quarta-feira, 4 de março de 2020

A Queda do Orgulho (parte II)

Nota de Ogum: Cecília havia reencontrado o filho e à sós foram deixados. A respeito disso, deixarei que ela se manifeste aqui a fim de prosseguirmos com sua reconstituição dos fatos para vosso melhoramento.

"Pois bem. Com vosso instrutor vos dissera, sigo de onde parei. Reencontrar meu filho George foi um deleite que poucas palavras poderiam transmitir tal sentimento. Ele parecia bem, usava branco e continuava como me lembrava dele em vida: alto como o pai, de cabelos castanhos que, à luz do sol, pareciam quase adquirir uma cor mais ruiva, olhos curiosos e lábios que repuxavam no sorriso cativante do menino que um dia havia sido meu filho.

'Pensei que a senhora fosse me receber com mais afeto', ele fingiu reclamar e eu, uma vez recuperada de meu estupor, corri para abraçá-lo. Naquele instante, pranteei por tudo pelo qual passamos, mas mais ainda pelo reencontro feliz. Deus havia escutado minhas preces, afinal. E eu percebi com mais ardor o quanto fui desonesta comigo mesma em vida, quão orgulhosa fora e tão enfeitada pelas vaidades estava. 

'Meu menino', eu murmurei. Sei que a História me acusa de tê-lo favorecido sobre todos os outros, mas isto é uma inverdade que deve ser contestada. Amei todos meus filhos igualmente, apesar de nossas respectivas faltas. 'Como tem passado? Tenho tantas perguntas.'

'O que importa é que estou bem', ele me assegurou, transmitindo uma paz que há tanto não sentia, muito menos vindo dele. 'É estranho conceber isso porque sofri um bocado também, e não digo pelas circunstâncias de minha morte, mas na posterioridade. Entretanto, apesar de ter me custado a admitir meus erros, uma vez que me libertei deles, tudo ficou mais claro. Estou me preparando para regressar à vida terrena novamente, senhora mãe.'

Encarei-o com perplexidade. Ainda que estivesse confusa quanto ao que ouvia, estava apreendendo a doutrina da reencarnação. E George... meu George... ficaria longe de mim novamente. Como ele poderia estar tranquilo quanto a isso? Como se estivesse lendo meus pensamentos, ele disse:

'Não se aflite sem necessidade, mãe. Preciso remendar as faltas, e expiá-las em outra existência.' E, com relutância, acrescentou: 'Edward está se preparando para voltar também. Isto precisa ser feito, já se passou tempo demais e agora que entendo melhor sobre tudo isso [a vida espiritual], não desperdiçarei oportunidades para meu melhoramento.'

Se estivesse em corpo, poderia ter a certeza de que desmaiaria naquelas condições. E, entretanto, sentia espasmos no espirito. George franziu o cenho diante do que via, uma mulher que passava mal. Ele me pôs a sentar na cadeira mais próxima.

'É tudo novo para a senhora agora, depois da existência que teve lá. São muitas informações, eu sei, mas aqui você será doutrinada apropriadamente. Estamos em uma colônia espiritual, mãe, onde há espíritos amigos que nos conhecem de outras vidas, que nos acompanham e velam por nós. É aqui que seremos curados do que fizemos, ensinados a respeito das leis divinas (as verdadeiras leis, mãe, não as que nos ensinam lá na Terra), enfim, até que possamos seguir em frente de fato e trabalhar aqui ou voltar lá. Depende de nosso merecimento, é claro, mas nada é tão rígido e culposo como se possa pensar.'

Ainda não sabia o que dizer, sendo assim, ele continuou:

'Quando eu desencarnei, sentia ódio por meu irmão. Não nego isso. Ciúmes, inveja e raiva enraizavam em mim como o caule de uma árvore. Pode imaginar a frustração quando constatei que permanecia com a cabeça no líquido vermelho depois de ter sido afogado. Não compreendi de imediato, afinal, a aflição, o desespero de respirar permaneciam em mim. Sentia-me vivo ainda, e, pior, estava sozinho. Meus executores não estavam presentes, embora a Torre de Londres permanecesse a mesma quando a deixei.

