terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Sete Mares

"Mar calmo nunca fez bom marinheiro", é o que dizem. E é provável que seja verdade. Entretanto, o que leva um marujo a buscar tempestades para se tornar louvável? Nem sempre nas leis, decerto, é onde se encontram. Na pirataria, atividade tão antiga quanto a prostituição, os homens que não se encaixam nelas atuam porque buscam uma liberdade que, não obstante, os leva à morte. Seria esse o verdadeiro motivo para bons homens serem enterrados no mar? A constante ânsia pela liberdade? Apesar de nós, piratas, estarmos subjugados ao vosso estigma de 'vagabundos', há muito mais do que isso. Se aqueles de nós que são comprados pelo homem de lei atuam sob o nome de "corsário", conquanto outros mais "comportados" estão no que se denonimou "marinha", os esquecidos, os aventureiros, os intensos permanecem marginalizados por vós como indiferentes, insubordinados e, com desdém, nos chama de piratas. Entretanto, se pela espiritualidade alheia somos esquecidos tanto quanto somos tratados com desprezo por vós que habiteis a Terra, ora, cá venho mostrar que não somos invisíveis, nem vitimas nem delinquentes, mas sujeitos de um tempo e espaço que a História insiste em pintar no preto ou no branco, esquecendo-se deliberadamente que isto nunca existiu em se tratando de humanidade.

Atendo pelo nome de Stephen e quando vim acá, os tempos eram relativamente mais remotos que os vossos, embora houvéssemos avançado bastante dos tempos medievais e da Renascença. Quando encarnei, a busca pela reputação não era o que motivava o homem a ir à batalha, à dominar os mais fracos ou mesmo aventurar-se por aí. Na verdade, se eu vos dissesse que a reputação não instigava a nós, estaríamos mentindo. Vê Barba Negra? Ele não era nada disso do que havia criado e ainda nos dias vossos, insistem em pintá-lo seja como objeto de entretenimento, seja como alguém temível, se não desprezível.
Não o conheci, embora fosse seu conterrâneo e conhecesse o amanhecer do império britânico. Deveis saber que a Grã Bretanha era reconhecida quase universalmente pelo seu poderio nos mares e a Companhia das Índias propunhava a expandir sua superioridade por todo o canto do globo como a História mostraria. Apesar disso, os mares não eram calmos como se poderiam pensar e por muito tempo a pirataria esteve vinculado aos dois lados da mesma moeda. Explico: quando servia aos interesses do poder do alto, os que praticavam esta atividade (que, no mais, consistia em roubar os vizinhos e tomar para si as riquezas destes) eram, como falei antes, chamados de corsários. O exemplo clássico é o da rainha Elizabeth I e seu Francis Drake. A fim de provocar o império espanhol, a monarca inglesa não somente pagou a este homem e sua tripulação para que estes saqueassem os "corsários" do rei Felipe II. Não preciso dizer que, com sucesso, este sujeito foi logo tornado cavaleiro e desdenhou de seus iguais que, embora menos nobres, tentavam a mesma empreitada. Na França do século seguinte, outros corsários foram igualmente incentivados pelos reis Henri II e Louis XIV para dominarem os litorais das colônias ibéricas. Esta aventura que, a princípio, pretendia tornar francesa vosso país, falhou como haveria de ser.
De toda maneira, não vou me discorrer sobre o passado da atividade "criminosa" que, quando custeada pelo Estado, tornava-se palpável e aceitável para atuar sob seus interesses. Mas ressalto que o caráter dos homens que optavam por viver no mar nem sempre estava atrelado ao "espírito" do capitalismo ou mesmo motivado por uma fuga da justiça, capitalizando, desta maneira, um triste estereótipo de que todo pirata era, ou haveria de ser, um criminoso. Conheci muitos homens em minha trajetória de vida, fossem religiosos ou laicos, que amavam o mar e achavam a vida na marinha de seus respectivos países uma forma muitíssimo restrita. É claro que muitos destes sujeitos amavam o lucro, por mais ilegal que fosse obtido, mas quem não amava? Lembrando que guerras de períodos anteriores e a política imperialista de tantos reinos por aí não eram tão diferentes de nós: roubavam igual dos mais pobres e mesmo dos ricos apenas para que acumulassem uma riqueza que não compartilhariam com seus próprios súditos. Entretanto, com o poder em suas mãos, o Estado legalizava este roubo conquanto os pobres que atuavam desta maneira, e sem dúvida por conta disso de que falei, eram tachados de ladrões. Novamente, admito que há também o fator do caráter, mas não é por esse viés que pretendo seguir.
O século XVIII foi um contexto perturbador em várias camadas sociais, isto é, abalou as classes altas quanto as mais baixas, tanto por questões políticas quanto econômicas. Nasci por volta de 1750, no esplendor do auge da Companhia das Índias, no amanhecer do império britânico. Recebi o nome de Stephen James, e havia encarnado na violenta província escocesa de Stirling. Minha família não era pobre como tampouco desfrutava de abundância riqueza. Seria o que vós chamais de "classe média". Insignificante como era aos registros históricos, era o segundo filho de três, todos homens, embora destes um teve sucesso para seguir como advogado e o mais novo optou pela carreira de clérigo. A senhora minha mãe, uma boa mulher chamada Margaret Claire, preocupava-se comigo, como uma mãe adequada faria. Em uma época que a maternidade era ainda desvalorizada, tendo em vista que pensava-se ser dever da mulher apenas parir filhos e, de preferência, homens para herdar qualquer legado ou propriedade de seu pai. Criá-los? Nem pensar! Os que tinham condição, uma babá, uma governanta, enfim, a elas eram direcionadas as crianças "indesejadas" para terem uma boa educação. Nas classes menos abastadas,todavia, essa não era uma opção e mesmo aquelas que relutavam com essa imposição de ser mãe... bom, tomavam para si este dever e não à toa dali surgiam homens de caráter questionáveis: rejeição maternal nunca dava bom negócio. De todo modo, apesar do pai rígido, a mãe protestante que me deu à luz me criou bem. Ou assim pensava.
Como a marinha britânica era um farol de oportunidades para os que não se encaixavam no clero ou no mundo laico, ali foi uma opção para mim. Durante à infância, fui entregue às mãos do Capitão Keith, um homem honesto, porém, muito ambicioso. O tenente que o servia, Hugh FitzAlan, já não compartilhava das boas intenções do homem. Foi um tempo árduo, onde, a meu ver, as lutas internas me fizeram perceber como as leis eram manipuladas pelos criminosos de 'colarinho branco', estragando toda a paixão que um marinheiro poderia ter pelo mar.
As expectativas dos pais dificilmente andam em conjunto com as nossas, principalmente numa época em que nossos destinos eram traçados por eles. Meu pai, enquanto chefe da família, era o responsável pelas vidas de seus rebentos, sendo assim, ele se esforçava para que nós pudéssemos ter uma vida melhor que a dele: preparou o primogênito para estudar numa faculdade prestigiada e tradicional, arranjou contatos para colocar o mais novo sob a tutela do arcebispo e quanto a mim, a boa fortuna de me colocar para servir no exército britânico ou na marinha. No entanto, aquele século, ao menos grande parte daquelas primeiras décadas, os escoceses sofriam sob o regime inglês porquanto os primeiros se envolveram em uma longa rebelião contra os segundos, apoiados, é claro, pelos franceses. Nesse sentido, era apenas natural que, dadas as condições, não suportaria servir para reprimir meus compatriotas e assim optei pela marinha. E, embora minha paixão pelo mar tenha sido "à primeira vista", de imediato não me dei bem com meus superiores. Já mencionei que o capitão Keith era um homem de bom coração, a despeito de seus defeitos, conquanto o segundo no regimento, o já citado tenente FitzAlan, era... bem, digamos que limitado. Ele dificultou muito minha infância, e inspirou a mim um espírito de rebeldia que a cada ano nascia, estimulado por suas implicâncias por não ser tão nobre quanto meus companheiros.
