quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Relatos V: O Luto, pelo Espírito E.

Nota do Guia de Ogum: "Saudações fraternais, meus irmãos e minhas irmãs. Ainda em nosso trabalho espiritual, com o aval do Alto e de nosso Pai Celestial, seguimos com os relatos trazidos de boa vontade por nossos irmãos deste plano, alguns dos quais têm ligações fluídicas com a médium formadas no presente enquanto outros o têm por conta de vivências pretéritas em comum. E o relato de hoje trata de um espírito que "enquadramos" no segundo grupo, isto é, que é familiar à médium por conta de outras existências. Pensando nestes aspectos, para que não interfira em outros assuntos que não posso aqui aprofundar, foi acordado que se omitisse o nome. Nunca é demais recordar que a identidade espiritual não contém valor diante dos ensinamentos que a entidade traz. As psicografias vão além disto que vos chega, mas o processo não cabe a ser discutido aqui e no presente momento. O que importa é algo que já foi falado, mas cumpre reforçar quantas vezes for necessário: a caridade missionária não escolhe, não difere, não julga. Ela acolhe, seja qual entidade for, independentemente de quem foi na Terra ou em outros planetas. Deus ama a todos igualmente, e pensar que algo feito na Terra fará com que haja diferenciação no tratamento, é errado e injusto. Lembramos aqui das parábolas do rico e a do filho pródigo, presentes nos evangelhos. Esperamos que as reflexões de nossos amigos espirituais possam de algum modo encorajá-los a desenvolver o olhar interno, a buscar a reforma íntima e a desprenderem-se dos excessos na procura pelo equilíbrio por meio da vivência das leis de nosso Pai. Que Deus esteja sempre convosco.--George."


“A História é cruel ao pintar aqueles que ocupam o majestoso cargo de rei e rainha como vaidosas criaturas perdidas em seus prazeres e marcados por vãs ilusões. Não é uma acepção incorreta quando, de fato, ser responsável por tantas vidas faz-nos incorrer a erros que tomam várias encarnações para corrigi-los. Por outro lado, há os que enxergam neste título ofício divino e incorruptível que atravessa intacto ao curso dos séculos, embora marcado por sangue derramado dos que porventura cruzaram seu caminho.

Foi somente em minha última encarnação como desconhecida mendiga que contemplei a realidade da roda da fortuna. De fato, em um dia somos alçados ao mais alto patamar, mas a queda será tanto maior se falharmos com a tarefa que nos foi incumbida por aquele que nos Criou.

Infelizmente, quando volvo meu olhar para aquela vida, percebo o tanto de desperdício que mergulhei. Sim, era piedosa, mas a fé era frágil, reflexo de meu aspecto espiritual que, apesar das limitações que ainda tenho de despojar, dou graças ao Pai por não permanecer o mesmo de dias longínquos.

Mas não venho aqui para meditar sobre pretérito vaidoso e glorioso que, em verdade, nada tiveram de glória. Venho falar do luto que como esposa e mãe, e filha e irmã, passei nos turbulentos dias do século XV.

Amar, amei. Duas vezes, embora arrisco-me dizer que foi meu segundo esposo que correspondeu ao que pensava ser um consorte adequado: alto, belo e de ideais justos. Era forte, sem dúvida, e inteligente, mas vivia muito para a matéria dada a posição em que ocupava. Em nosso casamento, busquei emular o matrimônio de meus pais, cuja união foi uma contravenção de tempos em que o sentimento importava muito pouco. Mas ele não era sempre fiel, o que de imediato aceitei, pois que deveria fazer? Fui magoada, mas como mulher em dias como aquele era preciso aceitar certos comportamentos. E quando fui alçada à posição mais cobiçada do reino da “noite para o dia”, toda cautela era pouco.

Quando ele veio a falecer, senti que meu mundo desandou. Meu coração partido, de vez se quebrou. Lembro do olhar que ele me lançou antes que suas forças se esvaíssem. E posteriormente, habitou em meus sonhos, chamando pelo meu nome. Ele não estava em paz e com a usurpação de seu irmão e o subsequente desaparecimento de nossos filhos, como poderia? Os momentos difíceis pedem que tenhamos fé e confiança no Alto. Acostumei-me com a vida fácil e desconheci, não obstante tantas calúnias e traições pelas quais suportei, outras dificuldades. Receber meu esposo em nossos aposentos era como tomar o sol como companhia. Um descuido e poderia se queimar, mas a luz que emanava valia tudo a pena. Em retrospecto, penso que, sim, ele me amou, mas o amor em sua concepção era muito materialista.

O amor não tem posse e não machuca àquele que vem ser seu objeto de mais cara afeição. O amor é livre e nada espera em retorno. O amor é o sentimento mais belo cantado pelo Nosso Senhor quando ele veio à Terra. Este é o sentimento que devemos aspirar a ter e sentir. O amor é alegria, compreensão e compaixão. Oferece misericórdia e perdão, jamais violência nem grosserias de outro modo. Àquele que ama, ouve e admite sem dificuldades os erros. O amor é, portanto, humilde e não se alimenta de joias, de palavras, mas de ações belas e práticas. O amor respeita e não impõe.

Apesar disso, nós nos amamos, sim. E como sofri quando desencarnou. Sentir em minhas mãos a febre ser tomada pelo frio abrupto. Suas últimas palavras, amorosas, não puderam, porém, abrandar-me o pranto. Estive desolada. Tanto quanto perdi meus filhos em anos anteriores. Oh sim. Quando uma de minhas filhas, cujo casamento planejava com tanta adoração, veio a desencarnar... Impactou-me de tal maneira que mesmo então não compreendi o que era ser mãe, realmente. A verdade é que eu estava mãe, não era. Amava minhas crianças e desejava o melhor para elas, mas vejo que tudo isso foi fruto de projeções minhas sobre elas. Pus uma em um trono porque achava que Deus quisesse assim, mas queria Ele? Ou queria eu? Arranjei alguns casamentos para alegria do reino ou para minha satisfação pessoal?