Gritei de raiva, xinguei Edward. Afinal, pensei que tudo aquilo tivesse sido seu plano para que eu desacordasse, que sofresse e não morresse. E eu estava pronto a abraçar a morte. Mas pouparei-a de detalhes mais pesados, mãe, a senhora não merece ouvir isso. Suponho que tenha demorado o equivalente a 150 anos na Terra para aceitar ajuda dos mentores. Mas quando eles vieram, explicaram que eu havia colhido toda a maldade feita naquela existência. Tão logo me conduziram à verdade, aos poucos fui sendo esclarecido e curado do que fiz. Pedi perdão à Deus e aos meus guias. Embora eles se satisfizeram com minha sinceridade, precisava ir além das palavras e partir para a ação. Tudo, é claro, no devido tempo. 

Assim é que estou aqui, pronto para reencarnar. Fiz as pazes com Edward, mas precisamos superar as rivalidades de vivências pregressas, por isso outra encarnação se faz necessária. Não se culpe, mãe, a senhora fez o que foi possível. Devo desculpas pela discórdia que causei entre nós todos, espero que me perdoe por isso'.

Pranteei como devem esperar que havia feito. Meu orgulho se desmanchava, meu coração (figurativamente falando, é claro) acelerava. Tantas emoções me cercavam, confundindo-me lucidez que prontamente enfraqueci-me. Foi quando a porta se abriu e dois indivíduos, sendo eles um homem e uma mulher, entraram gentilmente. Colocaram-me numa maca e levaram-me para o hospital perto. Não sei ao certo como explicar-vos, dar detalhes sobre os edifícios e as casas desta colônia, nem aonde ela é situada...

[Nota de Ogum: são várias colônias espirituais situadas sobre o globo terrestre, cujas missões são levadas a cabo pelos espíritos mais puros. Nesse sentido, cada um o administra conforme a necessidade planetária. Muitos aqui podem identificar a colônia onde o espírito de Cecília foi cuidado como algo próximo do "Nosso Lar", esta aqui localizada sobre um ponto específico acima do Brasil. Não penseis que há grandes diferenças entre uma colônia ou outra como não há distinções de um espírito para o outro, isto é mais do povo terrícola que vê necessidade em hierarquias, posições e outras tantas denominações. A função de uma colônia espiritual é praticar aquilo que Cristo Jesus nos ensinou: a caridade, o amor ao próximo, a solidariedade sem esperar qualquer coisa em troca. É fazer tudo isso de coração aberto, estender a mão ao espírito errante e abraçá-lo, guiá-lo de volta à morada, aos braços do Pai. Nomes terrenos, posições ocupadas em encarnações não importam. Ao contrário, o que importa são as ações do sujeito em Terra e suas intenções. Como o filho de Cecília explicou, e conforme falei no "conto" anterior, a cura e a doutrina auxiliam no despojo de faltas pregressas para o melhoramento futuro. Portanto, a reencarnação aqui encaixa-se como expiação, missão ou mesmo provação de acordo com a necessidade espiritual. Cabe às colônias fazer este tipo de preparação, lembrando, entretanto, de respeitar o livre arbítrio. Por que cada entidade passa 150 anos no umbral como no caso de George ou quase 300 anos como foi com Cecília? Porque, meus caros leitores, isso depende não somente do avanço moral do espírito como também da escolha em permanecer na erraticidade. Nós, servidores da luz, não podemos obrigá-los a melhorar, a avançar, se assim não desejarem. É claro que, como vos instruiu Kardec em suas obras, este tempo eventualmente chega, pois nenhum espírito consegue permanecer rigidamente no erro, por brutos que possam ser. As colônias desempenham papel importante de auxílio, de socorro a estes sujeitos, independentemente do grau moral que possuem. Há uma literatura mais kardecista a respeito delas que vos recomendo para melhor compreensão. Aproveito para acrescentar que há colônias também em outros sistemas solares e mesmo em planetas mais avançados como Júpiter.]