Garotos da minha faixa etária, isto é, dos 10 aos 15 anos, eram comuns de servirem na marinha seja como ajudantes ou em funções terceirizadas ao mesmo tempo em que eram preparados para o serviço marinheiro. Normalmente, esperava-se promoções acima do posto comum a partir dos 20 anos. Conforme crescia, entretanto, cada vez me desiludia com aquela vida no mar. Admirava as ondas, identificava-me com aquele imensidão azul, mas faltava-me algo... A rigidez me irritava cada vez mais. Um dia, percebendo que havia algo de diferente em mim, meu único amigo dos jovens marinheiros, indagou:
"Que te apetece, Stephen?'
Ao que respondi:
"Nada."
E, por incrível que parecesse, este nada era o que me irritava. Não conheci nada além de algumas ilhas escocesas, outras ingleses, quiçá chegando à Jamaica, no mais longe. Mas queria mais. Desejava mais.
"Não minta. Sei que há algo em você. O que há?" Insistiu Archie, apelido para Archbald. Ele vinha de uma família de nobres, cuja maioria masculina tinha a tradição de se chamar Archbald Douglas. Com ele, não era diferente, embora fosse mais simpático do que sua posição social supusesse ser. "O tenente bateu em você, de novo?"
"Não." Sorri um pouco porque era verdade. Na ausência do capitão, o tenente, seja lá por qual motivo, gostava de descontar suas frustrações em mim. Mal completava dezesseis anos e eu já carregava várias cicatrizes nas costas, consequência das chibatadas. "Eu só sinto que não tenho propósito aqui, Archie."
"Se te consola, ouvi dizer que o tenente será transferido", disse ele, ansioso.
Ainda que aquela novidade me agradasse, sacudi a cabeça em negação.
"Pouco me importa para onde ele vai, meu amigo, eu me sinto preso aqui. Não pertenço a isto." Falei, indicando com a cabeça ao símbolo da marinha britânica que pendia na bandeira hasteada do navio.
Archie arregalou os olhos.
"Seremos promovidos em alguns meses!"
Ri diante daquilo.
"Não tenho paciência para esperar mais. E", minhas palavras a seguir poderiam soar como traição visto que deserção era um ato abominável, "eu quero ser livre, pertencer ao mar. Desvendar mistérios, descobrir terras quem sabe, averiguar a existência de sereias..."
Foi a vez de Archie rir, incrédulo.
"Você quer trocar o certo pelo duvidoso? Meu caro, você não é burro. Por que investir nisso?"
Dei de ombros.
"Nem sempre o que é certo é o correto a fazer. Não vivemos mais em tempo de servidão."
Archie me deu um sorriso afetado, ainda sequer acreditando no que ouvia.
"Você poderá ser enforcado por isso."
Joguei as mãos para o ar em um gesto que somente reforçava a frustração que sentia.
"Estou aqui desde os oito anos de idade, Archie! Onde avancei aqui? Sequer me concederam um posto adequado. Não nego que houve aprendizado aqui, mas não saio da mesmice. Sim, posso soar imprudente aos seus ouvidos, mas e daí? Mereço infelicidade? Não concederei aos arrogantes que sequer possuem a autoridade de governar sobre seus próprios súditos o poder de decisão sobre minha vida ou morte.Tudo isto é uma farsa."
Vendo verdade nas minhas palavras, Archie entristeceu-se e, embora houvesse compreensão e até empatia em seus olhos, soube de imediato que nada do que pudesse dizer, mudaria minha perspectiva.
"O que fará então?"
Sentindo o ânimo se renovar diante do surgimento do novo e desconhecido que se aproximava, confidenciei a ele meus planos:
"Assim que aportamos em Kingston, fugirei. Não sei como, mas desaparecerei dos registros." No entanto, hesitei. "Posso confiar em você de que não contará aos outros...?"
Com um longo suspiro, Archie respondeu:
"Depois de todo esse tempo, ainda me faz estas questões?"
Antes que eu o retrucasse, porém, ele acrescentou:
"É claro que não contarei a ninguém. Não sou estúpido."
Aquela seria nossa última conversa antes de um último encontro melodramático. Uma vez que aportamos em Kingston, cuidadosamente refiz os meus planos. Ao que tudo indicava, a deusa dos mares estava ao meu lado: o tenente odioso não se fazia presente e todos os outros homens estavam desesperados em busca de mulheres e rum para se preocuparem com um inferior. Apesar disso, nem todos aqueles deveriam ser subestimados: conhecia alguns que fingiam-se de bêbados para conhecer melhor os segredos dos seus companheiros ou dos locais, e na bebida sempre se descobria algo. A meu ver, se perguntassem, um licor, um rum era mais fácil do que torturar o inimigo: a verdade escapava da língua com mais facilidade e sinceridade do que sob instrumentos aterrorizantes. Nesse sentido, me fiz alerta e meu comportamento não poderia alterar qualquer diferença disparada das outras vezes em que estivera ali: tudo deveria ser calculosamente planejado como fora.
Com isso, tive de aguardar e assim o fiz: acompanhei Archie, já alterado, e alguns de nossos amigos de volta à velha hospedagem onde muitos de nós compartilhavam camas velhas, alguns com damas da noite e outros... bem, não cabe a mim dizer. Aguardei, ainda que já beirando pela impaciência e com nó na garganta, pelo momento dos roncos. Assim, teria a certeza de que todos estavam adormecidos profundamente. Não levaria nada comigo se não outras duas roupas e uma espada: um marinheiro nunca deveria ser pego desprevenido.
No calar da madrugada, tive todo o cuidado de deixar a cama, abrir a porta sem que ninguém abrisse o olho e, por conseguinte, estragasse o plano que havia com tanto esforço orquestrado havia meses. Foi com muito sacrifício que eu manuseei deixar para trás aqueles que haviam me acompanhado em poucas, porém memoráveis aventuras. De todo modo, laços afetivos não me impediriam de correr à liberdade que se espreitava no surgimento de um novo horizonte.
Se acaso há alguns que possam crer em sorte, nós, marinheiros, acreditamos no destino. O que está escrito nas estrelas, homem algum pode mudar. Não me refiro aos detalhes, os pormenores das circunstâncias que nos conduzem à vida, é claro, mas aos grandes e marcantes eventos que por eles devemos passar para fortalecer nossos espíritos.
Uma vez passada a impetuosidade, porém, deparei comigo mesmo em pânico: o que faria agora? Deixar para trás o acampamento dos homens havia sido relativamente tranquilo, mas e quais seriam os próximos passos? Era ainda noite e, por tarde que pudesse parece, me adentrei na taverna onde Judas deixou suas botas.
Uma velha resmungava algo em voz baixa quando abriu a porta: seus olhos quase saltaram das órbitas quando se depararam com a figura de um marinheiro de cabelos espessos e pele caucasiana queimada pelo sol.
"Mas que diabos...?"
"Acalme-se, mulher. Vim procurar por um lugar para descansar. Amanhã cedo partirei." Falei, procurando manter a calma enquanto lhe dava uma moeda de ouro, que ela prontamente levou à boca e mordeu. Uma vez certa de que falava a verdade, ela suspirou e, com um sotaque carregado, apenas me lançou um longo olhar e disse:
"Sem problemas."
Ao que eu procurei retribuir com um sorriso e dizer:
"Sem problemas."
A taverna funcionava como hotel tanto quanto prostíbulo, dependendo do público que a frequentava. Mas eu, naquele resquício de noite, só pensava em dormir um pouco porque o dia seguinte me esperava. Entretanto, era preciso que se preparasse para imprevistos já que não contava com dormir para além do horário, despertando quase depois do meio dia. Uma batida na porta--ou teriam sido três?-- com violência me trouxe do sono. Barulhos em línguas que não pude, a princípio, compreender, ecoavam por ali e eu soube de imediato que seria tolice tentar dormir.
