quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Contos Medievais, Romance IV: Charlothe e George

Nota do guia de Ogum: "Sejam bem-vindos a mais um conto medieval, dentro da seção que, em conjunto, catalogamos como 'Romance' conforme aviso prévio, no qual, é bom recordar, faz parte de uma missão de resgate através da psicografia. Estes contos medievais foram divididos em três seções: 'Romance', 'Tragédia' e 'Guerras', todas elas contendo lições valiosas para aqueles que se dispuserem a apreendê-las. No processo de aprendizagem, como se sabe, é uma via de mão dupla: contem tanto ensinamento para aquele que ele dá, quanto ao que recebe. Nosso maior objetivo consta em dar voz aos espíritos que a História ignorou e que têm também suas próprias missões a cumprir. Cada um deles que veio e ainda virá viveu vidas comuns, extraordinárias nos mais diversos aspectos, embora para o leitor acostumado com uma ideia mais romantizada dos períodos pretéritos possa assim parecer enfadonho. Entretanto, nem todos foram destinados à grandeza, mas nem por isso são demeritórios de expor seus aprendizados na esperança de incitar aquele que ler o caminho para o bem. A luz não cerca somente os santos e grandes figuras da humanidade, ela também se apresenta a todos os que se dispuserem a abraçá-la, independentemente das categorias que vós da Terra colocais sobre cada um. É neste sentido que nós revisitamos a Idade Média com um olhar mais humanizado e menos concentrado em abordagens historiográficas, pois não estamos estudando-a ou categorizando-a segundo as concepções medievalistas. A humanidade é muito complexa em si mesma para que seja limitada às interpretações de alguns que, por confiáveis que possam ser, nem sempre bastam para a compreensão. Sabe-se, deste modo, que a vida é mais do que o apanhado de um todo ou de um singular para além da mentalidade que se transforma ao longo dos séculos, acompanhando a evolução espiritual. Ela também vai para além de ideologias terrestres que distorcem e segregam o próprio ser humano. Assim é que tecemos este trabalho em conjunto e esperamos que, no devido tempo, resulte em boa colheita. Que a luz do Pai nos inspire diariamente a buscar melhorarmos constantemente, respeitando nossas limitações sem, contudo, permitir ser refreados por elas. Na energia do embate, da luta e do conhecimento é que nós nos renovamos. Dito isto, ressalto o que já digo de praxe: farei minhas interpelações no momento oportuno. Deixo cá meus agradecimentos a vós, leitores fieis.- George."

"Wurttemberg, 1450.

67 anos antes de recebermos Lutero e abraçarmos suas ideias revolucionárias, dignas de um espírito que veio cumprir missão importantíssima para o avanço moral da humanidade, Wurttemberg permaneceu obscuro para os grandes homens e sua história contemplativa. Nem por isso é indigna de ser mencionada, confesso que até hoje em dia grande carinho nutro por aquela cidade-estado. Mas antes de nos envolvermos em passado longínquo, permitam-me que eu me apresente. Charlothe, sem sobrenome de importância. Nasci na região já mencionada neste ano de 1450 depois de Cristo ou, como se catalogava à época, no ano do senhor. Fui somente uma mera criada para os senhores de Wurttemberg, que ora se percebia como reino, ora era intitulado como ducado. Nunca me atentei às tais questões porque me passavam do conhecimento, mas que importa isto? O que cabe dizer é que servi nas sombras, nunca nem mesmo pousei os olhos sobre poderosos nobres e talvez fosse melhor assim. Minha vida nesta ocasião foi certamente para expiar passado glamoroso, gasto por excesso de vaidade e soberba. Tudo que excede as faculdades espirituais e não é transmutado para o bom valor acaba provocando destino laboroso para o futuro próximo.

Imagino que alguns de vós venham a perguntar-vos quem havia sido e por que mereci tamanho "castigo", mas isso não tem relevância alguma para a história. Asseguro-vos, todavia, de que conscientemente optei por aquele tipo de vivência, que, por incrível que vos possa parecer, me trouxe muito frutos bons e dos quais me alegro relembrar. Após esta encarnação, como, pela graça do Pai, cumpri com os créditos que devia, pude optar em trabalhar no plano espiritual e permanecer segundo o valoroso labor a cumprir, ou reencarnar no plano terrestre. Optei por reencarnar novamente a fim de me limpar dos resquícios pretéritos, acompanhada nesta decisão por meu parceiro, que também hão de encontrá-lo na história a seguir. Apesar desta última reencarnação, decidi que, para o propósito do próprio labor desta médium que vos transcreve meus pensamentos, seria mais aproveitável retomar o ano de 1450, decisão que não tomei só, mas acompanhada de meus mentores também. E cá estamos. Peço-vos perdão por esta delonga, mas achei necessário expor tudo isto para vosso entendimento da complexidade do 'ser' espírito que todos nós somos. 

Enfim, como apresentei no início, nasci em Wurttemberg, reino germânico (atual Alemanha), no ano de 1450. Podemos ver que, apesar dos feudos e a manifestação estamental que, guardadas as devidas proporções, dava maior poder à Igreja, a sociedade era uma mistura intricada do camponês, clero e nobre. Isto não significa que havia facilidade para a mobilidade social, isto é, um camponês não enriqueceria da noite para o dia com todo seu trabalho. Na verdade, somente 2% da colheita lhe cabia e todo o resto era passado para a Igreja se o camponês lhe respondia autoridade, ou ao nobre a quem devia obediência. Nos mercados populares, dificilmente teria-se vislumbre das senhoras e seus esposos, ou mesmo de sua corte: eles se mantinham fechados entre si, recusando-se a interagir com o populacho. No entanto, esta arrogância era amenizada diante de seus deveres cristãos. Mesmo ali em Wurttemberg os nobres saíam de seus castelos nas datas comemorativas (sejam elas a Paz de Cristo, a Páscoa, a Crucificação, além de outras associadas aos santos locais) para fazer sua caridade. Alguns eram sinceros em sua prática, lavando os pés e beijando as mãos dos infectados pela lepra. Outros eram mesquinhos e contentavam-se em jogar um punhado de ouro para os desafortunados que, desesperados por qualquer oportunidade de enriquecimento ou chamar a atenção de tais pessoas, brigavam entre si como animais por uma moeda. Decadente, imagino que pensais isto, mas digo-vos que é lamentável que muitos permaneciam apegados a um estado de vivência pretérita e, escolhendo a pobreza como missão expiadora, não passavam por ela com resignação. 