Quando despertei, uma mulher de rosto angélico e em roupas brancas me espreitava. Não a reconheci de imediato.

'Quem é você?' perguntei, antes de perceber que estava em um quarto branco com poucas janelas que, no entanto, mostravam uma vista bela onde o sol reinava absoluto em um céu azul sem nuvens, seus raios iluminando o verde da grama e as folhas das árvores. Um jardim belo, pensei, antes que meus olhos se voltassem para aquela figura curiosa.

'Nomes não importam agora', ela me respondeu com tamanha gentileza que me surpreendeu. 'Como está, Cecilia?'

Senti meu rosto enrubescer (se é que assim fosse possível, pois eu estava morta) diante do reconhecimento de meu nome. Que esquisito, pensei.

'Bem', admiti com relutânica. 'Onde está George?'

'Ocupado', ela se limitou a responder e, diante da dor que estava estampada em meu rosto, a mulher disse: 'Importa-te tanto assim vê-lo?'

'É o meu filho', retruquei. 'É claro que sim!'

A mulher assentiu. Observando-a com mais atenção, notei que seus cabelos estavam presos em um estilo de coque que nunca vi antes na Terra. Parecia simples, pensei com certo desprezo. As mechas douradas apenas se prendiam umas nas outras em formato oval. Seu rosto, porém, era belo e limpo; as maçãs de suas bochechas eram altas, o nariz era longo e um pouco empinado, os lábios eram róseos e carnudos. Havia algo de timidez em seu semblante, mas seus olhos azuis-estrelados me fitavam com calma. 

'Está me julgando', ela comentou com um sorriso. 'A orgulhosa Cis, não era como foi chamada por seus detratores terrícolas? Ora, depois de tudo, abre espaço para o orgulho, Cecília?'

Encarei-a, perplexa. Como ela poderia saber...? Mas recordei-me do último encontro com meu guardião, e percebi que não o vira mais. Sentia sua ausência, mas contive um suspiro e me concentrei naquela mulher. 

'Perdoe-me', disse, e fiquei envergonhada ao perceber que sentia ainda relutância em me desculpar com os outros. 'Não estou acostumada com isso.'

'Sim, não está', ela concordou. 'E gostaria de se desacostumar?'

Relutei, mas não sabia por que relutava. Baixei o olhar, e, para minha surpresa, quando a mulher voltou a dizer, não havia julgamento em sua voz:

'Não precisa se sentir envergonhada, Cecília. É hora de encarar seus erros e não fugir deles, nem se colocar em posição de vítima. Ninguém aqui é melhor que ninguém. Aqui, onde está, não será julgada pelo seu passado. E é isso que foi sua última vida: passado. Não é possível alterá-lo, minha querida, por maior que seja sua vontade. O que podemos fazer, juntas, é aprender a partir disso.'

Levantei o olhar, sentindo-me acuada como se tivesse doze anos outra vez, amedrontada diante da possibilidade de ser a esposa de alguém (especificamente, um filho de traidor que meu pai havia acolhido).

'É fácil dizer isso', e por mais duras que as palavras que saíram de minha boca pudessem ter sido, eu falava com tristeza. 'Ninguém aqui errou tanto quanto eu'.

A moça deu um risinho, mas não havia desdém no som que saiu de sua boca.

'Todos nós carregamos um passado também e cada um sabe onde dói seu calo. Não cabe a ninguém julgar isso, menos ainda você. Compreende?'

Soltei um suspiro, me sentia cansada.

'Sim, acho que sim.' E então perguntei: 'O que está acontecendo?'

'Por muito tempo, ficastes sob as energias umbralinas. Seu estado de consciência quando desencarnou em fins do século XV era de um espírito amargurado pelas perdas sofridas, pelas dificuldades de um sobrevivente de uma guerra como fostes. Entretanto, foram necessários 300 anos, e não 200, como pensa, para que aceitasse a morte e que o motivo pelo qual havia sido "trancafiada", ou, em vossas palavras, "feita prisioneira" no local de vosso último nascimento, estava ligado às faltas pelas quais precisais depurar.'.