Ao ver o sol brilhar forte no céu azul de versão, constatei, muito para meu horror, que perdi a oportunidade de ter saído ainda no amanhecer para roubar--ou tomar emprestado, como preferir--um barco nas proximidades do cais a fim de deixar para trás Kingston. Desnorteado, enquanto vestia minhas roupas, uma prostituta adentrou o meu quarto com um cliente--que, para minha sorte, era apenas um local--e o susto que ela levou ao me ver foi quase uma cena cômica.
"Céus!" Ela gritou, tentando cobrir metade do corpo embora suas mãos falhassem em fazer isso, uma vez que a vestimenta daqueles tempos, embora mais complicada do que se pudesse pensar (levando em consideração o espartilho e outras peças de roupa que compunham um vestido) era paradoxalmente simples, e seu parceiro parecia tomar vantagem nisso. "O que faz aqui?"
Não é surpresa para ninguém que se o homem disfarça sua sensibilidade e fragilidade por trás de um ego e uma arrogância é porque estas foram transformadas em qualidades louváveis que toda e qualquer sociedade incentivava. Jovem como eu era, e tolo porque era jovem, retruquei alguma coise saí correndo com as faces vermelhas. E se isso lhe faz rir, caro leitor, é porque de fato pode ser no mínimo engraçado constatar quão peculiar parece o primeiro encontro de um rapazola antes dos 20 anos com uma mulher, mas não qualquer uma e sim aquela que serve à noite.
Não havia tempo para remoer aquele constrangimento, posto que havia questões mais urgentes me aguardando. No entanto, a mesma velha que me recebera na noite anterior, aproximara-se de mim e sussurrou:
"Se eu fosse você, não iria embora agora."
Surpreso, eu arqueei as sobrancelhas com o arrogante desgraçado que era e falei:
"Por que deveria dar ouvidos à senhora?"
Ignorando o tom de minha voz, a velha disse:
"Estão procurando por você. Chamam-no de desertor."
Contive um suspiro e, congelando diante daquela informação, apenas procurei algum lugar qualquer para me sentar. A juventude, em face das faltas de experiências que os mais velhos insistem em privar os mais novos, proporciona um exercício egocêntrico surpreendente: é nesta fase que nós, principalmente estes do sexo masculino, se acham em razão de contestar seus genitores, seus superiores, e crer somente em suas perspectivas. Consequentemente, decepcionam com mais rapidez. Por outro lado, isso é bom, este contato cru com a realidade: proporciona um amadurecimento que somente a vida é capaz de prover. E eu havia acreditado em minha arrogância, em minha soberba, quando subestimei a marinha britânica e sua disciplina. Agora, havia me tornado traidor. Por mais que desejasse a liberdade, não contava com o outro lado da moeda: a submissão.
"O que vai fazer, filho? Não posso escondê-lo aqui." A velha prosseguiu ao ver que eu não respondia. "Deveria ter sido menos insensato, mas vejo quão novo é. Imagino que a carreira no mar não seja para você."
Desta vez, relembrei a mim mesmo de respirar e soltei o suspiro que quase me sufocava. Encarei a senhora e, sem qualquer expressão em minha face, lhe disse:
"O mar é para mim, senhora, mas não pertenço ao jugo dos homens."
Ela riu e pude ver que seus olhos passeavam pelos frequentadores de sua taverna. Acompanhei seu olhar e vi mendigos, homens relativamente bem vestidos, outros pobres, bêbados em sua maioria, mas desencantados com a vida. Falavam quase um idioma próprio, embora os mais arrumados arranhassem no inglês.
"Todos estes aqui chegaram a mim por algo parecido", disse-me ela, sentando-se ao meu lado. "Cada um deles têm sua história e eu me lembro de todas. Não se surpreenda, filho, a velhice é se não a resposta do corpo ao tempo, mas disso nada afeta a memória de minha vivência."
Apontando seu dedo enrugado para o mendigo ao canto do local, que abraçava uma garrafa esvaziada de rum próximo às roupas sujas que vestia enquanto bebia outra, ela disse:
"Aquele ali se chama Oswald. Acredite se quiser, ele fora capitão inglês, porém sua fragata afundou pelos espanhóis de quem foi feito refém. Amava o mar como talvez você o ame, mas acima de tudo amava a si próprio. Pobre sujeito, não é confiável. Das vezes que tentei ajudá-lo, ele me respondeu com traição." Deu de ombros. "Que Deus o cuide."
Olhei-a com surpresa.
"Por que permite que ele fique aqui?"
"Porque, jovenzinho, ele não tem outro lugar para ficar e não sou vingativa."
Sem esperar qualquer resposta minha, a senhora prosseguiu para uma moça bem-vestida de cabelos ruivos encaracolados, porém de feições tristes.
"Aquela ali se chama Amanda, ou Calipso se preferir. Chegou recentemente à nós da Irlanda. Fugiu de um casamento arranjado por seus pais com algum nobre de reputação ruim, segundo me disse. Acolhei-a, mas, para sobreviver, vende seu corpo à noite."
De imediato compreendi a infelicidade por trás dos olhos castanhos-esverdeados da moça, mas não consegui desviar o olhar dela. Era muito bonita para viver como uma prostituta, pensei. A velha riu de mim.
"Acha-a bela? Todos acham, mas por trás daquele rosto de pobre coitada há uma fera esperando por ser libertada. Cuidado com as rosas, senhorzinho, pois seus espinhos podem ser fatais."
E seguiu para um grupo de quatro jovens de minha idade que encontravam consolo na bebida. Segundo ouvi, eram rapazes nascidos jamaicanos, embora fora do casamento: seus pais foram homens da marinha que tomaram, à força ou não, mulheres locais. Abandonados à própria sorte, achavam-se desprezados pela sociedade e, com isso, isentos de qualquer redenção. De repente, uma sensação me cobriu os espíritos e, sem esperar qualquer reação daquela mulher bondosa, levantei-me e caminhei na direção daqueles garotos.
Um deles possuía a pele mais escura, possuía a cabeça raspada e olhos incrivelmente verdes: seu nariz era largo e a boca era carnuda, o que lhe dava uma aparência atraente, ainda que estivesse descuidada. Seu corpo era forte, e os músculos dos braços indicavam que um dia ocupara-se como remador, seja pela marinha ou, o que achei mais provável, pelos pescadores locais. Usava uma camiseta branca e bermuda marrom, descalço nos pés. Havia algo de desordem em seu rosto que me indicava ser o "líder" daqueles quatro.
Meu olhar recaiu sobre o segundo que sentava ao seu lado: este possuía uma tez mais clara, olhos igualmente verdes, ainda que de tom mais escuro, lábios finos e nariz curto. Seus cabelos eram louros e caíam sobre as costas, presos por um laço vermelho. Vestia também uma camiseta branca simples, mas de resto, uma calça rasgada cobria suas pernas. Imaginei se ele vinha de alguma família nobre da região.
O terceiro sentava-se ao lado esquerdo do rapaz de cabeça sem cabelos e tinha uma aparência mais bronzeada que a de ambos. De imediato, percebi que suas vestes sujas eram de um marinheiro, o que prontamente me animou, embora não soubesse por que. Este era ruivo e tinha uns cachos que recaíam sobre sua face como um anjo caído: o rosto me parecia limpo de cicatrizes e outras marcas estranhas (que, nos dias mais presentes, se convém chamá-las de espinhas), embora uma barba prontamente desse sinais de tomar conta de sua face. Algo em si me indicava ser o mais velho dos três.
Finalmente, o quarto me parecia ser o mais sujo de todos. Descuidado com a limpeza, andava descalço e usava roupas velhas e remendadas. Seu cabelo procurava copiar o estilo "viking" de ser: raspado nos dois lados e com uma trança que recaía em seus ombros. Era o que tinha a aparência mais "amedrontadora" dentre seus colegas: em seu rosto, cicatrizes pintavam as bochechas, enfeitando seu pescoço e mais além. Uma pequena barbicha cobria sua boca e seu queixo e eu percebi, de repente, que aqueles rapazolas não eram tão jovens quanto pude supor.
