemas XII: Lama na Vizinhança.

Nos campos, a colheita

Aos camponeses, era estreita

Maior parte cabia

Aos que a eles devia

 

Cobranças da vida faziam parte

Pobres criaturas que viviam a fazer arte

Dá-lhe infortúnio, que lamento

Àquela que dá à luz infeliz rebento.

 

Frio ao norte

Calor ao sul

Sofre igual o que não comete nenhum mal

Pobre camponês, que nada fez

Sofre em silêncio

Do seu rei a insensatez.

Cá embaixo, porém

Satisfazem-se com o que tem

Em meio à pobreza

Riem-se ante tristeza

E aprendem a valorizar

Aquilo que rei nenhum pode tirar

O bom coração que sabe amar.

 

Assim caminho entre os bons

Ignoro os maus

Carrego comigo somente

De fazer o bem semente

De andar entre boa gente

Para aos do amor deficiente

Ensinar.

Valos que Cristo Jesus veio propagar.

 

Que bem há em apegar

Se não há como levar

O que tens para lá?

Oras, eu digo

Confias, amigo.

Se levares um sorriso

Serás mais bem-vindo

Que desafortunado rico.

 

Recordo bem, pois então

Da matrona que ensinou perdão

Aos camponeses de outrora

Que lamentavam a toda hora

Pelo que faziam contra eles

Aqueles seres.

 

Ora, falou ela

Ouro nenhum compra donzela

Bem disposta a amar

Pois aí está

A questão

Não basta sentir apreensão

Para amar,

É preciso perdoar.

 

Lá no norte,

Entre rancores e dissabores

Enquanto homens vão à guerra,

Veio ela

Entre os homens caminhar

Pregando o perdão

Ensinando este pobre bardo

A todos sem distinção

Amar."

Poemas XI: Um Ode ao Amor (I).

Na Bretanha, vivi.

E moça ruiva conheci

De belo semblante

Vinha de povo cantante.

 

Nômade de origem

A história não registrou

Doce e inocente

O amor que sua presença

Neste mundo propagou.

 

Um dia desposou

Rico comerciante agonizante

Em solidão pouco estonteante

Ensinou-o a fé

Desprovida de matéria

Pura e sincera

Transformou-o em ermitão

Puseram-se em procissão.

 

Milagres o povo passou a admirar

Jurando aos padres o que vinham testemunhar

Candura e tenra, cigana que era

Sem distinção soube aos pobres amar

Clamavam mulheres e homens

Terem visto nela

Santa Clara a abençoar.

 

Mulher sem nome,

De alma brilhante,

Curou-me de solidão semelhante

Ao marido, que me deu abrigo

E pela graça de Deus

Virou meu amigo.

 

E nesta santidade

Pela Igreja reprovada

Escondeu bela mulher

Do fogo

Pelo povo amada.

 

E dizem os desafortunados

Que por suas mãos foram tocados

Que seu nome era Serena

Como deusa na Terra, era plena

Em amar e perdoar

Aqueles em que seu comando

Vinha receber

Para acolher

No seio de seu ser.

 

Este é o amor de Cristo

Sublime e puro.

Que possam aspirar

A lhos assemelhar.

 

Afinal, ainda que desta vida

Passageiros sejamos,

Toda oportunidade que desfrutar possamos,

Amaremos uns aos outros,

Como por nosso irmãos maior

Fomos amados."

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...