Nota do guia de Ogum: "Caros leitores, entramos em mais outro conto a ser psicografado neste dia de hoje. Sabemos que o número sete remete às boas energias do povo do oriente, por isto o ambiente aqui é mais propiciado pela energia e pela sabedoria destes espíritos altamente evoluídos. Nesse sentido, explica-se, além de questões externas que não me cabem expor, o motivo pelo qual "atrasamos" a tarefa deste dia. A memória a ser resgatada é da entidade que atende pelo mesmo nome da encarnação a qual contará a vós. Nossa irmã Anne veio a nós todos com muita boa vontade a fim de ensinar-nos sobre a verdadeira concepção do amor para além de sua expressão exclusivamente carnal. Como de costume, os valores crísticos apresentar-se-ão ao longo deste conto que, por mais fictício que possa parecer a alguns, foi bastante verdeiro e nada romanceado. Nisto, ausentar-me-ei aqui a fim de ceder espaço a nossa irmã, e quando necessário, interferirei para tecer comentários relevantes para a instrução dos que se propõem aprender conosco. Desde já agradeço. George."
"França, século XIV. 1358.
Este foi o ano em que minha história começou no plano físico terrestre. Em um ambiente catastrófico, marcado por tensões políticas que, não muito tempo depois, transformariam-se conflitos físicos, resultado do excesso de ambição do homem. Como de costume, os camponeses sofreriam mais as ações dos poderosos reis da Inglaterra e da França que disputavam entre si os territórios que, por direito, cabiam ao reino franco. No entanto, que importavam isso para os iletrados? Suas preocupações eram cruas e não perpassavam a autoridade daqueles que portavam uma coroa sobre suas cabeças. Afinal, quando os exércitos do rei Edward violavam as mulheres, queimavam suas terras e pilhavam suas casas, será mesmo que seu inimigo pensava em protegê-los? O medo dominava a mentalidade marcada por pestilências, fome e alta mortalidade infantil. Nem sempre o Deus a quem rezavam atendiam suas preces e muitas das vezes, tornavam a direcionar preces para as entidades que conheciam e, quiçá, mais acessíveis do que uma poderosa deidade ocupada demais para lembrar-se dos pobres e ignorantes que, segundo acreditavam, foram deixados à mercê de homens que nada mais almejavam se não o controle de cidades, ducados, e condados para chamarem de seus.
O pessimismo estava em alta e quem poderia culpá-los pela descrença em seus espíritos? Quando não eram os estrangeiros a atacarem-lhe sem qualquer motivo, vinham os próprios vizinhos procurar por desventura a causar. Quando não isso, a maior parte dos camponeses se preocupava em reservar uma pequena quantidade daquilo que colhiam do arroz, da batata, da farinha, do trigo, do abacaxi, enfim, cuja maior parte se destinava aos senhores que moravam em seus altos castelos. Apesar disto, haviam espíritos que se resignavam ante miserável destino como se guardassem em seu íntimo a expiação a que vieram fazer cumprir em Terra. Destes, poucos eram os que viam a vida com alegria, mas talvez seja injusta ao fazer esta observação. Afinal, por qual motivo o Grande Pai permitiria que Seus filhos sofressem sem qualquer resquício de alegria? Por breve que seja, ela existia. Do contrário, não existiriam pequenos bailes, músicas, danças, encontros aqui e acolá.
Tanto é que disto uma mulher no alto de seus vinte e dois anos, já considerada "velha", segundo a determinação da sociedade, para a idade de casamento e filhos, encontrou, depois de dois fracassados cortejos em sua juventude, seu par. E o reencontro de almas ocorreu em um ambiente festivo, onde, longe dos olhares inoportunos dos nobres de Poitou, bastou uma dança para que dela surgisse uma família.
