segunda-feira, 20 de julho de 2020

Crepúsculo dos Deuses

"Helena era a mais bela dama de toda a Frankia. Nascida na mais alta classe da aristocracia, foi a segunda de três crianças de Charles e Bertha. Esta, por sua vez, era a irmã de um rei chamado Louis. Portanto, Helena fazia parte da realeza e seu tio régio guardava planos grandiosos para esta princesa de seu sangue.
Desconhecendo o futuro que lhe aguardava, porém, Helena seguia uma rotina bastante estrita imposta pela mãe: cedo, às 7h da manhã, ela despertava e às 8h ela assistia a missa junto aos pais, os dois irmãos e, ocasionalmente, na presença do rei e da rainha. Em seguida, quebrava o desjejum e logo dava início às lições apropriadas a de uma moça de sua posição. Costura, instrução nas artes religiosas (curiosamente, a mãe de Helena convenceu seu pai de que ela deveria saber ler para que pudesse exercer esta faculdade teológica), em particular das sagradas escrituras, dança, música e, claro, línguas. Sob a supervisão de sua atenta mãe, Helena era educada por três tutores: o responsável pela sua educação religiosa cabia a um monge chamado Johanne; aquele pela música e dança era um cortesão segundo a escolha do rei e uma dama de companhia da mãe foi escolhida para instruir Helena nas artes domésticas.
Apesar deste cenário agradável, Helena, embora impecavelmente obediente e cristã em todas as suas atitudes e pensamentos, sentia-se inexplicavelmente presa e com tal anseio pela liberdade que acreditava ser incapaz de expressá-lo em voz alta. E ainda que o fizesse, seria incompreendida.
Havia dias nos quais a melancolia tomava conta de seu espírito. Como sua mãe não a permitia sair sem sua companhia, Helena passava muitas das horas livres dentro do castelo, ora na biblioteca, pra em seus aposentos privados tocando o alaúde. Para os que desconheciam sua frustração interna, a vontade de conhecer o exterior, o cenário de uma natureza livre e destemida que se apresentava ao lado de fora, Helena era pura e quase uma santa. Uma vez o pai mesmo sugeriu colocá-la no convento. E foi a única vez em que surpreendeu os pais ao protestar veemente sua vontade.
--Não! Não irei ao convento, não serei enclausurada mais uma vez.
--Mas o que é isso, filha? Servir a Cristo não é prender-se ao vazio--contestou-a o pai, estarrecido por aquela reação e prontificado a dar-lhe um sermão quando a esposa o interrompeu, capturando a essência dos pensamentos da filha.
--Creio que ela tenha querido dizer que seu dever descansa no tradicional papel a que venho educando-a, marido. Para que seja a esposa devota de um consorte merecedor.
Fingindo ser esta a questão, Helena, com um meneio de cabeça, concordou prontamente. O pai muito se aliviou e trouxe à mesa com peculiar animação os possíveis nomes dos pretendentes de sua única filha. Embora sair do domínio dos pais fosse um sonho para a adorável princesa, ela reconhecia que o casamento só representava a liberdade no campo das ideias. Afinal, sua mãe nunca cessava de agarrar uma oportunidade para lembrá-la de obedecer, aquiescer e ser humilde àquele que a esposará perante Deus.
Sendo assim, poderia ela ser livre um dia ou permaneceria como um mero peão segundo a vontade parental? Apesar desta frustração interna sem quaisquer motivações aparentes, Helena reconhecia que sua vida não era de todo ruim e que havia privilégios dos quais poderia desfrutar. Um deles era poder dançar na corte de seu tio quando o rei convidava a família de sua nobre irmã para uma visita. Uma vez em Paris, Helena acompanhou suas primas em vários passeios pelos longos jardins que enfeitavam a residência régia.
E mesmo dentro do longo castelo de pedras onde morava, havia músicos que, para seu deleite, habilidosamente dedilhavam os alaúdes para alegrar seu espírito quaisquer que fossem as circunstâncias. Com suas duas damas de companhia, Clothilde e Adèle, amigas de infância que permaneceram ocupando esta posição mesmo depois do acordo feito pelas mães destas com lady Bertha, mãe de Helena, não havia motivo para tristeza.
Assim foi a maior parte de sua vida. Agora, contudo, havia Helena atingido a idade adulta aos 16 anos, quando veio a sangrar pela primeira vez. Na ocasião, a senhora Bertha veio aos seus aposentos e, enquanto penteava os cabelos dourados da bela filha, disse:
--Seu tio, o rei Louis, pediu que fôssemos à corte e certificou-se de que soubéssemos de que pretende desposá-la com alguém de sua escolha. Não se esqueça de que agora já é uma mulher, Helena. Suas responsabilidades, portanto, são outras.
Helena bondosamente aquiesceu e viu, através do reflexo do espelho que pairava sobre a escrivaninha que ocupava uma pequena parte de seus aposentos, o orgulho brilhar nos olhos de sua mãe. Por algum motivo que não lhe coube descobrir, aquilo partiu seu coração, mas conformou-se como costumava fazê-lo. Murmurou um agradecimento e, tão logo seus cabelos foram trançados por lady Bertha, ela se achou só novamente.
Caminhou até as janelas de forma a fitar os campos verdes e o lago azul ao fundo no belo cenário que raríssimas foram as vezes em que o explorou. Invejou os camponeses que, sob seu atento olhar, caminhavam com uma alegria incomum a sua posição. Podia ouvi-los cantar e ela se indagou por que o faziam. Detectou a inveja corroer seu coração e, identificando-o como um pecado nocivo, decidiu que deveria rezar três vezes mais como penitência.
