segunda-feira, 27 de julho de 2020

Contos Medievais, Romance I: Theobaldo e Helena.

Nota do guia de Ogum: "Estimados leitores, hoje daremos início a um novo ciclo de contos psicografados que, embora possa parecer simples para aqueles que desconhecem a espiritualidade ou mesmo aos que dela possam deter qualquer grau de conhecimento, se apresenta com propósito louvável. Estes contos serão divididos em três séries, assim qualificados: Romance, Tragédia e Guerras. Para cada um destes vivências das entidades que desejaram colaborar para o andamento da missão da médium, serão postas dentro destas categorias. Todas elas foram passadas em algum canto da longa Idade Média, que, em tese, cobriu os séculos V ao XV depois de Cristo. 
Sendo assim, hoje começaremos com os contos 'românticos' de Theobaldo e Helena, contado pelo espírito desta última. Quando for necessário, farei as usuais interferências a fim de explicar ao leitor determinado significado de palavra, evento, etc como de costume. Reforço ainda que a importância disto não está no nome, no lugar ou em que tempo a encarnação desta entidade ocorreu (ou das que virão psicografar a seguir), mas a mensagem que bondosamente se propuseram a trazer de tal experiência em Terra a fim de ensiná-los, se possível, a não repetir o mesmo erro. Nisto, chamo-os a atenção para não se aludirem a diferença de tempo e espaço porquanto o orgulho, a vaidade, a ira, a vaidade, dentre outras vicissitudes humanas, atravessam-nos até a vossa contemporaneidade.-George."

"Um dia atendi pelo nome de Helena, e neste foi quando optei por encarnar na França de Carlos Magno. Naquele tempo, era uma camponesa simples e de educação primária. Meu pai, outro camponês que devia obedecer à autoridade do suserano de nome Louis, era um vassalo que lutava contra as dificuldades de tais dias para que pudéssemos nutrir algum benefício em meio ao caos eterno da violência, da alta taxa de mortalidade, da fome, entre tantos outros fatores que infectavam e sangravam as terras francesas. 

Na realidade, devo ao leitor a explicação de que a França deste século não era como a França que pensa conhecer. Em verdade, era um conjunto de diversas terras que respondiam a duas autoridades. Sim, os "reis" costumavam ser irmãos que co-reinavam juntos sobre tantos súditos, camponeses e aristocratas. No entanto, o poder corrompe aqueles que não se preparam adequadamente para lidar com tal e não era de se surpreender, portanto, que tantos irmãos entrassem em disputa por ele e, no final, não faltassem com qualquer escrúpulo para mantê-lo. Em um passado não muito distante, que o futuro repetiria depois, isso havia sido o caso. Irmão matando irmão, um mero "empregado" matando seu "senhor" para que o poder caísse nas mãos daqueles que tinham em suas o sangue dos que o haviam ajudado em algum momento da vida. As leis eram somente eficazes segundo a vontade daqueles que a ditavam, embora fazer disto regra geral seria menosprezar aqueles de espírito avançado que se esforçavam por manter a ordem em tal lugar.

Quando Carlos Magno enfim se tornou rei, ele tomou para si o título de "senhor de todos os francos", pois era como nós éramos conhecidos. E, por um instante, todos se submeteram a sua régia autoridade. Mas ele não se contentou com os territórios herdados do pai e quis mais. Assim, passou a construir um império que levaria o nome de sua família e qual seria conhecido pela História da humanidade como "império carolíngio". Numa tentativa de trazer para sua época as ruínas perdidas do Império Romano, Carlos Magno foi feito Sacro Imperador Romano-Germânico. O primeiro a portar tal título e que reconhecia sua herança germânica, a mesma que, dizem os historiadores, foi responsável por derrubar o Império Romano nos tempos de Santo Agostinho.

Como imperador esfomeado por poder, Carlos Magno prontamente exerceu o poder de sua espada a qualquer custo. Em nome de nosso irmão Jesus e do Pai Maior, cometeu tantos crimes e encurtou várias vidas daqueles que, por "descuido", não compartilhavam de mesma fé. O amor de Cristo foi distorcido pelo amor à espada e assim foi que mais de 800 mil vidas conheceram o desencarne talvez antes do seu planejamento, embora isso seja especulação de minha parte: não existe imprevistos para a vida espiritual.

Voraz em seu comando, Carlos Magno colheu seus louros ao subjugar vizinhos e forçar a conversão a tantos outros. No entanto, chegou ao limite aos países nórdicos que souberam lhe resistir. Mas toda a Europa, e incluo os bretões que atendiam pelas tribos anglos e saxãs da Inglaterra, caiu em seu jugo. O sangue de inocentes, em nome de um só Deus, fazia queimar as terras, mas a consciência deste rei-imperador não se preocupava com isso. Ainda não, de todo modo.

Neste contexto, cresci. Apesar do poderio de Magno, ainda havia aqueles que se recusavam a abaixar a cabeça para sua autoridade e rebeliões, quando em quando, despontavam. Mas o rei-imperador designava os homens de sua confiança, tão cruéis quanto, para dar aos pobres camponeses o pior de si. Neste ínterim, meu pai tornava-se viúvo e contava três crianças para criar. Éramos pobres e a sobrevivência era uma luta que pedia por paciência, resignação, resiliência e fé. Mas tais fatores não nos isentava de ter medo. E como não ter diante das mortes avassaladoras que nos cercavam? Amigos próximos, vizinhos, nenhum deles ousava mais nos cumprimentar ou a qualquer um pelo que aconteceu a tantos outros de nós. O medo era o ar que respirávamos. E, por enquanto, não havia espaço para a esperança.