Assim, antes que eu pudesse me anunciar, o primeiro deles que me chamou a atenção falou:
"O que quer aqui, marinheiro?"
Com leve irritação, percebi que ainda usava meus trajes da posição que ocupava na marinha britânica. Deveria ter sido mais discreto, observei, e era algo que mudaria ainda naquele dia. Optei por ser como aqueles da minha idade haviam sido: arrogantes.
"Procuro uma tripulação para chamar de minha". Disse eu, ciente de quão idiota soava.
E aquelas gargalhadas apenas confirmavam meus temores. Enrubesci.
"Tripulação?" Repetiu o mesmo sujeito que se dirigia como se fosse superior a mim. "Sua? Ora, mas quem você acha que é?"
Tão de repente, inspirado falei:
"Um homem em busca da liberdade."
O ruivo, sem me encarar nos olhos, disse:
"Liberdade é um conceito que alguns poucos homens do continente se propõe a discutir".
Olhei-o com surpresa. E quando ele me encarou de volta, percebi que os havia subestimado. Todos eles.
"Ora, acha mesmo que não sabemos do que se trata? Não somos, porém, incultos como tampouco o que pensa ser revolucionário".
O mais descuidado na aparência soltou uma gargalhada.
"Vamos lá, Thomas, não seja ridículo."
Este que atendia pelo nome deu de ombros e retrucou:
"E desde quando somos revolucionários, Peter? Está confundindo-nos com quem?"
O tal Peter resmungou:
"Poderíamos ser se quiséssemos".
O de cabeça raspada bateu o punho na mesa, impondo ordem ao seu pequeno grupo:
"Basta." E, me encarando, disse: "O que quer conosco?"
"Liberdade." Falei e, sem esperar convite, tomei um banco desocupado ao lado, puxei-o e sentei-me com aqueles rapazes. "Senhores, há um oceano a ser explorado por aí."
O ruivo que se chamava Thomas sorriu:
"Eu gosto dele."
O líder deles pareceu pensativo, embora de longe considerasse minha proposta.
"Parece-me um desiludido e um tolo. Por que deveríamos acreditar em você?"
Aquele de nome Peter se intrometeu:
"Ele é um desertor. Acha que somos um bando de faz-nada, desesperados para roubar e enriquecer." Um sorrisinho malicioso brincou em seus lábios quando tornou a virar seus olhos escuros para mim. "E sua proposta me parece tentadora."
"Não falei nada de roubar ou enriquecer", protestei. Mesmo aos meus ouvidos soava ingênuo. "Apenas desejo aventuras. Conhecer outros lugares e derrotar os monstros que o habitam."
"Você se acha um Odisseu?" Indagou Thomas, perplexo com o que ouvia.
Finalmente, o louro se manifestou:
"O senhor", disse ele, "deveria ser prudente. É desertor, portanto, traidor de sua pátria. É britânico, presumo? Pois então, a marinha do rei da Bretanha é poderosa e não demoraria muito para nos encontrar, caçar e matar-nos como os párias fora-da-lei que somos. Diga-me, senhor, por que deveríamos relegar nossa vida de zé ninguém para arriscar por um traidor como você?"
Todos os quatro me encaravam, e, apesar do arrependimento de ter me sentindo superior àqueles homens, ainda assim ousei dar voz ao espírito da liberdade que me cercava:
"É traição não se subjugar à lei das criaturas mais tolas que habitam este globo? Por possuir mais riqueza que nós, tais acreditam deter o poder de Deus para nos recriminar ou enquadrar naquilo que acham ser o correto. Mas, em verdade eu os pergunto: o correto deles é o mesmo correto que o nosso? O que é certo e o que é errado? O que é virtude, o que é pecado?"
Em silêncio, ouviam as palavras que soavam como mel para seus ouvidos. Estava cônscio dos riscos da empreitada que lhos oferecia, mas a tentação de uma aventura era ainda mais alta. Foi quando pronunciei aquilo que eles queriam escutar:
"Negarão a oportunidade de se arriscarem pelo esquecimento que as famílias de cada um lhos inculcou? É verdade que podemos morrer como traidores e mais ainda que seja possível sermos esquecidos no futuro, mas que importa? O que têm a perder?"
E, enfim, um sorriso de cada um.
"Como devemos lhe chamar, então, capitão?"
Com um sorriso maroto nos lábios, respondi-lhes:
"Charles", falei. "Capitão Charles."
*                                                                                        *                                                                   *
Era um nome formal demais, tradicional demais para um pirata, eu bem sei. Mas no decorrer daquela encarnação, adjetivos como "rabugento", "pateta" e mesmo "detestável" acompanhariam o nome fictício que havia optado por usar. Mas a reputação era o que importava, embora ela mascarasse a realidade de nossas patéticas existências. Afinal, o mar representava perigo, ao mesmo tempo em que oferecia um lar para aqueles de nós subjugados pela hipocrisia humana.
Na verdade, eu, seja como Stephen James, seja como Capitão Charles, nunca me encaixei nas expectativas da Terra. Em existências precedentes, viera como guerreiro, ladrão, um padre que, oh, se viu outra vez nos campos de batalha... Como rei também, fui excelente homem de armas. Conquistei tantos e tantos reinos, mas não me cabe servir aos leitores uma vaidade que não me compete mais sentir. Em suma, o que quis dizer é que em todas as encarnações vim como um sujeito "de fora", quase um "alien", se preferirem o termo. O exterior, o "selvagem", me chamavam a atenção. O que não era domável me confortava. Pertencia à natureza de Deus, não aos Homens. Era filho do mar, feito de espadas. E nesta encarnação, não seria diferente.
Passados cinco anos desde que formei minha pequena tripulação, eu, Thomas, Peter, Alexander e David passamos por maus bocados, é verdade. Fomos assaltados por outros piratas, perdemos nosso barco empobrecido, encontramos a morte de perto, e quase fomos capturados pelos marinheiros britânicos. Ao lado de outro "Jack the Lad" (sempre haverá os copiadores, não é mesmo?), tornei-me um dos foras-da-lei mais procurados pelo Reino Unido. Pintavam a mim e a meus companheiros como homens sem maneiras, soberbas, orgulhosos, arrogantes e, claro, assassinos, estupradores, entre outras características que, pasmem, não fomos!
No primeiro assalto sofrido, estávamos próximos do continente africano e, admito, numa infelicidade de não podermos no defender apropriadamente. Apesar disso, Alexander, o rapaz sem cabelos, foi bravo o suficiente para desafiar o capitão daquele navio. O embate entre os dois decidira nosso destino. E com a morte deste e a vitória daquele, sobrevivemos e tomamos a embarcação para nós. Mas lembrava àqueles homens que haviam se tornado meus irmãos (e os surpreenderia, leitores, se contasse que nosso laço fraterno fosse além desta encarnação?) de sermos piedosos para com nossos rivais e não sermos o que tantos pensavam ser: ladrões da pior espécie que violavam damas virgens e ambicionavam tomar todo o ouro.
Talvez os chocasse de que Peter, o sujo e indolente, soubesse ler e quanto amava as histórias de rei Arthur e seus cavaleiros! Seu apego aos ideais medievais é maravilhoso, realmente, de se recordar. O homem não gostava de embates desonestos, e creio que seja por isso que tenha sobrevivido por tanto tempo conosco: suas espadas afiadas representavam a honra que jurava defender. Fora muito mal julgado por tantos outros homens que apareceram em nossas vidas e nos serviram, mas ah, se Jesus nosso Mestre não agradou a todos, que dirá um simples homem como Peter?