Mas disto não me estenderei. Meus pais, cujos nomes darei Sophia e Karl, tinham mais cinco filhos à época de meu nascimento: pela graça de Deus, diziam, eram todos homens. No entanto, apenas três sobreviveriam à infância. Chamarei-os de Urban, Pepino e Djan. O mais velho de nós acompanharia nosso pai nos trabalhos das terras que, embora sobre ela atuássemos, não nos pertencia. O segundo se destinaria, tal como eu, à taverna que nossa mãe abriu como outra fonte de sustento para grande família e de alto custo. Djan, porém, foi prontamente dado à Igreja Católica. Digo "dado" não como um peso, embora papai tenha se aliviado por não ter de sustentar mais uma cabeça, mas não havia outra opção a ele. Éramos pobres, entendais, e em um mundo com tão poucas perspectivas para nós, que mais faríamos?

Mencionei no início que fui uma criada no castelo principal de Wurttemberg, residência de seus senhores, que quase nunca os via. Mas antes disto, cresci na taverna de nossa mãe. Sophia, como seu nome indicava, era sábia e tinha um espírito inabalável e incansável diante de perspectivas tão limitadas. Ela era extrovertida e logo depois do casamento com meu pai, Karl, passou a conhecer e se familiarizar com os vizinhos para que por eles fosse respeitada e, por que não, admirada. Era robusta e diria que o estereótipo alemão lhe cairia bem: seus cabelos encaracolados eram dourados como o sol e sua pele caucasiana queimava com tanta facilidade à exposição solar que seu rosto rechonchudo era vermelho com umas sardas ao redor do nariz. Seu nariz era curto, quase lembrando o de um porco, e os lábios eram naturalmente vermelhos. Usava sempre a mesma roupa: um vestido verde com bordados--feitos por ela mesma--em branco. Quase nunca trançava os cabelos e seu jeito de ser a fazia popular com todos. Quando abriu a taverna ao centro de Wurttemberg, todos os jovens e velhos camponeses frequentavam-no e mesmo suas mulheres também os acompanhavam. Dali surgia uma boa renda, que aumentou um pouco quando mamãe decidiu fazer da taverna lugar para hospedar os mais desafortunados que não podiam pagar um "hotel" decente. Cobrava-os, claro, mas de acordo com o que podiam dar. Neste sentido, era bastante generosa e produzia excelente cerveja também, fruto do que papai obtinha do pouco que recebia da colheita. 

Havia dificuldades, é claro. De vez em quando um clérigo tentava fechar a taverna por ser algo "pecaminoso", desculpa para a qual dava por ver que o ofício de um negócio como aquele era bem administrado por uma mulher. Como falei, porém, mamãe era bastante popular entre os camponeses e contava com seu apoio quando estas questões surgiam. Por mais que a Igreja de vez em quando tentasse fechar com a taverna, o prefeito local não tinha nada concreto para que pudesse fechá-lo de fato, reconhecendo que era bom para a cidade em si. No entanto, ainda havia aqueles "rivais", desafetos pretéritos, que batiam à nossa porta como se a vida quisesse nos testar. Mas mamãe era espirituosa o bastante para permitir que fosse restringida pelo seu sexo e posição. Era esperta para manter pública sua devoção--algo de que nem mesmo seus filhos duvidavam--e por isso qualquer acusação de heresia (afinal, que mais irritaria um mundo predominantemente masculino do que ver uma mulher capaz de se defender e viver uma vida desprendida de suas regras mesquinhas?) caía em baixos panos. 

Por isso, não posso dizer que tive uma infância infeliz, de fato. Apesar de tudo, sobrevivíamos e isso bastava. Apenas quando a praga levou meus outros irmãos--que não nomeei--que sentimos a tristeza da vida. No mais, não era nada incomum. Mas, conforme crescia, meu pai passou a se preocupar. Uma vez, ele comentou na mesa do jantar:

--Que será de Charlothe? Está na hora de casá-la... e isso me preocupa, já que a primeira noite é a de um nobre e não de seu senhor como deveria--ele fez uma careta como para ressaltar seu desagrado.

Papai era como qualquer outro camponês que trabalhava incansavelmente e, portanto, apresentava suas rugas antes do tempo. Qualquer um lhe daria cinquenta anos à época em que conto este fragmento, quando ele tinha trinta e cinco somente! Seus cabelos oleosos eram mais escuros que os de mamãe e recaíam sobre os ombros com alguns fios cinzas; sua pele era bronzeada e qualquer "vermelhidão" de resultado ao sol já não se fazia ver, como era o caso de mamãe. Seus olhos eram de um azul escuro e bastante profundos quando se mirava neles, azuis este que herdei. O nariz era longo, porém torto, resultado de alguma briga que jamais me contaram. Uma barba mal feita cobria-lhe os lábios e algumas cicatrizes pelo pescoço se destacavam em um olhar mais analítico. Vestia-se também com as roupas de costume, e em temperamento era mais sério, contemplativo e introspectivo. Era de surpreender que ele e mamãe se dessem tão bem e, apesar de ter sido uma união arranjada pelos meus pais (sim, meus caros, o casamento de livre-escolha dos camponeses é um mito), transformou-se em amor. Eram devotos um ao outro. 

--Precisa mencionar este assunto a esta hora, Karl?--suspirou mamãe, cansada--Charlothe não completou quinze verões ainda. 

