"Helena era a mais bela
dama de toda a Frankia. Nascida na mais alta classe da aristocracia, foi a
segunda de três crianças de Charles e Bertha. Esta, por sua vez, era a irmã de
um rei chamado Louis. Portanto, Helena fazia parte da realeza e seu tio régio
guardava planos grandiosos para esta princesa de seu sangue.
Desconhecendo o futuro
que lhe aguardava, porém, Helena seguia uma rotina bastante estrita imposta
pela mãe: cedo, às 7h da manhã, ela despertava e às 8h ela assistia a missa
junto aos pais, os dois irmãos e, ocasionalmente, na presença do rei e da
rainha. Em seguida, quebrava o desjejum e logo dava início às lições
apropriadas a de uma moça de sua posição. Costura, instrução nas artes
religiosas (curiosamente, a mãe de Helena convenceu seu pai de que ela deveria
saber ler para que pudesse exercer esta faculdade teológica), em particular das
sagradas escrituras, dança, música e, claro, línguas. Sob a supervisão de sua
atenta mãe, Helena era educada por três tutores: o responsável pela sua
educação religiosa cabia a um monge chamado Johanne; aquele pela música e dança
era um cortesão segundo a escolha do rei e uma dama de companhia da mãe foi
escolhida para instruir Helena nas artes domésticas.
Apesar deste cenário
agradável, Helena, embora impecavelmente obediente e cristã em todas as suas
atitudes e pensamentos, sentia-se inexplicavelmente presa e com tal anseio pela
liberdade que acreditava ser incapaz de expressá-lo em voz alta. E ainda que o
fizesse, seria incompreendida.
Havia dias nos quais a
melancolia tomava conta de seu espírito. Como sua mãe não a permitia sair sem
sua companhia, Helena passava muitas das horas livres dentro do castelo, ora na
biblioteca, pra em seus aposentos privados tocando o alaúde. Para os que desconheciam
sua frustração interna, a vontade de conhecer o exterior, o cenário de uma
natureza livre e destemida que se apresentava ao lado de fora, Helena era pura
e quase uma santa. Uma vez o pai mesmo sugeriu colocá-la no convento. E foi a
única vez em que surpreendeu os pais ao protestar veemente sua vontade.
--Não! Não irei ao
convento, não serei enclausurada mais uma vez.
--Mas o que é isso,
filha? Servir a Cristo não é prender-se ao vazio--contestou-a o pai,
estarrecido por aquela reação e prontificado a dar-lhe um sermão quando a
esposa o interrompeu, capturando a essência dos pensamentos da filha.
--Creio que ela tenha
querido dizer que seu dever descansa no tradicional papel a que venho
educando-a, marido. Para que seja a esposa devota de um consorte merecedor.
Fingindo ser esta a
questão, Helena, com um meneio de cabeça, concordou prontamente. O pai muito se
aliviou e trouxe à mesa com peculiar animação os possíveis nomes dos
pretendentes de sua única filha. Embora sair do domínio dos pais fosse um sonho
para a adorável princesa, ela reconhecia que o casamento só representava a
liberdade no campo das ideias. Afinal, sua mãe nunca cessava de agarrar uma
oportunidade para lembrá-la de obedecer, aquiescer e ser humilde àquele que a
esposará perante Deus.
Sendo assim, poderia ela
ser livre um dia ou permaneceria como um mero peão segundo a vontade parental?
Apesar desta frustração interna sem quaisquer motivações aparentes, Helena
reconhecia que sua vida não era de todo ruim e que havia privilégios dos quais
poderia desfrutar. Um deles era poder dançar na corte de seu tio quando o rei
convidava a família de sua nobre irmã para uma visita. Uma vez em Paris, Helena
acompanhou suas primas em vários passeios pelos longos jardins que enfeitavam a
residência régia.
E mesmo dentro do longo
castelo de pedras onde morava, havia músicos que, para seu deleite,
habilidosamente dedilhavam os alaúdes para alegrar seu espírito quaisquer que
fossem as circunstâncias. Com suas duas damas de companhia, Clothilde e Adèle,
amigas de infância que permaneceram ocupando esta posição mesmo depois do
acordo feito pelas mães destas com lady Bertha, mãe de Helena, não havia motivo
para tristeza.
Assim foi a maior parte
de sua vida. Agora, contudo, havia Helena atingido a idade adulta aos 16 anos,
quando veio a sangrar pela primeira vez. Na ocasião, a senhora Bertha veio aos
seus aposentos e, enquanto penteava os cabelos dourados da bela filha, disse:
--Seu tio, o rei Louis,
pediu que fôssemos à corte e certificou-se de que soubéssemos de que pretende
desposá-la com alguém de sua escolha. Não se esqueça de que agora já é uma
mulher, Helena. Suas responsabilidades, portanto, são outras.
Helena bondosamente
aquiesceu e viu, através do reflexo do espelho que pairava sobre a escrivaninha
que ocupava uma pequena parte de seus aposentos, o orgulho brilhar nos olhos de
sua mãe. Por algum motivo que não lhe coube descobrir, aquilo partiu seu
coração, mas conformou-se como costumava fazê-lo. Murmurou um agradecimento e,
tão logo seus cabelos foram trançados por lady Bertha, ela se achou só
novamente.
Caminhou até as janelas
de forma a fitar os campos verdes e o lago azul ao fundo no belo cenário que
raríssimas foram as vezes em que o explorou. Invejou os camponeses que, sob seu
atento olhar, caminhavam com uma alegria incomum a sua posição. Podia ouvi-los
cantar e ela se indagou por que o faziam. Detectou a inveja corroer seu coração
e, identificando-o como um pecado nocivo, decidiu que deveria rezar três vezes
mais como penitência.