Ela prosseguiu com sua explicação:

'Vosso filho explicou sobre as entidades que vos acompanham, seja por afinidade espiritual, seja por outros motivos que não me cabem aprofundar. Em particular, há aqueles que, para aprimorarem a si mesmos tanto quanto desejam fazê-lo junto a vós, se propõem a protegê-los, a guiá-los, a aconselhá-los no decorrer de vossa encarnação. Jamais estivestes sozinha, Cecília. Guardastes em vosso coração ainda que ínfima a recordação de vossa última estadia no plano espiritual. Aos poucos, recuperais vossa memória e compreenderá melhor o que vos digo.

Quando finalmente aceitastes vossos erros e faltas, e submetestes à vontade do Pai Maior, vosso guardião foi o responsável por trazê-la acá. Apesar de uma reconhecível melhora, precisais ainda de repouso para restaurar vossas energias a fim de que possamos doutriná-la apropriadamente para o entendimento de vossas ações e o funcionamento das leis do Pai.'

Ponderei a tudo o que ouvi, mas permaneci confusa.

'Energias?' Indaguei.

A moça sorriu, benevolente:

'Tudo no seu devido tempo. O que posso adiantar é que as energias nada mais são do que resultado daquilo que saem de nós, de nosso perispírito, este envoltório que guarda a memória de vossa última encarnação. Sim, poderíeis agir como o homem que fostes na existência anterior, porém, em decorrência de seu avanço moral, não podeis fazê-lo ainda.'

Embora assombrada pela possibilidade de ter meus pensamentos lidos por uma estranha, eu perguntei:

'Que energias são essas de que faleis e que me levaram ao umbral?'

Ela pareceu pensativa por um tempo antes de responder:

'Energias provocadas por vossas ações e intenções. Quando guardou orgulho, vaidade, prestando-se a julgar-se superior ao próximo, dentre outras faltas que vosso guardião já vos informou, criou para vós um envoltório negativo. No entanto, como não fostes um espírito bruto e ignorante, guardastes o sentimento de piedade que fê-la repousar sobre suas ações. E como reconheceu que não havia nada que pudesse fazer para modificar o passado, o remorso caiu sobre vós, por isso experimentou o estado de desespero que vossa soberba provocou. Do contrário, não teríeis experimentado o que chamamos de umbral.'

Antes que eu a interrompesse, ela disse:

'Não pensais que fostes habitar no inferno. Tal concepção como fostes ensinada não existe: ela foi uma maquinação do Homem para controlar os mais fracos a fim de exercer poder um sobre os outros. A ideia de inferno como fogo e tortura nada mais é do que uma imagem que espíritos pré-cristãos trouxeram para suas encarnações enquanto cristãos, projetando, desta maneira, sua "inferioridade" espiritual, se é que possamos denominá-los assim. Particularmente, prefiro usar o termo "brutalidade", já que não creio sermos melhores do que nossos irmãos perdidos na ignorância'.

Aos poucos, juntava as peças e se eu me sentia aliviada por reconhecer a invenção de um inferno que eu temia, por outro lamentava permanecer naquela colônia. Através de percepções mentais (que vosso guia previamente explicou sobre como funcionam as comunicações espirituais), a moça previu o que formava em minha mente. Sem esperar que verbalizasse, ela disse:

'Aqui não é o purgatório, e este é um termo ambivalente que, no futuro [e ela se referia ao Kardec] próximo, será contestado. Também foi resultado da criação de espíritos brutos em um contexto brutalizado, que pedia por reformas humanizadas.' Ela sorriu. 'Cada tempo, cada necessidade.'

Assenti, perplexa. Tantas informações me deram dor de cabeça. Mas como poderia senti-la se eu estava morta? A moça riu e, novamente, respondeu:

'Insistíeis no princípio de mortalidade do corpo e, por conseguinte, da alma? Não veis que é o contrário que aqui acontece, Cecília? Vosso corpo findou-se, mas não vosso espírito que é imortal.' E aqui ela me explicou outra vez, ainda que brevemente, a doutrina da reencarnação. 'E não te afligíeis por sentir dores "como se estivestes viva". Isto é comum entre os espíritos em avanço moral'.