Questões assim perpassaram minha mente quando vi minha filha prostrar-se fria. Meu esposo também ficou muito abalado, ela lhe era muito querida. Lembro-lhe que ele, muito espantado, virou o rosto e disse:

“E..., que somos nós no mundo? Que morte é essa que arrebata todos igualmente?”

Havia revolta, mas que é a revolta se não a expressão da dor? Uma dor que poder-se-ia ter evitado? Não gosto de pensar que sim. Seria remoer o que não pode ser mudado. Mas é em momentos como esse que percebo que títulos são apenas isso: criações da Terra. Em todos nós há vaidade, orgulho e egoísmo. Em poucos se admite tais. Mas que jamais nos esquecemos que o amor dissolve todas as demais diferenças.

E a você, minha criança, lembre-se de que o amor, enquanto expressão da mais cândida alma, não passa o tempo tal qual o amor de Jesus para conosco. O amor espiritual vem quando o Pai permite, quando achar que estamos preparados. O amor carnal, do contrário, é passageiro e geralmente o é para nos ensinar de que, de corações partidos, encontramo-nos novamente. 

Quando tiver a oportunidade, falaremo-nos outra vez. Mas recorda disso: a cura vem de dentro para fora. Aproveita seu próprio tempo para que o amor espiritual venha a sua porta tal qual veio a minha.

Afetuosamente sua,

E."

Relatos IV: Lições Espirituais pelo Espírito John.

Nota do Guia de Ogum: "Saudações aos meus nobres irmãos e irmãs em Cristo! Dando continuidade aos relatos espirituais, trazemos neste dia outro relato de nosso amigo do plano espiritual. Seu nome aqui foi dado como John e esta é sua primeira comunicação. Vale ressaltar novamente para que a identidade não sobressaia ao teor da mensagem. Do lado de cá, títulos, cargos, posições não têm nenhuma relevância em comparação ao caráter do espírito que traz consigo somente suas qualidades, defeitos, progressos morais, enfim, o aprendizado passado na Terra. Deste assunto não me prolongarei, uma vez que há vasto estudo sobre o assunto. Diante disto, deixarei a vós as ponderações sobre o que este bondoso amigo vem-nos ensinar. Que Deus  vos abençoe, meus amigos, e que a semana seja próspera a todos. --George."

“É somente no chamado outro lado que entendemos o que fomos, ou pior, a razão pela qual deixamos de ser. Quando o espírito se desprende do corpo e todos os laços que ligavam seu períspirito à matéria, o estupor vem. E quando assim cessa, os que entendem de imediato o que se passa, com horror verificam que nenhum privilégio terreno é transferido para cá.

Que importam títulos, propriedades, cargos à morte que ceifa a reis e camponeses igualmente? A História nos mostra exemplos de incontáveis espíritos que não obtiveram sucesso em suas missões, através de alguns dos quais a misericórdia divina se operou pela espiritualidade. Em todo o tempo da humanidade, discursos de ódio recebem sua dose messiânica com o objetivo de antagonizar-se aos princípios que Cristo nos ensinou, a própria Igreja Católica corrobora o que eu digo, e portanto resultou disto a Reforma, que, todavia, em seu próprio tempo também foi corrompida divino propósito por homens cegos por sua ânsia em ter razão acima de tudo e todos.

Ainda me é difícil refletir estes temas, e venho os estudado desde meu desencarne há mais de quatro séculos. Confesso que não me sinto pronto ainda para a envergadura da carne e, em sua infinita compaixão, o Pai Maior permitiu que eu mo fosse acolhido por espíritos divinos em sua colônia, cujo nome, entretanto, não fui autorizado aqui a escrever nem reproduzir.

Bom, como dizia, venho estudado as leis divinas que regem a verdadeira justiça que molda o mundo espiritual, nossa pátria genuína, da qual somos voluntariamente exilados (para não dizer impelidos, termo este que penso enquadrar os que se veem forçados a aceitar peremptoriamente sua reencarnação no Planeta Terra em face de criminoso pretérito a marcar-lhe profundamente a alma), esforçando-me, pois, para compreender um pouco da natureza divina do Pai que nos criou. Deste lado cá, convivendo com outros espíritos em certa similitude para comigo, concluí que livre me encontro das amarras dos preconceitos de outrora, muitos dos quais persistem na Terra. Não sei quem de fato lerá isto e ponderará em cima de minhas ponderações, tendo em vista ser esta minha primeira comunicação... Aos possíveis leitores, desde já peço desculpas por quaisquer erros (seja de grafia ou coesão gramatical), esta é minha primeira tentativa em estabelecer-me convosco, missão me concedida ao Alto por motivos que me são desconhecidos e não creio bem que seja merecedor, pois tanto há a que me aprimorar. De todo modo, grato sou por esta oportunidade e nenhum empecilho deve ser colocada como meio de servir à Luz. Aonde há trabalhador de boa vontade, bom trabalho se aparece.

Bem, direto ao assunto. Em princípio, não pretendia me identificar pela irrelevância em me apresentar numa comunicação que julgo ser mais relevante o conteúdo do que àquele que vos fala. Mas para o assunto tratado, não vejo como me desvincular disto. Meu nome espiritual é John e minha última encarnação foi na Inglaterra Tudor. Os eventos que falarei aqui são importantes para entenderem o que passei... A matéria não está desconexa do espírito, afinal.

Havia uma rainha bela e admirada por todos os cortesões que reinava em 1532. Arrancava de seus súditos admiração e rancor de igual maneira, era objeto de fofoca nas bocas de todos, pois era a “meretriz” que substituíra a boa rainha Catarina nas afeições do rei Henrique. Notoriamente, Ana Bolena havia alçado à cobiçada posição de consorte da Inglaterra por meios incomuns ao cortejo da época: fazendo-se de difícil e agindo como francesa em sua coqueteria. E seu espírito era impecavelmente francês: falava tão bem aquela língua que muitos duvidariam ter nascido em terras inglesas. Adaptara-se tanto à corte da senhora Claude que somente elogios eram tecidos sobre seu caráter. Embora forte, impetuoso e orgulhoso, imponente quiçá, era decidida em todos os aspectos. Gostava de conquistar, recusava-se a ser conquistada. Flertar era o esporte que dominava com afinco. Não era tão bela fisicamente como sua irmã, mas toda sua confiança inspirava outro exame. Era cruel, como paradoxalmente sabia ser bondosa. A verdade é que era desconfiada por natureza, guardando em si mesma a intuição de que veio reparar, naquela existência, crimes cometidos no pretérito, e como tal levar a cabo importante missão, cujo sucesso implicaria muito na condução de sua vida material quanto na espiritual.

