Nota de Ogum: "Aos leitores que acompanham este blog, sejam bem-vindos outra vez. No conto de hoje, o espírito de Almír Salamin vos ditará a história, ou melhor, uma parte dela conforme foi pedido. Darei aqui a voz a ele, que viveu em tempos antigos e cuja presença foi apagada da História. Como de costume, farei minhas interferências nos momentos precisos."
"Meu nome é Almír Salamin e esta foi minha história. Na Antiguidade passada encarnei e tão longe do espaço conhecido por vós eu vivi. Fui contemporâneo da produção de "Mil e Uma Noites", portanto, fiz esta referência ao conto que levará a vós minha existência. É uma triste inverdade crer que a História é reproduzida somente por aqueles que possuíam ouro, riqueza para determinar o curso do movimento humano. A desigualdade resultou disto, mas penso que ela também se responsabilizou pela invisibilidade de tantos espíritos que anseiam pela oportunidade de serem ouvidos. O ponto é: fui rico, e, no entanto, igualmente esquecido.
Na verdade, não há nada fora de comum em minha vida. Fui um comerciante que enriqueceu, mas a vida humana era crua em todos os aspectos e comigo não foi exceção. Para o leitor curioso, adianto que encarnei algumas vezes depois. Minha última encarnação neste planeta aconteceu na Rússia de Pedro, o "Grande", mas não me marcou como esta aqui que vos trago para esclarecimento. Na realidade, nutro bastante carinho pelo Oriente e lamento os rumos a que vieram tomar aqueles países.
A fim de contextualizar-vos melhor para que me familiarizar convosco, permitam que eu ilustre o quadro de minha infância. Nasci em uma família cujo pai começara a enriquecer como vendedor de tapetes. Adair era o nome deste nobre homem de grande caráter. Quando ele mesmo era um infante, seus pais faleceram em decorrência de uma pestilência que atacou toda a Arábia, e como era filho único foi criado por um tio distante do lado materno. Este tio lho concedeu péssimos tratamentos, quase o colocando como escravo e negando a este homem a educação devida que, ao contrário, dera de bom grado aos próprios filhos. Não obstante, Adair possuía um intelecto afiadíssimo e paciência de um espírito expiador. A tudo observava e ouvia com cautela e todas as tarefas cumpria sem murmurar. Era tão silencioso que muitos acreditavam ser um mudo, posto que os deuses por algum motivo incompreensível lhes tirou a língua.
Na juventude, porém, Adair provou-se sábio com a língua. Carismático, vendia os produtos deste tio, e os clientes intrigavam-se por este homem alto de cabelos negros como a noite e pele de bronze. Seu riso era fácil e em seus olhos curiosamente verdes exploravam a qualquer cenário que se emergia de bom grado. Na realidade, mesmo aqueles que pouco conheciam sua família sabiam dos mal tratos dispensados à Adair e surpreendiam-se com a ausência de rancor deste homem. Adair tinha uma frase que, mesmo na maturidade, continuava a reproduzir. Era assim:
"Nós damos o que somos. Não exigimos dos outros o que não possuíamos. Sejamos honestos conosco e o mundo o será igualmente. Contudo, tudo isso só assim o será dependendo da forma com a qual se conduzireis entre os comuns."
Cego de inveja pelo sucesso do sobrinho que parecia eclipsar o seu, aquele tio pretendera lho findar a vida. Diziam por aí que Hal'ir era mexido com as artes trevosas. Se era verdade ou não, que importa? Sua intenção era ruim de todo modo. Mas sua esposa, a segunda mulher com quem contraíra o matrimônio, era uma doce jovem aparentada do Sultão chamada Jasmin. E ela se simpatizou com o pobre Adair desde a infância, criando-o como se fosse seu filho de sangue. Igualmente esta moça era de espírito ímpar e a ela Adair recorria nas diversas vezes. No entanto, quando Jasmin soube das intenções do marido... Ela disse assim a Adair:
"Enviarei-vos ao meu irmão, o Sultão. Lá serais por ele educado, e recomendo vossa cautela em tudo o que fizerdes".
Adair aquiesceu e partiu na madrugada com dois mensageiros de confiança de Jasmin. Mas, ah! Uma das senhoras de Jasmin era amante de Hal'ir e com isso soube imediatamente do que se passara. Meu pobre pai fora preso numa enrascada e, como castigo, fora obrigado a ver sua mãe espiritual ser morta a mais de cinquenta chibatadas pelas mãos do tio cruel. Embora lhe sorvessem lágrimas dos olhos, nenhum rancor o quebrou ou o submeteu a tal tirano. Não por isso, porém, os filhos de Hal'ir não tinham o pai em conta. Uma conspiração se formou, ainda que Adair ignorasse de tudo isso. Liderados a cabo pelo filho mais velho, embora este fosse um homem formidável, era suscetível a cometer tais faltas motivadas pelo orgulho, Hal'ir sofreu a consequências de seus atos. Meu pai não quis me informar qual fora o fim de seu tio déspota, pois que o mais importante disso tudo foi o amor que encontrou na prima, também chamada Jasmin, quando aquela família se livrou das correntes densas da escuridão que Hal'ir lhes incultou.
Jasmin, minha mãe, era a filha mais velha da mulher que lhe dera o nome. Era bela e bondosa, mas, como o primogênito da família, orgulhosa e ciumenta. Gostava de se vestir das melhores roupas e ostentar joias, razão pela qual fazia-se cega ao péssimo tratamento que Hal'ir lhe dispensava. Embora amasse profundamente meu pai, os primeiros anos de pobreza lhos foram difíceis por estar acostumada à riqueza de outrora. Mas, segundo ela me contava, quando meu pai notava os primeiros vestígios de frustração surgir em seu rosto, dizia ele:
"O amor a tudo vence, senhora. Que há mais de valoroso que o tesouro do amor que por vós nutro e cultivo? Por vós, submeti às crueldades de vosso pai, mas se estás assim miserável, a porta está aberta. Não sou homem de correntes, e respeitarei vossa decisão, qualquer que seja a tomares."