Este, por falar ainda nele, fora o bastardo de algum barão que, obstinado em ter uma das moças da noite que serviam à bondosa velha da taverna de que vos falei, a tomou pela força e, sabendo que a havia engravidado, largou para lá. Pobre Peter sofreu com a rejeição de ambos os pais, pois nem mesmo a mãe o quis quando ele nasceu: fora criado por um padre, veja só! E talvez esta fosse a vida que levasse se o padre responsável por si não houvesse morrido e substituído por outro de índole questionável. Como a Igreja do interior de Kingston pouco lhe oferecia naquele momento de sua vida, Peter fugiu. Deus conhece seu coração, e apesar de seus traumas e das cicatrizes de batalhas perdidas, jamais destratou homem ou mulher, ou subjugou-os à lâmina de sua espada afiada. No final das contas, sua criação religiosa fora a responsável por ter inculcado (ou, melhor dizendo, relembrado) os valores outrora medievais de honra, respeito e lealdade.
David, que muitos de vocês devem ter pensado ser o verdadeiro capitão de nossa empreitada, não teve uma vida tão diferente. Fora filho ilegítimo de algum senhor de terras com uma escrava, e na primeira oportunidade que tivera na vida, fugira daqueles maus tratos. Sua aparência rebelde, entretanto, mascara seu bom coração e o caráter encorajador que inspirou-me devoção. No entanto, desprezava a liderança e almejava pelas batalhas ao mar. Em nosso curto período numa das regiões africanas, seu brado de guerra fora comparado ao de Ogún ou Esú, dependendo de quem perguntasse. Uma das tribos chegou mesmo a temê-lo como deus. Surpreendentemente, como cristão que David podia ser (e seu nome era o que lhe dava orgulho, pois que David não havia derrotado Golias?), ele negou todos os privilégios que pudesse usufruir se insistisse em conquistar aquele povo.
Thomas, por sua vez, fora nosso "filósofo" irlandês. Se ele tinha as feições tristes, era porque motivo tinha para tal: embora ilegítimo, havia sido criado por uma mãe amorosa e um pai relativamente presente... até o dia que uma revolta na fazenda deste provocou a morte dela. Não suportando a presença do filho que tanto lembrava sua amante, ele o expulsou. Mas Thomas tinha seus contatos e ele foi adotado por outra família até cometer o erro de se apaixonar profundamente e, pasmem, desposar em segredo a filha de um dos mais poderosos senhores de engenho de Kingston. Se ele não morreu, meus caros, é porque bom uso do cérebro fez. Desprovido de um amor impossível, Thomas se contentou com livros e considerava a vida na Igreja quando conheceu David e Peter. E agora... desfrutava de uma liberdade que acalmava as aflições de um coração partido.
Alexander poderia ser o típico marinheiro britânico que se apaixonou por quem não deveria e, consequentemente, fora expulso de seu serviço. No entanto, não havia nada de amor em seu caminho de vida: aquele que tinha a aparência de um herói romântico era, a bem da verdade, bastante temperamental. Resultado, é possível, de uma personalidade de guerreiro não superada de outras existências. Ele era orgulhoso e tinha dificuldade em ser comandado, mas era brilhante e tinha uma percepção aguda de situações que, não raro, nos faltava. Apesar de explosivo, era um excelente homem e, tal como seus companheiros, virtuoso em tudo o que fazia.
Assim eram os meus amigos, rapazinhos difíceis quando os conheci, mas responsáveis por uma vida honrosa conforme fomos nos conhecendo melhor. Por incrível que possa ser, não roubamos nem violamos ninguém naqueles anos, e se acaso tomamos o ouro de alguém, ora, poderíamos ser culpados de fato por isso?
"Robin Hood dos mares", disse-me Thomas depois de termos saqueado um navio de piratas vindos da Índia. "Será que ainda dá tempo de limparmos nossa reputação?"
Todos nós rimos.
"Como se fôssemos ser ouvidos", bufou David. "Quando é que eles aplicaram a máxima do 'inocente até que se prove o contrário'? Isso se aplica aos que possuem algum poder aquisitivo."
Nós concordamos e em silêncio ficamos. Aquela era uma noite calma e tranquila, com ventos do sul nos impulsionando cada vez mais rumo ao oeste. Pensava nas Índias como lugar definitivo para enriquecermos honestamente, mas não era mais jovem quando dei vazão ao que me incomodava:
"Haveria alguma região do globo que nos recebesse honestamente?"
"O mar", comentou Thomas, sempre ele, "não julga, não segrega, não conhece diferenças. A morte dança para todos, e o abraço suave das ondas não escolhe ninguém."
Encarei Thomas, o filósofo do grupo. Nossa embarcação aumentara consideravelmente, embora o grupo de antes permanecesse o mesmo. Colocávamos-nos como homens livres, mas éramos mesmo? Por toda a Grã Bretanha éramos os párias desertores, ameaçados de forca se fôssemos capturados. Criavam histórias falsas, designavam crueldades a nós, quando tudo o que éramos.... Bem, talvez isso pouco importasse.
À noite, fitávamos as estrelas e, novamente, era Thomas o responsável por nos ensinar a astronomia. Ele nunca cessava de nos surpreender com seu vasto conhecimento e eu lamentei que tudo aquilo fosse em vão. Um desperdício, porque seu pai o renegara em prol de si mesmo.
"Somos filhos do mar", comentei, reflexivo. "E esta é nossa única casa".
Mas a discussão mudou o rumo consideravelmente quando Alexander indagou:
"O que será de nós? O mar é infinito, mas não podemos alimentar ilusões de que seremos aptos a vencer todo desafio que ele apresentar a nós. Há dias em que me pergunto se vamos ressurgir de uma tempestade ou se sairemos ileso de uma briga patética com outros párias como nós. Não deveríamos saquear? Conquistar? Estamos fazendo porra nenhuma aqui!"
Eu suspirei e, antes que qualquer um pudesse falar, disse:
"Lembra dos dez mandamentos que Deus ditou à Moisés?"
Com o sarcasmo pairando em seu semblante, Alexander assentiu com a cabeça. Assim, prossegui:
"A vida é feita de escolhas, meu caro. Roubar implica não somente em tirar algo que não nos pertence, mas não raro nos induz a tirar a vida de outros."
Ele bufou, interrompendo minha linha de raciocínio:
"E o que fizemos? Não roubamos os que roubaram e matamos os que mataram? Somos diferentes de outros por que rezamos incredulamente à Deus?"
Percebi que suas palavras, ainda que fizessem sentido, ecoavam a tensão que, nos últimos dias, vinha se instaurando entre nós. Era verdade que não vínhamos progredindo muito em termos de riqueza, muito porque tomamos a posição de não atacar ou roubar a não ser que fosse extremamente necessário. Gostávamos da liberdade que, por ora, desfrutávamos. O mar nos recebia bem e, como apropriadamente pontuado por Thomas, não nos julgava pela infelicidade que nos trouxera até ali. Entretanto, negar o gosto pela aventura seria o mesmo que negar o gosto pela carne se entrássemos por uma vida monástica. Assim, não culpava Alexander por pensar daquele jeito. Sendo assim, o que fazer? Seria mesmo possível nos manter honestos em face das batalhas lutadas e das que se aproximavam? Bem, a tempestade que se aproximava responderia isso.
*                                                                                    *                                                                        *
Alexander cedeu. E, na primeira oportunidade, nos traiu. Não o culpo agora como não o culpei antes. Peter levou o ressentimento para o coração, afinal, sabem como era leal e se achava um pirata à la Lancelot do século XVIII. Nosso grupo parecia se desintegrar aos poucos. Mas as ambições de Alexander desequilibraram nossas forças. Assim, na lua seguinte, ele e os rebeldes capturados de embarcações pregressas vindas da África exigiram que eu renunciasse o comando. Neguei, contudo, e recusei fazê-lo.