--Ela está bonita e esguia, Pepino me contou que os homens na taverna já a desejam--resmungou ele em resposta--Não quero nenhuma tragédia aqui.

Franzi o cenho e, pela primeira vez, me manifestei.

--Que há de errado nisto? Poderia arranjar um pretendente entre tais rapazes, embora não me recorde de tê-los chamado a atenção.

--Sempre tão espirituosa, Charlothe--reprovou papai--Não é possível que seja ingênua.

Antes que pudesse responder, mamãe interferiu.

--Já disse que não é o momento--e, virando-se para mim, disse--Seu pai tem razão quando diz sobre estes assuntos e acho que não fiz bem em tê-la colocado para trabalhar junto a mim, na taverna.

Mas eu, jovem tola como era, protestei:

--Mamãe, isso é tolice! Eles gostam de você, e de mim também porquanto riem de minhas piadas, e não poderiam nos fazer mal.

Ela riu, mas não havia humor em seus olhos claros.

--Conhece muito pouco da vida, filha, se acredita mesmo que uma cerveja conquistará a simpatia benevolente de tais criaturas. E se acha mesmo que suas piadas são de fato engraçadas, penso que a tenho criado mal.

Enrubesci, furiosa, mas nada mais falei. Tentei rememorar qualquer situação incômoda na taverna, mas, a princípio, não havia nenhuma. Eu gostava de servi-los cerveja, pão e doce de abóbora quando pediam, e nenhum deles me tratava com desrespeito. Havia até um bardo que recitava belos poemas para mim quando não estava ocupada. Mas, fosse pela inexperiência de vida ou não, me faltava a compreensão da natureza de certos espíritos e era por isso que via a vida com olhares coloridos, quase romanceados. Isto não é um problema, mas não se pode prender-se a isto o tempo todo. 

Pensando nisto, percebi que fui boba, mas não quis admitir isto em voz alta por receio de ouvir mais reprimendas. Que jovem gosta de escutar várias e várias vezes sobre seus erros cometidos? Não é diferente do 'adolescente' moderno, que é orgulhoso demais para pedir desculpas. Eu mesma havia sido enfeitiçada pela ilusão da juventude. 

No entanto, não havia tempo para me prender a tais devaneios, pois foi mamãe quem mudou o rumo do assunto ao falar, direto como era de seu ser:

--Arranjei um outro ofício para você.

Arqueei as sobrancelhas e notei que não era a única surpreendida com aquele anúncio. Papai e meus dois irmãos, Urban e Pepino, também encararam com surpresa a matriarca da família. Sem pressa, no entanto, tornou ela a explicar:

--Antes mesmo desta questão de chamar demasiadamente a atenção indesejável masculina, me preocupava que se atarefasse em um lugar mais adequado. Não preciso explicar que tenho clientes fieis, amigos quase, e um deles conhece o chefe da criadagem dos reis de Wurttenberg. 

--Reis?--indagou meu pai, interrompendo-a--Eles são duques, mulher. Não existe tal coisa de reis por aqui!

--Eles certamente se comportam como tais--desdenhou mamãe, ácida como sempre--Bem, como ia dizendo, este meu amigo disse que vagou a posição de criada do castelo do duque de Wurttenberg e eu prontamente a ofereci. Ele a conhece, querida, portanto sabe que é qualificada para o posto.

Ruborizei novamente. Em tese, deveria ter me alegrado por oportunidade, mas uma coisa era ter de lidar com homens inconvenientes e ter amigos plebeus com quem se pudesse contar, outra completamente diferente era de trabalhar em um castelo. Mas me assustava diante de enorme possibilidade. Eu, que nunca entrara em contato com nenhum nobre da região, tremia só de imaginar. Vendo a perplexidade dançar em meus olhos, minha mãe se apressou a me tranquilizar, ainda que com um tom de censura em sua voz:

--Muitas jovens adorariam estar na sua posição, Charlothe. Não sei por que esta reação, francamente, mas se for pela insegurança, asseguro-a de que estará em boas mãos. Além do que a criadagem feminina não é a mesma que a masculina. Não há por que se preocupar.

Assenti, embora relanceasse para meu pai a fim de ouvir sua opinião. Mas ele apenas deu de ombros e, levando um copo de cerveja aos lábios, disse:

--Se assim for, que seja. Receberá pelos serviços?

Minha mãe, é claro, foi quem respondeu:

--Mas é claro! Uma quantia adequada de acordo com sua ocupação. O que mais poderíamos querer, Karl?

--Você é ambiciosa demais, Sophia--ele a reprovou, sacudindo a cabeça--Deveria pensar no casamento de Charlothe e não em tais baboseiras.

--Baboseiras que sustentarão esta casa--retrucou mamãe, impaciente--Recomendo ao senhor ser mais grato pela comida que temos na mesa e um lar que não foi derrubado pela corrupção do clero.

Papai, como já mencionei, era introspectivo e, portanto, menos dado às discussões do que mamãe. Por isso, ele se limitou a um suspiro e se retirou. Mas é claro que ela não deixaria por barato, ela era espirituosa demais para aceitar a resignação de papai. Ao final, eu me preparava para deitar quando Urban veio se juntar a mim:

--Por que tem medo de trabalhar para a nobreza, irmã? Qualquer um mataria por isso.

Colocava um lenço ao redor de minha cabeça quando o respondi:

--Porque todos sabemos que eles são cruéis. 

--Nunca ouvi nada do gênero sobre o duque ou a duquesa--ele se surpreendeu.

Dei de ombros.

--Apenas guardo a intuição. Se eu tivesse metade do que eles possuem, creio que seria arrogante em meu castelo--foi quase inconscientemente que eu pronunciei as palavras, reflexos de uma vida pretérita, mas que eu, naquele instante, não recordava.

Urban arqueou as sobrancelhas e replicou:

--Mas por que? O que acha que a faria melhor do que um camponês?

--Eu sou uma camponesa--eu o lembrei, rindo.

