Rio Grande do Sul, entre os anos de 1835 e 1845.
"Não me recordo de muitos detalhes e a precisão oblitera a memória de vez em quando, por isso peço paciência e compreensão conforme exponho meus erros, meus vícios e minhas virtudes em um período de tempo que o Brasil não mais recorda. Nesta quaresma, tive a oportunidade de refletir minhas ações pretéritas e agradeço por, enfim, ter sido possível ser resgatado das sombras a fim de servir à luz.
Permitam que eu me apresente. O nome que me foi dado nesta última vida foi José Bento Castro Alvez. Apesar do grande nome, não fui ninguém relevante e nem nasci em alguma família poderosa daqueles tempos imperiais. Na verdade, era o fruto de um ex-escravo alforriado e uma sinhá que deu sua vida à minha. O escândalo daquela relação foi abafado pelo pai dela que, afinal, optou por me adotar... desde que servisse no exército. Ou o que quer que significasse aquilo. A realidade mais crua se punha a mim da seguinte forma: meu pai fora livre, mas eu não o seria. Entregavam-me ao mundo onde meus irmãos de cor eram recriminados e subjugados como se nada significassem para os mais poderosos.
Não me lembro da infância vívida, mas a juventude se passou próximo aos pampas gaúchos. Havia uma pequena igreja onde a missa era rezada em uma língua que misturava o português com o espanhol e eu cultivei o hábito de frequentar os domingos do Senhor ao lado da senhora que me adotou como seu filho, embora fosse seu neto. Nunca perguntei o destino de meu pai de nascença, mas diziam que encontrar seu fim cedo demais, ou que os grandes deuses o haviam levado embora. Não me contavam muito, e eu achei mais seguro não questionar.
O vilarejo era pequeno e todos se conheciam. Nenhum evento significativo acontecia ali, e um dia os Alves decidiram que o mundo era maior do que aquilo e arriscaram a abandonar seu conforto para tentar a sorte em Laguna. Logo, os acompanhei. Havia diferença entre nós, é claro. Ninguém me tratava realmente como o filho da sinhá que era, eu sequer sabia seu nome. Minha avó, porém, sucumbia à piedade cristã e eventualmente se afeiçoou a mim. Quando seu esposo se ausentava, não era às filhas que fingiam pertencer à aristocracia que ela dirigia suas afeições, mas ao neto crioulo que todos tratavam com frieza.
--Sabe, filho, Cristo sempre ensinou que o amor deve ser repartido igualmente aos irmãos--ela contou--Sem qualquer distinção.
Mas eu pensava o seguinte: ela me amava porque Cristo pediu ou porque em seu coração sentia qualquer ternura genuína por mim? Ou, pior: seria este amor sincero ou apenas uma exibição fingida para ir aos Céus e contar a Ele o quanto me amou por ser quem era, independentemente de minha cor? Afinal, eu tinha meus motivos para suspeitar daquele discurso: sempre que o chefe da casa estava presente, esqueciam-se de minha humanidade e pediam para que realizasse determinadas tarefas. Deu-se brecha para que o rancor dali nascesse.
Eu era paciente, apesar disso lhes parecer resquícios de um temperamento que, em vidas anteriores, tornava insuportável (segundo me disseram) a convivência comigo. De todo modo, vivia em silêncio e ouvia. Aprendi a exercitar a audição e a visão: na ausência de palavras, meus caros, as ações (mesmo as desprovidas de som) são o termômetro do caráter de um sujeito. Por isso a desconfiança.
Contudo, eu também julgava demais. Não conhecia a dor pela qual a senhora em questão passou por toda a vida. Um dia, ela se abriria comigo, o que me fez amargar por crer que eu era superior às vaidades que minha avó ostentava.
--Quando era jovem, me apaixonei--ela me contou. Seu nome agora me escapa, infelizmente... (Nota de Ogum: este rapaz ainda está em processo de cura no plano de espiritual, tendo sido resgatado do umbral recentemente).--Ele era mais escuro que você e tinha um belo sorriso no rosto. Seu nome era Zé. Quando meu pai não via, escapava com o auxílio de minhas irmãs para bailar com ele. Zé era namorador, gostava de uma rosada--minha avó riu e eu me vi com os olhos arregalados, surpreso.