Minha mãe sentia-se culpada porque homem mais puro que meu pai não existia e foi assim que aprendera a ser mais humilde, logrando ao pretérito faltas que envergonhavam vosso espírito. Com isso, quando a felicidade doméstica se estabeleceu de fato, foi o momento de prosperar. Alguns de vós poderíeis pensar que o enriquecimento era um teste das virtudes de Jasmin e concordaria neste ponto convosco. Era provável que assim fosse, e ela foi aprovada com louvor. Conforme o pai avançava nos negócios, ela se concentrava mais na família, na casa e nas amizades que selecionava com louvor. Praticava sua fé na humildade e, quando inquirida por que não fazia sacrifícios às honoráveis deidades, respondia ela:
"A comunicação sincera do coração foi a lição mais valorosa que tirei das histórias contadas de nossos deuses. Se um dia a deusa do amor bater a minha porta e indagar sobre meus feitos, darei-os a ela e direi que nada sou sem que dela pudesse obter seu merecimento. Sem a fé, somos nada. E ouro algum apaga nosso erros dos olhos divinos que a tudo sabem, a tudo veem."
Esta sabedoria, que praticava costumeiramente e pondo logo a inculcar nos filhos que nasceriam, afastou dela a maior parte dos vizinhos, mas aproximou igualmente de presenças mais lustres. Tal era o contexto feliz de quando encarnei, seguido de três irmãos: Alayn, Romero e Safira.
Sendo eu o mais velho, recebi a educação paterna para os negócios, embora minha mãe, de personalidade admirável, insistisse de que eu também deveria acompanhar o regimento da casa o qual ficava sob sua responsabilidade. Neste ambiente crescia, e Alayn buscava me acompanhar. Éramos muito próximos na infância, companheiros de brincadeira. Alayn gostava de correr por entre os mercadores, e alguma das vezes era ousado o suficiente para roubar deles objetos insignificantes. Este hábito, todavia, foi prontamente cortado pela raiz quando nossos pais foram informados disto. A mãe ficou bravíssima, e nós pouquíssimas as vezes a vimos daquela maneira.
"Tendes a inteligência, meu filho", disse ela a Alayn. "Por que usardes para o mal se poderíeis utilizá-la para o bem?"
Alayn era moreno como eu, de cabelos lisos e sedosos e pele bronzeada. De nariz mais longo e sorriso fácil, era vaidoso e orgulhoso, mas seu coração era bondoso e parecia inclinar-se para este caminho quando se permitia ser educado para estes instantes. Todavia, por mim sentia ligeira ciumeira que prevalecera nesta existência, surgindo de outras anteriores. Apesar disto, mo era leal quando vira que eu o era a ele.
Romero, porém, tinha a saúde extremamente delicada. Este sim viera ao mundo sem a proeficiência da fala. Não obstante isto, era muito retraído e seus rompantes de fúria eram assustadores, testando constantemente a paciência de todos os que com ele moravam. Mais baixo de nós todos, herdara os cabelos tipicamente negros da família, embora fossem, em contrapartida, cacheados. Como era impossibilitado de gritar as suas frustrações, Romero descontava na comida. Era mais difícil de lidar do que Alayn.
(Nota de Ogum: este é um dos casos que em contos passados já foi dito a respeito em que um espírito que encarna em determinada família não necessariamente possui qualquer vínculo espiritual com a mesma até então. Romero fora uma entidade bastante infeliz em existências pregressas. De origem venusiana, teve dificuldades bastante morais para adequar-se à Terra, mesmo que o planeta à época de sua primeira encarnação, fosse tão primitiva quanto seus instintos. Contudo, prevalecia em si a vontade de fazer o bem e, apesar dos apesares, conseguira fazer-se avançar aqui. No entanto, havia pedido para um de seus guias superiores para encarnar entre a família de Almír para que pudesse aprender mais sobre a bondade, a caridade de Cristo, e, acima destas qualidades veneráveis, o amor. Se por um lado constituiria sua presença como expiação e missão para as partes envolvidas, receber este espírito também foi uma grande caridade destes membros. Adianto que, neste caso específico, sua vivência foi curta porque precisava aprender, expiar e "sofrer" diante das limitações impostas a fim de reencarnar sereno em outra vivência.)
Safira era, por ventura, a mais meiga de todos da casa. Era ela quem herdara, de todos nós, o melhor de nosso pai e o melhor de nossa mãe. De modo que sua beleza interior exteriorizava-se e tal bondade quase imputava uma aura diferente em seu corpo terreno. Afinal, como seu nome, era uma joia rara. De cabelos longos e macios, Safira possuía os olhos verdes do pai e seu sorriso fácil conquanto o nariz e as feições recordavam-nos a mãe. Seu humor era leve, e apreciava-lhe cumprir com todas as tarefas domésticas. Cabe mencionar que era a única dos irmãos que acalmava Romero em suas piores crises e a ele esteve em seu lado até os últimos momentos.
Quanto a mim, deveis vos perguntar como fui. Digo-vos que não diferi tanto de meus irmãos, era alto, meus cabelos eram igualmente negros e sebosos, mas meus olhos curiosamente detinham uma mistura de verde com castanho. Safira costumava dizer que à luz do sol ficavam verdes, e sob a luz, acastanhavam-se. De todo modo, após a puberdade, cultivei uma breve barba, hábito que manteria no restante de meus dias. Admito que, tal qual minha mãe, apreciava boas roupas, ainda que não fosse ao extremo para obter um tecido adequado segundo meu gosto privado. No mais, com meus vícios e virtudes, aquele era eu. E esta foi a família que vos descrevi.
