quinta-feira, 21 de maio de 2020

(Contos da Escócia, vol. 5) Highlander

Nota de Ogum: o título deste conto, última série destas cinco psicografias escocesas, não se refere ao highlander do século XVIII como se poderia pensar. Refere-se a um guerreiro escocês contra quem lutei há tantos e tantos séculos passados, ainda na Idade Média, e cuja coragem o fez ser conhecido de tal maneira. Aqui, deixarei que guie o leitor em sua empreitada e quando for necessário, farei minhas interferências.

"No século XIV, escoceses e ingleses ensopavam de sangue os solos de seus respectivos domínios, fosse de seu inimigo ou de seu conterrâneo. Não por isso, até nos dias de hoje, mesmo no século XXI, permanecem 'perdidos' os espectros de tais sujeitos.

Meu nome era Malcomn. Fui um guerreiro cavaleiresco que defendia os ideais cristãos acima de tudo e salvava as donzelas do perigo. Em minha infância, fui o pagem de um nobre senhor da ilha de Skye. Quando este morreu, me entregou ao encargo de seu filho, o herdeiro, a fim de que pudesse ser treinado como escudeiro. O bom homem, cerca de dez anos mais velho que eu, aceitou-me em seu serviço e também em sua família. No decorrer da minha juventude, fui seu escudeiro fiel, encarregado de auxiliá-lo quando preciso e agir como bom cavaleiro.

Eventualmente, deixamos a ilha para seguir a Stirling a fim de posteriormente nos estabelecermos em Edimburgo, visto que meu senhor estava prometido a uma donzela da casa reminiscente de Dunkeld, segundo constava à época. Quando em vida, quem reinava era algum rei da casa de Robert the Bruce. Bem, nunca me ocorreu me informar nos aspectos políticos, ao menos nestes jogos entre reis. Era apenas mais um de seus peões, de todo modo, e quem se preocupava com homens comuns?

Assim sendo, fui recebido pela minha senhoria e treinado em aspectos militares sem, com isso, negligenciar minha educação cristã. Todavia, como informei anteriormente, acompanhava meu senhor para seu casamento quando fomos pegos em uma emboscada que, infelizmente, poucos de sua comitiva sobreviveram. Eu fui um deles. Lamentei-me terrivelmente pela morte de meu senhor, e carreguei a culpa de tê-lo falhado.

Por anos a fio, fui um cavaleiro errante. Não sabia para onde seguir ou o que deveria ser de mim, mas carregava a consciência de fazer o que podia diante da situação. Salvei donzelas, recusei seu dinheiro, defendi os mais pobres e até mesmo uns monges da Igreja quiseram me ter a seu serviço. Para sobreviver, assim aquiesci. Nesta época, estava longe dos conflitos que sangravam a capital e, a despeito de meus traumas, procurava me despir dos mesmos. Um belo dia, um dos monges chamado Patrick veio a mim.

O cenário era tão bonito quanto poderiam visualizar: montanhas cobertas de neve, mas ensopadas de lama e com um verde que atravessava os extremos, eram cortadas por pequenos morros e, não muito longe dali, lagos e lagoas acrescentavam ao ambiente um ar bucólico que, não raro, me deixavam melancólico. Foi sentado em frente a uma lagoa azul congelada que o velho Patrick, de cabeça tonsurada e em vestes marrons, se aproximou.

"O senhor quase não fala. Como pensamos que tivesse adotado um voto de silêncio, não pedimos nada que não fosse sua espada. Pagamos pelo serviço porque tem sido justo e agido como um bom cristão tanto conosco quanto com o vilarejo que de nós depende." Ele falou e eu me vi forçado a encarar seus bondosos olhos azuis, as sobrancelhas grossas que se arqueavam enquanto se expressava, a barba que pouco cobria o rosto e o sorriso amarelado e um pouco enegrecido que se espalhava com tanta gentileza que emanava de si uma simplicidade difícil de recusar. "No entanto, sinto em meu piedoso coração de que algo o corrói por dentro e o deixa assim como é. Nunca o cobrei e não pretendo mudar agora, vim apenas oferecer o ouvido aos que dele precisam."

Soltei um longo suspiro. Era verdade que nunca me pediram nada, nem sequer o meu nome. Foi assim, mesmo com os monges fofoqueiros tentando arrancar algo de mim, o monge Patrick os espantava como moscas e me defendia. Não esperava nada em troca e isso me tocou o coração. Enfim, falei.

"Seria ingrato se não atendesse seu pedido tão simples, monsenhor", eu respondi e ofereci a ele um sorriso. Senti quase uma dor nas minhas bochechas ao fazê-lo, porém: fazia quase cinco anos desde que sofri aquela emboscada e desde então falei pouco e menos ainda interagi, sorri ou sequer ri. Preso ao luto, estava. "Meu nome é Malcomn."

O monge sorriu com tanta felicidade como se eu fosse o próprio Jesus em Terra. Ruborizei diante daquele calor vindo do homem, pois o último que me recebera daquela forma e me tratara como um filho havia muito partido deste mundo.

"Malcomn, permita-me apresentar de novo." Ele ofereceu sua mão e eu a peguei para sacudi-la. "Meu nome é Patrick. Sou um monge franciscano, isto é, sigo a ordem de São Francisco de Assis. Fiz meus votos de pobreza aos quinze anos e desde então venho me esforçando para servir tão humildemente como possível, a despeito de mim mesmo."

Era estranho, eu pensava na época, como havia sentido falta do contato humano. De conversar, interagir e até mesmo ouvir os outros contarem-me suas histórias. Sorri e senti que o pesado véu do luto começou a se dissolver.

"É um prazer conhecê-lo, senhor Patrick. Perdoe-me a vã curiosidade, mas acaso monsenhor veio da Irlanda?"

Ele riu e eu descobri que senti falta de rir também. Acompanhei-o.

"Tudo bem, meu caro. Assumo que a vã curiosidade recaia com mais rigor sobre aqueles que fizeram um voto contra ela do que aqueles que por ela buscam com algum objetivo." O monge me deu uma piscadela e seu bom humor me contagiou. "Não sou irlandês, temo desapontá-lo, mas digo por não ter nascido lá. Minha pobre mãe, se minha memória não falha, era filha de um. Não está de todo errado por me associar ao São Patrick, embora ele seja mais santo do que eu. Mas não estou aqui para falar de mim. Isso que está fazendo não funcionará."

Eu ri e, movido por uma sensação estranha, decidi expor aquilo que, por anos, tentei esconder. Cocei minha barbicha ruiva e falei:

"Não me recordo muito bem da minha infância, de modo que sequer lembro dos rostos de minha mãe ou meu pai. Fui basicamente adotado por uma família nobre de Skye. Foram tempos felizes, sabe? Servi a sua senhoria com o melhor de mim e ele me recompensou abraçando-me a sua família: fui educado ao lado de seus filhos, eram todos homens. Seus nomes eram Richard, James e Tyler. Fomos bons companheiros de armas, inclusive. No entanto, o velho infelizmente foi chamado a partir para o mundo. Seu primogênito, Richard, tornou-se o novo senhor em seu lugar e me promoveu a escudeiro e, não obstante, me recompensou fazendo-me cavaleiro."

"Ah." Disse o velho, pensativo. "Uma boa história de cavalaria."

Ri, mas meu riso soou mais amargo conforme avançava na história.

"Conforme Richard atingia a idade adulta, era próprio que desposasse uma moça de bons modos, boa linhagem e tudo mais que uma mulher aristocrática deva ter para ser considerada uma esposa adequada." Dei de ombros. "Ele tomaria como noiva, depois de várias escolhas, uma jovem de uma casa nobre, segundo diziam descender dos velhos Dunkelds. Vai lá saber. Bem, eu o acompanhei ao lado dos dois irmãos, afinal, éramos inseparáveis, mas isso foi uma estupidez."

Franzi o cenho, o rancor, como um perigoso e escuro veneno, bombardeando meu coração com uma dor que, não importasse quantas coisas boas fizesse, nada apagaria a dor que mexia comigo mesmo burro velho. O monge, porém, era mais piedoso que eu mesmo e pôs uma mão sobre meu ombro e falou:

"Não devemos questionar a vontade de Deus. Se seus irmãos partiram, foi porque foram chamados."

Apesar de tudo, nunca senti raiva do Pai Maior por isso. Era ignorante, mas minha fé nunca se abalou, disso posso afirmar sem titubear.

"Sim, monsenhor. Mas a tristeza foi profunda e eu me senti culpado por muitos anos. Fomos quase todos massacrados e eu desejei ter ido com eles."

"E, no entanto, quantas vidas salvou depois disso?" Inquiriu o sábio monge.

Desanimado, dei de ombros.

"Não contei", admiti.

Mas ele sorria, sempre otimista.

"Isto só demonstra a fortaleza do seu caráter, meu caro amigo. Há humildade e bondade em você, mas precisa se desprender deste rancor, deste apego. Tudo nesta vida é passageiro, não vê? Por pior que tenha sido aquela perda, se tivesse os acompanhado, as donzelas que salvou teriam sido corrompidas, os mendigos que protegeu teriam sofrido nas mãos dos poderosos, os ricos abusariam dos pobres e tudo o que fez... Desfeito teria sido? Há bondade no caminho que vem trilhando e, no entanto, prefere olhar para a escuridão que o acompanha?"

Cocei a barbicha, reflexivo.

"Não pensei nisso", eu falei e senti a vergonha trair minha voz.

Novamente, porém, o monge falou como um santo:

"Não há vergonha em admitir os erros pretéritos nem em ter escolhido permanecer neles. Sua fé é o que o guia. Sê corajoso e deixe-a guiar por dentro também. Por que duvida de si mesmo, meu filho?"

"Não sou merecedor do perdão divino", eu falei, carrancudo. "Falhei com meus irmãos tanto quanto falhei com Deus."

O monge Patrick era, na verdade, a reencarnação de outrora rei santo que não me cabe dizer quem havia sido. Por isso falava como um. Mas, à época, não sabia e nem teria como saber. Ele somente pegou na minha mão e, olhando dentro dos meus olhos, falou:

"O problema de nós, homens, é a audacidade que possuímos em transferir nossos problemas, nossas faltas ao Grande Pai. Por que Ele se incomodaria em nos castigar, em nos enviar ao inferno se nosso sofrimento também o aflige? Ele enviou Jesus, nosso irmão, à cruz para salvar a humanidade. Que outro Pai faria isso para ensinar o amor? E Jesus aceitou a missão sem pensar em si. Ele sofreu, mas sobrepujou tal sofrimento. O Pai, o Filho e o Espírito Santo nos amam incondicionalmente. Estão conosco em nossas vidas, em nossos corações. Não exigem de nós a perfeição, apenas que façamos o bem, praticamos o bem e a caridade. Amai uns aos outros..."