Mas agora vou falar de minha família. Minha mãe chamava-se Agnés e havia sido uma bela mulher em sua juventude, por mais que, ciente do que os homens da guarda do rei-imperador eram capazes de fazer diante de tal beleza, se esforçassem em se enfeiar. Seus pais, meus avós, eram também camponeses devotos, mas não em Cristo, porque nada compreendiam do latim das missas e sentiam-se, não sem razão, abandonados pelas autoridades clérigas. Rezavam ao deus do trovão, do rio, e asseguravam a sua única filha que tais deidades os visitavam e confortavam. (Nota de Ogum: os avós de Helena foram espíritos avançados moralmente para a época e de simplicidade de coração. As deidades que os visitavam eram guias e amigos espirituais que tomavam esta forma para facilitar a comunicação. Na verdade, os avós dela não compactuavam com a corrupção moral da Igreja e por isto "viraram as costas" para ela, embora prosseguissem no ensinamento cotidiano de Cristo. Em outras palavras, a fé deles nada mais foi do que a fé cristã, apenas maquiada sob outra forma e entendida segundo a época vivida. Mas foram tão "cristãos" quanto os próprios que se diziam ser e, na realidade como sabemos, não foram se não hipócritas que usavam o nome de nosso mestre e irmão para as crueldades praticadas no cotidiano). Com isso, mamãe trouxe este ensinamento à família quando desposou nosso vizinho, meu pai, chamado Clóvis. Tiveram uma união bastante feliz e amorosa, mesmo que papai enxergasse nas práticas de mamãe um resquício de feitiçaria que ele não compreendia. Mas tampouco julgava. Para os padrões da época, aquele respeito era raro, mas existia. 

Minha mãe não tinha uma boa saúde e, depois de dar ao pai três crianças (aqui nomearei meus dois irmãos mais velhos de Thorin e Odair), veio a falecer de complicações do parto. A dificuldade foi enorme. Papai encontrou na cerveja um conforto para a dor que a ausência da esposa querida lhe inculcou no coração. No início, ele me olhava com tristeza e quase me repudiava por lembrar a ele de mamãe. Mas foi Odair quem lhe trouxe à razão e disse que, mesmo sendo menina, não merecia menos que o amor de um pai. Odair era, assim como papai, cristão devoto e de coração sincero. Esforçava-se por converter Thorin, que, ao contrário, herdara de nossa mãe as religiosidades consideradas "pagãs". Apesar dos esforços diários que, por vezes, levava a perigosas divergências, o valor da família permanecia acima das diferenças e os dois irmãos esqueciam suas "rivalidades", unindo-se para me ajudar, ao pai, ou mesmo a eles dois.

No mais, por um tempo foi tudo de uma tranquilidade atípica. Papai passou a me dar mais atenção, contando-me de mamãe, pois guardava poucas lembranças dela em comparação aos irmãos mais velho, e instruindo-me nas artes domésticas, embora pouco conhecimento delas detivesse. Eventualmente, ele desposou nossa vizinha, uma senhora adorável chamada Adelaide, a quem me afeiçoei e que pôde me auxiliar no ensino feminino. Assim, fui ensinada a fiar, cozinhar, limpar a casa, tomar conta das poucas galinhas e alguns porcos que meus irmãos conseguiram obter. Foi Adelaide quem me levava ao mercado e me ensinava a verificar que fruta e legume eram próprios para comer. E ela também era  conhecida pelos comerciantes que, sabendo de sua simpatia e honestidade, muitas vezes se apeteciam de sua condição de pobre camponesa e faziam fiado até a carne que desfrutávamos.

Para mim, aquele cenário me inspirava tranquilidade e não aspirava nada mais que isso. Algumas das meninas do "bairro", porém, não se contentavam com o estado de pobreza e reclamavam cotidianamente de sua condição. Uma delas era minha melhor amiga chamada Samara. De origem judaica, seus cabelos eram negros como a noite e o rosto quase dourado à exposição do sol. Era bela e gentil, de bom coração. No entanto, desejava vestir-se com tecidos luxuosos e desfrutar de uma vida em que a morte não lhe bateria à porta toda a vez e onde poderia ver cavalheiros e até mesmo o rei-imperador, não obstante as crueldades que todos cochichavam constantemente.

"Querida amiga Helena", me disse ela uma vez em que papai me liberou dos meus afazeres para visitar Samara, que não morava muito longe de nós, "não aguento esta pobreza. É insuportavelmente difícil".

"A vida poderia ser ainda mais difícil", falei eu pensativa, "se não tivéssemos sequer o que comer."

Samara não tinha resposta para isso, mas, em vez disso, me encarou com seus grandes olhos escuros e prontificou-se a reclamar novamente:

"Meu pai era judeu, sabia? Mas foi deserdado da família por ter se casado por amor com uma não-judia, minha mãe."

"Que mal há nisso?", disse eu, um pouco chocada por aquela desaprovação. "Casar por amor é uma sorte que poucos de nós podemos usufruir."

"Amor não sustenta a casa", ela me lembrou com uma dura realidade.

"Mas é o pilar para a família", retruquei com um sorriso. "Afinal, nas dificuldades o esposo encontra apoio na sua consorte. Não é assim que dizem os votos quando se casam na Igreja? No amor e na saúde, na riqueza e na pobreza..."

"Na saúde e na doença", ela me corrigiu. "Nas alegrias e nas tristezas."

Sorri ainda mais diante do que ouvia.

"Veja só. Sabe mais do que aparenta. Desconfio de que também deseja ter o que seus pais têm."

Com o rosto enrubescido, ela respondeu:

"Sim, minha cara. Não nego que ser amada é um sonho de todos, mas, sabe, vejo os aristocratas usando belas roupas, alguns deles sendo carregados pelas liteiras, querendo de toda a sorte ter o que me foi impedido de ter."

(Nota de Ogum: eis aqui o exemplo de um espírito que não se conforma com sua escolha pré-reencarnacionista. Samara havia sido a rainha da Judéia em outros tempos, mas antes de encarnar, afinal, havia se comprometido a viver na pobreza para conhecer a humildade, o amor ao próximo, praticar a caridade, enfim, valores crísticos que nos movem sempre rumo à angelidade. Entretanto, sabemos todos que, na carne, sofremos outras tantas influências que podem nos afastar do planejamento inicial. Aqui, vemos Samara sentindo falta, inconscientemente, de uma existência anterior a qual se apegou, desejando ardentemente ter o que um dia possuíra e exercer o mesmo poder que, no passado, o fizera com crueldade. Como a sabedoria divina é prudente e bondosa, meus caros irmãos e irmãs!)

