terça-feira, 29 de setembro de 2020

Contos Medievais, Romance V: Margaret e James.

Nota do guia de Ogum: "Estamos hoje concluindo o primeiro dos três ciclos de contos psicografados situados especificamente no largo contexto que a historiografia humana convencionou chamar 'Idade Média'. Este período compreende, ao menos em tese, dez séculos: desde o quinto século contado a partir do desencarne de Mestre Jesus ao décimo-quinto. Isto é, a partir da queda do Império Romano do Ocidente ao ano de 1500. Não estamos aqui para debater tais convenções de temporalidade, mas apenas para situá-los de tal contexto. O propósito dos romances vem para, além do ensinamento que toda psicografia carrega em sua mensagem, mostrar, ilustrar e ensinar a simplicidade do dia-a-dia do passado. Na contemporaneidade vossa, percebemos que os debates, os ensinamentos em torno deste assunto é superficial, limitado e muito marcado pela materialidade que vos cerca. Neste sentido, para os que desejam ser instruídos nos viés da humanidade e espiritualidade, os relatos aqui trazidos são riquíssimos. Nem sempre serão permeados de aventuras ou eventos extraordinários de qualquer natureza. Alguns destes, é verdade, poderão vos entediar. Mas que é a vida humana se não isto? Seja qual for o contexto histórico-social, ela é marcada por dificuldades, decepções, expectativas, felicidades de todo tipo que não são limitados pelo âmbito político, social, religioso da época. A beleza da vida criada pelo nosso Pai está nesta complexidade, na vida "comum" do ser humano, na busca e na conquista do amor desejado, independentemente dos padrões por vós criados. Desmistificando tudo isto abre-vos o pensamento de que o pretérito não se limitava apenas segundo a barbaridade de tais tempos, mas para o único elemento imutável através de todos os séculos: o amor, que a tudo vence, que a tudo supera. Deixo-vos com o espírito de James, que com muita bondade se dispôs a participar desta bela missão que transcorre. Como de costume, tecerei meus comentários conforme necessário. Desde já, meus agradecimentos deixo a vós que viestes nos acompanhar nesta longa tarefa. -George."

"O nome que foi me dado na encarnação sobre a qual vim discorrer a respeito permanece, ainda hoje, o mesmo que utilizo daqui do plano espiritual, muito embora tenha reencarnado duas vezes depois desta experiência na Terra no período considerado medieval. Chamo-me James e nasci em 1450 na Inglaterra. Minha vivência que contarei aqui abarca a guerra civil que manchou as terras inglesas por mais de 30 anos. Aqui, compartilharei como isto me afetou, pois creio que tempos difíceis como aqueles me trouxeram lições valiosíssimas que penso serem extremamente relevantes para vos compartilhar.

Meus pais eram simples comerciantes, daqueles que, apesar do esforço cotidiano para o sustento da casa e um sucesso relativamente crescente, permaneceriam na obscuridade. Um londrino comum com muita pouca probabilidade os teria conhecido, menos ainda um nortenho da cidade de York. De todo modo, garanto-vos que existiram. Era uma luta bastante complicada esta da qual vos falo, afinal, ser comerciante significava tratar com a sorte, lidar com uma competição acirrada pela venda de seu produto, todo um esforço inumano para não ser roubado, e por aí vai. O glamour que toda a gente pinta para a classe comercial, tecendo-a sob o nome de burguês, é bastante supérfluo, para não dizer que tal termo não imputa a verdade medíocre que existe sob ela. O comerciante que vivia em Londres precisava de patrocínio de homens ricos. E quando falo deste tipo de gente não me refiro aos grandes aristocratas, aos nobres em seus castelos, ou até mesmo o rei. Muito pelo contrário. Refiro-me aos "novos" ricos, ao povo que possuía riqueza o suficiente para estudar nas universidades, viajar a outras partes do país ou mesmo tentar a sorte na França. Estes adquiriram ouro a partir das profissões "clássicas", ou liberais: advogados, médicos, "dentistas", tutores, dentre outros. Neste meio, como falei antes, a concorrência era muito forte.

No entanto, minha família estava em melhores condições que outras. Na realidade, meu pai era neto e bisneto de camponeses da região de Yorkshire, nortenhos de sangue de ferro, como podem constatar. Ao que parece seu pai, meu avô, havia se cansado de trabalhar no campo. O que me foi contado foi que ele, cujo nome darei por William, não aceitava sua condição de camponês. Ao contrário de seu próprio pai, John, não era resoluto nem se contentava com a vida humilde. Desejava mais e foi motivado por uma ambição desconhecida que ele correu atrás de uma oportunidade que o tirasse do frio do Norte. Para encurtar a narrativa, meu avô William percorreu as terras de Northumberland, antes de partir para Peterborough e enfim se fixar em Salisbury. Foi neste condado em que ele conheceu minha avó, Mary, cujas ligações eram melhores que alguém de origens camponesas poderia esperar. Eventualmente, mudou-se ainda para Winchester, antes de passar o fim de seus dias em Londres, de fato. Os leitores poderão argumentar, e com razão, que as mobilidades para as pessoas mais desafortunadas, em comparação com os aristocratas etc, eram complicadas. Sim, não nego isso, mas não era nada impossível. E não digo que era uma questão de 'força de vontade', ainda que se meu avô estivesse a contar a história dele, teria usado estas palavras. Mas não me cabe me aprofundar nas memórias que não me pertencem.

Como disse, meu avô passou por uma longa trajetória até que sua descendência criasse raízes em Londres, ou em seus arredores. De seu casamento com a primeira esposa, ele teve cinco filhos: meu pai era o mais velho, e quatro rapazes os acompanharam. Dois deles foram enviados para a Igreja, um pela vocação, e o outro porque meu avô não tinha dote para lhe ceder caso viesse a casar. O mais novo conseguiu, seja por sorte, dedicação ou uma mistura dos dois, o patrono do bispo de Londres e entrou na Universidade de Oxford, de onde obteve diploma de advogado. Do segundo matrimônio, meu avô enriqueceu algo a mais, mas nada que diminuísse suas dívidas. Desposou uma senhora chamada Joanna, que gostava de dizer que tinha o sangue dos velhos Plantagenetas correndo em suas veias. Talvez tivesse sido isso que chamou a atenção de meu avô, mas, como disse papai, o orgulho de ambos não salvou a família de tempos obscuros que dali se seguiu. Contrair dívidas era um assunto asqueroso que, compreensivelmente, não se discutia à mesa do jantar. Contudo, meu pai era o primogênito, portanto, possuía mais direitos que todos os outros na questão da herança familiar. Foi determinado, como se para resolver a questão, que ele tomasse como esposa uma moça chamada Elizabeth, ou Isabel--segundo era chamada por alguns outros--, que tinha relações familiares com esse mesmo bispo que favoreceu meu tio paterno.