Mas, ansioso, ele insistiu na pergunta. Para a curiosidade do leitor, adianto que nós dois havíamos sido rivais em vida pretérita. E eu havia causado sua queda política nesta existência, mas, a fim de remendar isso, concordamos reencarnar como irmãos. 

(Nota de Ogum: "Embora não seja regra geral, dada as circunstâncias de reencarnação familiares, as rivalidades entre irmãos apontam para poderosos resgates a serem feitos. Para uma das partes que se coloca como vista é porque, em existência pretérita, se foi o algoz deste irmão. Inconscientemente, este, por sua vez, age com "rebeldia" para com o outro pela inspiração que o espírito guarda. Rancores inexplicáveis são, na verdade, explicáveis. E nem sempre quando falamos 'algoz' e 'vítima' deve ser interpretado literalmente. Como no caso de Charlothe, ela em outra vida havia sido poderosa duquesa, de influência inestimável, e que provocou a queda de seu rival na corte em que habitava. Esta queda não foi, como de se pensar, em imediata morte, ainda que esta ocorrera como resultado dos complôs políticos, mas nem por isso isenta um resgate a ser realizado. Depois de instrução espiritual, ambos concordaram, como ela mesma expôs acima, em reencarnar juntos a fim de sobrepor rivalidades passadas que, na verdade, haviam atingido o auge naquela vivência. No mais, as críticas excessivas, as implicâncias motivadas por rancor, têm seu fundo na base reencarnatória. Do contrário disto que expus, vemos almas bastante afins que, a fim de se auxiliarem no avanço moral e espiritual um do outro, voltam à vida terrícola como irmãos. Disto se sucede que, seja qual for o caso, a irmandade nada mais é que dois (ou mais) espíritos com débitos a pagar ou afinidade, ambos aqui colocando seus esforços para a evolução e findar o ciclo kármico. Em casos extremos, isto se resolve em mais de uma encarnação, mas o aprendizado e a supressão dos infelizes termos eventualmente chegam a todos."

--E que importa se é?--ele insistiu--Gostaria que me fosse sincera.

Franzi o cenho a ele, sem entender de verdade por que tanta importância dava aquilo. Mas ponderei e o respondi francamente:

--O luxo não é aquilo que todos desejam obter? De fato concordo com você quando diz que não somos diferentes dos ricos ou de outros mais desafortunados que nós. Mas obter a riqueza não é para tantos...É quase como se fossemos selecionados para aquilo, entende?

Urban sacudiu a cabeça. Tínhamos a idade aproximada, eu era apenas um ano mais nova que ele. Éramos diferentes, mas ao mesmo tempo iguais em temperamento. E crescemos muito próximos um do outro.

--Mas na missa não diz que Jesus ama a todos incondicionalmente?

--Diz. E Ele ama.

--No entanto, por que somente há um pedaço do céu reservado aos mais ricos? Eu não quero parar no inferno.

--O que isto tem a ver com a questão de trabalhar para os duques?--eu falei, sorrindo.

A vela tremulava, e a escuridão pairava sobre o quarto, mas ainda conseguia enxergar os olhos azuis-quase-esverdeados de meu irmão, o rosto sujo e os cabelos dourados oleosos que caíam em seus olhos. Havia herdado toda a beleza de mamãe.

--Que talvez você já esteja apta para ir ao céu, e nós, mero camponeses, não--ele retrucou, rancoroso.

Levantei-me da cama estendida ao chão e tomei a mão dele na minha. Senti que uma inspiração pairava sobre nós dois naquele instante.

--Isto não é verdade. Você é meu irmão e eu não permitirei que irá ao inferno. E acaso for, também irei com você--falei firmemente.

Ele me encarou, surpreso.

--Mas...

--Não há "mas", Urban. Somos irmãos, e por mais que tenhamos nossas diferenças, eu o amo. Sempre amei--disse eu, ciente de que, nos nossos piores momentos, ele tinha o costume de me chamar de 'vadia' para os amigos dele.

E talvez fosse pensando nisso que ele enrubesceu. Como se num momento significativo, com os olhos baixos, ele disse:

--Sou muito duro com você, admito. Mas é que sempre me irritou que tivesse todo o favoritismo de mamãe. 

Eu ri, mas dei um aperto na mão dele como se para assegurá-lo de que aquilo era uma inverdade. Disse eu a seguir:

--Sou a única donzela da família, Urban. Você não precisa se preocupar com essa questão de favoritismo, pois quem herdará a propriedade do pai e suas colheitas será você, não eu. Eu quem dependerei de sua boa vontade até mesmo para arranjar marido caso, que Deus não permita, nosso pai se vá antes do tempo. Sinto muito que veja as coisas desta maneira, mas não é assim. Não deixa que isso afete nosso laço, sabe que é meu irmão favorito.

Urban deu um sorrisinho e me deu um abraço forte. Senti que, a partir daquele momento, não existia mais rupturas entre nós dois.

*                                                                                      *                                                                        *

A primeira semana no castelo dos duques de Wurttemberg não foi fácil como temia. A criadagem feminina, embora separada da masculina, não havia me acolhido e as mulheres eram cruéis. Em sua maioria, tendiam para a libertinagem, eram mais velhas e, portanto, mais experientes. Conheciam todo o castelo, as áreas em que deveriam entrar ou não, quem lhes passava as ordens, a quem deviam responder. Algumas delas tinha mesmo uma quartinhola para chamar de sua. E nenhuma delas quis me ajudar, apenas me davam ordens: limpe aqui, limpe ali.

Não vou negar e pintar um quadro extremamente humilde para pensarem que aceitei aquela condição de bom grado e que tolerava tudo de mente silenciada. A verdade é mais dura, pois, colocada em uma situação para expiar a vida pretérita e seus excessos que nela cometi, minha mente se rebelava e chicoteava em frustração por limpar janelas, esfregar o pano molhado trezentas vezes até ganhar calos nas mãos, e observar com inveja os aposentos ricamente enfeitados e saber que jamais deitaria em camas confortáveis, acenderia lareiras e desconheceria o frio, ou a fome.