"Creio que nascemos pobres por alguma razão", contemplei. "Mas, como falei, podia ser pior. Por que não pensar no amor em vez das riquezas,  Samara? Do que adianta possuir terras e vestir as melhores roupas se o consorte a quem desposar diante de Deus a tratar mal, com indiferença e frieza? Dir-me-á, sem dúvida, que valerá a pena e aquiescerá perante seus deveres de esposa. Mas até quando isso a contentará? Ouço dizer que muitas das esposas, concubinas, seja lá qual nome respondem, do rei-imperador não podem criar seus próprios filhos. São as mais "pobres" que se encubem de ser a mãe daqueles que, pelas leis e costumes, são criados longes de suas genitoras."

Samara não me respondeu mais, mas pelo seu semblante, percebi que contemplava. Enfim, ela me sorriu como que timidamente e, tomando minhas mãos nas suas, disse:

"Concordo com o que disse, embora não esteja mais satisfeita do que antes com minha condição. Mas poderia ser pior, e devemos agradecer antes de tudo, certo?"

Sorri amplamente pela pequena modificação que consegui, pela graça de Deus, alterar em seu pensamento.

"De fato, Samara. Haveremos de ter esperança!"

Em seguida, passamos a conversar de amenidades. Mais tarde, me despedi de Samara e seus pais e rumei de volta à casa, que não era muito longe, mas precisava andar um pouco. Cumprimentei os vizinhos de costume, quando, de repente, notei dois homens de vestimenta mais rica que a de um camponês. Notando que dois cavalos negros enfeitados com uma cela de material rica e uma proteção que nenhum pobre teria condição de arcar, prontamente percebi que se tratavam de soldados do rei-imperador.

Arregalei os olhos quando os vi parados em frente à humilde casa onde habitava com minha família e, segurando na barra da saia do vestido marrom que usava, corri diante deles, rezando em meu íntimo--tanto para o Deus cristão quanto para aqueles a quem minha mãe e meus avós direcionavam suas preces sinceras--para que nada de ruim houvesse caído sobre aqueles a quem amava tanto.

"Senhores", eu falei mortificada, esbaforida, assim que cheguei. "A que devo a honra de recebê-los?"

Eles conversavam tão rápido entre si que pensei ter ouvido outro dialeto, mas ao meu ouvir falar com eles, um deles se virou para me responder. E foi neste instante que soube que minha vida mudaria drasticamente. 

Ele era mais alto do que os homens costumavam ser naqueles dias. Seu porte poderia ser confundido com o de alguém da realeza, os ombros jogados para trás e a coluna reta. Via-se claramente que era forte e, para minha própria consternação, me peguei imaginando se haveria incontáveis cicatrizes sob a malha negra que vestia e que cobria seu corpo. Seus cabelos eram louros como a luz e em seus olhos tão azuis quanto. O nariz era longo e as maçãs das bochechas eram altas. Os lábios eram finos e secos. Suas feições, pensei eu abobada como era, eram tão belas que o confundiriam com um príncipe. 

Também ele me fitou, segurando meu olhar com seriedade por tempo o suficiente para me fazer corar. Foi quando baixei meus olhos que o ouvi dizer:

"Sua Majestade Imperial recebeu reclamações de práticas pagãs nesta cidade", ele me informou, e me surpreendi por me responder não com frieza, embora tampouco amigavelmente. "Um dos bispos que atua em seu nome enviou-me para proceder se isto é verdade."

Pensei em meu irmão Thorin e foi quando voltei à realidade. Meu coração se acelerou e o medo empalideceu-me, mas me esforcei para ocultar daquele belo homem meus sentimentos mais íntimos. Afinal, precisei lembrar a mim mesma, estavam ali diante de mim os inimigos do povo, e, em breve, de minha família.

"Com todo o respeito, senhor, mas minha família é bastante respeitável e em tudo obedece às ordens de nosso soberano. A lei de Cristo governa nossa casa, asseguro-o disso", falei com firmeza.

O homem me encarou com relutância, mas seu companheiro arqueou as sobrancelhas e nos interrompeu dizendo:

"Se assim é, podemos verificar pessoalmente."

"Podem", afirmei com firmeza. "Se desejam esperar... Creio que meus irmãos e meu pai tenham se ausentado da casa."

"Por que motivo?" quis saber o companheiro daquele belo homem, um tanto quanto agressivamente.

Não consegui esconder o desdém quando falei:

"Ora, o senhor deve desconhecer as atividades de um camponês, certamente. Meu pai e meus irmãos, quando não estão em casa, trabalham para o duque de quem são seus vassalos. Hoje foi o dia da colheita e, portanto, como sustentam a mim e à senhora minha madrasta, foram cumprir com suas tarefas. Se assim porta alguma dúvida da alma daquele que sustenta nosso soberano, trarei aos senhores minha madrasta para dar testemunho de nossa vida devota ao Cristo."

Não houve resposta de ambos diante da firmeza com a qual me vi forçada a defender minha família. No mesmo instante, a porta se abriu e vi minha madrasta, Adelaide, nos observando com surpresa e, depois de entender o que se passava, horror. Prontamente, antes que tudo se desenvolvesse complicadamente, expliquei a ela o motivo da visitação daqueles senhores. Envergonhada, ela aquiesceu e confirmou tudo o que havia dito. Inspirada, quiçá por forças desconhecidas, abriu a porta e pediu que entrassem naquela casa simples.

"Perdoem-nos pela humildade com a qual os recebemos", disse-os ela, vestida em seus trajes de casa e com os cabelos arruivados presos sob uma touca. Em seus olhos claros observei uma força divina, e quase sorri diante disto. Gostava de pensar que mamãe a havia guiado para o nosso lar.

