Nota de Ogum: o título deste conto, última série destas cinco psicografias escocesas, não se refere ao highlander do século XVIII como se poderia pensar. Refere-se a um guerreiro escocês contra quem lutei há tantos e tantos séculos passados, ainda na Idade Média, e cuja coragem o fez ser conhecido de tal maneira. Aqui, deixarei que guie o leitor em sua empreitada e quando for necessário, farei minhas interferências.
"No século XIV, escoceses e ingleses ensopavam de sangue os solos de seus respectivos domínios, fosse de seu inimigo ou de seu conterrâneo. Não por isso, até nos dias de hoje, mesmo no século XXI, permanecem 'perdidos' os espectros de tais sujeitos.
Meu nome era Malcomn. Fui um guerreiro cavaleiresco que defendia os ideais cristãos acima de tudo e salvava as donzelas do perigo. Em minha infância, fui o pagem de um nobre senhor da ilha de Skye. Quando este morreu, me entregou ao encargo de seu filho, o herdeiro, a fim de que pudesse ser treinado como escudeiro. O bom homem, cerca de dez anos mais velho que eu, aceitou-me em seu serviço e também em sua família. No decorrer da minha juventude, fui seu escudeiro fiel, encarregado de auxiliá-lo quando preciso e agir como bom cavaleiro.
Eventualmente, deixamos a ilha para seguir a Stirling a fim de posteriormente nos estabelecermos em Edimburgo, visto que meu senhor estava prometido a uma donzela da casa reminiscente de Dunkeld, segundo constava à época. Quando em vida, quem reinava era algum rei da casa de Robert the Bruce. Bem, nunca me ocorreu me informar nos aspectos políticos, ao menos nestes jogos entre reis. Era apenas mais um de seus peões, de todo modo, e quem se preocupava com homens comuns?
Assim sendo, fui recebido pela minha senhoria e treinado em aspectos militares sem, com isso, negligenciar minha educação cristã. Todavia, como informei anteriormente, acompanhava meu senhor para seu casamento quando fomos pegos em uma emboscada que, infelizmente, poucos de sua comitiva sobreviveram. Eu fui um deles. Lamentei-me terrivelmente pela morte de meu senhor, e carreguei a culpa de tê-lo falhado.
Por anos a fio, fui um cavaleiro errante. Não sabia para onde seguir ou o que deveria ser de mim, mas carregava a consciência de fazer o que podia diante da situação. Salvei donzelas, recusei seu dinheiro, defendi os mais pobres e até mesmo uns monges da Igreja quiseram me ter a seu serviço. Para sobreviver, assim aquiesci. Nesta época, estava longe dos conflitos que sangravam a capital e, a despeito de meus traumas, procurava me despir dos mesmos. Um belo dia, um dos monges chamado Patrick veio a mim.
O cenário era tão bonito quanto poderiam visualizar: montanhas cobertas de neve, mas ensopadas de lama e com um verde que atravessava os extremos, eram cortadas por pequenos morros e, não muito longe dali, lagos e lagoas acrescentavam ao ambiente um ar bucólico que, não raro, me deixavam melancólico. Foi sentado em frente a uma lagoa azul congelada que o velho Patrick, de cabeça tonsurada e em vestes marrons, se aproximou.
"O senhor quase não fala. Como pensamos que tivesse adotado um voto de silêncio, não pedimos nada que não fosse sua espada. Pagamos pelo serviço porque tem sido justo e agido como um bom cristão tanto conosco quanto com o vilarejo que de nós depende." Ele falou e eu me vi forçado a encarar seus bondosos olhos azuis, as sobrancelhas grossas que se arqueavam enquanto se expressava, a barba que pouco cobria o rosto e o sorriso amarelado e um pouco enegrecido que se espalhava com tanta gentileza que emanava de si uma simplicidade difícil de recusar. "No entanto, sinto em meu piedoso coração de que algo o corrói por dentro e o deixa assim como é. Nunca o cobrei e não pretendo mudar agora, vim apenas oferecer o ouvido aos que dele precisam."
Soltei um longo suspiro. Era verdade que nunca me pediram nada, nem sequer o meu nome. Foi assim, mesmo com os monges fofoqueiros tentando arrancar algo de mim, o monge Patrick os espantava como moscas e me defendia. Não esperava nada em troca e isso me tocou o coração. Enfim, falei.
"Seria ingrato se não atendesse seu pedido tão simples, monsenhor", eu respondi e ofereci a ele um sorriso. Senti quase uma dor nas minhas bochechas ao fazê-lo, porém: fazia quase cinco anos desde que sofri aquela emboscada e desde então falei pouco e menos ainda interagi, sorri ou sequer ri. Preso ao luto, estava. "Meu nome é Malcomn."
O monge sorriu com tanta felicidade como se eu fosse o próprio Jesus em Terra. Ruborizei diante daquele calor vindo do homem, pois o último que me recebera daquela forma e me tratara como um filho havia muito partido deste mundo.
"Malcomn, permita-me apresentar de novo." Ele ofereceu sua mão e eu a peguei para sacudi-la. "Meu nome é Patrick. Sou um monge franciscano, isto é, sigo a ordem de São Francisco de Assis. Fiz meus votos de pobreza aos quinze anos e desde então venho me esforçando para servir tão humildemente como possível, a despeito de mim mesmo."
Era estranho, eu pensava na época, como havia sentido falta do contato humano. De conversar, interagir e até mesmo ouvir os outros contarem-me suas histórias. Sorri e senti que o pesado véu do luto começou a se dissolver.
"É um prazer conhecê-lo, senhor Patrick. Perdoe-me a vã curiosidade, mas acaso monsenhor veio da Irlanda?"
Ele riu e eu descobri que senti falta de rir também. Acompanhei-o.
"Tudo bem, meu caro. Assumo que a vã curiosidade recaia com mais rigor sobre aqueles que fizeram um voto contra ela do que aqueles que por ela buscam com algum objetivo." O monge me deu uma piscadela e seu bom humor me contagiou. "Não sou irlandês, temo desapontá-lo, mas digo por não ter nascido lá. Minha pobre mãe, se minha memória não falha, era filha de um. Não está de todo errado por me associar ao São Patrick, embora ele seja mais santo do que eu. Mas não estou aqui para falar de mim. Isso que está fazendo não funcionará."
Eu ri e, movido por uma sensação estranha, decidi expor aquilo que, por anos, tentei esconder. Cocei minha barbicha ruiva e falei:
"Não me recordo muito bem da minha infância, de modo que sequer lembro dos rostos de minha mãe ou meu pai. Fui basicamente adotado por uma família nobre de Skye. Foram tempos felizes, sabe? Servi a sua senhoria com o melhor de mim e ele me recompensou abraçando-me a sua família: fui educado ao lado de seus filhos, eram todos homens. Seus nomes eram Richard, James e Tyler. Fomos bons companheiros de armas, inclusive. No entanto, o velho infelizmente foi chamado a partir para o mundo. Seu primogênito, Richard, tornou-se o novo senhor em seu lugar e me promoveu a escudeiro e, não obstante, me recompensou fazendo-me cavaleiro."
"Ah." Disse o velho, pensativo. "Uma boa história de cavalaria."
Ri, mas meu riso soou mais amargo conforme avançava na história.
"Conforme Richard atingia a idade adulta, era próprio que desposasse uma moça de bons modos, boa linhagem e tudo mais que uma mulher aristocrática deva ter para ser considerada uma esposa adequada." Dei de ombros. "Ele tomaria como noiva, depois de várias escolhas, uma jovem de uma casa nobre, segundo diziam descender dos velhos Dunkelds. Vai lá saber. Bem, eu o acompanhei ao lado dos dois irmãos, afinal, éramos inseparáveis, mas isso foi uma estupidez."
Franzi o cenho, o rancor, como um perigoso e escuro veneno, bombardeando meu coração com uma dor que, não importasse quantas coisas boas fizesse, nada apagaria a dor que mexia comigo mesmo burro velho. O monge, porém, era mais piedoso que eu mesmo e pôs uma mão sobre meu ombro e falou:
"Não devemos questionar a vontade de Deus. Se seus irmãos partiram, foi porque foram chamados."
Apesar de tudo, nunca senti raiva do Pai Maior por isso. Era ignorante, mas minha fé nunca se abalou, disso posso afirmar sem titubear.
"Sim, monsenhor. Mas a tristeza foi profunda e eu me senti culpado por muitos anos. Fomos quase todos massacrados e eu desejei ter ido com eles."
"E, no entanto, quantas vidas salvou depois disso?" Inquiriu o sábio monge.
Desanimado, dei de ombros.
"Não contei", admiti.
Mas ele sorria, sempre otimista.
"Isto só demonstra a fortaleza do seu caráter, meu caro amigo. Há humildade e bondade em você, mas precisa se desprender deste rancor, deste apego. Tudo nesta vida é passageiro, não vê? Por pior que tenha sido aquela perda, se tivesse os acompanhado, as donzelas que salvou teriam sido corrompidas, os mendigos que protegeu teriam sofrido nas mãos dos poderosos, os ricos abusariam dos pobres e tudo o que fez... Desfeito teria sido? Há bondade no caminho que vem trilhando e, no entanto, prefere olhar para a escuridão que o acompanha?"
Cocei a barbicha, reflexivo.
"Não pensei nisso", eu falei e senti a vergonha trair minha voz.
Novamente, porém, o monge falou como um santo:
"Não há vergonha em admitir os erros pretéritos nem em ter escolhido permanecer neles. Sua fé é o que o guia. Sê corajoso e deixe-a guiar por dentro também. Por que duvida de si mesmo, meu filho?"
"Não sou merecedor do perdão divino", eu falei, carrancudo. "Falhei com meus irmãos tanto quanto falhei com Deus."
O monge Patrick era, na verdade, a reencarnação de outrora rei santo que não me cabe dizer quem havia sido. Por isso falava como um. Mas, à época, não sabia e nem teria como saber. Ele somente pegou na minha mão e, olhando dentro dos meus olhos, falou:
"O problema de nós, homens, é a audacidade que possuímos em transferir nossos problemas, nossas faltas ao Grande Pai. Por que Ele se incomodaria em nos castigar, em nos enviar ao inferno se nosso sofrimento também o aflige? Ele enviou Jesus, nosso irmão, à cruz para salvar a humanidade. Que outro Pai faria isso para ensinar o amor? E Jesus aceitou a missão sem pensar em si. Ele sofreu, mas sobrepujou tal sofrimento. O Pai, o Filho e o Espírito Santo nos amam incondicionalmente. Estão conosco em nossas vidas, em nossos corações. Não exigem de nós a perfeição, apenas que façamos o bem, praticamos o bem e a caridade. Amai uns aos outros..."
"Como amai a si mesmo." Completei e ambos sorrimos com isso.