Na manhã seguinte, lady
Bertha e seu esposo, acompanhados de Charles, Louis e Helena, junto a uma
pequena comitiva, viajaram para a residência do rei Louis. Uma vez lá foram
recebidos bem, ignorantes quanto a uma invasão dinamarquesa que operava ao
mesmo tempo em que punham os pés no castelo do soberano dos francos. Neste meio
tempo, saqueadores vikings sob a liderança de Reginald adentraram Paris no que
não seria nem a primeira ou a última vez que isto ocorreria. Mas a população,
como de costume, sofreria com seus atos, a maior parte da qual teve suas vidas
ceifadas pelo aço da espada quando não foram findadas pelo machado que
carregavam tais homens.
Se fogo e sangue manchavam
Paris, no castelo de pedras que o rei piedoso fez questão de inaugurar, músicas
alegres animavam o ambiente e os cortesões desfrutavam de seus privilégios a
fim de exibirem suas riquezas, traduzidas em vestimentas cujos tecidos vinham
de lugares como a Itália ou tão longe quanto o Mediterrâneo. Em seu traje azul
veludo que lhe cobria as mangas, Helena se recusou a adornar-se mais do que
exigia sua posição. Entretanto, adorava suas madeixas douradas, as quais deixou
cair soltas pelas costas, certa de que assim a embelezava ainda mais. Nas
orelhas, via-se brincos discretos de esmeralda e nas mãos, alguns dos anéis que
adorava usar.
Ao entrar no grande salão
do rei Louis, Helena, como seus pais esperavam, capturou a atenção de todos,
posto que o azul veludo refletia a cor de seus olhos. Isto, no entanto, a assustou,
desacostumada que estava com este tipo de bajulação. Na verdade, a sermos
sinceros, ela não gostou nem um pouco disso. Contudo, como seus pais eram
orgulhosos, pouco importava como a filha se sentia e, assim, prontificaram a
pavonear a pobre Helena para atingir seus próprios fins.
Infeliz, Helena, há muito
acostumada a jogar o jogo de lady Bertha e sir Charles, aquiesceu segundo as
vontades de seus pais e forçou um sorriso a estampar seus belos lábios rosados
para qualquer pretendente que fosse do agrado dos pais ou do rei. Dançou com
cada um dos filhos dos nobres senhores presentes, embora desfrutasse pouca
afeição ou quase nenhuma por aqueles seus parceiros. Eles tampouco inspiravam
qualquer insígnia de respeito, a arrogância deixando claro que era apenas sua
beleza que os importava. Mas Deus guarda os mais estranhos momentos para
escrever certo em linhas tortas.
Assim sendo, em meio às
felizes circunstâncias (se do ponto de vista do rei e de tantos outros
presentes), o piedoso rei Louis foi interrompido pela chegada de um mensageiro
esbaforido que o alertava sobre o avanço cruel dos dinamarqueses. Caiu-se um
silêncio constrangedor e amedrontador sobre todos os convidados, e de repente
sir Charles percebeu a desvantagem de ter uma filha tão bela como a pobre
princesa Helena naquele castelo. Que Deus fosse misericordioso, ele rezava.
Mas Louis decidiu que era
melhor incentivar manter as aparências do que dar espaço para o pânico roubar
as atenções de todos. Assim, ele ordenou que os músicos tocassem e, ansioso,
instigou que os cortesões dançassem, pois não havia nada a temer. Ao mesmo
tempo, porém, ordenava que seus melhores soldados guardassem o castelo e enviou
toda sua guarnição para impedir que os vikings atacassem.
Helena, embora ciente dos
fatos, limitou-se a lamentar por ter pais tão descuidados. Não expressou seu
descontentamento, já mestra nos fingimentos. Mas foi surpreendida pelos
próprios pensamentos, imaginando se a morte lhe seria bem-vinda acaso os
inimigos invadissem a todos. Talvez fosse melhor o martírio do que ser um
coquete sob a vontade dos pais.
--Está muito quieta,
Helena—pela primeira vez a mãe pareceu notar que sua filha era um ser humano
possuidor de sentimentos e capacidade de raciocinar—O que a aflige?
--Nada—mentiu Helena, tão
doce quanto seu coração.
Mas lady Bertha não se
convenceu. Na realidade, pela primeira vez em muito tempo, se deu conta de que,
por mais exemplar fosse o comportamento de sua amada filha, ela nunca lhe
pareceu contente com a vida que tinha nem com as tramoias planejadas. Aquilo
amaciou seu duro coração, mas que outra opção teria para ela? Princesas não
tinham vozes, e lady Bertha disso sabia por experiência própria. Contudo,
aquele não era o cenário mais favorável para dar abertura a uma mais sincera
relação entre mãe e filha, dada a tensão que, como véu, recaía sobre os
presentes.
--Não creio—rebateu a
filha de outrora grande rei franco—Mas conversaremos sobre isto mais tarde. Seu
tio não gostaria de vê-lhe tão apática.
Palavras inúteis,
observou a mãe, pois, embora Helena lhe fosse obediente em tudo, em seu coração
retumbava o silêncio e aquilo passou a lhe atormentar. Mas logo a menina se
distraiu na companhia de suas damas e o assunto, por ora, foi esquecido.
No restante da noite,
tudo pareceu estar ocorrendo bem, apesar dos fingimentos no geral. Até que, no
dia seguinte, chegou a todos uma decisão que o rei Louis tomou e que passou a
alimentar em seu íntimo até o findar desta história.
--Receberemos aqui—ele
anunciou após a primeira missa da manhã, quando todos os convidados se reuniam
no grande salão—Reginald de Skanderborg vem acompanhado de dois irmãos seus de
Kattegat, além de alguns outros que o seguiram em empreitadas... não muito
louváveis para o padrão cristão, é claro.
Louis limpou a garganta,
e, como suspeitava, não obteve uma aprovação dos nobres presentes de que
estariam em companhia dos vikings saqueadores.
--Eles vieram por ouro e
terras—prosseguiu o rei, mais como ator do que como governante—Por isso os
darei de bom grado. Em breve, chegarão aqui.