Era difícil para mim receber desaforos diariamente e não ter a chance de réplica, já que precisava daquele cargo. Era solitário também, e naquele primeiro mês, teve um momento que, enquanto esfregava o chão, caí em prantos. Foi doloroso ver que aquilo não me pertencia, e não viria a me pertencer; concluir que a vida não era feita de risos, sorrisos fáceis e flertes inocentes; que havia pessoas que se antipatizavam comigo a troco nenhum. Estar só me parecia um castigo e, como todos alguma vez na vida fazem, me perguntava ao Pai o que havia feito para merecer aquilo. 

Mas mal havia me indagado a respeito, ainda que silenciosamente, quando ele me apareceu. Demoraria, lenta que eu era, a ler os sinais, mas eles estavam ali. Enquanto a dor me ensinava em meio a tantos suplícios, o amor vinha para curar as cicatrizes. Sendo mais clara, um dos homens que servia a corte passava por ali quando me viu no canto, prantear em silêncio.

--Misericórdia!--ele exclamou--Suas mãos estão um sabugo! Permita-me, senhorita, ver o que há nesses calos.

Quando meus olhos se dirigiram a quem, pela primeira vez, havia notado minha existência naquela residência fantasmagórica, me assustei e recolhi contra a parede. Afinal, temia ser castigada, era tudo o que conseguia pensar, e o pobre homem teve de se esforçar para conquistar minha confiança.

--Senhorita, não vou lhe fazer mal--ele se sentou ao meu lado, falando quase baixinho--Não sou desse tipo de homem que pensa que sou.

Com a palma da mão, enxuguei meus olhos e pude avaliá-lo como era, de fato. Era mais alto que eu, embora não tão alto assim, e seu rosto, oval, transmitia bondade. Sua tez era larga e seus olhos, esverdeados como a oliva, eram muito simpáticos. O nariz era longo, mas não fino; seus lábios, rosados, tinham um corte na parte inferior, e imaginei qual teria sido a causa para tal. Seus cabelos puxavam para um louro acobreado, e, para meu horror, meu coração palpitou contra meu peito. Mas me recusei a reconhecê-lo como o mais belo dos homens que havia visto. 

Não me passou despercebido tampouco que suas vestes eram de camurça, com linhos dourados ao longo de blusa que nunca havia visto antes. Concluí que deveria ser algum cortesão, o que me fez ruborizar de vergonha.

--Peço perdão por isso, senhor--falei, enfim--Não quis... Juro que...

--Não precisa se justificar--ele me interrompeu, gentil--Sei que estava fazendo seu trabalho, e ele é exaustivo. Entendo como se sente, ser o jardineiro do duque nem sempre é fácil. Adaptar seu jeito de lidar com as plantas para embelezá-las segundo o gosto de sua senhoria... --e ele sorriu--Silenciar-se diante da crueldade alheia é a pior provação pela qual qualquer sujeito deva passar, mas, não me leve a mal, sou grato pelo trabalho.

Encarei-o com um misto de choque e surpresa.

--O senhor é jardineiro?

--Sim--ele respondeu--Já tem algum tempo. Na verdade, uns bons sete anos. Estou surpreso de manter esta ocupação por quase uma década. 

--E por que isso?

Ele deu de ombros.

--Não sei. A bem da verdade, só vi o duque uma única vez e ele não me dirigiu a palavra. Como deveria ser o contrário se sou apenas um criado?--em seu tom de voz, havia humor e não ressentimento, o que me deixou atônita--Não é ruim viver na obscuridade, sabe. Contato que faço direito o trabalho, nada mais importa.

--Mas por que aguentar tantas crueldades?--me ouvi indagar. Ainda não havia compreendido o propósito de estar lá.

--Porque Deus assim quis--ele me disse, tranquilamente--Cada um carrega a Cruz que Ele deu. Não somos como o Cristo, mas podemos nos aspirar a segui-Lo. Não acha? Cada santo, veja, sofreu duras provações em Seu nome, muitas das vezes em silêncio. 

Notei que meus olhos vertiam lágrimas, tocada por aquelas palavras.

--Não sei se consigo.

--Claro que consegue--disse ele, surpreso por sua vez ao me ver sensível--Por que não conseguiria? 

--As pessoas são más--eu me ouvi dizer.

--O mundo não é belo como muitos bardos gostam de pintar--ele concordou--mas nem por isso deixa de de ter sua beleza. Para a escuridão, existe a luz; para o ódio, existe o amor. Já ouviu falar da oração de São Francisco de Assis? Gosto muito dele.

--Não me recordo muito bem--admiti, envergonhada--Não sei ler.

--Não precisa se justificar--disse ele, animado--São Francisco foi um nobre que se despiu de toda a riqueza e adotou o voto de pobreza, pregou a caridade, a humildade, o amor ao próximo, dentre outras coisas que Jesus tanto se esforçou em nos ensinar. Sua oração, em resumo, nos incentiva a levar a união onde houver discórdia, o amor onde prevalecer o ódio, o amparo para aqueles que necessitam. Que mais vale amar do que ser amado. Que damos o que temos sem esperar nada em troca.

Um arrepio percorreu minha espinha e senti que minha alma foi verdadeiramente tocada por aquelas palavras. Ainda assim, perguntei:

--Como sabe tanto disso?

--Eu queria muito ir à Roma e me tornar padre, quiçá adentrar a ordem franciscana--disse ele--mas Deus tinha outros planos para mim, e cá estou.

Refletindo ainda todo aquele ensinamento, virei-me para ele e disse:

--Acha que os santos nos ajudariam se pedíssemos por eles?

--Por que haveria de ser o contrário?

--Porque--eu falei, triste, ao lembrar das palavras de meu irmão--somente os ricos possuem o direito de entrar no Céu.

