Nota de Ogum: aqui estamos na parte final de nosso trabalho com a senhora Cecília, que se prestou a comparecer para dar sua palavra antes que seja guiada a outro desenvolvimento pela colônia onde está instaurada. Como de costume, me manifestarei quando achar ser pertinente.
"Embora houvesse resolvido minhas questões com os filhos cuja rivalidade fui a principal responsável, a paz me escapava ao tomar ciência de que não reencontraria os outros de quem sentia falta. O guardião que me seguia, assim explicou:
'Cada um deles foi responsável por suas ações. Embora tenhais sido a mãe, a genitora, são espíritos que precisam, também, de "correção", se assim compreendeis.'
'E é por isso que não verei Richard?' Eu perguntei, aflita.
'Sinto muito, Cecília, mas a espiritualidade acredita, segundo as leis de Deus, que tudo será no tempo do Pai.'
Suspirei. 'Longe de mim querer questioná-Lo. Eu só...'
'Sente a ausência dele, eu sei'. Ele disse, compreensivo. 'Mas tudo em seu tempo'.
'Quanto aos outros filhos? Edmund? Anne? Ou mesmo Margaret?'
O guardião apenas fixou seus olhos bondosos em mim e limitou-se a dizer:
'Tudo no tempo de Deus. Venha, Cecília. Há atividades que devemos exercer agora. Verás que não há ócio do lado de cá. Aqui, estamos constantemente ocupados, uma vez que a caridade não deve esperar nossa boa vontade se manifestar.'
Embora entristecida por não ver meus filhos, ou meus irmãos e irmãs, nossos pais, apenas assenti e o acompanhei. Era hora de seguir em frente e eu estava cansada do passado. O ambiente era bem agradável: jardins bem podados, pomares adequadamente alocados próximos a bancos para que os espíritos se sentassem. No centro, havia um chafariz, cujo epicentro se verificava a estátua de um anjo: de sua boca, caía a água como cascata.
À primeira vista, os jardins eram bastante extensos, o suficiente para fazer-me pensar que estava diante de uma produção infinita de flores, árvores e seus frutos. Uma pequena multidão dispersa passeava tranquilamente por entre aqueles corredores verdes: vi vários jovens de branco que acompanhavam senhores, idosos, e em suas feições estampava uma alegria tão pura e sincera que fazia tempo não ver algo assim. Um cenário tão simples, e tão cativante.
'Aqueles idosos', o guardião se apressou a me explicar ao acompanhar o meu olhar, 'são entidades que, na Terra, sofreram caminhos tortuosos. Seja através de doenças incuráveis, ou outros tipos de expiação, compreendem agora que foram suas escolhas que os trouxeram aqui. Estão em paz consigo próprios e é provável que vão reencarnar em outro plano espiritual.'
É bem verdade que eu estava curiosa quanto ao "outro plano espiritual" do qual dizia, mas eu não insisti. Uma intuição me alertava de que não era hora de saber do que aquilo se tratava. Não ainda.
'E por que eles permanecem na velhice? Não estou como morri na Terra', eu comentei, genuinamente intrigada. Embora não fosse jovem, tampouco meu perispírito permanecera da mesma maneira como deixara a vida naquele tempo, enrugada e com fraqueza no corpo. Assemelhava-me ao que fora nos meus trinta ano. Pensar nisso, mesmo agora, não me traz nenhum tipo de orgulho ou vaidade: a verdade é que é quase engraçado constatar tal adequação espiritual.
'Eles preferiram continuar naquele estágio porque isso os recordaria de que a vida carnal é findável, um contraste com o espírito, que é imortal. Logo, isso os recomendaria a exercitar a empatia e a virtude da paciência: tendo a experiência de ter vivido todos os ciclos da vida terrena, saberiam como conduzir os mais jovens sem fazer juízo de valor.' Ele explicou. 'Mesmo aqui, a bondade não encerra suas atividades. Alguns poderiam atuar como meros velhos com a finalidade de guiar os jovens à sabedoria, como veremos, mas outros que veis,experimentarão outro lugar antes de atuarem neste campo.'