"Não sou apegado ao poder como me acusa, caro amigo", falei, ainda com o apreço que sentia por ele. "Estou consciente de que me chama de padre pelas minhas costas, entretanto, não dispensou as oportunidades de ter me abandonado desde quando aportamos em Costa do Marfim? Por que não nos virou as costas quando um dos capitães britânicos lhe ofereceu perdão? Ou ele lhe ofereceu algo mais para isso? Não importa. Eu fui o responsável por tê-lo trazido aqui e fui mais justo com você, e todos os outros que, sabe lá Deus, o acompanham nesta rebeldia. Não permiti que a espada dominasse nossas regras, do contrário, nenhum de vocês estaria exigindo minha cabeça. Se sou religioso ou não, que importa? Há terras lá que nos aguardam, meus caros! E por que guerrear com outros que não nos convém? Por que? É desejo por sangue, eu os pergunto? É o tédio de mirar as águas azuis do oceano? Ou é a saudade dos campos verdes que lhes ofereciam conforto e a previsibilidade, a segurança, que mar nenhum oferta?"
Apesar das palavras doces, impus-me como o rei que um dia fui. Como o guerreiro que ainda era. Peter diria mais tarde que eu tinha uma excelente eloquência e uma postura assustadora. Admito que, enquanto perdoava facilmente, poderia ainda com tranquilidade exercer uma autoridade mais... rígida. No entanto, eu preferia me ver com as espadas do mar: calmas, porém ferozes quando necessário.
Alexander fora covarde, e dizê-lo não é admitir sua inferioridade, mas o traço humano que todos nós um dia possuímos ou viemos a possuir. Covarde porque não soube se expressar, manipulou o descontentamento geral para seu próprio fim, não porque reconheceu que perdeu e abaixou a cabeça. No entanto, aprendi também com o diálogo. E que ser bom não deve ser sinal de fraqueza, como tampouco pode ser visto como aceitação da imposição dos outros sobre nós. Ser bom e justo vinha com um preço, mas eu estava pronto a pagá-lo. Ou assim eu pensava, ainda na arrogância dos meus vinte e cinco anos.
*                                                                              *                                                                        *
Aportar em Portugal não foi uma ideia tão boa quanto pensávamos. Havíamos nos esquecido de que: era aliada história da Grã Bretanha como outrora dominara o mar. Sua escola de preparação para tirar de seus aliados o que um dia lhes fora seu deixou os portugueses bastante... ansiosos no tratamento dispensado aos piratas, fossem que fossem suas nacionalidades.
Apesar disso, Peter, sempre ele, usou sua lábia de conquistador e logo teve a seus pés homens e mulheres a seu serviço. Em Lisboa, tivemos algumas noites de paz e, apesar da breve paz feita com Alexander, foi quando soube que ele nos deixou.
Ele havia roubado nossa embarcação, levando com ele o restante de nossa tripulação. Assim, eu, David, Thomas e Peter formos abandonados à nossa sorte enquanto ele partia rumo aonde quer que desejasse ir. A verdade é que ele ansiava em ser uma espécie de 'Barba Negra' de sua geração, e ele nunca realmente se contentou em bancar o pirata bonzinho e cristão. Nós nunca mais o veríamos novamente.
"E agora?" Thomas lamentou. "O que vamos fazer?"
Olhei para Peter, esperando que nosso amigo obtivesse as respostas para nossas inquietações. Ele encolheu os ombros, mas um brilho de malícia em seus olhos indicava que nada estava perdido. Sua resposta logo nos encheu de esperança:
"Posso ver com um carapas que conhece um filho da puta que trabalha na marinha portuguesa se conseguimos nos inserir na tripulação lisbonesa rumo à América do Sul. Aqui, tudo o que falam os orgulhosos portugueses é da grande colônia chamada Brasil de onde tiram tantas e tantas riquezas."
Arqueei uma sobrancelha quanto a isto.
"E quem te garante de que não seremos confundidos com criminosos? Este seu contato auxiliaria nisso?"
Novamente, a malícia em Peter renovou as alegrias;
"Se estiverem dispostos a me servirem, creio que sim."
No entanto, ponderei.
"O que já ouvimos do Brasil, porém? Os portugueses repeliram mesmo os franceses, e já fizeram com nossos antecessores ingleses diversas vezes. Eles são bravos e lamentavelmente favorecem o comércio da escravidão."
Quanto a isso, ninguém se manifestou. Eu prossegui:
"Por que deveríamos ir lá? Não podemos ser tolos de pensar que teremos sucesso nesta empreitada por tentadora que possa ser. Se escravizaram africanos e indígenas, o que impedirá de fazerem o mesmo conosco?"
David interferiu:
"Somos britânicos."
"Eles detestam estrangeiros", eu o lembrei. "Há poucos ingleses lá. Se é que há alguém por lá. Não, vamos manter o plano original de seguirmos às Índias."
Os outros suspiraram e eu sabia que eles não discordavam de mim. Contudo, Peter disse:
"Compreendo seus temores, senhor, e os acho bem fundamentados. No entanto, se decidirmos ir às Índias, não haverá espaço para a bondade. Será uma luta pela sobrevivência", ele alertou.
E Peter estava certo em suas observações. Todos os reinos ambicionavam dominar as Índias e eu sabia que era loucura. Temia, claro, ter meus ideais corrompidos. Por outro lado, quando pensava em minha vida, já sabia que não haveria espaço para redenção. Contudo, preferiria morrer nos braços do mar do que escravizado em terra.
"É um risco que vou assumir", afirmei.
E foi ali em que o destino brincou conosco ao nos colocar rumo a nossa verdadeira rota: o oriente.
*                                                                             *                                                                           *
Temo desapontar os leitores, ou não, ao relembrar o período dos vinte e cinco aos trinta anos quando fui um pirata de fato. Não vou negar os crimes que cometi, porém, sem me isentar de tê-los feito, apenas o fiz protegendo-me. Após a noite da deserção de Alexander, eu e meus quatro amigos nos infiltramos em um navio holandês que havia parado para abastecer em Portugal. Conforme descobriríamos mais tarde, aquele navio retornava do literal brasileiro com uma carga boa de açúcar e riquezas tiradas de lá. Visavam parar em Praga antes de desembarcar em Amsterdã.
Foram dias relativamente tranquilos, pois ninguém suspeitava de nossa identidade verdadeira. Peter, porém, desprezava os holandeses por serem protestantes.
"Não seja ridículo", eu o repreendi aos risos em uma das noites de outono onde o ouvia reclamar, enquanto bebia de algum vinho francês, da prece puritana de nossos companheiros de mar. "Eles nos deram cama, teto, comida e bebida. Que te importa qual a melhor maneira de cultuar ao Pai?"
Nunca pensei muito na fé, mas fui criado católico e meus companheiros também, embora Alexander houvesse sido mais... bem, ateu. Nenhuma crença importava quando lutávamos para sobreviver entre as ondas furiosas do mar. Contava grandes aventuras que, infelizmente, não me cabe agora compartilhar. Quem sabe um dia? De todo modo, antes de dormir, eu rezava. Apenas agradecia por estar vivo... e pela liberdade que Nossa Senhora em meu favor concedeu.
Mas a tranquilidade não duraria para sempre: ingleses interceptaram o navio e quão irônico seria mencionar que o tenente FitzAlan, elevado à posição de capitão de mar e guerra, estivera lá para infernizar minha vida outra vez! Embora ambos estivéssemos envelhecidos, tendo em vista que quase 20 anos se passaram desde que nos vimos pela última vez, o rancor permanecia em nós dois. Foi quando FitzAlan, pensando que os holandeses haviam nos recebido de bom grado, decretou atacar-nos.
Foi uma confusão. Uma grande confusão entre duas embarcações que representavam países respeitáveis e que, a princípio, eram aliados. Que importa? Espada contra espada, embora armas longas de pólvora aos poucos substituíam o aço pela sua eficácia à longa distância; o grito de canhões abafava os gritos dos homens. Em meio ao caos, porém, a perda: Thomas, o filósofo-pirata de bom coração foi chamado de volta ao plano espiritual; sua missão naquele plano terrícola fora encerrada.