Os mil e um dias que optei por contar e que levam a cabo o título deste conto que vos dito, representaram, a meu ver, um mar de sentimentos e experiências que hoje em dia sou grato por tê-las passado. Alguns poderiam argumentar que foi o declínio da boa sorte da família, mas penso que a vida seja como um ciclo lunar e nunca permanece a mesma.
Sendo assim, eu contava cerca de vinte e três anos quando o pai e chefe de família deu indícios de sofrer, a qualquer instante, seu desencarne. É verdade que ele prontamente, nos últimos anos, planejou casamentos para todos os filhos. Afinal, por mais avançado que fosse para a moral da época, era um homem de seu tempo. Planejando meu noivado com a sobrinha do Sultão, Aisha, ele disse:
"Filho, precisamos conversar. Preocupo-me que, já nesta idade vossa, não haveis encontrado uma noiva para que possa dar continuidade aos negócios da família."
Ele fez uma pausa e esperou ouvir meus motivos. Assim, tocado pelo seu respeito, eu disse:
"Pai, meu augusto senhor, não desejo inculcar aos vossos olhos a falsa perspectiva de que pretensão alguma possuo nestes termos. Confesso, todavia, de que dama alguma capturou minha atenção e, não tendo me ocupado em buscar alguma de valor inestimável para nossa família, preferi me ater a ajudá-lo no que fosse possível ao nosso labor."
Adair sorriu, compreensivo.
"De fato, filho, e nenhuma razão possuo para nutrir qualquer insatisfação convosco. Vossas virtudes muito me aprazem e a vossa mãe. Sei que deixarei um legado a ser bem apropriado e conduzido por vós. Sua seriedade conquanto vos instruo nos assuntos muito me alegra. Não obstante, gostaria muito de viver para ver um neto, outra geração a surgir dos filhos que me são queridos. Nesse sentido, não escolhi antes porque penso que, até por experiência própria, cabe a cada um seguir os caminhos do coração desde que estes sejam trilhados na sinceridade e na bondade segundo determinações dos deuses. Como, porém, não vejo de vós esta iniciativa, percebo que terei de tomar as rédeas. Compreendeis o que vos digo?"
"Creio que é natural do pai cumprir com as direções das vidas dos filhos". Falei, e eu não menti quando me submeti a sua vontade. Não havia, realmente, sentido atração alguma por mulheres até então e muito mais me interessava os negócios do que o prazer.
"Agradeço a confiança que deposita em mim, meu filho." Ele, então, hesitou. "Poderíeis comunicar o mesmo aos vossos irmãos?"
Uma parte de mim queria questioná-lo pela tarefa que me dava. Contudo, a outra, mais perceptiva, logo constatou que uma transição silenciosa acontecia. Afinal, em breve seria o chefe da família. Assim, aquiesci.
Mas, como pensava, meus irmãos, à exceção de Safira, não aceitaram que as vontades de seus corações seriam conduzidas pela mão paterna. Em um texto, Romero foi o primeiro a escrever:
"Por acaso sou incapaz de escolher aquela com quem gostaria de compartilhar o restante de meus dias? Minha incapacidade de falar me torna igualmente incapaz de fazer minhas escolhas? Não era ele o velho que defendia nossa individualidade frente ao mundo cruel que nos espera ali fora? Ora, o que foi que o mudou? A deficiência deste filho?"
Suspirei. Um olhar de alerta de minha irmã me recomendou prudência na resposta. Antes que Alayn protestasse, eu levantei a mão e disse, enquanto enfrentava o olhar furioso de Romero:
"Nosso pai não é hipócrita, irmão. Sim, ele é falho como todos os outros homens, como nós, que diante da vontade divina somos nada. Creio que se nosso pai o achasse incapaz e um imbecil de viver, por que teria-lho dado tarefas domésticas a serem feitas? Se os deuses pensaram sábio ter-lho retirado a função linguística, é para que não nos ferisse com estas palavras."
Safira suspirou e eu notei, pelos pulsos semicerrados de meu irmão, que não fui sábio nas palavras. Ao contrário, me equilibrei em sua irritação e falei o que não devia. Tentei novamente.
"Peço-vos perdão, Romero. Não medi as palavras direito ao vos dirigir impropérios." Pausei. Esperei algum ataque de fúria silenciosa, mas me surpreendi diante de sua relutância aquietação. Prossegui. "Nosso pai, como dizia, não é perfeito. Nós sabemos, cada um a sua maneira, que ele já cometeu erros. No entanto, é o chefe da nossa família. Cabe a ele nos dirigir para que as tradições passadas não sejam perdidas e que nós façamos o que devemos ser feito. Quantas vezes ele não deu permissão para que seguíssemos caminhos que outros tantos teriam nos repreendido? Não ouvimos a vizinhança reclamar de suas qualidades, reconhecendo nelas a falta que porventura projetam em nosso pai? Do dever é possível que surja o amor. E ele está sendo o pai que merecemos, o pai que temos. Romero, não veis que ele vos protege e ama como todos nós?"
Safira me direcionou um olhar aprovador, mas ela nada disse. Romero, por outro lado, ponderava em sua quietude o que eu dizia. Embora estivesse ansiando por alguma resposta sua ao que disse, a reação veio de Alayn, que disse:
"Como podemos desposar mulheres que nunca vimos em prol de alianças que sequer sabemos se regará frutos no futuro?"
A isto, notei, Romero assentiu em concordância. Calmamente, expus a resposta da seguinte forma:
"Assim é que a sociedade da qual fazemos parte funciona. Por que acheis que poucos de nós casam-se por amor? E o que dizer de outros que o fazem por luxúria? Aonde estão eles?"
"A pobreza", manifestou-se Safira, "pode ser suportada quando há amor sincero de ambas as partes. Contudo, concordo convosco, irmão. Não vivemos ainda em um tempo em que se permite atingir o ápice da felicidade. Que a Deusa nos ajude a todos. E seremos fortunosos se, em meio ao dever, florescer o amor. Disto não há dúvida. Que a vontade do pai se cumpra."
Alayn encarou Safira, estupefato.