Mas foi em questão de
duas horas que os vikings enfim chegaram à corte. Helena observou o líder
deles, o homem que vinha a frente de um pequeno grupo, aproximar-se com
confiança e sem temer o julgamento dos que depositavam seu olhar rígido e cristão
sobre tais pagãos. Reginald, ela notou, era alto e forte. Seus cabelos, curtos
e raspados ao lado, eram tão louros que se confundiam com o prateado. Os olhos
eram azuis como o céu, e ela se surpreendeu ao admirar-se quão profundos
pareciam ser. Apesar das cicatrizes de batalha que marcavam o rosto, no qual
também se via uma crescente barba loura-prateada, Reginald era belo.
Suas vestes indicavam que
não era tão pobre quanto se poderia assumir. De porte de uma cota de malha,
suas vestes negras cobriam-se de detalhes em ouro. Duas espadas embainhavam-se
os lados, embora uma fosse mais longa e a outra menor. Nas costas, pendia-se um
escudo redondo de cores coloridas e formato circular. Helena constatou que uma
trança malfeita descia do alto da cabeça, dando-lhe aparência de selvagem.
Apesar das reprovações gerais, ela, ao contrário, sentiu contra a própria
vontade uma inexplicável atração.
Não obstante a censura da
mãe por manter o olhar naquela figura estranha, Helena sentiu os ventos da
rebelião despertarem em seu espírito passivo. Continuou a fixar o olhar em
Reginald, singular bela criatura que de imediato cativou seu coração. Mas
Reginald sentia-se observado e quando tornou a olhar para trás para ver que
vinha da bela e recatada princesa de cabelos dourados, teria arriscado um
sorriso desdenhoso se ela, pelo choque que sua reação provocou, não houvesse
desviado o olhar.
Enquanto isso, o rei
cristão dava relutantemente as boas-vindas aos convidados estrangeiros,
fingindo confiança e despreocupação a fim de tranquilizar a corte ansiosa. Era
preciso atuar bem, e ocupar o mais alto cargo do reino requisitava ser
excelente ator. Louis reconhecia isso e fazia com tamanha convicção que,
conforme conversava com Reginald despretensiosamente, aos poucos os nobres
retomavam suas posições na corte. Entretanto, pairava silenciosamente sobre
cada um deles a pergunta que ninguém ousava verbalizar: que seria deles? Que
seria dos dinamarqueses?
--Fique conosco,
Helena—ordenou sir Charles—Não deveríamos ter vindo.
Sempre altiva, lady
Bertha retrucou:
--E como saberíamos
disto? Não houve nenhum ataque destas criaturas deste outrora no governo de meu
pai, e sabemos todos que ele os expulsou com maestria.
Helena, por outro lado,
estava ignorante às discussões trocadas pelos pais. Ouvia, ao contrário, os
comentários trocados pelas damas de companhia que diziam:
--Se não fossem selvagens
e embrutecidos, os tomaria como belos e ousaria mesmo que fosse por eles
cortejada.
Quis a princesa rir, mas
isto chegou aos ouvidos de sua mãe que lançou um duro olhar à Adèle, que, tendo
percebido, prontamente se aquietou. Mas a jovem continuou a fitar o belo
Reginald de longe e dentro de si algo a fazia se perguntar se eram realmente
feras aqueles dinamarqueses. Discretamente, repousava seu olhar a cada
movimento que Reginald fazia, seu coração desejoso de poder ouvir mais o que
ele dizia tão animadamente com seu régio tio.
Clothilde, tomando nota
do interesse de sua senhora, aproximou-se e discretamente sussurrou-lhe o
ouvido:
--Senhora, não posso crer
que um homem como aquele, de todos os que porventura tomou como parceiro de
dança até então, foi o que capturou seu coração.
Helena ruborizou e,
desviando o olhar, retrucou em protesto:
--Claro que não,
Clothilde! Mas que besteira fazer tal assumpção de mim.
No entanto, Clothilde era
a mais próxima de si em personalidade e pensamento, embora fosse mais livre do
que Helena por questões sociais, já que enquanto uma era princesa de sangue a
outra era apenas descendente ilegítima de Carlos Magno. Não obstante, eram
almas afins e se entendiam mutuamente. Por isso, Clothilde tomou a liberdade de
insistir no assunto:
--Se o faço é porque a
conheço deveras bem, senhora. Conheço-a o suficiente para fazer tal suposição.
Acaso aquele homem não a ofereceria uma passagem para a liberdade que sonha?
Uma possibilidade que nem seus pais nem outros senhores com quem dançou puderam
ofertar?
Helena mordeu o lábio e
entrelaçou os dedos das mãos a fim de posar-se de régia e distante para ocultar
a tempestade que recaía sobre o espírito que despertava.
--Sou assim tão óbvia?
—lamentou-se.
Clothilde sorriu
compreensiva.
--Muito pelo contrário,
senhora. Apenas para aqueles que ousam conhecer seu espírito como eu e Adèle,
pelo que somos muito gratas.
Helena desejava abraçar
sua querida amiga naquele instante, mas não pôde. A corte seguia rígidos
protocolos, que, na opinião dela, eram desprovidos de qualquer significância.
Mas seu pensamento não se demorou muito em tais questões porque, outra vez, seu
olhar foi atraído para a imponente figura de Reginald.
Havia um tablado maior
onde uma longa mesa retangular estava posta. Comida e vinho eram servidos
enquanto o rei, um homem alto e franzino de olhos azuis penetrantes, tomava seu
lugar de costume ao lado do dinamarquês. Ao lado esquerdo do rei, com
expressões não muito agradáveis ao rosto, estava a esposa e o herdeiro do
trono, seu filho. Quanto aos companheiros de Reginald, eles surpreendiam a
corte por se portarem bem. Acoplaram-se em um canto e não incomodaram ninguém.
Assim, com a permissão do rei, que sussurrava ao lado do viking, os músicos
voltaram a exercer sua função e a doce melodia que saía em animado ritmo de
seus talentosos dedos tirou do estupor os cortesões perplexos.