"Sei que está despedaçado, meu filho. Ouvi outros irmãos comentarem a respeito, e não me olhe assim porque isso está suficientemente claro em seu semblante." Disse-me o monge com um quê de reprimenda que não pude deixar de rir. "O que eu quero dizer é que Deus o trouxe aqui, e ainda perto das montanhas, para que seja curado. Permita-se. Sei que muitos daqui gostariam que se tornasse monge, mas não pediria isso de você, meu filho. Ah, sei que se pergunta e diga-me que o responda: sua vocação está na belicosidade. Em tempos assim, ela será necessária."
Suas palavras tocaram o âmago de meu coração, de minha alma, e eu me permiti chorar. Ele não me julgou, como sabia que ele não me julgaria, ao contrário, apenas me abraçou quando precisei e me confortou. Finalmente, estive em paz. Ao longo dos próximos dias, rezei e continuei com meu dever, mas algo me chamava para Edimburgo. Um dia, confessei isso ao monge que me olhou e disse:
"Sabe que não regressará de lá?"
Um arrepio percorreu minha espinha, mas eu assumi que já soubesse isso antes. No entanto, hesitei. E percebendo isso, o monsenhor Patrick disse:
"Filho, temer a morte você não deve. Coragem, ao contrário, procura ter. Ainda que fugisse de Edimburgo, outro destino tão perigoso quanto lá o chamaria porque este é seu dever. Um cavaleiro não foge de seu dever nem da fé que o leva ao cumprimento deste."
"Às vezes, temo..." falei, mas não consegui completar a frase.
"O medo é a expressão mais racional do homem", disse-me o sábio monge. "Mas a fé é o alimento espiritual de que precisa. Sem a fé, o medo não é mais a cautela, mas faz a mente tomar conta do corpo e daí em diante... só ladeira abaixo."
"Não pretendo ser um covarde", me defendi.
Mas o monge riu.
"Longe de mim fazer tamanha desfeita de sua honra, filho. O que eu quero dizer é que se tem medo de algo que aconteça com você no caminho ao sul, não tema. A fé é de que precisa, e não o excesso de cautela. Não estou aconselhando-o a ser imprudente, porém." Ele alertou. "Sê sábio. No final das contas, somente você saberá o que for melhor a você."
"Desejo seguir a Cristo, minha espada é Dele."
O monsenhor Patrick me sorriu.
"Eu sei, Filho. Ele o abençoa, tenho certeza de que sim." [Nota de Ogum: Patrick era, como Malcomn vos informou, o espírito de um rei santo. Na posterioridade, tornou-se guia espiritual desta entidade. Disso falaremos mais à frente, mas adianto que ambos reencarnaram com o propósito de adiantamento, embora se para um era uma missão, ao outro cabia a expiação. E tamanho era o avanço espiritual de Patrick que sua clarividência era extraordinária. É lamentável que seus feitos tenham sido esquecidos, mas foi conforme pedira. De todo modo, sim, Jesus esteve ao lado dele naquele instante.]
"Seu coração é puro", disse-me Patrick, "mas há ainda que se libertar destas agarras que o prende. Quando descobrir que a dor é ilusão e que você é o senhor de seu corpo e não o contrário, terá se tornado um ilustre espírito, talvez até mesmo como São Jorge um dia o fora em vida."
"O senhor é muito bondoso" eu falei, emocionado. E me ajoelhei diante daquele venerável homem. "Com sua permissão, rogo pela proteção divina de São Jorge, de Jesus Cristo e seus 12 apóstolos, entregando meu coração a São Francisco de Assis e pedindo sabedoria a Santo Antônio de Pádua."
Monsenhor Patrick pareceu sinceramente emocionado quando pronunciei aquelas palavras, que eram, de fato, o tambor de meu coração. Ele pôs sua mão sobre minha cabeça, fechei os olhos e foi como se uma grande luz me inundasse o espírito. Senti-me bem, e mentalmente fiz uma prece em agradecimento aos santos que mencionei, tendo me afeicionado bastante à ordem franciscana. Um dia, pensei, se sobrevivesse ao que quer que Deus me reservasse, eu aposentaria minha espada e faria os votos. Contudo, diante de tal pensamento formou-se um conflito: seria eu capaz de relegar a espada e fugir às batalhas para servir em silêncio a Deus?
Por ora, deixei de lado aquelas inquietações. No mesmo dia, parti e, como o monsenhor Patrick previu, eu não regressaria mais aquele lugar. Abandonei o conforto e a pobreza, os humildes a quem servi, para oferecer minha espada a quem dela precisasse. E, logo, ela seria necessitada... Para Edimburgo, voltaria e, desta vez, sem interrupções no meu alcance.
* * *
Em Edimburgo, havia vários lordes, senhores de terra e ricos sobremaneira que, se assim desejassem, poderiam alimentar os necessitados. Tal foi a impressão que eu, mentalmente, reprovava, embora devesse ter sido mais humilde na ocasião e me abster de fazer julgamentos. No entanto, eu era falho como continuo a ser.
De todo modo, um dos duques de sobrenome Douglas me convocou a seu serviço. Era um senhor robusto e, assim como eu, tinha cabelos ruivos. No entanto, por ter se acostumado com a opulência da aristocracia, não era o mais adequado a servir em batalha. Mas me prometeu uma boa quantia de ouro se lutasse em seu nome a serviço do rei contra os malditos ingleses, segundo disse com aquelas exatas palavras.
"Aceito de bom grado servi-lo, senhor, se puder me oferecer um lugar para ficar, alimento e bebida." Foi só o que desejei.
O senhor Douglas riu em deleite.
"Ah, caro rapaz! Se soubessem o que me é pedido diariamente... Isto eu concedo de bom grado!"
Embora arrogante, aquele era um lorde de bom coração, eu percebi. Deixou-me hospedar em seu castelo e permanecer em sua corte. No início, confesso, me deslumbrei com as paredes de pedra, as moças em seus vestidos longos de tecido cetim, suas peles de porcelana ricamente enfeitadas com pérolas ou diamantes, enquanto músicas eram tocadas pelos dedos mais habilidosos que um homem como Douglas poderia comprar. Na verdade, a música era para mim muito cara. Os sons que saíam do alaúde, da lira e da flauta tocavam minha alma. Suponho que isso se deva por ter sido um músico e um poeta gregos em vidas pregressas.
Ainda assim, quando uma mulher era designada a emprestar sua voz para a doce melodia que vinha de tais instrumentos, eu me via perdido nela e percebi que ali estava minha felicidade. Poderia parecer estranho um homem constantemente vestido em malha (pois sim, o tal lorde fez questão de me vestir adequadamente já que eu o lutaria por seu nome e ele não desejava ter a reputação de contratar cavaleiros errantes. Deveria eu parecer como um cavaleiro nobre e enriquecido, mesmo que tais qualidades fossem inventadas) apreciar a música quando tantos outros preferiam o gosto da cerveja. No entanto, minha sensibilidade atraiu a curiosidade de uma bela jovem... e nela veio a minha perdição.
Mariam era uma das filhas ilegítimas deste lorde, mas não saberia naquele momento porque, a bem da verdade, não prestava atenção nas moças. Interessava-me ajudar e salvar as donzelas, mas conquistar e consumar o amor que algumas delas dirigiam a mim, isso eu recusava por ser pouco cavaleiresco de minha parte. De modo que fui pego de surpresa quando ela se aproximou de mim com um sorriso maroto brincando nos lábios, embora isso não se refletisse nos belos olhos azuis com os quais me fitava. Seus cabelos eram de um ruivo bastante escuro e na ocasião estavam presos em duas longas tranças. Usava em seu corpo um vestido azul veludo que combinava, se não ressaltava, os olhos com os quais me encarava.
"O senhor é diferente", ela comentou. "Não tenho o costume de ver cavaleiros apreciando o amor cortês."
"Talvez não sejam cavaleiros verdadeiros", eu disse sem saber o que responder.
Mariam riu.
"Ora, mas o que dizer disso? Vejo um cavaleiro casto diante de mim ou outro sedutor?"
Franzi o cenho diante daquela ofensa.
"Mas, ora, senhora! Espero não me confundir com qualquer patife que pensa ter se familiarizado."
Ela riu de mim outra vez e senti meu rosto queimar sob o elmo que usava sobre a cabeça. O peso com o qual aquele material fazia pressão sobre minha cabeça deixou havia muito de ser um tormento. Na verdade, era um acessório muito caro a mim.
"Patife? Perdoe-me meu mau julgamento." Ela se desculpou, embora tenha percebido um tom de divertimento. "Há homens que usurpam o verdadeiro valor da cavalaria e dizem que tais ideais morreram com os últimos templários."
"Soube deles. Trágico fim tiveram aqueles homens." Foi tudo o que consegui murmurar. Minha educação havia se centrado mais no militar do que na erudição, mas mesmo assim meus irmãos de armas, aqueles que citei no início, fizeram questão me instruir na arte da cavalaria. Sendo assim, soube da ordem dos cavaleiros templários e como seu valor sofreu um golpe perigoso do rei francês, Philippe IV. Não importasse se eram mau vistos atualmente, eu ainda os idolatrava e ansiava em copiar seus maneirismos.
"De fato", ela concordou seriamente. "Embora os escoceses sejam aliados dos franceses, aquele seu rei era um homem tão cruel quanto aquele que enfrentaremos em breve. Está aqui a lutar por meu pai contra o rei inglês?"
Surpreendi-me com a erudição e me senti um tolo por fazer ideia de que mulheres em si não eram tão educadas quanto os homens. Um preconceito de época, se for possível escusar-me por isso.
"Sim", eu me ouvi dizendo, sem nem saber, para minha vergonha, do que se tratava aquela guerra.
Mas Mariam era esperta e logo ela entendeu. Sem fazer qualquer julgamento de valor, ela disse:
"Sinto que o senhor não tenha sido instruído o suficiente nestes assuntos. Não estou o julgando", ela se apressou em corrigir, provavelmente por ter visto em mim algum resquício de orgulho transparecer em meu semblante. "E não se culpe, pois a diplomacia cabe somente aos homens das mais altas posições. Na verdade, nem o senhor meu pai sabe do que se trata esta guerra afinal. Ao que parece, o rei Edward está insatisfeito com a condução dos negócios de nosso reino."
Ela soltou uma gargalhada debochada, mas entendi o motivo disto. Nós, escoceses, atraíamos constantemente a cólera dos ingleses e por causa disto, tornamo-nos inimigos uns dos outros. A ânsia em nos dominar e a dificuldade em nos conquistar e subjugar ao seu poderio nos fez angariar a imagem de povo selvagem e rebelde. Mas nós tampouco éramos santos e desprovidos da culpa do negócio. Não raro instigávamos a guerra também, e no final das contas, o errado e o certo não se aplicavam a nenhum dos lados. Mas lutaria pelo que eu conhecia, e era a Escócia que amava e defenderia, por isso, de repente ponderei, seria uma causa pela qual valeria morrer.