"Como amai a si mesmo." Completei e ambos sorrimos com isso.

"Sei que está despedaçado, meu filho. Ouvi outros irmãos comentarem a respeito, e não me olhe assim porque isso está suficientemente claro em seu semblante." Disse-me o monge com um quê de reprimenda que não pude deixar de rir. "O que eu quero dizer é que Deus o trouxe aqui, e ainda perto das montanhas, para que seja curado. Permita-se. Sei que muitos daqui gostariam que se tornasse monge, mas não pediria isso de você, meu filho. Ah, sei que se pergunta e diga-me que o responda: sua vocação está na belicosidade. Em tempos assim, ela será necessária."

Suas palavras tocaram o âmago de meu coração, de minha alma, e eu me permiti chorar. Ele não me julgou, como sabia que ele não me julgaria, ao contrário, apenas me abraçou quando precisei e me confortou. Finalmente, estive em paz. Ao longo dos próximos dias, rezei e continuei com meu dever, mas algo me chamava para Edimburgo. Um dia, confessei isso ao monge que me olhou e disse:

"Sabe que não regressará de lá?"

Um arrepio percorreu minha espinha, mas eu assumi que já soubesse isso antes. No entanto, hesitei. E percebendo isso, o monsenhor Patrick disse:

"Filho, temer a morte você não deve. Coragem, ao contrário, procura ter. Ainda que fugisse de Edimburgo, outro destino tão perigoso quanto lá o chamaria porque este é seu dever. Um cavaleiro não foge de seu dever nem da fé que o leva ao cumprimento deste."

"Às vezes, temo..." falei, mas não consegui completar a frase.

"O medo é a expressão mais racional do homem", disse-me o sábio monge. "Mas a fé é o alimento espiritual de que precisa. Sem a fé, o medo não é mais a cautela, mas faz a mente tomar conta do corpo e daí em diante... só ladeira abaixo."

"Não pretendo ser um covarde", me defendi.

Mas o monge riu.

"Longe de mim fazer tamanha desfeita de sua honra, filho. O que eu quero dizer é que se tem medo de algo que aconteça com você no caminho ao sul, não tema. A fé é de que precisa, e não o excesso de cautela. Não estou aconselhando-o a ser imprudente, porém." Ele alertou. "Sê sábio. No final das contas, somente você saberá o que for melhor a você."

"Desejo seguir a Cristo, minha espada é Dele."

O monsenhor Patrick me sorriu.

"Eu sei, Filho. Ele o abençoa, tenho certeza de que sim." [Nota de Ogum: Patrick era, como Malcomn vos informou, o espírito de um rei santo. Na posterioridade, tornou-se guia espiritual desta entidade. Disso falaremos mais à frente, mas adianto que ambos reencarnaram com o propósito de adiantamento, embora se para um era uma missão, ao outro cabia a expiação. E tamanho era o avanço espiritual de Patrick que sua clarividência era extraordinária. É lamentável que seus feitos tenham sido esquecidos, mas foi conforme pedira. De todo modo, sim, Jesus esteve ao lado dele naquele instante.]

"Seu coração é puro", disse-me Patrick, "mas há ainda que se libertar destas agarras que o prende. Quando descobrir que a dor é ilusão e que você é o senhor de seu corpo e não o contrário, terá se tornado um ilustre espírito, talvez até mesmo como São Jorge um dia o fora em vida."

"O senhor é muito bondoso" eu falei, emocionado. E me ajoelhei diante daquele venerável homem. "Com sua permissão, rogo pela proteção divina de São Jorge, de Jesus Cristo e seus 12 apóstolos, entregando meu coração a São Francisco de Assis e pedindo sabedoria a Santo Antônio de Pádua."

Monsenhor Patrick pareceu sinceramente emocionado quando pronunciei aquelas palavras, que eram, de fato, o tambor de meu coração. Ele pôs sua mão sobre minha cabeça, fechei os olhos e foi como se uma grande luz me inundasse o espírito. Senti-me bem, e mentalmente fiz uma prece em agradecimento aos santos que mencionei, tendo me afeicionado bastante à ordem franciscana. Um dia, pensei, se sobrevivesse ao que quer que Deus me reservasse, eu aposentaria minha espada e faria os votos. Contudo, diante de tal pensamento formou-se um conflito: seria eu capaz de relegar a espada e fugir às batalhas para servir em silêncio a Deus?

Por ora, deixei de lado aquelas inquietações. No mesmo dia, parti e, como o monsenhor Patrick previu, eu não regressaria mais aquele lugar. Abandonei o conforto e a pobreza, os humildes a quem servi, para oferecer minha espada a quem dela precisasse. E, logo, ela seria necessitada... Para Edimburgo, voltaria e, desta vez, sem interrupções no meu alcance.
*                                                                                 *                                                                        *
Em Edimburgo, havia vários lordes, senhores de terra e ricos sobremaneira que, se assim desejassem, poderiam alimentar os necessitados. Tal foi a impressão que eu, mentalmente, reprovava, embora devesse ter sido mais humilde na ocasião e me abster de fazer julgamentos. No entanto, eu era falho como continuo a ser.

De todo modo, um dos duques de sobrenome Douglas me convocou a seu serviço. Era um senhor robusto e, assim como eu, tinha cabelos ruivos. No entanto, por ter se acostumado com a opulência da aristocracia, não era o mais adequado a servir em batalha. Mas me prometeu uma boa quantia de ouro se lutasse em seu nome a serviço do rei contra os malditos ingleses, segundo disse com aquelas exatas palavras.

"Aceito de bom grado servi-lo, senhor, se puder me oferecer um lugar para ficar, alimento e bebida." Foi só o que desejei.

O senhor Douglas riu em deleite.

"Ah, caro rapaz! Se soubessem o que me é pedido diariamente... Isto eu concedo de bom grado!"

Embora arrogante, aquele era um lorde de bom coração, eu percebi. Deixou-me hospedar em seu castelo e permanecer em sua corte. No início, confesso, me deslumbrei com as paredes de pedra, as moças em seus vestidos longos de tecido cetim, suas peles de porcelana ricamente enfeitadas com pérolas ou diamantes, enquanto músicas eram tocadas pelos dedos mais habilidosos que um homem como Douglas poderia comprar. Na verdade, a música era para mim muito cara. Os sons que saíam do alaúde, da lira e da flauta tocavam minha alma. Suponho que isso se deva por ter sido um músico e um poeta gregos em vidas pregressas.

Ainda assim, quando uma mulher era designada a emprestar sua voz para a doce melodia que vinha de tais instrumentos, eu me via perdido nela e percebi que ali estava minha felicidade. Poderia parecer estranho um homem constantemente vestido em malha (pois sim, o tal lorde fez questão de me vestir adequadamente já que eu o lutaria por seu nome e ele não desejava ter a reputação de contratar cavaleiros errantes. Deveria eu parecer como um cavaleiro nobre e enriquecido, mesmo que tais qualidades fossem inventadas) apreciar a música quando tantos outros preferiam o gosto da cerveja. No entanto, minha sensibilidade atraiu a curiosidade de uma bela jovem... e nela veio a minha perdição.

Mariam era uma das filhas ilegítimas deste lorde, mas não saberia naquele momento porque, a bem da verdade, não prestava atenção nas moças. Interessava-me ajudar e salvar as donzelas, mas conquistar e consumar o amor que algumas delas dirigiam a mim, isso eu recusava por ser pouco cavaleiresco de minha parte. De modo que fui pego de surpresa quando ela se aproximou de mim com um sorriso maroto brincando nos lábios, embora isso não se refletisse nos belos olhos azuis com os quais me fitava. Seus cabelos eram de um ruivo bastante escuro e na ocasião estavam presos em duas longas tranças. Usava em seu corpo um vestido azul veludo que combinava, se não ressaltava, os olhos com os quais me encarava.

"O senhor é diferente", ela comentou. "Não tenho o costume de ver cavaleiros apreciando o amor cortês."

"Talvez não sejam cavaleiros verdadeiros", eu disse sem saber o que responder.

Mariam riu.

"Ora, mas o que dizer disso? Vejo um cavaleiro casto diante de mim ou outro sedutor?"

Franzi o cenho diante daquela ofensa.

"Mas, ora, senhora! Espero não me confundir com qualquer patife que pensa ter se familiarizado."

Ela riu de mim outra vez e senti meu rosto queimar sob o elmo que usava sobre a cabeça. O peso com o qual aquele material fazia pressão sobre minha cabeça deixou havia muito de ser um tormento. Na verdade, era um acessório muito caro a mim.

"Patife? Perdoe-me meu mau julgamento." Ela se desculpou, embora tenha percebido um tom de divertimento. "Há homens que usurpam o verdadeiro valor da cavalaria e dizem que tais ideais morreram com os últimos templários."

"Soube deles. Trágico fim tiveram aqueles homens." Foi tudo o que consegui murmurar. Minha educação havia se centrado mais no militar do que na erudição, mas mesmo assim meus irmãos de armas, aqueles que citei no início, fizeram questão me instruir na arte da cavalaria. Sendo assim, soube da ordem dos cavaleiros templários e como seu valor sofreu um golpe perigoso do rei francês, Philippe IV. Não importasse se eram mau vistos atualmente, eu ainda os idolatrava e ansiava em copiar seus maneirismos.

"De fato", ela concordou seriamente. "Embora os escoceses sejam aliados dos franceses, aquele seu rei era um homem tão cruel quanto aquele que enfrentaremos em breve. Está aqui a lutar por meu pai contra o rei inglês?"

Surpreendi-me com a erudição e me senti um tolo por fazer ideia de que mulheres em si não eram tão educadas quanto os homens. Um preconceito de época, se for possível escusar-me por isso.

"Sim", eu me ouvi dizendo, sem nem saber, para minha vergonha, do que se tratava aquela guerra.

Mas Mariam era esperta e logo ela entendeu. Sem fazer qualquer julgamento de valor, ela disse:

"Sinto que o senhor não tenha sido instruído o suficiente nestes assuntos. Não estou o julgando", ela se apressou em corrigir, provavelmente por ter visto em mim algum resquício de orgulho transparecer em meu semblante. "E não se culpe, pois a diplomacia cabe somente aos homens das mais altas posições. Na verdade, nem o senhor meu pai sabe do que se trata esta guerra afinal. Ao que parece, o rei Edward está insatisfeito com a condução dos negócios de nosso reino."

