quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Ciclo de Poemas IV: O Herói Caído pelo Espírito Édouard

"Caros leitores, venho aqui

Não para vos fazer sorrir

Nem tampouco tenho a pretensão de inquirir

Memórias alheias daquele que cessou de existir

 

À maneira antiga

Por meio desta amiga

Vou contar

Aquilo que a História não faz mais lembrar

 

Há tanto tempo

Antes da descida de sublime ser

Vieram querendo

As musas me fazerem ver

 

E é por meio delas

Que recordo velha querela

Que quase derrubou a velha cidade de Tebas

 

Foi, porém, em Delfos

Que Apollo professou

Filho seu, em Tebas reencarnou!

Ai daquele que não respeitasse

Favorito de tal deidade.

 

Seu nome não posso registrar

Sem divina permissão à pessoa pode recordar

Por isto, à história bem devo ficar

Aos detalhes relevantes me atar.

 

De origem divina,

Era nobre de valor

De glória portador

Mas a responsabilidade logo pesaria

Naquele que era excelso na arquearia.

 

Embora seu coração fosse bom

A guerra era seu verdadeiro dom

Da obscuridade ascendeu

Liderado por Apollo, incontáveis homens venceu.

 

Eis o general tão honrado quanto Heitor

Sujeito, entretanto, a padecer vida cheia de dor

Embebecido de amor

Vaidade e lealdade constituíram teu esplendor

À maneira de Homero

Deixava Áquiles no chinelo.

 

Esbelto, de admirável porte

Nosso amigo chegou à corte

Feito comandante

A todos encantava seu espírito cantante.

 

Ali, naquela existência conheceu

A reencarnação de Teseu

Ao lado de quem inimigos venceu

De leste a oeste

De norte a sul

Chegaram a Tebas os de elmo azul.

 

Tão alto chegou

Para depois cair

Não era o momento de poder assumir

A verdadeira honra que o faria sumir.

 

Inimigos de dentro

Movidos pela inveja, partiram no centro

A conspirar

A queda do favorito de Phoebo em seu altar

 

Mas não era o momento propício para traição

Tebanos, por que arruinastes teu irmão?

Incorreste na ira divina como Odisseu

Buscando comprar Poseidon como fez a Zeus Prometeu

 

No entanto, estava a expiar

Espírito cândido, cujos valores crísticos deveria valorizar

Mas a guerra ao optar

Falhou em seguir Sócrates em seu caminhar

 

Oh amigo, tão hedonista!

Confiastes demais, perdeste de vista

Do alto do ego, ficastes cego

Para as sombras alheias

Que nem Apollo impediria tua semeia.

 

Aconselhado fostes

A evitar

O caminho de Aquiles, tu viestes a trilhar

Por rebelde que fostes

Não mais viestes a brilhar.

 

Sangues de inocente quiseram

Em tuas mãos por

Embora te recusastes, tua consciência

Vibrou em dor.

 

Tua alma sensível no fim despertou

Para aquele amargor

De ver inveja naquele que te deu amor

De ver traição naquele que te jurou sair do torpor

De ver ódio naquele que te disse, ‘te seguirei aonde for!’

 

A diplomacia veio tarde demais

Ao teu coração, não mais satisfaz

Ser tu o escandoloso

Oh, Apollo, fizestes tu belicoso?

 

‘Em verdade, meu filho, nesta tua expiação

Foste tu quem perdestes da moral

A condução.

Contudo, sabeis que foi necessário para saberes

Pedir perdão

Pelos pecados de antemão.’

 

‘E que farei agora, lamentou nobre guerreiro

Que desejava ter vindo como humilde ferreiro

Enquanto a cicuta o levava inteiro

De volta ao velho embate

Para que enxergasse a verdade.

 

‘Enquanto de ti mesmo não te conscientizar

Voltarás a errar’.

Assim disse-lhe Apollo

Movido de compaixão pelo favorito a ver repetir o mesmo erro

‘Não te desesperes, porém, pois contigo vim ficar

Para te ensinar na existência próxima

A não mais errar’.

 

O general vaidoso a Apollo pediu perdão

Entrevendo a dor a padecer então

Cansado, quis ele a vida deixar

Mas pelo veneno, foi forçado a morte esperar.