Elizabeth, minha mãe, era, na verdade, a sobrinha bastarda deste bispo. Ao que parece, seu pai era casado quando conheceu a mãe dela, minha avó, de quem nada sabíamos a respeito. Ela morrera no parto e, previsivelmente, nenhum registro sobre sua pessoa foi encontrado. Meu avô materno, de toda a maneira, a repudiou, já que ele tinha várias bocas a alimentar de sua união "abençoada e legítima". Mas o bispo era um homem honrável que não deixaria isso passar e se certificou de que Elizabeth fosse bem educada nas artes femininas e tivesse um casamento decente.

Apesar deste arranjo ter satisfeito as duas partes que o planejaram, tanto meu pai quanto a minha mãe se deram bastante bem entre si. Até que ponto houve um amor destes que se lê em histórias do rei Arthur não sei dizer, mas havia afeição e ternura de cada um e isto me inspirou a buscar um relacionamento adequado se possível. 

Bem, até aí vemos que os tempos eram prósperos para minha família. Quando nasci em 1450, porém, já tinha dois irmãos mais velhos, John e William, e uma irmã, Katherine. Em seguida, nasceu outra irmã, Emily. Mas as tensões políticas se agravavam e não tinha como não afetar todo o país e as classes sociais. O comércio sofreria pesadamente com a disputa que a realeza trocava entre si. Permitais que vos explique melhor. Em 1450, governava na Inglaterra um rei da casa de Lancaster chamado Henry. Era o sexto rei de toda a linhagem Plantageneta a ter este nome. Portanto, seria lembrado conforme havia sido coroado: como o soberano Henry VI. Ele havia desposado uma princesa francesa chamada Margaret de Anjou. Mas os ingleses tinham uma tendência, para não usar palavra mais forte, a detestar estrangeiros, principalmente os que viessem do continente.

Explico: Henry VI era o filho do grande leão Henry V. Ambos vinham, naturalmente, da mesma casa. Henry V fora forte, jovem e astucioso. Governara o reino com mãos de ferro. Embora seu caráter fosse questionável, seu carisma não o fora. Não à toa levara metade de nós para dominar a França. Meu pai conta que serviu em seu exército, embora lutasse ao "lado" de seu irmão mais jovem, John, duque de Bedford. Mas esteve presente em Agincourt: esta região havia canalizado os mais poderosos nobres de toda a França (ou do que era a França na época, já que regiões como a Borgonha e a Bretanha, por exemplo, não respondiam à autoridade política daquele reino) para expulsar os ingleses de suas terras. Aqueles foram tempos que preparavam para a chegada de Joana d'Arc, cuja encarnação marcaria o reinado deste Henry VI. Mas, como contava, Agincourt estava separada entre franceses e ingleses, e o número belicoso pendia favoravelmente para os primeiros. E, no entanto, foram os últimos que obtiveram legendária vitória. A maioria, é claro, gritava a todos os ventos que Deus favorecera sua causa. São Jorge é inglês, afirmavam! O santo da monarquia inglesa defendia e levava a cabo todos à frente da batalha que humilhou e esmagou os franceses. A vitória seria cantada nos próximos séculos.

Entretanto, Henry VI, o filho que o sucedeu ainda bebê, provaria ser, para a grande decepção das pessoas nascidas inglesas, fraco e débil. Ele não era como o pai e, pasmem, buscou a paz com a França. Os comerciantes se enraiveceram ainda mais quando souberam que o comércio francês ganhou mais vantagens nas questões de exportação que nós todos. Assim, seu destino era selado.

A insatisfação com sua incapacidade de governar refletia no nosso cotidiano. Produtos franceses eram mais baratos e, portanto, aumentavam sua demanda. As tapeçarias inglesas não satisfaziam mais os clientes, e os perfumes que poucos buscavam eram, é claro, trazidas do exterior. Os tecidos para o vestuário, tanto feminino quanto masculino, vinham dos Estados Papais e competiam acirradamente com os franceses. A moda da segunda metade do século XV era copiada da alta nobreza e, ainda que a rainha Margaret fosse odiada pela maioria das pessoas, as mulheres desejavam copiar seus maneirismos e a forma com a qual seus cabelos prendiam-se ao alto era visto em todas as donzelas. 

Naqueles tempos, embora a distância entre nobres e pobres fosse muito maior, não era impossível obter uma visão de tais pessoas. Conforme as tensões entre a aristocracia se aprofundavam, a procura pelo apoio popular de ambas as partes forçavam-nos a serem vistos publicamente. Se me perguntasse, só vi o rei uma única vez e não foi na posição mais gloriosa que alguém que ocupasse tal cargo devesse estar. Segundo o ditado popular, quanto mais alto se sobe, maior será a queda. A roda da fortuna girava para todos, era sabido.

Quando contei quinze verões, era um rapaz que preocupava-se em cuidar da família e dos negócios. Alguns de meus irmãos haviam sucumbido para as pestilências que os verões costumavam trazer para aqueles que não possuíam residências no interior para se refugiar. Desse modo, meu pai se preocupava, e com razão, para que eu não morresse antes do tempo, temendo que ele mesmo pudesse ser levado por Deus sem que me ditasse as ordens do que deveria ser feito. No entanto, estamos falando aqui de 1465. O pior, a princípio, já havia passado. Mas Henry VI não governava mais: em 1461,fora destronado por um moçoilo chamado Edward, de uma casa de York. Ele foi coroado no mesmo ano como rei Edward IV. Recordo que, à época, as ruas estavam enfeitadas, havia bastante celebração. Papai me falou:

"Ah, eis a vantagem de não ser rico como essas pessoas, meu filho. Em um dia, estão seguros no seu trono, mas no outro... a providência divina os encarrega a despacharem de lá. Eu me pergunto se isto seria evitado se o outro soubesse reinar como seu pai, mas falar disso é traição." Ele, que havia lutado pelo rei Lancaster, recebera perdão do novo rei depois de pagar uma alta multa. 