Em 1362, portanto, nasci. Era a segunda criança, a primeira menina, desta família que me acolheu. Recebi o nome de Anne por ter nascido no dia de Santa Ana, mãe de Nossa Senhora. Segundo me contou minha mãe, ela vinha sofrendo com dores no parto e, ao contrário do privilégio dado às senhoras de alta hierarquia, não tinha como se retirar do mundo antes do tempo. No entanto, alguns dias antes, meu pai insistiu para que repousasse, pois, segundo ele, um anjo lhe comunicou em sonho de que um bebê saudável estava a chegar. Como eram tão religiosos quanto supersticiosos, minha mãe aquiesceu. E neste belo dia, nasci, ainda que com complicações. Fez minha mãe a promessa de me entregar à Igreja quando crescesse se nós sobrevivêssemos ao parto. Como isto aconteceu, desde cedo procurou pelo bispo de Poitou a fim de fazer cumprir esta promessa.
No entanto, a vida me prometia outros caminhos. O bispo negou minha entrada na abadia de Cluny, alegando que minha falta de dote não permitira que entrasse nela. Ignorou os argumentos de que Deus não aceitava dinheiro, mas a fé e bonança do povo. Entretanto, cego pela materialidade, ele recusou veemente e minha mãe, preocupada de morrer ao inferno, buscou outras alternativas. Ao contrário do que se possa pensar, ao menos na França daqueles tempos, poucas eram as abadias que genuinamente aceitavam de braços abertos as moças mais pobres. Enquanto isso, porém, meu pai me passava tarefas a cumprir ao lado de meus três irmãos: Lothair, Andieu e François. Éramos muito próximos e eu desenvolvi, pela convivência, certa "rudeza masculina" que contribuía para que fosse repelida em companhia das donzelas de minha idade.
Apesar disso, não reclamava. Gostava do jeito brincalhão de Lothair, da inteligência de Andieu e da religiosidade de François. Este último foi o primeiro a nos deixar: quando, mais velho, contou à mãe do sonho que teve com o santo de quem recebeu o nome (São Francisco de Assis), foi prontamente enviado à ordem franciscana que o acolheu fortuitamente. Mas Andieu, que era o mais capaz de seguir a profissão de nosso pai (que era um fazendeiro nato, embora ocupasse a posição de carpinteiro), descobriu ter aptidões de guerreiro. E elas logo seriam colocadas à prova, pois ainda na década de 70, outras incursões militares do lado dos ingleses afetaria a nós, franceses. Ainda que Poitou estivesse sob o domínio de Aquitânia e, subsequentemente, do príncipe-herdeiro Edward de Woodstock, muitos optavam por marchar sob a bandeira das três flores de liz de fundo azul.. embora nada disso impedisse que este mesmo príncipe fizesse sua convocação.
Contudo, os nobres franceses, principalmente os de Poitou, estavam muito insatisfeitos com a política inglesa nestas terras e logo mais desdobrariam sua lealdade para o rei francês, que nos prometeu sua proteção. Mas do que nós, meros camponeses, sabíamos? Andieu e Lothair, ao lado de nosso pai, foram prestar serviços militares, já que nenhum homem acima dos 12 anos e abaixo dos 70 poderia se dar o luxo de dizer não. E assim se foram os homens de nossa família. Como a única moça, pus-me a consolar minha inconsolável mãe.
--Deixe-me trançar seus cabelos, mamãe--falei, ainda mais tarde, quando tomei um pente e desatei os nós malfeitos de seus cabelos dourados, de quem herdei--como você costumava fazer comigo quando estava triste.
Mamãe, de olhos caridosos que refletiam os céus, fungou o nariz e, sem forças para contra-argumentar, aquiesceu. Estávamos na primavera, mas sentíamos ainda os resquícios do inverno. Naquele dia em particular, chovia, de modo que não existia outra opção que não fosse em nos retirar para nosso casebre de madeira. Ali, ante uma fogueira improvisada, estávamos apenas nós duas.
--Que Deus tenha misericórdia de seu pai e seus irmãos, de todos nós--disse-me ela, segurando contra seu peito um crucifixo simples que havia ganhado de um padre local--Estes ingleses são piores que a peste.
--De fato--concordei--Seria um castigo divino pela incompetência de...