"Oras, acha mesmo que fui recatada durante minha vida inteira? Não, meu filho. Fui livre também. No que podia, desafiava os limites impostos ao meu sexo. Era corajosa e desafiadora... Mas, de todo modo, meu pai veio a descobrir e o escândalo... Não gosto de lembrar disso, foi terrível. Perdi meu Zé para todo o sempre e se evitei uma vida trancada no convento foi por intermédio de minha mãe."
Encarei-a, sem saber o que dizer. Perguntei a mim mesmo se era por esta razão que eu levei o nome de José. Que importava? No entanto, daquele dia em diante, nós forjamos um laço mais sincero e permanecemos juntos até o fim de seus dias.
Ainda tenho dificuldades de lembrar que tipos de atividade cumpria em Laguna. Não ficávamos próximos ao mar por questões de segurança. Como falei, a família não era rica como gostava de aparentar. Enfim, foi por essas bandas que soube das tensões cada vez mais crescentes entre o regente do Imperador e o Rio Grande do Sul. Sob a liderança de Bento Gonçalves, os chamados gaúchos enviavam constantemente suas demandas ao poderio imperial, que se situava no Rio de Janeiro. No entanto, como é de costume na história dos homens, relações políticas dificilmente olhavam de bom grado aos que necessitavam, por tanto que logo os idealistas do Sul perceberam que uma república separatista responderia melhor do que uma autoridade centrada em uma pessoa, ainda que Dom Pedro II fosse inocente das ambições descomedidas daquele que reinava em seu nome.
A guerra civil explodiu e foram dias sangrentos. Infelizmente, ou felizmente, não vivi o suficiente para ver seu crepúsculo e que fim levou. No entanto, conforme me situo aqui, percebo com desgosto que não deu em nada. E isso deveria surpreender a alguém como eu?
Éramos todos idealistas. Acreditávamos que somente os sulistas compreendiam uns aos outros. Recordo-me brevemente de que Bento Gonçalves almejava tal estado de liberdade que inspirava todos os homens de várias camadas sociais a segui-lo. Se minha memória não falha, ele era abolicionista também. Isto décadas antes da princesa Isabel ter assinado a lei que pretendia pôr fim de uma vez por todas neste sistema nojento escravatório [sic] que, infelizmente, foi um dos pilares da monarquia luso-brasileira.
Em Bento e seus cabelos cacheados, olhos furiosos que... não, permitam que eu substitua este adjetivo ambíguo. Seus olhos eram apaixonantes e convidativos para a luta que pretendia travar. Ele não pretendia levar o debate ideológico para as armas, ciente das vidas que provavelmente perderia para um poder dominador. Embora os três estados do Sul do país se reunissem como um, nada era páreo para o Império que subjugou as vastas terras do Brasil sob um único regime.
Como dizia, Bento era carismático. Havia uma aura ao seu redor de um sujeito que caminhava para fins diplomáticos, despojando-se da belicosidade que, entretanto, deixava sua marca na alma. Não me surpreenderia se dissessem que sua vida revolucionária houvesse um dia o conduzido a outros tipos de revoluções que marcaram a humanidade, propulsionando determinados marcos que contribuíram para seu avanço. Isso digo com intuição, não com afirmação. Meu estado moral é limitador e não permite que entreveja mais do que os guias da médium auxiliam ver.
Não lembro como eu, o sinhô e a sinhá fomos, uma vez casadas o restante de suas filhas, rumo ao encontro deste líder tempestuoso. Não me aproximei porque o sinhô não permitiu, e eu optei pela distância respeitosa a despeito da curiosidade. Em um mundo como aquele, qualquer aproximação de um não-branco era vista com suspeitas. É irônico constatar isso mesmo sabendo que lutavam por uma liberdade segundo os moldes do continente europeu.
Mas havia outro motivo para me manter afastado: sinhá padecia de uma doença estranha, que mais tarde reconheceria como tuberculose. E ela pedia que eu não a deixasse ao encargo de outras moças. Tampouco recusou que enviasse uma carta às próprias filhas. Percebi, não sem algum lamento, que era uma ligação com seu passado, que nunca se tornou presente porque o pai interferiu em seu livre-arbítrio de uma maneira negativa. Quando as leis de espíritos brutos falam mais alto que o amor... mede-se aí o estado das coisas. Eventualmente, ela desencarnou, mas foi melhor do que testemunhar o conflito sangrento que mancharia os pampas gaúchos por uma década.