Quando Ana foi falsamente acusada de crimes que não cometera, quais absurdos contidos em tamanhos impropérios que não me cabe divagar aqui, o mais leal dos amigos se virou contra ela e o mais ferrenho dos inimigos cresceu sobre ela. Entretanto, foi vítima? De modo algum, ainda que a história goste de pintá-la como pobre ovelha sacrificada em prol da família. Mas esquecem-se com frequência os homens que, não obstante seu apego à matéria, estão “cercados por uma nuvem de testemunhas”, como já os havia alertado Paulo de Tarso. Quem são estas testemunhas se não criaturas vivas, invisíveis, no entanto, a olho nu? Não sabeis que casos de obsessão atravessam os séculos, quase sempre incentivando o aumento dos defeitos em vez da correção dos mesmos.

Em vez de sabedoria, a soberba. O poder corrompe os bons, dir-se-ia, mas aponto que não poderia corromper àquele que superara suas faltas anteriores. Prefiro dizer que ele traz à tona o que muito se busca reprimir sob os bons costumes, a moral religiosa que controla ainda hoje a mentalidade de tantos encarnados (e, quiçá, desencarnados também). Se há muito entendessem que reprimir as faltas equivale a alimentar profundo rancor e estímulos a sentimentos nocivos em vez de abraçá-las para o trabalho, esclarecimento e a correção, tantas almas teriam sido salvas ou, melhor dizendo, evitariam a perdição. No entanto, Aquele que nos criou, princípio inteligente de todas as coisas, consciência cósmica Maior, tudo sabe, conhece e respeita que em Seu devido tempo nenhuma ovelha se perca de seu pasto--e mesmo aquela que tenha, porventura, se desviado uma hora encontrará o caminho de volta.

A acusação. Embora sabemos que raríssimas foram as rainhas felizes em sua domesticidade e fora dela, mais comum sendo aquelas que foram maltratadas a níveis absurdos por seus soberbos reis, não se tinha conhecimento de ter colocado qualquer delas à par de execução. Ora, dir-se-ia que na história britânica, uma fora supostamente envenenada por seu marido, outra, aprisionada, mas ainda assim... Acusada de incesto? Executada por separação forçada do membro superior de seu corpo? Barbaridade, mesmo para aqueles cruéis tempos. E, no entanto, a “representante de Deus” ungida pelos filhos da Igreja... sofreu tal penalidade.

Mas este suplício traz ensinamento que poucos se propõem estudar. No âmbito espiritual, veremos nocivas influenciações de detratores embrutecidos em acusações forjadas que nenhuma comprovação factual seus obsidiados terrenos possuíam. Para a “vítima”, entretanto, era preciso passar por tal violento fim: fosse para limpar os crimes do passado (e até então do presente), fosse para ensinar-nos que a realeza é uma ilusão. Ela não impede a morte, não modifica o caráter do espírito que encarna com dolorosa expiação neste meio. A própria corte é evidência de um mundo que não correspondia à realidade. Seus nobres envaideciam-se às custas dos camponeses que exploravam, olhavam para seus ancestrais com um quê de culto, e não se distinguiam da corrupção que manchava o clero da Igreja. Uma boa parte se desviava de seus propósitos espirituais para viver segundo a matéria. Quando fui ao umbral da última vez para auxiliar no resgate que a misericórdia divina jamais cessa em ofertar aos filhos perdidos, entristeci-me profundamente por rever velhos companheiros ainda obstinados no erro. Mas fé tenho de que o Pai um dia os esclarecerá como me esclareceu também.

Apesar de violento desencarne, reflexo da brutalidade do século XVI, Ana Bolena foi bem amparada pelos nossos amigos espirituais e sua virtude foi reforçada pela forma com a qual encarou seu fim, demonstrando fé e resignação em seus momentos finais. E, embora houvesse compreensivelmente tristeza em seus olhos negros até os últimos instantes, também havia perdão e compaixão. Hoje em dia, é certamente mais esclarecida que em seu tempo, e ouso dizer que poucos são os que, com a oportunidade dada em mãos pelo Pai, recusam ante necessidade de reencarnar e aprimorar-se à luz do evangelho.

Sem dúvida, todos nós carregamos arrependimentos com relação ao pretérito. Nossa Ana também tem as suas e as expressou sobretudo com a princesa Mary e àquela cuja posição “usurpou”, Catarina de Aragão. Por ambas foi perdoada em seu devido tempo. O perdão sincero é capaz de nos unir aos nossos detratores.

Ana nos diria que não devemos ter autopiedade quando olharmos para o caminho repleto de erros que nos trouxeram o presente. E é verdade. Também eu errei tanto que não me orgulho (e como poderia?!), na verdade, é natural que eu me envergonhe. Mas falo com naturalidade, leitor, porque me perdoei. Aceitei... E digo mais, aceitei Jesus em meu coração. Quando aceitamos os ensinamentos daquele que o Pai nos trouxe para aspirarmos a ser como irmão maior que nosso mestre é, entendemos que ele jamais nos abandonou. Jamais cerrou as portas de seu reino para nós. Nós, ao contrário, é que optamos por nos afastar. E quando retornamos ao seu abraço, ele nos receberá com júbilo! Pois filho pródigo regressa ao lar! E com ele, através dele, celebra também o Pai que nos criou, emocionado em receber em seu seio àquele que recebeu como Sua herança a centelha divina.

A reencarnação existe também para isso. Entendermos nossas falhas e corrigi-las sem repressão, sem autoflagelo, sem glorificar ou terrorizar o passado, questionando o que poderia ter sido feito. Parafraseando nossa amiga que inspirou-me esta reflexão, “os erros nos impelem ao progresso, sem os quais não teríamos chegado ao presente”. E o presente, creem quando digo, é sempre melhor que o passado e será logo ultrapassado por nascente futuro.