Ela soltou uma gargalhada debochada, mas entendi o motivo disto. Nós, escoceses, atraíamos constantemente a cólera dos ingleses e por causa disto, tornamo-nos inimigos uns dos outros. A ânsia em nos dominar e a dificuldade em nos conquistar e subjugar ao seu poderio nos fez angariar a imagem de povo selvagem e rebelde. Mas nós tampouco éramos santos e desprovidos da culpa do negócio. Não raro instigávamos a guerra também, e no final das contas, o errado e o certo não se aplicavam a nenhum dos lados. Mas lutaria pelo que eu conhecia, e era a Escócia que amava e defenderia, por isso, de repente ponderei, seria uma causa pela qual valeria morrer.

"Os ingleses são deveras ambiciosos para seu próprio bem", eu contemplei.

Mariam deu de ombros.

"Provavelmente. Acham-se no direito de se chamar conquistadores, mas são insignificantes." De repente, ela deu de ombros e sorriu. Era um sorriso encantador. "Mas chega disso. Como devo chamá-lo, bondoso senhor?"

"Malcomn." Apresentei-me, sem oferecer mais informações, embora sob seu olhar indagador me sentisse tentado a fazê-lo.

"Mariam, este é meu nome." Ela sorriu de novo e eu assenti com a cabeça. "Seu sotaque me diz que não é daqui."

Como ela havia sido a única pessoa a ser cordial comigo, pensei que não seria cavaleiresco tratá-la de maneira incivilizada. Frieza não era o que um cavaleiro deveria ser. Assim sendo, contei a ela de minhas origens, longe de serem nobres como ressaltei. Mas Mariam não se importou.

"Sou uma bastarda", ela me confidenciou entre risos. "De nobre, só tenho o sangue como o meu pai costuma dizer. Mas não me importo com o que ele diga."

Arqueei as sobrancelhas diante disso.

"É por isso que carrega ressentimento com seu pai?"

Mariam franziu as sobrancelhas e percebi que falei algo errado, mas antes que pudesse me desculpar pelo comportamento inapropriado, ela suavizou e disse:

"O senhor é deveras sincero para um cavaleiro. Talvez a cavalaria templariana não houvesse sido corrompida afinal de contas". Ela me concedeu um sorriso, e deu um risinho quando enrubesci. "Talvez. Ele me legitimou, de certa forma, me reconheceu como sua filha e me trouxe ao castelo. No entanto, sua esposa e duas de suas filhas me desprezam. Sancha me detesta, mas sei que é porque chegou aos seus ouvidos que os poetas oferecem homenagens a mim e não a ela."

Ela riu, mas eu via para além de sua risada. Era uma mulher petulante e impiedosa, eu pensei comigo mesmo. Orgulhosa, vaidosa, mas tão sensível quanto qualquer outra de seu sexo e posição poderiam ser. Tais defeitos foram forçados a serem utilizados como defesa e eu me perguntei a que tipo de humilhação ela passou para agir daquele jeito.

Antes da grande batalha, ainda me demorei mais na corte e notei que o pai a tolerava, mas, no fundo, era Mariam sua favorita. Não obstante, era forçado a ouvir a esposa ladrar sobre a menina ilegítima porque, como foi me dito, os poetas não temiam em louvar a beleza de Mariam sobre as suas irmãs legítimas. Isso era intolerável para a madrasta que falhou em conceber ao esposo um herdeiro. No fim das contas, compreendi a solidão de Mariam e era por isso que nós nos aproximamos.

Éramos dois solitários, no final das contas, que encontraram conforto na companhia um do outro. Nos dois meses antes da guerra, de fato me familiarizei com outros homens, ninguém havia sido tão próximo de mim quanto Mariam e o monsenhor Patrick, embora em aspectos diferentes.

"O senhor deveria ser um poeta", disse-me Mariam uma vez. "Fala tão bem quanto domina sua espada."

Enrubesci novamente e ela sorriu. Mariam costumava dizer que adorava me ver corar, pois assim sabia que eu era "de verdade" e não um produto imaginário de contos arturianos.

"Acho que a senhora está sendo bondosa deveras comigo e não sou merecedor dela", repliquei, ganhando um revirar de olhos em resposta.

"Não está sendo humilde, apenas tímido", ela implicou, arrancando de mim um sorriso. "Me conte mais das ilhas de Skye. Gostaria de tomar um bote e subir os rios lá."

"É mesmo?" Eu me surpreendi ao ouvir aquilo. "Pensei que a senhora adorava a corte."

Novamente, ela revirou os olhos.

"O senhor me conhece bem. Não pode estar falando sério. Eu amo a música e usufruo de um privilégio que tenho certeza de que muitas garotas por aí gostariam de ter. No entanto, como acha que é viver em um ambiente onde é detestada pelas meias-irmãs e que a madrasta já expressou a vontade de ver sua querida enteada morte pelo simples fato de ser ilegítima?" Embora sua fala carregasse dor, dizia com tranquilidade. "O que me incomoda é como um ser daqueles pode se dizer cristão. Minha madrasta reza todos os dias, frequenta as missas, mas é tão arrogante e mesquinha... Não à toa meu pai procurou prazer fora do casamento. E continua procurando!"

Por mais doloroso que fosse ouvir sua dor, me apreciava saber que conquistara sua confiança e era visto como merecedor dela. Não desejava que fosse triste. E por isso tentava passar a ela o que o monsenhor Patrick me ensinou. Um dia conversávamos sobre perdão e, diante do que falei a respeito, ela ponderou e admitiu:

"Tenho dificuldades em perdoar, principalmente aos que vestem a hipocrisia. Isso me dói muito. Sou sensível, por mais que me custa esconder isso."

Inesperadamente, tomei a mão dela na minha e a segurei. O gesto me surpreendeu, mas ela apreciou. Aquele toque era significativo.

"Eu sei que é", disse eu. "Duas almas sensíveis e cá estamos."

Foi minha a vez de vê-la enrubescer e a cena ainda hoje me fez sorrir. Um olhar baixo que, quase hesitantemente, subiu encontrou-se ao meu e dali, soubemos instantaneamente que éramos mais do que amigos. Foi ali que a ela dei meu coração, e ela me deu o seu.
*                                                                            *                                                                                *
A despeito da aproximação da grande e inevitável batalha, e com ela, o mau pressentimento que me cercava, decidi arriscar e pedi a mão de Mariam ao pai. O lorde fingiu surpresa, já que ele me via acompanhar a filha constantemente em passeios nos jardins e uma vez mesmo ouvi-a dizer o quanto ela me tinha em sua alta estima. No entanto, ele hesitou e eu compreendi por que: não era um nobre, nem tinha possessões que me fizessem um partido adequado à Mariam. E depender dele, eu percebi, custava meu orgulho. Apesar disso, ele prometeu que pensaria e se eu provasse meu valor na guerra, receberia a mão de Mariam. Embora tal acordo não tenha sido tão agradável quanto pudesse parecer, ele fingiu não perceber que a cortejava abertamente, para o horror de sua segunda esposa e as filhas não herdariam seu condado.

Mas Mariam e eu não pensávamos no depois, nem no antes, apenas no momento vivido. As auroras fizeram parte de nossa rotina diária. Trocávamos confidências, víamos o sol nascer, falávamos de poesia e mesmo de políticas, mas não mencionávamos o amor... Ainda que o sentimento estivesse presente em cada olhar e sorriso, em cada gesto e ação.

No entanto, o dia fatídico eventualmente chegou. Às vésperas, Mariam me procurou. Era tarde da noite, e a corte estava vazia, salvo, talvez, por uns beberrões. Usava um linho de roupa e me preparava para deitar tendo feito minhas preces quando ouvi a porta se aberta abruptamente. Antes de pensar em pegar a espada, Mariam estava diante de mim usando um camisolão e com os longos cabelos ruivos soltos. Em seus olhos, a dor.

"Não desejo me despedir." Foi o que disse.

"Não é realmente uma partida, senhora. Sabe que regressarei e a desposarei." Mas tais palavras, ainda que pronunciadas por mim, não me inspiraram confiança aos meus ouvidos Na verdade, não contei a ela que vinha carregando sensações estranhas de que tudo via pela última vez. Em sonhos, meus outrora irmãos de armas apareciam em trajes brancos e iluminados por uma luz que não identificava. Na noite mais recente, teria visto até mesmo o monsenhor Patrick em seus trajes de monge, embora me parecesse mais guerreiro que santo ao me inspirar palavras de coragem. Ainda me recordo de ter me dito que estaria em suas preces.

"Não acredito nisso", ela retrucou, "e nem você.".

Ela se virou e, por um segundo, temi que fosse partir, mas ela trancou a porta. Veio a mim, e eu percebi que ruborizava diante de suas intenções.

"Senhora..."

Mas antes de me repreender por agir como um tolo templário, como ela passou a me apelidar, ela cortou uma mecha de seus cabelos ruivos cheios de vida e colocou-o em um vidrinho. Em seguida, o pôs em um dos bolsos que, descobri, ela tinha costurado com este propósito. Embasbacado, não sabia o que dizer. Era terrível em me expressar, e a tristeza daquele momento sufocou-me por instantes.

Quando Mariam voltou a mim, eu ainda estava parado e me perguntando, em meu íntimo, o que seria daquele espírito sensível e intenso sem mim. Pois percebi de súbito que minha presença, de certa maneira, a havia escudado das maldades alheias da corte. Sussurravam pelas nossas costas, era verdade, mas deveria ter algum motivo para não fazê-lo em nossa frente. E me preocupava que não estaria ali para apaziguar as violentas paixões sob as quais Mariam dançava tão bem.

"Não fale nada." Ela retrucou e depositou um beijo em meus lábios. Tinham o doce gosto do hidromel. "Seremos esposos de hoje em diante."

Sorri perante sua determinação.

"Lamentavelmente eu não carrego comigo nenhum anel."

Mas, como de costume, Mariam tinha dois anéis de ouro consigo. Para meu espanto, eram uma relíquia aquelas joias. Exclamei, mas ela riu de mim e procurou minhas mãos. Prontamente as segurei e disse:

"Senhora, espero que não tenha..."

"Não roubei, seu tolo templário", ela silvou impaciente. "Meu pai nos deu de presente."

"Mas ele..."

"Acha que eu mentiria?" ela me desafiou. E eu soube que éramos esposos, de fato.

Sorri e falei:

"Permita-me, senhora. Tomarei as rédeas da situação".  E ela riu como uma garotinha quando ajoelhei-me diante dela, e com um dos anéis em uma mão, falei: "Terei a honra de tomar como esposa a senhora Mariam Douglas?"