Na manhã seguinte, lady Bertha e seu esposo, acompanhados de Charles, Louis e Helena, junto a uma pequena comitiva, viajaram para a residência do rei Louis. Uma vez lá foram recebidos bem, ignorantes quanto a uma invasão dinamarquesa que operava ao mesmo tempo em que punham os pés no castelo do soberano dos francos. Neste meio tempo, saqueadores vikings sob a liderança de Reginald adentraram Paris no que não seria nem a primeira ou a última vez que isto ocorreria. Mas a população, como de costume, sofreria com seus atos, a maior parte da qual teve suas vidas ceifadas pelo aço da espada quando não foram findadas pelo machado que carregavam tais homens.
Se fogo e sangue manchavam Paris, no castelo de pedras que o rei piedoso fez questão de inaugurar, músicas alegres animavam o ambiente e os cortesões desfrutavam de seus privilégios a fim de exibirem suas riquezas, traduzidas em vestimentas cujos tecidos vinham de lugares como a Itália ou tão longe quanto o Mediterrâneo. Em seu traje azul veludo que lhe cobria as mangas, Helena se recusou a adornar-se mais do que exigia sua posição. Entretanto, adorava suas madeixas douradas, as quais deixou cair soltas pelas costas, certa de que assim a embelezava ainda mais. Nas orelhas, via-se brincos discretos de esmeralda e nas mãos, alguns dos anéis que adorava usar.
Ao entrar no grande salão do rei Louis, Helena, como seus pais esperavam, capturou a atenção de todos, posto que o azul veludo refletia a cor de seus olhos. Isto, no entanto, a assustou, desacostumada que estava com este tipo de bajulação. Na verdade, a sermos sinceros, ela não gostou nem um pouco disso. Contudo, como seus pais eram orgulhosos, pouco importava como a filha se sentia e, assim, prontificaram a pavonear a pobre Helena para atingir seus próprios fins.
Infeliz, Helena, há muito acostumada a jogar o jogo de lady Bertha e sir Charles, aquiesceu segundo as vontades de seus pais e forçou um sorriso a estampar seus belos lábios rosados para qualquer pretendente que fosse do agrado dos pais ou do rei. Dançou com cada um dos filhos dos nobres senhores presentes, embora desfrutasse pouca afeição ou quase nenhuma por aqueles seus parceiros. Eles tampouco inspiravam qualquer insígnia de respeito, a arrogância deixando claro que era apenas sua beleza que os importava. Mas Deus guarda os mais estranhos momentos para escrever certo em linhas tortas.
Assim sendo, em meio às felizes circunstâncias (se do ponto de vista do rei e de tantos outros presentes), o piedoso rei Louis foi interrompido pela chegada de um mensageiro esbaforido que o alertava sobre o avanço cruel dos dinamarqueses. Caiu-se um silêncio constrangedor e amedrontador sobre todos os convidados, e de repente sir Charles percebeu a desvantagem de ter uma filha tão bela como a pobre princesa Helena naquele castelo. Que Deus fosse misericordioso, ele rezava.
Mas Louis decidiu que era melhor incentivar manter as aparências do que dar espaço para o pânico roubar as atenções de todos. Assim, ele ordenou que os músicos tocassem e, ansioso, instigou que os cortesões dançassem, pois não havia nada a temer. Ao mesmo tempo, porém, ordenava que seus melhores soldados guardassem o castelo e enviou toda sua guarnição para impedir que os vikings atacassem.
Helena, embora ciente dos fatos, limitou-se a lamentar por ter pais tão descuidados. Não expressou seu descontentamento, já mestra nos fingimentos. Mas foi surpreendida pelos próprios pensamentos, imaginando se a morte lhe seria bem-vinda acaso os inimigos invadissem a todos. Talvez fosse melhor o martírio do que ser um coquete sob a vontade dos pais.
--Está muito quieta, Helena—pela primeira vez a mãe pareceu notar que sua filha era um ser humano possuidor de sentimentos e capacidade de raciocinar—O que a aflige?
--Nada—mentiu Helena, tão doce quanto seu coração.
Mas lady Bertha não se convenceu. Na realidade, pela primeira vez em muito tempo, se deu conta de que, por mais exemplar fosse o comportamento de sua amada filha, ela nunca lhe pareceu contente com a vida que tinha nem com as tramoias planejadas. Aquilo amaciou seu duro coração, mas que outra opção teria para ela? Princesas não tinham vozes, e lady Bertha disso sabia por experiência própria. Contudo, aquele não era o cenário mais favorável para dar abertura a uma mais sincera relação entre mãe e filha, dada a tensão que, como véu, recaía sobre os presentes.
--Não creio—rebateu a filha de outrora grande rei franco—Mas conversaremos sobre isto mais tarde. Seu tio não gostaria de vê-lhe tão apática.
Palavras inúteis, observou a mãe, pois, embora Helena lhe fosse obediente em tudo, em seu coração retumbava o silêncio e aquilo passou a lhe atormentar. Mas logo a menina se distraiu na companhia de suas damas e o assunto, por ora, foi esquecido.
No restante da noite, tudo pareceu estar ocorrendo bem, apesar dos fingimentos no geral. Até que, no dia seguinte, chegou a todos uma decisão que o rei Louis tomou e que passou a alimentar em seu íntimo até o findar desta história.
--Receberemos aqui—ele anunciou após a primeira missa da manhã, quando todos os convidados se reuniam no grande salão—Reginald de Skanderborg vem acompanhado de dois irmãos seus de Kattegat, além de alguns outros que o seguiram em empreitadas... não muito louváveis para o padrão cristão, é claro.
Louis limpou a garganta, e, como suspeitava, não obteve uma aprovação dos nobres presentes de que estariam em companhia dos vikings saqueadores.
--Eles vieram por ouro e terras—prosseguiu o rei, mais como ator do que como governante—Por isso os darei de bom grado. Em breve, chegarão aqui.