--Shh--ela me cortou--Não devemos pensar assim.
Suspirei.
--Mas estou errada em refletir desta maneira? Que outra opção haveria de ser?
Sabiamente, disse minha mãe:
--Que Ele esteja, talvez, testando nossa fé ao enviar homens cruéis às terras que não lhe pertencem. Mas que entendemos de tais assuntos? Deveríamos agradecer pelo nosso rei ter nascido rei e, assim, ser mais do que capaz em nos liderar contra os inimigos.
--Achei que ele havia sido levado cativo para a Inglaterra, não?--indaguei, relembrando-me de ter ouvido um boato que os rapazes haviam comentado depois de terem voltado da taverna tarde da noite.
--Nada sei disto. Mas é melhor entregarmos nossos corações e nossas almas à Providência--aconselhou-me ela--e esperar que disto se suceda o melhor para todos nós.
Não quis mais discutir o assunto da guerra, embora vivêssemos em um tempo em que ela nos cercava constantemente. Lembro que, mais tarde, quando já era escuro, ouvimos gritos e o cavalgar apressado do que acreditamos ser de um bando de homens. Minha mãe me ordenou que apagasse rapidamente a fogueira para não chamar a atenção seja lá de quem fosse, e, assim, mais tarde dormimos juntas e no chão, rezando para que nenhum mal recaísse sobre nós.
* * *
A vida transcorria no mais perto do normal que conhecíamos, embora o medo permanecesse o mesmo cada vez mais que escutássemos os sons de galopes distantes. Mas não era possível viver escondida, nem eu ou minha mãe, do contrário morreríamos de fome. A Igreja se responsabilizou por cuidar do nosso vilarejo, mas nem sempre era o suficiente. Havia respeito da parte dos invasores quando cruzavam com os mais poderosos bispos, entretanto, não bastava para os desafortunados.
Neste meio termo, vinha a peste roubar o que nos era querido. Viver enclausurada não era mais uma opção, mas nisto não pensava, pois, ao longo dos cinco anos desde que meu pai e meus irmãos haviam partido para a guerra, que restava de mim se não cuidar de minha pobre mãe? Em meio à epidemia da peste bubônica, o temor aumentava. Contudo, ainda que vivesse em tempos tão sombrios, a luz escapava nuvens enegrecidas e adentrava o lar dos mais necessitados.
Em tal ocasião, foi quando o conheci. O arquidiácono vinha ao nosso encontro com bom número de soldados emprestados do rei para nos proteger. Não poderíamos viver desprotegidos, ele havia dito, e assim o vilarejo aceitou de bom grado tais homens que, alguns diziam, se reconheciam herdeiros dos lendários Templários. Eram cavalheiros de Cristo que honravam em tudo o amor ao próximo, a caridade, a compaixão, a humildade. No entanto, os mais desconfiados temiam, e com razão, de que pudessem nos trair. Ao todo, demoraram quase trinta e cinco dias até que conquistassem a confiança geral.
Caminhava eu, em um desses dias ensolarados, para retirar água do poço quando ouvi alguém me chamar:
--Senhora, para onde pensa que vai?
Ao me virar para ver quem tinha a audácia de me chamar a atenção, notei com as sobrancelhas arqueadas que se tratava de um destes soldados do rei. Notei que seus cabelos eram negros como a noite, e que seu elmo cobria quase seus olhos castanhos. Seu nariz era longo, porém um pouco torto para o lado direito, indicativo de que o havia quebrado em algum momento de sua carreira militar. Os lábios estavam machucados, e eu me indaguei se algum dente permanecia sob a boca.
Enfim o respondi sobre o que tratava, e ele falou:
--Pensava que havia um horário determinado para isto.
Encarei-o com desdém, ignorando a crescente familiaridade com a qual era observada.
--Não há, senhor. Asseguro-o de que sei onde repousa meus deveres... e direitos.
Mas ele estava de humor para falar, portanto respondeu:
--Perdoe-me por ser invasivo, estou apenas cumprindo com meu dever.