No presente ano, pelo casamento polêmico do rei Edward como uma viúva chamada Elizabeth, ou Isabella, de família Wideville, os negócios pendiam favoravelmente para a casa de Borgonha. Papai se apressou em tentar aliar seus próprios acordos com aqueles que deixaram Flandres para fixarem residência em Londres. Como corriam boatos de que o rei favorecia o duque de Borgonha como pretendente à mão de sua irmã, era compreensível que, mais uma vez, a balança econômica pendesse muito mais positivamente para os borgonheses que os ingleses. No entanto, isto era melhor opção a ser vendido pelos franceses, ao que parecia.

Em meio a este turbilhão de eventos, papai se certificou de que eu aprendesse a ler e escrever. Vivíamos uma boa época e, para nossa surpresa, o regime de York nos favorecia relativamente bem. Não éramos exatamente prósperos, contudo, se mamãe e minhas irmãs e os irmãos que não foram atingidos pela pestilência vestiam-se bem e em tecidos importados... era porque os acordos comerciais provavam ser vantajosos. Começávamos a ter esperança de subir de vida. Nossa renda aumentava, éramos procurados pelos ricos londrinos que desejavam comprar as tapeçarias que obtínhamos de Sébastien Dijon, um vendedor borgonhês de Flandres que beneficiava-se tanto quanto nós destes acordos. Tudo encaminhava-se bem.

Um dos meus irmãos, por conta disso, foi viver com nosso tio, o advogado que mencionei no início da história, e graças ao patrocínio deste, obteve uma bolsa de estudos na mesma universidade que ele havia estudado. Em alguns anos, sairia outro advogado competente da família. No entanto, mamãe uma vez disse:

--Não vivemos em tempos estáveis para celebrar vitórias. Aconselharia cautela. Nada disso nos pertence.

--Como não nos pertence, mulher?--exclamou meu pai, chocado com o que ouvira--Não batalhamos duro todos esses anos para que possa copiar os penteados da rainha e vestir-se como uma boa senhora?

Mas mamãe se manteve impassível.

--O que eu digo é que não devemos nos apegar a isso. Veja só, um dia obedecíamos ao rei Henry e no outro estamos pagando multa ao outro rei, que nunca vi na vida, chamado Edward.

--Não fale isso fora de casa--disse papai, nervoso--Sabe que isto não é bom para os negócios. E, além do mais, é traição.

--Que seja, é apenas a verdade.

E, antes que pudéssemos falar algo, ela se retirou. Naquele dia, estava eu com papai somente na sala de jantar. Morávamos em uma casa mobiliada, maior do que nossas pretensões. Isto me preocupava de alguma forma.

--Mas ela tem razão, pai--falei, depois de momentos passados em quieta contemplação--Estão dizendo que um rebelde do norte foi apoiado pelo conde de Warwick. E todos sabemos que foi ele quem pôs o rei no trono que agora senta.

Meu pai levantou o olhar para me encarar. Para os padrões daqueles dias, era velho. Quase cinquenta anos ele contava, embora se sentisse como um jovem de vinte anos a menos. Seus cabelos, outrora negros como a noite, estavam aparados e quase branqueavam-se como a neve, salvo alguns fios que teimosamente permaneciam intactos. Em seu rosto, cicatrizes de batalha eram detectadas próximo ao  nariz, irremediavelmente torto, e uma barba extensa e escura cobria outras próximas do maxilar. Em seus olhos, marcados pelo tempo e as rugas de expressão que indicavam vívida juventude, o azul dos mares me fitava com seriedade. 

Ele se ajeitou na cadeira, os cadernos de contabilidade abertos em bagunça que somente ele entendia. Coçou a barba e, reclinando-se confortavelmente, depois de ter ajeitado o colarinho que estava na moda, disse:

--É verdade o que disse e me admira sua prudência em pensar como sua mãe. Mas tais pensamentos não podem ser ditos em voz alta assim. De todo modo, somos agora comerciantes e não guerreiros. Já temos certa independência econômica, embora jamais seja comparável ao próprio Sébastien, ou outros que atuam diretamente na corte de Windsor. O que devemos fazer, e sabiamente, é conduzir-nos de acordo com a maré--e, falando em voz mais baixa, acrescentou--Há homens de Warwick e do rei lá fora. Devemos tratá-los com diplomacia. E há de convir que os tempos para tratar de contratos são melhores agora do que antes. Deixemos a tradição de lado: que bem nos trouxe a francesada que a rainha trouxe cá? Perdemos Normandia, Anjou e tantas outras cidades que poderíamos ter exercido algum império por causa dela.

Como eu não entendia de política, apenas aquiesci. Mas senti verdade naquelas palavras, e ainda lembrava de quando mais jovem meu pai ter agradecido por eu contar menos de doze anos e não ser convocado para a batalha que dizimou tantas vidas e provocou a morte do pai do rei atual. Decidi que não mais olharia para o passado.

Na manhã seguinte, fui enviado para Greenwich para negociar com outro mercador borgonhês. Levava comigo prata e um bocado de ouro, já que o tecido importado era de valor inestimável e eu precisava me atentar principalmente para não ser roubado. Embora as estimativas de assaltos houvessem diminuído consideravelmente, já que a justiça do rei reforçou as penalidades e muitos dos detratores eram enforcados, quando não expostos à praça pública onde sofriam as mais diversas humilhações--algumas delas era até engraçada de comentar, me recordo de um jovem de uns dezesseis anos ter jogado três tomates e duas maçãs na cabeça de um infeliz ladrão--era preciso ter cautela. Lembro de ter encontrado um amigo meu chamado Robert neste dia.

--James, meu caro! É muito bom revê-lo. Como tem estado?

--Bem, agradeço. E você? Já se casou?--indaguei.

Robert era um sujeito de estatura média, meio rechonchudo e de cabelos escuros e pele rosada. Usava uma capa simples preta e no resto, tecido inglês barato no blusão à moda do rei e de calções verdes escuros. Era apenas mais um destes rapazes que, se passasse por ele, seria prontamente esquecido na esquina seguinte.

--Nada. Minha mãe estava me arranjando uma bela fidalga, favorecida pela Igreja que costumamos frequentar, aquela abadia, sabe?--disse ele, referindo-se à Abadia de Westminster--Mas que dote ela me traria? Não é para isso que serve os casamentos, meu caro? Para enriquecer?