Mas foi em questão de duas horas que os vikings enfim chegaram à corte. Helena observou o líder deles, o homem que vinha a frente de um pequeno grupo, aproximar-se com confiança e sem temer o julgamento dos que depositavam seu olhar rígido e cristão sobre tais pagãos. Reginald, ela notou, era alto e forte. Seus cabelos, curtos e raspados ao lado, eram tão louros que se confundiam com o prateado. Os olhos eram azuis como o céu, e ela se surpreendeu ao admirar-se quão profundos pareciam ser. Apesar das cicatrizes de batalha que marcavam o rosto, no qual também se via uma crescente barba loura-prateada, Reginald era belo.
Suas vestes indicavam que não era tão pobre quanto se poderia assumir. De porte de uma cota de malha, suas vestes negras cobriam-se de detalhes em ouro. Duas espadas embainhavam-se os lados, embora uma fosse mais longa e a outra menor. Nas costas, pendia-se um escudo redondo de cores coloridas e formato circular. Helena constatou que uma trança malfeita descia do alto da cabeça, dando-lhe aparência de selvagem. Apesar das reprovações gerais, ela, ao contrário, sentiu contra a própria vontade uma inexplicável atração.
Não obstante a censura da mãe por manter o olhar naquela figura estranha, Helena sentiu os ventos da rebelião despertarem em seu espírito passivo. Continuou a fixar o olhar em Reginald, singular bela criatura que de imediato cativou seu coração. Mas Reginald sentia-se observado e quando tornou a olhar para trás para ver que vinha da bela e recatada princesa de cabelos dourados, teria arriscado um sorriso desdenhoso se ela, pelo choque que sua reação provocou, não houvesse desviado o olhar.
Enquanto isso, o rei cristão dava relutantemente as boas-vindas aos convidados estrangeiros, fingindo confiança e despreocupação a fim de tranquilizar a corte ansiosa. Era preciso atuar bem, e ocupar o mais alto cargo do reino requisitava ser excelente ator. Louis reconhecia isso e fazia com tamanha convicção que, conforme conversava com Reginald despretensiosamente, aos poucos os nobres retomavam suas posições na corte. Entretanto, pairava silenciosamente sobre cada um deles a pergunta que ninguém ousava verbalizar: que seria deles? Que seria dos dinamarqueses?
--Fique conosco, Helena—ordenou sir Charles—Não deveríamos ter vindo.
Sempre altiva, lady Bertha retrucou:
--E como saberíamos disto? Não houve nenhum ataque destas criaturas deste outrora no governo de meu pai, e sabemos todos que ele os expulsou com maestria.
Helena, por outro lado, estava ignorante às discussões trocadas pelos pais. Ouvia, ao contrário, os comentários trocados pelas damas de companhia que diziam:
--Se não fossem selvagens e embrutecidos, os tomaria como belos e ousaria mesmo que fosse por eles cortejada.
Quis a princesa rir, mas isto chegou aos ouvidos de sua mãe que lançou um duro olhar à Adèle, que, tendo percebido, prontamente se aquietou. Mas a jovem continuou a fitar o belo Reginald de longe e dentro de si algo a fazia se perguntar se eram realmente feras aqueles dinamarqueses. Discretamente, repousava seu olhar a cada movimento que Reginald fazia, seu coração desejoso de poder ouvir mais o que ele dizia tão animadamente com seu régio tio.
Clothilde, tomando nota do interesse de sua senhora, aproximou-se e discretamente sussurrou-lhe o ouvido:
--Senhora, não posso crer que um homem como aquele, de todos os que porventura tomou como parceiro de dança até então, foi o que capturou seu coração.
Helena ruborizou e, desviando o olhar, retrucou em protesto:
--Claro que não, Clothilde! Mas que besteira fazer tal assumpção de mim.
No entanto, Clothilde era a mais próxima de si em personalidade e pensamento, embora fosse mais livre do que Helena por questões sociais, já que enquanto uma era princesa de sangue a outra era apenas descendente ilegítima de Carlos Magno. Não obstante, eram almas afins e se entendiam mutuamente. Por isso, Clothilde tomou a liberdade de insistir no assunto:
--Se o faço é porque a conheço deveras bem, senhora. Conheço-a o suficiente para fazer tal suposição. Acaso aquele homem não a ofereceria uma passagem para a liberdade que sonha? Uma possibilidade que nem seus pais nem outros senhores com quem dançou puderam ofertar?
Helena mordeu o lábio e entrelaçou os dedos das mãos a fim de posar-se de régia e distante para ocultar a tempestade que recaía sobre o espírito que despertava.
--Sou assim tão óbvia? —lamentou-se.
Clothilde sorriu compreensiva.
--Muito pelo contrário, senhora. Apenas para aqueles que ousam conhecer seu espírito como eu e Adèle, pelo que somos muito gratas.
Helena desejava abraçar sua querida amiga naquele instante, mas não pôde. A corte seguia rígidos protocolos, que, na opinião dela, eram desprovidos de qualquer significância. Mas seu pensamento não se demorou muito em tais questões porque, outra vez, seu olhar foi atraído para a imponente figura de Reginald.
Havia um tablado maior onde uma longa mesa retangular estava posta. Comida e vinho eram servidos enquanto o rei, um homem alto e franzino de olhos azuis penetrantes, tomava seu lugar de costume ao lado do dinamarquês. Ao lado esquerdo do rei, com expressões não muito agradáveis ao rosto, estava a esposa e o herdeiro do trono, seu filho. Quanto aos companheiros de Reginald, eles surpreendiam a corte por se portarem bem. Acoplaram-se em um canto e não incomodaram ninguém. Assim, com a permissão do rei, que sussurrava ao lado do viking, os músicos voltaram a exercer sua função e a doce melodia que saía em animado ritmo de seus talentosos dedos tirou do estupor os cortesões perplexos.