Mariam riu, e era um som enternecedor, que muito tocou meu coração. Ela exclamou afirmativamente e eu deslizei o dedo em seu dedo enquanto ela fazia o mesmo no meu. Enfim, nos beijamos! E era o deleite que fê-me olvidar o mundo violento do qual faria parte, afastando de mim os temores que me cercavam. Tal qual um enfermo é permitido aproveitar os poucos momentos de saúde para despedir-se dos amados, assim o era comigo, que, na ignorância da carne, não desconfiava do amanhã;

Tomado por uma súbita urgência, a puxei para mim. Abracei seu corpo enquanto beijávamos com intensa paixão. Nossos espíritos se comunicavam enquanto roupas eram jogadas ao chão, e o fogo da lareira parecia um calor distante em comparação. Amei-a aquela noite e sequer me permiti dormir. Embalei-a contra meu corpo e nada soou tão belo e suave quanto a reação de seu corpo contra o meu, e a maneira com a qual ela professava seu amor.

"Eu a amo, lady Mariam." Eu sussurrei contra sua pele, beijando seu pescoço, suas bochechas, seus lábios. "Nunca se esqueça disso."

Mariam aconchegou-se contra o corpo e disse, com um sorriso brincando em seus lábios.

"Eu o amei desde o momento em que o vi, Sir Malcomn. Lembre-se de que terá uma senhora a aguardá-lo toda vez que partir."

Sorri diante daquela expectativa e me permiti sonhar ilusões que, em breve, seriam destroçados pelo aço de uma espada.

"E lembre-se de que proverá uma família grande e saudável. Envelheceremos juntos na certeza de termos cumprido com os nossos deveres."

Mariam riu, e tornou a virar-se para mim novamente, contemplando meu rosto, acariciando-o e sentindo a barba ruiva roçar contra sua delicada mão.

"Já disse que o amo?"

"Não me canso de ouvir tanto quanto dizer", respondi amorosamente. "Amo-a, Lady Mariam."

"E eu o amo, Sir Malcomn. Não me deixe só neste mundo."

"Jamais", prometi. "Pois tenho uma senhora que está me esperando."

Ela sorriu, satisfeita. Ao nascer do sol, adormecemos.

*                                                                                  *                                                                         *
Carregava comigo, além do essencial para um cavaleiro, montado em um belo cavalo negro com manchas brancas de excelente pelugem, o anel de promessa de Mariam e seu cacho de cabelo ruivo. Mal havia quebrado o jejum quando ouvimos um berrante de guerra convocar a todos nós. A despedida havia sido breve, e eu ainda guardava em minha memória seu sorriso doce e suas palavras encorajadoras, mas a tristeza em seu olhar somente confirmava um temor de que não nos veríamos mais. Contudo, não admitiríamos esta possibilidade.

"Promete a mim que regressará são e salvo". Ela disse e seu orgulho vacilou quando acrescentou: "Espero termos feito um bebê à noite passada. O primeiro de muitos."

Tomei sua mão aos lábios e sorri:

"Se for um menino, dê a ele meu nome."

"Você estará aqui para fazer isso." Mariam me repreendeu. "Promete que regressará?"

"Prometo." Falei, e, no entanto, não me senti convencido. Ela tampouco, mas não havia tempo para isso.

"Estarei o esperando!" Exclamou Mariam.

"Voltarei a minha senhora!" Exclamei de volta.

E, assim, parti. Era nisso que pensava quando cavalgava em silêncio. Um de meus companheiros, um homem chamado James, falou:

"Estão todos comentando a seu respeito e a da filha de sua senhoria. É verdade que estão prometidos?"

Sorri a James. Era um rapaz como eu, de origens obscuras, mas que adotou a cavalaria como honra. [Nota de Ogum: ambos foram templários que morreram queimados na França de Philippe IV em vida pregressa, por isso este retorno e porque Malcomn comportava-se daquela forma.] Normalmente, nos dávamos bem e era com ele que eu gostava de treinar quando os deveres se interpunham entre Mariam e eu. Sendo assim, nele eu confiava.

"Sim." Confirmei. "O senhor Douglas prometeu que a desposaria se provasse meu valor nesta guerra e voltasse à casa vivo."

Um tremor passou pelo meu corpo quando disse aquilo, mas ignorei o prenúncio da morte. James assentiu.

"O senhor merece mais do que ninguém. Mas, perdoe-me, o senhor pretende regressar à Skye?"

"Creio que sim." Hesitei. "Não pensei nisso, na verdade. Por que a pergunta?"

James me deu um de seus sorrisos que costumava dar quando ambos éramos abatidos por algum tipo de pessimismo, seja pelas péssimas perspectivas de guerra, peste, etc. Ele sempre tinha alguma resposta na língua para animar a moral.

"Gostaria de oferecer minha espada ao senhor e à dama Mariam, se me considerar digno desta tarefa."

Eu ri em deleite. Mal parecia que rumava à guerra com aquele ar otimista de meu caro companheiro e da perspectiva de um futuro agradável quando retomasse dela.

"É claro, meu bom amigo James! Sou honrado por este serviço seu, saiba que será muito recompensado."

Infelizmente, porém, nada daquilo se concretizaria. Embora fizéssemos parte da cavalaria, não estávamos na primeira fila, ao lado do rei ou de seus homens confiáveis e, pensava eu, honráveis. Sequer permanecia ao lado dos pagens. Não que isso importasse. Eu era apenas um dos muitos que iam à batalha pela primeira vez. Ouvíamos o tambor. Ajeitei o elmo, fiz minhas preces e entreguei minha vida à Deus. Ali, olhando a fúria do inimigo, mesmo em tal longe fileira, eu reconheci que não voltaria. James também pressentiu o mesmo, pois me encarou alguns segundos antes do rei dar início ao encontro mortal e disse:

"Que Deus, São Jorge e os 12 apóstolos o acompanhem, meu caro amigo e irmão! Foi um prazer servir ao seu lado."

"Digo o mesmo, meu irmão! Que São Jorge o abençoe e guarde e que os 12 apóstolos o protejam. Serviremos à Maria, e que a Mãe nos guarde!"

"Amém" disse ele, e ouvi uns outros companheiros murmurarem o mesmo. Repeti, fiz o sinal da cruz, e quando o tambor cessou, o súbito silêncio a que se seguiu foi instantaneamente quebrado pelo grito furioso dos homens que desembainhavam suas espadas e, seguidos pelos pobres camponeses, lutavam uma luta desconhecida.

"Pela Escócia!" Gritou o rei.

"Pela Escócia!" e meu grito ecoou junto aos de outros tantos homens.

Puxei as rédeas do cavalo, dei um chute gentil e com uma espada na mão, corri entre os homens. De repente, quando dei por mim, estava em um emaranhado de guerreiros, todos eles lutando bravamente pelo que acreditavam. O ar se tornou pesado e abafado, a morte espreitava. Não havia espaço em nossas mentes para ponderar nada que não houvéssemos sido ensinados na arte da belicosidade. Constatei, tarde demais, que não gostava de tirar a vida do outro. Mesmo o inglês que vinha me cumprimentar com ódio nos olhos e sangue na ponta da espada, era meu irmão. E lamentei profundamente por vê-lo cair.

Mas minha espada era a de Cristo, pensei. Por ele lutarei, pela liberdade dos nossos irmãos escravizados. Pela liberdade dos leões escoceses, da pureza que nosso unicórnio começava a ser desenhado. Pela independência!

Aço contra aço, senti o pânico desnortear meu cavalo e lágrimas verteram de meus olhos ao pensar em seu sofrimento. Que Deus me ajude, eu rezei. Eu tenho uma senhora esperando por mim.

Mas os ingleses eram implacáveis, cruéis e mais experientes em batalha. Seu rei os guiava bem. O nosso, distante de mim que poderia estar, pouca coragem inspirava. Mas não havia tempo para criticar sua incapacidade militar. E nem mesmo me preocupava com isso. De repente, era sobre sobrevivência, mas será que existiria isso?

Foi tudo rápido demais. Escorreguei do cavalo e soube que era o fim. Gritos de homens e cavalos misturavam-se ao cheiro sufocante de suor, mijo e sangue. Sabe-se lá o que mais. A atmosfera era pesada, densa demais. A energia era desnorteante. E, quando percebi, uma espada cessou meu sofrimento. Seu aço trespassou minha cota de malha e eu arfava, lutando para respirar. Suor pingava de meu rosto e elmo agora amassava contra minha cabeça. Estava tonto, perdia sangue e era pisoteado. Alguém percebeu que, embora caído, vivia. Um inglês, eu pressentia. Ouvi a mim mesmo pedir misericórdia. Não a viver, eu sabia, mas a morrer rápido. Aquele inglês de cabelos ruivos e olhos azuis penetrantes me encarou e disse:

"Sinto muito. Seu perdão, senhor."

"Concedo-o, senhor." Falei com o restante da força que tinha, e me ouvi surpreso com aquela pequena troca de palavras antes que o inglês se ajoelhasse e me desse o beijo de sua espada. Arfei uma última vez, sentindo o gosto de sangue na boca, mas fechei os olhos e o negro cobriu minha vista.
*                                                                                       *                                                                   *

Posfácio.

Espírito de Malcomn: o desencarne não foi fácil porque senti bastante dor. Era como se ainda vivesse quando despertei em meio ao caos. A verdade é, custou-me a entender na hora, que junto comigo vieram vários soldados que não aceitaram seu desencarne e continuaram a luta como se estivessem vivos. Matavam-se uns aos outros continuamente, sem perdão. Aquele cenário me assustou e, se não fosse pela consciência de que, até então, eu havia sido mortalmente ferido, tal ilusão teria me sugado para dentro. O que me chamava à Terra era a dor de minha senhora. Demorei um bocado de tempo a procurá-la. Mas eventualmente a encontrei, trancada em uma torre. Sua madrasta a colocou lá e ela já não tinha nenhuma vontade de viver, tendo aceitado terrível condição.
Haviam-na dito, porém, que eu pereci honravelmente em batalha, mas Mariam estava grávida e ela nunca recebeu as notícias bem. Não fosse pelo seu pai, ela teria provavelmente morrido lá. Tentei consolá-la, e creio que ela me via, mas chorava outra vez, culpando-se pelo destino que, na verdade, a eu mesmo escolhi.
"Vamos sair dessa juntos", eu tentei lhe dizer. Era uma sensação desesperadora, na verdade, porque nada daquilo parecia correto. Eu estando ali quando nenhum dos dois estava em paz. Eu a amava, mas estava exausto por causa da guerra. Sentia-me tão ferido morto quanto vivo. Estava confuso. Mas enquanto ela não estivesse bem, eu não sairia dali. Daquela maneira, velei por ela. Até que, às vésperas do nascimento, veio monsenhor Patrick acompanhando de George aqui. Conversei com ambos.
George, minha cara médium, foi quem se apiedou de mim e me concedeu o último suspiro antes do meu desencarne. Quando nós nos reencontramos no plano espiritual, ele veio em meu auxílio, desejando ser tão útil quanto possível porque sentiu-se culpado pelo que havia feito. Na minha concepção, não foi motivo de culpa visto que eu sofria e ele concedeu meu desejo de não sofrer mais em meio a uma guerra onde tantos outro agiam impiedosamente para uns com os outros. Monsenhor Patrick, de todo modo, nos apadrinhou espiritualmente. Da mesma maneira que o esclareceu sobre muitos outros ensinamentos que não me compete aprofundar, fez o mesmo comigo. Assim sendo, deixei o plano terreno. Mas ainda hoje... procuro pela minha senhora. Não sei o que houve com ela. Na verdade... suspeito que tenha sido tomada por sofrimento.