Readequando-se com este
novo ritmo que a corte ditava, lady Bertha recobrou o orgulho e, decidida a
fingir que o viking não era perigoso como tampouco estava presente, instigou a
filha a retomar a dança com um dos filhos de um senhor da Frankia oriental. Mas
Helena só tinha olhos para Reginald que, quando ela se distraía, também a havia
notado. E provavelmente era dela de que falava com o rei, que começou a
perceber que se entregasse uma princesa de sangue junto com terras ao norte
para aquele homem... Nem tudo estaria perdido!
Ignorante quanto aos planos
tecidos pelo destino, Helena murmurou finalmente sua frustração com as damas
que mais confiava, as irmãs que Deus lhe concedera, já que seus irmãos eram
rapazes ocupados demais para lhe prestar atenção.
--Não desejo fazer parte
deste jogo. Cansei!
--Imagino que seja
frustrante, senhora—disse Adèle, compreensiva—Mas veja, ao menos este que vem
falar parece ter modos.
As três não puderam
evitar trocar risinhos, ao que foram silenciadas com o olhar duro direcionado a
elas por lady Bertha. Controlando seu mal humor, Helena novamente entrou no
papel a que por muito tempo se acostumou a interpretar: a de submissa obediente
filha.
Arqueou os ombros,
levantou a cabeça e mirou seu olhar naquele que vinha arrogantemente pedir para
ter-lhe uma dança. Seu nome era Philippe e ele vinha de uma região chamada
Artois. Era alto—embora, segundo a comparação de Helena, fosse mais baixo que Reginald—e
vestia-se adequadamente para a posição de filho de um senhor ducal. Não era
particularmente belo aos seus olhos, que já se encantaram pela beleza exótica
do dinamarquês. Mas que se cessassem as comparações, ela determinou a si mesma.
Precisava cumprir com seu dever.
Assim, ela cedeu a mão ao
homem que a levou para o centro da corte. No entanto, conforme a música deu
início, sem que outros observadores pudessem tomar nota, foi aqui que a
princesa encontrou a ousadia de levantar o olhar para prender o daquele que ela
ansiava fazer sua vítima.
Seu coração batia
descompassadamente enquanto o encarava como se o desafiasse em silêncio. Foram
poucos segundos de fato, mas o suficiente para provocar admiração em Reginald.
Este, por sua vez, havia se acostumado com mulheres livres, orgulhosas e
teimosas, mas nenhuma delas evocava tal fascínio de Freyja como aquela cujo
nome logo soube ser Helena.
Reginald sentiu sua alma
estremecer, deixando-o assombrado por desconhecer a causa disto tudo. Ora,
sabia que em parte havia luxúria, pois como não perceber a volúpia do corpo que
bailava sob aquele vestido azul veludo? Mas havia outra...Era como se sua alma
houvesse descoberto a metade que lhe faltava.
Louis, como o astuto que
era, quase sorriu consigo mesmo. Pouco importava o que de fato se passava entre
sua sobrinha e o dinamarquês ao seu lado, mas a cena lhe aprouve. Por isso,
disse:
--Ah, vejo que se
encantou com aquela dama. O que pensa dela?
Reginald tornou a olhar
para o rei e, sem esconder a empolgação em seus olhos, o respondeu:
--Que ela é a mais bela
de todas as criaturas que vi em minha existência. Que pode me dizer sobre ela?
O dinamarquês sabia por
cada olhar que suas almas se comunicavam. Ela
me chama para dançar, me desafia a fazê-lo. Talvez deveria.
--Seu nome é Helena—disse
o rei—Ela é minha sobrinha, uma princesa de sangue deste reino. Vejo que ela se
interessou por você.
--Tenho a permissão de
cortejá-la?—ouviu-se o viking indagar, já que nunca antes fizera isto.
Usualmente, um olhar e ele já levava a mulher desejada para a cama. Mas
agora... Tudo, abruptamente, havia mudado.
--Concedo-a desde que
ouça minha proposta—disse o rei ambicioso.
Reginald arqueou uma
sobrancelha em questionamento. Louis prosseguiu:
--Se eu a oferecer em
casamento junto a um punhado de terras ao norte de meu reino, nos deixará em
paz e nos defenderá contra seu povo?
O viking coçou a barba
por um pequeno instante, o suficiente para preocupar o rei. Que ele não fosse tolo de repensar tal proposta!
--Qual é a quantia de
ouro que me oferece?
Uma vez exposto o valor, as
duas partes acordaram secretamente o que deveria se valer a partir do dia
seguinte. Mas, por ora, Reginald não pensava em casamento ou terras, apenas em
dançar com aquela dama. Para o espanto de todos, ele se levantou da mesa e foi
na direção de Helena. Os sussurros eram evidentes e a mãe desta, Bertha,
prontificou-se a protestar ao lado do esposo, mas um aviso silencioso do rei os
impediu de tomarem a filha para si.
--Senhora—ele se
aproximou de Helena, afinal—cá estou.
O grande salão foi
silenciado por breves segundos. Em outras circunstâncias, Helena teria
detestado aquela atenção, os olhos de pessoas arrogantes e vãs sobre si como se
a julgassem pelo que não fizera. Mas nada disso importava porquanto estava,
diante de si, Reginald e seus penetrantes olhos azuis. A princesa mal conseguia
respirar, pois pairava sobre ambos um magnetismo muito forte que,
suspeitava-se, nem mesmo Deus poderia separar.
Reginald lhe deu um meio
sorriso e falou:
--Não me convidou para a
dança? Não me desafiou a fazê-lo?
Ele
gostou quando Helena ruborizou, embora não desviasse o olhar.
--Ora,
o senhor é mais esperto do que pensei—ela fingiu hesitar em entregar-lhe a
mão—Acaso um selvagem como o senhor saberia dançar?
O
dinamarquês riu.
--Vamos
brincar de orgulho agora?
Nem
quando o rei, impaciente, bateu as palmas e deu suas ordens para que os músicos
tocassem seus instrumentos, eles cessaram a intensa troca de olhares.
--Sua
presença evoca soberba, senhor. Não pode me censurar por fazer o mesmo.