Desconfortáveis, os oficiais não viram outra opção a não ser aceitar o convite. Viram que era uma casa bem pequena, de fato, e não pude notar o desdém no segundo rapaz quando viu que os padrões de nossa vida eram insignificantes para aquele que deveria viver entre os nobres. Ainda assim, foi Adelaide quem o "quebrou" ao oferecer-lhe, gentilmente, um copo de cerveja:

"É tudo o que temos, mas garanto que a qualidade, embora longe de ser àquela que milorde tem o costume de bebericar, alivia em dias quentes como o de hoje."

Hesitantemente, porém, ele aquiesceu e eu ocultei um sorriso de meus lábios. Mais surpresa, porém, foi quando o vi ser inspirado divinamente a se levantar e oferecer qualquer ajuda à dona da casa. Apesar da relutância de Adelaide, diante da insistência deste ser, ela eventualmente aceitou. E agora estávamos eu e o belo homem à sós. Ruborizei.

"É uma bela casa", ele comentou. "Melhor das que eu já vi." 

Diante de tal comentário, optei por me abster de responder. Mas ele insistiu.

"A senhora vive aqui desde muito?"

Polidamente, o respondi:

"Desde que nasci, senhor."

Ele assentiu, pensativo. Movida pela vã curiosidade, embora muito mais pela atração inegável que me ligava a ele, falei:

"O senhor é desta região?"

Levantando seu olhar para encontrar o meu, respondeu-me ele com o que detectei ser um leve sorriso:

"Não. Venho de Paris."

"Ah."

"Mas lá ultimamente tem sido uma região impopular para o rei-imperador", me contou ele. Vendo a indagação em meus olhos, ele acrescentou: "Há muitas rebeliões ali, e algumas em nome de seus filhos."

"Oh", percebi, com a limitação que tinha do entendimento de política, o que aquilo poderia levar. "Não me parece bom."

"Não mesmo", ele concordou. "Mas que outra opção temos se não a obedecê-lo?"

Tal frase me pegou desprevenida. Percebi que havia muito mais nele que a beleza exterior poderia mascarar. Mordi meu lábio inferior e, hesitantemente, movimentei-me para ocupar um lugar ao lado dele.

"Sinto muito. Como poderia chamá-lo?"

Ele arqueou as sobrancelhas, mas não parecia surpreso com meu atrevimento. Em vez disso, respondeu:

"Theobaldo. Mas não sinta, senhora. Muitos de nós precisam fazer o que dispõem para sobreviver." E quando ele parecia indagar sobre o meu nome, seu companheiro regressou bastante satisfeito e de melhor humor.

Assim, ele se levantou e eu me vi desapontada quando, depois de breve trocas de olhares, o vi partir em conjunto com o rapaz. Observando minha reação, Adelaide se aproximou e, bondosamente, falou:

"Ele me pareceu um bom garoto, se quer saber a minha opinião. Forçado pelas circunstâncias a fazer o que, penso eu, em seu coração não faria. Afinal, os soberanos se mantém lá no alto porque usam, de acordo com sua razão, do poder que usufruem. Mas não é isto que vim lhe dizer. Ele a encantou, não foi?"

Incapaz de mentir, mas, envergonhada pela obviedade da resposta, baixei os olhos e nada falei. Adelaide riu e, acariciando meus cabelos, falou:

"Penso que ele gostou de você também, querida. Mas tome cuidado. Apesar de serem boas pessoas, ainda são criaturas que devem obediência a seres malévolos."

Entristecida com aquelas palavras, apenas assenti e prometi que me daria o respeito. Mas nada disso vale diante do poder do amor. No dia seguinte, também quando meu pai e meus irmãos se ausentaram para o trabalho, ele retornou, para minha surpresa--e meu contentamento.

"Senhor Theobaldo!", exclamei. "O que o traz aqui agora?"

Embora de sério semblante, Theobaldo corou. Limpou a garganta e disse:

"Creio que deveria investigar mais particularidades do caso e..."

Inspirada por um atrevimento que não me era natural, o sorri e falei:

"Acaso o senhor está inventando uma desculpa para saber meu nome?"

Diante do vermelho que pintava seu rosto empalidecido, ri e disse, alegre:

"Helena, senhor."

Desconcertado, Theobaldo assentiu com a cabeça. Naquele dia, vestia trajes mais leves e imaginei se ele não pretendia vir incógnito, como se desejasse se desassociar de sua obediência ao bispo braço-direito de Carlos Magno.

"Encantado", disse ele, sem emoção.

"Gostaria de algo para beber?", ofereci docemente. Quando nossos olhos se encontraram, soube de imediato que meu coração era dele. Oh, que sensação enebriante em encontrar aquele que espelhava sua alma!

"Seria rude de mim recusar", disse-me Theobaldo, adentrando enfim a casa.

Adelaide, que, na ocasião, varria a casa, não se surpreendeu com o regresso do oficial do bispo. Ocultou um risinho e, arranjando qualquer desculpa, nos permitiu ficarmos à sós na sala.

"E o que traz aqui, afinal?" perguntei, depois de lhe dar um copo de cerveja para beber.

"Para ser bem sincero, seu bom espírito me trouxe aqui", ele respondeu. "Conheci pouquíssimas moças como a senhora em toda a minha vida."

Não negarei ao leitor que diante deste "pouquíssimas moças", despontou em meu coração o terrível ciume. Mas prontamente o controlei: como poderia senti-lo, e com qual direito, se mal o conheci? Não era ele homem livre para conhecer damas segundo sua vontade? Contudo, tal pensamento me direcionou a outro tipo de reflexão. E se ele veio com a intenção de fazer-me amante sua? Sabia muito bem de nobres senhores que utilizavam-se de sua posição para desonrar donzelas na região. Igualmente estava ciente de que, no dia em que casarei com homem de escolha de meu pai, poderia passar a primeira noite com o duque. Por isso, me ouvi dizer:

"Se pensa que entregarei minha virtude ao senhor, está enganado. Sou virgem diante do Cristo e se não sou sua noiva foi porque o senhor meu pai guarda planos para mim."