"Os ingleses são deveras ambiciosos para seu próprio bem", eu contemplei.
Mariam deu de ombros.
"Provavelmente. Acham-se no direito de se chamar conquistadores, mas são insignificantes." De repente, ela deu de ombros e sorriu. Era um sorriso encantador. "Mas chega disso. Como devo chamá-lo, bondoso senhor?"
"Malcomn." Apresentei-me, sem oferecer mais informações, embora sob seu olhar indagador me sentisse tentado a fazê-lo.
"Mariam, este é meu nome." Ela sorriu de novo e eu assenti com a cabeça. "Seu sotaque me diz que não é daqui."
Como ela havia sido a única pessoa a ser cordial comigo, pensei que não seria cavaleiresco tratá-la de maneira incivilizada. Frieza não era o que um cavaleiro deveria ser. Assim sendo, contei a ela de minhas origens, longe de serem nobres como ressaltei. Mas Mariam não se importou.
"Sou uma bastarda", ela me confidenciou entre risos. "De nobre, só tenho o sangue como o meu pai costuma dizer. Mas não me importo com o que ele diga."
Arqueei as sobrancelhas diante disso.
"É por isso que carrega ressentimento com seu pai?"
Mariam franziu as sobrancelhas e percebi que falei algo errado, mas antes que pudesse me desculpar pelo comportamento inapropriado, ela suavizou e disse:
"O senhor é deveras sincero para um cavaleiro. Talvez a cavalaria templariana não houvesse sido corrompida afinal de contas". Ela me concedeu um sorriso, e deu um risinho quando enrubesci. "Talvez. Ele me legitimou, de certa forma, me reconheceu como sua filha e me trouxe ao castelo. No entanto, sua esposa e duas de suas filhas me desprezam. Sancha me detesta, mas sei que é porque chegou aos seus ouvidos que os poetas oferecem homenagens a mim e não a ela."
Ela riu, mas eu via para além de sua risada. Era uma mulher petulante e impiedosa, eu pensei comigo mesmo. Orgulhosa, vaidosa, mas tão sensível quanto qualquer outra de seu sexo e posição poderiam ser. Tais defeitos foram forçados a serem utilizados como defesa e eu me perguntei a que tipo de humilhação ela passou para agir daquele jeito.
Antes da grande batalha, ainda me demorei mais na corte e notei que o pai a tolerava, mas, no fundo, era Mariam sua favorita. Não obstante, era forçado a ouvir a esposa ladrar sobre a menina ilegítima porque, como foi me dito, os poetas não temiam em louvar a beleza de Mariam sobre as suas irmãs legítimas. Isso era intolerável para a madrasta que falhou em conceber ao esposo um herdeiro. No fim das contas, compreendi a solidão de Mariam e era por isso que nós nos aproximamos.
Éramos dois solitários, no final das contas, que encontraram conforto na companhia um do outro. Nos dois meses antes da guerra, de fato me familiarizei com outros homens, ninguém havia sido tão próximo de mim quanto Mariam e o monsenhor Patrick, embora em aspectos diferentes.
"O senhor deveria ser um poeta", disse-me Mariam uma vez. "Fala tão bem quanto domina sua espada."
Enrubesci novamente e ela sorriu. Mariam costumava dizer que adorava me ver corar, pois assim sabia que eu era "de verdade" e não um produto imaginário de contos arturianos.
"Acho que a senhora está sendo bondosa deveras comigo e não sou merecedor dela", repliquei, ganhando um revirar de olhos em resposta.
"Não está sendo humilde, apenas tímido", ela implicou, arrancando de mim um sorriso. "Me conte mais das ilhas de Skye. Gostaria de tomar um bote e subir os rios lá."
"É mesmo?" Eu me surpreendi ao ouvir aquilo. "Pensei que a senhora adorava a corte."
Novamente, ela revirou os olhos.
"O senhor me conhece bem. Não pode estar falando sério. Eu amo a música e usufruo de um privilégio que tenho certeza de que muitas garotas por aí gostariam de ter. No entanto, como acha que é viver em um ambiente onde é detestada pelas meias-irmãs e que a madrasta já expressou a vontade de ver sua querida enteada morte pelo simples fato de ser ilegítima?" Embora sua fala carregasse dor, dizia com tranquilidade. "O que me incomoda é como um ser daqueles pode se dizer cristão. Minha madrasta reza todos os dias, frequenta as missas, mas é tão arrogante e mesquinha... Não à toa meu pai procurou prazer fora do casamento. E continua procurando!"
Por mais doloroso que fosse ouvir sua dor, me apreciava saber que conquistara sua confiança e era visto como merecedor dela. Não desejava que fosse triste. E por isso tentava passar a ela o que o monsenhor Patrick me ensinou. Um dia conversávamos sobre perdão e, diante do que falei a respeito, ela ponderou e admitiu:
"Tenho dificuldades em perdoar, principalmente aos que vestem a hipocrisia. Isso me dói muito. Sou sensível, por mais que me custa esconder isso."
Inesperadamente, tomei a mão dela na minha e a segurei. O gesto me surpreendeu, mas ela apreciou. Aquele toque era significativo.
"Eu sei que é", disse eu. "Duas almas sensíveis e cá estamos."
Foi minha a vez de vê-la enrubescer e a cena ainda hoje me fez sorrir. Um olhar baixo que, quase hesitantemente, subiu encontrou-se ao meu e dali, soubemos instantaneamente que éramos mais do que amigos. Foi ali que a ela dei meu coração, e ela me deu o seu.
* * *
A despeito da aproximação da grande e inevitável batalha, e com ela, o mau pressentimento que me cercava, decidi arriscar e pedi a mão de Mariam ao pai. O lorde fingiu surpresa, já que ele me via acompanhar a filha constantemente em passeios nos jardins e uma vez mesmo ouvi-a dizer o quanto ela me tinha em sua alta estima. No entanto, ele hesitou e eu compreendi por que: não era um nobre, nem tinha possessões que me fizessem um partido adequado à Mariam. E depender dele, eu percebi, custava meu orgulho. Apesar disso, ele prometeu que pensaria e se eu provasse meu valor na guerra, receberia a mão de Mariam. Embora tal acordo não tenha sido tão agradável quanto pudesse parecer, ele fingiu não perceber que a cortejava abertamente, para o horror de sua segunda esposa e as filhas não herdariam seu condado.
Mas Mariam e eu não pensávamos no depois, nem no antes, apenas no momento vivido. As auroras fizeram parte de nossa rotina diária. Trocávamos confidências, víamos o sol nascer, falávamos de poesia e mesmo de políticas, mas não mencionávamos o amor... Ainda que o sentimento estivesse presente em cada olhar e sorriso, em cada gesto e ação.
No entanto, o dia fatídico eventualmente chegou. Às vésperas, Mariam me procurou. Era tarde da noite, e a corte estava vazia, salvo, talvez, por uns beberrões. Usava um linho de roupa e me preparava para deitar tendo feito minhas preces quando ouvi a porta se aberta abruptamente. Antes de pensar em pegar a espada, Mariam estava diante de mim usando um camisolão e com os longos cabelos ruivos soltos. Em seus olhos, a dor.
"Não desejo me despedir." Foi o que disse.
"Não é realmente uma partida, senhora. Sabe que regressarei e a desposarei." Mas tais palavras, ainda que pronunciadas por mim, não me inspiraram confiança aos meus ouvidos Na verdade, não contei a ela que vinha carregando sensações estranhas de que tudo via pela última vez. Em sonhos, meus outrora irmãos de armas apareciam em trajes brancos e iluminados por uma luz que não identificava. Na noite mais recente, teria visto até mesmo o monsenhor Patrick em seus trajes de monge, embora me parecesse mais guerreiro que santo ao me inspirar palavras de coragem. Ainda me recordo de ter me dito que estaria em suas preces.
"Não acredito nisso", ela retrucou, "e nem você.".
Ela se virou e, por um segundo, temi que fosse partir, mas ela trancou a porta. Veio a mim, e eu percebi que ruborizava diante de suas intenções.
"Senhora..."
Mas antes de me repreender por agir como um tolo templário, como ela passou a me apelidar, ela cortou uma mecha de seus cabelos ruivos cheios de vida e colocou-o em um vidrinho. Em seguida, o pôs em um dos bolsos que, descobri, ela tinha costurado com este propósito. Embasbacado, não sabia o que dizer. Era terrível em me expressar, e a tristeza daquele momento sufocou-me por instantes.
Quando Mariam voltou a mim, eu ainda estava parado e me perguntando, em meu íntimo, o que seria daquele espírito sensível e intenso sem mim. Pois percebi de súbito que minha presença, de certa maneira, a havia escudado das maldades alheias da corte. Sussurravam pelas nossas costas, era verdade, mas deveria ter algum motivo para não fazê-lo em nossa frente. E me preocupava que não estaria ali para apaziguar as violentas paixões sob as quais Mariam dançava tão bem.
"Não fale nada." Ela retrucou e depositou um beijo em meus lábios. Tinham o doce gosto do hidromel. "Seremos esposos de hoje em diante."
Sorri perante sua determinação.
"Lamentavelmente eu não carrego comigo nenhum anel."
Mas, como de costume, Mariam tinha dois anéis de ouro consigo. Para meu espanto, eram uma relíquia aquelas joias. Exclamei, mas ela riu de mim e procurou minhas mãos. Prontamente as segurei e disse:
"Senhora, espero que não tenha..."
"Não roubei, seu tolo templário", ela silvou impaciente. "Meu pai nos deu de presente."
"Mas ele..."
"Acha que eu mentiria?" ela me desafiou. E eu soube que éramos esposos, de fato.
Sorri e falei:
"Permita-me, senhora. Tomarei as rédeas da situação". E ela riu como uma garotinha quando ajoelhei-me diante dela, e com um dos anéis em uma mão, falei: "Terei a honra de tomar como esposa a senhora Mariam Douglas?"
Mariam riu, e era um som enternecedor, que muito tocou meu coração. Ela exclamou afirmativamente e eu deslizei o dedo em seu dedo enquanto ela fazia o mesmo no meu. Enfim, nos beijamos! E era o deleite que fê-me olvidar o mundo violento do qual faria parte, afastando de mim os temores que me cercavam. Tal qual um enfermo é permitido aproveitar os poucos momentos de saúde para despedir-se dos amados, assim o era comigo, que, na ignorância da carne, não desconfiava do amanhã;
Tomado por uma súbita urgência, a puxei para mim. Abracei seu corpo enquanto beijávamos com intensa paixão. Nossos espíritos se comunicavam enquanto roupas eram jogadas ao chão, e o fogo da lareira parecia um calor distante em comparação. Amei-a aquela noite e sequer me permiti dormir. Embalei-a contra meu corpo e nada soou tão belo e suave quanto a reação de seu corpo contra o meu, e a maneira com a qual ela professava seu amor.