 

Do outro lado, entendeu

Que foi ele mesmo quem cometeu

O erro de sempre: querer ser popular,

Ser de todos amado

Como fez em teu passado

 

Apollo a ele mostrou

Que mesmo quando em outra vida a Afrodite amou

Uma existência de conhecimento desperdiçou.

 

‘Não feches a porta para a sabedoria.

Ela te será sensata guia.

Caístes hoje, mas olheis para o amanhã.

Vejo progresso, preparas agora para teu novo clã.’

Avisou gentil Apollo

Longe de ser aquele deus opróbrio.

Encerro aqui esta epopeia

Atento como de costume a deste espírito odisseia

Escrevo, impelido

Por Apollo amigo

Que deseja relembrar a coragem deste

Nosso companheiro antigo.

 

Em verdade, em verdade vos digo

Da virtude transformada em figo

Ergais com sabedoria e temperança

Para no presente te conduzas na vida tal dança."

Ciclo de Poemas III: Soneto de Amor pelo Espírito Édouard

 "Amar-te veio com um preço

Se me conheço

Nada devia proclamar

Sequer sobre o passado

Deveria versar

 

Mas aqui nas letras

Assim como na cantiga de Maria

É com alegria

Que as palavras são levadas pela ventania

 

Há muito tempo atrás

Quando nem Ofélia a Hamlet trouxe paz

Vivi como Cleópatra

Sempre querendo mais

 

Tu não fostes minha

Como Helena, fugistes tal qual ciganinha

E assim como Menelau

Esperei pela próxima nau

 

Se Medeia ou Cressida

Não sei

Mas, minha Ofélia,

Em teu desencarne pranteei.

 

Te amei, oh sim!

Perdoei, andei caminhos sem fim

Naquela bela noite de verão

Quando fostes ter com o rei

E partistes meu coração

 

Sem ti, errei; malgrado, neguei

Que distante de ti, infinitamente pequei.

Como o dinamarquês, por castelos perambulei

Em minha inferioridade, a tantos assombrei.

 

E quando reencarnei,

Fostes Penélope. Por tanto me aguardou

Em um só olhar

Soube que me amou

 

Era melhor ser Eneias do que Odisseu

Mais honrado ser Heitor do que Áquiles

Que tudo perdeu

 

Na paciência, fui recompensado por teu amor!

Mas, Julieta, paguei caro por tua dor!

Isabella, que deu nela?

A rosa tão bela, diante de traição

Se desfarela.

 

Amor, amor de um pecador

Cuidaste de mim, um ignorante, pobre sofredor

Sempre andante

Jamais distante

Velando como antes

Por ti, menina cantante.

 

Na França, na Bretanha,

Ou nas ilhas de Arthur

Lembro-te, Ysolda, de minhas façanhas.

Para encorajar-te do que vivemos na infância.

 

Nenhum feitiço enlouqueceu-me a razão

Com sim ou não

Esperei a ser visto na multidão

Resgatei-a como o cavalheiro verde

Que felicidade é poder ver-te!

 

Seja na vitrola, no alaúde

No piano, no clarinete

Dança, como dança, aquela a que vem a ser-te.

 

Sigo te amando, de longe velando

A Deus sempre por ti rezando

Para que um dia te lembres

Do nosso velho encanto...”

Ciclo de Poemas II: Sociedade dos Poetas Mortos pelo Espírito Édouard

"Na Antiguidade

Em minha mocidade

Dei início à busca pela verdade

Que só terminou na modernidade

 

E, no entanto, minha conduta

Iludiu minha formosura

Levando a minha ruptura

Quando demorei-me em travessura

 

Vincent, Joseph

Tantos nomes, nenhum registro

Do que foi padecido

Em longo suplício

 

Armand e Louis

Tão infeliz

Mergulharam em poemas

Sem se despirem de sua verdadeira vestimenta

 

Goethe e seu Fausto

No campo vasto

Das palavras, seu poder ignoraram

À morte daqueles cujas almas profanaram

 

Pilar, olhe lá!

Quis o homem pela poesia ensinar

O próximo a amar

Afundou-se, entretanto, nas batalhas

Que jurou findar!