Nunca me casei nem me apaixonei. A missão a que vim era voltada para purificar-me de pecados pretéritos. Auxiliei no que podia com os soldados mortos, aqueles que disputavam por posições --e também, consequentemente, morriam por isso. Ainda posso ouvir os gritos de guerra, os tiros trocados, as barricadas.
--PELO SUL!--bradou um e seu grito de guerra ecoou pelos soldados moribundos.
--PELO SUL!
--PELA LIBERDADE!--gritei e fui seguido por um coro que repetia as mesmas palavras.
A liberdade era um conceito que enlouquecia o mais são dos homens, motivava os mais conformados e embravecia os covardes. Por ela surgiram revoluções, caíram governos, estabeleceram tantos outros. Naquele tempo, plantávamos a semente para um futuro republicano, sem saber aonde isso nos levava.
A igualdade, entretanto, não era muito bem vista dentro da liberdade ou da fraternidade. Os homens brancos que ali batalhavam contra o império do Brasil para fundar a república gaúcha, tinham em suas propriedades negros escravizados. Muitos deles os tratavam como coisas, embora a maioria houvesse lhes sido indiferentes como foi o caso do meu sinhô. E deveria surpreender a hipocrisia que acompanha a humanidade a cada ideologia levantada e defendida cegamente? E, no entanto, fui diferente destes que critiquei?
A adrenalina ocupava minha mente e me impedia de fazer estas reflexões que agora faço. Talvez elas sempre estiveram lá. Em meio à bravura, era invisível. Não havia distinção de cor quando usávamos o mesmo uniforme, tomávamos em armas e atirávamos no inimigo. É de envergonhar rever as cenas em que esperava matar os realistas tanto quanto possível. Em retrospectiva, perguntaria a mim mesmo: a liberdade que diz defender é a mesma que prega a morte de seu inimigo? Não é a bandeira de seu aliado que massacra seus irmãos diretamente?
Sistemas são sistemas, assim como crenças são crenças. O material é formado pelo e para o homem em evolução. Na falta da autocompreensão, prevalece o extremismo. Vejam como a república matou tantos quanto a monarquia! O que é correto? Qual é o mais adequado? Muitos dirão que a república (do grego res- pública, poder ao povo) é o ideal. Mas é isso que é, ideal. Que Platão me perdoe por emprestar seu nome, mas é nada mais que platônico. Não existe igualdade quando os indivíduos são diferentes. Eu vivi isso. Em tempos onde a cor importava mais que o caráter, os que bradavam pela igualdade e desdenhavam dos que permaneciam no poder eram os mesmos que praticavam tal desfortúnio com seus semelhantes negros.
Isto me cansa. Mas notei que a experiência grega ainda me é muito marcante, tendo sido um filósofo nos tempos de Platão. Não deveria me surpreender, de todo modo... Surpreende. Voltemos à narrativa, por gentileza. Como dizia, o sangue dos homens liberais manchava o verde da natureza. Antes de "ordem e progresso", existia uma desordem e regresso. Entrementes, a indagação persiste e mesmo então eu não concordava com tais dizeres. Teriam aqueles soldados lutado pela libertação dos meus irmãos?
Bento Gonçalves, sei que sim. Teria. Aquele foi um comandante ocupado demais e pressionado para resolver as demandas dos mais radicais. Dizia-se que em sua casa havia sete mulheres. Era apaixonado pela esposa, a despeito dos rumores de infidelidade. Ninguém é perfeito, mas a mentalidade da época era mascarada pela hipocrisia terrena. Eu não escapei dela, prezados leitores! Oh, não! Sucumbi ao orgulho que voltava para me ferir o bom senso, pois que me achava melhor do que meus companheiros de armas. Como também das mulheres. A única que respeitara de fato havia sido a sinhá. Nenhuma outra, portanto, conquistara-me da mesma forma e não digo no sentido romântico da palavra.
Como falei antes, a liberdade enlouquecia o mais são dos homens. Eu fui tentado e corrompido por este ideal. Não suportava ver as mulheres serem subjugadas como nós, os negros escravizados, éramos por homens brancos. Poderão lembrar-se de Anita Guaribaldi. Corajosa, mulher de Laguna. Mas nunca a conheci. Nossos caminhos não se cruzaram.