"Eu a amo, lady Mariam." Eu sussurrei contra sua pele, beijando seu pescoço, suas bochechas, seus lábios. "Nunca se esqueça disso."
Mariam aconchegou-se contra o corpo e disse, com um sorriso brincando em seus lábios.
"Eu o amei desde o momento em que o vi, Sir Malcomn. Lembre-se de que terá uma senhora a aguardá-lo toda vez que partir."
Sorri diante daquela expectativa e me permiti sonhar ilusões que, em breve, seriam destroçados pelo aço de uma espada.
"E lembre-se de que proverá uma família grande e saudável. Envelheceremos juntos na certeza de termos cumprido com os nossos deveres."
Mariam riu, e tornou a virar-se para mim novamente, contemplando meu rosto, acariciando-o e sentindo a barba ruiva roçar contra sua delicada mão.
"Já disse que o amo?"
"Não me canso de ouvir tanto quanto dizer", respondi amorosamente. "Amo-a, Lady Mariam."
"E eu o amo, Sir Malcomn. Não me deixe só neste mundo."
"Jamais", prometi. "Pois tenho uma senhora que está me esperando."
Ela sorriu, satisfeita. Ao nascer do sol, adormecemos.
* * *
Carregava comigo, além do essencial para um cavaleiro, montado em um belo cavalo negro com manchas brancas de excelente pelugem, o anel de promessa de Mariam e seu cacho de cabelo ruivo. Mal havia quebrado o jejum quando ouvimos um berrante de guerra convocar a todos nós. A despedida havia sido breve, e eu ainda guardava em minha memória seu sorriso doce e suas palavras encorajadoras, mas a tristeza em seu olhar somente confirmava um temor de que não nos veríamos mais. Contudo, não admitiríamos esta possibilidade.
"Promete a mim que regressará são e salvo". Ela disse e seu orgulho vacilou quando acrescentou: "Espero termos feito um bebê à noite passada. O primeiro de muitos."
Tomei sua mão aos lábios e sorri:
"Se for um menino, dê a ele meu nome."
"Você estará aqui para fazer isso." Mariam me repreendeu. "Promete que regressará?"
"Prometo." Falei, e, no entanto, não me senti convencido. Ela tampouco, mas não havia tempo para isso.
"Estarei o esperando!" Exclamou Mariam.
"Voltarei a minha senhora!" Exclamei de volta.
E, assim, parti. Era nisso que pensava quando cavalgava em silêncio. Um de meus companheiros, um homem chamado James, falou:
"Estão todos comentando a seu respeito e a da filha de sua senhoria. É verdade que estão prometidos?"
Sorri a James. Era um rapaz como eu, de origens obscuras, mas que adotou a cavalaria como honra. [Nota de Ogum: ambos foram templários que morreram queimados na França de Philippe IV em vida pregressa, por isso este retorno e porque Malcomn comportava-se daquela forma.] Normalmente, nos dávamos bem e era com ele que eu gostava de treinar quando os deveres se interpunham entre Mariam e eu. Sendo assim, nele eu confiava.
"Sim." Confirmei. "O senhor Douglas prometeu que a desposaria se provasse meu valor nesta guerra e voltasse à casa vivo."
Um tremor passou pelo meu corpo quando disse aquilo, mas ignorei o prenúncio da morte. James assentiu.
"O senhor merece mais do que ninguém. Mas, perdoe-me, o senhor pretende regressar à Skye?"
"Creio que sim." Hesitei. "Não pensei nisso, na verdade. Por que a pergunta?"
James me deu um de seus sorrisos que costumava dar quando ambos éramos abatidos por algum tipo de pessimismo, seja pelas péssimas perspectivas de guerra, peste, etc. Ele sempre tinha alguma resposta na língua para animar a moral.
"Gostaria de oferecer minha espada ao senhor e à dama Mariam, se me considerar digno desta tarefa."
Eu ri em deleite. Mal parecia que rumava à guerra com aquele ar otimista de meu caro companheiro e da perspectiva de um futuro agradável quando retomasse dela.
"É claro, meu bom amigo James! Sou honrado por este serviço seu, saiba que será muito recompensado."
Infelizmente, porém, nada daquilo se concretizaria. Embora fizéssemos parte da cavalaria, não estávamos na primeira fila, ao lado do rei ou de seus homens confiáveis e, pensava eu, honráveis. Sequer permanecia ao lado dos pagens. Não que isso importasse. Eu era apenas um dos muitos que iam à batalha pela primeira vez. Ouvíamos o tambor. Ajeitei o elmo, fiz minhas preces e entreguei minha vida à Deus. Ali, olhando a fúria do inimigo, mesmo em tal longe fileira, eu reconheci que não voltaria. James também pressentiu o mesmo, pois me encarou alguns segundos antes do rei dar início ao encontro mortal e disse:
"Que Deus, São Jorge e os 12 apóstolos o acompanhem, meu caro amigo e irmão! Foi um prazer servir ao seu lado."
"Digo o mesmo, meu irmão! Que São Jorge o abençoe e guarde e que os 12 apóstolos o protejam. Serviremos à Maria, e que a Mãe nos guarde!"
"Amém" disse ele, e ouvi uns outros companheiros murmurarem o mesmo. Repeti, fiz o sinal da cruz, e quando o tambor cessou, o súbito silêncio a que se seguiu foi instantaneamente quebrado pelo grito furioso dos homens que desembainhavam suas espadas e, seguidos pelos pobres camponeses, lutavam uma luta desconhecida.
"Pela Escócia!" Gritou o rei.
"Pela Escócia!" e meu grito ecoou junto aos de outros tantos homens.
Puxei as rédeas do cavalo, dei um chute gentil e com uma espada na mão, corri entre os homens. De repente, quando dei por mim, estava em um emaranhado de guerreiros, todos eles lutando bravamente pelo que acreditavam. O ar se tornou pesado e abafado, a morte espreitava. Não havia espaço em nossas mentes para ponderar nada que não houvéssemos sido ensinados na arte da belicosidade. Constatei, tarde demais, que não gostava de tirar a vida do outro. Mesmo o inglês que vinha me cumprimentar com ódio nos olhos e sangue na ponta da espada, era meu irmão. E lamentei profundamente por vê-lo cair.
Mas minha espada era a de Cristo, pensei. Por ele lutarei, pela liberdade dos nossos irmãos escravizados. Pela liberdade dos leões escoceses, da pureza que nosso unicórnio começava a ser desenhado. Pela independência!
Aço contra aço, senti o pânico desnortear meu cavalo e lágrimas verteram de meus olhos ao pensar em seu sofrimento. Que Deus me ajude, eu rezei. Eu tenho uma senhora esperando por mim.
Mas os ingleses eram implacáveis, cruéis e mais experientes em batalha. Seu rei os guiava bem. O nosso, distante de mim que poderia estar, pouca coragem inspirava. Mas não havia tempo para criticar sua incapacidade militar. E nem mesmo me preocupava com isso. De repente, era sobre sobrevivência, mas será que existiria isso?
Foi tudo rápido demais. Escorreguei do cavalo e soube que era o fim. Gritos de homens e cavalos misturavam-se ao cheiro sufocante de suor, mijo e sangue. Sabe-se lá o que mais. A atmosfera era pesada, densa demais. A energia era desnorteante. E, quando percebi, uma espada cessou meu sofrimento. Seu aço trespassou minha cota de malha e eu arfava, lutando para respirar. Suor pingava de meu rosto e elmo agora amassava contra minha cabeça. Estava tonto, perdia sangue e era pisoteado. Alguém percebeu que, embora caído, vivia. Um inglês, eu pressentia. Ouvi a mim mesmo pedir misericórdia. Não a viver, eu sabia, mas a morrer rápido. Aquele inglês de cabelos ruivos e olhos azuis penetrantes me encarou e disse:
"Sinto muito. Seu perdão, senhor."
"Concedo-o, senhor." Falei com o restante da força que tinha, e me ouvi surpreso com aquela pequena troca de palavras antes que o inglês se ajoelhasse e me desse o beijo de sua espada. Arfei uma última vez, sentindo o gosto de sangue na boca, mas fechei os olhos e o negro cobriu minha vista.
* * *
Posfácio.
Espírito de Malcomn: o desencarne não foi fácil porque senti bastante dor. Era como se ainda vivesse quando despertei em meio ao caos. A verdade é, custou-me a entender na hora, que junto comigo vieram vários soldados que não aceitaram seu desencarne e continuaram a luta como se estivessem vivos. Matavam-se uns aos outros continuamente, sem perdão. Aquele cenário me assustou e, se não fosse pela consciência de que, até então, eu havia sido mortalmente ferido, tal ilusão teria me sugado para dentro. O que me chamava à Terra era a dor de minha senhora. Demorei um bocado de tempo a procurá-la. Mas eventualmente a encontrei, trancada em uma torre. Sua madrasta a colocou lá e ela já não tinha nenhuma vontade de viver, tendo aceitado terrível condição.
Haviam-na dito, porém, que eu pereci honravelmente em batalha, mas Mariam estava grávida e ela nunca recebeu as notícias bem. Não fosse pelo seu pai, ela teria provavelmente morrido lá. Tentei consolá-la, e creio que ela me via, mas chorava outra vez, culpando-se pelo destino que, na verdade, a eu mesmo escolhi.
"Vamos sair dessa juntos", eu tentei lhe dizer. Era uma sensação desesperadora, na verdade, porque nada daquilo parecia correto. Eu estando ali quando nenhum dos dois estava em paz. Eu a amava, mas estava exausto por causa da guerra. Sentia-me tão ferido morto quanto vivo. Estava confuso. Mas enquanto ela não estivesse bem, eu não sairia dali. Daquela maneira, velei por ela. Até que, às vésperas do nascimento, veio monsenhor Patrick acompanhando de George aqui. Conversei com ambos.
George, minha cara médium, foi quem se apiedou de mim e me concedeu o último suspiro antes do meu desencarne. Quando nós nos reencontramos no plano espiritual, ele veio em meu auxílio, desejando ser tão útil quanto possível porque sentiu-se culpado pelo que havia feito. Na minha concepção, não foi motivo de culpa visto que eu sofria e ele concedeu meu desejo de não sofrer mais em meio a uma guerra onde tantos outro agiam impiedosamente para uns com os outros. Monsenhor Patrick, de todo modo, nos apadrinhou espiritualmente. Da mesma maneira que o esclareceu sobre muitos outros ensinamentos que não me compete aprofundar, fez o mesmo comigo. Assim sendo, deixei o plano terreno. Mas ainda hoje... procuro pela minha senhora. Não sei o que houve com ela. Na verdade... suspeito que tenha sido tomada por sofrimento.