Readequando-se com este novo ritmo que a corte ditava, lady Bertha recobrou o orgulho e, decidida a fingir que o viking não era perigoso como tampouco estava presente, instigou a filha a retomar a dança com um dos filhos de um senhor da Frankia oriental. Mas Helena só tinha olhos para Reginald que, quando ela se distraía, também a havia notado. E provavelmente era dela de que falava com o rei, que começou a perceber que se entregasse uma princesa de sangue junto com terras ao norte para aquele homem... Nem tudo estaria perdido!
Ignorante quanto aos planos tecidos pelo destino, Helena murmurou finalmente sua frustração com as damas que mais confiava, as irmãs que Deus lhe concedera, já que seus irmãos eram rapazes ocupados demais para lhe prestar atenção.
--Não desejo fazer parte deste jogo. Cansei!
--Imagino que seja frustrante, senhora—disse Adèle, compreensiva—Mas veja, ao menos este que vem falar parece ter modos.
As três não puderam evitar trocar risinhos, ao que foram silenciadas com o olhar duro direcionado a elas por lady Bertha. Controlando seu mal humor, Helena novamente entrou no papel a que por muito tempo se acostumou a interpretar: a de submissa obediente filha.
Arqueou os ombros, levantou a cabeça e mirou seu olhar naquele que vinha arrogantemente pedir para ter-lhe uma dança. Seu nome era Philippe e ele vinha de uma região chamada Artois. Era alto—embora, segundo a comparação de Helena, fosse mais baixo que Reginald—e vestia-se adequadamente para a posição de filho de um senhor ducal. Não era particularmente belo aos seus olhos, que já se encantaram pela beleza exótica do dinamarquês. Mas que se cessassem as comparações, ela determinou a si mesma. Precisava cumprir com seu dever.
Assim, ela cedeu a mão ao homem que a levou para o centro da corte. No entanto, conforme a música deu início, sem que outros observadores pudessem tomar nota, foi aqui que a princesa encontrou a ousadia de levantar o olhar para prender o daquele que ela ansiava fazer sua vítima.
Seu coração batia descompassadamente enquanto o encarava como se o desafiasse em silêncio. Foram poucos segundos de fato, mas o suficiente para provocar admiração em Reginald. Este, por sua vez, havia se acostumado com mulheres livres, orgulhosas e teimosas, mas nenhuma delas evocava tal fascínio de Freyja como aquela cujo nome logo soube ser Helena.
Reginald sentiu sua alma estremecer, deixando-o assombrado por desconhecer a causa disto tudo. Ora, sabia que em parte havia luxúria, pois como não perceber a volúpia do corpo que bailava sob aquele vestido azul veludo? Mas havia outra...Era como se sua alma houvesse descoberto a metade que lhe faltava.
Louis, como o astuto que era, quase sorriu consigo mesmo. Pouco importava o que de fato se passava entre sua sobrinha e o dinamarquês ao seu lado, mas a cena lhe aprouve. Por isso, disse:
--Ah, vejo que se encantou com aquela dama. O que pensa dela?
Reginald tornou a olhar para o rei e, sem esconder a empolgação em seus olhos, o respondeu:
--Que ela é a mais bela de todas as criaturas que vi em minha existência. Que pode me dizer sobre ela?
O dinamarquês sabia por cada olhar que suas almas se comunicavam. Ela me chama para dançar, me desafia a fazê-lo. Talvez deveria.
--Seu nome é Helena—disse o rei—Ela é minha sobrinha, uma princesa de sangue deste reino. Vejo que ela se interessou por você.
--Tenho a permissão de cortejá-la?—ouviu-se o viking indagar, já que nunca antes fizera isto. Usualmente, um olhar e ele já levava a mulher desejada para a cama. Mas agora... Tudo, abruptamente, havia mudado.
--Concedo-a desde que ouça minha proposta—disse o rei ambicioso.
Reginald arqueou uma sobrancelha em questionamento. Louis prosseguiu:
--Se eu a oferecer em casamento junto a um punhado de terras ao norte de meu reino, nos deixará em paz e nos defenderá contra seu povo?
O viking coçou a barba por um pequeno instante, o suficiente para preocupar o rei. Que ele não fosse tolo de repensar tal proposta!
--Qual é a quantia de ouro que me oferece?
Uma vez exposto o valor, as duas partes acordaram secretamente o que deveria se valer a partir do dia seguinte. Mas, por ora, Reginald não pensava em casamento ou terras, apenas em dançar com aquela dama. Para o espanto de todos, ele se levantou da mesa e foi na direção de Helena. Os sussurros eram evidentes e a mãe desta, Bertha, prontificou-se a protestar ao lado do esposo, mas um aviso silencioso do rei os impediu de tomarem a filha para si.
--Senhora—ele se aproximou de Helena, afinal—cá estou.
O grande salão foi silenciado por breves segundos. Em outras circunstâncias, Helena teria detestado aquela atenção, os olhos de pessoas arrogantes e vãs sobre si como se a julgassem pelo que não fizera. Mas nada disso importava porquanto estava, diante de si, Reginald e seus penetrantes olhos azuis. A princesa mal conseguia respirar, pois pairava sobre ambos um magnetismo muito forte que, suspeitava-se, nem mesmo Deus poderia separar.
Reginald lhe deu um meio sorriso e falou:
--Não me convidou para a dança? Não me desafiou a fazê-lo?
Ele gostou quando Helena ruborizou, embora não desviasse o olhar.
--Ora, o senhor é mais esperto do que pensei—ela fingiu hesitar em entregar-lhe a mão—Acaso um selvagem como o senhor saberia dançar?
O dinamarquês riu.
--Vamos brincar de orgulho agora?
Nem quando o rei, impaciente, bateu as palmas e deu suas ordens para que os músicos tocassem seus instrumentos, eles cessaram a intensa troca de olhares.