--Não
nego sua percepção, como filho de Odin, preciso sê-lo—disse ele, divertido.
--Filho
de Odin—repetiu Helena, intrigada—Por que seu pai não está aqui?
--Ele
é o pai de Todos—explicou o viking—Está aonde quer que esteja. É o deus que
cultuamos. Não é como o seu deus crucificado—acrescentou, desdenhoso—Morreu
pela sabedoria e cumpre punir aqueles que não a utilizam adequadamente. Mas nos
salva quando morremos corajosamente na batalha.
Helena
sequer notou que dançava com ele em perfeito ritmo quando respondeu:
--Ah,
compreendo por que o chamam de pagão. Mas—e aqui ela arqueou as
sobrancelhas—nosso deus crucificado prega a humildade e o amor ao próximo, a
caridade e o perdão. Ama a todos sem distinção e sem esperar nada em troca. Não
é belo?
--Estou intrigado com
essa concepção—admitiu Reginald—mas por que amar a todos sem esperar nada em
troca? E como perdoar seus algozes? É ridículo.
--Poderia perdoá-lo por
tentar assaltar meu povo—disse Helena, docemente, o que o fez sorrir e ela
decidiu que gostava de seu sorriso—E de que adianta amar alguém esperando algo
em retorno? Não é este o propósito do amor.
--Creio que temos concepções
diferentes do amor—retrucou Reginald—De todo modo, não vim assaltar seu povo.
--Não? E por que inspira
medo aonde quer que vá? —e ela acrescentou—Não é melhor ser amado que temido?
--A senhora me coloca
demasiadas questões para pensar—o dinamarquês fingiu reclamar—Isso a faz
intrigante.
O rosto de Helena se
iluminou diante deste elogio. Ouvia constantemente que era bela, e seu nome
rendia incontáveis comparações com Helena de Tróia, mas saber que era
intrigante e inteligente era muito mais do que um dia sonhou ouvir. E isto
deixou Reginald bastante satisfeito. Imaginou-se passando toda uma vida com
aquela jovem sorrindo alegremente e isso inundou sua alma de incontáveis
felicidades até então desconhecidas.
--Obrigada—disse,
afinal—O senhor também me inspira crer que possui um coração bom. Há salvação
mesmo para os pagãos.
Ele riu.
--Vindo da senhora, tomo
como elogio a balsama para meu coração.
Mas a conversa foi
interrompida no instante em que a música cessou e os pais vieram tirar-lhe da
presença de tal bruto homem. Reginald observou a tristeza apagar a luz de
Helena, e constatou com irritação que ela aceitava facilmente ser dominada
pelos pais sem esquivar-se de tamanha dureza. Um de seus amigos, um homem
chamado Rollo, disse:
--Por que não a resgata
para si?
--Não há necessidade
disso, meu caro. Amanhã a desposarei. O rei me deu sua palavra—e dizer isto em
voz alta o reconfortou.
Como prometido, o rei
anunciou no dia seguinte que, a fim de estabelecer a paz com os dinamarqueses,
cederia Lille para os mesmos, dando a Reginald o título de conde. A isto,
acrescentou que era de sua vontade reforçar os laços com este povo a fim de
defender seu reino contra os vikings. Para tal, ofereceu a mão de sua bela
sobrinha, a princesa Helena, no intuito de solidificar a aliança entre os
povos.
Naturalmente, desta
decisão resultou protestos da parte dos pais dela... e dos pretendentes que se
achavam muito mais superiores do que aquele sujeito para ser esposo da mais
formosa dama do reino. Mas nada mudaria a ideia do rei e Helena rezou
fervorosamente para que Deus estivesse ao seu lado. Afinal, sempre cumpriu com
os deveres familiares sem pestanejar, mas que, ainda que Reginald fosse pagão,
acreditava no bem que existia nele e cabia a ela transformá-lo por completo.
Ademais, rezava a princesa, sentia que o amava como nunca poderia amar aqueles
que seus pais desejavam arranjar para que fosse desposada.
O Pai Maior pareceu ouvir
suas preces e em menos de três dias desde o anúncio do rei, Reginald se
converteu à fé cristã e tomou como esposa a princesa Helena. As celebrações,
para a infelicidade da família desta, ocorreram ostentosamente e ficou decidido
que a consumação se realizaria antes que o novo casal partisse para suas
terras.
--Como está se sentindo,
senhora condessa?—indagou Adèle, empolgada. Estavam nos aposentos designados
pelo rei para o casal e, enquanto o marido não chegava, as damas se
certificavam de cuidar da princesa sob o atento olhar da desapontada mãe.
Helena usava um camisolão de linho e seus cabelos dourados repousavam soltos,
caindo na cintura. Um sorriso brincava em seus lábios.
--Não poderia estar mais
feliz, Adèle—e, virando-se para a mãe, disse—Por favor, mamãe, não se
entristeça. Ele é um bom homem.
--Só saberá disso
convivendo com ele—resmungou lady Bertha, rancorosa—Mas se você está
contente... Ah, filha! Como neta de grandes reis do passado, merecia um posto
maior. De rainha, quem sabe!
Helena se aproximou da
mãe, tomou as mãos nas dela e disse:
--Mamãe, que importam
títulos diante da felicidade? Se não fosse a vontade de Deus, creio que nossas
preocupações teriam fundamento. Mas não é o caso. Crê em mim quando digo que
estou feliz e serei tão devota quanto me ensinou.
Emocionada genuinamente
por aquelas palavras, lady Bertha enfim aquiesceu. Depositou dois beijos nas
faces de Helena e, quando a porta se abriu para que seu genro entrasse, ela
suspirou e disse:
--Que Deus a proteja,
filha.
--Amém, senhora mãe.
E dito isso, lady Bertha
saiu acompanhada das risonhas Adèle e Clothilde. Foram, porém, substituídas por
um padre em trajes ricos—indicando ser, na verdade, um arcebispo—e o rei, que
veio em pessoa dar bênção ao novo casal. Independentemente das motivações por
trás daquela decisão, Helena lhe era profundamente grata.