[Nota de Ogum: na verdade, a moça por quem busca foi hospitalizada depois de ter aceitado auxílio quando foi ao umbral. E como este conto promoveu ajuda necessária a este meu bom companheiro e irmão, eles poderão se reencontrar. E graças a vós, que permitiu que este espírito se expressasse. Quanto a identidade de Monsenhor Patrick, não cabe aqui explicar quem fora, creio mesmo ter falado o necessário. Mas Malcomn não esteve errado ao dizer isso. Eu fui mesmo esclarecido ainda mais sobre as funções espirituais a que deveria exercer na posterioridade. No devido tempo, vos explicarei a respeito.]
Bom... Agradeço, bondosa senhora. Creio que está na minha hora de partir. Perdoe-me a melancolia que ainda não consegui, de todo, me despojar. Mas uma vez na companhia de Mariam outra vez isso mudará, é certo. Estou muitíssimo melhor, entretanto, ao relembrar estes fatos que marcaram esta última encarnação. Prosseguirei trabalhando aqui no plano espiritual e, segundo Ogum, posso atuar sob a bênção de São Jorge. Veremos como isso se dará. Mais uma vez, agradeço, estou em débito para com a senhora. Que Deus a abençoe em sua bonita missão.
De seu amigo e irmão,
Espírito Malcomn.
Por anos a fio, fui um cavaleiro errante. Não sabia para onde seguir ou o que deveria ser de mim, mas carregava a consciência de fazer o que podia diante da situação. Salvei donzelas, recusei seu dinheiro, defendi os mais pobres e até mesmo uns monges da Igreja quiseram me ter a seu serviço. Para sobreviver, assim aquiesci. Nesta época, estava longe dos conflitos que sangravam a capital e, a despeito de meus traumas, procurava me despir dos mesmos. Um belo dia, um dos monges chamado Patrick veio a mim.
O cenário era tão bonito quanto poderiam visualizar: montanhas cobertas de neve, mas ensopadas de lama e com um verde que atravessava os extremos, eram cortadas por pequenos morros e, não muito longe dali, lagos e lagoas acrescentavam ao ambiente um ar bucólico que, não raro, me deixavam melancólico. Foi sentado em frente a uma lagoa azul congelada que o velho Patrick, de cabeça tonsurada e em vestes marrons, se aproximou.
"O senhor quase não fala. Como pensamos que tivesse adotado um voto de silêncio, não pedimos nada que não fosse sua espada. Pagamos pelo serviço porque tem sido justo e agido como um bom cristão tanto conosco quanto com o vilarejo que de nós depende." Ele falou e eu me vi forçado a encarar seus bondosos olhos azuis, as sobrancelhas grossas que se arqueavam enquanto se expressava, a barba que pouco cobria o rosto e o sorriso amarelado e um pouco enegrecido que se espalhava com tanta gentileza que emanava de si uma simplicidade difícil de recusar. "No entanto, sinto em meu piedoso coração de que algo o corrói por dentro e o deixa assim como é. Nunca o cobrei e não pretendo mudar agora, vim apenas oferecer o ouvido aos que dele precisam."
Soltei um longo suspiro. Era verdade que nunca me pediram nada, nem sequer o meu nome. Foi assim, mesmo com os monges fofoqueiros tentando arrancar algo de mim, o monge Patrick os espantava como moscas e me defendia. Não esperava nada em troca e isso me tocou o coração. Enfim, falei.
"Seria ingrato se não atendesse seu pedido tão simples, monsenhor", eu respondi e ofereci a ele um sorriso. Senti quase uma dor nas minhas bochechas ao fazê-lo, porém: fazia quase cinco anos desde que sofri aquela emboscada e desde então falei pouco e menos ainda interagi, sorri ou sequer ri. Preso ao luto, estava. "Meu nome é Malcomn."
O monge sorriu com tanta felicidade como se eu fosse o próprio Jesus em Terra. Ruborizei diante daquele calor vindo do homem, pois o último que me recebera daquela forma e me tratara como um filho havia muito partido deste mundo.
"Malcomn, permita-me apresentar de novo." Ele ofereceu sua mão e eu a peguei para sacudi-la. "Meu nome é Patrick. Sou um monge franciscano, isto é, sigo a ordem de São Francisco de Assis. Fiz meus votos de pobreza aos quinze anos e desde então venho me esforçando para servir tão humildemente como possível, a despeito de mim mesmo."
Era estranho, eu pensava na época, como havia sentido falta do contato humano. De conversar, interagir e até mesmo ouvir os outros contarem-me suas histórias. Sorri e senti que o pesado véu do luto começou a se dissolver.
"É um prazer conhecê-lo, senhor Patrick. Perdoe-me a vã curiosidade, mas acaso monsenhor veio da Irlanda?"
Ele riu e eu descobri que senti falta de rir também. Acompanhei-o.
"Tudo bem, meu caro. Assumo que a vã curiosidade recaia com mais rigor sobre aqueles que fizeram um voto contra ela do que aqueles que por ela buscam com algum objetivo." O monge me deu uma piscadela e seu bom humor me contagiou. "Não sou irlandês, temo desapontá-lo, mas digo por não ter nascido lá. Minha pobre mãe, se minha memória não falha, era filha de um. Não está de todo errado por me associar ao São Patrick, embora ele seja mais santo do que eu. Mas não estou aqui para falar de mim. Isso que está fazendo não funcionará."
Eu ri e, movido por uma sensação estranha, decidi expor aquilo que, por anos, tentei esconder. Cocei minha barbicha ruiva e falei:
"Não me recordo muito bem da minha infância, de modo que sequer lembro dos rostos de minha mãe ou meu pai. Fui basicamente adotado por uma família nobre de Skye. Foram tempos felizes, sabe? Servi a sua senhoria com o melhor de mim e ele me recompensou abraçando-me a sua família: fui educado ao lado de seus filhos, eram todos homens. Seus nomes eram Richard, James e Tyler. Fomos bons companheiros de armas, inclusive. No entanto, o velho infelizmente foi chamado a partir para o mundo. Seu primogênito, Richard, tornou-se o novo senhor em seu lugar e me promoveu a escudeiro e, não obstante, me recompensou fazendo-me cavaleiro."
"Ah." Disse o velho, pensativo. "Uma boa história de cavalaria."
Ri, mas meu riso soou mais amargo conforme avançava na história.
"Conforme Richard atingia a idade adulta, era próprio que desposasse uma moça de bons modos, boa linhagem e tudo mais que uma mulher aristocrática deva ter para ser considerada uma esposa adequada." Dei de ombros. "Ele tomaria como noiva, depois de várias escolhas, uma jovem de uma casa nobre, segundo diziam descender dos velhos Dunkelds. Vai lá saber. Bem, eu o acompanhei ao lado dos dois irmãos, afinal, éramos inseparáveis, mas isso foi uma estupidez."
Franzi o cenho, o rancor, como um perigoso e escuro veneno, bombardeando meu coração com uma dor que, não importasse quantas coisas boas fizesse, nada apagaria a dor que mexia comigo mesmo burro velho. O monge, porém, era mais piedoso que eu mesmo e pôs uma mão sobre meu ombro e falou:
"Não devemos questionar a vontade de Deus. Se seus irmãos partiram, foi porque foram chamados."
Apesar de tudo, nunca senti raiva do Pai Maior por isso. Era ignorante, mas minha fé nunca se abalou, disso posso afirmar sem titubear.
"Sim, monsenhor. Mas a tristeza foi profunda e eu me senti culpado por muitos anos. Fomos quase todos massacrados e eu desejei ter ido com eles."
"E, no entanto, quantas vidas salvou depois disso?" Inquiriu o sábio monge.
Desanimado, dei de ombros.
"Não contei", admiti.
Mas ele sorria, sempre otimista.
"Isto só demonstra a fortaleza do seu caráter, meu caro amigo. Há humildade e bondade em você, mas precisa se desprender deste rancor, deste apego. Tudo nesta vida é passageiro, não vê? Por pior que tenha sido aquela perda, se tivesse os acompanhado, as donzelas que salvou teriam sido corrompidas, os mendigos que protegeu teriam sofrido nas mãos dos poderosos, os ricos abusariam dos pobres e tudo o que fez... Desfeito teria sido? Há bondade no caminho que vem trilhando e, no entanto, prefere olhar para a escuridão que o acompanha?"
Cocei a barbicha, reflexivo.
"Não pensei nisso", eu falei e senti a vergonha trair minha voz.
Novamente, porém, o monge falou como um santo:
"Não há vergonha em admitir os erros pretéritos nem em ter escolhido permanecer neles. Sua fé é o que o guia. Sê corajoso e deixe-a guiar por dentro também. Por que duvida de si mesmo, meu filho?"
"Não sou merecedor do perdão divino", eu falei, carrancudo. "Falhei com meus irmãos tanto quanto falhei com Deus."
O monge Patrick era, na verdade, a reencarnação de outrora rei santo que não me cabe dizer quem havia sido. Por isso falava como um. Mas, à época, não sabia e nem teria como saber. Ele somente pegou na minha mão e, olhando dentro dos meus olhos, falou:
"O problema de nós, homens, é a audacidade que possuímos em transferir nossos problemas, nossas faltas ao Grande Pai. Por que Ele se incomodaria em nos castigar, em nos enviar ao inferno se nosso sofrimento também o aflige? Ele enviou Jesus, nosso irmão, à cruz para salvar a humanidade. Que outro Pai faria isso para ensinar o amor? E Jesus aceitou a missão sem pensar em si. Ele sofreu, mas sobrepujou tal sofrimento. O Pai, o Filho e o Espírito Santo nos amam incondicionalmente. Estão conosco em nossas vidas, em nossos corações. Não exigem de nós a perfeição, apenas que façamos o bem, praticamos o bem e a caridade. Amai uns aos outros..."
"Como amai a si mesmo." Completei e ambos sorrimos com isso.
"Sei que está despedaçado, meu filho. Ouvi outros irmãos comentarem a respeito, e não me olhe assim porque isso está suficientemente claro em seu semblante." Disse-me o monge com um quê de reprimenda que não pude deixar de rir. "O que eu quero dizer é que Deus o trouxe aqui, e ainda perto das montanhas, para que seja curado. Permita-se. Sei que muitos daqui gostariam que se tornasse monge, mas não pediria isso de você, meu filho. Ah, sei que se pergunta e diga-me que o responda: sua vocação está na belicosidade. Em tempos assim, ela será necessária."
Suas palavras tocaram o âmago de meu coração, de minha alma, e eu me permiti chorar. Ele não me julgou, como sabia que ele não me julgaria, ao contrário, apenas me abraçou quando precisei e me confortou. Finalmente, estive em paz. Ao longo dos próximos dias, rezei e continuei com meu dever, mas algo me chamava para Edimburgo. Um dia, confessei isso ao monge que me olhou e disse:
"Sabe que não regressará de lá?"