--Sua presença evoca soberba, senhor. Não pode me censurar por fazer o mesmo.
--Não nego sua percepção, como filho de Odin, preciso sê-lo—disse ele, divertido.
--Filho de Odin—repetiu Helena, intrigada—Por que seu pai não está aqui?
--Ele é o pai de Todos—explicou o viking—Está aonde quer que esteja. É o deus que cultuamos. Não é como o seu deus crucificado—acrescentou, desdenhoso—Morreu pela sabedoria e cumpre punir aqueles que não a utilizam adequadamente. Mas nos salva quando morremos corajosamente na batalha.
Helena sequer notou que dançava com ele em perfeito ritmo quando respondeu:
--Ah, compreendo por que o chamam de pagão. Mas—e aqui ela arqueou as sobrancelhas—nosso deus crucificado prega a humildade e o amor ao próximo, a caridade e o perdão. Ama a todos sem distinção e sem esperar nada em troca. Não é belo?
--Estou intrigado com essa concepção—admitiu Reginald—mas por que amar a todos sem esperar nada em troca? E como perdoar seus algozes? É ridículo.
--Poderia perdoá-lo por tentar assaltar meu povo—disse Helena, docemente, o que o fez sorrir e ela decidiu que gostava de seu sorriso—E de que adianta amar alguém esperando algo em retorno? Não é este o propósito do amor.
--Creio que temos concepções diferentes do amor—retrucou Reginald—De todo modo, não vim assaltar seu povo.
--Não? E por que inspira medo aonde quer que vá? —e ela acrescentou—Não é melhor ser amado que temido?
--A senhora me coloca demasiadas questões para pensar—o dinamarquês fingiu reclamar—Isso a faz intrigante.
O rosto de Helena se iluminou diante deste elogio. Ouvia constantemente que era bela, e seu nome rendia incontáveis comparações com Helena de Tróia, mas saber que era intrigante e inteligente era muito mais do que um dia sonhou ouvir. E isto deixou Reginald bastante satisfeito. Imaginou-se passando toda uma vida com aquela jovem sorrindo alegremente e isso inundou sua alma de incontáveis felicidades até então desconhecidas.
--Obrigada—disse, afinal—O senhor também me inspira crer que possui um coração bom. Há salvação mesmo para os pagãos.
Ele riu.
--Vindo da senhora, tomo como elogio a balsama para meu coração.
Mas a conversa foi interrompida no instante em que a música cessou e os pais vieram tirar-lhe da presença de tal bruto homem. Reginald observou a tristeza apagar a luz de Helena, e constatou com irritação que ela aceitava facilmente ser dominada pelos pais sem esquivar-se de tamanha dureza. Um de seus amigos, um homem chamado Rollo, disse:
--Por que não a resgata para si?
--Não há necessidade disso, meu caro. Amanhã a desposarei. O rei me deu sua palavra—e dizer isto em voz alta o reconfortou.
Como prometido, o rei anunciou no dia seguinte que, a fim de estabelecer a paz com os dinamarqueses, cederia Lille para os mesmos, dando a Reginald o título de conde. A isto, acrescentou que era de sua vontade reforçar os laços com este povo a fim de defender seu reino contra os vikings. Para tal, ofereceu a mão de sua bela sobrinha, a princesa Helena, no intuito de solidificar a aliança entre os povos.
Naturalmente, desta decisão resultou protestos da parte dos pais dela... e dos pretendentes que se achavam muito mais superiores do que aquele sujeito para ser esposo da mais formosa dama do reino. Mas nada mudaria a ideia do rei e Helena rezou fervorosamente para que Deus estivesse ao seu lado. Afinal, sempre cumpriu com os deveres familiares sem pestanejar, mas que, ainda que Reginald fosse pagão, acreditava no bem que existia nele e cabia a ela transformá-lo por completo. Ademais, rezava a princesa, sentia que o amava como nunca poderia amar aqueles que seus pais desejavam arranjar para que fosse desposada.
O Pai Maior pareceu ouvir suas preces e em menos de três dias desde o anúncio do rei, Reginald se converteu à fé cristã e tomou como esposa a princesa Helena. As celebrações, para a infelicidade da família desta, ocorreram ostentosamente e ficou decidido que a consumação se realizaria antes que o novo casal partisse para suas terras.
--Como está se sentindo, senhora condessa?—indagou Adèle, empolgada. Estavam nos aposentos designados pelo rei para o casal e, enquanto o marido não chegava, as damas se certificavam de cuidar da princesa sob o atento olhar da desapontada mãe. Helena usava um camisolão de linho e seus cabelos dourados repousavam soltos, caindo na cintura. Um sorriso brincava em seus lábios.
--Não poderia estar mais feliz, Adèle—e, virando-se para a mãe, disse—Por favor, mamãe, não se entristeça. Ele é um bom homem.
--Só saberá disso convivendo com ele—resmungou lady Bertha, rancorosa—Mas se você está contente... Ah, filha! Como neta de grandes reis do passado, merecia um posto maior. De rainha, quem sabe!
Helena se aproximou da mãe, tomou as mãos nas dela e disse:
--Mamãe, que importam títulos diante da felicidade? Se não fosse a vontade de Deus, creio que nossas preocupações teriam fundamento. Mas não é o caso. Crê em mim quando digo que estou feliz e serei tão devota quanto me ensinou.
Emocionada genuinamente por aquelas palavras, lady Bertha enfim aquiesceu. Depositou dois beijos nas faces de Helena e, quando a porta se abriu para que seu genro entrasse, ela suspirou e disse:
--Que Deus a proteja, filha.
--Amém, senhora mãe.
E dito isso, lady Bertha saiu acompanhada das risonhas Adèle e Clothilde. Foram, porém, substituídas por um padre em trajes ricos—indicando ser, na verdade, um arcebispo—e o rei, que veio em pessoa dar bênção ao novo casal. Independentemente das motivações por trás daquela decisão, Helena lhe era profundamente grata.