Eu ri.
--Que dever é este de que um cavalheiro deve guardar ronda sobre uma donzela que pega água do poço?
Ele ruborizou e senti meus lábios repuxarem em um sorriso quase indolente.
--Há ladrões por perto, seria um descumpridor da lei se não fizesse minha ronda apropriadamente--retrucou--Mas já que estamos aqui, poderia saber seu nome?
Ri novamente ao perceber que ele havia montado uma desculpa para se dirigir a mim. Naquele dia, usava roupas comuns a uma camponesa, um vestido verde-musgo comum, com um lenço branco que cobria parcialmente meus cabelos dourados e sujos. Andava descalça pela impaciência que tinha em calçar os sapatos que precisavam remendar. E, para completar, um balde pendia vazio do meu braço direito.
--E por que gostaria de saber como me chamo?--quis saber, encarando-o nos olhos. Ele sorriu de canto e percebi que o achava muito belo.
--Acaso não poderíamos nos apresentar um ao outro?--disse ele, montado em seu cavalo negro--Que mal haveria nisto?
--Muitos males se sucederiam se desse meu nome--retorqui, rindo, me virando para o poço e me ocupando em fazer a que vim fazer.
--Discordo--teimou o cavalheiro--É assim tão teimosa? Não é recatada como as outras donzelas.
Levantei o olhar, sem saber por que me incomodava a comparação. Em vez disso, porém, vali de meu desdém:
--Se não sou como as outras donzelas, por que perder seu tempo?
--Valha-me, Deus!--ele exclamou, impaciente--É assim orgulhosa?
--Não--disse eu, afinal--Mas não deveria conversar com estranhos.
--E, no entanto, aqui está a senhora conversando com um--devolveu o homem, com um quê de vitória na voz.
Fiz uma careta.
--Já que é tão importante que saiba meu nome, e-lo-ei: Anne, como da avó de Cristo.
Satisfeito, o cavalheiro fez um meneio com a cabeça.
--É um prazer, senhora. Quanto a mim, meu nome é Louis. Como nosso santo rei--ele tornou a explicar com um sorriso quase infantil.
Sorri e tentei fazer algo parecido com uma mesura.
--E o que o traz a Poitou, senhor Louis?
--Oh, por favor, não sou nenhum senhor. Apenas um cavalheiro--disse Louis--Fui designado pelo meu comandante para tratar de questões aqui.
Assenti com a cabeça.
--A guerra anda feia, não é?
--A perspectiva de vitória já nos foi mais favorável--admitiu o bom rapaz--Mas temos de nos preparar. O cerco de Crécy foi terrível.
Fiz uma careta diante da menção de uma das piores batalhas que nos rendeu não somente humilhações pessoais e gerais, mas mortes que poderiam ser evitadas se Edward da Inglaterra não fosse um príncipe cruel. À época ainda não havia nascido, mas meus pais costumavam comentar a respeito ainda na posterioridade quando jantávamos juntos.
--Sem dúvida que foi. Não desejamos passar por isso de novo.
--Ouvi dizer que ele está morrendo--declamou Louis, soando mais contente do que pesaroso.
--Louvado seja Deus--disse eu, fazendo o sinal da cruz--O flagelo da França não nos atormentará mais. Me pergunto se Aquitânia voltará aos domínios do rei?
Louis pareceu impressionado com o que disse, portanto, falou:
--A senhora sabe demais do que acontece em nossas terras.
Arqueei as sobrancelhas e respondi, divertida:
--Sou camponesa e iletrada, nem por isso burra ou surda. As pessoas comentam, sabe?
Ele ruborizou.
--Não quis ofendê-la, perdoe-me.
--Não há o que perdoar--disse eu, sorrindo--Que culpa tem de não conviver conosco?
--Não sou um nobre, senhora--ele protestou, ofendido--Sou apenas um cavalheiro de origens humildes. Por que presumir algo de mim?