"Não creio no que direis, irmã."
Mas ela retornou seu olhar com serenidade.
"Se cumprimos com deveres para com nossos pais, o que será dito daqueles que a sociedade aguarda serem feitos? Não espero felicidade aqui, irmão, mas na morada dos deuses."
A despeito da infelicidade geral em reconhecer que não haveria como cada um escolher seus pares, era senso comum que tal era a melhor forma de proceder sabendo-se que a autoridade para isto caía no pai. No entanto, a aparência de paz doméstica não deve iludir o leitor. Alayn era tão impetuoso quanto Romero em suas paixões, a despeito de sua inclinação para para o bem, e, ingênuo como fui, não contei que ele fugiria da casa dentro de alguns dias para a consternação de todos.
Os únicos que permaneceram calmos em meio ao estresse provocado por Alayn foram Safira e o nosso pai, o que não é de surpreender a ninguém.
"Como podeis ficar lúcido em meio ao caos provocado por vosso filho?!" A matrona chorava copiosamente, em repúdio à resignação do pai que, infeliz, mirava-nos a todos.
"É na lucidez que devemos permanecer para que a paixão do mundo não jogue suas redes sobre nós." Falou ele, cansado. "Crianças, procurem por vosso irmão. Temo me faltar forças para tal."
Franzi o cenho, pronto a contestar-vos, mas um olhar do pai calou minhas inquietações. Preocupava-me com ele, mas deveria obedecê-lo antes de tudo. Assim, acompanhado por Romero e Safira, saí em meio ao caos à procura do rebelde Alayn.
"Mas o que deu nele?" Inquiri, falhando-me ver motivações de qualquer natureza que pudesse provocar essa impetuosidade em nosso irmão.
"Está apaixonado", disse Safira, capturando as atenções de Romero e minha. "Ora, como podeis ser tolos? Por qual outro motivo teria fugido depois da decisão do pai em casar-nos todos?"
Envergonhado diante da lógica apresentada com sabedoria, aquietei-me. Nisto, Safira disse:
"A questão é... Quem foi a responsável por roubar-lho o coração?"
Minha mente começou a traçar possíveis questões para isto. Enquanto passávamos por uma multidão de senhores e escravos, atravessando o mercado da cidade, éramos tomados por uma ansiedade em não encontrar Alayn. Até que Romero me deu uma forte cutucada nas costelas e fê-me dirigir o olhar para a edificação de um palácio dourado não muito longe do centro.
"Ah, não."
Quando Safira se virou para perguntar o motivo de meu desalento, ao seguir para onde o olhar de seus irmãos haviam se fixado, ela também murmurou algo inaudível. Mas, ajeitando o véu rosa que cobria os cabelos negros e o vestido azul com traços de costura marrom que enfeitava o corpo, ela tomou a direção e nós, como bobos, a acompanhamos.
O palácio dourado em questão pertencia ao irmão do novo Sultão. Era, portanto, da realeza. Se Romero viu Alayn entrando por ali... Estávamos perdidos! Dali se iniciou a nossa desventura, pois que desconhecíamos a natureza do caráter daqueles que ali habitavam e nunca tivemos a pretensão de nos aproximar da realeza. A isto, confidenciou-me Safira:
"Como estes senhores reagirão ao ver-nos aqui?"
Uma pergunta que eu mesmo me fazia, mas a que não soube encontrar resposta. Novamente, encorajada por força maior, Safira tomou as rédeas da situação, mas antes que pudéssemos adentrar os grandes portões que, abertos estavam, interpunharam-se entre nós e a residência real, dois guardas vieram a ter conosco.
"O que quereis aqui?" Um deles rudemente perguntou.
"Pensamos ter visto nosso irmão entrar aqui", Safira respondeu na inocência, mas diante do lampejo de raiva daquele que inquiriu, soubemos que foi a resposta errada.
"Acaso a senhora está insinuando nosso desleixo na segurança do irmão do Sultão, nosso nobilíssimo senhor Jarvar?"
Safira enrubesceu, e desta vez falei com firmeza:
"Não se trata do caso, meus confrades. Apenas pensamos ter visto nosso irmão entrar aqui. Ele deve ter uma explicação para isso certamente ou nós nos enganamos..."
"Decerto se enganaram", aprovou-lho dizer o segundo guarda. "Não há ninguém aqui, exceto a filha do homem a que servimos e ela está muito bem protegida."
Uma sensação esquisita tomou-me o peito.
"Se se trata de um engano, nós prontamente repararemos o erro", falei, tão humilde quanto possível. "No entanto, que custará verificar se o nosso irmão está dentro deste local? Como falei, deverá haver uma explicação plausível para isto."
Enquanto eu debatia razoavelmente com os guardas, um cenário risível se desenvolveu: nosso ousado irmão mudo, Romero, aproveitou da distração dos homens e rompeu residência adentro. Sua fuga, nitidamente silenciosa, só tomou nossa atenção quando Safira exclamou:
"Volte, homem! Volte, irmão! Sequer sabemos se Alayn está aí!"
Nisso que os guardas franziram o cenho, crendo que eu fosse um mentiroso, se não um ladrão na pior das hipóteses, que haveria coluido para tomar a residência. Um deles ameaçou-se de dispor força física para comigo, mas Safira novamente os distraiu quando ela se esqueceu de sua posição e correu atrás de Romero.
"Ora, não perdemos tempo!" Eu tornei a bradar, impaciente com aquela situação.
Deixando as ameaças de lado, pomos a correr palácio adentro agora à procura de dois irmãos: Romero e Alayn. Em meio a tudo isso, ouvíamos os guardas gritar conosco e convocar outros de sua guarnição a fim de nos prendermos. Mas como o palácio era grande e espaçoso Safira e eu conseguimos nos desviar da minoria que vinha atrás de nós. Contudo, a movimentação logo alardeou os que habitavam nele e o leitor poderá rir quando, diante de nós, veio a princesa ao lado de Alayn.