[Nota de Ogum: para o leitor mais atento e o estudioso da umbanda, verão aqui a falange dos pretos velhos ser mencionada bastante sutilmente pelo guardião, ou exú, da senhora Cecília. Quando ele se refere às entidades que possam optar por reencarnar em outro lugar (como, por exemplo, em planetas mais avançados tais qual Júpiter e Saturno, ou em sistemas planetários mais evoluídos) ou permanecer na colônia a fim de "guiar os jovens à sabedoria", nada mais é do que espíritos que atingiram sua 'quota' de processos reencarnatórios. Isso não significa dizer, como foi bem pontuado acima, que os trabalhos espirituais se encerraram. Ao contrário: guiar outro ser humano é uma tarefa complicada e que precisa de vários recursos. Em se tratando da Terra em particular, sabem, por uma literatura abrangente que há sobre o assunto, que os seres que não mais reencarnam e possuem uma vibração elevadíssima, sofrem certas dificuldades para se adequar à vibração deste plano. Nesse sentido, precisam "abaixar" para que possam trabalhar com a densidade dos espíritos que aqui vivem. É uma complexidade que não pretendo me alongar, mas deixo cá a recomendação para o estudo disso. A questão central sobre a qual pretendo dizer diz respeito aos espíritos que desejaram permanecer como deixaram seus corpos em sua encarnação final (ou, como acontece de forma similar, optaram por aquele tipo de "roupagem") a fim de se aproximarem dos mais humildes, que precisam de uma palavra amiga mas que, infelizmente, a formalidade de grandes religiões não permitem. O que a senhora Cecília testemunhou foi a preparação destas entidades para seus trabalhos, ainda que direcionada de maneira diferente como acontece com esta falange no Brasil. Independentemente destas particularidades, no mundo espiritual, não há diferenças: o que deve prevalecer é a vontade em ajudar, o amor ao próximo e, claro, a caridade.]
Mas foi rumo à determinada casa, de arquitetura no mínimo curiosa e diferente do que conhecia, e cujas palavras em vosso vocabulário não há algo que expresse com precisão o que vi, que fui conduzida. Em frente ao mar, sua construção era muito moderna, mais do que vossos dias. Lá dentro, era quase como se fosse um hospital, onde a presença de indivíduos adoentados era acompanhada, supervisionada por médicos ou outros conhecedores da área da cura espiritual. Não me surpreendi ao ver que estavam todos de branco. Mas o guardião que me acompanhava assim falou:
'Ficareis aqui agora', ele disse. 'O que achais?'
'Ficareis aqui agora', ele disse. 'O que achais?'
Olhei-o, confusa.
'P-Por quê?'
Ele sorriu e, logo, explicou:
'Não precisa se preocupar, Cecília. Estais a salvo aqui, e é claro que não vos forçarei a ficar por aqui se não desejardes. No entanto, permita-me explicar que a dinâmica daqui é diferente. Serais doutrinada no estudo dos espíritos para que possas compreender todo o processo pelo qual passou de sua recente encarnação ao desencarne e por quê "sofreu" no umbral por uma quantidade de tempo'.
Senti um ímpeto do orgulho passado vir em minha língua, tentada a retrucar "e se eu não quiser?", mas controlei meus pensamentos subitamente. Não havia nada naquele homem que não fossem suas boas intenções e eu não deveria retribuí-las com mau agrado. Na verdade, depois de tudo o que havia visto até então, deveria me envergonhar de permitir que pensamentos daquela natureza surgissem em minha mente. Suspirei, e como se pudesse perceber o que se passava comigo, João tomou minhas mãos nas dele e disse, calmamente:
'Não há motivo para que vos pressione a ser um indivíduo melhor. Não precisamos que sejais perfeita: isso seria impossível, visto que somente o Grande Pai é perfeito. Não desejamos que se autoflagele com a culpa que carregais. Esqueçais isso, Cecília. O passado não pode atormentá-la aqui e agora se assim quiserdes. Ofereço uma oportunidade a vós, como o Pai ensinou. Todos possuem o direito de redenção se assim quiserdes.'