Pela primeira vez, vi Theobaldo arregalar os olhos e, para minha grande surpresa, cair em gargalhadas.

"Mas ora", bufei em protesto, lutando para não rir tampouco, "que direito tem para rir de mim desta maneira?"

"Perdoe-me, senhora", disse-me Theobaldo com um sorriso que derreteu qualquer resquício de orgulho que pudesse ter sido ofendido com seus maneirismos. "Mas não pensava que a senhora teria pensado desta maneira. Não sou, por suposto, este tipo de homem."

Com vergonha, admito que fui orgulhosa quando retorqui:

"Palavras não me subornam, senhor Theobaldo."

"Os bardos teriam se sentido ofendidos com sua afirmação, senhora Helena."

E aquela frase fê-me sorrir tanto quanto ele.

"Admito que não esperava que o senhor tivesse qualquer senso de humor."

"E a senhora costuma julgar os que não conhece tão frequentemente?"

Corei diante daquela exposição de minhas faltas.

"Não nego que errei", falei então, "mas como pensar de outra maneira quando está associado a uma classe de guerreiros que a tudo obedece segundo diz sua senhoria?"

Com tristeza, lamentei pelo sorriso ter sido desvaído dos belos sorrisos daquele homem.

"Não temos outra opção. Dependemos dele", foi o que me respondeu. "Cresci numa aldeia miserável, senhora. Órfão desde tenra idade, fui tratado quase como um escravo por parentes próximos. Quando começaram a convocar homens para servir o rei, assim que tive idade, me alistei. Não recomendo isto a ninguém, é verdade, mas para mim... foi um meio de vida que me sustentou. Não é com soberba que afirmo que não sou mais pobre, porém, ainda sou dependente de meu senhor."

Franzi o sobreolho diante de sua história. Aquilo propôs uma alteração de perspectivas de tudo o que pensava saber dos velhos inimigos do povo. Constatei que não deveria julgar o que desconhecia. E me envergonhei de ter alimentado tal vício de caráter.

"Lamento por ouvir isso", falei. "Mas vale a pena? Não pensa que somente mudou um senhor para outro?"

Como se conformado pela vida que tinha, Theobaldo deu de ombros.

"Que outra opção teria? Permanecer maltratado e aguentar em silêncio as vicissitudes que a vida me impunha? Não seja maldosa comigo ao inspirar-me tal pensamento, senhora. Não sou um santo para me pretender tal santidade."

Sorri diante de sua frase e falei:

"Em nós todos habita o véu da santidade, embora poucos são os que levam a sério. Mas peço ao senhor minhas sinceras desculpas pela soberba com a qual julguei o senhor e sua decisão. Não foi minha intenção."

Theobaldo, como se movido por uma inspiração desconhecida, tomou minha mão na dele. Surpresa, porém, não a recusei. Apenas tornamos a nos entreolhar por uns minutos, como se nós nos reconhecêssemos afinal. Contudo, antes que retomássemos a palavra, a porta se abriu abruptamente, fazendo com que nós nos repelíssemos o toque e assim foi que apareceram meu pai e meus dois irmãos.

"Mas ora essa!", bradou meu pai. "Que está acontecendo aqui?"

Adelaide veio correndo em nossa direção e, quando pôs a explicar tudo o que aconteceu, a expressão de meu pai atenuou-se. Já um senhor de quarenta e dois anos, seu rosto estava marcado pelo sol e cicatrizes de trabalho eram vistas ao redor das bochechas em torno das mãos. Seus cabelos castanhos à luz do sol pareciam ruivos, mas envergonhado destes, costumava apará-los quando podia. Acompanhava-os, mais jovens, seus filhos e herdeiros. Thorin, o primogênito, era, como eu, portador de cabelos ruivos. De olhos castanhos e nariz torto (quebrou-o depois de ter se metido em uma briga qualquer na taverna da cidade), era belo mesmo com os lábios finos, herdados de nosso pai. Era forte e seu temperamento refletia o fogo das madeixas. Ao lado direito do pai, o mais novo, Odair. Católico fervoroso e franzino, preparava-se para entrar na ordem agostiniana. Cortou os cabelos, também ruivos--ainda que mais escuros--, embora mantivesse uma barba mal cultivada. De olhos claros, seu rosto era oval e inspirava bondade. Embora cândido, ainda havia traços de orgulhos que o levava a embates direto com Thorin, como já os informei antes. Conforme crescíamos, porém, as brigas diminuíam.

Theobaldo os recebeu bastante bem e foi cortês em maneiras e falas. Surpreendeu-os a todos, que esperavam de um oficial do reino um tratamento quase impuro e indigno da posição que nos foi designada desde o nascimento. Assim foi que a ligação entre nós todos se firmou prontamente. Mas quando ele partiu, Thorin veio ter comigo.

"Estimada irmã, devo conversar com você sobre um assunto delicado."

Eu ri. Sempre fui afeiçoada aos meus irmãos e talvez tenha herdado deles uma língua afiada, mas era tão próxima a eles que, mesmo na juventude, Thorin não era muito paciente com meus carinhos. Não obstante, éramos apegados uns aos outros.

"Já antevejo o assunto", disse eu.

Ele ignorou minha provocação.

"Theobaldo é um homem e como tal procura pelas donzelas para satisfazer-se as necessidades que marcam seu sexo", disse ele, direto como costumava ser. "Não permite que suas intenções, mascaradas tal qual um lobo sob a pele de cordeiro, as engane, minha irmã. Você tem seu valor e, logo mais, um marido adequado desfrutará segundo as leis do sagrado matrimônio."

Senti um desapontamento desconhecido diante disto. Deveria, todavia, me surpreender com aquilo? Não havia outro destino para mulheres como eu, principalmente camponesas. No entanto, por que sentia que meu lugar estava ao lado de Theobaldo? Ora, me repreendi mentalmente, mas que tolice sugerir outra coisa. Thorin era o mais mundano de todos, e como irmão meu, não diria inverdades. 