--A minha costuma dizer que o casamento é sagrado aos olhos de Deus e da Igreja, mas, na prática, sabemos que há de tudo em uniões arranjadas menos o que se diz sagrado.

Ele riu.

--É verdade. Escute, estou indo à taverna resolver umas questões. Quer me acompanhar?

--À taverna?--indaguei, entre surpreso e divertido--Mas de manhã? A quem acha que engana, Robert?

Novamente, ele riu. Na verdade, se bem lembro, gargalhou.

--Digo a verdade. Lá não serve só para beber e outras coisas mais, mas para tratar de negócios.

--E que negócios você teria para resolver na obscuridade de uma taverna?

Robert colocou a mão ao redor dos meus ombros e, como eu era mais alto que ele, forçou-me a inclinar a cabeça para ouvi-lo sussurrar:

--Warwick está planejando ir à França. Quem o acompanhar, terá várias vantagens decerto a desfrutar.

Arregalei os olhos diante do que ouvi.

--Mas que...

--Shhh--ele me interrompeu--Vamos lá, meu amigo. Me faltam oportunidades, não sou como você. Não venho de uma família de comerciantes. Estou falido.

--Eu poderia ajudá-lo--falei, compadecido--Escute-me, Robert. Não entre nesta empreitada maluca, sabe que o conde não se importa com homens como eu e você. As chances de você terminar preso, ou, pior, morto, são grandes. Esse daí se livrará das acusações, certamente, mas não você. Escute o que digo.

Mas Robert estava preso em ilusões que nem mesmo os bons espíritos conseguiriam dissuadir. Por isso, recebi a seguinte réplica:

--Não, não é nada disso. Warwick tem razão em estar descontente, embora pouco me importe seus motivos para tal. Mas as oportunidades na França são prósperas, meu amigo! Todo homem que o acompanhar à França se beneficiará disto. Tenho certeza como nunca tive na vida.

Nada falei e, vendo meu desânimo, Robert sorriu-me alegre:

--Vamos lá, que mal há de lutar um pouco, eh? Serei feito mesmo cavalheiro.

Me perguntei se acaso estivesse na posição dele, teria me vendido tão baixo para um homem que, embora nobre fosse, nobreza faltava em suas ações. Mas nada mais falei do assunto.

--Se é assim que pensa, nada mais direi sobre isso. Preciso ir agora--falei, como se inspirado por força sobrenatural a partir logo para o destino que me aguardava--Se puder, escreva-me uma carta quando estiver lá.

Robert riu.

--Não sei escrever ou ler, para que me serviriam tais habilidades? Não somos da nobreza, meu caro amigo, e portanto desses troços não necessitamos. Mas enviarei algo a você por me ter sido tão bom companheiro em todos estes anos.

--Que Deus o proteja--roguei, antes de seguirmos caminhos diferentes para nunca mais nos vermos. Afinal, Robert morreria sem sequer ter colocado os pés em solo francês.

*                                                                                       *                                                                        *

Embora desajeitado, não era um rapaz tolo. Ao contrário, observava tudo e todos. Posso admitir sem vergonha que era desconfiado, mas como haveria de ser o contrário? Quando completei vinte anos, os tempos eram outros e a Inglaterra estava prestes a afundar-se em outra guerra. Irmão lutaria contra irmão, primo contra primo, pai contra filho... Vidas inocentes se perderiam para que as ambições de outrem fossem alimentadas.

Apesar da escuridão que pairava sobre a ilha que um dia recebera o nome de Avalon, os negócios encaminhavam-se bem. Meu pai, todavia, adoecia e minha mãe também, indícios de que não sobreviveriam por muito tempo. O cenário doméstico não parecia positivo. Minhas duas irmãs estavam casadas, como também outros irmãos. E, no entanto, eu permanecia solteiro.

--Rogo para que tenha bom senso e despose uma moça de boa condição--instigou-me o pai naquele solstício de inverno--E que seja rica, pelo amor de Deus.

Não passava pela minha mente o entendimento de seu apego material, ainda que precisássemos sobreviver. Havíamos estagnado na escala social e isso o preocupava. Nosso principal fiador, o borgonhês Sébastien Dijon, havia morrido e outro contato de mesmo lugar desaparecera. Não sabíamos, mas tudo isso estava ligado com a política. Afinal, vivíamos em Londres, a capital do reino. Deveria esperar diferente?

Mas concordei que era hora de tomar uma esposa e formar minha família, ainda que, em meu íntimo, preferisse a vida de solteiro. Afinal, me preocupava as bocas que teria de alimentar, as vidas a sustentar, quando aqueles eram tempos complicados, para não dizer instáveis. 

Vendo-me através da alma e percebendo minhas aflições, assim disse meu pai:

--É preciso que nossa família prossiga, meu filho. Não se esquece de seu dever conosco. Sei que a instabilidade nos cerca, mas, é como dizem por aí, mar calmo não faz bom marinheiro.

Sorri diante daquelas palavras de sabedoria. Como se inspirado por elas, juntei-me à mãe, que tinha uma conexão admirável com pessoas de Londres de quase todas as posições sociais, a fim de buscar uma noiva que nos servisse bem. Isto é, que nos trouxesse riquezas e fosse fértil, afinal, tal era o destino das mulheres daqueles dias.

--Conheço algumas moças que seria interessante desposar--contemplou minha mãe, cujos cabelos dourados escondiam-se sob o capelo em formato de cone e cujo vestido, embora simples no primeiro olhar, seguia em detalhes a moda do final daquele século--Uma delas, embora hierarquicamente superior, lhe traria prestígio e riqueza sociais. No entanto...--ela parou a costura para me fitar com aquele olhar tranquilo que também refletia preocupação--...serei sincera e expressarei o que penso disso tudo, meu filho. É verdade que não somos ricos nem atingimos o grau de reconhecimento social que seu pai tanto batalhou e desejou para si e nós todos. Mas veja, gostaria que muito dos arranjos que tracei para seus irmãos fosse motivado pelo amor do que outra coisa. Admito que tenho a consciência pesada por conta disso.

Me surpreendi com aquela fala, pois não esperava aquilo tudo.

--Senhora mãe, o que diz?