Quando dei por mim, estava chorando. Suas palavras haviam tocado meu coração.
'Não sou merecedora de perdão, nem de redenção.'
Ele se aproximou de mim e envolveu seus braços ao meu redor. Nada falou por alguns minutos, permitindo que pranteasse o quanto tempo fosse preciso. Quando o choro cessou, ele disse:
'Todos nos somos merecedores de perdão. Conheço-vos há mais tempo do que pensais, Cecília, e sei que há uma faísca de luz aí dentro. Deixe-a sair, permita que ela faça sua aura brilhar. Outras chances para remendar os erros virão, mas tudo conforme a vontade de Deus. Não há pressa. Tudo na vida é um processo, e não cabe a nós adiantá-lo ou retardá-lo. Os erros são necessários para que possamos subir o pedestal e, a partir deles, melhorar e corrigir. Isso nunca termina. A vida como tal é infinita. Sois filha do Pai também, abrace sua piedade e sabeis perdoar a vós mesma.'
'Como faço isso?' Ouvi-me murmurar.
João se afastou de mim gentilmente e disse:
'Aceitando que sois filha do Pai, parte de Sua criação. Feita com amor e carinho, mas também com inteligência. Isto é: foi imperfeita, desviou-se do caminho várias vezes, mas nunca perdeu a fé naquele que vos criou. E como o Pai que amanha seu filho, por que Ele o relegaria ao sofrimento após tantos descuidos? Vós não perdoastes vossos filhos por terem seguido caminhos próprios que, no entanto, causaram-lhos tanta dor que poderia ser evitada? Vós esqueceríeis de vossos rebentos se acaso, após vos desagradar, regressassem ao seio materno? Já entrevejo em vosso pensamento o que crieis, Cecilia. A analogia, com todo o cuidado, é a mesma. Vosso Pai não a puniria nem a enviaria ao inferno para sofrer tormentos indescritíveis.' Ele riu. 'Isso não condiz com a bondade infinita, a compaixão e o amor que o Pai tem pelos filhos que habitam suas diversas moradas.'
Emocionada, chorei outra vez. A infelicidade não me abatia, mas a sensação do amor divino que lavava minha alma. Tão puro, cheio de luz, eu senti Nosso Pai. Sua presença foi mais real ali do que em minha lamentável existência em Terra. Afinal, compreendi e aceitei ser doutrinada. João disse que aquela tarefa caberia a outro mentor meu, que eu viria logo a conhecer. Ou, como disse, "reconhecer". Entristeci-me de saber que partiríamos, mas João assegurou-me de que não me abandonaria. Apenas tinha outros trabalhos que pediam sua atenção por ora.
Assim, ele me deixou e eu prossegui mais adentro daquela grande casa. Atravessei um corredor, observando diversas pessoas de cores, auras, personalidades diferentes, todas elas cooperando e co-habitando tal lugar com tamanha amabilidade que me intrigou. Quando dei por mim, todavia, estava no jardim, que se situava no centro daquele casarão, cercado de vidros, mas que permitia a luz exterior e o vento entrar e balançar as folhas das poucas árvores que ali existiam.
Em um banco acinzentado, me sentei e ali fiquei só, por um momento. Contemplei minha existência pregressa e me perguntei quem teria sido nas vidas anteriores, mas percebi que não gostaria de saber. Na verdade, não me importava. Apenas agradecia a Deus por uma segunda chance, pela oportunidade de me redimir.