Vendo o desapontamento em meus olhos, Thorin suavizou e disse:

"Cara irmã, por que a tristeza em tão belos olhos? Acaso não pensou realmente que ele seria como o rei Arthur foi para sua rainha Guinevere?"

Sorri e, piscando os olhos, falei:

"Nunca pensei que o amor poderia ser adequado à gente como nós".

"Não", ele concordou. "Apenas devemos seguir com nossos deveres, e se deles surgir um amor tal qual aconteceu com nossos pais, os deuses nos abençoaram, de fato."

Tomada por uma intuição abrupta, isso fê-me recordar do propósito original que trouxe Theobaldo e o amigo à nossa casa.

"Quanto a isso, Thorin. Devo alertá-lo para ser mais cuidadoso com suas preces e sacrifícios. O bispo está ciente de suas ações, e sabemos como é Carlos Magno diante de qualquer manifestação religiosa que ele enquadra como não-cristã."

Thorin franziu o sobreolho diante de meu aviso e precipitava-se a reclamar quando, pensando melhor, calou-se. Diante da preocupação que estampava meu rosto, porém, ele tomou minhas mãos e assegurou-me de que tomaria cuidados. 

*                                                                                    *                                                                      *
Theobaldo me visitou por mais uma semana antes de partir para a Lombardia. E mesmo quando podia, escrevia-me cartas. Naquela época, não era comum que moçoilas fossem instruídas na arte da leitura. Todavia, como meu irmão Odarin havia recentemente entrado para a Igreja, ele, quando podia, me ensinava a ler. Assim é que, à época da primeira carta recebida, a li com muito afeto. No entanto, não ousei responder, pensando que esta seria uma união que o rei-imperador não aprovaria.

Mas Theobaldo regressou e, para meu grande contentamento, veio a mim. Seu amigo, cujo nome tomarei como Johann, passou a acobertar nossos encontros. Assim foi que, em meio a tudo isso, o amor floresceu externamente. Neste dia, com a permissão dada por meu pai, que nutria esperanças para um casamento e a oportunidade de ver sua estimada filha sair da pobreza, fomos caminhar pelos arredores dos jardins que levavam ao bosque. 

Ali, à sós, ele tomou minhas mãos nas suas e professou seu amor:

"Minha senhora, nestes tempos em que estive fora, doeu-me não receber qualquer resposta sua e que agora compreendo quando me deu sua justificativa. Mas feriu-me mais ainda sua ausência. Não poder contemplar a forma como sorri com seus olhos castanhos, nem sentir o perfume de seus cabelos, tocar as madeixas e sentir o fogo delas escorrer pelos meus dedos. Estar longe da senhora impediu-me de dormir, e a preocupação que me afligia todas as noites em ignorar seu bem estar foi como um soco no estômago. Ouso dizer que desconhecer a reciprocidade que possa haver entre nós dois doeu-me mais que a queda de cavalo em guerra ou pior que receber o golpe de uma espada, incapaz de apará-la. A que custo é não saber que se passa com a senhora, Helena. Diga-me de uma só vez se alimento ilusões e, caso sim, que as desfaça prontamente."

Com que ardor ele pronunciou tais palavras ao mirar-me nos olhos! Com que paixão abriu seu coração para mim com intensidade por mim desconhecida! Meu impulso era beijá-lo nos lábios, mas tamanha era sua ansiedade que refreei-me e, com lágrimas vertendo de meus olhos, falei-o da seguinte maneira:

"Oh, Theobaldo que ao meu coração é tão caro! Como pode confabular em impossibilidades quando pertenço a você desde o primeiro dia em que repousou seu olhar sobre mim? Como pôde cogitar que estivesse imaginando coisas quando eu sinto o mesmo que você? Durante todas essas vezes em que me veio visitar, acaso ignorou a forma como o observava? Ou como sorria debilmente a qualquer palavra sua? Nunca tomou nota da felicidade que enchia meu peito e resplandecia em meu sorriso ao vê-lo feliz e rir? Sequer percebeu o rubor que queimava minhas faces diante de todo e qualquer elogio que me dispensava? Ao contrário, devido a minha posição social, penso eu ser indigna de suas atenções e longe de ser merecedora de amor tão puro! Como posso eu respondê-lo à altura? Devota que sou, porém, garanto ao senhor que homem algum o substituirá em minhas ternas afeições. Ouso mais, se me permite dizer, que sonho em ser a mãe de seus filhos e amá-lo com todo o meu ser!"

"Helena, minha amada!"

"Theobaldo, amor meu!"

E para calar os tambores de nossos corações, enfim selamos nosso destino com o mais apaixonado dos beijos. Não passou pelas nossas mentes do atrevimento deste gesto porque como resistir ao impulso de amor verdadeiro que liga duas almas em uma só? Como não ignorar as convenções somente porque tal gesto possa ser mal interpretado? Que tolo nunca amou, eu pergunto? O amor sincero, e não o carnal, a tudo desafia e sobrepuja. E conosco, não obstante o que vivíamos, demonstrava-se em tal felicidade nunca antes almejada.

"Sê-me esposa minha", ouvi-o dizer e diante disto verti lágrimas de felicidade. "Helena, por que prantear? Não penso em mais nada que não você, em acordar ao seu lado e fazer de minha senhora e dona de tudo o que possuo!"

"Que assim seja, meu senhor", respondi-o alegremente. "No entanto, não se engane! Pranteio por felicidade, não por tristeza. Saber que sou correspondida é como se Deus bondosamente permitisse ter uma visão do próprio Céu!"

Assim estávamos. Noivos, comprometidos. Que Deus e seus deuses testemunhassem aquela cena, tal reencontro de almas. No entanto, o mundo em que havíamos encarnado não estava preparado para aquela felicidade, sendo ela passageira e sujeita a tantos seres maliciosos e infelizes. A dificuldade, lamento dizer, viria como tempestade depois de breve calmaria.

*                                                                                    *                                                                     *
Para consternação de todos, o bispo não cedeu permissão para a realização do casamento. Segundo Theobaldo, que um servidor do rei e valoroso guerreiro desposasse uma camponesa qualquer... estava para além das leis de Deus.