Enfim, virou-se para o marido que a espreitava. Um rubor queimou seu rosto ao vê-lo utilizando um camisolão relativamente mais curto que o dela, e que logo ele fez questão de remover, deixando o corpo forte e com estranhas tatuagens à mostra.
--Senhora—ele a cumprimentou feliz, deitando-se na cama—Venha—pediu, gentilmente.
Tímida diante daquelas testemunhas, Helena não o respondeu de imediato. Assentiu e sentou-se ao lado dele. O padre fez uma oração e jogou em ambos água benta antes de fechar as cortinas em torno da cama de ambos. Afinal à sós, Reginald, ciente de que sua esposa estava intocada, perguntou gentilmente:
--Creio que a senhora se guardou para este momento?
Helena assentiu, envergonhada. Reginald disse:
--Compreendo. Não há necessidade de se assustar, garanto que não a forçarei a nada que não queira. Podemos só...—sem saber o que dizer, deixou as palavras se evaporarem no ar.
Para a surpresa de ambos, Helena se aproximou ainda mais dele e colocou uma mão ao redor do rosto dele, fazendo com que ele a encarasse nos olhos. O momento parecia magnetizar-se ainda mais, como um reencontro de almas.
--Eu confio em você, Reginald. E desejo consumar nosso casamento hoje. Apenas peço paciência ao tratar comigo.
Reginald sorriu e respondeu com um leve beijo sobre lábios tão doces quanto o mel. Sua presença o inspirava uma paz que por muitos anos buscou e, por estranho que fosse, apenas recentemente encontrou. Talvez devesse agradecer a este novo deus crucificado, mas seu coração o repelia, relembrando-o da bondosa deusa Freyja ao invés disto.
De todo modo, nenhum pensamento colocava-se entre ambos mais quando o suave beijo se aprofundou. Reginald era paciente e sempre o seria com ela, o amor de seu coração. E como se dois fossem um, ele adivinhou seus próximos movimentos, suas sensações e se antecipou. Ajudou-a remover o camisolão, justificando que ansiava em vê-la como é e sem medo algum, Helena despiu-se também de seus medos infundados.
Naquela noite, entregou-se uma, duas, incontáveis vezes. Amaram como duas almas predestinadas se amariam. Não se tratava apenas da combustão da carne, mas do amor além de concepções vazias e limitadas. Não era somente a luxúria, era o reflexo de um sentimento transcendental.
--Espero ter concebido hoje—confidenciou-o Helena ao final do ato. O sol começava a nascer, mas ela se sentia tão desperta quanto antes.
Reginald a puxou para si, beijando-as faces e sentindo um deleite que lhe era desconhecido até então. Dias curtos que porventura pareciam séculos tal era o reencontro destas almas gêmeas.
--Tenho certeza de que será uma excelente mãe para a prole que teremos—ele nunca havia imaginado ser pai, mas uma nova realidade despontava no horizonte que o fez considerar aposentar a espada.
Helena riu. Era uma liberdade estranha, embora para tantas de sua posição tal percepção não se encaixasse na ideia de casamento. Mas aquela noite seria a primeira de várias e ela tinha certeza de que, com ele, seria livre.
--E você, um pai admirável.... Desde que não o nomeie em honra aos velhos deuses.
Embora a princesa possuísse uma mente menos preconceituosa em comparação aos seus contemporâneos, nem por isso deixaria de ser um produto de seu tempo. Mas Reginald não lhe deu importância. Riu em vez de dar uma resposta pronta e aninhou contra si. Não pretendia pensar no dia seguinte tão cedo. E assim, o casal adormeceu.

A vida em Lille para o conde e a condessa seria tranquila por um breve período de tempo. A princesa, é claro, rapidamente se adequou à tarefa de esposa que lhe era esperado. Reginald não cessava em ser surpreendido pela infinita bondade com o qual era tratado, mesmo quando, em seus dias ruins, exagerava na bebida ou se por descuido não era gentil em palavras. Embora fosse possível entrever o temperamento que Helena também tinha, prevalecia ainda mais a bondade de seu coração e o amor que um sentia pelo outro.
Ainda assim, a realidade longe de ser uma marionete dos pais provava ser a liberdade sonhada por Helena que ela ainda não acreditava ter obtido. Em uma das noites passadas nos aposentos do casal, ela confessou a Reginald que a vida junto ao esposo lhe parecia uma doce ilusão.
--Mas por que? —quis saber o dinamarquês, curioso, enquanto alimentava a lareira para que dormissem aquecidos naquela noite fria de inverno.
--Porque me acostumei a ter minha vida ser conduzida nas mãos de outras pessoas—disse ela—Amo meus pais, e a eles sou muito grata, mas sentia que se não agisse segundo suas vontades, os desagradaria e, bem, não é isso que eu gostaria.
Aquele assunto suscitava inseguranças que Helena fingia não ver, despertando sensibilidades que ela se envergonhava possuir. Mas Reginald a conhecia bem, e mesmo com pouco tempo de convivência, reconhecia todos seus humores. Ele se colocou ao lado dela, abraçou-a contra o peito e disse:
--Sei que isto é difícil. Tivemos criações diferentes, vejo agora. De onde vim, somos mais soltos, acreditamos que o destino está solto e entregamos às vontades dos deuses. Escrevemos nossos caminhos, de fato, mas há algo maior que nos rege. E não há nada de errado com a sua educação, em como foi instruída para a vida. Ao contrário, é o que a faz ser quem é.
Helena olhou para o rosto do marido, cujo olhar se derramou no seu. Uma lágrima descia do azul de suas írises, mas de felicidade que a movia. Ela sorriu.
--Amo-o, esposo.
Reginald sorriu para aquela que a tinha em seus braços.