Assim, não vi que um jovem e belo rapaz vinha em minha direção. A calma em seu semblante e a forma com a qual a luz o cercava prontamente me chamaram a atenção. Em seus olhos verdes, vi os meus. Mordi o lábio inferior ao reconhecê-lo, mais alto do que minha memória o guardava. Aquele era Edmund, meu segundo menino, quem eu perdi para a espada ao que parecia ser tantos e tantos anos atrás.
'Senhora mãe', ele me recebeu com um entusiasmo e um sorriso no rosto quando o abracei. Ainda recordo de seu cheiro de pétalas de rosas brancas. 'Como tem estado?'
'Melhor agora que o vejo aqui. Ah, meu rapaz.' Eu funguei, e logo vi que chorava novamente. Eu, que nunca pranteava em vida, recusava a ceder minhas emoções ao público, agora punha toda as emoções para fora. Se éramos vistos assim, não me importava. 'Você está aqui.'
'Estou, mãe. E em paz.' Ele sorriu, seus cabelos curtos lhe dando uma aparência mais madura. Edmund estava tão... diferente. 'Gostaria de agradecer pelas suas preces, mãe. Elas me ajudaram bastante naqueles dias. Apaziguaram o estupor que foi o desencarne, mas não demorei a compreender porque o ocorrido foi importante para mim.'
Franzi o cenho, confusa.
'V-Você foi parar no umbral também?'
Ele sacudiu a cabeça em negação.
'Não, mãe. Mas quando desencarnei, a dor ainda me cercava com muita intensidade. Fui levado imediatamente ao hospital, e eu continuava a rezar para que a ferida parasse. Quando parou, meus guias vieram me encontrar e explicaram tudo. Foi importante que morresse pela espada porque em outra vida causei a dor em outra pessoa fazendo o mesmo. Se não me engano, isso foi na Guerra dos Cem Anos.' Edmund sorriu. 'Por isso, meu pai desencarnou comigo. Ele, meu tio e meu primo. Em conjunto com outros soldados, é claro.'
Ele se referia a uma batalha que deu início à guerra civil entre as casas aristocráticas na Inglaterra medieval. Foram tempos sombrios e sangrentos, e eu havia sobrevivido aos meus irmãos, à maior parte dos meus filhos e ao meu esposo. Vivi demais, e a lembrança era como um açoite. Assenti com pesar diante do que ele me dizia com tanta tranquilidade.
'Por que continua carregando a culpa pelos descaminhos dos outros, mãe?' Edmund me perguntou, gentilmente. 'Precisa se desapegar disso. Enfrente e prossiga, a vida é assim'.
Inconscientemente, levei uma mão aos olhos para enxugá-los das lágrimas que insistiam em surgir.
'Não consigo. Não é fácil para mim, Edmund.'
Ele aquietou por um momento antes de compreender a dor que ainda me assombrava.
'Venha, mãe. Precisamos estudar. Isso será um auxílio para seu melhor entendimento. Assim, improvará, espero.'
'P-Por quê?'
Ele sorriu e, logo, explicou:
'Não precisa se preocupar, Cecília. Estais a salvo aqui, e é claro que não vos forçarei a ficar por aqui se não desejardes. No entanto, permita-me explicar que a dinâmica daqui é diferente. Serais doutrinada no estudo dos espíritos para que possas compreender todo o processo pelo qual passou de sua recente encarnação ao desencarne e por quê "sofreu" no umbral por uma quantidade de tempo'.