Disto concluo que, enquanto o pretérito traz importantes ensinamentos para nossos esclarecimentos, não podemos viver cercado por ele nem alçar ao futuro incertezas que não nos compete lançar. Não devemos nos inferiorizar a todo instante nem nos elevar acima do bom senso, mas aceitar-nos como verdadeiramente somos e entender que Deus já nos perdoou e nos aceitou, e continua nos amando ao depositar diariamente Sua Fé em nós através dos constantes amparos a que nos envia. Sem comparações, somos Sua criação em nossas individualidades. Não é momento de se envergonhar do que foi feito, mas entender que foi preciso passar pelo passado para nos esclarecermos e melhorarmos. Para tudo há um motivo.

No meu desencarne, demorei, admito, a entender tudo isso. Pois quando o choque inundou minha alma, me flagelei. Não me acolhi, mas torturei minha consciência. Não busquei compreender, mas me sacrifiquei... pelo ego. Custei a entender que, de fato, fiz escolhas ruins. Mas, perguntei-me, seria possível mudar o curso de minha essência? Entendendo que era espírito e permanecia vivo, logo reencontrei outros em similar posição. Todos em sofrimento. E perguntei-os, ora que causas tanto pranto e ranger de dentes? A resposta recebida era a mesma: nenhuma missa paga os preparara para aquele infindável tormento, a Igreja, em nome de Deus, os enganara, enfim, terceirizavam a culpa para não ver que eles mesmos se colocaram naquela situação.

Em 1607, lembro da chegada ao local de certa personalidade a qual não posso me referir com detalhes. Todos se aproximaram porque seu lamento, seu uivo de dor transbordava abertamente. Veio a nós, porém, tal qual donzela, aquela que em paz se prontificou a ajudar todos nós. E uma vez entendendo que eu mesmo me causei aquilo, pedi-lhe perdão. Disse-me ela:

“Por teu excelso amor nada posso perdoá-lo, meu caro. Ferira a ti próprio ao fugir de tuas responsabilidades tal qual eu, em Terra, fizera e colhera, pois, os resultados do que semeei. É o amor, contudo, que nos une e eleva ao Criador que tudo perdoa e nos recebe com a mansidão e infindável doçura que nos falta. É isto que importa. Títulos e propriedades, vestidos e joias? Que são isto em comparação com o amparo que Deus, através de Cristo Jesus, nos lança bálsamo para cristalizar as feridas por nós mesmos causadas? Entendais, bom amigo e irmão, que somos responsáveis por nós mesmos. Não é o rei, nem o campesinato que nos trouxeram aqui. E, no entanto, a luz não nos é negada. Perdoai e amai-te para que possas perdoar e amar aos outros em seguida. Esta é a principal lição. Pois tu também és filho do Pai que o criou e cruz também carregaste por dolorosas existências.”

Diante de meu pranto, ela me segurou e disse: “Levantais, meu amado homem, pois te trago oportunidade da redenção que buscais. Já passaram-se meio século e ainda permaneces na erraticidade pela recusa de quê? Não enxergas ainda que ouro nenhum compra o amor e a ternura de nosso Mestre para conosco, por quem se sacrificou e aceitou calúnias sem responder? Sê bravo e corajoso, tens ainda missões a desempenhar, mas preciso seja que te cures, pois a ti também compete curar outros e consolar mais ainda. Neste caminho, se aceitares Jesus como teu mestre de coração e alma, a luz se expandirá. Olvidam os homens de que o amor verdadeiro transborda de dentro, da alma, e não somente de poemas e ouro que a toda matéria compre. Nenhuma coroa pesa como a de espinhos pesou sobre fronte doce de Jesus e ele a suportou valorosamente. Pensais que olvidei Dele naquele instante?” E com sorriso terno, disse-me: “Não, e creio que tampouco tu. Coloco em tuas mãos este “sacrifício”. Diga-me, que te queres escolher, embora espere que escolha com sabedoria.”

“À ajuda de Jesus, eu aceito, embora não a merece”, foi o que respondi em soluços.

Bondosa dama me respondeu, amparando-me em seus braços: “Todos nós somos merecedores dele. Basta abrirmos o coração, pois o fechamos a ele em tortuoso passado.”

E dali em diante, unimo-nos, ou melhor dizendo, reunimo-nos à luz de Cristo para trabalho incessante. Atualmente, ela se encontra reencarnada, mas nada mais posso informar. Quem sabe eu reencarne pronto para outra missão? Todo o conhecimento deve ser passado à frente como de costume.

Agradeço, portanto, à médium pela oportunidade de me dar voz neste instante. E certo estou de que em breve nos reuniremos outra vez. Que Deus a abençoe e ilumine seus caminhos. Grato sou também aos seus guias que mui pronto me ofereceram auxílio para difícil tarefa. Que Deus os ampare e rogo para que os ame a todos sempre, inspirando-nos constantemente à seguir o caminho que Cristo nos convidou a trilhar.

Espírito John.”


Relatos III: Contemplações, pelo Espírito Moisés-Joaquim.

Nota do Guia de Ogum: "Bom dia, caros companheiros e companheiras, irmãos em Cristo. Em mais um relato que trazemos a vós, cumpre fazer breve introdução. Moisés-Joaquim é o nome escolhido por nosso irmão desencarnado que vem sido assistido em seu progresso no plano espiritual há um bom tempo. Segundo a lei de afinidade que rege tanto o plano daqui quanto o vosso, isto é, quando há afinidade fluídica, moral e intelectual entre um espírito encarnado e um desencarnado, estabelece-se uma ligação. Como a médium apresenta interesses intelectuais muito similares aos deste irmão cuja comunicação tornamos pública hoje, ele vem-na acompanhando em seus estudos. A partir disso, sentindo que seu entendimento quanto ao funcionamento do plano espiritual e suas leis ditadas pelo Pai Celestial vem aumentando, ele pediu permissão para se comunicar, o que foi garantido segundo seu merecimento. Creio que não preciso dizer mais, pois o restante ele mesmo fez questão de expor. Somos gratos a sua contribuição e esperamos que as reflexões deste bondoso amigo e irmão possam inspirá-los a seguir no caminho da luz.--George."

