terça-feira, 21 de julho de 2020

Bahia de Todos os Santos

"A história que contarei aqui é breve, embora carregue tantos aprendizados que trago comigo até os dias de hoje. É uma memória que penso, humildemente, ser relevante transpor. Não me aprofundarei nos pormenores do dia-a-dia, nem me alongarei por toda a encarnação vivida, me atendo mais ao que creio ser importante contar aos que se dispuserem a ler e, ainda mais importante, a aprender. Desde já deixo aqui meus agradecimentos por esta transmissão, pelo carinho que tenho com a médium e com toda a paciência que o Pai assim designou para que tudo isto aqui pudesse ser levado à frente.  
Maria Caterina do Congo."

"Quando vim a nascer, os dias eram outros e muito diferentes destes que demarcam a contemporaneidade deste século ainda nascente. Brasil não existia enquanto entidade política e sua existência era eclipsada pelo poderio de Portugal, cujo império capturou e desbravou em nome do Senhor as terras virgens e já outrora ocupadas pelos nossos irmãos vermelhos. Na precisão de uma lupa, esclareço-os: nasci em 1785 na ascendente Bahia quando nosso país ainda era colônia e cuja economia movimentava nossos dominadores da época. 

Não me compete julgar o comportamento de nossos irmãos daqueles tempos, por mais tristes que muitos deles possam ter sido movidos. Mas quem nunca errou, que atire sua primeira pedra. Em termos da espiritualidade, Deus não erra de endereço, meus filhos. Como os dizia, encarnei em tempos obscuros, marcados pela grande influência da matéria, onde, em nome de Jesus, nosso irmão, cometiam-se as piores atrocidades. 

A escravidão era vigente e, sob suas correntes, vivi. Não deve surpreender a nenhum conhecedor desta época que vim de um pai senhor de terras que pensou amar, se não possuir, a pobre sinhá por ele escravizada e tratada como objeto segundo valia sua vontade. Apesar disto, sua esposa, cujo nome darei por Isabel, me adotou como filha em face do falecimento prematuro de minha genitora: não suportando os algores desta encarnação, perdeu a vontade de viver assim que nasci. Embora de classe social mais "alta" que a minha, seu coração era humilde. Era verdadeira cristã e procurava diariamente dissuadir seu esposo de manter em nossas terras irmãos em Cristo que por suas mãos foram tomados como escravos. Ainda que como resposta recebesse ofensas verbais e físicas, ela não desistia e rezava diariamente. Antes do nascimento de seus filhos, fui criada por ela com gentileza e tomei-a como mãe. Nomeou-me Ana Maria em homenagem às santas que, na verdade, lhes abençoou no plano espiritual antes mesmo de sua encarnação.

"Vejo em você", me contava ela quando eu ainda tinha cinco anos, "a sabedoria de Santa Ana e a doçura de Santa Maria. Que essas suas características não se percam neste mundo cruel, minha querida filha."

De um laço que vinha de outras vidas, inclinei-me quietamente àquela mulher de doce temperamento. Ainda me recordo de sua aparência: sua estatura era média e seu corpo, franzino, não reportava grandes sinais de saúde robusta. Embora frágil, conservava uma beleza singular: seu rosto era oval, seus cabelos louros eram cacheados e os olhos eram do castanho mais escuro em que havia posto o olhar. Seu rosto, pálido como a luz do luar, esquivava-se da maquiagem importada das cortes europeias e tal falta de vaidade irritava o marido, que acreditava fazer da beleza de sua consorte objeto de exibição de sua própria soberba diante de uma sociedade afeita às aparências.

Sinhá Isabel era amada por todos nós. Tratava todos os irmãos de pele escura com o mesmo amor que a mim me devotava, ganhando, assim, seu devotamento. Mesmo o mais rebelde deles acatava os pedidos desta nobre mulher. Quando eu alcancei a idade dos sete anos, me recordo de ter testemunhado uma cena terrível aos olhos de qualquer ser humano de coração enternecido: este senhor "rebelde" chamado Zé, que, em verdade, não aceitava sua situação, quase perdera a vida depois de ter sido cruelmente chibatado pelo sinhô da casa. Se sua vida não findou-se ali foi pela intercessão de Isabel, sua esposa, que foi cuidá-lo ali mesmo, ante o horror do esposo que não mergulhou nas densas trevas da cólera por intermédio espiritual.