Como se estivesse cansada do mundo, ela me ofereceu a mão e, tomando-a, disse com um sorriso triste:

--Que muitas das vezes somos também os responsáveis pelas misérias de outros. Estes dias me chegou uma carta de sua irmã, ela está infeliz no casamento dela. Decerto me dirá que fiz o melhor para essa família, mas terei feito, de fato? Quando dizemos que fazemos o bem pelo outro, ao tomar uma decisão por esse outro, será que não estaríamos fazendo por nós mesmos? Queria que ela viesse para cá, mas seu pai, infelizmente, não permite. Como chefe da família, devo respeito às decisões que tomar, por mais que discorde de algumas delas. Mas seu destino, meu filho, permanece em branco. Se deseja prestígio, riqueza, e tudo aquilo que o material pode proporcioná-lo... que seja, desde que se recorde de que deva tratar a dama em questão com educação e respeito.

Aquele conselho muito me fez pensar e agradeci por ele. Saber do destino de Emily me chocou, e eu me perguntei até que ponto a família foi sacrificada por uma ambição do pai. Mas eu me resignei a cumprir meu dever em vez de fazer questionamentos que só fariam nascer mágoas. Por isso, naquela mesma semana, fui em uma destas festividades que celebravam os santos padroeiros. Neste caso, foi o dia 23 de abril, dia de São Jorge.

E lá estava ela! Sabem, leitores, por muitos anos costumei brincar com ela e nossos amigos de que São Jorge era um excelente cupido. Afinal, foi ele quem nos (re)uniu. Pois bem, retomando à nossa história, toda a Londres se preparava para as comemorações devotadas à São Jorge, unindo e atraindo os londrinos de todas as camadas sociais. Havia comidas preparadas para honrar o santo, a carne de vaca estava em evidência, lembro-me disto. Músicas altas ecoavam nas mais diversas partes da cidade, acompanhando danças típicas. Os mercados, principalmente, estavam lotados. Via-se damas de companhias, donzelas bem nascidas e vestidas, caminhando entre as moças da noite, jovens mulheres esposas de comerciantes entre outros. 

O céu estava azul neste dia atípico, com o sol brilhando alto. Ainda lembro do suor pingando na testa, esperando que, vestido como o rei Edward, atraísse o olhar de rapariga bem apessoada. Cercado de dois amigos e meu irmão advogado, John, partimos para aproveitar as festividades. E enquanto passávamos por uma feira em Greenwich, meu olhar recaiu sobre uma moça de cabelos tão louros que pareciam prateados. Estavam soltos, embora sobre a cabeça estivesse um par de tranças entrelaçadas uma nas outras. Em seu corpo recaía um vestido laranja de longas mangas com linhas em azul e um decote que deixava levemente à mostra o colo alvo, cujo tecido me parecia mais italiano que francês. Seu rosto era oval e suas feições, delicadas. Notei que seus olhos eram azuis, suas bochechas rosadas, o nariz longo e fino, quase aristocrático, e os lábios cheios estavam pintados de vermelho.

Devo ter sido bastante indiscreto na minha admiração, pois ela percebeu que a fitava e, acompanhada de duas moças de igual vestimenta, falou algo entre risinhos para elas. Quando John retornou e tomou ciência do que se passava, ele também riu e disse:

--Por que não vai falar com ela?

--Ela está acompanhada--repliquei cortesmente.

--Você está corando--desdenhou John, rindo--Vamos lá, meu camarada. Você precisa de uma noiva, esqueceu? E ela me parece ser rica, além de bela.

Revirei os olhos, impaciente para as questões que ele ressaltou, embora, na realidade, mais incomodado por ouvir que ele ressaltava as qualidades que eu também notei naquela moça. John era mais baixo que eu, mas falava com desenvoltura e era agradável aos olhos. Seus cabelos eram claros, quase como da cor de palha, tinha um nariz longo e os mesmos olhos de nossa mãe. Vestia-se bem e havia se acostumado com a riqueza de nosso tio. Segundo ele, iria à corte na próxima oportunidade. 

Embora bem sucedido e casado, John não permitia que tal status o impedisse de se relacionar com outras mulheres. Gostava dele, mas reprovava sua infidelidade, ainda que de nada servisse aconselhá-lo contra tal prática. A verdade é que ele havia se enfurecido quando nossos pais escolheram uma moça como sua esposa sem seu consentimento, e isso o deixou revoltado. Mas ninguém realmente é senhor de seu próprio destino, portanto, todo cuidado é pouco. Não que ele se importasse realmente com isso.

--Devemos mesmo procurar parceiras com base no dote?--eu me ouvi indagar, arrancando mais risadas de John. Mas antes que recebesse uma resposta que era provavelmente mal educada, a dama em questão veio a nós. 

--Bom dia, meus senhores--ela cumprimentou com uma doçura olhar e uma ternura na voz que de antemão me deixaram de joelhos bambos.--Espero não estar atrapalhando.

--De maneira alguma--John respondeu por mim, e, galanteador como sempre, se dirigiu às damas que a acompanhavam--Senhoras, por que não me mostram mais dos eventos que hoje enfeitam a cidade? É muito raro vir à capital esses dias...

E não era de se surpreender, realmente, que elas o acompanhassem. Assim, ficamos à sós, no que era possível.

--Como devo me dirigir à senhora?--falei, esforçando-me para não soar patético.

--Pelo meu nome--ela respondeu, sorrindo--Sou Margaret Durham.

Eu a cumprimentei adequadamente, levando a mão oferecida aos meus lábios. Sorri quando nossos olhos se conectaram.

--E eu sou James. James Smith.

--Muito prazer em conhecê-lo, senhor Smith. É daqui de Londres?

--Sim, sou nascido e criado londrino. Na verdade, sou comerciante e herdarei os negócios de meu pai quando aprouver a Deus.

Margaret me ouvia com atenção, e isso me deixou desconcertado.

--Oh, sim. Compreendo. Sou uma das damas de companhia da duquesa de Norfolk, mas estou livre de minhas tarefas pelo dia, por isso vim cá.

--Ah--eu exclamei, surpreso--a senhora é nobre, então?

--Não me colocaria nesta palavrinha--disse-me ela, divertida--Foi uma dureza entrar para seu séquito.

--Imagino que sair dele não esteja nos seus planos.

Ela riu.

--Que ousado é o senhor por fazer tal presunção. Devo dizer que gosto do que faço, poderia ser pior.

--E o que seria pior do que servir a uma senhora nobre? Digo...--eu me xinguei mentalmente pela falta de tato, mas Margaret pareceu achar engraçado.