--Se assim fosse--disse ele, bondosamente--teria São Francisco sido expulso da Morada do Pai porque ele se despiu de toda a riqueza ao optar pela pobreza. O Pai, nosso Criador, ama a todos igualmente, minha senhora. Ele não deseja nosso dinheiro, nosso pão, nossas velas, mas o que nós tivermos em nosso coração. A fé sincera e a humildade é o que mais importa. O resto é o resto. 

--Mesmo que eu não entenda direito as orações?--falei, me recordando de repente de que nada entendia do latim, tendo aprendido somente o básico de mamãe, que nunca hesitava em perguntar aos padres o que significava tudo aquilo da missa. 

--Eu irei ensiná-la a você, mas vou dizer que nem isso importa--ele falou isso sussurrando, porque, tirando do contexto, poderia ser interpretado como herético--Se amor existe em seu coração e se permite pelo Pai sofrer, nada mais há o que temer. Jesus também sofreu e foi recompensado, por que o mesmo não ocorreria conosco? 

Sorri.

--Obrigada, senhor. Sinto-me renovada com suas palavras. Teria sido um excelente padre, mas tenho certeza de que é muito bom jardineiro.

Ele riu.

--Nada me alegra mais do que levar a Palavra aqueles que dela necessitam. Pense no que eu te disse. 

Assenti a cabeça, e ajeitei o vestido, renovada.

--Obrigada. Como posso chamá-lo, caro amigo?

Já se levantando, disse o bom homem:

--George, senhorita. 

Sorri, feliz, e preparava-me para voltar ao trabalho quando me surpreendeu que ele se interessasse em saber meu nome.

--E como posso me dirigir à senhorita?

--Charlothe é o meu nome.

Foi quando nossos olhos se encontraram verdadeiramente. Outro arrepio percorreu minha espinha e em meu íntimo, senti que estava em casa. Senti que havia encontrado meu amor de igual.

*                                                                                     *                                                                     *

A primavera dava espaço para a chegada do verão e logo as festividades tomavam conta da cidade. A taverna de minha mãe lotava e havia cada vez mais pedidos para que as damas da noite fossem ali empregadas, para a consternação de meu pai, que achava aquilo um absurdo. Mas mamãe começava a se perguntar se não seria ótimo para os negócios, ainda que desaprovasse sobre a questão em si. Enquanto isso, Urban desposava a filha do concorrente de mamãe, dono de outra taverna tão popular quanto a nossa. Seu nome era Frederica e ela era simpática. Cativou o coração de meu irmão e a união provou ser certeira. O próximo a casar foi Pepino, que tomou como esposa a sobrinha ilegítima de um arquidiácono da cidade. Foi um excelente arranjo, todos estavam de acordo, e parecia que a família ascendia. Mas, com os rapazes casados, voltava papai a se preocupar com a única filha que tinha. Embora houvesse sido proibida há mais de um século, ainda estava em voga, de certa forma, a triste tradição de que o nobre local deveria consumar a noite de núpcias com a noiva camponesa antes do próprio marido. Com receio de tais complicações e desejando preservar minha honra, ele sugeriu me enviar a algum convento. Mas, é claro, mamãe, a casamenteira, não permitiria que isso se fizesse.

--Ela é muito bela para viver presa enclausurada--retrucou ela, decidida.

Neste meio tempo, estamos na década de 70. 1471, contava 21 anos e permanecia solteira. Minhas companheiras de trabalho zombavam de mim, é claro, mas não lhes dava a satisfação. Não poderia. Encontrava conforto nas preces, e tornei-me amiga do padre local, que era o capelão do duque de Wurttenberg, mas tal associação pouco significava para mim. Era um homem bondoso e gentil, que escutava e me protegia dos escárnios de povo tão baixo.

Um dia, porém, reencontrei George e foi com muita alegria que o havia visto. Poucas foram as ocasiões nas quais de fato nos encontrávamos e podíamos conversar sem qualquer interrupção. Estávamos às vésperas de um grande festival para celebrar a entrada do verão, a despeito da reprovação da igreja que, entretanto, todos, independentemente dos níveis sociais, deliberadamente ignoravam. Mamãe estava muito empolgada e também papai estava com os ânimos à toda. Minhas cunhadas, a quem me associei com alegria, também compartilhavam dos sentimentos e assim era o estado geral de espírito. Já não me importava de limpar janelas, lavar chãos, costurar e remendar tecidos. Havia me acostumado em fazer parte do castelo que, agora via, não me alegraria de pertencer. Percebi que, ao contrário dos nobres que faziam dali seu lar, era mais feliz com a simplicidade que a pobreza trazia.

--Senhorita Charlothe!--ele exclamou ao me ver.

Aquela era uma tarde tranquila, eu estava livre das supervisões de meus superiores, por isso fui serelepe caminhar pelos jardins. Georg sorria e eu me encantei com tamanha demonstração de alegria em me receber, algo que nem meus antigos amigos da taverna da minha mãe haviam feito.

--Meu senhor--eu falei, sorrindo com as bochechas coradas. Tentei fazer uma mesura, mas temi que não fosse uma graciosa o suficiente.

--Não, não, sem mesuras--ele pediu--Não sou um senhor que mereça isto. E me chame pelo meu nome, eu peço.

Era como se o sol brilhasse com mais vigor quando estava perto dele. Ousei tocá-lo delicadamente no braço.

--E que valha o mesmo para você, George.

Ele corou. Que adorável, pensei, ainda me demorando no braço dele.

--Como tem estado, Charlothe? Deveria tê-la visitado com mais frequência, afinal, prometi ensiná-la as orações que Cristo nos legou, mas...

--Oh, por favor--falei, rindo--Não se reprimenda tanto, meu caro. Estivemos ambos ocupados. Tenho certeza de que teremos tempo para isso.

Ele me lançou um olhar enigmático que eu não saberia decodificar bem, mas antes que pudesse mesmo enrubescer, notei que ele permitiu que nossos braços se entrelaçassem enquanto caminhávamos. E disse, então:

--Perdoe-me se estiver sendo ousado demais em minhas maneiras, mas amanhã... a cidade festejará o verão. Poderia acompanhá-la?