--Amo-a, esposa.
E foi nesta noite que conceberam seu primeiro filho.

A paz a que conheceram por dois anos, porém, não duraria muito mais tempo. Era do temperamento de Reginald deslocar-se sem fixar residência, combatendo inimigos, saqueando desconhecidos e enriquecendo-se segundo a vontade divina. Embora a felicidade doméstica o acalmasse, infelizmente ainda prevalecia nele os instintos primitivos. Admirava na esposa a fé em seu Deus, o comportamento benevolente e até mesmo os rompantes de raiva que surgiam quando as diferenças de personalidade resultavam em discussões. Como de costume, todavia, prevalecia o amor.
Do aborto espontâneo que se sucedeu à concepção do primeiro infante, sucederam, porém, três crianças sadias a quem chamaram: Helga, Clóvis e Hugh. No entanto, Clóvis partiu da vida para o plano espiritual com idade tenra de dois anos, desolando a bondosa princesa. O marido, por sua vez, não sabendo lidar com a perda, preferiu partir em expedição.
--Por favor, volte—ela o pediu, impelida por um pressentimento que não saberia explicar.—Não sei se fiz algo para desagradá-lo, e desde já peço perdão por...
--Não diga mais nada—Reginald a interrompeu, sem pretender ser grosseiro—Não é culpa sua, esposa amada. Prometo que regressarei a casa, é só que...
--A vida aqui é tranquila demais para você—compreendeu ela com um sorriso triste de partir o coração—Mas voltará?
Reginald sentia-se culpado, tomado por remorso por deixá-la assim. Beijou-a apaixonadamente, e no crepúsculo deste dia fizeram amor. Mas precisava de um tempo para si. Assim, ele partiu.
Mas voltaria com o tempo depois de fazer parte dos vikings que assolaram Dublin e outras partes mais da Irlanda. É verdade que muitas das vezes foi tentado por várias mulheres, mas ele só conseguia ter pensamento para a bela Helena. No verão seguinte, esteve de volta a Lille e foi recebido com tanto amor pela esposa que, outra vez, o remorso o culpou por deixá-la só.
Helena, apesar da melancolia que crescia em seu peito como resultado da insegurança que a assombrava de vez em quando, encontrou conforto na tarefa da maternidade e mesmo que Hugh tenha sido muito temperamento, conseguiu educá-lo seguindo os princípios cristãos. Foi com os filhos que ela se dedicou, tendo observado poucos eventos sociais desde que Reginald havia ido à Irlanda. De suas damas leais, apenas Clothilde optou por acompanhá-la e, mesmo tendo recusado se casar para servir a sua senhora e amiga, eventualmente se apaixonou por um dos homens de Reginald. Com a bênção de ambos, estabeleceram família por perto da residência real de Helena e Reginald mesmo com os protestos da condessa de que poderiam residir em conjunto no enorme castelo de pedra.
Mas agora Reginald estava em casa e nada mais importava para a nobre Helena.
--Perdoe-me pela minha ausência.
--Não há o que perdoar, meu marido. Você voltou, está aqui, é o que importa.
Para sua surpresa, o esposo se mostrou comovido.
--Não mereço seu amor e sua piedade, minha senhora.
--Meu coração e minha alma são suas, amado meu. Nada mais importa.
E como se para provar o que dizia, beijou-o nos lábios com ternura. Naquela noite, consumaram mais uma vez o amor que os reunia e a paz doméstica se fixou por um tempo. Apesar das inquietações que o afligia, resultados de uma vida passada em devassidão antes do casamento, Reginald esforçou-se em pôr fim nelas. Devotou-se à Helena e aos filhos, alegrando-se ao ver o nascimento de outro menino a quem chamaram de Louis em homenagem ao rei, que foi padrinho de batismo da criança.
No entanto, um pressentimento ruim tomou conta de Reginald. Em uma de suas últimas noites naquele plano, ele teve um alerta da deusa Freyja, que vinha-o protegendo. Assim ela o havia informado:
--Nobre senhor, venho o observado e protegido nestes anos de sua vida. Apesar dos excessos, tem se esforçado para limpar-se das feridas da alma por você mesmo causadas. E por melhores que tenham suas intenções, está na hora de voltar a Valhalla. Ou, se assim o desejar, a vir comigo em meus salões.
--Nobilíssima deusa—disse o muito chocado dinamarquês—não sou merecedor de sua presença ilustre, e por isto agradeço. Mas que quer dizer com isto? Temo não compreender sua mensagem.
A bela mulher envolta em luz prateada sorriu e disse:
--No momento certo, recordará do que disse e tudo estará bem.
Mas no dia seguinte, quando despertou antes do nascer do sol, observou sua esposa dormir aninhada contra seus braços e lágrimas verteram de seus olhos. Entendeu de imediato que não a veria novamente. Sentiu que falhara com aquela bondosa alma, mas como se redimir? Acariciou gentilmente seu rosto, sentindo maciez de pele contra a rigidez de sua mão. Observou seu corpo, notando sinais de gravidez e seu coração somente se partia. Deveria ir antes que ela acordasse, sabendo ele que a morte se aproximava. Mas faltou coragem a este viking.
--Amo-a, cara esposa. Helena, amo-a com todo meu ser.
E, dizendo isso, beijou-a na testa. Fechou os olhos e, abraçando-a protetoramente, voltou a dormir.

Vikings da Noruega tentaram engraçar-se com os francos, mas, na graça de Deus, falharam. Quando Reginald preparava-se para a batalha, porém, mesmo Helena soube que aquela seria a última vez que o veria.
--Reze por mim como tem rezado—ele pediu.
Helena engoliu as lágrimas.
--Minhas preces são para você, meu amado marido. Volte a mim, é o que peço.
--Voltarei com a graça de Odin e seu Deus crucificado—ele ficou feliz de tê-la feito sorrir em meio a despedida.