[Nota de Ogum: na verdade, a moça por quem busca foi hospitalizada depois de ter aceitado auxílio quando foi ao umbral. E como este conto promoveu ajuda necessária a este meu bom companheiro e irmão, eles poderão se reencontrar. E graças a vós, que permitiu que este espírito se expressasse. Quanto a identidade de Monsenhor Patrick, não cabe aqui explicar quem fora, creio mesmo ter falado o necessário. Mas Malcomn não esteve errado ao dizer isso. Eu fui mesmo esclarecido ainda mais sobre as funções espirituais a que deveria exercer na posterioridade. No devido tempo, vos explicarei a respeito.]

Bom... Agradeço, bondosa senhora. Creio que está na minha hora de partir. Perdoe-me a melancolia que ainda não consegui, de todo, me despojar. Mas uma vez na companhia de Mariam outra vez isso mudará, é certo. Estou muitíssimo melhor, entretanto, ao relembrar estes fatos que marcaram esta última encarnação. Prosseguirei trabalhando aqui no plano espiritual e, segundo Ogum, posso atuar sob a bênção de São Jorge. Veremos como isso se dará. Mais uma vez, agradeço, estou em débito para com a senhora. Que Deus a abençoe em sua bonita missão.

De seu amigo e irmão,
Espírito Malcomn.