O orgulho é como uma doença silenciosa. Nos acreditamos livres dela até sua manifestação mais pesarosa. Em alguns casos é passível de eliminá-la de um só golpe, mas na maioria... é um longo processo. Desta vez, ruborizei. Não percebi que havia sido arrogante, por isso me apressei em me desculpar. Mas fomos interrompidos quando ouvimos o sinal dos sinos. Entreolhamos e decidimos que o embate de ideias deveria ser deixado para depois. Corri para longe dele, separando-me, a contragosto, de bondoso cavalheiro; porém, preocupava-me minha mãe e não a deixaria só quando mais precisava de mim. Rezava ardentemente para que Deus, Nosso Senhor, não se esquecesse de seus filhos mortais. A guerra retornava e nós nos preparávamos para o pior.
* * *
Tal qual minha mãe, não me casaria nem constituiria família antes dos vinte e dois. Contava dezenove verões quando soubemos da morte do príncipe inglês, e celebramos diante da perspectiva de recebermos o rei entre nós. Contudo, seria uma pequena vitória diante do que estaria a vir para arrasar com a França. Afinal, logo mais nosso soberano iria ao túmulo e seu infante reinaria em seu lugar. Uma regência disputada marcaria seus primeiros anos, mas este seria o monarca que mancharia o reino com sua debilidade mental.
Enquanto isso, tentávamos nós, os camponeses, viver da maneira como podíamos. De vez em quando notícias ruins nos acometiam de pequenices do dia-a-dia: um mendigo que roubou a colheita de um trabalhador, um ladrão que esfaqueou um rapaz e violou sua filha, fugindo impune... Mas as missas eram diárias, e, embora estávamos longe de receber notícias de meu pai e dos nossos irmãos, de vez em quando François vinha nos visitar, o que era, por si só, um bálsamo para minha mãe.
No mais, como já falei, não só de tragédia vive a humanidade. Os nobres de Poitou decidiram fazer um torneio para toda a cidade. Mesmo nós, os camponeses, tínhamos direitos de assistir. Minha mãe, tomando nota disto, falou:
--Gostaria que fosse bela e adequada para que arranjasse um partido.
--Mamãe!--protestei entre risos--Não há necessidade disto.
--Claro que há! Eu também quero acompanhá-la, não vejo um torneio tem mais de dez anos--confidenciou-me ela, aos risos.
Era bom vê-la alegre, por isso não vi mal em fazer seu agrado. Para a ocasião, lavei os cabelos, penteei-os e deixei que secasse naturalmente; em vez de trançá-los todos, separei apenas algumas mechas para fazer uma trança sobre a cabeça, deixando o restante mais solto. Usei um dos poucos vestidos que não estavam desgastados pelo tempo: este era de um azul-cetim de mangas longas e com um decote levemente mais expressivo. Se era para chamar a atenção de um partido, e eu tinha o nome deste em mente, que o fizesse como as damas que via em seus raros passeios à cidade. Havia um morango cujo extrato consegui fazer como uma espécie de perfume: dois dedos aqui e ali e cheirava como uma! De outra fruta avermelhada em seu centro, usei como se fosse um batom e pintei os lábios. Todavia, mamãe achou que estavam demasiadamente vermelhos e, portanto, tratei de demovê-los, o que me entristeceu. Para apaziguar meu desapontamento, porém, ela me emprestou seu par de brincos que o pai havia lhe dado de presente de casamento e me senti muito honrada em usá-los naquele dia.
Assim, saímos rumo ao centro de Poitou. Demorou quase uma hora, já que fomos à pé--e desta vez estava descalça. Conforme nos aproximávamos, a cidade vibrava! As construções em si não me chamavam a atenção, mas, sim, as pessoas que ali estavam. Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos... Todos amontoados diante do vislumbre do que era popularmente associado aos contos arturianos. Quem nunca ouvira dizer de Gwaine, cavalheiro do rei Arthur, que era um excelente competidor nas justas? Nem Lancelot o derrubava da cela, segundo diziam as histórias.