"Perdoe-me, senhor Zé", era assim que nobilíssimo espírito se dirigia a homem que, não obstante sua injusta condição, descontava em suas companheiras a raiva de tal forma que não irei a fundo. "Perdoe-me por não ter impedido meu esposo agir desta maneira para com sua pessoa. Somos todos irmãos em Cristo, e sinto que deveria advogar mais pela sua causa e a de seus irmãos. Compreendo o sentimento que nutre por nós todos, mas ainda venho implorar-te o perdão pelas faltas cometidas por nós."

Lembro-me dos olhos de Zé se arregalarem entre a vergonha e a compaixão, as lágrimas sinceras velando seu olhar.

"Sinhá Isabel, suas palavras e bom coração me comovem. Sei que se esforça no que é possível para nos libertar, e, apesar de pensar que seu Cristo em nada tem feito para nos auxiliar desta miséria imposta, agradeço que o único conforto deste ser a quem reza tenha-me trazido a senhora. Não nego que ódio nutro por seu esposo, mas a senhora deixo aqui meu perdão e todo o amor que por você nutro."

"Agradeço comovidamente por suas palavras, irmão Zé, mas não desejo ser dirigida como "sinhá", pois este título engrandece o que não posso e nem ouso engrandecer. Ao contrário, o que nos separa aqui é a posição que todos os dias luto para alterar. Ainda que meu pobre esposo esteja acorrentado às vicissitudes que nosso Cristo nos estimula a combater pelo amor que nosso Pai carrega por todos seus filhos, peço-lhe ainda assim perdão para que o ódio, embora justificadas sejam suas razões para senti-lo,  não atormente sua alma."

Tendo o cuidado ali mesmo, na praça diante de testemunhas perplexas, respondeu Zé:

"Ora, senhora, já não sou atormentado? A senhora, por bondosa que seja, não sente o que sinto. Vejo em seus olhos empatia e compaixão, mas que podem eles com um homem aprisionado por seu semelhante? Como perdoar quem me causa dores no dia-a-dia? Isabel, não é objeto de meu rancor, asseguro-a, sim. Mas não posso conceder perdão a este homem."

Isabel suspirou e pranteou em silêncio, tendo nada mais respondido enquanto cuidava das feridas de Zé. Afinal, o que mais dizer para um espírito amargurado, fixo em sua decisão? Não obstante o peso das palavras daquele homem, Isabel tornou a cuidar dele... mesmo que, à noite, todos nós escutássemos seus gritos quando cruel consorte abria a porta de seus aposentos.

Em meio ao calor da batalha travada entre a escuridão e a luz, fui criada dentro dos dogmas cristãos daquela casa. Era invisível aos olhos do patrão e assim era melhor. Isabel, que a cada dia enfraquecia mais, se esforçava para dar continuidade aos seus deveres crísticos. Sendo assim, mesmo a cada gravidez, não olvidava sua missão comigo. Ensinava-me a cozinhar, a cozer e, também, na sabedoria feminina. 

"Minha mãe", ela me confidenciou quando eu já contava onze anos, "era conhecedora de ervas e da medicina que, a contragosto, cabe aos homens de letras. Confidencio isso a você, Ana, porque sei que é minha filha de coração e de alma. E o conhecimento, lembre-se disto, deve ser sempre passado à frente."

Embora tivesse uma vida amorosa ao seu lado, temia aquela casa. Quando possível, fugia junto aos meus irmãos de cor, apesar de desconfiança que imperava dos mais rancorosos. Uma vez, ouvi da mãe de uma amiga:

"Quando o chicote bate, onde você está, Ana Maria? Rezando a um Deus branco para esquecer de suas origens, sua pele, a fim de que se torne branca?"

Palavras eram como facas e flechas: uma vez atingidas o alvo, faziam-no sangrar. No primeiro momento, chorava, mas foi a filha desta mulher, quem nomearei Rita, que disse:

"Sê forte, Ana. Não somos recompensados pela nossa dor?"

"Como pode dizer uma coisa dessas?", murmurei incompreensivelmente. Não escapei à infantilidade da época, embora lamentasse por ter dito aquilo. Por isso, prontamente me corrigi: "Que quero dizer é, você não pensa o mesmo que todos eles?"