 

Homero ou Otello

Quem de vós sois mais belo?

Ninguém é como Sappho

De Afrodite, pelo tempo apagado

 

O santo que errou

Thomas More à luz pregou

No entanto, inocentes poéticos ele crucificou

 

Já quanto a mim

Bom Deus, qual será meu fim?

Ir ao céu de jasmim

Que farei no interim?

 

Em retrospecto

Vejo todos meus aspectos

Antes de Marco Aurélio

Assombrei abandonado cemitério.

 

Nas letras, o amor

Mescla-se ao ódio, resultando em dor

Fui como o bardo

Proclamado, amado, mas pela história apagado

 

De nobre a freguês

Foi Camões português

Em versos poéticos

Lançou ao mar o cético

 

E que dirá aquele dos Anjos

Augusto em nome,

Lamento sem pronome

Que do além túmulo veio socializar

 

Com o romântico Alves

Um dia tão suave

Cuja companhia

Me traz tanta alegria

 

Nos braços de Ofélia

Ofertei a deusa Camélia

Mas depois de longa jornada

Pelas palavras, de madrugada

Regressei ao verdadeiro lar

 

De onde, ontem há

Tempo de voltar

À luz de Jesus

Que no pretérito falhei em amar

 

Segue conselho, menina

E em si vá trabalhar

Para na aurora repousar

 

Cada poste de luz

Brilha um santo

Que Jesus à seara irá modificar

No beira-mar

Está à espera, longe da estratosfera

Aquele que de longas vestes virá te ensinar

 

E agora concluo

O início do fim

Deste poeta que é cercado de jasmim..."

Ciclo de Poemas I: "A Balada dos Reis", pelo Espírito Édouard.

Assim no Céu como na Terra

A vontade divina impera

Mas por quantas mais eras

Afundam os homens em querela?

 

A paz é comprada

Como mercadoria tratada

Pelos fariseus

Que se julgam acima dos seus

 

Na guerra adiante

Do outro lado, vem medicante

A lamentar

Pela coroa a usurpar

 

Pela vaidade que sobre ele veio reinar

Fraco como és

Incapaz de verdadeiramente amar

Sustenta-te, Eduardo, caminha por teus pés

 

Em ilusões, eram profundamente

Agora, criança, estão descontentes

Sem terras, sem títulos

Sobrepujados pelos inimigos

São abandonados pelos amigos

 

Na política dos tronos

Esquecem-se os sonhos

Adormecem os ensinamentos

Leis de Deus caem no esquecimento

 

O trono é simbólico

Mas ontem abençoado foi apostólico

E aquele que nele sentou

Com frequência fracassou

 

E agora pranteiam, como lastimam!

Reis sem coroas, sem títulos, sem terras

Percebem tarde demais

Do que podiam ser capaz

Amado Henrique, quanto eras está triste?

 

De justas e um pouco

Todos têm de louco

Nas chuvas de fora

Contemplam o agora

 

O mendigo de hoje

Gastou o que não devia

Chamado a prestar contas,

De nervoso João ria.

 

E o povo ignorante

Aplaude rei cantante

Que guerreia e loureia

Falso comandante.

 

De que adianta tantas terras sobrepujar

Se, caro Quinto, não soube a ti domesticar

Sequer tentastes teu orgulho refrear?

 

Como observador, poeta e trovador

Menina, eu te digo,

Rei nenhum merece teu amor.

 

O dissabor gritante é

Para aquele que não tem fé

Crês em mim quando digo

Que é melhor ser ralé.

 

Em teus estudos vejas o sofrimento

Movido pelo orgulho, causa de padecimento

De homens que de nobre

Somente tinham nome.

 

Mas nada lamente

Se na Terra monarquia há

É que a humanidade ainda dela vem precisar

Para se modificar

 

Desapegar de etiquetas e imagens

Somente para o orgulho imperar

Mascarando a vaidade do que

O inimigo não souberam amar

 

Agora me despeço

Se devo, não peço

Aqui contemplar, meu passado a lamentar.

Tua alma falará

Por que causa vim falhar

Amada amiga que no pretérito

Fiz-te coroar.”


Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...