Havia poucos dias em que a belicosidade dos homens permitia que se extinguisse as batalhas. Não à toa durou dez anos. Em minha memória, tudo o que conheci foram dias de guerra. Fome, frio, verão, instabilidades que não dependiam de mim muitas vezes para melhorar o moral dos homens. Conforme minha tropa seguia norte, era preciso estar atento constantemente. O silêncio andava a meu favor quando, em raros momentos, o desânimo propiciava um surgimento de uma rebelião. Isso aconteceu quando Bento Gonçalves foi preso. Deus sabe somente como foi possível ele escapar.
Perdoem-me a falta de fé que tinha na humanidade. Ela fala mais alto que eu, por vezes, resultado do orgulho que anseio por extirpar. Mas não me culpo por isso, foram dias duros, como falei. Fui cruel na guerra porque explodia meu rancor aos inimigos que, muitas das vezes, obedeciam ordens como eu. No final da guerra, eu não me importava mais com a liberdade, a república, com mais nada. Era inverno quando comentei com meu pessoal:
--Somos de uma raça forte, rapazes. Não vejo fim para isso, mas não seremos esquecidos.
Roberto, um companheiro meu, me encarou. Em seu rosto marcados por cicatrizes, a desilusão pairava nos olhos acinzentados. Seu nariz quebrado não suavizava o semblante e posso me lembrar que ele não sorria porque perdera metade dos dentes. Seu uniforme era o mesmo desde o princípio, sendo remendado pelas fiandeiras que costumávamos encontrar pelo interior. Mas não tinha o hábito de se limpar e quem teria? Naqueles tempos, nossa preocupação consistia em sobreviver e ganhar a guerra. Seu retrato era o de tantos homens que viam que tantos homens haviam morrido para nada. A qualquer momento seríamos dispensados e rechaçados como traidores contra Vossa Majestade.
--Creio que seremos, José. Sabe por que? A História se recorda dos grandes feitos, independentemente de quem quer que tenha os levado a cabo. Os guerreiros que serviram Alexandre, o Grande, quem foram? Ou os que acompanhavam e aconselhavam Napoleão. Quem sabe seus nomes? Ninguém. Vejo que o frustra este preconceito de cor e não o culpo. Os negros gaúchos também serão submetidos a um esquecimento porque, assim como nós, fomos nada mais que instrumentos de guerra.--Ele suspirou e sua voz reforçava o cansaço que o abatia--Eu acredito na causa e não mudaria o rumo se, anos atrás, alguém me dissesse que este seria o fim que levaria. Não me arrependo, bom amigo. Nada foi em vão, penso eu.
--Tenho esperanças de que o imperador seja melhor aconselhado--eu comentei, pensando em voz alta--Uma fagulha de bons pensamentos me impedem de desistir agora. No mais, tem razão. Esquecerão dos negros e brancos iguais. Mas Bento Gonçalves merece o mérito.
E foi pela primeira vez em anos que vi Roberto sorrir. Era um sorriso desdentado, porém acalentava mais que a fogueira.
--Sim, ele merece. Por ele, morreria mil vezes. É um bom homem.
--Sim, ele é--concordei.
E em silêncio ficamos. Naquela noite, sofreríamos um ataque surpresa dos realistas e pela última vez, lutaríamos pelo ideal libertário de uma república gaúcha. Desencarnamos juntos como haveria de ser, embora minha dificuldade em aceitar a morte e a perda de meus amigos tenha-me impedido de revê-los.
No entanto, conforme me esclarecia, e continuo a ser devidamente educado nos aspectos espirituais, percebia os erros cometidos, mas não me envergonho porque eles me fizeram ser quem eu sou. E se todo Nero pode um dia a vir ser um Gandhi, retenho a esperança de ser o Platão que um dia conheci.
Agora, é hora de partir. Estou em paz desta vez e agradeço à médium e aos seus guias espirituais pela chance de falar e ser ouvido. Por mais que minha causa não tenha dado frutos, a liberdade ainda hoje é algo pelo qual defenderia. Sem ela, como podemos ser nós mesmos? Pelo direito de expressar e ser respeitado é onde este conceito interfere positivamente. Ainda há muito o que aprender, e desejo abertamente prosseguir no caminho do conhecimento. A belicosidade não me pertence mais e nem toda guerra precisa de batalhas para vencer.
Outra vez, agradeço. Por um mundo terreno melhor, onde não haja distinções de cor e gênero. Que prevaleça o amor ao próximo como o mestre amado Cristo nos instruiu. Abraços, meus confrades! De seu amigo, José Castro."
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