Se eu dissesse que não me senti ofendida ao ser vista como "inferior" ou alguém ainda avançando moralmente, estaria mentindo. O orgulho era como veneno e ele purgava cada força minha ao ponto de quase cegar-me. Fechei os olhos, e nada mais falei, esperando dormir. Enquanto isso, a moça cuidava de mim. Sua energia era boa e tranquilizava-me, quase como se me amparasse do sofrimento interno que eu passava.

'Tenho ainda umas perguntas', comentei quase timidamente. 'Poderia respondê-las?'

Embora estivesse de olhos fechados, pude ver que a moça sorria. Ela aquiesceu e eu prossegui:

'Onde estão meu marido, e meus filhos? Soube que Edward, o mais velho, está em processo reencarnatório.'

Ela pareceu ponderar antes de dizer, quase que cuidadosamente:

'Sim, ele está. Podereis reencontrá-lo em seu devido tempo, mas isso não cabe a mim dizer. Ele não se recordará, enquanto estiver em um novo corpo, de uma existência passada, mas isso não impede de visitá-lo durante o sono. Quanto ao seu esposo, ele também está em recuperação, mas não posso dizer mais que isso. No devido tempo, vocês se reencontrarão, Cecília.'

Assenti, mas ainda estava aflita. Apiedada, a moça acrescentou:

'Podeis reencontrar alguns membros de vossa família quando recuperastes, Cecília. Não será impedida disso, a questão agora é vosso estado espiritual que precisa de amparo. A outros filhos lhos será permitido reencontrar igualmente. Porém, como disse, tudo no  seu devido tempo.'

Aquiesci, mas não pude evitar a pergunta:

'Mas estão eles neste umbral também?'

'Não, Cecília.'

E eu sorri.

'Obrigada, era isso que eu desejava saber.' Mas antes que pudesse descansar, ouvi-me indagar: 'Como poderia chamá-la, senhora?'

A senhorita em questão disse-me, risonha:

'Sempre curiosa, Cecília! Deixe-me ver... Aqui me chamam de um nome, mas creio que um mais familiarizado para contigo seria Philippa.'

Abri os olhos e a encarei, entre confusa e perplexa:

'Philippa?'

Ela sorriu:

'Sim, por que não? Tantas perguntas, tantos indagamentos. Vamos, Cecília, não é hora disso. Descanse.'

Encarei-a novamente, mas fui tomada por um cansaço e achei melhor não discutir. De repente, a familiaridade tão calorosa me acalmou os espíritos e adormeci.

*                                                                                 *                                                                           *

Quando despertei, ainda me achava no quarto branco. Curiosamente, percebi que, a despeito de tudo que me era estranho, permanecia algo familiar no ar. A moça que cuidava de mim, cujo nome foi me dado como Philippa, não estava mais ali e eu lamentei por isso. Notei que em meu corpo havia um vestido branco e quando levantei minhas mãos foi com alívio que percebi que as veias não saltitavam da pele nem havia qualquer sinal de velhice. Apesar disso, eu me peguei pensando: e isso importa?

Ao sentar-me na cama, tornei a olhar através da janela e via com espanto que o espaço parecia tão perto daquela colônia onde estava! Podia ver constelações e, com certo temor, constatar a proximidade de Marte. Para minha infelicidade, vi que nada sabia e quando me recordei da minha vida, lembrava como gostava de exibir o conhecimento (ou o que eu presumia sê-lo) para os outros. Aos poucos, envergonhava-me o tipo de comportamento que tive. E foi por esse motivo que decidi levantar-me da cama e sair um pouco daquele quarto.