Pensei que o dia não poderia estar quente. Lancei um olhar a ele, meu coração batia rápido demais, acreditei mesmo que meus joelhos fossem fraquejar. Mas tudo isto ele interpretou de outra maneira, pois deu um pouco de distância entre nós e indagou:

--Perdoe-me se a ofendi...

--Oh, não!--eu exclamei, por minha vez, interrompendo-o bruscamente--Não é isto, não é isto. Eu sou uma boba, perdoe-me eu, George. Apenas... É claro que poderá me acompanhar. Estive apenas perplexa ante a ideia de ser convidada por alguém como você.

George, por sua vez, corou. Em breves segundos, que, para mim foram eternizados na memória, ele entrelaçou seus dedos nos meus e falou:

--Como poderia pensar isto, senhorita? É a mais bela de todas as senhoras.

--O senhor soa como um poeta--eu o repreendi levemente, sorrindo apaixonadamente.

Mas antes que pudesse ele dizer algo a mais, fomos interrompidos com um limpar de garganta. Era hora de George voltar ao trabalho e eu regressar ao meu. Nada mais havia a ser feito, e, por isso, voltei alegremente ao castelo.

*                                                                                      *                                                                        *

Não é preciso especificar data e época na história da humanidade para fazer valer a máxima de que a inveja é um mal que corrói os espíritos desde sempre. Sei bem que já fui corrompida por ele, mas me curei quando compreendi que, mesmo na pobreza, era mais feliz com o que eu tinha do que o seria na riqueza, sob o jugo do homem como era o caso da duquesa que a tudo devia ao seu esposo. Encontrei forças na prece e me dediquei a uma vida mais despretensiosa. E, no entanto, não escapei daquele velho reencontro de almas opostas, para não dizer o contrário.

Penso que não era relevante me aprofundar na rivalidade que existia entre eu e as senhoras que, comigo, faziam parte da criadagem feminina. É verdade que, ao longo dos anos, consegui "mudar de lado" algumas que haviam me julgado erroneamente. Amélia, Justiniana e Augusta foram três "inimigas" de vidas pretéritas que, com a graça de Deus, converti-as como irmãs de alma. E elas me alertaram de que a principal opositora a minha presença naquele lugar, que darei o nome de Johanna, descobriu que George, o jardineiro, me cortejava e pretendia seduzi-lo.

Entrei em desespero e foi quando contei, não a minha mãe, mas a Urban sobre a questão. Para minha surpresa, ele se demonstrou bastante sábio e disse:

--Irmã, por que te afligir com questões mesquinhas? Acaso, não confia neste homem?

Ruborizei.

--Confio, ele me parece de bom caráter, admito, mas homens são falíveis e entregam-se à carne.

Urban arqueou as sobrancelhas.

--Isto é uma generalização muito feia de fazer. E burra também, se me permite a palavra. Não conhece o caráter geral de todos os homens para assumir isso.

--Mas é sabido que os homens tendem para os desejos carnais mais do que as mulheres--eu temei. 

Ele suspirou.

--Os comportamentos de alguns apresentam semelhanças porque a Igreja assim determina, embora condene o adultério. Não é o caso aqui. Não foi ele quem te ensinou a respeito de São Francisco de Assis?

--Sim--falei eu, lentamente.

--E o que dizia sábio santo?

--Onde houver discórdia, que leve o amor--eu falei de imediato, confusa.

--Onde houver discórdia, que leve a união--meu irmão me corrigiu--Onde houver o ódio, que leve o amor. Onde houver guerra, que leve a paz. Afinal, é melhor....

--...amar a ser amado, compreender a ser compreendido--completei.

Urban sorriu.

--E então?

Corei de vergonha.

--Sinto muito. 

--Por que sente? É humana, isto acontece. Confie mais naquele que dá seu coração e ame sem esperar nada em troca. Funciona muito bem, eu garanto.

--Mas e quanto à...

--Não vamos mencionar o nome de quem não merece ter o nome mencionado--interrompeu-me Urban, gentil--Deveríamos rezar por ela, coitada. Não sente qualquer amor para precisar inferir nas relações alheias. Quem muito inseguro é, muito barulho faz. Minto, quem muito vazio é, pois quem tem o coração cheio de ternura, não perderá tempo fazendo o que ela faz.

Sorri.

--Tão sábio. Parece mesmo Djan.

E nós rimos em sintonia.

*                                                                                     *                                                                         *

Mamãe, com aquele pressentimento de mãe, exclamava pela casa toda de que, em breve, eu seria desposada. Meu pai, com um revirar de olhos, não se esforçava em comentar o contrário, apenas pedia que ela se comportasse. Mas era o mesmo que tentar agarrar o vento.

--Mamãe, por favor!--eu dizia, rindo, enquanto ela me banhava, penteava meus cabelos dourados e os trançava segundo a moda da época--Quanto exagero.

--Não existe exagero--retrucava ela--Você é minha única filha e é mais bela que todos. Se vai mesmo encontrar esse rapaz, que vá arrumada a fim de capturar seu coração. Certeza tenho de que terá sucesso nesta missão.

Eu ri. A casa estava contagiada com sua típica alegria e isso acalmava meu coração. Mais tarde, quando todos estavam vestidos adequadamente, a ocasião surgiu e fomos encontrá-la. Toda a cidade festejava, homens e mulheres dançavam, crianças brincavam, e os idosos bebiam como se não houvesse amanhã. Encontrei minhas amigas com seus respectivos pares e as saludei de longe. Naquela tarde, preferia a companhia de minhas cunhadas, uma delas, Frederica, já estava próxima dos últimos meses de gestação.

Por um momento, admito que me sentia aflita por não encontrá-lo, mas o sentimento não durou muito tempo, pois logo mais o encontrei, vestido em suas melhores roupas. Quem diria que era um mero jardineiro? E que isso tampouco importava? Sorri, e tentei não soar empolgada demais, como mamãe havia me censurado, embora fosse demasiadamente transparente para que isso não ficasse evidente em meus olhos.