"Mas o que...."
"Ah!" Exclamou Alayn, cujo rosto ruborizava diante da situação que provocou. "São meus irmãos, Naysha."
A princesa Naysha logo compreendeu do que se tratava e prontamente remediou a situação ao afirmar aos guardas, sem delongas, que aqueles eram seus convidados e os repreendeu por tratar-nos desta maneira. Constrangidos, eles se dispersaram, e assim na primeira oportunidade, esquecendo-me de quem estava perante, falei:
"Mas quanta irresponsabilidade, Alayn! Que pensais ao fazer isto, tomar de assalto a casa da princesa? Deixastes para trás a mãe em prantos e o pai desolado, e para quê?"
Naysha, de beleza indescritível, era o objeto de afeições de meu irmão. De longos cabelos negros e traços indianos, vestia-se como uma, de trajes que eram por nós, meros comerciantes, desconhecidos. Um véu vermelho com desenhos em dourados cobria-lhe a cabeça, e uma joia prendia-lhe uma narina ao ouvido através de uma corrente. Seu rosto moreno estava maquiado e no corpo esguio tecidos de diferentes corpos o enfeitavam. De personalidade forte, ela interveio em seu amor:
"Senhor, por favor! Escutai-nos!" Ela pediu. "Peço perdão por como tudo isto aconteceu, mas asseguro ao senhor que nada foi feito para causar a vossa família qualquer tipo de embaraço. Nós nos amamos, meu senhor, e já tem tempo desde que nos vimos pela primeira vez que temos nos encontrado em segredo. Mas Alayn está preocupado com o fim de nosso amor porque vosso pai pretendes casá-lo com outra de posição vossa."
"Certamente meu irmão é indigno à vossa posição, senhora!" Exclamei, franzindo o cenho para Alayn, que se aproximava timidamente. "Dissestes a vós quem sois? Um filho de um vendedor de tapetes?"
Surpreendi-me quando Naysha respondeu com firmeza:
"Sim, meu senhor. Possuo razão e discernimento para entender também o que quiserdes dizer com vossa sugestão."
Enrubesci de raiva, mas ao mesmo tempo me espantei com tamanha colocação. Nós nos encaramos firmemente, um sem querer reconhecer o erro do outro até que Safira, sempre ela, interveio:
"Acalmai vossos ânimos. Peço perdão pelo comportamento infantil de meus irmãos, senhora." Ela disse com um sorriso doce. "Almír está desempenhando o papel que lhe caberá herdar quando nosso pai se for, é natural sua preocupação. Contudo, Alayn foi irresponsável em suas atitudes. Fugir de casa sem comunicar-nos de sua situação? Oras, não sabeis ele que tens em casa uma irmã que a tudo lho assiste e provê?"
"Receava ser julgado", afirmou Alayn enfim. "Por todos vós."
Mais calmo e de posse de minhas razões, falei:
"Não vos julgaríamos, irmão. Mas atitudes como essa nos deixam... Enlouquecidos."
"E é realmente preocupante", acrescentou Safira, "que estejais apaixonado pela princesa. Vosso pai possuís conhecimento deste assunto, senhora?"
Também ela mais razoável que antes, a princesa Naysha suavizou em suas expressões e disse:
"Não, senhora. Ele não sabe."
"Oh, céus." Safira lamentou.
Alayn interferiu a situação constrangedora que se amontava e disse:
"Mas nós vamos nos casar, a todo custo."
Algo em minha expressão denunciou o temperamento que, com muita dificuldade, eu não conseguia controlar, porque Safira colocou a mão em meu braço e disse:
"Como fará isso se não possuíres dote, irmão? Nós sequer temos condições de auxiliar em vosso sustento. Sangue real não corre em nossas veias e..."
"Pouco me importa", afirmou a princesa com firmeza, interrompendo o volume de palavras que expressavam a preocupação de Safira, certamente um reflexo nosso. "O amor a tudo vence."
Quase soltei uma risada de desdém. Sabia que estava sendo testado pelos deuses, e admitia perante minha consciência a fraqueza minha neste teste, mas, pensando no que aquele absurdo provocou em nosso pai, falei:
"Como, se a senhora está acostumada a viver em meio ao luxo? Não estaríeis prometida a outro noivo mais adequado a vossa posição? Aceitaria de bom grado renunciar a tudo isto em troca de um amor humilde?" Suavizando o tom, falei: "Senhora, em breve serei o chefe desta família que conheceis. Aceitaríeis depender de mim?"
Mas a princesa Naysha retrucou:
"Estou firme em minha resolução."
No entanto, não penseis, leitor, que a vida é como um conto de fadas. Esta decisão afetaria a todos os que dela participaram, conscientemente ou não. Uma vez vendo a decisão do casal, e faltando a mim e a Safira argumentos para dissuadirem ambos daquele feito, falei:
"Que seja. Creio que os deuses do amor vos abençoareis. No entanto, volteis conosco, Alayn, pois que o pai o espera e a mãe pranteia vossa ausência descabida."
Observamos a troca de juras de amor entre eles, e voltamos, como se nada disso tivesse acontecido, à casa. Quieto a todo caminho, recusei conversas de Alayn, pensando, em minha tola ignorância, como um amor poderia vencer costumes e, mais ainda, tinha o poder de enlouquecer os mais aptos à razão. Que Ishtar nos abençoe a todos, murmurei em pensamento.
Mais tarde, nossos pais receberam Alayn no seio da casa com ternura e afeição. Quando nossa mãe recuperou o bom senso e o juízo que foram lhos tiradas com o estresse que o filho querido lho provocou, assustou-se diante das notícias que ele trazia. Meu pai, exausto e contemplativo, nada falou. No entanto, diante da insistência de que a mãe vos pedisse para comunicar algo a respeito, ele disse:
"Filho, me responda uma coisa. Que dizeis o coração?"