Um arrepio percorreu minha espinha, mas eu assumi que já soubesse isso antes. No entanto, hesitei. E percebendo isso, o monsenhor Patrick disse:
"Filho, temer a morte você não deve. Coragem, ao contrário, procura ter. Ainda que fugisse de Edimburgo, outro destino tão perigoso quanto lá o chamaria porque este é seu dever. Um cavaleiro não foge de seu dever nem da fé que o leva ao cumprimento deste."
"Às vezes, temo..." falei, mas não consegui completar a frase.
"O medo é a expressão mais racional do homem", disse-me o sábio monge. "Mas a fé é o alimento espiritual de que precisa. Sem a fé, o medo não é mais a cautela, mas faz a mente tomar conta do corpo e daí em diante... só ladeira abaixo."
"Não pretendo ser um covarde", me defendi.
Mas o monge riu.
"Longe de mim fazer tamanha desfeita de sua honra, filho. O que eu quero dizer é que se tem medo de algo que aconteça com você no caminho ao sul, não tema. A fé é de que precisa, e não o excesso de cautela. Não estou aconselhando-o a ser imprudente, porém." Ele alertou. "Sê sábio. No final das contas, somente você saberá o que for melhor a você."
"Desejo seguir a Cristo, minha espada é Dele."
O monsenhor Patrick me sorriu.
"Eu sei, Filho. Ele o abençoa, tenho certeza de que sim." [Nota de Ogum: Patrick era, como Malcomn vos informou, o espírito de um rei santo. Na posterioridade, tornou-se guia espiritual desta entidade. Disso falaremos mais à frente, mas adianto que ambos reencarnaram com o propósito de adiantamento, embora se para um era uma missão, ao outro cabia a expiação. E tamanho era o avanço espiritual de Patrick que sua clarividência era extraordinária. É lamentável que seus feitos tenham sido esquecidos, mas foi conforme pedira. De todo modo, sim, Jesus esteve ao lado dele naquele instante.]
"Seu coração é puro", disse-me Patrick, "mas há ainda que se libertar destas agarras que o prende. Quando descobrir que a dor é ilusão e que você é o senhor de seu corpo e não o contrário, terá se tornado um ilustre espírito, talvez até mesmo como São Jorge um dia o fora em vida."
"O senhor é muito bondoso" eu falei, emocionado. E me ajoelhei diante daquele venerável homem. "Com sua permissão, rogo pela proteção divina de São Jorge, de Jesus Cristo e seus 12 apóstolos, entregando meu coração a São Francisco de Assis e pedindo sabedoria a Santo Antônio de Pádua."
Monsenhor Patrick pareceu sinceramente emocionado quando pronunciei aquelas palavras, que eram, de fato, o tambor de meu coração. Ele pôs sua mão sobre minha cabeça, fechei os olhos e foi como se uma grande luz me inundasse o espírito. Senti-me bem, e mentalmente fiz uma prece em agradecimento aos santos que mencionei, tendo me afeicionado bastante à ordem franciscana. Um dia, pensei, se sobrevivesse ao que quer que Deus me reservasse, eu aposentaria minha espada e faria os votos. Contudo, diante de tal pensamento formou-se um conflito: seria eu capaz de relegar a espada e fugir às batalhas para servir em silêncio a Deus?
Por ora, deixei de lado aquelas inquietações. No mesmo dia, parti e, como o monsenhor Patrick previu, eu não regressaria mais aquele lugar. Abandonei o conforto e a pobreza, os humildes a quem servi, para oferecer minha espada a quem dela precisasse. E, logo, ela seria necessitada... Para Edimburgo, voltaria e, desta vez, sem interrupções no meu alcance.
* * *
Em Edimburgo, havia vários lordes, senhores de terra e ricos sobremaneira que, se assim desejassem, poderiam alimentar os necessitados. Tal foi a impressão que eu, mentalmente, reprovava, embora devesse ter sido mais humilde na ocasião e me abster de fazer julgamentos. No entanto, eu era falho como continuo a ser.
De todo modo, um dos duques de sobrenome Douglas me convocou a seu serviço. Era um senhor robusto e, assim como eu, tinha cabelos ruivos. No entanto, por ter se acostumado com a opulência da aristocracia, não era o mais adequado a servir em batalha. Mas me prometeu uma boa quantia de ouro se lutasse em seu nome a serviço do rei contra os malditos ingleses, segundo disse com aquelas exatas palavras.
"Aceito de bom grado servi-lo, senhor, se puder me oferecer um lugar para ficar, alimento e bebida." Foi só o que desejei.
O senhor Douglas riu em deleite.
"Ah, caro rapaz! Se soubessem o que me é pedido diariamente... Isto eu concedo de bom grado!"
Embora arrogante, aquele era um lorde de bom coração, eu percebi. Deixou-me hospedar em seu castelo e permanecer em sua corte. No início, confesso, me deslumbrei com as paredes de pedra, as moças em seus vestidos longos de tecido cetim, suas peles de porcelana ricamente enfeitadas com pérolas ou diamantes, enquanto músicas eram tocadas pelos dedos mais habilidosos que um homem como Douglas poderia comprar. Na verdade, a música era para mim muito cara. Os sons que saíam do alaúde, da lira e da flauta tocavam minha alma. Suponho que isso se deva por ter sido um músico e um poeta gregos em vidas pregressas.
Ainda assim, quando uma mulher era designada a emprestar sua voz para a doce melodia que vinha de tais instrumentos, eu me via perdido nela e percebi que ali estava minha felicidade. Poderia parecer estranho um homem constantemente vestido em malha (pois sim, o tal lorde fez questão de me vestir adequadamente já que eu o lutaria por seu nome e ele não desejava ter a reputação de contratar cavaleiros errantes. Deveria eu parecer como um cavaleiro nobre e enriquecido, mesmo que tais qualidades fossem inventadas) apreciar a música quando tantos outros preferiam o gosto da cerveja. No entanto, minha sensibilidade atraiu a curiosidade de uma bela jovem... e nela veio a minha perdição.
Mariam era uma das filhas ilegítimas deste lorde, mas não saberia naquele momento porque, a bem da verdade, não prestava atenção nas moças. Interessava-me ajudar e salvar as donzelas, mas conquistar e consumar o amor que algumas delas dirigiam a mim, isso eu recusava por ser pouco cavaleiresco de minha parte. De modo que fui pego de surpresa quando ela se aproximou de mim com um sorriso maroto brincando nos lábios, embora isso não se refletisse nos belos olhos azuis com os quais me fitava. Seus cabelos eram de um ruivo bastante escuro e na ocasião estavam presos em duas longas tranças. Usava em seu corpo um vestido azul veludo que combinava, se não ressaltava, os olhos com os quais me encarava.
"O senhor é diferente", ela comentou. "Não tenho o costume de ver cavaleiros apreciando o amor cortês."
"Talvez não sejam cavaleiros verdadeiros", eu disse sem saber o que responder.
Mariam riu.
"Ora, mas o que dizer disso? Vejo um cavaleiro casto diante de mim ou outro sedutor?"
Franzi o cenho diante daquela ofensa.
"Mas, ora, senhora! Espero não me confundir com qualquer patife que pensa ter se familiarizado."
Ela riu de mim outra vez e senti meu rosto queimar sob o elmo que usava sobre a cabeça. O peso com o qual aquele material fazia pressão sobre minha cabeça deixou havia muito de ser um tormento. Na verdade, era um acessório muito caro a mim.
"Patife? Perdoe-me meu mau julgamento." Ela se desculpou, embora tenha percebido um tom de divertimento. "Há homens que usurpam o verdadeiro valor da cavalaria e dizem que tais ideais morreram com os últimos templários."
"Soube deles. Trágico fim tiveram aqueles homens." Foi tudo o que consegui murmurar. Minha educação havia se centrado mais no militar do que na erudição, mas mesmo assim meus irmãos de armas, aqueles que citei no início, fizeram questão me instruir na arte da cavalaria. Sendo assim, soube da ordem dos cavaleiros templários e como seu valor sofreu um golpe perigoso do rei francês, Philippe IV. Não importasse se eram mau vistos atualmente, eu ainda os idolatrava e ansiava em copiar seus maneirismos.
"De fato", ela concordou seriamente. "Embora os escoceses sejam aliados dos franceses, aquele seu rei era um homem tão cruel quanto aquele que enfrentaremos em breve. Está aqui a lutar por meu pai contra o rei inglês?"
Surpreendi-me com a erudição e me senti um tolo por fazer ideia de que mulheres em si não eram tão educadas quanto os homens. Um preconceito de época, se for possível escusar-me por isso.
"Sim", eu me ouvi dizendo, sem nem saber, para minha vergonha, do que se tratava aquela guerra.
Mas Mariam era esperta e logo ela entendeu. Sem fazer qualquer julgamento de valor, ela disse:
"Sinto que o senhor não tenha sido instruído o suficiente nestes assuntos. Não estou o julgando", ela se apressou em corrigir, provavelmente por ter visto em mim algum resquício de orgulho transparecer em meu semblante. "E não se culpe, pois a diplomacia cabe somente aos homens das mais altas posições. Na verdade, nem o senhor meu pai sabe do que se trata esta guerra afinal. Ao que parece, o rei Edward está insatisfeito com a condução dos negócios de nosso reino."
Ela soltou uma gargalhada debochada, mas entendi o motivo disto. Nós, escoceses, atraíamos constantemente a cólera dos ingleses e por causa disto, tornamo-nos inimigos uns dos outros. A ânsia em nos dominar e a dificuldade em nos conquistar e subjugar ao seu poderio nos fez angariar a imagem de povo selvagem e rebelde. Mas nós tampouco éramos santos e desprovidos da culpa do negócio. Não raro instigávamos a guerra também, e no final das contas, o errado e o certo não se aplicavam a nenhum dos lados. Mas lutaria pelo que eu conhecia, e era a Escócia que amava e defenderia, por isso, de repente ponderei, seria uma causa pela qual valeria morrer.
"Os ingleses são deveras ambiciosos para seu próprio bem", eu contemplei.
Mariam deu de ombros.
"Provavelmente. Acham-se no direito de se chamar conquistadores, mas são insignificantes." De repente, ela deu de ombros e sorriu. Era um sorriso encantador. "Mas chega disso. Como devo chamá-lo, bondoso senhor?"
"Malcomn." Apresentei-me, sem oferecer mais informações, embora sob seu olhar indagador me sentisse tentado a fazê-lo.
"Mariam, este é meu nome." Ela sorriu de novo e eu assenti com a cabeça. "Seu sotaque me diz que não é daqui."
Como ela havia sido a única pessoa a ser cordial comigo, pensei que não seria cavaleiresco tratá-la de maneira incivilizada. Frieza não era o que um cavaleiro deveria ser. Assim sendo, contei a ela de minhas origens, longe de serem nobres como ressaltei. Mas Mariam não se importou.
"Sou uma bastarda", ela me confidenciou entre risos. "De nobre, só tenho o sangue como o meu pai costuma dizer. Mas não me importo com o que ele diga."