Rita tinha os olhos mais escuros que havia visto e sua pele de bronze parecia reluzir ao luar. Gostava de trançar os cabelos e sorria em meio às dificuldades da vida. Sábia, pôs-se a dizer:

"Não digo que me alegro com a nossa condição, mas eles se esquecem de que você também luta para sobreviver tanto quanto nós outros. Ninguém deveria julgar. Cultuamos nossos orixás quando os senhores brancos adormecem, e deles recebemos os mais humildes valores que poderíamos apreender."

Lembrava-me destes cultos, mas não tinha a oportunidade de me apresentar a eles porque os filhos de sinhá Isabel necessitavam de minha atenção e, a despeito da bondade desta senhora, seu esposo demandava que os assistisse de perto. Por isso, ausentava-me. Por isso, era interpretada daquela maneira pelos que faltavam compreensão.

"Conte-me mais, por favor", pedi.

Sorrindo porque estava ciente do que se passava, contou-me Rita:

"Ontem à noite desceu até nós Oxalá, filho de Zambi. Emocionou-nos a todos com seu aviso, pois disse ele assim: 'filhos meus, não são esquecidos por este que vem aqui confortar o peso que habita e afunda seus bondosos corações; crê em mim quando digo que estou com vocês em suas lutas diárias, auxiliando-os e inspirando-os a resistir estas provações diárias. No entanto, o que mais o amordaçam: as correntes que envolvem seu corpo ou aquelas que prendem suas almas? A resistência não vem na resposta do ódio sobre o ódio, na violência sobre a violência, mas no amor que a tudo perdoa e dissolve. As terras de seus ancestrais sangram diariamente, algumas pelas mãos de seus próprios irmãos, e a eles também não perdoaram? Não amaram? O que difere do agora? Creiam quando digo que pranteio por cada um de vocês, que não desisto como o Pai não desistiu. Vejo o rancor, a amargura, a dor que cambia em cólera, mas, meus irmãos, não se trata disso. A fé que os faz olhar para nós de cima não pode ser a mesma que os faz olhar com ira para aqueles que os crucificam. Peço-os apenas que os perdoam, meus irmãos e minhas irmãs. Perdoam seus algozes, pois eles não sabem o que fazem'."

Ao fim daquela mensagem, pranteei copiosamente. Senti que necessitava fazer algo a mais, mas Rita apenas tomou minhas mãos nas suas e falou:

"Não se exija, minha irmã. Todos nós carregamos o mesmo fardo, em pesos desiguais porque a cada um segundo suas obras, não é mesmo? O que você faz a cada dia é mais do que eu ou minha mãe ou qualquer um de nós poderíamos fazer. Não se diminua, mas guarde o hoje para que amanhã possa coletar bons frutos."

"Que Oxalá a abençoe", eu falei, abraçando-a fervorosamente.

Rita sorriu e, tendo retornado o gesto amigavelmente, falou:

"A você também, querida Ana. Lembre-se que Nanã tudo faz vagarosamente, mas com sabedoria porque nada lhe escapa os olhos, seja o passado, o presente ou o futuro. As sementes precisam ser semeadas apropriadamente para que resultam em belas árvores a fim de colhermos nós os seus frutos."

"Que assim seja", eu disse, pensativa.

Mas a dificuldade não me escaparia, é claro. Na verdade, em meu íntimo a aguardava. Isabel cumpriu com sua missão em meio a tantos obstáculos, mas o Pai a chamou segundo se fez Sua vontade. No entanto, o sinhô, seu esposo, ele também escravo, mas de forças obscuras, dominou todo o ambiente de forma infeliz. Tomou como amante a mãe de Rita, minha amiga, espírito que com ele possuía bastante afinidades. A revolta na senzala explodiu eventualmente e, conforme crescia, tornei-me o centro da raiva de ambos.

No entanto, por tristeza que sentisse mais ainda de sofrer retaliações físicas da irmã de cor, compreendi suas limitações. Rita a tudo tentou para amenizar a situação, mas logo ela atraiu os instintos embrutecidos de sua genitora. Foi uma juventude conturbada para nós duas, mas que soubemos enfrentar de frente. Quando podia, passei a frequentar os cultos aos orixás sem com isso me escusar das missas que me encantavam.