"Que a tome como amante, eu pouco me importo", lhe havia dito o homem. "Conquanto não se esqueça dos deveres que tem para com seu rei-imperador!"

Theobaldo, não obstante, tentou outra vez mais com o próprio soberano na oportunidade que tivera. Como resposta, foi enviado às longínquas terras do oriente para cumprir três anos de pena. Embora persistente no amor, ele cumpriu com seus deveres e instruiu-se em tantas outras tarefas. Conheceu o budismo, que teve nele uma impressionante influência. No entanto, por maior esclarecimento que pudesse ter sobre as realizações no pós-vida, nada o impediu de regressar.

No meio tempo, recusei todas as vontades de meu pai de casar-me com alguém da sua escolha. Embora tivesse perdido sua paciência, eventualmente nós nos reconciliamos e ele concordou esperar até que ele voltasse. Quando Theobaldo voltou, não obstante as negativas obtidas, consumamos nosso amor. E naquele mesma noite, concebi nosso primeiro filho.

As tensões estavam aparentes, e, segundo diziam por aí, Carlos Magno estava morrendo. Mas a realidade para nós, camponeses, era deveras outra. Havia seca, pragas, mortes, guerras, doenças... Tudo o mais para ocupar nossa mente. Todo cuidado era pouco. E quando me descobri grávida, meu pai novamente esbravejou e, desta vez, Theobaldo esteve presente para ouvir.

"Filha minha não será mãe de bastardo nenhum! Que se dane o bispo, ou despose ela agora, ou terá sido responsável por arruinar a reputação de bela moça!"

Embora temeroso de desagradar o bispo, Theobaldo não era covarde. Ele não pensou duas vezes e, com ouro o suficiente no bolso, contratou um padre adequado para o testemunho do casamento. Foi um cenário feliz que apaziguou, por ora, as tensões. Ali foi que casada, eu me mudaria para a residência de Theobaldo, à oeste de Paris. No entanto, uma tragédia acabaria por adiar tudo isso.

Thorin foi descuidado em suas práticas de fé e, para grande deleite do bispo da cidade, foi enfim preso e acusado de heresia. Theobaldo tentou argumentar a seu favor, mas o bispo o ameaçou de acusá-lo de auxiliá-lo se não se afastasse. Como estava a ser pai de uma criança que poderia ser seu herdeiro, e temendo ter suas propriedades confiscadas pela Igreja, ele aquiesceu. Foram dias desesperadores, e o estigma social teria marcado a nós todos. 

No entanto, a sentença foi computada e trocada para servidor cristão porque... Carlos Magno, o poderoso rei-imperador da França e de domínios afora... enfim faleceu. E, a despeito dos esforços do bispo, havia amigos de Theobaldo na Igreja que, favorecidos pelo herdeiro de Carlos Magno, impediram a morte de meu irmão. Todavia, Thorin foi obrigado a converter-se efetivamente e, para a agonia de nosso pai, entrou na Igreja como padre. Agora atendia pelo nome de Paulo. Enviado às fronteiras da França com o que na sua contemporaneidade é a Alemanha, demorariam vários anos até ouvi-lo outra vez. 

Mas nosso pai foi poupado das dores da falta de um herdeiro porque, logo, dei à luz ao um menino. Chamamo-no de Saulo. A felicidade doméstica parecia, enfim, perfeita. Não éramos incomodados pela Igreja, e nesse ínterim, vivíamos com meu velho pai. Concebi novamente, mas as nuvens da tempestade chegaram desavisadas.

Uma guerra civil manchou a França novamente, opondo dois irmãos em busca da sagrada coroa de imperador romano-germânico. Quem era verdadeiramente o herdeiro de Carlos Magno? Mais importante, a quem a Igreja apoiaria e coroaria? Hesitante, ela, a princípio, não se meteu. E meu esposo, amado meu, foi chamado para servir. Eu nunca mais o veria outra vez.

"Theobaldo", chamei por ele. Era madrugada e eu despertei angustiada. Havia tido um sonho, uma premonição, sobre sua morte. Via seu cadáver ensanguentado, e isso muito me custou o coração. "Acorde, acorde."

Ele abriu os olhos e me encarou, assustado diante da minha aflição.

"O que houve?"

"Não vá à guerra, eu imploro", falei, não compreendendo, em verdade, a mensagem do sonho. "Por favor."

Theobaldo me acolheu em seus braços e, depositando um beijo afetuoso sobre minha fronte, disse:

"Infelizmente, amada minha, não escolho meu destino. Sabe disso, e que se pudesse, desafiaria o mundo para ficar ao seu lado e ver nossa família crescer..."

"Não diga uma coisa dessas", retruquei, ríspida. "Se é assim que vai ser, volte para mim, meu amor. Por favor."

Estávamos desolados porque ambos sentíamos a mesma coisa. O fim de nós estava a vir e não havia nada que pudéssemos fazer para impedir. A calamidade ocorreria em breve. Assim, abraçamo-nos e beijamo-nos, amamo-nos como se não houvesse amanhã. Mas o amanhã chegou e ele se tornou o presente temido.

"Não se esqueça de que o amo", falei com lágrimas nos olhos.

Como se impelido por força maior, Theobaldo, também ele piscando lágrimas dos seus, veio a mim e beijou-me terna e intensamente. 

"Eu a amo mais que tudo, senhora. Voltei, Helena. Voltarei para os seus braços."

Mas quando ele partiu, meu coração o seguiu. 

*                                                                                 *                                                                         *
Enquanto Theobaldo preparava-se para seu desencarne, também eu me preparava para o porvir. As dores do parto vieram antes do previsto, e aquele seria um longo e difícil, ao contrário do anterior. Para nosso desespero, havia poucas mulheres na cidade dispostas a ajudar. Mas, para minha surpresa, Samara veio ao meu socorro. Foi então que ao lado de Adelaide, prontificaram-se a tentar a trazer a criança a este mundo.