Arqueei as sobrancelhas diante disso.
"É por isso que carrega ressentimento com seu pai?"
Mariam franziu as sobrancelhas e percebi que falei algo errado, mas antes que pudesse me desculpar pelo comportamento inapropriado, ela suavizou e disse:
"O senhor é deveras sincero para um cavaleiro. Talvez a cavalaria templariana não houvesse sido corrompida afinal de contas". Ela me concedeu um sorriso, e deu um risinho quando enrubesci. "Talvez. Ele me legitimou, de certa forma, me reconheceu como sua filha e me trouxe ao castelo. No entanto, sua esposa e duas de suas filhas me desprezam. Sancha me detesta, mas sei que é porque chegou aos seus ouvidos que os poetas oferecem homenagens a mim e não a ela."
Ela riu, mas eu via para além de sua risada. Era uma mulher petulante e impiedosa, eu pensei comigo mesmo. Orgulhosa, vaidosa, mas tão sensível quanto qualquer outra de seu sexo e posição poderiam ser. Tais defeitos foram forçados a serem utilizados como defesa e eu me perguntei a que tipo de humilhação ela passou para agir daquele jeito.
Antes da grande batalha, ainda me demorei mais na corte e notei que o pai a tolerava, mas, no fundo, era Mariam sua favorita. Não obstante, era forçado a ouvir a esposa ladrar sobre a menina ilegítima porque, como foi me dito, os poetas não temiam em louvar a beleza de Mariam sobre as suas irmãs legítimas. Isso era intolerável para a madrasta que falhou em conceber ao esposo um herdeiro. No fim das contas, compreendi a solidão de Mariam e era por isso que nós nos aproximamos.
Éramos dois solitários, no final das contas, que encontraram conforto na companhia um do outro. Nos dois meses antes da guerra, de fato me familiarizei com outros homens, ninguém havia sido tão próximo de mim quanto Mariam e o monsenhor Patrick, embora em aspectos diferentes.
"O senhor deveria ser um poeta", disse-me Mariam uma vez. "Fala tão bem quanto domina sua espada."
Enrubesci novamente e ela sorriu. Mariam costumava dizer que adorava me ver corar, pois assim sabia que eu era "de verdade" e não um produto imaginário de contos arturianos.
"Acho que a senhora está sendo bondosa deveras comigo e não sou merecedor dela", repliquei, ganhando um revirar de olhos em resposta.
"Não está sendo humilde, apenas tímido", ela implicou, arrancando de mim um sorriso. "Me conte mais das ilhas de Skye. Gostaria de tomar um bote e subir os rios lá."
"É mesmo?" Eu me surpreendi ao ouvir aquilo. "Pensei que a senhora adorava a corte."
Novamente, ela revirou os olhos.
"O senhor me conhece bem. Não pode estar falando sério. Eu amo a música e usufruo de um privilégio que tenho certeza de que muitas garotas por aí gostariam de ter. No entanto, como acha que é viver em um ambiente onde é detestada pelas meias-irmãs e que a madrasta já expressou a vontade de ver sua querida enteada morte pelo simples fato de ser ilegítima?" Embora sua fala carregasse dor, dizia com tranquilidade. "O que me incomoda é como um ser daqueles pode se dizer cristão. Minha madrasta reza todos os dias, frequenta as missas, mas é tão arrogante e mesquinha... Não à toa meu pai procurou prazer fora do casamento. E continua procurando!"
Por mais doloroso que fosse ouvir sua dor, me apreciava saber que conquistara sua confiança e era visto como merecedor dela. Não desejava que fosse triste. E por isso tentava passar a ela o que o monsenhor Patrick me ensinou. Um dia conversávamos sobre perdão e, diante do que falei a respeito, ela ponderou e admitiu:
"Tenho dificuldades em perdoar, principalmente aos que vestem a hipocrisia. Isso me dói muito. Sou sensível, por mais que me custa esconder isso."
Inesperadamente, tomei a mão dela na minha e a segurei. O gesto me surpreendeu, mas ela apreciou. Aquele toque era significativo.
"Eu sei que é", disse eu. "Duas almas sensíveis e cá estamos."
Foi minha a vez de vê-la enrubescer e a cena ainda hoje me fez sorrir. Um olhar baixo que, quase hesitantemente, subiu encontrou-se ao meu e dali, soubemos instantaneamente que éramos mais do que amigos. Foi ali que a ela dei meu coração, e ela me deu o seu.
* * *
A despeito da aproximação da grande e inevitável batalha, e com ela, o mau pressentimento que me cercava, decidi arriscar e pedi a mão de Mariam ao pai. O lorde fingiu surpresa, já que ele me via acompanhar a filha constantemente em passeios nos jardins e uma vez mesmo ouvi-a dizer o quanto ela me tinha em sua alta estima. No entanto, ele hesitou e eu compreendi por que: não era um nobre, nem tinha possessões que me fizessem um partido adequado à Mariam. E depender dele, eu percebi, custava meu orgulho. Apesar disso, ele prometeu que pensaria e se eu provasse meu valor na guerra, receberia a mão de Mariam. Embora tal acordo não tenha sido tão agradável quanto pudesse parecer, ele fingiu não perceber que a cortejava abertamente, para o horror de sua segunda esposa e as filhas não herdariam seu condado.
Mas Mariam e eu não pensávamos no depois, nem no antes, apenas no momento vivido. As auroras fizeram parte de nossa rotina diária. Trocávamos confidências, víamos o sol nascer, falávamos de poesia e mesmo de políticas, mas não mencionávamos o amor... Ainda que o sentimento estivesse presente em cada olhar e sorriso, em cada gesto e ação.
No entanto, o dia fatídico eventualmente chegou. Às vésperas, Mariam me procurou. Era tarde da noite, e a corte estava vazia, salvo, talvez, por uns beberrões. Usava um linho de roupa e me preparava para deitar tendo feito minhas preces quando ouvi a porta se aberta abruptamente. Antes de pensar em pegar a espada, Mariam estava diante de mim usando um camisolão e com os longos cabelos ruivos soltos. Em seus olhos, a dor.
"Não desejo me despedir." Foi o que disse.
"Não é realmente uma partida, senhora. Sabe que regressarei e a desposarei." Mas tais palavras, ainda que pronunciadas por mim, não me inspiraram confiança aos meus ouvidos Na verdade, não contei a ela que vinha carregando sensações estranhas de que tudo via pela última vez. Em sonhos, meus outrora irmãos de armas apareciam em trajes brancos e iluminados por uma luz que não identificava. Na noite mais recente, teria visto até mesmo o monsenhor Patrick em seus trajes de monge, embora me parecesse mais guerreiro que santo ao me inspirar palavras de coragem. Ainda me recordo de ter me dito que estaria em suas preces.
"Não acredito nisso", ela retrucou, "e nem você.".
Ela se virou e, por um segundo, temi que fosse partir, mas ela trancou a porta. Veio a mim, e eu percebi que ruborizava diante de suas intenções.
"Senhora..."
Mas antes de me repreender por agir como um tolo templário, como ela passou a me apelidar, ela cortou uma mecha de seus cabelos ruivos cheios de vida e colocou-o em um vidrinho. Em seguida, o pôs em um dos bolsos que, descobri, ela tinha costurado com este propósito. Embasbacado, não sabia o que dizer. Era terrível em me expressar, e a tristeza daquele momento sufocou-me por instantes.
Quando Mariam voltou a mim, eu ainda estava parado e me perguntando, em meu íntimo, o que seria daquele espírito sensível e intenso sem mim. Pois percebi de súbito que minha presença, de certa maneira, a havia escudado das maldades alheias da corte. Sussurravam pelas nossas costas, era verdade, mas deveria ter algum motivo para não fazê-lo em nossa frente. E me preocupava que não estaria ali para apaziguar as violentas paixões sob as quais Mariam dançava tão bem.
"Não fale nada." Ela retrucou e depositou um beijo em meus lábios. Tinham o doce gosto do hidromel. "Seremos esposos de hoje em diante."
Sorri perante sua determinação.
"Lamentavelmente eu não carrego comigo nenhum anel."
Mas, como de costume, Mariam tinha dois anéis de ouro consigo. Para meu espanto, eram uma relíquia aquelas joias. Exclamei, mas ela riu de mim e procurou minhas mãos. Prontamente as segurei e disse:
"Senhora, espero que não tenha..."
"Não roubei, seu tolo templário", ela silvou impaciente. "Meu pai nos deu de presente."
"Mas ele..."
"Acha que eu mentiria?" ela me desafiou. E eu soube que éramos esposos, de fato.
Sorri e falei:
"Permita-me, senhora. Tomarei as rédeas da situação". E ela riu como uma garotinha quando ajoelhei-me diante dela, e com um dos anéis em uma mão, falei: "Terei a honra de tomar como esposa a senhora Mariam Douglas?"
Mariam riu, e era um som enternecedor, que muito tocou meu coração. Ela exclamou afirmativamente e eu deslizei o dedo em seu dedo enquanto ela fazia o mesmo no meu. Enfim, nos beijamos! E era o deleite que fê-me olvidar o mundo violento do qual faria parte, afastando de mim os temores que me cercavam. Tal qual um enfermo é permitido aproveitar os poucos momentos de saúde para despedir-se dos amados, assim o era comigo, que, na ignorância da carne, não desconfiava do amanhã;
Tomado por uma súbita urgência, a puxei para mim. Abracei seu corpo enquanto beijávamos com intensa paixão. Nossos espíritos se comunicavam enquanto roupas eram jogadas ao chão, e o fogo da lareira parecia um calor distante em comparação. Amei-a aquela noite e sequer me permiti dormir. Embalei-a contra meu corpo e nada soou tão belo e suave quanto a reação de seu corpo contra o meu, e a maneira com a qual ela professava seu amor.
"Eu a amo, lady Mariam." Eu sussurrei contra sua pele, beijando seu pescoço, suas bochechas, seus lábios. "Nunca se esqueça disso."
Mariam aconchegou-se contra o corpo e disse, com um sorriso brincando em seus lábios.
"Eu o amei desde o momento em que o vi, Sir Malcomn. Lembre-se de que terá uma senhora a aguardá-lo toda vez que partir."
Sorri diante daquela expectativa e me permiti sonhar ilusões que, em breve, seriam destroçados pelo aço de uma espada.
"E lembre-se de que proverá uma família grande e saudável. Envelheceremos juntos na certeza de termos cumprido com os nossos deveres."
Mariam riu, e tornou a virar-se para mim novamente, contemplando meu rosto, acariciando-o e sentindo a barba ruiva roçar contra sua delicada mão.
"Já disse que o amo?"
"Não me canso de ouvir tanto quanto dizer", respondi amorosamente. "Amo-a, Lady Mariam."
"E eu o amo, Sir Malcomn. Não me deixe só neste mundo."
"Jamais", prometi. "Pois tenho uma senhora que está me esperando."