Neste meio tempo, cresciam a um ambiente doméstico obscuro os filhos de Isabel que um dia ajudei a criar e tomei mesmo como irmãos meus, apesar das injúrias raciais que receberia de alguns deles e do pai de ambos--que, ora, não era meu genitor também? Nomearei-os Clara, Josefina, Enrico e Teobaldo. Como primogênito, Teobaldo foi criado para herdar as propriedades do pai e, em sua juventude, foi até mesmo enviado à Lisboa para cursar advocacia em uma de suas universidades. Retornaria com o orgulho e a vaidade aos extremos. Enrico, enciumado da atenção dada ao irmão mais velho, se esforçaria para ser o favorito do pai. Na realidade, era ele quem o refletiria em todos os atos, pobre ser. Clara e Josefina, porém, eram mais bondosas e as verdadeiras herdeiras da luz de Isabel. Nós três éramos vistas constantemente juntas tal qual espíritos afins e mui amigos se reencontram depois de tanto tempo separados.

Apresentei-as à Rita e, logo, viramos um quarteto. Mesmo em meio aos dias ruins, encontrávamos refúgio umas às outras. Até o dia em que decidimos assistir o culto dos orixás, pois desejava, eu mesma, aproximar todos a uma só carne, a um só espírito, e que as desavenças impostas entre nós pela cor era nada se não a requisite da crueldade de um pobre homem que merecia nossas preces. Neste dia, celebrávamos o dia de São Sebastião. Na Bahia, seu equivalente era nosso Ogum. Com isso, mesmo para os desconfiados párocos que frequentavam a residência da família de Isabel, não fazíamos nada de errado se não rezar para os santos católicos. 

Em um irmão nosso apresentou-se o guerreiro Ogum. Disse-nos ele:

"Em tempos obscuros nos quais a ignorância motiva o desdobrar da violência, através da qual o homem branco, tão irmão de vocês quanto nós daqui, crê deter poder sobre seu semelhante, é imprescindível a resistência de sua parte. Vieram cá para lutar, irmãos e irmãs, para que reforçar a nobreza de seus ancestrais, de suas almas, da coragem que os permeia. Se plantam lágrimas agora, amanhã colherão a glória. Enfrentei batalhas e guerras árduas como a de vocês. Mas como fazê-lo pela vingança? Não cultivem este tipo de sentimento, eu os peço. A coragem é pura e merecedora daquele que empunhar a espada por motivo descabido do "eu". Estão todos juntos aqui por um motivo, e sabem cada um de vocês qual é. Urjo a cada um aqui presente para que a coragem que os norteia a viver cada dia enfestado pelas densas trevas deste ambiente infeliz, seja feita e renovada no amor. Se Oxalá é o rei do mundo foi Zambi quem o coroou. Se estou aqui, foi porque Ele mandou. E continuo defendendo-os meus irmãos. Ogum não os abandona, nunca os relegou ao esquecimento. Não pensem nisso. Quando caem, caio com vocês. Quando choram, choro com vocês. Quando o chicote bate contra a pele negra de vocês, também bate contra este Ogum aqui."

Fez-se uma pausa para nos encarar com olhar firme. Não havia uma pessoa que não pranteasse diante de palavras tão comovedoras.

"Não alimentem o medo, meus confrades", a entidade continuou. "O medo leva à raiva, e em sua pior manifestação... Não quebrará suas correntes, não as afrouxará, muito pelo contrário. Por difícil que seja, uma batalha perdida não significa guerra desperdiçada. Enquanto houver forças, resistam e lutem. Por vocês, por seus irmãos. A prece é a espada de que necessitam. E ninguém derruba Ogum, crianças minhas. Lembrem-se disso. É preciso coragem para enfrentar o inimigo, e quando olharem para ele, lamentem pela infelicidade que este ser se cerca... Pois quem de amor se alimenta e vive não precisa utilizar do mal para com seu semelhante. Amor, fé e bravura, todos vocês possuem de sobra. Que a paz esteja com vocês, meus irmãos."

Apesar destes estímulos, era difícil para muitos de nossos irmãos despertar encorajado na manhã seguinte. Onde encontrar a força de Ogum e a sabedoria de Oxalá em meio ao ambiente recheado de preconceitos, no qual homens brancos ou nem tão brancos assim acreditavam ser superiores aos seus irmãos? Que outra raça escravizaria seus semelhantes para objetivo nenhum que exacerbar sua vaidade, seu egoísmo? No entanto, devemos reconhecer que a lei do Pai é infalível: se hoje somos dominados, foi porque ontem dominamos.