Atravessei um longo corredor de paredes brancas, onde o silêncio reinava absoluto. Imaginei quem residia por trás daquelas portas fechadas, qual teria sido a causa de sua morte ou, como chamam agora, desencarnação. Perguntava-me, com certa ansiedade, a respeito destes motivos, como deveriam ter vivido suas vidas e se estavam em paz. Percebi que eu mesma não estava. De repente, me vi diante do lado exterior. [Nota de Ogum: ela não recebeu permissão para descrever com detalhes o local onde havia residido por breve período]. Constatei que senti falta da vida, do vento correr pelos meus cabelos, das risadas. Quando me dei conta, lágrimas escorriam de meu rosto.

'Por que chora, bela moça?' Alguém se dirigiu a mim e, ao virar minha cabeça, vi uma mulher de aproximadamente 60 anos. Seus cabelos eram brancos e sua pele enrugada, mas sua aura emanava sabedoria. Seus olhos eram repuxados, seu nariz era longo e os lábios eram simpáticos. Usava, como a maioria dos presentes que passaram por mim desde minha chegada ali, branco no corpo.

'Sinto falta', admiti, sem ter o receio de contar a verdade. Não fazia mais sentido mentir. 'Dos que eu amei, acima de tudo'.

Ela me ofereceu um sorriso.

'Ou será que não sente falta do poder que costumava exercer?' Diante do choque com o qual recebi tão duras palavras, a mulher me indicou com a cabeça para segui-la. Relutantemente, a acompanhei e quando dei por mim, estávamos nós duas sentadas sob uma grande árvore com vista inexplicável para a galáxia.

'Vim de um povo que não era diferente do seu', ela me disse. 'Ao norte do norte, lá habitávamos tranquilamente. Mas o Homem é ambicioso como deve saber, criança. Nunca se contenta com aquilo que tem em mãos. Eis o problema da humanidade: quando deseja aquilo que não possui, recusa o que obteve. Nada a satisfaz, há uma constante busca por aquilo que teme, o desconhecido. Dali criam lendas, exortando à criação de um imaginário que reforça o valor material.'

Não demorei a perceber do que se tratava. Suspirei. Mas a mulher ainda sorria quando disse:

'Creio que entendeu de primeira o que digo. Isto é bom, poucos conseguem compreender tão rapidamente a mensagem. Como devo chamá-la?'

'Cecília', eu disse, ignorando os títulos que usava em vida. Novamente, percebi a invalidade deles e isso me entristeceu... porque reforçava o quão vazia havia sido, limitada de várias maneiras, na verdade.

'Cecília', a mais velha repetiu. 'Meu nome é Penélope. Foi o nome que procurei usar ao trabalhar aqui, nesta colônia.'

Ao encará-la, percebi que muitas perguntas me invadiam. Logo, verbalizei uma delas antes que pudesse me conter:

'Penélope, perdoe-me meus modos, mas... a senhora já teve várias vivências? Por isso está aqui?'

Penélope riu.

'Já vi aonde quer chegar. Está montando seu raciocínio baseado no que seus guias lhe contaram. Pois bem, não está errada. Estou atrasando minha próxima encarnação para trabalhar aqui. Quero ser útil aonde puder antes de voltar lá, o que será breve.'

Encarei-a com curiosidade.

'E isto pode ser possível?'

'Depende do grau de sua moralidade', ela ponderou quietamente. 'É verdade que poderia encarnar em outro planeta agora, mas tenho um carinho com este planeta e, como falei, gosto de ser útil.'

Quando ela disse isso, percebi que toda minha vida a religiosidade foi nada mais que instrumento de minha vaidade e meu orgulho, pecados que me assombravam. Diante do meu silêncio, Penélope disse:

'Seu pensamento é como um açoite. Por que é tão dura consigo mesmo, cara Cecília?'

'Eu me trouxe até aqui', foi tudo o que consegui dizer.

'Sim, é verdade', ela concordou. 'Mas agora está caminhando para a reabilitação. Isto não deveria ser motivo de júbilo?'

'Não consigo ver desta forma', eu admiti. 'Tudo o que eu acreditei... foram mentiras. Estou privada daqueles que amo. Eu....'