Ela sorriu, satisfeita. Ao nascer do sol, adormecemos.
* * *
Carregava comigo, além do essencial para um cavaleiro, montado em um belo cavalo negro com manchas brancas de excelente pelugem, o anel de promessa de Mariam e seu cacho de cabelo ruivo. Mal havia quebrado o jejum quando ouvimos um berrante de guerra convocar a todos nós. A despedida havia sido breve, e eu ainda guardava em minha memória seu sorriso doce e suas palavras encorajadoras, mas a tristeza em seu olhar somente confirmava um temor de que não nos veríamos mais. Contudo, não admitiríamos esta possibilidade.
"Promete a mim que regressará são e salvo". Ela disse e seu orgulho vacilou quando acrescentou: "Espero termos feito um bebê à noite passada. O primeiro de muitos."
Tomei sua mão aos lábios e sorri:
"Se for um menino, dê a ele meu nome."
"Você estará aqui para fazer isso." Mariam me repreendeu. "Promete que regressará?"
"Prometo." Falei, e, no entanto, não me senti convencido. Ela tampouco, mas não havia tempo para isso.
"Estarei o esperando!" Exclamou Mariam.
"Voltarei a minha senhora!" Exclamei de volta.
E, assim, parti. Era nisso que pensava quando cavalgava em silêncio. Um de meus companheiros, um homem chamado James, falou:
"Estão todos comentando a seu respeito e a da filha de sua senhoria. É verdade que estão prometidos?"
Sorri a James. Era um rapaz como eu, de origens obscuras, mas que adotou a cavalaria como honra. [Nota de Ogum: ambos foram templários que morreram queimados na França de Philippe IV em vida pregressa, por isso este retorno e porque Malcomn comportava-se daquela forma.] Normalmente, nos dávamos bem e era com ele que eu gostava de treinar quando os deveres se interpunham entre Mariam e eu. Sendo assim, nele eu confiava.
"Sim." Confirmei. "O senhor Douglas prometeu que a desposaria se provasse meu valor nesta guerra e voltasse à casa vivo."
Um tremor passou pelo meu corpo quando disse aquilo, mas ignorei o prenúncio da morte. James assentiu.
"O senhor merece mais do que ninguém. Mas, perdoe-me, o senhor pretende regressar à Skye?"
"Creio que sim." Hesitei. "Não pensei nisso, na verdade. Por que a pergunta?"
James me deu um de seus sorrisos que costumava dar quando ambos éramos abatidos por algum tipo de pessimismo, seja pelas péssimas perspectivas de guerra, peste, etc. Ele sempre tinha alguma resposta na língua para animar a moral.
"Gostaria de oferecer minha espada ao senhor e à dama Mariam, se me considerar digno desta tarefa."
Eu ri em deleite. Mal parecia que rumava à guerra com aquele ar otimista de meu caro companheiro e da perspectiva de um futuro agradável quando retomasse dela.
"É claro, meu bom amigo James! Sou honrado por este serviço seu, saiba que será muito recompensado."
Infelizmente, porém, nada daquilo se concretizaria. Embora fizéssemos parte da cavalaria, não estávamos na primeira fila, ao lado do rei ou de seus homens confiáveis e, pensava eu, honráveis. Sequer permanecia ao lado dos pagens. Não que isso importasse. Eu era apenas um dos muitos que iam à batalha pela primeira vez. Ouvíamos o tambor. Ajeitei o elmo, fiz minhas preces e entreguei minha vida à Deus. Ali, olhando a fúria do inimigo, mesmo em tal longe fileira, eu reconheci que não voltaria. James também pressentiu o mesmo, pois me encarou alguns segundos antes do rei dar início ao encontro mortal e disse:
"Que Deus, São Jorge e os 12 apóstolos o acompanhem, meu caro amigo e irmão! Foi um prazer servir ao seu lado."
"Digo o mesmo, meu irmão! Que São Jorge o abençoe e guarde e que os 12 apóstolos o protejam. Serviremos à Maria, e que a Mãe nos guarde!"
"Amém" disse ele, e ouvi uns outros companheiros murmurarem o mesmo. Repeti, fiz o sinal da cruz, e quando o tambor cessou, o súbito silêncio a que se seguiu foi instantaneamente quebrado pelo grito furioso dos homens que desembainhavam suas espadas e, seguidos pelos pobres camponeses, lutavam uma luta desconhecida.
"Pela Escócia!" Gritou o rei.
"Pela Escócia!" e meu grito ecoou junto aos de outros tantos homens.
Puxei as rédeas do cavalo, dei um chute gentil e com uma espada na mão, corri entre os homens. De repente, quando dei por mim, estava em um emaranhado de guerreiros, todos eles lutando bravamente pelo que acreditavam. O ar se tornou pesado e abafado, a morte espreitava. Não havia espaço em nossas mentes para ponderar nada que não houvéssemos sido ensinados na arte da belicosidade. Constatei, tarde demais, que não gostava de tirar a vida do outro. Mesmo o inglês que vinha me cumprimentar com ódio nos olhos e sangue na ponta da espada, era meu irmão. E lamentei profundamente por vê-lo cair.
Mas minha espada era a de Cristo, pensei. Por ele lutarei, pela liberdade dos nossos irmãos escravizados. Pela liberdade dos leões escoceses, da pureza que nosso unicórnio começava a ser desenhado. Pela independência!
Aço contra aço, senti o pânico desnortear meu cavalo e lágrimas verteram de meus olhos ao pensar em seu sofrimento. Que Deus me ajude, eu rezei. Eu tenho uma senhora esperando por mim.
Mas os ingleses eram implacáveis, cruéis e mais experientes em batalha. Seu rei os guiava bem. O nosso, distante de mim que poderia estar, pouca coragem inspirava. Mas não havia tempo para criticar sua incapacidade militar. E nem mesmo me preocupava com isso. De repente, era sobre sobrevivência, mas será que existiria isso?
Foi tudo rápido demais. Escorreguei do cavalo e soube que era o fim. Gritos de homens e cavalos misturavam-se ao cheiro sufocante de suor, mijo e sangue. Sabe-se lá o que mais. A atmosfera era pesada, densa demais. A energia era desnorteante. E, quando percebi, uma espada cessou meu sofrimento. Seu aço trespassou minha cota de malha e eu arfava, lutando para respirar. Suor pingava de meu rosto e elmo agora amassava contra minha cabeça. Estava tonto, perdia sangue e era pisoteado. Alguém percebeu que, embora caído, vivia. Um inglês, eu pressentia. Ouvi a mim mesmo pedir misericórdia. Não a viver, eu sabia, mas a morrer rápido. Aquele inglês de cabelos ruivos e olhos azuis penetrantes me encarou e disse:
"Sinto muito. Seu perdão, senhor."
"Concedo-o, senhor." Falei com o restante da força que tinha, e me ouvi surpreso com aquela pequena troca de palavras antes que o inglês se ajoelhasse e me desse o beijo de sua espada. Arfei uma última vez, sentindo o gosto de sangue na boca, mas fechei os olhos e o negro cobriu minha vista.
* * *
Posfácio.
Espírito de Malcomn: o desencarne não foi fácil porque senti bastante dor. Era como se ainda vivesse quando despertei em meio ao caos. A verdade é, custou-me a entender na hora, que junto comigo vieram vários soldados que não aceitaram seu desencarne e continuaram a luta como se estivessem vivos. Matavam-se uns aos outros continuamente, sem perdão. Aquele cenário me assustou e, se não fosse pela consciência de que, até então, eu havia sido mortalmente ferido, tal ilusão teria me sugado para dentro. O que me chamava à Terra era a dor de minha senhora. Demorei um bocado de tempo a procurá-la. Mas eventualmente a encontrei, trancada em uma torre. Sua madrasta a colocou lá e ela já não tinha nenhuma vontade de viver, tendo aceitado terrível condição.
Haviam-na dito, porém, que eu pereci honravelmente em batalha, mas Mariam estava grávida e ela nunca recebeu as notícias bem. Não fosse pelo seu pai, ela teria provavelmente morrido lá. Tentei consolá-la, e creio que ela me via, mas chorava outra vez, culpando-se pelo destino que, na verdade, a eu mesmo escolhi.
"Vamos sair dessa juntos", eu tentei lhe dizer. Era uma sensação desesperadora, na verdade, porque nada daquilo parecia correto. Eu estando ali quando nenhum dos dois estava em paz. Eu a amava, mas estava exausto por causa da guerra. Sentia-me tão ferido morto quanto vivo. Estava confuso. Mas enquanto ela não estivesse bem, eu não sairia dali. Daquela maneira, velei por ela. Até que, às vésperas do nascimento, veio monsenhor Patrick acompanhando de George aqui. Conversei com ambos.
George, minha cara médium, foi quem se apiedou de mim e me concedeu o último suspiro antes do meu desencarne. Quando nós nos reencontramos no plano espiritual, ele veio em meu auxílio, desejando ser tão útil quanto possível porque sentiu-se culpado pelo que havia feito. Na minha concepção, não foi motivo de culpa visto que eu sofria e ele concedeu meu desejo de não sofrer mais em meio a uma guerra onde tantos outro agiam impiedosamente para uns com os outros. Monsenhor Patrick, de todo modo, nos apadrinhou espiritualmente. Da mesma maneira que o esclareceu sobre muitos outros ensinamentos que não me compete aprofundar, fez o mesmo comigo. Assim sendo, deixei o plano terreno. Mas ainda hoje... procuro pela minha senhora. Não sei o que houve com ela. Na verdade... suspeito que tenha sido tomada por sofrimento.
[Nota de Ogum: na verdade, a moça por quem busca foi hospitalizada depois de ter aceitado auxílio quando foi ao umbral. E como este conto promoveu ajuda necessária a este meu bom companheiro e irmão, eles poderão se reencontrar. E graças a vós, que permitiu que este espírito se expressasse. Quanto a identidade de Monsenhor Patrick, não cabe aqui explicar quem fora, creio mesmo ter falado o necessário. Mas Malcomn não esteve errado ao dizer isso. Eu fui mesmo esclarecido ainda mais sobre as funções espirituais a que deveria exercer na posterioridade. No devido tempo, vos explicarei a respeito.]
Bom... Agradeço, bondosa senhora. Creio que está na minha hora de partir. Perdoe-me a melancolia que ainda não consegui, de todo, me despojar. Mas uma vez na companhia de Mariam outra vez isso mudará, é certo. Estou muitíssimo melhor, entretanto, ao relembrar estes fatos que marcaram esta última encarnação. Prosseguirei trabalhando aqui no plano espiritual e, segundo Ogum, posso atuar sob a bênção de São Jorge. Veremos como isso se dará. Mais uma vez, agradeço, estou em débito para com a senhora. Que Deus a abençoe em sua bonita missão.
De seu amigo e irmão,
Espírito Malcomn.