Enfim, virou-se para o
marido que a espreitava. Um rubor queimou seu rosto ao vê-lo utilizando um
camisolão relativamente mais curto que o dela, e que logo ele fez questão de
remover, deixando o corpo forte e com estranhas tatuagens à mostra.
--Senhora—ele a cumprimentou
feliz, deitando-se na cama—Venha—pediu, gentilmente.
Tímida diante daquelas
testemunhas, Helena não o respondeu de imediato. Assentiu e sentou-se ao lado
dele. O padre fez uma oração e jogou em ambos água benta antes de fechar as
cortinas em torno da cama de ambos. Afinal à sós, Reginald, ciente de que sua
esposa estava intocada, perguntou gentilmente:
--Creio que a senhora se
guardou para este momento?
Helena assentiu,
envergonhada. Reginald disse:
--Compreendo. Não há
necessidade de se assustar, garanto que não a forçarei a nada que não queira.
Podemos só...—sem saber o que dizer, deixou as palavras se evaporarem no ar.
Para a surpresa de ambos,
Helena se aproximou ainda mais dele e colocou uma mão ao redor do rosto dele,
fazendo com que ele a encarasse nos olhos. O momento parecia magnetizar-se
ainda mais, como um reencontro de almas.
--Eu confio em você,
Reginald. E desejo consumar nosso casamento hoje. Apenas peço paciência ao
tratar comigo.
Reginald sorriu e
respondeu com um leve beijo sobre lábios tão doces quanto o mel. Sua presença o
inspirava uma paz que por muitos anos buscou e, por estranho que fosse, apenas
recentemente encontrou. Talvez devesse agradecer a este novo deus crucificado,
mas seu coração o repelia, relembrando-o da bondosa deusa Freyja ao invés
disto.
De todo modo, nenhum
pensamento colocava-se entre ambos mais quando o suave beijo se aprofundou.
Reginald era paciente e sempre o seria com ela, o amor de seu coração. E como
se dois fossem um, ele adivinhou seus próximos movimentos, suas sensações e se
antecipou. Ajudou-a remover o camisolão, justificando que ansiava em vê-la como
é e sem medo algum, Helena despiu-se também de seus medos infundados.
Naquela noite,
entregou-se uma, duas, incontáveis vezes. Amaram como duas almas predestinadas
se amariam. Não se tratava apenas da combustão da carne, mas do amor além de
concepções vazias e limitadas. Não era somente a luxúria, era o reflexo de um
sentimento transcendental.
--Espero ter concebido
hoje—confidenciou-o Helena ao final do ato. O sol começava a nascer, mas ela se
sentia tão desperta quanto antes.
Reginald a puxou para si,
beijando-as faces e sentindo um deleite que lhe era desconhecido até então.
Dias curtos que porventura pareciam séculos tal era o reencontro destas almas
gêmeas.
--Tenho certeza de que
será uma excelente mãe para a prole que teremos—ele nunca havia imaginado ser
pai, mas uma nova realidade despontava no horizonte que o fez considerar
aposentar a espada.
Helena riu. Era uma
liberdade estranha, embora para tantas de sua posição tal percepção não se
encaixasse na ideia de casamento. Mas aquela noite seria a primeira de várias e
ela tinha certeza de que, com ele, seria livre.
--E você, um pai
admirável.... Desde que não o nomeie em honra aos velhos deuses.
Embora a princesa
possuísse uma mente menos preconceituosa em comparação aos seus contemporâneos,
nem por isso deixaria de ser um produto de seu tempo. Mas Reginald não lhe deu
importância. Riu em vez de dar uma resposta pronta e aninhou contra si. Não
pretendia pensar no dia seguinte tão cedo. E assim, o casal adormeceu.
A vida em Lille para o
conde e a condessa seria tranquila por um breve período de tempo. A princesa, é
claro, rapidamente se adequou à tarefa de esposa que lhe era esperado. Reginald
não cessava em ser surpreendido pela infinita bondade com o qual era tratado,
mesmo quando, em seus dias ruins, exagerava na bebida ou se por descuido não
era gentil em palavras. Embora fosse possível entrever o temperamento que
Helena também tinha, prevalecia ainda mais a bondade de seu coração e o amor
que um sentia pelo outro.
Ainda assim, a realidade
longe de ser uma marionete dos pais provava ser a liberdade sonhada por Helena
que ela ainda não acreditava ter obtido. Em uma das noites passadas nos
aposentos do casal, ela confessou a Reginald que a vida junto ao esposo lhe
parecia uma doce ilusão.
--Mas por que? —quis
saber o dinamarquês, curioso, enquanto alimentava a lareira para que dormissem
aquecidos naquela noite fria de inverno.
--Porque me acostumei a
ter minha vida ser conduzida nas mãos de outras pessoas—disse ela—Amo meus
pais, e a eles sou muito grata, mas sentia que se não agisse segundo suas
vontades, os desagradaria e, bem, não é isso que eu gostaria.
Aquele assunto suscitava
inseguranças que Helena fingia não ver, despertando sensibilidades que ela se
envergonhava possuir. Mas Reginald a conhecia bem, e mesmo com pouco tempo de
convivência, reconhecia todos seus humores. Ele se colocou ao lado dela, abraçou-a
contra o peito e disse:
--Sei que isto é difícil.
Tivemos criações diferentes, vejo agora. De onde vim, somos mais soltos,
acreditamos que o destino está solto e entregamos às vontades dos deuses.
Escrevemos nossos caminhos, de fato, mas há algo maior que nos rege. E não há
nada de errado com a sua educação, em como foi instruída para a vida. Ao
contrário, é o que a faz ser quem é.
Helena olhou para o rosto
do marido, cujo olhar se derramou no seu. Uma lágrima descia do azul de suas
írises, mas de felicidade que a movia. Ela sorriu.
--Amo-o, esposo.
Reginald sorriu para
aquela que a tinha em seus braços.