Senti um ímpeto do orgulho passado vir em minha língua, tentada a retrucar "e se eu não quiser?", mas controlei meus pensamentos subitamente. Não havia nada naquele homem que não fossem suas boas intenções e eu não deveria retribuí-las com mau agrado. Na verdade, depois de tudo o que havia visto até então, deveria me envergonhar de permitir que pensamentos daquela natureza surgissem em minha mente. Suspirei, e como se pudesse perceber o que se passava comigo, João tomou minhas mãos nas dele e disse, calmamente:
'Não há motivo para que vos pressione a ser um indivíduo melhor. Não precisamos que sejais perfeita: isso seria impossível, visto que somente o Grande Pai é perfeito. Não desejamos que se autoflagele com a culpa que carregais. Esqueçais isso, Cecília. O passado não pode atormentá-la aqui e agora se assim quiserdes. Ofereço uma oportunidade a vós, como o Pai ensinou. Todos possuem o direito de redenção se assim quiserdes.'
Quando dei por mim, estava chorando. Suas palavras haviam tocado meu coração.
'Não sou merecedora de perdão, nem de redenção.'
Ele se aproximou de mim e envolveu seus braços ao meu redor. Nada falou por alguns minutos, permitindo que pranteasse o quanto tempo fosse preciso. Quando o choro cessou, ele disse:
'Todos nos somos merecedores de perdão. Conheço-vos há mais tempo do que pensais, Cecília, e sei que há uma faísca de luz aí dentro. Deixe-a sair, permita que ela faça sua aura brilhar. Outras chances para remendar os erros virão, mas tudo conforme a vontade de Deus. Não há pressa. Tudo na vida é um processo, e não cabe a nós adiantá-lo ou retardá-lo. Os erros são necessários para que possamos subir o pedestal e, a partir deles, melhorar e corrigir. Isso nunca termina. A vida como tal é infinita. Sois filha do Pai também, abrace sua piedade e sabeis perdoar a vós mesma.'
'Como faço isso?' Ouvi-me murmurar.
João se afastou de mim gentilmente e disse:
'Aceitando que sois filha do Pai, parte de Sua criação. Feita com amor e carinho, mas também com inteligência. Isto é: foi imperfeita, desviou-se do caminho várias vezes, mas nunca perdeu a fé naquele que vos criou. E como o Pai que amanha seu filho, por que Ele o relegaria ao sofrimento após tantos descuidos? Vós não perdoastes vossos filhos por terem seguido caminhos próprios que, no entanto, causaram-lhos tanta dor que poderia ser evitada? Vós esqueceríeis de vossos rebentos se acaso, após vos desagradar, regressassem ao seio materno? Já entrevejo em vosso pensamento o que crieis, Cecilia. A analogia, com todo o cuidado, é a mesma. Vosso Pai não a puniria nem a enviaria ao inferno para sofrer tormentos indescritíveis.' Ele riu. 'Isso não condiz com a bondade infinita, a compaixão e o amor que o Pai tem pelos filhos que habitam suas diversas moradas.'
Emocionada, chorei outra vez. A infelicidade não me abatia, mas a sensação do amor divino que lavava minha alma. Tão puro, cheio de luz, eu senti Nosso Pai. Sua presença foi mais real ali do que em minha lamentável existência em Terra. Afinal, compreendi e aceitei ser doutrinada. João disse que aquela tarefa caberia a outro mentor meu, que eu viria logo a conhecer. Ou, como disse, "reconhecer". Entristeci-me de saber que partiríamos, mas João assegurou-me de que não me abandonaria. Apenas tinha outros trabalhos que pediam sua atenção por ora.
Assim, ele me deixou e eu prossegui mais adentro daquela grande casa. Atravessei um corredor, observando diversas pessoas de cores, auras, personalidades diferentes, todas elas cooperando e co-habitando tal lugar com tamanha amabilidade que me intrigou. Quando dei por mim, todavia, estava no jardim, que se situava no centro daquele casarão, cercado de vidros, mas que permitia a luz exterior e o vento entrar e balançar as folhas das poucas árvores que ali existiam.
Em um banco acinzentado, me sentei e ali fiquei só, por um momento. Contemplei minha existência pregressa e me perguntei quem teria sido nas vidas anteriores, mas percebi que não gostaria de saber. Na verdade, não me importava. Apenas agradecia a Deus por uma segunda chance, pela oportunidade de me redimir.