quarta-feira, 13 de maio de 2020

(Contos da Escócia, vol. 4) A Última Celta

Nota de Ogum: trata-se de um espírito em adiantamento cuja história, devo alertar aos leitores mais sensíveis, é mais densa que às anteriores. Não obstante, é importante que ainda assim chegue a vós a fim elucidar-vos sobre a esperança e, talvez acima de tudo, a fé e a persistência. É preciso atenção na mensagem que a entidade deseja passar e não se prender nos pormenores que possam escandalizar vós da contemporaneidade.
“Rowena foi meu nome em dias muito antigos segundo a cronologia da Terra. Não escapei da barbaridade dos homens, lamento recordar desta maneira aqueles dias. Mas não há o que reclamar do passado imutável. Ao contrário, toda vivência é capaz de produzir ensinamentos se nós desejarmos aprender na sinceridade das leis de Cristo.
Quando encarnei por volta de 200 anos depois do nascimento de nosso Mestre Maior, suas palavras ainda não haviam chegado ao norte do país que, mais tarde, seria conhecido pelo nome de Escócia. Situado geograficamente em uma ilha, ou em um apanhado de ilhas, não fazia muito tempo que tanto o norte quanto o sul havia sido dominado pelos romanos. No entanto, ao contrário da Inglaterra, os escoceses resistiram com mais firmeza à esta dominação...e, apesar de construído o muro de Adriano (tão alta que, para muitos, significava magia), alguns dos centuriões tentavam destruir o povo reminiscente dos celtas. Em meio a este turbilhão, meus mais me deram à vida terrena. Aqui, recebi o nome de Rowena.
Quando vim à Terra, me encontrei em meio aos celtas, tribo nômade que, na verdade, era bastante heterogênea em sua essência. Havia celtas na Gália, na Germânia, mesmo nos países Nórdicos (cujos herdeiros, alguns diriam na posterioridade, vieram a ser os famosos vikings), mas principalmente na Britânia, em regiões que, para vós, são conhecidas como Gales, Irlanda e Inglaterra. Por que fomos todos reunidos sob um mesmo nome, como produtos sem distinção? Convencionou-se nos identificar daquela maneira pela similaridade com a qual mantínhamos determinadas práticas religiosas, pelos objetos feitos de materiais encontrados em cada parte destes lugares que citei. Havia troca econômica também, a maior parte do qual funcionava sob o esquema do escambo. Isto é, um oferecia o objeto de maior valor para o outro que precisava daquele, e vice-versa. Isto não significa que desconhecíamos a moeda, a prata ou outro tipo de moeda em voga. Apenas não detinha o mesmo valor substancial que tinha para outros povos.
Mas a genealogia dos celtas é longa e cobre mais que minha encarnação. O que aprendi a respeito foi antes de minha encarnação, quando optei por descer entre aqueles homens. Recebi instrução apropriada segundo meu avanço moral e espiritual, mas não posso dizer que aprendi tudo de uma vez só. Na verdade, isso daria muito mais que um mero parágrafo. Com isso, não vejo por que me aprofundar em sua história, ainda que adiante que os celtas vinham se desenvolvendo desde a Idade do Bronze. São muito antigos, de fato. Mas sabe-se que os povos conhecem seu apogeu e sua queda. Não seria diferente conosco, como o foi com o próprio Império Romano.
Não me cabe ater precisamente em datas fixas posto que a cronologia de outrora era contada diferentemente e temo dizer que as calendas daquela época quando traduzidas para a contemporaneidade... bem, provocariam bastante confusão. Assim, ainda que vós reconheceis o contexto histórico do qual abordarei e, mais ainda, sobre o que falarei, é importante ter em mente estas diferenças.
Com isso, estipulei o ano aproximadamente para 200 D.C. O império romano caminhava para seu declínio, tribos germânicas já eram uma realidade de oposição ao seu poder. Entrementes, rebeliões orientais e ocidentais puxavam-lhe os braços e as pernas, sem, com isso, obterem o cérebro. A Britânia é usualmente vista como o território que engloba a Inglaterra de hoje, mas mesmo ela contemplava geograficamente partes da Escócia. Northumbria, por exemplo, é apenas mais um condado em vossos dias presentes, mas nestes dias era um reino abrangente. Julgo dizer que era maior do que Kent e Wessex. Apesar disto, da mesma maneira como a Britânia romana não se enxergava como “ingleses”, muito menos havia os “escoceses”. Povos distintos ocupavam aqueles lugares, preocupando-se com a sobrevivência da espécie humana da qual faziam parte: uma terra para lotear e uma família para herdar esta terra. Em tese, tudo parecia simples, mas a sobrevivência era mais do que isso. Consistia no culto adequado aos deuses, nos rituais que marcavam a transição da infância para a juventude e, mais tarde, da maturidade para a morte. Diante disto, tudo tinha de funcionar perfeitamente. A guerra era feita como mecanismo de defesa, e talvez isso se explique porque dos celtas deram origem aos pictos, povo mais belicoso e resistente. Na verdade, foi a um deles quem meu pai pretendia casar. Recordo-me de tê-lo ouvido dizer, se gabando daquela “empreitada”, da “ousadia” em unir-me aos “rivais” pictos:
“Um futuro de glória a aguarda, Rowena”. Ele me assegurou. “Os que contestam esta união não estão preparados para que deixamos para trás passado a fim de rumarmos ao futuro. Nem mesmo os deuses são egoístas e mesquinhos”.
Pois bem, na ocasião, contava quatorze primaveras. Era uma jovem de longos cabelos dourados e pele corada, olhos como os de oceano e feições típicas de alguém em formação, na transição para a maturidade. Gostava de usar sobre minha cabeça uma espécie de coroa de flores que eu, junto às minhas irmãs mais velhas (a quem chamarei de Catrina, Rimary e Lyanna), gostava de colher da floresta. Havia um cuidado com isso, pois havia rosas venenosas e outras tantas cujas belezas eram “apagadas”, insignificantes. Nossos irmãos (também mais velhos que eu, chamavam-se Jonas, Taneryn e Ylla) zombavam de nós por acharem-se superiores dada a sua natureza belicosa. Mas interpretávamos isso como “brincadeira de menino”, porque todo o resto brincávamos juntos. Cresci num ambiente feliz e fértil. Fui a última das crianças e meus pais pensavam mesmo ter considerado nomear “Hera”. Meu pai uma vez explicou:
“Um comerciante do norte [Grécia] veio a nós porque aportou em terras erradas. Apesar disso, recebemo-nos bem e, conversa vai e conversa vem, ele nos contou de seus deuses. E como nomeou uma de suas filhas em honra à Hera, deusa do casamento. O nome muito me apeteceu, mas sua mãe temeu que isso fosse visto como ofensa pelas divindades que aqui cultivamos”.
Se me perguntassem se havia algum deus favorito, diria que não, que os amava igualmente e isso era verdade. Seria o equivalente a perguntar qual irmão era favorito, ou se eu preferia meu pai ou a minha mãe. Não saberia dizer e nem poderia fazê-lo. Todos me eram muito caros.
Com isso, até o dia de meu casamento, vivi como uma criança. Colhia flores, costurava para os homens ao lado de minha mãe, cultuava a natureza e sua manifestação divina (e até antes do grande dia, era proibida a presença de jovens mulheres nos principais cultos), aprendia a cantar e a dançar com minhas irmãs, brincava com as filhas de outras senhoras e era, enfim, ensinada a como me portar com relação aos outros (quando havia banquetes) e no que era esperado quanto ao meu futuro marido.
Tudo parecia bastante feliz e memorável. Havia paz e era suficiente. Vi todos os meus irmãos se casarem e, a despeito da aparente ciumeira de minhas irmãs quanto ao pai optar por um noivo fora de nossa tribo, nada nos abalava. Éramos unidos, penso eu. E nada me deixava mais feliz do que agradá-los. Contudo, como disse um poeta vosso, ‘alegrias violentas têm finais violentos’. Se adaptarmos esta frase para toda aquela vida, verão o que quis dizer.
Às vésperas do casamento, portanto, meu pai selecionou duas irmãs (Catrina e Lyanna) para me acompanharem e um irmão para segui-lo, o segundo seu herdeiro, Taneryn. Era esperado que eu fosse ao encontro dos pictos e não o contrário, portanto, despedi-me de cada um. De minha mãe, de minha irmã e outros irmãos. Dos bons vizinhos. Do sacerdote, que não desperdiçou a oportunidade para me dar um sermão sobre o caráter sagrado do casamento. Aquiesci. Ainda lembro das palavras de minha mãe:
“Que os deuses a guardem, Rowena, filha minha tão obediente. Seja boa com vosso esposo e não esqueceis do que foi ensinado”.
Ajoelhei-me para receber sua bênção e disse:
“Prometo, senhora mãe. Não esquecerei”.
Com isso, ela depositou uma coroa de folhas verdes sobre minha cabeça. Murmurou uma prece e depois nos despedimos. Meus olhos verteram-se de lágrimas ante à despedida, principalmente quando recebi os abraços ternos de cada um dos meus irmãos reminiscentes. Não os veria de novo.
Logo, montei em um cavalo vestida em trajes célticos. Um vestido branco com rosas vermelhas e botões verdes tornava tudo fluido. Branco pela virgindade, rosa vermelha pelo amor e o verde pela sabedoria das matas. Ao meu lado, seguiam minhas queridas irmãs Catrina e Lyanna. Catrina era a mais próxima de mim em idade e já havia se casado. Seu esposo concedeu permissão ao pai para que me acompanhasse à ocasião. Seus cabelos eram um punhado de cachos negros e seus olhos refletiam esta cor, mas quando sorria, era como se a lua em pessoa iluminasse nossas vidas. Sua risada era doce como uma melodia e nada em sua companhia era desagradável. Era intelectual e astuciosa, sendo responsável por me elucidar nos mistérios das folhas. Uma vez, ainda criança quando passei mal de estômago, recomendou que bebesse uma poção quente de água, vinho e folhas de boldo. Foi terrível o gosto, o que nos fez rir por dias, mas melhorei instantaneamente. Naquele dia, usava o vestido azul, o que a deixava ainda mais bela.
Em seguida vinha Lyanna. Seus cabelos eram menos cacheados que as de Catrina, mas eram de um negro que, à luz do sol, pareciam quase ruivos. Seu olhar não era gentil como o de nossa irmã porque, desde cedo, acostumou-se a guerrear ao lado de nossas irmãs. Apesar disso, não era reservada conosco. Portava-se daquela maneira para que os homens a respeitassem. Preferia a cota de malha à seda do vestido. Mas era responsável pelas gargalhadas que ecoavam nos salões da tribo. Aqui, ela me seguia como devota irmã. Era casada também, mas suponho que sua preferência nunca havia sido homens.
Quanto a Taneryn, ele era tão belo quanto forte. Brincalhão como Lyanna, porém tão sério quanto ela em dever. Esqueci de mencionar que eram gêmeos. Aonde um ia, o outro seguia. Nosso pai desistira de dissuadir de que as ocupações de cada um os dirigia a lugares diferentes, mas nisso os gêmeos protestaram teimosamente até serem ouvidos. Eram iguais em tudo, embora surpreendentemente Taneryn era louro como eu. Exceto por isso, compartilhava do mesmo olhar de Lyanna.
Cercada por minha família e um punhado de homens, via meu pai, alto e careca, levar-nos todos até onde éramos esperados. A viagem seria longa, durando quase dois dias e meio. Mas assim que cruzamos o rio e chegamos ao outro lado, os portões de ferro abriu e fomos recebidos em uma pequena cidade. Ou o que vós chamareis de proto-cidade. Dali, no futuro, surgiria Edimburgo.
Pois bem. Os pictos nos receberam bem. Uma senhora de cabelos cor de palha e vestes estranhas nos recebeu com toda a hospitalidade merecida. Percebi que ali estava a anciã da tribo. Em seguida, veio uma comitiva de homens altos e trajados em vestes de guerreiro. Meu olhar recaiu sobre o segundo em comando: de cabelos quase raspados e teste larga, seus olhos eram de um castanho que, à luz de velas, pareciam âmbar. Era alto e forte. Havia tudo em si que me agradou. Quando nossos olhares se encontraram, soube que era ele quem me desposaria. Sorrimos um ao outro quase de imediato.
“Que os deuses sejam bons!” exclamou a senhorinha. “Espero que a viagem não tenha sido exaustiva”.
“Não mesmo”, mentiu meu pai, todo sorrisos. “Foi uma jornada tranquila e sem problemas.”
A senhora sorriu.
“Fico feliz em saber. Sejam bem-vindos! Permita-me conhecer a senhora Rowena melhor.” Ela pediu e meu pai pediu que desse um passo à frente. A mulher me avaliou com olhos frios, antes de me receber calorosamente. “Será desposada segundo nossos costumes. O que pensa disso?”
Humildemente, repliquei:
“Que os deuses são bons em ter-me trazido até aqui para cumprir meu dever. Disso não esquecerei”.
“Excelente.” Ela aprovou. “Venham conosco, meus caros, há um banquete em vossa honra.”
Foi uma noite memorável, de fato. Ninguém presumiria o que aconteceria na noite seguinte. Ocupei meu lugar ao lado de meu futuro marido, quem chamarei de Gwelin. Conversamos pouco, pois logo descobri que, embora dez anos mais velho que eu, era ainda mais tímido. Não por isso, todavia, a noite não foi aproveitada. Houve bardos que cantavam músicas de povos antigos, de chefes guerreiros filhos de deuses que comandavam a Britânia em glória outrora.