A dor, meus caros, era insuportável. Não havia conforto, somente dor. A cama, outrora meu lar, não mais me refugiava. Suor pingava da testa, e o desespero aumentava para tirar a criança do meu corpo. Que ela viesse viva, eu rezava desesperadamente. Pelo amor de Deus!

"Puxe, Helena!" Me estimularam as mulheres, em suas vozes a preocupação. A indicação que algo estava errado.

No entanto, fiz o esforço. Mas sentia-me fracassar e isso fê-me chorar. O desespero aumentava, eu desejava tê-lo aqui perto. Onde estava Theobaldo? Podia ouvi-lo chamar meu nome, incentivar-me. E meu coração se partia, porque eu pressentia... pressentia que ele não mais vivia.

Então, gritei. 

E quando tive a visão do sonho realizando-se, gritei de novo.

Gritei por Deus. Por Theobaldo. Pensei em Saulo, e tentei evitar outro grito para não assustá-lo, mas as batalhas das mulheres eram lutadas no parto. E conforme ele se aproximava, uma luz invadiu o quarto. Luz que ninguém mais via.

Uma bela moça em trajes púrpuras vinha, iluminada, ao meu lado. Trazia com ela, Theobaldo. Quando constatei o que se passava, minha mãe e meu esposo, chorei copiosamente.

"Filha, acalmai-se", disse minha genitora, falando tranquilamente. "Tenha fé, seja perseverante. O reencontro ocorrerá em breve, mas não se entregue ao desespero. Sê humilde, agradeça ao Pai e entregue a Ele toda sua dor, que logo findará. Nenhuma aflição é eterna. Pense em nosso irmão, Jesus, na cruz, que suportou a transição na fé"

"Mamãe..." murmurei. "Perdoe os erros desta filha sua. Esforço-me, mas não é o suficiente. Socorre-me..."

Enfraquecia-me e sentia o fim. Mas minha querida mãe me sussurrava palavras de conforto, e Theobaldo ajoelhou-se ao meu lado e disse:

"Nós conseguimos passar a todas estas provações juntos, meu amor. Um instante mais e estará em meus braços novamente."

Chorei. Ele continuou, tão doce quanto em vida havia sido:

"A criança nascerá e viverá bem, e por ela quanto ao seu irmão velaremos todos os dias."

"Eu te amo", falei, exausta.

"Também a amo, bela Helena."

Deitava-me novamente no travesseiro, ensopada de suor. Ouvia palavras de estímulo ao distante, mas tentava me concentrar nas preces que fazia. Se Cristo suportou a cruz na fé, também eu poderia atravessar a dor do parto. Abracei a aflição, em meio ao desespero, e enfim a criança saiu de mim. Um berro, um choro a plenos pulmões e eu cumpri minha missão.

No entanto, não poderia ir. Não agora. Embora me congratulassem pela criança saudável, o semblante de preocupação indicavam que a situação não era boa. Não obstante, recusei que chamassem outros conhecidos da saúde pela região, e pedi para segurar minha bebê. Era uma menina.

"Chamarei-te Mariam", murmurei, fraca. "Em honra da mãe de Jesus, Todo Poderoso. Mamãe te ama, minha filha. E seguirei a amando mesmo que não esteja mais aqui para protegê-la deste mundo cruel. Mas tenha fé e seja humilde, encontre em Cristo a força de que precisa para as batalhas que lutará".

Choravam Adelaide e Samara, prometendo a mim que cuidariam de Mariam e Saulo. Trouxeram-me ele e meu pai afinal, e, mesmo chorando a despedida, inspirada por minha mãe falei:

"A separação é breve, meus amados. Não pensem que isto é o fim. Logo mais, nosso Pai nos reunirá outra vez."

"Descanse, Helena", sussurrou a voz de Theobaldo. "Venha descansar em meus braços, minha bela."

E foi assim que em complexa exaustão, adormeci..."

*                                                                               *                                                                              *
Nota de Helena: quando despertei no mundo espiritual, o foi sem quaisquer problemas de ligação com o corpo deixado em Terra. No entanto, foi preciso todo um processo para me limpar das energias terrícolas tanto pelas questões emocionais quanto espirituais, tendo em vista que havia escolhido aquele modo de "morrer" para me regenerar de pecados pretéritos cometidos. O Pai em sua infinita bondade me concedeu a presença daqueles que mais amei, minha mãe, embora a tivesse conhecido pouco em vida, fomos bastante próximas em outra; e meu amado Theobaldo. Quando fui esclarecida, ou melhor, me lembrei das instruções em torno da espiritualidade, me senti muito tocada por isso. Reunir-me com os amados é um presente que devemos ser gratos. As diferenças, principalmente quando em Terra, existirão, mas não para opor uns aos outros e sim aproximar ainda mais. Cada um com sua individualidade, voltando-se para o bem. Tendo isso em vista, eu e Theobaldo, almas afins, procuramos mais uma encarnação para findar os débitos reminiscentes. Optamos por sempre nos reencontrar como casal, pois em jornada dura, os frutos colhidos são doces. E o Alto, com a graça divina, concedeu-nos tal permissão. Assim foi que nós encarnamos pela última vez na Itália na época da 2ª Guerra Mundial. Desde o findar daquela existência, temos trabalhado espiritualmente pela Terra. Recusamos, por este motivo, o conhecer de outros planos, mas isso não é definitivo. O importante agora é semear o bem, a caridade, a compaixão, a humildade e, acima de tudo, o amor. O amor paciente, o amor humilde, o amor sem posse, o amor empático, o amor puro. O amor que compreende. Nada é impossível, tenham fé. E foi por isso que vim escrever esta memória que me é tão querida e me ensinou tanto. Meus agradecimentos ao Pai que permitiu que esta missão se realizasse sem complicações, e à Médium e ao seu Guia, seu Mentor que fizeram possível transmitir esta mensagem. Que Deus os acompanhe, meus amigos e irmãos, nesta longa empreitada. Com muita certeza, seguirei os acompanhando. Com amor, Helena e Theobaldo.

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