Pouco importavam os nobres e quem eram eles, pois vi entre os que se ofereciam para competir o nobre Louis, cavalheiro que um dia me impertinara para saber de meu nome. Relanceei sobre meu ombro para que fosse notada, mas Louis estava mui concentrado em dar seu nome ao rapaz que, tediosamente, copiava seu nome e o inscrevia para o próximo torneio. Em meu coração, pulsava uma vontade indescritível sobre querer ter sua atenção para mim. Havia alguns meses desde que nós havíamos trocado cumprimentos, e eu detestava esta distância que aumentava sobre nós. Mamãe costumava dizer que havia muitos interessados em me cortejar, mas nunca lhes dei atenção. Sabia em meu íntimo, porém, que meu coração pertencia somente a uma pessoa.
Finalmente percebendo a direção de meu olhar, minha mãe disse:
--Vá, filha. Vá e fale com ele. O que é que há? Deixará seu orgulho se interpor entre duas almas afins?
Ruborizei diante de sua fala, mas tornei a protestar:
--Senhora, não posso deixá-la só!
--Não sou nenhuma inválida ou incapaz--retrucou mamãe--Olhe lá, Lourdes!--e ela acenou para uma antiga amiga que sorriu animada aos nos ver--Ah, querida! Como tem estado?
E, assim, em meio a multidão, deixou minha mãe. Sei que não deveria estar sem companhia feminina ao meu lado, mas para o inferno com tal convenção! Como que inspirada por uma força sobrenatural, decidi me fazer vista por ele. Não demorou até que o avistasse e, tomando coragem, o chamei:
--Senhor Louis! Senhor Louis!
Honestamente, em retrospecto, não sei como que ele me ouviu. Era difícil não ser empurrada pela multidão e mais custoso atravessá-la por um senhor que nada mais era que um quase desconhecido, mas que minha alma o reconhecia de longe, tal é o destino quando almas gêmeas se reencontram. E creiam no que vos digo, leitores, de que, às vezes, por peculiar que seja a situação, não devem ser demovidos por ela. Quando nossa metade chega, nada é capaz de nos separar, asseguro-vos disso. A não ser que haja outros fatores em curso, que não devo falar sobre.
(Nota de Ogum: o assunto das 'almas gêmeas' não é de hoje e o leitor atento perceberá isso. Não raro, sabemos que todas, sem exceção, as pessoas que cruzam nossos caminhos não o fazem sem motivo. E, no entanto, são várias as mais curiosas circunstâncias que nos trazem sujeitos que mexem conosco. Na maioria das vezes, isto se explica dado o avanço moral e/ou espiritual que isto ocorre, mas, o que é mais comum, vem de um acerto do planejamento reencarnatório antes da entidade vir à Terra. Se, porventura, o relacionamento de almas bastante afins a ponto de vibrarem em uníssono, constituindo desta maneira as chamadas 'almas gêmeas', não 'durar' segundo vosso pensamento terrícola, é porque há alguma provação que uma das partes precisa expiar naquela existência. Mas todo relacionamento traz ensinamentos, aprendizados para as duas partes, independentemente de quem sejam. Nada é por acaso e, usualmente, todo um há o seu segundo, ou... todo Adão tem sua Eva. Em outras palavras: todos nós temos nossos pares conforme determinou a vontade do Pai Maior.)
Quando Louis pousou seus olhos castanhos sobre os meus, foi como se os céus houvessem rachado e permitido que a luz divina iluminasse a todos nós. Ele sorriu alegre ao me ver e disse:
--Senhora Anne! Ah, como me regozijo em vê-la por aqui! Vou competir na justa hoje.
E, se aproximando mais, disse:
--Há algo que poderia usar para que possa me favorecer?
Ruborizei diante daquilo, mas notei que em meu pulso havia um laço, quase uma pulseira. Deslacei-o e dei-o a Louis, que, colocando contra o peito, afirmou:
--Vencerei por sua honra, prometo!
--Não faça promessas que não possa cumprir--eu o repreendi, sorrindo, mas por dentro me sentia a própria Guinevere.