--Não se justifique, bom homem, entendi o que quis dizer. Bem, casar-me com um qualquer, ser forçada a agir contra minha consciência. Gosto muito do que faço, a duquesa é uma senhora de idade, mas as histórias de vida são impressionantes--e com um ar de divertimento, ela acrescentou em voz baixa--Seu terceiro esposo é muito mais jovem do que ela.

Arqueei as sobrancelhas diante disto.

--Céus!--e então ri pela imagem que se formou em minha mente, mas mais por me divertir às custas de tola fofoca.

Margaret sorriu.

--Sim, e até hoje agarra-se ao título de seu primeiro marido, se não me falha a memória. Vai lá entender... Mas é uma pessoa fascinante de se conviver. 

--Fascinante? Não seria arrogante?

--O senhor é muito soberbo em fazer este julgamento--e, convidando-me a acompanhá-la pelo parque Hyde, disse enquanto entrelaçava seu braço no meu--Os títulos são apenas isto, títulos. Não devemos julgar os que possuem por isto. Sei que por trás disto tudo há riquezas, posses que fazem de um ser humano o mais insolente de seu ranque, mas garanto que não é o caso da duquesa.

--E o que poderia me contar a seu respeito que me fizesse mudar de opinião?--quis saber, genuinamente curioso com tudo aquilo.

--Ela é piedosa e caridosa, faz suas doações regularmente aos mais necessitados e não se gaba disto. Segue todos os preceitos da Igreja, é religiosa. A conduta moral de todos os que da sua casa fazem parte deve seguir seu exemplo. Ela espera que mesmo o criado esteja presente nas missas diárias que são realizadas na paróquia de sua jurisdição. E também é culta, lê bastante, embora goste que leiam os livros para ela. E fala do passado com muita propriedade. É, afinal, a neta do lendário duque de Lancaster, John de Gaunt. 

Encarei-a com perplexidade.

--Ela é?

Margaret aquiesceu e prosseguiu:

--Sim. John de Gaunt foi também filho do rei Edward III, aquele que renovou o ideal de cavalaria. Certamente já ouviu falar dele--ela me lançou um olhar curioso.

Enrubesci, mas protestei:

--É claro que já, senhora. Sou um comerciante, e não um camponês iletrado, embora mesmo esse saiba quem foi grandioso rei.

--E ainda que não soubesse, não o julgaria. É apenas curioso, acho que é porque convivo demais com nobilíssima senhora.

Por um tempo nada falamos, e o silêncio que entre nós se estabeleceu era bastante confortável. Por vezes, capturava um olhar lançado ao meu semblante, e eu me perguntava o que se passava em sua mente. Caminhávamos tranquilamente por entre as pessoas, fossem nobres ou não, que celebravam aquele dia.

--O senhor dança?--ela perguntou quando vimos músicos populares se ajuntarem para a dança.

Novamente, corei. O leitor pensará, e com razão, que era mui desajustado no tratamento com as donzelas. Mas, em minha defesa, devo recordar-vos de que passei pouco tempo cortejando qualquer uma delas.

--Lamento desapontá-la, senhora Margaret, mas não possuo esta habilidade.

Em vez de decepcioná-la, como esperava, provoquei nela outro riso.

--Não seja por isso. Aprenderá agora mesmo.

Quando dei por mim, estávamos no meio de pessoas que nunca conheci na vida, dançando. Foi o momento mais leve, se não o mais feliz, que compartilhamos naquele dia. Ainda que fosse longe de mim o mais gracioso dos homens, o sorriso nos lábios de mais bela dama me inspirava a tentar sê-lo. De imediato, senti algo estranho quando aquela música terminou. Era como se soubesse que ninguém mais teria posse de meu coração que não ela. E, no entanto, a vida colocaria alguns obstáculos antes de nos associarmos de uma vez por todas.

*                                                                                    *                                                                         *

Nós passamos a nos encontrar nas datas comemorativas de santos, e, no entanto, eram encontros quase sempre limitantes e que dependiam da boa vontade de tantos outros a permanecer em Londres. Em outras palavras, como Margaret era uma senhora cujas tarefas a sujeitavam à autoridade da duquesa viúva de Norfolk, nem sempre obtinha dispensa de seus serviços. Mas escrevíamos cartas quando podíamos, e nem mesmo o regresso do rei lancastriano para que, em seguida, fosse deposto novamente (e morto, coitado), impediram nossas comunicações.

O ano de 1471 passou-se intranquilo nestes aspectos, mas quando o rei Edward enfim se aquietou, a estabilidade veio e o comércio inglês voltou a ser favorecido. No ano seguinte, porém, vieram aquelas dificuldades que testam a nós todos. Meu pai desencarnara no inverno, e minha mãe o acompanhara não muito tempo mais tarde, na primavera. Herdei grandes dívidas e confesso que quase cedi espaço para o desespero. Meu irmão, para piorar minha situação, achava que deveria ser ele o herdeiro dos negócios da família já que possui condições melhores para resolver tais questões.

Senti-me um tolo, admito. A inércia de quem é bombardeado com tantas recepções negativas que a inclinação natural é afogar-se em bebida ou qualquer outro tipo de vício. Talvez se não fosse pela intercessão de Katherine, nossa irmã, tudo teria ido bueiro abaixo.

Katherine, que era a senhora Turner por casamento, fazia parte de família próspera também de comerciantes. Adianto que terminará seus dias na França, em particular na Borgonha, onde o esposo lucrou bastante na região de Flandres. Bem, ela certamente tinha mais perspectiva que eu para os negócios. Mas mais que isso foi fiel cristã em seus ensinamentos. Em uma de suas visitas, conforme conversávamos sobre a vida, disse-me ela:

--O abatimento não deve ser duradouro, irmão, não permita isso. 

--É fácil falar--resmunguei.

--Não, não é, porque minha vida nunca me pertenceu e nem isso me impediu de construir um belo lar. William tem seus defeitos, mas jamais me tratou mal ou esqueceu-se de seus deveres para comigo. A confiança mútua permitiu que até mesmo o ajudasse nos negócios. O orgulho, James, corrói a alma. Por isso o padre sempre ensina-nos contra isso.

--Que orgulho? Não possuo nenhum--eu teimei, em minha limitação.

Ela riu.