Não havia nada para que reclamar, de fato. Via meu pai conversar alegremente com a senhora anciã daquela tribo, dos risos que seguiam à conversa vindos dos pais de meu futuro esposo; a impressão favorável me foi passada de que haviam se dado bem. Outros jovens presentes eram os irmãos e irmãs de Gwelin. Mas não teria oportunidade para conhecê-los melhor.
A lua estava no auge da noite quando foi determinado que nos deitássemos a fim de aproveitar o dia seguinte. Era preciso que descansássemos bem, pois a senhora em questão era orgulhosa de saber como dar uma festa de casamento. Ah, se soubéssemos!
*                                                                   *                                                          *
Era cedo quando fui desperta. Limpei-me numa banheira romana e minhas irmãs se responsabilizaram por me vestir segundo os costumes dos pictos: colocaram em mim um vestido meio aberto aos lados e de ombros caídos de tonalidade azul. Pintaram em meu rosto, em particular nas bochechas, traços de mesma cor, que favoreciam os meus olhos. Enfim, trançaram meus cachos louros e puseram sobre minha cabeça uma coroa verde.
“Está tão linda!” Exclamou Catrina, emocionada.
“Vós muito nos orgulhais, querida irmã.” Até mesmo Lyanna pareceu piscar as lágrimas que subiam em seus olhos.
Ignorando o mau pressentimento que subia em meu peito, sorri a cada uma delas e abracei-as. Deveria tê-las aconselhado a fugir, mas ainda que o fizesse, não me dariam ouvidos. Ninguém desconfiava do que ocorreria em horas.
Uma vez pronta, meu pai e meu irmão adentraram os aposentos ao lado das irmãs de Gwelin, sua mãe e a senhora sua avó, a anciã.
“Vosso esposo a aguarda no altar.” Adiantou-se a mais velha, cumprimentando-me com louvor.
“Ainda mal acredito nisso”, disse-me aquela que deveria ter sido minha sogra. “Foi um trabalho árduo para convencer o menino a se casar. Ele gostava de uma vida devassa, e...”
“Não assuste a menina, Alyssa”. A velha a repreendeu e eu não pude evitar rir. Imaginei-me se Gwelin seria devasso comigo e tal pensamento me fez ruborizar.
Tomando este sinal como de meu valor donzelesco, Alyssa se desculpou, mas estávamos todo rindo. Nada estragaria aquela ocasião. À luz do sol das dez da manhã, porém, sem desconfiar que nossos inimigos entravam naquele território incontestavelmente, fui levada ao altar.
As portas se abriram. A família nobre e tantos outros aguardavam, mas meus olhos repousavam na augusta figura de Gwelin. Ele estava lindo, eu pensava, e um trocar de olhares com minhas irmãs nos fez dar risinhos baixos. Éramos jovens e somente nos preocupávamos com maridos. Na véspera da ocasião, falamos mesmo da consumação carnal.
“Doerá no princípio”, disse-me Catrina. “Mas não se preocupe, a prática torna melhor. E produzir bebês será tão prazeroso quanto dá-los à luz”.
“Você nem sequer deu à luz ainda”, riu Lyanna. “Infelizmente, querida irmãs, não posso dar minha opinião sobre o assunto.”
“É porque sua preferência está em outras pessoas, não é mesmo?” eu falei, arqueando as sobrancelhas antes de fazer todas nós rirem. “Lya, querida, nunca pensei que a veria ruborizar!”
Foi uma noite muito engraçada, deveras. Como o golpe de misericórdia dos deuses antes do pior...
Assim, fui deixada às mãos do esposo. Trocamos votos, mas antes de selá-los... A doce melodia do bardo parou abruptamente...e quando nos viramos para ver por quê, o choque passou pelos rostos de nós ao ver que sua garganta fora cortada. Os romanos adentraram nos salões e, em menos de dois segundos, havia um banho de sangue no salão. Gritos de dor, pedidos de socorro. Não sabia o que acontecia. Foi tudo rápido demais. Pensei que iria desmaiar, mas precisava fazer algo. De repente, só conseguia ver aquele que deveria ser meu marido no chão, sem vida. Minhas irmãs, não muito longe de mim, morreram. Meu pai... também. Sangue me ensopava a roupa e eu não saberia dizer se vivia ou não. Paralisada pelo choque, entorpecida pela dor, eu congelei.
Ainda hoje não sei dizer com precisão quando fui descoberta em meios aos corpos. Mas o romano que verificou que havia uma sobrevivente na carnificina do meu casamento, se apiedou de mim.
“Fique quieta”, ele falou. “Apenas me acompanhe se deseja viver”.
Sem capacidade de trespassar o trauma vivido, como um boneco, o acompanhei. Minha vida mudaria dali para sempre.
*                                                                           *                                                                      *
Meu salvador, ou captor, era um romano chamado Julius Tibetus e era quase quinze anos mais velho que eu. Alto, de ombros largos e forte, era sério, mas não desprovido de emoções. Seus olhos refletiam os meus azuis e a pele morena indicava a exposição ao sol. Seu nariz largo e a barba recém-feita me indicavam que fazia parte de uma nobreza guerreira. Mas nem mesmo isso me chamou atenção ou para o ruivo dos seus cabelos curtos que se escondiam sob o helmet.
Ele me levara longe do mais novo domínio romano e pediu a uma criada de confiança que me limpasse do sangue e vestisse roupas velhas. Para minha própria segurança, também tive minhas longas madeixas cortas à altura dos ombros. A tudo isso vi, sem reação.
Tibetus é como o chamarei daqui em diante. Ele me colocou à sua frente enquanto montávamos o cavalo. Tinha medo, e por mais que quisesse esconder dele, meu corpo me traía. Eu tremia.
“Sei que é muito pedir para se acalmar”, ele falou. “Mas estou fazendo o que posso. Vou tirá-la daqui.”
“Por que está fazendo isso?” perguntei e minha voz saiu rouca.
“Eles também fizeram o mesmo comigo”, ele respondeu friamente e eu não ousei fazer mais perguntas.
Foi uma longa jornada, as estradas eram feitas de paralelepípedo e isso dificultava cavalgar. No decorrer do caminho aonde quer que ele me levasse, eu não conseguia assimilar o trauma pelo qual passei. Quando parávamos para descansar, porém, acordava ouvindo gritos. Temia dormir. Em uma destas noites, Tibetus me fitou. Foi quando o silêncio pesou para ele, e o homem se viu obrigado a interagir comigo.
“Está tudo bem?”
Minha voz soava rouca quando tentei falar, provavelmente porque por três dias e três noites nada disse. Era como se estivesse com a garganta presa ao pescoço. Tibetus prontamente identificou a dificuldade e me ofereceu um copo de vinho. Agradeci e tomei a fim de emudecer minha garganta e meus lábios.
Vi que ele aguardava uma resposta minha, por isso respondi:
“O que acha?’
Não pretendia soar rude, mas estava exausta. Não conseguia liberar minha dor, meu luto, sequer os compreendia. Tibetus, porém, não se sentiu ofendido.
“Imagino que seja difícil confiar em mim. Enxerga-me como inimigo e não a culpo.” Ele suspirou, decidido a falar. “Vim de longe, mas sequer recordo-me de onde porque minha tribo foi escravizada pelos romanos e me tomaram para ser educado, instruído e letrado em Roma, na sede do império. Não sabia quem eu era, mas não me deixavam esquecer de que eu também era escravo e vinha de uma família de escravos. Penso que seja como você, celta, embora de outro lugar. Por que estou dizendo isso, deve estar se perguntando. Porque, lhe responderei, eu não quis que tudo aquilo se realizasse. Sou apenas mais um seguindo ordens. Não participei daquilo tudo, entretanto. Na verdade, era para tê-la matado. Não consegui”.
“Por que?” Questionei-o.
“Porque me apiedei. Os deuses são seres divinos, cuja natureza está acima da nossa”, ele comentou. “Por que permitiriam que aquele massacre ocorreria e justificar-se-ia que foi porque Marte mandou? Não creio que assim seja. Os homens são responsáveis pelo seu destino. Por isso não quis participar do deles”.
“Pagará caro por isso”, comentei, sentindo-me indiferente a deuses e a homens.
“Não me importo”, ele retrucou, “contanto que esteja a salvo”.
Lancei aquele homem um último olhar antes de devolvê-lo o copo de onde beberiquei o vinho. Suspeitava de suas intenções por instinto, mas em minha alma sabia que poderia confiar nele. De que outro modo teria escolha, porém? Desanimada, enterrei-me em mim mesma e por mais que tentasse fugir dos sonhos, os gritos me envolviam e eu acordava assustada.
Os raios do sol partiam a noite em seu amanhecer do dia seguinte. Fazia frio, eu não sabia onde estava e nem do que seria minha vida. Foi naquele momento que me senti desamparada. Murmurei uma prece para todos os deuses, sem distinção:
“Amados seres divinos, vós que sois responsáveis pela criação dos Homens, que me pusestes aqui entre eles, escutai o apelo de vossa filha obediente. Desconheço o motivo pelo qual me trouxestes aqui diante de todo sofrimento, e se devo agradecer por ter sobrevivido, me faltam forças para isto. Deveria ter acompanhado minha família, mas sigo sem pestanear a vossa vontade”.
Instantaneamente, obtive uma resposta. Alguns de vós poderão supor que havia “cogumelos” ingeridos logo de manhã ou qualquer explicação psicológica para que eu houvesse enxergado a deusa do amor diante de mim, na aurora. Mas não foi o caso. Ao contrário, uma guia espiritual que me acompanhava e trabalhava sob a aura de determinada divindade assim apareceu a mim como ela:
“Filha querida. Diariamente escutamos os gritos surdos de vosso coração. A dor é a causa primitiva para transmutações e sinto que preciseis testemunhar tudo isso para compreender. No entanto, vos asseguro que a morte não é o fim da linha. Venho acá confortá-la e prepará-la para o caminho a seguir. Sê forte, filha. Verte lágrimas para aliviar o peso de vosso coração. Estão todos acá, velando por vós em paz e tranquilidade. Confie no amor, tenhais fé. Nenhum sofrimento é eterno e diário”.
Suas palavras tocaram meu coração, dando-me o conforto que buscava, mas também permitindo que expressasse a angústia que sequestrava meu bem estar. Dessa maneira, pus me a chorar. Não porque precisava de uma prova de fé, mas porque ela me confortou. Os deuses não me deixariam sozinha.
Assim, Tibetus despertou em desespero ao me ouvir em lágrimas. Sei que o desconcertei, mas não me importava. Eu punha, afinal, minha dor para falar. Não me escondia mais. Sentia o luto para que pudesse seguir em frente. E ele percebeu, pois, movido pela compaixão, se ajoelhou e me abraçou.
Foi um gesto que, embora estranho a princípio, me enterneceu. Retornei o abraço e ali fiquei até que cessasse o pranto. Quando assim aconteceu, Tibetus disse:
“Sinto muito. Espero que me perdoe”.
Mas em meu coração não senti espaço para ódio, rancor ou vingança. Apenas tristeza. E foi o que eu disse a ele. Não havia necessidade de perdão, ao menos da parte dele, porque o que ocorreu... teve de ocorrer. Foi com o consentimento dos deuses para que nós nos fortalecêssemos. De algum modo, Tibetus entendeu.
Assistimos ao nascer do sol, mas após termos desfrutado do desjejum, pusemo-nos a seguir para um lugar que, segundo ele, seríamos bem acolhidos.
“Estamos no reino do norte, mas pretendia seguir ao sul. Londinium é populosa e lá poderíamos nos ajeitar sem sermos notados.”
Lancei a ele um olhar curioso.
“Está desertando do exército. Será mal visto por seus colegas”.
Tibetus deu de ombros.
“Nunca concordei com este tipo de matança. Às guerras, procurei lutar sem derramar sangue. Era tachado de covarde por isso, e me amaldiçoaram para Marte.”
Ele pareceu achar graça naquilo e, quando viu minha expressão de choque e perplexidade, ele riu. Admito que gostei de ouvir a risada do homem. Era um som que me aqueceu por dentro, que muito me recordava de que existia vida para ser vivida.
“Não o incomoda isso?” Perguntei, curiosa.
“Não, porque penso que os deuses sejam justos’, ele respondeu. “Minha vida está nas mãos deles e aceitarei o destino que lhos convir”.
Dali em diante, conversamos sobre deuses e destino, mas também sobre os lugares que Tibetus havia visitado. Ele havia lido tanto em livros que logo me contou de heróis antigos como Alexandre o Grande, que conquistou quase todo o globo.
“Diziam que era justo em sua governança”, afirmava Tibetus. “Ele inspirou os grandes feitos de Júlio César”.
Com espanto, ouvi-o compartilhar seu longo conhecimento sobre tais personalidades comigo. Aprendi tanto sobre o macedônio que construiu um império quanto sobre o ditador por ele inspirado. Soube também de Augustus, seu herdeiro, e o primeiro imperador de Roma. Ouvi falar de poetas como Ovídio, Homero e tantos outros. Havia dias em que pedia que me contasse e recontasse o apogeu e a queda de Tróia e que fim teve a rainha Helena de Esparta.
Era assim que eu reconstruía minha esperança e conforme o tempo passava, Tibetus se preocupava em me distrair dos pesadelos que ainda insistiam em me assombrar. Ele se tornou um cuidador. Eventualmente rumamos ao noroeste da Inglaterra, seguindo a entrar nos domínios de Gales. Com muito cuidado, seguíamos o caminho pelas montanhas para não chamar a atenção. De repente, foi por ali, entre Gales, Inglaterra e Escócia, que nós nos fixamos por alguns consideráveis meses.