--Amo-a, esposa.
E foi nesta noite que
conceberam seu primeiro filho.
A paz a que conheceram
por dois anos, porém, não duraria muito mais tempo. Era do temperamento de
Reginald deslocar-se sem fixar residência, combatendo inimigos, saqueando
desconhecidos e enriquecendo-se segundo a vontade divina. Embora a felicidade
doméstica o acalmasse, infelizmente ainda prevalecia nele os instintos
primitivos. Admirava na esposa a fé em seu Deus, o comportamento benevolente e
até mesmo os rompantes de raiva que surgiam quando as diferenças de
personalidade resultavam em discussões. Como de costume, todavia, prevalecia o
amor.
Do aborto espontâneo que
se sucedeu à concepção do primeiro infante, sucederam, porém, três crianças
sadias a quem chamaram: Helga, Clóvis e Hugh. No entanto, Clóvis partiu da vida
para o plano espiritual com idade tenra de dois anos, desolando a bondosa
princesa. O marido, por sua vez, não sabendo lidar com a perda, preferiu partir
em expedição.
--Por favor, volte—ela o
pediu, impelida por um pressentimento que não saberia explicar.—Não sei se fiz
algo para desagradá-lo, e desde já peço perdão por...
--Não diga mais
nada—Reginald a interrompeu, sem pretender ser grosseiro—Não é culpa sua,
esposa amada. Prometo que regressarei a casa, é só que...
--A vida aqui é tranquila
demais para você—compreendeu ela com um sorriso triste de partir o coração—Mas
voltará?
Reginald sentia-se
culpado, tomado por remorso por deixá-la assim. Beijou-a apaixonadamente, e no
crepúsculo deste dia fizeram amor. Mas precisava de um tempo para si. Assim,
ele partiu.
Mas voltaria com o tempo
depois de fazer parte dos vikings que assolaram Dublin e outras partes mais da
Irlanda. É verdade que muitas das vezes foi tentado por várias mulheres, mas
ele só conseguia ter pensamento para a bela Helena. No verão seguinte, esteve
de volta a Lille e foi recebido com tanto amor pela esposa que, outra vez, o
remorso o culpou por deixá-la só.
Helena, apesar da
melancolia que crescia em seu peito como resultado da insegurança que a
assombrava de vez em quando, encontrou conforto na tarefa da maternidade e
mesmo que Hugh tenha sido muito temperamento, conseguiu educá-lo seguindo os
princípios cristãos. Foi com os filhos que ela se dedicou, tendo observado
poucos eventos sociais desde que Reginald havia ido à Irlanda. De suas damas
leais, apenas Clothilde optou por acompanhá-la e, mesmo tendo recusado se casar
para servir a sua senhora e amiga, eventualmente se apaixonou por um dos homens
de Reginald. Com a bênção de ambos, estabeleceram família por perto da
residência real de Helena e Reginald mesmo com os protestos da condessa de que
poderiam residir em conjunto no enorme castelo de pedra.
Mas agora Reginald estava
em casa e nada mais importava para a nobre Helena.
--Perdoe-me pela minha
ausência.
--Não há o que perdoar,
meu marido. Você voltou, está aqui, é o que importa.
Para sua surpresa, o
esposo se mostrou comovido.
--Não mereço seu amor e
sua piedade, minha senhora.
--Meu coração e minha
alma são suas, amado meu. Nada mais importa.
E como se para provar o
que dizia, beijou-o nos lábios com ternura. Naquela noite, consumaram mais uma
vez o amor que os reunia e a paz doméstica se fixou por um tempo. Apesar das
inquietações que o afligia, resultados de uma vida passada em devassidão antes
do casamento, Reginald esforçou-se em pôr fim nelas. Devotou-se à Helena e aos
filhos, alegrando-se ao ver o nascimento de outro menino a quem chamaram de
Louis em homenagem ao rei, que foi padrinho de batismo da criança.
No entanto, um
pressentimento ruim tomou conta de Reginald. Em uma de suas últimas noites
naquele plano, ele teve um alerta da deusa Freyja, que vinha-o protegendo.
Assim ela o havia informado:
--Nobre senhor, venho o
observado e protegido nestes anos de sua vida. Apesar dos excessos, tem se
esforçado para limpar-se das feridas da alma por você mesmo causadas. E por
melhores que tenham suas intenções, está na hora de voltar a Valhalla. Ou, se
assim o desejar, a vir comigo em meus salões.
--Nobilíssima deusa—disse
o muito chocado dinamarquês—não sou merecedor de sua presença ilustre, e por
isto agradeço. Mas que quer dizer com isto? Temo não compreender sua mensagem.
A bela mulher envolta em
luz prateada sorriu e disse:
--No momento certo,
recordará do que disse e tudo estará bem.
Mas no dia seguinte,
quando despertou antes do nascer do sol, observou sua esposa dormir aninhada
contra seus braços e lágrimas verteram de seus olhos. Entendeu de imediato que
não a veria novamente. Sentiu que falhara com aquela bondosa alma, mas como se
redimir? Acariciou gentilmente seu rosto, sentindo maciez de pele contra a
rigidez de sua mão. Observou seu corpo, notando sinais de gravidez e seu
coração somente se partia. Deveria ir antes que ela acordasse, sabendo ele que
a morte se aproximava. Mas faltou coragem a este viking.
--Amo-a, cara esposa.
Helena, amo-a com todo meu ser.
E, dizendo isso, beijou-a
na testa. Fechou os olhos e, abraçando-a protetoramente, voltou a dormir.
Vikings da Noruega
tentaram engraçar-se com os francos, mas, na graça de Deus, falharam. Quando
Reginald preparava-se para a batalha, porém, mesmo Helena soube que aquela
seria a última vez que o veria.
--Reze por mim como tem
rezado—ele pediu.
Helena engoliu as
lágrimas.
--Minhas preces são para
você, meu amado marido. Volte a mim, é o que peço.