--Claro que possui. Recusa minha ajuda e fica a reclamar, permitindo que John jogue os tentáculos na herança que é sua por direito. A capacidade de transformar isso tudo está em suas mãos. Deus nos deu o direito de escolha, de optarmos por qual lugar semearemos o que já habita em nosso coração. Mas Ele é justo, e colheremos segundo o que foi plantado. A roda da fortuna é isto. Não é uma superstição boba.

Fechei os olhos e procurei tirar qualquer inspiração daquele ensinamento. Confessei que me sentia perdido, que não sabia qual direção seguir, que não estava preparado. Mas Katherine tomou minhas mãos nas dela e disse:

--É claro que está. Ou o pai o teria deserdado faz tempo. Pensa com clareza no que quer, e depois trate de transfigurá-la em prática. Seu coração é bom, não permita que os outros o corrompam e o empurrem para as vicissitudes da vida. Se não tem fé em você, por que rezará por Deus?

Naquele mesmo instante, fiz o que me foi sugerido. Mas a primeira coisa que fiz foi escrever uma carta à nobre senhora. 

"Minha cara donzela, 

peço-lhe que me perdoe por tardar em enviar-lhe resposta e por causar desapontamento em seu coração. Mas não tem sido fácil para mim conduzir os negócios desde a partida de meus pais. A responsabilidade, admito, pesa em meus ombros e me pede que use sabiamente a razão antes de me comprometer com a senhora. Reconhecer isto fez-me buscar a bebida por momentos ilúcidos e que poderia ter colocado tudo a perder se Deus não colocasse um anjo na forma de minha irmã querida Katherine.

Não é justo pedir da senhora nada mais que perdão, mas professo nestas palavras, tão sem jeito quanto os dias que passamos juntos nas caminhadas pelo parque Hyde quando Londres festejava São Jorge, Santa Maria e tantos outros incontáveis santos, ser seu defensor mais sincero. Que permita que eu seja seu Lancelot, e te provenha um mundo mais seguro. Deveria, é verdade, ter me expressado quando a vi no mercado da última vez, mas fui covarde. 

Em minhas afeições permanecerá, independentemente do que me responderá.

Sempre seu, 

James."

Aguardei. Mas não parado. Voltei a me movimentar, frequentar as missas, a me confessar. Retornei contatos, fiz o que foi possível para lidar com os problemas de frente. Amadureci, afinal, mesmo quando a solidão batia à porta. E um dia soube por meu irmão, e às vezes rival, que Margaret havia se casado com um aristocrata do campo. 

--Se não ela, quem mais?--respondi friamente ante ao deboche que era tão natural a John.

Foi um golpe do destino, e eu me perguntava se um dia voltaria a vê-la. Paradoxalmente, foi quando as dívidas começaram a ser saldadas. Comecei a colher frutos do meu trabalho e isso me deixava bem. Passei a lidar com compradores de fora de Londres. No final da década de 70, não havia mais crise. Tudo estava bem. Confesso que desposei uma dama chamada Mary Bowling, de origem flamenga. Foi uma união estável que precisava e que enfim derrubou as pretensões de John, principalmente quando Mary engravidou em 1483 depois de três abortos.

Mas as dificuldades outra vez bateram à porta quando enviuvei e perdi a única criança que, não somente herdaria as pequenas propriedades que comecei a adquirir, me ensinaria a ser pai. Afinal, não havia mais reminiscentes da família que pudesse ter contato. Emily falecera também de complicações do parto dois anos antes, e Katherine estava com sua família em Flandres. John permanecia o único irmão que, ao meu lado, havia sobrevivido às pestilências e guerras civis. Havia me apoiado tanto quanto tentara me derrubar, em uma relação inexplicável de rivalidade entre irmãos. 

(Nota de Ogum: esta rivalidade entre irmãos já foi explicada no conto anterior).

Afinal, que devia eu fazer? Mas em 1483 estava em Northampton resolvendo questões de tratados comerciais quando chegou aos nossos ouvidos que Edward IV havia morrido. Seu filho o sucederia como Edward V, mas aparentemente quem reinava agora era seu irmão, Richard III.

--Que diabos está acontecendo com nossa Inglaterra?--John White, cliente que passara a ser amigo, me recebeu em seus ricos aposentos e me oferecera estadia no dia que soubemos disto. Agradeci pela gentileza, já que eram dias frios e, como se pode ver, complicados--Nenhum rei passa sua coroa tranquilamente desde o dia em que o leão suspirou e foi aos Céus.

Bebericava do vinho borgonhês e petiscava do queijo quando o respondi.

--Estamos colhendo os frutos do passado, acho. Deus deve estar nos castigando pelo que foi feito à donzela.

--Refere-se à Joana d'Arc?--indagou o velho homem--Mas ela é francesa, e os franceses que se mordam! 

--Mas não falavam que o rei Henry era cruel? Tirânico e déspota, amante da violência?

--Isto tudo é propaganda yorkista--retrucou White--Nunca nem foram competentes, sequer capazes, de fazer o que Henry V fez. Mas que temos nós a ver com isso, não é mesmo? Contanto que não nos carreguem para junto deles.

--Acha que outra guerra virá?--indaguei, temeroso.

White bufou.

--Sem dúvida, meu amigo. E vamos rezar para que a lei não nos envolva nisso.

Mas ela envolveu. Embora vivesse uma atípica prosperidade e estabilidade nos negócios, eu não era um nobre, cavalheiro ou rico o suficiente para dispor de homens que lutassem em meu nome quando o rei Richard convocou, anos mais tarde, para batalhar contra um tal de Henry Tudor. Supostamente, era um galês bastardo que vinha de longe, a mando da França, roubar uma coroa que não lhe pertencia. Mas Richard assegurou de que não haveria problemas contanto o derrotássemos. E isso era certo, afinal, Deus favoreceria sua causa.

Quem quer que fosse esse Tudor, porém, não me parecia que era como Richard III o pintava. Assim como eu, muitos dos que eram forçados pela lei a lutar por ele, não confiavam inteiramente em alguém que era responsável por um sumiço inexplicável, e por que não assassinato, dos príncipes da Torre. Filhos do soberano anterior, Edward IV, foram postos na Torre de Londres, de onde foram usurpados de seu título e até mesmo direitos consanguíneos, já que foram nomeados bastardos pelo tio que jurara os proteger.

Independentemente do que pensasse de qualquer um destes dois homens que disputavam por uma coroa, lá estava eu, convocado para ir à guerra e pronto para derrotar um bocado de francês. Havia me acostumado com a ideia de morrer em Bosworth, e aceitei de bom grado que a linhagem terminaria comigo. John, afinal, desencarnara alguns meses antes sem deixar filhos... legítimos.