“Fui judeu em uma época muito distante da sua, minha cara. Temo que possa ignorar os termos que outros estudiosos da Torá possam estar mais familiarizados. Mas não será disso que falarei, não é o propósito que me move aqui.

A verdade é que venho a acompanhando nestes últimos estudos do Evangelho e acerca do Espiritismo, desta doutrina que, não nego, me fora desconhecida. Mas a sua luz de conhecimento e sabedoria me atraiu até aqui, pois confesso que até então me achava perdido.

Por muito tempo fiquei muito vidrado, quase obcecado com a forma dos rituais que os hebreus reproduzem tradicionalmente século após séculos com base nas leis mosaicas. Casávamos entre nós mesmos não somente pelos motivos de cupidez que, hoje mais esclarecido, me envergonham, mas também por segurança. Quando Moisés nos libertou da escravidão egípcia, pensamos que éramos livres de fato, mas ao contrário... por quanto tempo fomos perseguidos? Sei que sabe que, no caso da Inglaterra, foi somente depois de 1743 que fomos dados a permissão de residir lá. Muito mais recente foi o holocausto que dizimou mais de 1 milhão de almas, a maior parte da qual era inocente de toda e qualquer acusação, e cujo único crime era ter nascido hebreu. Recebemos século atrás de século a culpa pela crucificação do Messias. Oh, que lamentosa vergonha sofremos pelos atos de nossos antepassados! Todavia, devo dizer que ante a multidão que gritou pela morte Dele havia pesada influência sobre os sacerdotes. Tudo isso aprendi aqui, no plano espiritual.

Fui português e, por muita sorte, escapei da perseguição judicial da “Santa” Inquisição. Fui obrigado a tornar-me Oliveira, vergonha que carreguei em minha consciência. Ao olhar para os percalços passados pelos meus antepassados, seria justo procurar pela sombra mais tranquila? Desposei Elisabet e, depois, Esther. Com ambas tive filhos. Crianças doces, uma delas que me lembra você porque tinha voz doce que cantava melodia d’alma e uma sede por saber. Como pai devoto, eduquei como podia. Preparei cada um para casamentos.

Mas era mui difícil ouvir a pergunta das crianças: papai, por que abjurou de sua fé? Nossos ancestrais morreram por ela. O décimo e oitavo século me trouxe pesados questionamentos que somente agora pude compreender. Fui mercador, mas me corrompi no caminho. Comprei a Igreja para que não me perseguisse. Fugi de mim mesmo. Tornei-me quem não quis. Vivi da vaidade mundana e certamente ouvi que era tão caracteristicamente hebraica.

Hoje aprendo a não ter culpa por ter protegido minha família. Em um mundo duro e cruel, fazer isso de bom grado contra as convenções é bom sacrifício aos olhos do Pai. Sim, errei e bastante, mas também Ele me perdoou. A todo instante, Ele nos oferece perdão e, no entanto, quantas não são as vezes em que fugimos dEle? Conforme estudava no plano espiritual, antes mesmo de mo ser dirigido a você, filha, soube que eu, do alto do meu ouro, julgava muitos. Descobri que os crimes dos outros que julguei com tanta ferocidade... No pretérito cometi. Eis outra valiosa lição: o que realmente sabemos? Podemos de fato medir por nossa régua a vida alheia? O Pai mo ofereceu perdão e outra oportunidade de limpar-me dos pecados. Por que recusamos o mesmo aos outros?

Sabe, filha, sei que a situação anda difícil. Não sei o que seria de mim ou dos meus se renascêssemos hoje em Israel. Ou em qualquer outro lugar do globo terrestre. O que me move é a fé no futuro. É por isso que vim. Para animá-la. As energias estão misturando demais e algumas das vezes recaem sobre você. Mas lembre-se de sua candura, da sua doçura e sua sapiência. Sabe lá aonde vão levá-la? Os bons espíritos a acompanham, crê no que digo. E, sem saber, me ajudou bastante. Reencontrei, por sua causa, todos os filhos que temi ter perdido. Obrigado.

Aqui está minha retribuição. O conhecimento é um caminho que vale a pena, e para os que vivem com pressa, não percebem as pedras que somente você precisa passar para superar até mesmo a si mesma. Confia, que os resultados vêm. Seja agora como no futuro. O importante é sorrir e espalhar a sua alegria por aí. Nisso, digo mais. Aprendi com você que o esclarecimento vale tudo a pena. Que significa a fé sem a razão? Perdoe-se como perdoa os outros, paciência tenha como tem com os outros. Assim, virá o que tanto busca.

De seu sincero amigo.

Moisés-Joaquim.”

Relatos II: Diálogos com São Francisco de Assis pelo Espírito Monge Antônio.

Nota do guia de Ogum: "Bom dia, companheiros e companheiras encarnados neste belo planeta! Seguimos com o nosso trabalho espiritual que, como podeis ver, não é somente resultado da médium junto a mim, mas envolve todo um grupo que coordena estas psicografias segundo as instruções que nos são legadas pelo Alto com a permissão do nosso Pai Celestial. Para os que estão porventura familiarizados conosco, a psicografia de hoje é ditada por nosso velho conhecido: o Monge Antônio, que tem acompanhado a médium em seus estudos espiritualistas e cujas observações se encontram na rede de mídia social como já pudestes ver. Entretanto, aqui ele nos traz rico relato sobre a importância de levar a Palavra do Senhor mesmo àqueles que nos fazem surdos no dia-a-dia e como São Francisco, com sua paciência, ternura e brandura, foi de importância vital para que nosso amigo continuasse sua jornada na luz do Senhor em meio às sombras dos nossos irmãos que, mesmo hoje em dia, persistem na cegueira produzida pelo orgulho, vaidade, egoísmo, dentre outros vícios, que os afasta do nosso bondoso Pai." 

“Na humildade, na pobreza, longe das ilusões proporcionadas pelo luxo da carne, um dia, enquanto pregava a palavra do Senhor nas ruas de Siena, reparei que duas senhoras brigavam. Aproximei-me delas e, sem interesse em buscar entender o que realmente se passava, falei:

--Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo e sua doce e santíssima mãe!