--Talvez possa fazer um juramento mais apropriado--disse ele, de repente inspirado. Ajoelhou-se e, ignorando os olhares curiosos, tornou a pegar meu pulso e nele depositou um beijo sobre. Disse, assim:--Se acaso vencer três partidas, poderia desposá-la?
Meu coração pulou contra meu peito, e ri como a boba que era. Orgulho nenhum me impediria de expressar o que minha alma cantava:
--Se precisa mesmo vencer uma justa para me ter como uma esposa, é porque age como um tolo. Garanto que terá minha mão qualquer quer seja o resultado.
Aquilo o satisfez e Louis sorriu alegremente, contagiando meus espíritos. Disse ele, então:
--Que São Louis abençoe minha causa!
E creio que o santo rei deva tê-lo escutado porque, de fato, Louis de Guyenne (não confundi-lo com o príncipe herdeiro de mesmo nome a nascer algumas décadas depois) vencera todas as justas, ainda que houvesse perdido um dente no processo. Apesar das vitórias, os torneios eram divididos entre os nobres e aqueles entre os qualificados para tal, ou seja, não-nobres, mas que possuíam alguma renda que permitisse sua participação na justa. Mas Louis não se importou com esta segregação boba, pois em seguida veio ele celebrar comigo e minha mãe a vitória e, claro, nosso noivado que minha mãe felizmente concedeu sua bênção.
Mais tarde, recebemos notícias ainda melhores: as de que meus pai e irmãos estavam vivos. E receberam permissão, afinal, para regressar à casa. Foram quase quinze anos longe de nós e quando mamãe ouvira do mensageiro tais notícias, ela quase desmaiou. Não fosse pelo querido Louis, não sei o que teria se sucedido.
Assim, eu e Louis nos casamos oficialmente quando a família se reuniu. Mamãe viveu alguns anos a mais para ver o nascimento de sua neta, a quem chamei de Blanche em sua homenagem. No entanto, a peste bubônica nos separou por ora e o pai insistiu para que eu partisse junto a Louis para Guyenne a fim de ter uma vida mais adequada. Obedeci-o enquanto filha, e assim partimos... mas a guerra chamou Louis e eu fiquei em nossa casa com dois filhos pequenos. Esforcei-me para que Blanche e seu pequeno irmão, a quem chamei Louis em homenagem ao pai, se dessem bem e os eduquei segundo os ensinamento de Cristo.
Nossa vida havia melhorado quando Louis regressara. Quando entramos no reinado de Charles VI, em sua maioridade, por assim dizer, nos esforçamos por viver uma vida mais discreta. Não há nada que valha a pena ser mencionado porque foi tudo simples demais, como uma camponesa: tomava conta dos filhos, engravidava, paria, frequentava a Igreja, educava as crianças e, claro, era uma boa esposa para o marido que tanto amava. Não houve nada extraordinário, embora tivesse vivido em tempos mui conturbados. Creio que fui feliz em meio a tantas dificuldades e infelicidades.
Mas enviuvei aos 35 anos. Não obstante lamentável tragédia, já que Louis morrera em batalha, vivi na fé em Cristo o suficiente para casar minhas crianças. A fé nos sustenta e nos motiva, seja em vida ou no que vem depois, e somente assim pude ter a sensação de missão cumprida. Hoje, estamos juntos em "Nosso Lar" e aguardamos o momento de reencarnarmos juntos e, mais uma vez, nos reencontrarmos. O amor, a tudo vence. E no devido tempo, também ele a encontrará.
Gostaria de deixar meus agradecimentos à médium pela paciência, bom coração e boa vontade. Que persista neste caminho de luz, e enfrenta de cabeça erguida as provações da vida. O amor sempre vem, apenas espere e verá. Agradeço ao guia de Ogum pela bondade com a qual me trouxe aqui para que minha história, comum e sem qualquer apreço, seja contada. Sou grata pela voz que me deu. Que Deus a abençoe e proteja, querida e mui amada amiga. ~ Anne de França.
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