Éramos três. E os holandeses não nos respeitavam mais, e com motivo, afinal, trouxemos guerra como resposta à hospitalidade que nos concederam. A traição urrou  de um lado para o outro e, ao final, fizemos o que não queríamos fazer: fugir. Não havia outra opção que não nos entregarmos ao mar. E dali, certamente pensaram que seríamos engolidos pelas ondas e não emergiríamos; dali, FitzAlan acreditou sair vitorioso. Mas ele estava muito enganado.
*                                                                                  *                                                                         *
Se eu os dissesse que fui paciente nestes cinco anos, estaria mentindo. Se contasse a vocês que fui bondoso e mártir, estaria mentindo. Se ainda dissesse que abracei meus pecados e me entreguei a Deus, novamente... estaria mentindo. Fui um homem do meu tempo, por benevolente que pudesse ser. E, como disse, feito de espadas e ondas. Era hora de emergir e eu não o faria isso pelos meios pacíficos. Mas, para isso, eu precisava sobreviver.
David, Peter e eu éramos parrudos e provavelmente por isso soubemos nadar, refugiar entre as ondas até que fôssemos levados a alguma ilha não muito distante dali. Honestamente? Olhando em retrospecto, de fato não sei como sobrevivemos. É claro que, da perspectiva espiritual, isso se explicaria de várias maneiras, uma das quais sendo a expiação pela qual precisava passar. Ninguém desencarna antes do tempo determinado por Deus, isso é certo. Mas naquele momento, e pela falta do conhecimento que hoje possuo, eu sequer pensava nisso.
"O que vamos fazer?" Indagou Peter a mim.
"Esperar." Falei, muito para sua frustração.
"Como esperar?" Ele explodiu e eu não o culpava por isso. "Estamos mortos, amigo! MORTOS!"
David interferiu sensatamente ao apontar:
"Normalmente, se este é o caminho pelo qual passam os navios rumo ao destino que pretendíamos seguir, outros virão. E assaltaremos conforme possível."
"Um assalto está longe de questão se isso acontecer", falei, "afinal, estamos em minoria e não possuímos armas."
Desanimados, exploramos a ilha por alguns longos dias. Achamos algo parecido com uma casa, abandonada, e nos deparamos com um pequeno depósito de bebidas. E mesmo comidas. Claro, passamos mal e a situação não parecia boa. David, dos três, era o mais "adaptado" a questões urgentes de sobrevivência e demonstrava uma frieza considerável para lidar com o problema ali. Até que decidiu construir um machado com o restante da lâmina da espada que trouxera consigo e a partir do restante de lenha que tinha. Funcionou. Conforme Peter e eu recuperávamos, David silenciosamente punha suas mãos à obra. Por impossível que possa parecer, conseguimos construir uma canoa. E, embora enfraquecidos, era quase inverno quando nos pusemos a navegar novamente.
O mar parecia nos proteger e sentíamos que o vento nos favorecia, pois as ondas eram fracas, mas a canoa atravessava o oceano. Peter e David seguiram desacordados por alguns dias, afinal, o cansaço e a baixa imunidade decorrente desta empreitada haviam nos afetado. Não há vocabulário que consiga abarcar toda a experiência passada. Emprestando uma comparação contemporânea de vocês, leitores, é como se estivesse "em um filme", o que quer que isso signifique de fato. A sensação também era de sermos "Moisés" perdidos em alto mar.
Como crentes, se não descrentes, rezamos. David acreditava que Deus nos punia pelos erros pretéritos e era provável que Peter se inclinava a concordar com ele. Não os culpava por pensar assim. Na realidade, só esperava sobreviver. Não tinha sequer coragem de pedir perdão pelos eventos passados. De todo modo, Deus conhece o coração da criatura. Talvez, penso eu, ele tivesse vislumbrado uma chance de redenção para meus companheiros e eu, pois, sabe-se lá que ano era, eventualmente chegamos a algum lugar.
Como viria a saber mais tarde, havíamos aportado em Calais, na França. Aquilo significava, como eu temi, que a calmaria trazia a tempestade e, desta vez, não havia como fugir.
*                                                                            *                                                                              *
Por alguns séculos, Calais pertenceu aos ingleses até a rainha Mary I tê-la perdido numa guerra promovida por seu marido, o rei Felipe, contra a França de Henri II. Sua função era mais militar do que outra coisa, servindo de base para os ingleses adentrarem no território francês como também exercerem sua influência política por lá. Contudo, seus habitantes têm uma histórica aversão a estes sujeitos, e quem poderá realmente culpá-los? A Inglaterra não tem qualquer reputação a se defender em se tratando de sua rixa político-histórica com a França e vice-versa.
O que me preocupava, porém, era sua proximidade geográfica com a Inglaterra. E essa aflição não era em vão quando fomos capturados pelo governador francês. Aquela época, o país vivia sua ebulição pré-revolucionária, portanto, mesmo os representantes da monarquia francesa em lugares como Calais eram odiados pelo povo. A tensão aumentava e eu temia fazer parte dela.
"A morte nos cerca", comentou David, em tom melancólico e resignado.
"Deixe de ser tolo, homem", retruquei. "Conseguirei sair daqui."
"Não sei como...", desdenhou Peter.
Não dei atenção a nenhum dos dois. Era possível escapar da prisão se tivéssemos os instrumentos corretos. A questão era: como? Para minha sorte, podia falar o básico do francês, mas em que isso ajudaria? No entanto, meus caros, o desespero é a ferramenta do homem e eu logo me vi usando minha lábia para convencer o meu carcereiro de que era inocente.
"Se meu crime foi ter nascido britânico", eu falei, "talvez isso possa ser escusado por ser católico."
Apelei para a religião, já que os franceses eram muito católicos e repudiavam a Inglaterra por seu protestantismo. Estávamos no fim do século XVIII, mas a chama da Reforma Protestante ainda queimava os espíritos que habitavam a Terra nesta época.
Senti que o homem hesitou, e aqui eu apelei para um vitimismo que, de certa maneira, não era de todo falso. Na realidade, o lembrei, era escocês, tradicional aliado da França. O lugar de meu nascimento tradicionalmente sofria com as investidas da Inglaterra, e eu não sei como sabia disso, mas supus que fosse algo que todos "naturalmente" desconfiassem. Falei, exagerei muitas coisas, e no final, prometi todo o ouro que tinha se libertássemos.
No entanto, meu carcereiro se provava mais esperto do que pensava: se era tão rico assim como falava, por que me deixei ser preso? Onde estava a embarcação que eu havia descrito? E, entre risadas, ameaçou me levar a julgamento rápido se insistisse nas mentiras. Mas persisti. O que haveria a perder? Manipulei-o e o fiz persistentemente.
Até que um dia observei-o com uma garrafa de rum. Neste momento, éramos amigos, parceiros acolá, e percebi que a bebida era o auge. Afinal, senti que, como bom cristão, ele se apiedara de mim. E depois de três copos, apenas três, ele me libertou. E eu, por minha vez, tirei meus amigos das celas. Era madrugada quando escapamos. E brindamos à vitória.
"Ainda pretender ir às Índias?", quis saber David, depois de roubarmos as armas e os uniformes dos oficiais de um presidiário quase abandonado de Calais.
"Confesso que estou tentando a ir à Dinamarca", falei, confabulando outra vez. "É o jeito mais fácil de irmos lá sem sermos pegos pelos britânicos".
Mas a impetuosidade nunca me escapou, mesmo mais velho. E isso foi o meu erro: a autoconfiança. Pois que assim que eu me libertei daquela prisão e me preparava para tomar o navio de volta, pronto para retomar o caminho dos mares... Os britânicos me acharam. E o velho e decadente Capitão Charles foi capturado. Desta vez, nenhuma manipulação me ajudaria e meus amigos pressentiam o mesmo.