George se aproximou e cumprimentou todos da família igualmente depois de tê-lo apresentado aos meus pais. Não deveria surpreender quando mamãe, sempre ela, falou:

--E quando é que devemos esperar uma proposta do senhor, George? Minha bela filha está solteira há muito tempo e há outros pretendentes esperando sua vez.

--Mamãe!--eu a repreendi, em uníssono aos meus irmãos.

Mas, para meu alívio, George apenas riu da insensatez de mamãe. Ao contrário, para surpresa geral, ele já tinha uma resposta.

--No mais breve possível, minha senhora, eu garanto. Não pretendo ser substituído por outros--assegurou ele, me fazendo corar e provocando risinhos de minhas jovens cunhadas, arrancando até mesmo um sorriso de aprovação de meu pai.

--Ah, mas muito que bem, meu jovem!--tornou minha mãe, orgulhosa da réplica--Deixaremos os dois, portanto. Se cuidem, meus queridos!

E assim desapareceram de nossa vista, embora Alicia e Frederica virassem suas cabeças e tentassem verificar meus passos. Ignorei-as, pois, e logo tentei remendar a situação.

--Peço que perdoe minha família, meu senhor. E-Eu...E-Eu não esperava por isso--disse eu, gaguejando como a tola que era.

Mas George ofereceu seu braço para que eu o tomasse e, em seguida, sussurrou ao meu ouvido.

--Não há nada a ser perdoado, afinal, em breve farei parte dela e ela será minha mãe também, não é?

Eu nunca senti meu rosto queimar tão intensamente quanto antes e se eu fosse cardíaca, sem dúvida teria partido havia muito para o Céu. Diante de minha reação, ele riu e depositou um beijo contra minha bochecha.

--Nenhum retrato poderia capturar a beleza de suas faces como meus olhos percebem este momento--declamou ele.

--É um poeta--falei, sorrindo timidamente.

--Seria minha musa, pois?--inquiriu ele.

Ri quietamente.

--O senhor traz outra coloração para o amor.

--E a senhora o intensifica, ouso acrescentar.

Trocamos olhares e foi quando ele disse:

--Tenho a impressão de conhecer sua alma, bela donzela. E digo isso sem receio nenhum de ser rechatado.

--Ofende minha inteligência presumir que o faria isso--disse eu, cativada pelo olhar intenso com o qual dirigia a mim--Acha que não partilho de similar impressão?

E foi dali, brotado em espontânea declaração, que ele se virou e disse:

--Sê minha esposa, é o que peço. É aqui e agora que se faz o propósito de Deus.

Sorri alegre, sentimento que transbordava pelos meus olhos.

--Qualquer que o seja, espero que esteja sempre ao meu lado. 

George enrubescia, mas seu sorriso o embelezava a tal maneira que poderia ser um dos anjos de Michelangelo.

--É assim que haverá de ser se me conceder uma resposta.

--Precisaria de uma, seu tolo? Acaso ignora que desde o primeiro dia meu coração é seu?

Ao nosso redor, havia barulho, música de um lado, sons diversos de outro, mas o mundo silenciava quando nossas almas se inclinavam tão perto uma da outra, em um reencontro mágico. Que importava todo o resto quando ele era meu e eu era dele? Quando nossos corações batiam como um? Quando o amor a tudo vencia? E foi quando desafiamos as convenções quando selamos nossos votos ao público em beijo doce...

*                                                                                     *                                                                         *

Posfácio: 

Casamos na capela segundo os ritos da Igreja Católica Apostólica Romana. Em 1475, determinadas questões sociais vinham sendo questionadas e, portanto, a chamada primeira noite foi abolida. Os nobres da capital não mostraram qualquer interesse em prosseguir com isso, embora nas redondezas outras senhoras de similar posição não pudessem comentar o mesmo desfecho com alegria. 

Tivemos uma vida comum, da qual o extraordinário era o amor que nutríamos um pelo outro. Ao todo, tivemos quinze crianças, das quais somente duas desencarnaram na crise da peste bubônica que ocorreu no fins do século XV. Em tranquilidade prosseguimos com a vida, na qual ciclos deram prosseguimento aos outros. Meus amados pais desencarnaram quase juntos, no ano de 1480, com dois meses de diferença. Estão reencarnados novamente na atualidade. Meu irmão Urban cumpriu com sua missão até antes do prometido e, portanto, desencarnou antes de 1490. Foi sucedido pelo filhinho e sua mãe, Frederica, se viu forçada pelo destino a desposar outra pessoa para dar mais respaldo financeiro à família. Seu segundo marido foi um comerciante rico, mas ela não se esqueceu de tantos outros. A mim, me ajudou bastante, principalmente com os partos. Mais tarde, se mudaria para Flandres, onde prosperaria. No final das contas, Pepino e Alicia ascenderam também e mudaram-se para Berlim. 

Mas eu e George não nos incomodamos por permanecer na posição que nascemos e viríamos a morrer. Nada nos faltava e o conforto daquilo que possuíamos nos bastava. Nossos filhos eram robustos e os casamos bem, alguns optaram pela vida monástica, três dos nossos seguindo para a ordem franciscana. Aprendi a ler e a escrever, e vivi segundo as leis de São Francisco até o fim dos meus dias. Aprendi que o amor a tudo perdoa, e sem amor não há perdão. 

Como almas "gêmeas", continuamos eu e George a trabalhar no plano espiritual. É provável que em breve experimentaremos a vida corpórea novamente, mas isso cabe somente ao Pai determinar. Aqui, deixo minha memória desta vida que me ensinou muito sobre humildade, caridade, e, claro, amor sobre todas as coisas. Agradeço à médium pelo tempo que se dispôs a este trabalho e à proposta feita por seu guia que irradia na linha de São Jorge. Que com o tempo possamos nos reencontrar. De sua amiga e irmã, meus mais sinceros votos. ~Charlothe. 











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