Assim, não vi que um jovem e belo rapaz vinha em minha direção. A calma em seu semblante e a forma com a qual a luz o cercava prontamente me chamaram a atenção. Em seus olhos verdes, vi os meus. Mordi o lábio inferior ao reconhecê-lo, mais alto do que minha memória o guardava. Aquele era Edmund, meu segundo menino, quem eu perdi para a espada ao que parecia ser tantos e tantos anos atrás.
'Senhora mãe', ele me recebeu com um entusiasmo e um sorriso no rosto quando o abracei. Ainda recordo de seu cheiro de pétalas de rosas brancas. 'Como tem estado?'
'Melhor agora que o vejo aqui. Ah, meu rapaz.' Eu funguei, e logo vi que chorava novamente. Eu, que nunca pranteava em vida, recusava a ceder minhas emoções ao público, agora punha toda as emoções para fora. Se éramos vistos assim, não me importava. 'Você está aqui.'
'Estou, mãe. E em paz.' Ele sorriu, seus cabelos curtos lhe dando uma aparência mais madura. Edmund estava tão... diferente. 'Gostaria de agradecer pelas suas preces, mãe. Elas me ajudaram bastante naqueles dias. Apaziguaram o estupor que foi o desencarne, mas não demorei a compreender porque o ocorrido foi importante para mim.'
Franzi o cenho, confusa.
'V-Você foi parar no umbral também?'
Ele sacudiu a cabeça em negação.
'Não, mãe. Mas quando desencarnei, a dor ainda me cercava com muita intensidade. Fui levado imediatamente ao hospital, e eu continuava a rezar para que a ferida parasse. Quando parou, meus guias vieram me encontrar e explicaram tudo. Foi importante que morresse pela espada porque em outra vida causei a dor em outra pessoa fazendo o mesmo. Se não me engano, isso foi na Guerra dos Cem Anos.' Edmund sorriu. 'Por isso, meu pai desencarnou comigo. Ele, meu tio e meu primo. Em conjunto com outros soldados, é claro.'
Ele se referia a uma batalha que deu início à guerra civil entre as casas aristocráticas na Inglaterra medieval. Foram tempos sombrios e sangrentos, e eu havia sobrevivido aos meus irmãos, à maior parte dos meus filhos e ao meu esposo. Vivi demais, e a lembrança era como um açoite. Assenti com pesar diante do que ele me dizia com tanta tranquilidade.
'Por que continua carregando a culpa pelos descaminhos dos outros, mãe?' Edmund me perguntou, gentilmente. 'Precisa se desapegar disso. Enfrente e prossiga, a vida é assim'.
Inconscientemente, levei uma mão aos olhos para enxugá-los das lágrimas que insistiam em surgir.
'Não consigo. Não é fácil para mim, Edmund.'
Ele aquietou por um momento antes de compreender a dor que ainda me assombrava.
'Venha, mãe. Precisamos estudar. Isso será um auxílio para seu melhor entendimento. Assim, improvará, espero.'
Assenti com a cabeça. Seria Edmund o meu mentor? Mas, como se lesse meus pensamentos, ele riu e negou. Sua risada era doce e desprovida de preocupações. De repente, em meu peito se encheu um amor maternal que, em vida, gostaria de tê-la exibido a despeito das convenções do passado.
'Não se culpe, mãe. Está tudo bem', ele me tranquilizou. Havíamos parado diante de uma porta que nos levaria a uma sala pequena, mas Edmund não entrou. Em vez disso, ele me deu um abraço apertado e, tal qual João, me assegurou que nos veríamos novamente no futuro. Teria de partir por ora para que cumprisse seus deveres e seguisse a fazer caridade. Orgulhosa do homem que se tornou, percebi que, de fato, o amor genuíno e verdadeiro abria meus olhos e que era preciso que eu me perdoasse pela pessoa que havia sido no passado.