--Voltarei com a graça de
Odin e seu Deus crucificado—ele ficou feliz de tê-la feito sorrir em meio a
despedida.
--Não se esqueça de que o
amo—ela implorou, falando com tal intensidade como se temesse perdê-lo—Não vá,
por favor. Deixe que seus homens cuidem disto. Não precisa ir, meu senhor.
--Ah, minha cara senhora!
Mas eles precisam de alguém que os lidere frente a inimigos de nossa terra
passada—disse Reginald, resignado com o destino. Já montado em seu cavalo,
havia se despedido dos filhos e, a muito custo, agora se separava de devota
esposa—Não posso faltar com meu dever. Garanto que voltarei no crepúsculo deste
mesmo dia. Guarda em seu coração meu amor e minha estima.
--E o senhor, não esqueça
de que há uma dama de que o espera!—exclamou Helena.
Assim, os dois se
separaram para nunca mais se verem em vida. A vitória para os francos custou
caro a vida de Reginald e a pobre Helena não se recuperaria desta notícia.
Em meio aos salões de
pedra do castelo de Lille, Helena brincava com os filhos quando surgiram dois
dos homens de Reginald. Diante da expressão que pesava seus rostos, ela
dispensou as crianças para o cuidado de Clothilde, amiga antiga que,
pressentindo a pesada nuvem que em breve pairaria sobre tão leal e nobre
mulher, havia chegado apenas no dia anterior.
--Diga-me—pediu Helena, a
voz tremendo a cada passo que dava para receber aqueles homens.
Naquele salão, ela
cultivava uma pequena corte. Havia músicos e padres, e até mesmo bardos eram
recebidos por ela. Mas nada disso importava quando Rollo a informou a respeito
da morte heroica de Reginald.
O mundo pareceu ter
congelado diante de tais notícias. Helena sentiu um arrepio percorrer o corpo,
os olhos vertendo de lágrimas antes de ouvir o que seu coração já sabia, que
sua alma pressentia. O lugar ficou frio de imediato e a cor da vida se
esvaneceu de Helena.
Empalideceu-se, e os
homens pensou que fosse enfraquejar-se. De fato, perdeu as forças dos joelhos e
eles a socorreram antes que tocasse o chão. Alguns dos presentes, mesmo os
empregados, vinham socorrê-la e não foi se não quando gritou de dor. De
desespero. Mais uma vez, mais uma vida separava-se de seu amado, daquele que Deus
designou ser gêmea de sua alma.
Acudiam-na, os padres
tentavam trazê-la de volta à razão, mas ela sucumbia ao tormento das emoções
que Reginald um dia equilibrou. E, para desespero dele que tudo sentia do outro
lado, nada podia fazer para acalmá-la. Ela precisava passar por isso, foi o que
lhe disseram.
Helena pranteava de tal
maneira que seu corpo tremia. Memórias de tantos momentos passados juntos a
impediam de se recompor. Talvez nem mesmo quisesse. Como viver longe daquele
que amava tanto? O cenário lhe era devastador, um futuro sem perspectivas. Foi
preciso que se escrevesse a mãe. A única que lhe competiu recordá-la das
tarefas que requisitavam de sua atenção.
--Seus filhos precisam da
mãe. Guarde o luto com você, em seus momentos privados.
--Estou cansada de jogar
conforme estas malditas regras que a nobreza criou!—gritou Helena, em terrível
manifestação de coração partido—Por que cabe a mim resguardar-me depois que
amado meu se foi? Por que Deus pensa ter sido justo tê-lo tirado de mim? Não
tenho pretensões em viver. Oh, não! Não sem Reginald!
Ele também chorava ao
vê-la daquela maneira. Mas, à noite, enquanto repousava o corpo, visitou o
espírito.
--Minha amada Helena. Por
que entregar-se a dor desta maneira?—ele acariciava suas longas madeixas—Por
que? Ela agora a apreende ao corpo e não podemos nos reencontrar. Está tudo
bem, crê em mim que tinha sido necessário o que se foi. Sei que me ama, mas
precisa me deixar partir. Nós nos veremos de novo conforme seja a vontade de
Deus.
No dia seguinte, como se
inspirada por atuação de Deus, Helena recobrou o juízo antes que fosse tarde
demais. A mãe se alegrou ao ver que não havia mais necessidade de interferir em
questões domésticas, mas o luto para sempre afetaria a pobre princesa.
Embora fosse uma mãe
presente e devota, uma presença constante na educação dos filhos e em suas
vidas, ela não se casaria mais. Alimentou uma vida reclusa e, de vez em quando,
pranteava antes de dormir. Rezava pelo amado que perdeu. Mas havia libertado
Reginald de seus laços pendentes, apesar da erraticidade que ele permaneceria
como resultado de seus atos na Terra.
No entanto, não era mais
a mesma. Veria Hugh crescer na nobreza e despontar na riqueza, tecendo
casamentos apropriados para sua riqueza. Concomitantemente, Helga também se
casou por amor e de seus descendentes conta-se estar a celebrada rainha Eleanor
d’Aquitaine."
Nota de Ogum: "Embora seja um conto demasiadamente longo, ele fora ditado previamente com o propósito de esclarecimento para a médium, levando-se em conta que aqui está presente um resgate para as duas partes. A princípio, foi recomendado, por este motivo, para que não lhe fosse divulgado até que disto uma lição fosse apreendida. Uma vez que assim se deu, o Pai Maior concedeu que tal fosse exposto a público, pois aqui também, como nas memórias psicografas previamente, cabem lições valorosas para os leitores dedicados a extraí-las e refleti-las. Por isso deixo esta nota ao final, e não como de costume no começo, pois desejo estimular em vós o exercício crítico da questão que esta entidade vos trouxe. Optei por não colocar aqui a mensagem que este bondoso espírito, encaminhado para a equipe de regeneração do "Nosso Lar", passou à médium pelas particularidades que envolve os dois. No mais, deixo cá meus agradecimentos aos leitores e aos trabalhos da parte do psicografado e daquela que o psicografou."
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