Ignoraram-me, mas senti que elas precisavam ouvir, não obstante os olhares de desprezo que outros por ali perto me dirigiam.

--Que bênçãos caem sobre vós, senhoras! Não permitais que pequena desavença interpunha-se entre vós! Sedes felizes com o que possuirdes e buscais a fraternidade, eu vos rogo!

Uma delas, vestida pomposamente, pareceu ouvir. Mas franziu a fronte e tornou:

--Dias passarão sem que tal lição será discursada por um mero pedinte sobre nós. Que quereis, monge? Se pregais o voto de pobreza, por que mendigais por ouro?

--Nenhum ouro é melhor do que a Palavra pregada do nosso Senhor—volvi—Céu e Terra passarão, mas a Palavra não passará.

A segunda, olhando-me com desdém, disse:

--Por que perder tempo com este? Ora, se quiséssemos ouvir a Palavra, estaríamos em um lugar apropriado tal como a Igreja.

--Mas senhora, a Palavra não se circunscreve à Igreja. Permita-me dizer que os ensinamentos estão em nós mesmos. A alma, imortal, foi criada a partir do Senhor para que se cumpra sua divina vontade.

A primeira, levemente interessada, se pôs a inquirir:

--E que vontade seria é essa?

Achei que estava tudo correndo bem e sorri, acalentado por esperança desconhecida.

--A de amarmos uns aos outros como ele nos amou. Vedes, perdão é um exemplo de amor excelso. Quando perdoamos do nosso coração, esquecemos as dívidas e as ofensas daquele que nos feriu. Por que não perdoais a vossa irmã?

Ela pareceu hesitar por um instante, mas a outra tornou a vociferar:

--Que quereis conosco, monge? Quem dás a vós o direito de intrometer em assuntos que não vos dais respeito? Tendeis a pretensão de nos ensinar a caridade quando não a praticais? Que eu saiba, homens como vós não possuem direito sagrado para falar por nosso Senhor. Se quereis viver na pobreza, que viveis, mas não nos atormenteis mais!

Como se inspirada pela dama com quem discutia até pouco tempo antes, retrucou:

--Que isto sirva de lição. Os franciscanos devem ficar onde os convém: na pobreza.

E, rindo, as duas me deixaram na rua. Entristecido, me pus a indagar minha consciência: em qual instância errei? Meu orgulho teria se camuflado de humildade e me instado a crer que poderia pregar a palavra àquelas senhoras? Questionei-me. Como posso ser útil ao Deus Pai daquela forma? Como falar à gente surda?

Confuso e desanimado, voltei o caminho percorrido. Fui, antes, a uma igreja e dali fiz uma pequena prece, rogando ao Senhor por perdão. Falhei, mas admitia desconhecer em que ponto exatamente errei e por que aquilo era-me como uma flecha em meu peito. De cabeça baixa, voltei às sombras a comunidade. Lá, Francisco de pronto me recebeu. Alma boníssima e de olhos repletos de luz, de imediato afastou as nuvens que carregava comigo. Sentamo-nos longe de nossos irmãos. Ele disse:

--Que é isto, irmão Antônio? Lembro de tê-lo visto receber as instruções que o dei com alegria e agora volta abatido.

--Falhei em minha tarefa, senhor—e, sensível, expus o que pesava sobre meu coração.

Ele ouviu e pareceu ponderar por instantes antes de dizer em meio ao sorriso que me oferecia, sempre cândido.

--Todo erro é necessário para aprendizado. Não faça dele teu flagelo. Não há necessidade disso. Quando nosso Deus nos colocou aqui para que recordássemos aos nossos irmãos em Jesus, nosso mestre divino amado, das leis que há tantos e tantos séculos ele, encarnado, veio ensinar a nós todos, preparou-nos para os vícios que se enraízam nas almas dos homens. Sabeis me enumerá-los, meu irmão?

--Luxúria, cobiça, soberba, ira, glutonia, preguiça e vaidade.

Francisco sorriu, brando.

--Sim, estes são os piores, mas bem sabemos que o orgulho, em si, é o pai destes todos. Deparamo-nos, meu irmão, com aqueles que se acham na razão de dizer aos outros como devem viver, pensar, sentir, agir... Aqueles que não ouvem e, no entanto, querem ser ouvidos. Para tanto, pavoneiam-se. E, contudo, devemos nos apiedar destes irmãos nossos que estão feridos por dentro. Quem briga, fere. Quem precisa mostrar ao mundo as morais que possui, está triste, infeliz. Diga-me, quem poderia ser feliz quando é governado pelas paixões?

--Muito difícil—volvi—é crer-se feliz quando a mente é governada por tais paixões, mestre.

--Por favor, sem títulos—ele me repreendeu com doçura—Sou apenas Francisco, meu irmão. Mas sim, a mente, quando indisciplinada, nos leva as ilusões, alimentadas pelo orgulho. É mui difícil levar a Palavra a estes nossos irmãos porque eles acreditam conhecer tudo, e, no entanto, não valem de tal conhecimento. É preciso paciência, misericórdia e compaixão. Haverá um dia em que estes irmãos vão despertar de suas paixões. São todos fortes em Deus Pai para livrar-se disso, mas a tudo segundo seu tempo. Não te entristeças. Credes em mim quando digo que tua exortação não caiu em ouvidos surdos.

Hesitante, perguntei:

--Mas como podes ter certeza?

--Acaso não confias no Pai que te enviou aqui? Não confias em nosso mestre Jesus? Lembrais, meu irmão, que Jesus também sabia que no tempo do Pai os trabalhadores de última hora chegarão para vir buscar sua boa nova, seu pão de cada dia—ele sorriu, otimista—E mesmo quando eles chegarem, cabe a nós acolhermos, pois são como irmãos que foram fazer uma viagem distante e depois de tanto tempo, regressam à casa. E como os receberemos? Não será com alegria?

--Sim, assim o será.

--E desistirias de um irmão que te fazes surdo às tuas exortações?