"Que ela é o objeto de minhas profundas afeições", disse Alayn, apaixonadamente. "Ela é mui bela, senhor, mas suas virtudes enaltecem sua beleza. Nenhum poeta no mundo compreenderia o que digo, mas, ah, se repousasse os olhos nela..."
Revirei os olhos, mas aquilo não passou despercebido de meu pai, que disse:
"Por que desdenhais do amor, filho meu?"
"Porque", falei impetuosamente, "não consigo ver como pode tornar tantos imprudentes à luz da razão!"
"Os deuses guardam propósitos a nós desconhecidos", disse o pai em sua eterna sabedoria. "Não obstante, não fostes fruto do amor que possuí e continuo possuindo por vossa mãe?"
Até mesmo aquela afirmação bastou para aquietar os protestos da mãe, lembrando que, ela mesma tendo se abjurado da riqueza, viveu em pobreza com o pai em amor a ele e a esta condição apreendeu o suficiente para que, mesmo que caminhássemos para a riqueza, não se sentisse a ela apegada. Diante disto, também eu me calei. Então, o pai voltou-se ao vitorioso Alayn e disse:
"Filho, se estás feliz em vosso coração, dou a vós meu apoio. Contudo, o pai daquela que vos ama possui reputação não muito favorável sequer aos olhos dos deuses. Estaríeis preparado para as consequências de vossos atos?"
Alayn hesitou e, por um longo instante, até eu temi que isso não se passasse de impetuosidade carnal. De repente, me vi diante do cenário de guerra, sangue, atrocidades, e percebi, em intima contemplação, que morreria por meu irmão se fosse necessário. Desconhecia o amor, mas via-o transformado por ela, e não valeria isso? O que é o dever quando amamos verdadeiramente e com a alma?
"Sim, meu pai, estou." Foi sua resposta final, a que atestava seu caráter. Sorri. "Por ela morreria se fosse necessário."
"Deuses queiram que não chegue a isso", me ouvi falar, atraindo para mim o olhar surpreso de Alayn. Diante disso, me forcei a explicar: "Irmão, se contestei antes a respeito de sua relação e se mesmo questionei o amor que sentireis pela princesa, foi, a princípio admito, primeiro por desconhecer que amor é este que vos move, mas, segundo, por me preocupar convosco. Vós partilheis de meu sangue, sois de minha família, e não estais só nesta empreitada. Confesso, no entanto, que preferia que tivesse se apaixonado por uma mulher de laços menos complicados."
Todos rimos desta última frase por mim professada. A união calou os últimos resquícios de desentendimento e trouxe a oportunidade que o pai almejava, o amor em família. Tal foram seus últimos instantes que, infelizmente, se dissiparam diante da morte que o levou de nós. Um novo cenário se formava: era eu o novo chefe da família, a quem cabia determinar os destinos daqueles que de mim dependiam. No entanto, não procurei me favorecer sobre os outros. Na relativa paz que se seguiu ao desencarne do pai e antes da tempestade que viria nos atormentar pelos dois anos seguintes, procurei cumprir com as vontades de Adair. Nisto, primeiro concedi à mãe a pensão a que merecia e dei-lho permissão para a venda dos tapetes, aconselhando que nesta tarefa levasse Romero, que, surpreendia a nós todos com seu caráter cada vez mais tranquilo. Em segundo, busquei um noivo adequado para Safira, mas fiz questão de investigar apropriadamente a índole daquele que lho seria marido.
"Ainda que possua um temperamento questionável", disse Safira, resignada, "cumpre-me fazer a vossa vontade, irmão."
"Agradeço o respeito que devotas a mim, irmã", falei com amabilidade. "No entanto, desejo assegurar vossa felicidade no que me for possível, ainda que sentirei falta de vossa sabedoria."
Ela me sorriu e disse:
"Possuís vós também o bom senso para as situações, querido irmão, mas muitas das vezes deixais que ela se submeta às vossas paixões."
Tal era o conselho dado e que pretendi levar para toda a vida. Em breve, contudo, foi casada por um senhor rico e de personalidade admirável da Síria. Era algo de alma, pois que o homem calhou de vir longe para procurar uma noiva naquela região. Pela graça dos deuses, seria uma reunião feliz e tranquila.
Para Romero, procurei uma noiva adequada a ele, mas um dia fui surpreendido com um curioso pedido seu.
"Irmão, sou muito grato por tudo que fizestes por mim. Não fui uma criatura fácil de lidar, reconheço minhas faltas e por elas vos peço perdão. Não desejo causar-vos mais inquietações do que o necessário tendo em vista o que fiz por vós no pretérito. Creio que logo os deuses me convocarão para regressar à morada divina e, portanto, eis meu único pedido."
Comovido, abracei-o e pedi igualmente perdão pela falta de paciência com a qual muitas das vezes agi. Apesar das diferenças, nos reconciliamos e, não muito tempo depois, ele veio a falecer. Nossa mãe ficou desolada e tanto eu quanto Alayn a consolamos.
"Peço-vos que vos case", ela me instou. "Sinto em meu coração que algo de ruim virá sobre nós. Despose uma moça decente, meu filho. É o que vos peço."
É verdade que relutei em aquiescer. Nos últimos anos, arranjei casamento para Safira, buscava uma pretendente para Romero, trabalhava arduamente para o sustento da casa e, principalmente, para formar o dote adequado para Alayn, que todas as noites escapulia para o palácio dourado, onde encontrava sua princesa.
Quando decidi me casar, procurei entre as mulheres que julgava ter o caráter temperado pela docilidade e inteligência. Logo antes da chegada da tempestade, encontrei aquela que disparou em mim a flecha do amor. Seu nome era Alysha e ela era a primogênita de um senhor também rico comerciante. Ela era bela como a noite, a pele bronzeada e de longos cabelos negros. Seu sorriso iluminava a alma e dissipava qualquer falta que estimulava o vício. Ao contrário, assim que a conheci, senti que a virtude era lho trazida naturalmente.