'Sente falta daquilo que conhecia, e você conhecia o poder', ela afirmou categoricamente como se completasse o que em meu íntimo pulsava com certidão. 'Por que pensa que está sendo privada de sua família? Não foi levada a um dos seus filhos? Sua avó não a recebeu e cuidou de você?'

Corei, se fosse possível. Penélope tomou minhas mãos nas dela e disse:

'Não estou a repreendendo, veja. Quero mostrá-la que não está sozinha, nem entre estranhos. Esta transição não é fácil, eu sei disso, mas Cecília... até quando vai ficar na posição de vítima? Diz reconhecer seus erros, mas e então?'

Ouvir aquilo era duro para mim. Respirei fundo e desviei o olhar, mas ela não fez o mesmo. Em vez disso, continuou:

'Sabe por que, de todas as encarnações, optei por esta? Os indígenas são simples, povo genuíno e desapegado voltado à Natureza. É claro que há entre eles os orgulhosos e maldosos como todo povo há. Aprendi muito com eles, filha, e vim a vós para ensiná-la isso também. A ser humilde e aceitar o destino com resignação. Nada é rígido e pré-determinado, mas o que podemos fazer com as opções que surgem diante de nós? Se lá embaixo, por quaisquer motivos que não me competem julgar, vos faltou esta sabedoria, aproveite sua estadia aqui e busque-a.'

'O que diz me faz sentido', eu falei, afinal. 'Mas gostaria de rever meus filhos, pedir-lhes perdão. Sei que para tudo há um tempo, mas...'

Não consegui completar a frase e novamente suspirei.

'Estais tão aflita por vossa família, vejo melhor agora', ela apertou minha mão gentilmente. 'Mas precisais curar-vos antes de tudo, filha. É por isso que está no hospital.'

'E se eu não conseguir me curar?' Indaguei, soando nervosa. 'Serei prisioneira?'

Ela tocou em meu rosto com afeto e imediatamente uma luz me invadiu. Senti calma e qualquer insegurança que havia me tomado, logo se dissipou.

'Os traumas estão surgindo, deixe-os vir. Para tudo, há etapas e elas devem ser cumpridas. Não estais sozinha, Cecília. Deus ouve, mesmo que não possa vê-Lo.'

E assim que Penélope retirou sua mão de minha face, chorei. Mas ela não me repeliu ou repreendeu-me por isto, ao contrário, envolveu-me em um abraço fraterno.
*                                                                                  *                                                                         *
Amanheceu no dia seguinte. Aos poucos, me adaptava à nova rotina daquele hospital. Interagia raramente com outras pessoas, embora Penélope vinha me fazer companhia, tornando logo o costume de me visitar todas as manhãs. Com ela fui aprendendo mais sobre mediunidade, aspectos espirituais da vida de uma entidade, o que eu era e o que eu fui. O que poderia ter sido. Mas era com minha avó Philippa que eu aprendia mais sobre as leis de Deus, a palavra de Cristo como era e não como foi interpretada segundo os costumes de cada época, manipuladas conforme as ambições dos homens embrutecidos.

Ainda que lentamente, me via mais tranquila conforme conversava com estas mulheres. Ensinavam-me muito sobre humildade e solidariedade, a julgar menos, a amar mais. A aceitar os outros como são, a me colocar em seu lugar. Acima de tudo, a perdoar. A mim mesma e aqueles que me fizeram mal.

Conforme ia me esclarecendo, um dia meu guardião retornou. Com sorriso nos lábios ele me recebeu e disse:

'Estou orgulhoso de vossos avanços, Cecília'

Enrubesci diante de seu elogio, mas sorri:

'Obrigada, senhor. Foi com muita luta, muito sacrifício, mas vejo que foi necessário para que me despojasse daquilo que fiz lá no passado. Ainda assim, preciso aprender mais.'

'Tenho certeza que sim. Escute, Cecília, vim aqui porque há algumas pessoas que gostariam de vê-la.'