Que mais pode um homem fazer? Mas havia muito a se fazer, e a vida era como a roda da fortuna: quando girava alto, temia-se sua eventual queda. E quando parava baixo, nunca permanecia realmente por lá.

*                                                                                      *                                                                        *

Admito que é risível constatar que eu sobrevivi à guerra dos primos, como se convencionou chamá-la; também nenhuma pestilência me tirou a vida, nem a melancolia voltou para me assombrar. O novo rei Henry provou ser mais clemente que seus antecessores e, graças a Deus, fui perdoado pela traição cometida. Não me perguntem muito bem por que, nem eu entendi muito bem a respeito. Imagino que seja porque ele anunciou que seu reinado tenha dado início antes da batalha, o que fazia daqueles que lutaram por Richard traidores. Implorei pela minha causa, expliquei o que havia ser explicado e tudo o que tive de fazer foi pagar uma multa considerável. Não obstante, fui um sobrevivente.

Em fins de 1485, contava 35 anos. Isso é muito, caro leitor, e eu sentia o peso da vida sobre os ombros. Mas é justamente nesses instantes que a vida, tal qual a roda da fortuna, dá seus giros. E me colocou, no dia que recebi o perdão do rei, de frente com Margaret Durham, a donzela que capturou meu coração e por quem jurei amor eterno desde os meus 22 anos. Fazia tanto tempo e a sensação era estranha, como se tivesse vivido duas vidas. Mas, quando partia da residência real, lá estava ela em seu vestido dourado.

--James!--e, como se o tempo sequer a houvesse envelhecido, veio correndo em minha direção na maior alegria--Pensei que jamais o veria de novo.

É claro que eu enrubesci. Certos hábitos nunca mudam.

--Senhora Margaret?--indaguei, um sorriso amarelo achando sua brecha em meu rosto costumeiramente fechado--Como...?

--Como poderia não reconhecê-lo, James?--falou ela, sorridente, emocionada quase--Seus cabelos negros como a noite não mudaram, embora admita que estejam mais claros do que antes. Seu rosto assombrou meus sonhos todas as noites, com olhos tão azuis que era como se o próprio céu me chamasse... --e ela tocou gentilmente minhas faces, acariciando-as com delicadeza; sentir sua pele de porcelana contra rosto tão áspero como o meu me fez arrepiar--Não assuma que eu o teria esquecido.

--Mas a senhora jamais me respondeu a carta--eu me ouvi dizer, soando não como um homem adulto, mas o jovem patife de 22 anos--Confiei meus sentimentos à senhora e, no entanto, casou-se com outro.

Apesar da dureza de minhas palavras, Margaret mostrou-se inflexível. Ao contrário, ela se aproximou de mim e disse:

--Senhor, a vida das senhoras em sua plena juventude pertence a outros. Pensava que não seria forçada a agir contra a consciência, mas, ao que parece, não tive escolha. Também eu escrevi cartas para o senhor, mas não obtive resposta. Mas confiei meu coração às preces e elas foram ouvidas.

Senti meus olhos lacrimejarem diante daquela declaração.

--Pensei que havia me esquecido.

--O amor pode demorar toda uma vida para passar, mas ele chega para nos arrebatar. Pois é uma expressão da alma e como haveria de ser insincera? Sê-lo-ia para os tolos que disto desconsideram firmemente, mas ele existe e com paciência nos reuniu aqui. 

Sem pestanejar, pressionei meus lábios contra os dela e ela, para grande júbilo meu, retornou o beijo. Dali selamos nosso destino, que custou 13 anos para ser cumprido.

*                                                                                *                                                                       *

Posfácio:

Margaret e eu nos casamos na Igreja de Windsor, e por lá vivemos por bastante tempo e na tranquilidade que almejamos. Tivemos cinco filhos, todos eles sobreviveram à idade adulta. Seus nomes são Henry, Arthur, William, Katherine e Joan. Henry herdaria os negócios como de costume, Arthur foi direcionado para uma vida no monastério agostiniano, e William decidiu ser advogado, obtendo uma vaga na prestigiada faculdade de Oxford. Katherine casou-se com um dos filhos de barão Hastings, nossa única menina a ter casado fora do âmbito social a qual foi criada. Mérito seu, e penso que meu pai teria se regozijado com esta união. Joan casou-se por amor com um rapaz que era conhecido de uma figura que deveis reconhecer pelo nome de Thomas Wolsey. As ambições, saudáveis, deram frutos muito satisfatórios. Mas, para além disso, esta família foi um presente de Deus, de fato.

Vim a esta vida para expiar pecados de existências pregressas. Precisei conhecer a humildade nas suas várias formas. Não cultivei nenhum rancor com meu irmão, John, e na verdade pedi que ele nascesse como um filho meu na encarnação seguinte. Também não me entristeço pelos comportamentos de meu pai e seus descomedimentos. Os erros são importantes para nos aprimorar. E também ele me ensinou muito.

O amor com Margaret pode aqui parecer florido, mas ocorreu desta forma. Alguns de vós duvidareis da precisão dos detalhes, mas não tenho por que alterar ou influenciar a médium, que me é conhecida de tempos atrás, inclusive, a escrever o que foi real. Isto cabe a cada um de vós, de todo modo. Finda aqui a minha missão com ela e convosco. Nada há mais belo que esperar pelo amor verdadeiro na certeza de que, vindo da alma, é a expressão mais divina que nosso Pai maior nos concedeu. Apesar do planeta estar ainda em transição para a regeneração, prevalece bastante as provas e expiações. Por isto o amor a que vários de vós conceituam provocam tantas decepções. O amor em si não é um resgate da carne nem de exigências ilusórias, mas a abnegação de si mesmo para o outro, o entendimento, a empatia, enfim, a compreensão e o respeito mútuo. Mesmo se tratando da Idade Média, o amor desta forma existiu e uniu as mais diversas almas. O que vós leis a respeito não cobre o todo, apenas uma parte. Deixo aqui, com isto, minha contribuição. Agradeço a Ogum pela oportunidade deste belíssimo trabalho e pela médium, pela paciência, bondade e gentileza com as quais me atraiu novamente acá. Que continue assim! A fé e o amor caminham sempre de mãos dadas. De seu amigo e irmão, velho companheiro de tantas estradas, Espírito James.

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