"Minha senhora, ao que parece a deusa veio abençoar-nos." Falei, na primeira oportunidade em que tive para tomar conversa com ela. A cena aconteceu na sala de sua simples casa diante do testemunho de suas duas irmãs mais jovens, que, por vezes, interrompiam a conversa com suas risadinhas tolas. "A sensação de vos conhecer não é de hoje.."
Com a voz suave, ela respondeu:
"Sim, meu senhor. Com que graça penso o mesmo! Teria Ishtar nos juntado antes de virmos a esta vida? Penso que sim."
Ficávamos a nos fitar, e um sorriso seu trazia outro meu aos lábios.
"Fico sem palavras diante de vós, senhora. Que posso dizer para que ganhe vosso respeito, vossa contemplação?"
Uma risadinha escapou de si, mas ela se recompôs e disse da seguinte forma:
"Vosso devotamento sincero é o que busco em um companheiro. Se balanceado com vosso bom coração e respeito já estarei eternamente grata e em mim encontrará uma esposa tão devota e fiel."
O cortejo foi um sucesso, como poderíeis pensar. Damo-nos bem, as personalidades foram compatíveis. Quando logo obtive o consentimento dos pais e dela, o casamento logo foi realizado. Pensávamos que tudo se encaminhava nos conformes...até que, dois dias depois, um dos guardas de Jarvar bateu a nossa porta. Minha mãe, que muito gostava de sua nora e mais que contente estava por ter outra companhia de seu sexo por perto, prontamente atendeu e foi surpreendida com a confusão que, afinal, veio a nós.
"Onde está Alayn?" Perguntaram.
"Mas, por que quereis saber?" Minha pobre mãe teve a nobreza de responder. E, no entanto, recebeu um forte tapa daquele lamentável espírito ignorante.
Minha esposa correu para acudi-la, mas foi impedida por um dos guardas que, abraçando-a pelas costas, tentou incorrer à mesma pergunta. Diante da negativa e do nervosismo, jogou-a no chão. Enquanto isso, estava eu retornando dos negócios com Alayn quando notei a agitação de casa. Notando a riqueza dos guardas que reviraram o lar, eu prontamente entendi do que se tratava.
"Vá, irmão." Falei, nervoso. "Não me aguardeis, apenas vá. Busque vossa prometida e fujam."
"Mas..."
Eu vi a dor nos olhos dele, mas não havia tempo.
"Não se desculpe. Não vos culpe por vivermos em um tempo no qual infelizmente as riquezas possuem mais importância que o amor. Morrerei por vós se for necessário. Sê feliz, Alayn!"
Os deuses, entretanto, não pretendiam que isso se realizasse. É verdade que Alayn fugira, mas ah! A que custo? Ele corria para os braços de sua amada, contudo, desconhecia que o cruel Jarvar estava, depois de longa ausência, de volta à residência. Descobrindo que sua preciosa filha se comprometera e recusara o noivado que, em sua limitada concepção, houvera trabalhado dia e noite para arranjá-lo, subjugou a pobre princesa sob sua crueldade. E isto não seria feliz para Alayn que corria para resgatá-la. Ah, triste é o mundo em que o materialismo ofusca o amor puro!
De volta a ação naquele bairro de comerciantes onde residia com minha família, estávamos todos agitados, compreensivelmente. Entrei e exigi respeito pela minha família, preocupando-me ver as mulheres que amava terem sofrido qualquer violência da parte de brutos homens. Pela graça divina, porém, foram poupadas do pior. No entanto, dirigiram a mim a brutalidade que não ouso descrever. Como concluíram que auxiliei Alayn a fugir, pensaram que seria melhor se livrassem de mim.
Contudo, os vizinhos aglomerados que tinham ciência da impiedade dos sultões, prontamente se colocaram contra os guardas destes. A faísca de uma guerra civil deu início. Foi, entretanto, o suficiente para dispersar aqueles homens terríveis, embora poucos sobreviveram à raiva súbita dos comerciantes.
Mesmo machucado, tendo saído da situação com sobrevida, me recusei, a despeito da dor que isto me causava, a ceder. Planejei a fuga de mãe e esposa para Síria, a fim de que se hospedassem na segurança do lar de Safira.
"Não vou abandoná-lo!" Protestou minha amada e bondosa esposa. "Fiz os votos dos deuses e não os quebrarei agora."
"Filho meu sois, e como mãe não repudiarei meus deveres para abandoná-lo a esta tragédia que os deuses nos colocaram."
Tais foram seus apelos e inúteis minhas resistências diante delas. Mas os ataques de Jarvar a minha família não cessariam tampouco. O homem manipulou o Sultão e obteve o poder de executar todos aqueles que ousassem protestar contra sua autoridade. Disso se resultou enormes tragédias, lamentáveis de fato, e que não reproduzirei aqui.
No entanto, mais do que minhas feridas agonizantes, me preocupava com o destino de Alayn. Não sabíamos dele e coube aos nossos vizinhos leais tentarem descobrir seu paradeiro. De imediato, lhos foi dito que Alayn foi preso. Compreendi que, em face ao autoritarismo de Jarvar, se meu irmão estava vivo ainda... Por mais quanto tempo?
Poupei, todavia, minha mãe de ouvir tais notícias. Ao contrário, preferi prepará-la para o pior. Foram dias terríveis, nebulosos, pois que a tensão cobria toda a região. O amor de Alayn pela princesa Naysha desencadeou descontentamentos que havia muito eram forçados a ser engolidos pela população. Logo, minha visão anterior se concretizou e a guerra civil eclodiu.
"É-vos imperativo de que saiam desta cidade!" Demandei, exasperado, quando recuperei o suficiente para fazer uso de minha autoridade doméstica. "Ditei a um servente a carta para Safira. Lá ficarão. Especialmente vós, minha amada esposa, cujo filho guardais em vosso ventre com cuidado."