No decorrer do que teria sido alguns anos para vós, o que me pareceu semanas ou meses, me esforcei em meu avanço moral para estar com minha família de novo. Esforcei-me genuinamente, apesar das dificuldades encontradas neste meio. Mas Deus, em sua misericórdia, permitiu que eu me encontrasse com Edward e George. Ambos haviam reencarnado, segundo me disseram, em uma mesma família (mas não me contaram detalhes) e seus respectivos guias os levaram ao plano espiritual novamente por merecimento para que pudéssemos nos ver. Embora não fossem permitido recordar-se novamente de quem haviam sido, naquele momento era como se fôssemos nós outra vez.

'Meus meninos!' eu exclamei e corri para abraçá-los.

Foi um momento significante, ainda que lamentasse pela ausência de todos os outros. Como Penélope havia me recordado, no entanto, tudo a seu devido tempo e eu aprendi a esperar por eles. Pela minha mãe, meu pai, meus irmãos, meus netos. Todos eles.

E quando cada um me abraçou em silêncio, embora em corpos diferentes daqueles que um dia os havia concebido, senti paz. E agradeci, às lágrimas, à Deus por aquele reencontro.

'Senhora mãe', meu primogênito disse. 'Sinto vossa falta'.

'Eu também, Ned', eu disse, usando o apelido que costumava chamá-lo. 'Mas nós nos reencontraremos, disso tenho certeza. Por favor, preciso pedir-lhe perdão.'

Ele me encarou, surpreso. 'Pelo quê?'

[Nota de Ogum: reencontros de familiares, independentemente do grau que pudessem ter forjado em circunstâncias variadas, podem acontecer como a senhora vem discorrendo. No entanto, vejam cá: Edward, seu primeiro filho, reencarnou antes da chegada de Cecília à colônia. Ele também passou por processos similares aos de George, seu irmão, e outros membros de sua família. Contudo, por algum motivo que não me compete pronunciar, saiu com menos demora do umbral àquele plano espiritual. Dadas as particularidades de cada entidade, sabe-se que, após a reencarnação, não há como recordar do passado ou, mais longe ainda, de nuances que ocasionaram em divergências espirituais. Com isso, é possível que Edward, embora tenha sido permitido recordar brevemente de quem havia sido ou pelo menos ter uma ideia da posição ocupada n'outra sociedade vivida ao reencontrar sua mãe de existência pregressa, não tenha se atentado ao que Cecília vinha remoendo. Isso só seria resolvido na posterioridade, quando Edward concluísse aquela reencarnação e os dois viessem a se reencontrar com mais certeza naquela colônia. Se Edward tampouco se recordava era porque Deus lhe fora misericordioso, pois havia muitas coisas a reparar sem tornar a lembrar de um passado que, naquele presente, lhe causaria dor desnecessária e provavelmente retardaria seu avanço moral. O mesmo se poderia dizer de George.]

Como ele não se lembrava, pelo bom senso inculcado a mim pelos guias espirituais, achei melhor não dizer nada. Mas, como se um pressentimento o incomodasse, foi ele mesmo quem assim disse:

'Eu a amo, mãe. O que quer que tenha feito, eu a perdoo. A senhora me perdoa?'

[Nota de Ogum: o espírito, vejam bem, pode guardar uma intuição da causa que levou à divergência com o outro de quem se depara no plano espiritual sem recordar-se desta com precisão. Neste sentido, movido por ela foi por que Edward foi inspirado a pedir perdão àquela que ele prontamente reconhecera como sua mãe de vida anterior.]

Aos prantos, eu concedi-lhe meu perdão, embora o houvesse perdoado antes mesmo daquele reencontro, achando-me, ao contrário, indigna de conceder-lhe qualquer escusa que fora feito contra mim porque fui orgulhosa, e colhi o que plantara. Abraçamo-nos e roguei para que os dois se amassem, respeitassem e seguissem genuinamente a lei de Cristo, a lei de Deus. Assim sendo, por breve que fosse aquele reencontro, nutri a esperança de revê-los... sempre no devido tempo.

(continua...)

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