*                                                                                   *                                                                      *
O julgamento foi breve, como haveria de ser. Fui condenado por traição, entre outros crimes que eu não cometi. Para minha surpresa, entre os juízes, figurava a presença do meu outrora amigo Alexander. Aparentemente, ele fora comprado pelos britânicos e passou a ser um espião que, sem qualquer escrúpulo, denunciava meus passos. Não senti raiva quando nossos olhares se cruzaram. Mas fui firme em dizer, quando tive a oportunidade:
"Quando optei pela vida em mar, ciente de todos os riscos desde que deliberadamente escolhi dar as costas à marinha do Reino Unido, e o encontrei abandonado a sua própria sorte, pensei ter encontrado um irmão. Um amigo. Um protetor. Vejo que me enganei, mas não me arrependo. Jesus amou Judas mesmo ciente de tudo o que lhe seria feito. Não sou Jesus, nem pretendo ser. Mas o amo, irmão. E o perdoo, de coração."
Assim, fui transportado para a prisão em Londres. Não tive mais contato com David ou Peter, e sequer recebi permissão para me despedir deles. Nos meus últimos dias, porém, pedi para ter com um capelão e me confessar. Embora a Grã Bretanha não fosse católica, surpreendentemente fui concedido.
"Estou surpreso que um pirata como você tenha requerido um padre como eu", disse-me padre Andrews.
Dei-lhe um meio sorriso e disse:
"Por incrível que pareça, ainda me preocupo com minha alma".
"Deveria ter pensado nisso antes de ter cometido suas loucuras, sr James", ele me repreendeu.
Suspirei.
"Não me arrependo de ter buscado pela minha liberdade, padre. Reconheço minhas faltas, peço perdão por elas, mas... tentei fazer o bem, mesmo neste caminho que me reprova por seguir."
Falei com tanta sinceridade que pensei ter visto o padre se remexer na cadeira, desconfortável. Minha barba havia crescido, meus cabelos também e eu estava em roupas podres. Meu cheiro deveria ser horrível, e ainda assim encostei meu rosto na barra da cela e fitei aquele homem que, com repugnância, esperava que eu dissesse algumas palavras.
"Você não tem vocação para ser padre", constatei. "Imagino se foi forçado a assumir tamanho cargo por ser o filho indesejado de uma família ou o mais novo."
O padre corou. De estatura média e pele caucasiana, tinha um rosto fino e um corpo feio, magro. Aparentava não ser sadio e me perguntei se um dia chegaria à meia idade. Aquele homem que vestia a batina não cumpria seus afazeres com a devoção de um cristão e eu me perguntei por que aquilo me afetava.
"Isso não te interessa", foi a resposta que recebi. "Vim apenas..."
"Cumprir com o dever concedido por Sua Majestade, o rei", eu completei. "Estou cansado e você também. Se quiser partir, que seja. Eu só queria me confessar".
O clérigo tremeu nas bases e eu percebi que ele me temia. Na verdade, aquilo me surpreendeu. Nunca me vi como uma figura temida pelas autoridades e ainda hoje isso me escapa o entendimento. Apesar disso, ouvi as seguintes palavras:
"Confesse, pois, meu filho."
Fechei os olhos e esperei por um tempo. Não sei bem o quê. Mas podia ouvir com tranquilidade os sons das ondas bater contra o casco da embarcação. Não me via sendo outra coisa que não um homem do mar. Entretanto, para cumprir com meus crimes, sofreria a pena que temia: morrer em terra.
Enfim, confessei. Expressei todos os meus pensamentos, lamentos, desejos, lembranças. Não me reprimi, mesmo vendo a surpresa, a piedade e até compaixão passarem no rosto do padre. Mas não queria sua pena. Apenas... o perdão de Deus.
"Em tempos assim", me disse o padre e eu percebi que ele sussurrava, "é raro ver um verdadeiro católico professar sua fé desta maneira".
Sufoquei uma risada diante do que ouvia. Ainda vivíamos o reflexo dos tempos da Reforma, coletando frutos de uma guerra que pensávamos ter se amenizado, mas que era mais provável ter sido transferido para a pena e o papel. Pouco me importava.
De todo modo, me pus a ouvir o discurso comovido do padre. E, ao final, apenas implorei para que meu corpo fosse jogado ao mar.
"Farei o que estiver possível ao meu alcance", ele prometeu.
E por isso, lhe fui grato.
*                                                                                    *                                                                   *
Amanhecia quando o guarda me despertou violentamente. Fui sentenciado à forca, e, aparentemente, seria um dos primeiros a ser executado. Acorrentado, fui levado sem gentileza para um corredor de prisioneiros que morreriam naquele mesmo dia. Não tivemos o direito de comer ou beber nada. Talvez fosse melhor assim.
Enquanto caminhava para meu cadafalso, permiti que meu olhar se descansasse em cada prisioneiro em sua cela que nos encarava sem esperança, carregando consigo as chagas de qualquer crime que pudessem ter cometido e os levaram até ali. Perguntei-me onde estariam David e Peter, e me peguei lamentando por eles, por Thomas e mesmo por Alexander. Senti lágrimas subirem em meus olhos, queimando meu interior até serem sufocadas.
Ao lado de fora, representantes do rei, o prefeito de Londres e a população apresentavam-se para aquele espetáculo. Quase ri de desgosto, mas não os culpava. Era um deleite, quando não vingança, assistir aqueles criminosos contorcerem-se até morrer. Contudo, eu ainda resistia à ideia de ter sido um criminoso.
E pensava nisso enquanto os tambores tocavam. Estava surdo a tudo o que acontecia ao meu redor, e em pânico procurava lembrar meus crimes. Mas o desespero do homem de encontrar a morte o cegava para todo o resto. Não quis me lamentar, embora pranteasse a dor que vinha ao subir o degrau. Quando colocavam a corda no meu pescoço, fechei os olhos. E, de coração, rezei o credo. O pai nosso. E, mesmo enquanto descia, Ave Maria. E fiz três vezes. Sete. Quem sabe, dez. Até a voz sufocar e eu sentir sono, pois o beijo doce da morte foi isso. Apenas isso. Doce. E tranquilo. Surdo ao desespero alheio, e em meio às preces, desencarnei.
*                                                                                *                                                                           *
Nota do espírito Stephen James da Escócia: este foi um resumo de toda a minha vida gasta em 33 anos no Planeta Terra. Foi importante ter revisitado esta memória, acho que assim posso continuar a trabalhar nesta linha dos piratas, dos marinheiros, que vejo ser tratada com desdém pela espiritualidade terrena como um todo. É verdade que por um tempo estive em Marte, posteriormente em Júpiter, mas ainda senti que havia um negócio inacabado aqui.
Sendo assim, ressalto a importância desta mensagem. Deus é bom, Ele perdoa. Foi necessário algum tempo a mais para me despojar desse lado guerreiro, e ainda assim, há algo nele que me torna quem eu sou. O guerreiro de Iemanjá, se me permite dizer. As águas limpam, derrubam, mas levantam e purificam. Há muito a se aprender, e se isso aqui houver provocado alguma reflexão, qualquer que seja ela, fico feliz.
Meus agradecimentos à médium por transportar esta mensagem acá. Por mais fantasiosa que essa memória possa parecer, ela foi transmitida conforme requeri e nenhum detalhe foi alterado, visto que me certifiquei disso. Não faria sentido se ocorresse o contrário. Enfim, a espiritualidade é algo sério e a psicografia, embora uma ferramenta menos "conhecida" pela grande maioria, mantém-se como principal instrumento de transmissão da caridade, de amor ao próximo, de auxílio aos que precisam, sejam eles encarnados ou desencarnados. A título de esclarecimento, rótulos são figurações que não importam. Ainda que viesse como pirata, poderia ter escolhido outra existência para me fazer presente. A mensagem é o que importa, e é nisso que devemos nos concentrar.
Assim, os deixo, meus caros. E para os que se perguntam, David, Peter, Alexander e eu nos reunimos e atuamos, cada um sob uma linha, como os marinheiros que fomos, sempre ligados ao mar e à energia que emana de mãe Iemanjá.
Com meus mais sinceros agradecimentos, rogo-vos bem do plano espiritual.
S.J.


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