Ainda assim, procurei estimular em meus irmãos diariamente as palavras que Oxalá transmitiu a mim através de Rita e incentivar a coragem que Ogum nos passou naquele dia. Contudo, tudo o mais viria a piorar porque entre nós pairava uma traidora. A mãe de nobre amiga nos espionava e quando disse ao seu amante sobre nós e o que fazíamos de fato na noite anterior... Coube-lhe nenhum remorso ao entregar a própria filha nas mãos do algoz. Ao seu lado, recebi chicotadas. Mas se naquele dia nossas vidas foram poupadas, foi pelo intermédio do plano espiritual. Afinal, por mais difícil que fosse nossa caminhada, precisávamos cumprir nossas missões.

Assim foi que comecei a atuar como parteira logo em seguida a esta ocasião. Irmãs minhas engravidavam do sinhô e, embora algumas  delas não desejassem manter a pobre criança no ventre, procurei estimulá-las a agir contrariamente. Que outro amor mais puro se não do filho? Não possuía culpa do pai que tinha e eu mesma era fruto disso. Mas nem todas as crianças viviam, algumas das quais porque suas missões eram breves, outras porque não suportavam a rejeição maternal tão forte. Mesmo quando a mãe de Rita engravidou e o sinhô me convocou, também estive lá. Ignorava seus insultos, por mais que doessem meu coração ouvir tamanha ingratidão. No entanto, em meio ao medo, encontrei a coragem de Ogum.

Ainda hoje me recordo do sonho que recebi da entidade que trabalha sob a luz deste orixá. Estava eu em um lugar desconhecido, onde a noite e o dia pareciam disputar o domínio sobre o ambiente. Entre os dois, repousava eu. Armado todo em azul e vermelho, me apareceu nobre homem de pele dourada e olhos escuros montado sobre um cavalo branco.

"Ana Maria" ele me direcionou a palavra, "que faz sentada aí?"

Como se o reconhecesse, falei:

"Repouso um pouco, senhor."

"Não sou senhor de ninguém, minha cara irmã", disse-me ele suavemente. "Levante-se, brava Ana. Ou deixará as trevas dominarem o campo de batalha?"

Assim que o fiz, pranteei.

"Temo perder, caro Ogum. Não anseio reclamar da minha vida quando meus irmãos padecem pior. O que me angustia, ao contrário, é não poder lhes fazer nada."

Pacientemente, respondeu-me Ogum:

"Espera que de tão longa batalha se vença pronto a guerra?"

"Como não?"

Ele sorriu e respondeu:

"Sabe por que muitas guerras demoram anos a serem vencidas? Porque há inúmeras batalhas perdidas. Não obstante, a vitória não está lá?"

Humildemente, abaixei a cabeça e repliquei:

"Mas a vitória é para quem, senhor Ogum?"

"Não sou senhor, sou seu irmão", ele me corrigiu delicadamente. "Mesmo para o perdedor, é também uma vitória. Quando se tira um ensinamento da tragédia e a partir dela se modifica seu caráter, não é isso uma vitória, irmã?"

"Perdoe-me, irmão Ogum, mas me falta visão disso nas pessoas com quem convivo."

Ele riu e disse:

"Primeiro, levante estes olhos, Ana." E quando o fiz, ele prosseguiu. "Segundo, me diga uma coisa, apenas isto: o que o meio em que nasceu te ensinou até agora?"

Não precisei de dois segundos para dizer:

"A valorizar a vida a que Zambi me deu. A perdoar setenta vezes sete vezes senta os carrascos. A amar o próximo e ter coragem para superar os obstáculos". No entanto, chorei depois de dizer isso.

Compreensivo, falou-me Ogum.