De manhã, Tibetus caçava e aproveitava para fazer a ronda. Depois, insistia para que eu aprendesse a me defender. Mas nas piores tempestades, era preciso que arranjássemos um local com mais resistência e apropriado para ficarmos. Foi quando percebemos que, apesar da instabilidade local, o ideal seria residir próximo da muralha de Adriano. Contudo, na prática, ficamos entre uns povos do norte da Inglaterra que faziam fronteira com a Escócia. Estes eram o resultado de romanos e celtas, se assim se pode dizer. Sua cultura, entrementes, era um efeito desta relação quase antítese uma da outra. Seu panteão abrangia deuses greco-romanos como celtas e mesmo germânicos, seu modo de vestir contemplava quase completamente o vestuário romano para os homens (principalmente os mais fortunados) e “local” para as mulheres. A guerra, porém, era ainda mais mista. Aquela sociedade era a prova de que o dominador não era imune ao dominado e sua complexidade é difícil de ser transmitida.
Uma vez aceitos por aquele povo, tivemos de mentir sobre nossas identidades e assumimos ser casados. Ninguém perguntou. Contanto que contribuíssemos, tudo seguiria em paz. Por um instante pareceu que minha vida havia se estabelecido de novo.
Não foi um processo fácil. O trauma existia e seus efeitos também, como no medo de criar laços com outras pessoas e temer sair de casa para cumprir com tarefas simples. Nesse sentido, Tibetus contribuiu bastante para que um passo de cada vez era importante e olhar para o passado em nada ajudaria neste momento. Precisava superar, mesmo se demorasse anos.
Foi quando percebi que estava irremediavelmente apaixonada por ele. Notei que seu sorriso amarelado me transmitia calma e serenidade, o modo como me olhava como ternura me fazia feliz. Gostava de me fazer rir, e se esforçou para aprender minha língua tanto quanto eu a dele. Construímos confiança a partir de trocas pequenas. E foi quando percebi que, ao nos deitarmos, me sentia segura em seus braços. Ele sempre foi respeitoso quanto a isso, mas em virtude dos pesadelos, foi preciso que me acalmasse e já nos acampamentos durante o frio, era preciso que um abraço nos esquentasse. Mas percebi que desejava mais que isso. Não sabia se ele sentia o mesmo, mas fui inspirada a ser corajosa.
Assim, era noite quando ele havia retornado da caça com alguns dos companheiros da ‘cidade’, e eu o aguardava nervosamente à lareira.
“Como foi o dia?” eu perguntei, logo depois de ter preparado o banho de água quente. Observava os traços ao redor de seu rosto, o suor que pingava em torno de suas sobrancelhas.
“Cansativo”, ele respondeu. “Aproveitamos para cortar umas árvores a fim de fornecer mais lenha para os que dela precisam”.
Ele me agradeceu pela banheira quente enquanto se despia, mas não consegui sair dali. Ouvia-o dizer sobre que animal haviam caçado, enquanto meus olhos passeavam pelos músculos torneados de suas costas e algumas cicatrizes que marcavam sua pele. Imaginei quantas histórias estavam por trás delas.
E, no entanto, não ousei perguntar. Apenas fiquei ali e aguardei. Pelo que, não saberia dizer, mas creio que em meu íntimo torcia para ser notada. No fundo, as jovens no florescer desejam ser amadas, independentemente das circunstâncias. Sem me dar conta, era o que eu aspirava, já que eu o amava também. Perdida em minhas contemplações, sequer notei que, já na banheira, Tibetus me encarava, encabulado.
“Mas oras, senhora! Que fazeis aí?”
Corei e desviei o olhar.
“Perdoe-me, Tibetus. Eu...” Sem conseguir arranjar uma resposta adequada, porém, me virei de costas e fui me ocupar com o que quer que fosse, a fim de tirar de minha mente a imagem do corpo esculpido de Tibetus, dos seus sorrisos e do anseio em agradá-lo.
Mas ele era um homem esperto e perspicaz, atento aos detalhes como um guerreiro deveria ser. Uma vez terminado o banho, já limpo e vestido, ele veio a mim em nossos aposentos. Ali, me fitou e, com um leve sorriso brincando em seus lábios, disse:
“Deveria ter percebido isso antes. Venha a mim, Joan, por favor.”
Obedientemente, segui aonde ele estava. Tibetus mirou-me com seus belos olhos e, tomando minhas mãos nas dele, disse:
“Minha preocupação em mantê-la a salvo e com seu bem-estar constante me fizeram cego para o que estava diante de mim. Talvez já soubesse disso antes, mas não queria reconhecer pelo orgulho que me velou para a realidade. Em parte por mim, também temi no que poderia acontecer se admitisse a verdade. Desejo esposá-la perante os deuses para que vejam no sagrado ato do matrimônio o quanto a amo, Joan.”
Aquelas palavras me tocaram o coração. Martelava em mim o peso do trauma passado, mas, como se para se assegurar de que isso não interferisse no momento, ele me levou ao altar não muito longe de Juno, a deusa romana do casamento. Mesmo ali, presentes estavam os deuses greco-romanos que não nos abandonariam. Diante dela, fizemos nossos votos. Diante dela, proclamamos o amor que sentimos um pelo outro.
Naquela noite, consumamos o casamento. A união era firme e sólida, e toda noite repetíamos o ato. Não me cansava, nada me trazia mais alegria do que estar em seus braços. Éramos como um, e a felicidade parecia ter chegado no auge. Já contava dezesseis anos quando, afinal, concebi.
A princípio, o passado teria sido superado. Vivia a vida que almejei e planejava o futuro da criança que carregava em meu ventre. Se eu soubesse que aquela era a paz antes da tempestade, teria alterado alguma ação? Não sei responder esta pergunta mesmo hoje. De todo modo, não carrego nenhum arrependimento. Tibetus foi mais que mero cônjuge, foi o amor de toda uma vida.
Nota de Ogum: como vimos, Joan e Tibetus eram espíritos em expiação. Pela afinidade que nutriam desde o momento em que se conheceram, de fato, na primeira existência em ainda em outro planeta, era preciso que, a partir de comum acordo, passassem pelas provações mais duras para se atingir a “iluminação”. Não obstante, seguem juntos ainda hoje em trabalhos conjuntos no plano espiritual.
Nossa rotina era a mesma, segundo aquela que previamente descrevi. A cada manhã, nós cumpríamos diferentes funções e, não raro, o via somente pela noite ou ao crepúsculo. Nos cultos, já desempenhava o papel de assistente da sacerdotisa da deusa Juno, a quem nos foi jurado proteção. Este culto era reforçado pelas gravidezes da comunidade, a minha e de outra senhora chamada Lys.
Às vezes, instruía algumas das moças mais jovens na arte das ervas, transmitindo o conhecimento que possuía de tudo o que aprendi convivendo com as florestas em tenra infância. Ensinei poções (prelúdios do que são os chás em vossos dias) e tipos diferentes de cura para os mais variados ferimentos. Conversava com as mulheres mais anciãs e, mesmo no estágio mais avançado de gravidez, insistia em cuidar delas.
Recordo-me de ter conversado sobre a companhia das idosas com meu esposo em uma ocasião.
“Nada me alegra mais do que ser útil ao próximo. Recordo de que, em minha aldeia, aprendia bastante com minhas irmãs e as mulheres mais velhas sobre poções e todo o tipo de erva”, contei, alegre, ao revisitar memórias que não me doíam mais ser relembradas. “É possível mesmo curar com uma poção de ervas, sabia? Fiz isso esses dias com a senhora Dyurch. Ela sofria de um mal de estômago e quando descobri uma folha de propriedades similares ao boldo, prontamente apliquei junto ao vinho quente e no dia seguinte ela me contou melhoras!”
Tibetus sorriu a mim, sua face se iluminando conforme compartilhava de meu dia. Aquele era um homem de coração bom e puro, que sabia ouvir.
“Isto é ótimo. Se continuar assim, teremos uma sábia em nossa família”.
Senti meu rosto queimar diante de seu elogio e ele riu.
“Sois linda quando enrubesce”.
“Não seja tolo”, eu o repreendi entre risos.
Naquela noite, ele me abraçou forte e o mesmo pressentimento daquela ocasião me abateu. Dei por mim aflita e falei:
“Amor, creio que deveremos partir”.
“Hm?” Ele estava quase adormecendo quando o cutuquei nas costelas a fim de ter sua atenção. Quando me viu nervosa, rapidamente a obtive. “O que foi? O que há de errado?”
“Estou com o mesmo pressentimento daquele dia... do meu casamento”, engoli em seco. “Sinto que algo de ruim acontecerá amanhã. Precisamos nos precaver”, falei nervosa.
A urgência em minha voz o despertou.
“O que quer dizer com isso?” Mas sem esperar minha resposta, ele disse: “Joan, acalme-se. É o trauma ressurgindo em um pesadelo. Está ansiosa porque o bebê se agitou em seu ventre, mas dará tudo certo. Você confia em mim?”
Meus olhos vertiam lágrimas e meu corpo tremia. Tibetus me cobriu com seu corpo, delicadamente, e beijou minha testa quando fiz que sim com a cabeça.
“Confie nos deuses, meu amor. Nossa criança nascerá saudável, você verá. Nada de mal acontecerá”.
Assenti com a cabeça, mas, antes de partir para o sono, sabia que não havia como fugir do meu destino. Assim, o aceitei.
*                                                                    *                                                               *
As parteiras foram chamadas assim que minhas contrações começaram a incomodar. Deu-se início ao trabalho de parto, e apesar de insistirem que a presença masculina em ambiente feminino como naquele momento sagrado era má sorte, insisti que Tibetus estivesse ao meu lado.
Tudo parecia correr bem, embora fosse um parto trabalhoso e cansativo. Meus medos pareciam infundados e o sorriso de Tibetus ao meu lado me tranquilizava... Mas tão perto o bebê estava a finalmente nascer quando ouvimos sinais de lutas. Antes que pudesse me conter, dei um grito.
“Acalme-se, amor. Verei o que...”
“Não!” Eu o puxei para perto de mim. “Fique!”
Como da última vez, marcharam os romanos para dominar o ambiente a ferro e fogo. Melhor dizendo, a aço e fogo. Suas espadas ceifaram vidas inocentes e por mais que eu implorasse, também tiraram de mim qualquer auxílio que as parteiras pudessem dar. Vendo que eu sangrava com um bebê recém-nascido em meus braços, hesitavam no que fazer.
“Piedade, senhores!” eu gritava mesmo sabendo que não entendiam o que dizia. “Piedade, eu imploro!”
Meu marido prontamente se pôs a me defender, mas sua garganta foi cortada. Como ocorrera com meu prometido dois anos atrás. Seus olhos me pediam perdão antes que sua vida dissipasse deles.
Desta vez, ninguém me viria em socorro. O homem, vendo que uma poça de sangue se formava ao meu redor, decidiu que aquilo bastaria. Eu me enfraquecia, era verdade, e meu corpo estava exposto à infecção. Cercada pelos mortos, em breve me juntaria a eles.
“Ajude-me, por favor!” eu berrava, mas aqueles centuriões me largaram para trás. Começaram a queimar tudo o que me era caro, deixando para trás os mortos que eu amava.  Tentei alimentar meu bebê e aquecer seu corpo que esfriava cada vez mais, mas... ele também logo partiu para o plano espiritual. Estava, assim, sozinha. Enlouqueci na dor e gritei. Chorei. Agarrei ao meu esposo e ao meu filho, sentindo que a vida se esvaía. O fogo se aproximava, mas não o temia.
Foi quando o vi ao meu redor. Acompanhava-o um menino de cabelos louro-arruivados, de cerca de uns sete anos, e olhos tão azuis quanto os meus. Sorria-me com um sorriso infantil. E chorei porque o identifiquei. Meu menino, pensei, que nunca cresceria. À época, em meio ao terror que me abatia, eu não compreendia.
“Não seja dominada pelo sofrimento, minha amada princesa”, a voz doce de Tibetus me tranquilizava o espírito. “Venha conosco, está na hora de partir. Não se martirize, veja que aqui estou com nosso menino, e sua família deseja reencontrá-la”.
“Tenho medo. Perdoe-me pela fraqueza”, solucei enquanto me deitava no sangue ao meu redor.
“Está tudo bem. Não sentirá mais dor se apenas se permitir”, ele tocava minha testa e fazia carinho. Mesmo assim eu chorei. “Eu a amo, minha cara Joan. Amei-a no passado, no presente e seguirei amando-a no futuro. O amor é infinito. Crê no que digo?”
“Sim”, e afinal eu compreendia. “Eu o amo. Estou cansada...”
“A febre está avançando, mas ela impedirá que sinta mais dor. Durma, é apenas um sonho. O sofrimento é mutável, não é permanente.”
Segurei em sua mão e, assim, aquiesci. Em meio ao calor do ambiente, tornei a dormir para não mais despertar. Não senti as chamas tocarem meu corpo porque, em sua misericórdia divina, Deus concedeu que meu espírito deixasse o corpo momentos antes da explosão de fogo.
Quando abri os olhos novamente foi no chamado de meu esposo. Tibetus me aguardava e meu filho, meu menino, estava ao seu lado. Abracei-os para em seguida ser recebida pela minha família.
Atualmente, sigo trabalhando no plano espiritual tendo optado por atuar na colônia “Nosso Lar”. Todavia, em breve seguirei para Júpiter junto ao meu amado Tibetus para que possamos auxiliar no adiantamento moral de algumas sociedades daquele planeta. Meus agradecimentos à médium pela atenção, dedicação e boa moral como índole ao transcrever esta memória sem julgamentos morais.
De sua querida irmã e amada amiga,
Espírito Joan.





Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...