A despedida foi terrível, de fato. Partiu-me o coração e não havia noites em que eu pranteava antes de cair em sono profundo. Contudo, em uma noite veio a mim o espectro de meu pai, cercado de luz divina.
"Filho meu, a que vos afligis?"
"Pai augusto, senhor, sou fraco para as questões que atormentam este que vos foi devoto." Declamei em dor.
"Por que dizeis isto, filho? Subestimais a vossa força e por qual razão? Senti-vos desamparados, e, no entanto, cá estou. Pois divindade nenhuma impele isto ao filho de boa fé."
Sorri diante de tais palavras.
"Lamento se vos desapontei."
Mas o velho Adair me sorriu com aquele sorriso fácil de outrora e disse:
"Se visses a vós como vos vejo, filho, não diria tais coisas. Sê forte e renove vossa fé, pois vosso irmão precisa de vós."
"Sou fraco, pai. Apenas um comerciante..."
"Sois filho do Grande Pai como todos nós o somos. Ainda haverá de vir os tempos em que perceberá isso. Confie em vós, se estais seguindo os destinos divinos fostes porque escolhestes. E se assim foi, é porque capacidade de enfrentar tudo isso vós possuirdes. Não estais só, filho. Nunca esteve. Confie e vigie."
Na manhã seguinte, renovado depois deste reencontro com meu finado pai, preparei-me para o encontro dos comerciantes revoltados a fim de unir a causa minha a deles. Foram tortuosas reuniões, indecisões que me desgastavam o espírito. Precisava reunir forças para resgatar meu irmão. E decidi fazê-lo só.
Caminhei até o palácio dourado e, uma vez reconhecido pelos guardas que ali ficavam, tomaram-me e prontamente me levaram para a verdadeira força por trás do Sultão. Jarvar, envolto em negro tecido, me espreitava com olhos castanhos cheios de raiva.
"O covarde decidiu vir em defesa do irmão?" Ele me recebeu grosseiramente. Ao seu lado, a filha, que, mal reconheci, estava desfigurada. Pobre criatura, cujo único pecado fora o de amar alguém abaixo de sua posição.
"Covarde sois vós que, incompreendendo o amor e a honestidade, se esconde por trás de forças nebulosas para exercer seus escrutínios."
Jarvar arqueou uma sobrancelha.
"Acusações vazias de um pobre comerciante como vós significam nada para mim."
"Os deuses a tudo observam", falei. "Tudo sabem. Tudo veem."
Ele riu de mim e disse:
"E onde estão eles enquanto aqui estais, perante a mim, vosso comandante, vossa força superior? Não sois tolo, pare de agir como tal!"
"Onde está meu irmão?" Gritei, perdendo a paciência. Mas força superior inspirou-me coragem e eu resignei-me, arrependendo de ter dado vazão à raiva que Jarvar inspirava.
"Morto." Disse ele, friamente. "Ou vivo. Que importas?"
Encarei criatura vil nos olhos, perplexo com tamanha falta de humanidade. Como os deuses permitiam tal ser tomar corpo e, paradoxalmente, produzir filha tão pura? Diante da perplexidade que estampava em meu rosto, Jarvar riu e pediu que trouxessem meu irmão a minha vista. E mais chocado estive quando, de fato, o trouxeram a mim.
Mas o que se seguiu, em velocidade assustadora, foi assombroso. Jarvar ordenou que o matassem e, no grito surdo de um coração partido vindo da princesa, vi Alayn abraçar a morte com um quase alívio. Meus olhos volveram de lágrimas, mas se nenhum grito veio de mim foi porque compreendi que era melhor que assim fosse a viver continuadamente em dor.
Jarvar, contudo, não tolerava isso. Aprouvia-lho que gritos enfeitassem seu pobre palácio, enquanto tal sensação provocava-o desgosto. Ante meus olhos vi o amor desfarelar quando a princesa foi silenciada para sempre.
Não satisfeito por isso, ele se virou a mim e disse:
"Que achais deste espetáculo? Assim morre o amor!"
Recuperei-me do choque, e, logrando ao pretérito meus traumas, como se inspirado por força superior, encarei aquele demônio nos olhos e disse:
"Ao contrário, assim o nasce! Pois esta história, quer desejais ou não, seguirá seu rumo e inspirará tantos outros a revoltarem-se contra vossa tirania. Que pensais, pouco me importa. Hoje assinaste vosso destino e eu vos perdoo por isso." Falei com simplicidade, sorrindo aquele ser que, eu percebia, era vazio em tudo e precisava de regeneração. "Vos perdoo."
Foi neste instante, leitor, como presumivelmente deveis supor que aqui deixei minha vida pelo beijo do aço. No entanto, estava em paz e, amparado pela espiritualidade, nada me faltou nesta transição. Os guias que me cercaram logo me elucidaram sobre o ocorrido, mas foi preciso que ainda descansasse no hospital da colônia espiritual a que fui direcionado para que pudesse estar bem quando as mulheres que amei volvessem aos braços do Pai.
Sendo assim, asseguro-vos de que Naysha e Alayn se reencontraram depois de um tempo. Já se recuperaram desde então, concluindo comigo também na Rússia do tzar Pedro o ciclo de encarnações na orbe terrestre. Digo o mesmo de minha mãe, meu pai, e meus amados irmãos. Romero, entretanto, segue encarnado na atualidade e Jarvar, conquanto acompanho seu desenvolvimento espiritual, desencarnou recentemente e está descansando em hospital adequado. Felicita-me informar-vos, porém, de que houve de fato uma grande melhora de lá para cá. Como costumam dizer: "Um Nero pode se tornar um Gandhi."
Com isso, agradeço à médium pela paciência e disposição de tempo com os quais pude aqui contar os mil e um dias que foram bastante importantes para meu aprendizado espiritual e que agora relego a vós, na esperança de instruí-los sobre o perdão, o amor, e a caridade como Cristo nos ensinou."
-Almír Salamin.
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