--Não se esqueça de que o amo—ela implorou, falando com tal intensidade como se temesse perdê-lo—Não vá, por favor. Deixe que seus homens cuidem disto. Não precisa ir, meu senhor.
--Ah, minha cara senhora! Mas eles precisam de alguém que os lidere frente a inimigos de nossa terra passada—disse Reginald, resignado com o destino. Já montado em seu cavalo, havia se despedido dos filhos e, a muito custo, agora se separava de devota esposa—Não posso faltar com meu dever. Garanto que voltarei no crepúsculo deste mesmo dia. Guarda em seu coração meu amor e minha estima.
--E o senhor, não esqueça de que há uma dama de que o espera!—exclamou Helena.
Assim, os dois se separaram para nunca mais se verem em vida. A vitória para os francos custou caro a vida de Reginald e a pobre Helena não se recuperaria desta notícia.

Em meio aos salões de pedra do castelo de Lille, Helena brincava com os filhos quando surgiram dois dos homens de Reginald. Diante da expressão que pesava seus rostos, ela dispensou as crianças para o cuidado de Clothilde, amiga antiga que, pressentindo a pesada nuvem que em breve pairaria sobre tão leal e nobre mulher, havia chegado apenas no dia anterior.
--Diga-me—pediu Helena, a voz tremendo a cada passo que dava para receber aqueles homens.
Naquele salão, ela cultivava uma pequena corte. Havia músicos e padres, e até mesmo bardos eram recebidos por ela. Mas nada disso importava quando Rollo a informou a respeito da morte heroica de Reginald.
O mundo pareceu ter congelado diante de tais notícias. Helena sentiu um arrepio percorrer o corpo, os olhos vertendo de lágrimas antes de ouvir o que seu coração já sabia, que sua alma pressentia. O lugar ficou frio de imediato e a cor da vida se esvaneceu de Helena.
Empalideceu-se, e os homens pensou que fosse enfraquejar-se. De fato, perdeu as forças dos joelhos e eles a socorreram antes que tocasse o chão. Alguns dos presentes, mesmo os empregados, vinham socorrê-la e não foi se não quando gritou de dor. De desespero. Mais uma vez, mais uma vida separava-se de seu amado, daquele que Deus designou ser gêmea de sua alma.
Acudiam-na, os padres tentavam trazê-la de volta à razão, mas ela sucumbia ao tormento das emoções que Reginald um dia equilibrou. E, para desespero dele que tudo sentia do outro lado, nada podia fazer para acalmá-la. Ela precisava passar por isso, foi o que lhe disseram.
Helena pranteava de tal maneira que seu corpo tremia. Memórias de tantos momentos passados juntos a impediam de se recompor. Talvez nem mesmo quisesse. Como viver longe daquele que amava tanto? O cenário lhe era devastador, um futuro sem perspectivas. Foi preciso que se escrevesse a mãe. A única que lhe competiu recordá-la das tarefas que requisitavam de sua atenção.
--Seus filhos precisam da mãe. Guarde o luto com você, em seus momentos privados.
--Estou cansada de jogar conforme estas malditas regras que a nobreza criou!—gritou Helena, em terrível manifestação de coração partido—Por que cabe a mim resguardar-me depois que amado meu se foi? Por que Deus pensa ter sido justo tê-lo tirado de mim? Não tenho pretensões em viver. Oh, não! Não sem Reginald!
Ele também chorava ao vê-la daquela maneira. Mas, à noite, enquanto repousava o corpo, visitou o espírito.
--Minha amada Helena. Por que entregar-se a dor desta maneira?—ele acariciava suas longas madeixas—Por que? Ela agora a apreende ao corpo e não podemos nos reencontrar. Está tudo bem, crê em mim que tinha sido necessário o que se foi. Sei que me ama, mas precisa me deixar partir. Nós nos veremos de novo conforme seja a vontade de Deus.
No dia seguinte, como se inspirada por atuação de Deus, Helena recobrou o juízo antes que fosse tarde demais. A mãe se alegrou ao ver que não havia mais necessidade de interferir em questões domésticas, mas o luto para sempre afetaria a pobre princesa.
Embora fosse uma mãe presente e devota, uma presença constante na educação dos filhos e em suas vidas, ela não se casaria mais. Alimentou uma vida reclusa e, de vez em quando, pranteava antes de dormir. Rezava pelo amado que perdeu. Mas havia libertado Reginald de seus laços pendentes, apesar da erraticidade que ele permaneceria como resultado de seus atos na Terra.
No entanto, não era mais a mesma. Veria Hugh crescer na nobreza e despontar na riqueza, tecendo casamentos apropriados para sua riqueza. Concomitantemente, Helga também se casou por amor e de seus descendentes conta-se estar a celebrada rainha Eleanor d’Aquitaine."


Nota de Ogum: "Embora seja um conto demasiadamente longo, ele fora ditado previamente com o propósito de esclarecimento para a médium, levando-se em conta que aqui está presente um resgate para as duas partes. A princípio, foi recomendado, por este motivo, para que não lhe fosse divulgado até que disto uma lição fosse apreendida. Uma vez que assim se deu, o Pai Maior concedeu que tal fosse exposto a público, pois aqui também, como nas memórias psicografas previamente, cabem lições valorosas para os leitores dedicados a extraí-las e refleti-las. Por isso deixo esta nota ao final, e não como de costume no começo, pois desejo estimular em vós o exercício crítico da questão que esta entidade vos trouxe. Optei por não colocar aqui a mensagem que este bondoso espírito, encaminhado para a equipe de regeneração do "Nosso Lar", passou à médium pelas particularidades que envolve os dois. No mais, deixo cá meus agradecimentos aos leitores e aos trabalhos da parte do psicografado e daquela que o psicografou."




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