* * *
Antes das decodificações de Kardec e sem ter tido qualquer contato com este bondoso homem, fui permitida a ser lecionada com profundidade nos aspectos que tornam ser um médium. Não obstante, aprendi mais a respeito da caridade como Nosso Senhor Jesus nos ensinou: fazer o bem sem olhar a quem. Foi um processo longo e não muito fácil, admito, perceber onde errei. Havia momentos em que desejava escapar deles, mesmo dos crimes cometidos muito antes de vir a ser a duquesa Cecília. E, no entanto, meus guias permaneceram ao meu lado no decorrer de toda a doutrinação. Fui esclarecida apropriadamente, segundo o meu merecimento e o estágio moral de meu espírito. Nem a tudo pude entrever, é, afinal, um trabalho constante. Não estou no ócio e recontar isso tudo tampouco o seja. Tomo como dever alertar os jovens e os mais maduros do que o orgulho é capaz de fazer. É um vício que, em sua pior forma, mascara a virtude da piedade e a falsifica no auto enganamento. Em outras palavras: faz o mais religioso crer-se mais correto, acima de todos. O único cuja perspectiva se vale porque somente a ele Deus comunicou. Não por isso, o orgulhoso recusa ouvir conselhos, a ver a verdade mesmo quando seus guias vos falam através de diversos meios de comunicação que se possa pensar. Ao contrário do que dizem, os mentores, guias espirituais não abandonam seu protegido nem o permitem ser atacados livremente pelos malfeitores. No entanto, a vida estagnada e, muitas das vezes, a (auto)obsessão, são cultivos resultados do mau uso do livre-arbítrio.
Ainda há muito o que aprender, a contar. Confesso que a insegurança quanto ao passado ainda me impede a avançar o que gostaria, pois que pretendia recontar toda a minha vida. Apesar do esclarecimento, a dor desta existência mal aproveitada insiste em ferir. Como disse meu guardião chamado João: tudo ao tempo de Deus, tudo no devido tempo. Sendo assim, eu sinto e compreendo, não apago, não finjo esquecer. Creio que dei um passo à frente ao remontar todo o reencontro, a experiência do desencarne e da passagem pelo umbral, relembrando de minha entrada na colônia espiritual.
Creio ser deveras importante ressaltar ao leitor que não precisamos ser perfeitos para sermos amados por Deus. Nem excessivamente religiosos para que a espiritualidade atue em e sobre nós. O importante é o que passa em vossos corações, as intenções que mapeiam e coordenam vossas ações. Aceitar vossos defeitos já é um grande passo, abraçá-los e reconhecê-los sois ainda mais. Saber conviver é excelente. Não vos exijam tanto. Ameis mais, sejais mais solidários e humildes. 'Amai o outro como amais a ti mesmo'. Sejais tolerantes. Há guerras esperando serem vencidas, cujas batalhas não se limitam ao embate com vossos demônios, mas também com os dos outros. Até onde vais vossa tolerância, aceitação, consciência? Não permitais que o orgulho transforme isso em vaidade. Não sejais rancorosos nem vingativos, são venenos que purgam a alma em vez de curá-la. E quando precisareis, pedis ajuda. Estóis cercados de luz, não vos olvideis disto.
Agradeço à médium pela paciência com a qual transmitiu as mensagens dadas em três partes, pela análise e o trabalho de transcrever, entrever e auxiliar neste momento que ainda se faz difícil para mim. Não vos olvidarei vossa boa vontade. É sempre um prazer revê-la, senhorita. Que Deus vos abençoe.
Cecília.