"Não se sinta envergonhada por chorar suas cicatrizes e pelos outros. Isso te engrandece aos olhos do Pai. Há muito que nossos irmãos encarnados necessitam aprender, e foi por isso que você, minha irmã, optou por descer entre eles nesta roupagem. Em meio à dor, independentemente do grau que ela se manifeste, ensinou às mulheres a amarem seus filhos, a ensinarem a superar as circunstâncias, a terem coragem de enfrentar os inimigos. Em meio à tristeza, educou suas irmãs para a aflição que diariamente aquele que chama de "sinhô" impõe aos nossos irmãos da África. Em meio ao desespero, agarrou-se a sua fé, ao seu conhecimento e procurou ser útil em tudo o que fizesse. Não obstante tudo isso que disse, resigna-se a sua humildade. Mas pensa que está só?"
"Não sou merecedora de sua companhia, irmão Ogum", falei cabisbaixa. "Fiz pouco quando podia ter feito mais."

"Não permita que a vaidade sonde espírito tão puro, Ana Maria", ele me repreendeu amigavelmente. "Ignora por ventura minha presença aqui? E quanto a sua missão?"

"Perdoe-me, mas não entendo", admiti envergonhada.

Ogum sorriu e tornou a explicar:

"A missão de cada encarnado é diferente segundo a individualidade do espírito que desce à Terra. Não se compare com outros, afinal, cada um de acordo com suas obras. Sendo assim, a dor de um não vai ser a mesma que a de outro. Abandonará por ventura aquele envolto em densas trevas?"

Sentindo-me encorajada, falei:

"Não. Desejo amparar os necessitados, custe o que custar."

"Mesmo que a estrada seja feita de percalços?"

Assenti com a cabeça, firme em minha decisão. Com um sorriso, Ogum falou:

"Que a luz a ampare, Ana Maria. As santas a rodeiam... E sua mãe também."

"Isabel?", exclamei de alegria.

"Ela mesma." 

E assim, a noite se dissipou para dar vazão à luz do dia. Quando despertei, sem com isso lembrar do sonho, guardava em meu íntimo renovadora coragem. Percebi que meu propósito de vida não era vir a ser amada, mas amar. Não era ser consolada, mas consolar. Não era encontrar paz, mas dar aos outros a paz que buscam. Não era sobre mim, mas os outros que necessitavam. Onde houvesse medo, que eu levasse a esperança. Onde houvesse ódio e rancor, que eu pudesse levar amor e perdão. 

Mais tarde, naquele mesmo dia, fui designada pelo patrão para acompanhar Clara ao mercado na cidade. Mais um escravo e um padre de confiança do homem nos seguiriam de perto. Já nessa época, a família real de Portugal havia transferido sua corte para o Brasil, elevando a colônia ao status de Reino Unido de Portugal. A fim de evitar serem submetidos à tirania de Napoleão Bonaparte, Dom João, então príncipe regente, decidiu aceitar a ajuda oferecida pela Grã-Bretanha e enfim aportaram na cidade. No entanto, já havia muito se estabelecido no Rio de Janeiro na ocasião em que visitava o centro de Bahia.

Foi um dia colorido e as perspectivas pareciam ser bastante promissas com a chega da família real portuguesa aos nossos domínios. Recordo-me das constantes celebrações de faces sorridentes, independentemente da cor que estampava seus corpos. Negros e brancos comungavam juntos por um ideal que, encarnados, não sabiam, mas desencarnados reconheceriam: a breve nascença do Brasil enquanto país ocorreria logo. Afortunados eram aqueles designados pelo Pai para encarnar diante de tal marco histórico.

No entanto, adianto ao leitor que, infelizmente, não vivi o suficiente para testemunhar essa separação idealizada. Na realidade, vivi dias relativamente tranquilos antes do desencarne. Não me alongarei muito mais, meus amados. Quando Teobaldo regressou ao país, veio todo cheio de pompa, como já havia os avisado antes. Esquecendo-se de que eu um dia lhe prestei amparos fraternos tal qual uma irmã se dirigiria a um irmão, pobre rapaz, embevecido, tentou fazer-me sua concubina. 

Com a coragem reunida em mim, foi a única vez que ousei levantar a voz. Assim lhe disse:

"Como pode tentar algo assim, Teobaldo? Não se recorda de que nossa amada mãe nos criou para sermos irmãos, como o somos, pois seu pai também meu é?"

Teobaldo me encarou repugnado e, para poupar os olhos sensíveis do leitor, direi apenas que me insultou de todas as maneiras possíveis. Teria ocorrido algo pior se seu irmão não houvesse interferido. Para minha surpresa, Enrico provou ser diferente do pai. Não contei aqui, leitores, porque não cabe a mim adentrar na história deste espírito querido, mas Isabel, do plano espiritual, obteve mais sucesso na mudança deste filho do que no outro. Quando despertado, Enrico procurou o capelão de seu pai, homem mais justo de coração e dali considerou entrar no sacerdócio, sentindo um chamado sincero. A contragosto, o pai concordou, mas, infelizmente, não seria para ser.