--Não. Acredito que, se me permite, apenas mudaria o local das mesmas—Inseguro, pus a acrescentar—Iria aonde minha ajuda seria aceita.

--E mesmo ainda aí, deveis não desperdiçar a oportunidade em lembrar aos nossos irmãos e nossas irmãs de que o jugo no Senhor é leve para aquele que crê. Que tudo é passageiro, mas não a Palavra, e por que isto, eu o pergunto?

--A Palavra não muda porque ela traduz as leis do nosso Pai que as determinou. Ele é justo e coerente, é resistente às coisas mundanas—especulei.

Francisco me sorriu com ternura e pôs uma mão sobre meu ombro.

--Deverias falar com mais confiança aquilo que de tua alma emana. Amais aqueles irmãos que te olham com desdém, pois eles desconhecem a verdadeira ternura. Amais aqueles que brigam para se fazerem ouvidos, pois eles olvidaram o amor e paciência. Amais os intolerantes, pois haverá um dia em que sofrerão a intolerância de suas pregações, e precisarão de quem os ame e os console. Amais os que pensam de maneira tão diferente das nossas porque cada alma possui uma única individualidade e o nosso Deus conhece a ela todas e não pediria que fossem todas iguais, do contrário, seríamos todos uma única entidade. Se precisares, pranteia hoje, pois a dor é válida tanto quanto é um excelente aprendizado, meu irmão. Amanhã, te levantas e agradeças ao Pai por essa lágrima que escorre de teus olhos, pois demonstra que em teu coração há a sensibilidade que ainda falta ao mundo. Amais mesmo os frios e embrutecidos, pois se distanciaram do ensinamento de Jesus. Tendes piedades dos que precisam usar da força para com seu semelhante, pois vivem em ilusões que, na posteridade, será difícil desenlaçar. E acima de tudo, amais sem diferenças e sem recompensas, pois é pelo amor que servimos e nos devotamos, sem distinções, e movidos pela caridade que nos enternece.

Emocionei-me e um soluço escapou-me. Como se estivesse a ler meus pensamentos, disse Francisco:

--E não te sintas envergonhado pela sensibilidade de teu coração, meu irmão. Nem por prantear por aquilo que te fere. Corajoso é aquele que reconhece o que possui. Bens aventurados são os mansos de coração, pois é a eles que espera o Reino dos Céus. Siga teu caminho, Antônio. Tendes paciência. E evitas te colocar em posição de conflito, pois não te cumpre resolver tudo. Nosso mestre Jesus não pôde curar a todos porque não era o tempo ainda. Vá semeando, meu amigo, que o vento ajudará e a chuva regará o que plantou.

--Obrigado—foi tudo o que consegui balbuciar—Obrigado por tudo. Desejo-te ser um irmão fiel, um bom seguidor e um instrumento de nosso Senhor aonde for necessário.

Ele sorriu e pude jurar que vi um halo formar-se sobre sua cabeça. Outra vez, bom Francisco repousou sua mão sobre meu ombro e deu-me uma leve pressão.

--Credes quando digo, meu irmão, que o Senhor nos porá aonde formos necessários para Ele. O que reside em nossos corações Ele vê. Se buscas seguir o caminho corretamente e oferecer amor em tuas caridades com o próximo, credes, estás fazendo muito mais do que os que pregam por lábios, mas emudecem os corações. A verdadeira humildade não está somente em reconhecer nossas limitações e aceitar a autoridade do Senhor sobre a nossa em todas as questões temporais ou seculares, mas em resignar-nos ante a sua vontade. Ele não rejeitará um irmão que, em meio aos tropeços, busca a Ele de coração aberto. Nem tudo é preto no branco, Antônio. Recordas disto.

Tomei suas duas mãos nas minhas e tornei-as beijá-las, ajoelhando-me subitamente diante dele. Mas Francisco sorriu e, pondo uma mão sobre minha cabeça, disse:

--Tranquilizais teus temores, meu amigo. O dia de hoje é mais um para tantos de nós, mas, credes, será o nascer do sol para os que viviam em escuridão até então. Não desistas diante das pessoas mais difíceis, pois são irmãos que necessitam de nosso amor e nossa compaixão. Ide, Antônio, e pregas como te ensinei. Um dia, tornaremos a nos ver novamente e o receberei de braços abertos sob a luz de nosso mestre Jesus. Ide em paz e que o Senhor esteja sempre convosco.

--Graças a Deus—falei, emocionado.

E não mais esperei. O dia havia recentemente passado do meio dia, e eu, ansioso e renovado com as boas instruções daquele a quem servia com inflamado amor, pus-me a trabalhar para o Senhor. Eis o ensinamento ao leitor, minha cara amiga. Fazeis como eu, e espalheis a Palavra aonde fores necessária.”

 

 

Relatos I: Moisés e a Fé pelo Espírito Miriam

Nota do guia de Ogum: "Começamos aqui o primeiro de uma séries de relatos muito ricos trazidos por espíritos que experimentaram na carne um número incontável de encarnações neste planeta. Estes relatos têm como propósito ilustrar os testemunhos de fé, as reformas íntimas, os processos encarnatórios pelos quais passaram tais entidades na Terra de modo a inspirar-vos a não desistir das batalhas diárias, a recordar-vos de que jamais estais sozinhos ao curso de vossa caminhada neste plano material e que, acima de nossas vontades, prevalece a do Pai Maior que tudo sabe e conhece nossas necessidades antes mesmos das nossas. Aproveito a oportunidade para salientar alguns pontos: o primeiro é a de que a identidade destes espíritos não é vos relevante diante do conteúdo que eles vêm apresentar a vós; o segundo é que, conforme vereis neste relato como nos próximos, a dor individual não é a mesma para o outro irmão na carne, logo, o sofrimento não pode e nem deve ser comparado. Contudo, disto se deve inferir que o amor deve vir antes do julgamento e o acolhimento consigo próprio se faz necessário. No mais, tecerei comentários se for necessário. Que Deus vos abençoe meus irmãos e minhas irmãs em Cristo. Fé e avante sempre!--George."