'Não se culpe, mãe. Está tudo bem', ele me tranquilizou. Havíamos parado diante de uma porta que nos levaria a uma sala pequena, mas Edmund não entrou. Em vez disso, ele me deu um abraço apertado e, tal qual João, me assegurou que nos veríamos novamente no futuro. Teria de partir por ora para que cumprisse seus deveres e seguisse a fazer caridade. Orgulhosa do homem que se tornou, percebi que, de fato, o amor genuíno e verdadeiro abria meus olhos e que era preciso que eu me perdoasse pela pessoa que havia sido no passado.
* * *
Antes das decodificações de Kardec e sem ter tido qualquer contato com este bondoso homem, fui permitida a ser lecionada com profundidade nos aspectos que tornam ser um médium. Não obstante, aprendi mais a respeito da caridade como Nosso Senhor Jesus nos ensinou: fazer o bem sem olhar a quem. Foi um processo longo e não muito fácil, admito, perceber onde errei. Havia momentos em que desejava escapar deles, mesmo dos crimes cometidos muito antes de vir a ser a duquesa Cecília. E, no entanto, meus guias permaneceram ao meu lado no decorrer de toda a doutrinação. Fui esclarecida apropriadamente, segundo o meu merecimento e o estágio moral de meu espírito. Nem a tudo pude entrever, é, afinal, um trabalho constante. Não estou no ócio e recontar isso tudo tampouco o seja. Tomo como dever alertar os jovens e os mais maduros do que o orgulho é capaz de fazer. É um vício que, em sua pior forma, mascara a virtude da piedade e a falsifica no auto enganamento. Em outras palavras: faz o mais religioso crer-se mais correto, acima de todos. O único cuja perspectiva se vale porque somente a ele Deus comunicou. Não por isso, o orgulhoso recusa ouvir conselhos, a ver a verdade mesmo quando seus guias vos falam através de diversos meios de comunicação que se possa pensar. Ao contrário do que dizem, os mentores, guias espirituais não abandonam seu protegido nem o permitem ser atacados livremente pelos malfeitores. No entanto, a vida estagnada e, muitas das vezes, a (auto)obsessão, são cultivos resultados do mau uso do livre-arbítrio.
Ainda há muito o que aprender, a contar. Confesso que a insegurança quanto ao passado ainda me impede a avançar o que gostaria, pois que pretendia recontar toda a minha vida. Apesar do esclarecimento, a dor desta existência mal aproveitada insiste em ferir. Como disse meu guardião chamado João: tudo ao tempo de Deus, tudo no devido tempo. Sendo assim, eu sinto e compreendo, não apago, não finjo esquecer. Creio que dei um passo à frente ao remontar todo o reencontro, a experiência do desencarne e da passagem pelo umbral, relembrando de minha entrada na colônia espiritual.
Creio ser deveras importante ressaltar ao leitor que não precisamos ser perfeitos para sermos amados por Deus. Nem excessivamente religiosos para que a espiritualidade atue em e sobre nós. O importante é o que passa em vossos corações, as intenções que mapeiam e coordenam vossas ações. Aceitar vossos defeitos já é um grande passo, abraçá-los e reconhecê-los sois ainda mais. Saber conviver é excelente. Não vos exijam tanto. Ameis mais, sejais mais solidários e humildes. 'Amai o outro como amais a ti mesmo'. Sejais tolerantes. Há guerras esperando serem vencidas, cujas batalhas não se limitam ao embate com vossos demônios, mas também com os dos outros. Até onde vais vossa tolerância, aceitação, consciência? Não permitais que o orgulho transforme isso em vaidade. Não sejais rancorosos nem vingativos, são venenos que purgam a alma em vez de curá-la. E quando precisareis, pedis ajuda. Estóis cercados de luz, não vos olvideis disto.
Agradeço à médium pela paciência com a qual transmitiu as mensagens dadas em três partes, pela análise e o trabalho de transcrever, entrever e auxiliar neste momento que ainda se faz difícil para mim. Não vos olvidarei vossa boa vontade. É sempre um prazer revê-la, senhorita. Que Deus vos abençoe.
Cecília.
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