Enrico, antes de defender a minha honra, pediu-me o perdão. Embora surpresa, e com um mal pressentimento crescendo em mim, concedi. O próximo cenário me pegou assombrada. Afinal, Teobaldo, em seu impulso embrutecido, foi tomado de cólera e prontamente desembainhou a espada somente para ceifar a vida de Enrico.

Não sei avaliar se foi um erro ou não, mas meu pranto chamou a atenção de todos. E tudo se desenrolou como haveria de ser. O patrão não culpou a morte de filho que decrescia em seu afeto, não se lamentando pela perda. Mas viu neste acesso um motivo para me castigar. Rita implorou para ir em meu lugar, mas eu lhe neguei.

"Precisa permanecer, irmã", falei com coragem, sentindo que meu próprio fim estava próximo. "Nossos irmãos necessitarão de seu amparo e sua fé. Não os esqueça em suas preces e no esclarecimento que precisarão para a guerra por vir. Nossa luta não se findou."

Em prantos silenciosos, Rita aquiesceu. Sorri a ela uma vez mais e, antes de ser arrastada por dois companheiros que o sinhô designou, falei:

"Não pranteie por mim. Como Oxalá disse uma vez: perdoai nossos algozes, Rita, pois eles não sabem o que fazem!"

Amarrando-me ao tronco, olhei para aquele homem uma última vez. Sinto que agora posso descrevê-lo bem. De estatura média e pele descuidada pelo sol, seus olhos eram castanhos claros e o nariz longo, tipicamente de quem possuía ascendência italiana. Os lábios estavam cobertos por extensa barba e as roupas indicavam seu status social. Olhei-o dentro dos olhos e disse:

"Eu o perdoo por crucificar-me, sinhô. Na ignorância que as trevas o rodeiam, não reconhece seus pecados. Que Deus, Nosso Senhor, o perdoe e o conserve em boa saúde para que se redima antes do tempo passar."

"Cale-se!" E gritou mais um enxurrada de ofensas, que não mais feriram meu coração.

Com tristeza, porém, vi tantos queridos e queridas prantearem a cada chibatada que feria minhas costas. No entanto, amparada por Nanã e pela Virgem Maria, nada temi. Ogum me cercava a fim de que pudesse me inspirar coragem para a última batalha, pois o desencarne se aproximava e era próximo o momento em que declararia vencida a guerra. E conforme me cansava, veio seu Ogum velar meus olhos e inspirar-me o sono. Assim, adormeci e não senti mais dor. Quando tornei a abrir os olhos, cercava-me de amigos e familiares. Enrico, mais esclarecido, estava entre eles e me regozijei quanto a isto. Agora era esperar por Rita, Clara e Josefina, as irmãs que "deixei" para trás. No momento oportuno, porém, regressaria para auxiliá-las em seus momentos mais difíceis. 

Desde então, tenho atuado n esclarecimento, no auxílio, no amparo naqueles que necessitam, estejam eles nos planos espiritual ou físico. Como mostrei neste fragmento de memória da última encarnação em Terra, o amor anda de mãos dadas com a coragem. Juntando os dois, é possível vencer os obstáculos que nos aparecem, sejam eles qual for. Quando nosso irmão encarnado nos ofende, o responderemos com amor. Quando outro nos insulta, lhe daremos amor. Quando nos deparamos com injúria e todo tipo de afrontamento, silenciamos nosso coração e ofereçamos ao necessitado o amor que precisa. Seres infelizes que não têm consciência esclarecida sobre seus feitos machucam o próximo porque ainda se atém às vicissitudes da carne (como a soberba, a ira, a arrogância, dentre outros). Todos erramos, por isso não devemos julgar nem condenar nosso algoz. Que sejamos amor. Volto a dizer, meus amigos, que o amor a tudo vence. É no amor que encontramos as virtudes em Cristo, em nosso Pai Maior, seja qual for a crença que o norteia nesta encarnação. 
Que Ele os acompanhe. Com amor, vó Maria Caterina do Congo."

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