“Quando era pequena, lembro de minha mãe conseguir esconder-me na sombra da esfinge. Eram tempos mui difíceis. Nossa fé em Yeowah era testada a todo instante. Mas ao fim de cada dia, dormia feliz por ter comigo minha mãe e meus irmãos. Nosso pai desencarnou em consequência do árduo labor.

Quando completei sete anos, todavia, caravanas se preparavam para o êxodo. Nosso libertador desceu a nós. Seu nome era Moisés. Largando o conforto para libertar nosso povo da tirania de espíritos mui apegados à matéria, ele confrontou o faraó e nos prometeu levar à terra prometida. Era somente uma menina quando, no colo de minha mãe, seguimos aquele moço de feições firmes e olhos cândidos, cujas vestes eram laranjas e verdes. Portava um cajado e andava descalço.

Algo em mim despertou e eu não sabia o que era. Uma voz dizia: Procure-o. Lembro de ter me esquivado de minha mãe, que, desesperada, gritou:

“Miriam! Aonde pensa que vai? Há muita gente, volte cá! Pode se perder!”

E correu atrás de mim. Mas, empurrando a todos, logo antes da maré baixar, quando as nuvens davam espaço para a luz de Yeowah entrar em nossa atmosfera, achei-o. E puxei a bainha de sua veste para que me notasse. Um amigo seu me repreendia, mas Moisés me levantou e disse:

“Que Deus a abençoe, menina.”

E, como se pressentisse a chegada de minha mãe, ele se virou e me entregou a ela. Mamãe, humilde e de bom coração, implorava perdão por meu comportamento e teria se jogado aos seus pés se ele não a impedisse de fazê-lo. Em vez disso, me entregou a ela e, com serenidade, disse:

“Bem-aventurado aquele que vê e crê de coração.”

E mamãe sorriu, seus olhos cobertos por uma névoa de lágrimas. Quase depois, atravessamos a passagem, maravilhadas pela divisão do mar, que nada mais era do que a diminuição da maré.

Fugir dos que nos perseguiam e, segundo diziam, do próprio faraó, era difícil. O solo era pedregoso e, pobres que éramos, nossos pés criavam bolhas e machucavam na subida da montanha. Logo mais, quando todo o povo, sem exceção, fez a travessia, a maré subiu e derrubou nossos perseguidores. Lembro das palavras de minha mãe, na ocasião:

“Bendito seja Yeowah, a quem ouvimos e louvamos, pois Ele é justo.”

Dali em diante, seguíamos Moisés sem questionar. Seriam longos passados no deserto, enfrentando intempéries e desconfortos, provações que, todavia, não se comparavam a servidão. Naquela rotina simples, porém, transcorreram-se dez anos. Foi quando Moisés subiu à montanha. Quando voltou, se decepcionou com o que encontrava: abjuração da fé e outros crimes que não me compete falar. Foi preciso dureza com um povo duro. Daí vieram as leis mosaicas, ou os dez mandamentos. Lembro que, de manhã, ouvi a mesma voz de quando era criança, me urgindo a buscar Moisés.

De novo, deixei minha mãe e meus irmãos para trás. Contava na época dezessete anos. Mais tarde, seria repreendida por ter sido imprudente, mas sabia que aquilo era necessário. Embora acampássemos na mesma região, não foi até o crepúsculo que o alcancei. Alguns dos guardas tentaram me apartar, mas Moisés pediu que me tratassem com dignidade.

“Viestes a mim de novo”, disse ele, sereno.

“O senhor te lembras?”, indaguei, surpresa.

“Como não haveria de ser? Me parece que fostes trazida a mim por alguma razão”, e vendo que nervosa estava, ele disse com suavidade: “Não temas, criança. O que te afliges?”

Pensei por uns instantes antes de tomar o lugar que ele me ofereceu.

“O Senhor... saberia dizer se vai demorar para chegarmos à terra prometida? Por favor, não me interprete mal”.

Mas ele riu. Vi em seus olhos cansaço, a dureza de liderar um povo ignorante, mas igualmente vi paciência, sabedoria e candura.

“Quem sou eu para julgar o ímpeto do coração de uma jovem?” E riu. “Também eu outrora fui como ti, embora mais paciente. Veja ali, menina.” E apontou para o céu, que se esverdeava, enquanto as estrelas subiam com seu brilho. “De lá, vem as ordens do nosso Pai, que tudo sabe, tudo vê. Que é o tempo para Ele? Não foi quem nos libertou depois de 300 anos de escravidão? Por espíritos como os de tua mãe que a paciência foi recompensada. A fé, veja, é importante. Mas só acreditar, não basta. É preciso confiar. Confiar que, para aquele que busca, será encontrado. Confiar naquele que é inteira e infinitamente mais sábio que nós. O que quero dizer é que, sim, chegaremos lá.”

“Mesmo que demore, seguiremos o tempo Dele”, falei.

“Muito bem”, Moisés sorriu. “Viestes para aprender. Agora vá e transmita aos seus irmãos. Nas pequenas coisas, mesmo que possamos ignorá-las, há trabalho. E se há ocupação, haverá recompensa. Tendes fé como recomendei e todo o mais se resolverá.”

“Pois chegaremos aonde Ele nos guiar”, arrisquei e ele sorriu.

“Exatamente. Ide, minha filha, e que a Paz do Senhor te acompanhe.”

Agradeci, mas antes de ir embora, voltei e o chamei novamente. Quando ele me viu, respondi:

“E que Yeowah o abençoe, mestre!”

E saí, feliz e grata por rica oportunidade. Mais à noite, quando me juntei aos meus irmãos e a nossa mãe, contei o que aconteceu e acrescentei:

“Precisamos confiar que, nos males, há cura. Que o tempo não nos pertence. E que somos formiguinhas na seara do Senhor.”

Não vivi para chegar a Jerusalém, é verdade. Mas na encarnação seguinte, desci a Israel, preparando-me para ser chamada pelo Mestre em Carfanaum no tempo devido. Assim, se voltei, é para lembrar a todos que, por mais longa que seja a caminhada, aos que cultivam no coração a boa vontade e a fé sincera, a confiança genuína Naquele que nos prove, auxilio não faltará. Afinal, buscais e encontrareis. No tempo de Deus, as portas serão abertas.”

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...