sábado, 8 de junho de 2019

Velhas Memórias. Ciclo III.

Cairo, Egito. 
Há muito tempo atrás, quando cultuavam uma variedade de deuses, pouco importava de fato a quem deveriam dirigir suas preces. Na realidade, temiam os governantes que se atribuíam características divinas, as quais provavam ser mais mundanas do que o contrário. No entanto, o véu da ignorância mascarava tal perspectiva ao camponês mais simples, ao súdito mais ignorante, ao escravo cuja consciência de si próprio beirava à insignificância.
A despeito disto, havia muito esta civilização prosperava. Guardava em seu interior pessoas de espíritos elevados quanto aqueles de morais dúbias, e, assim, o avanço intelectual tornava-se visível. A astronomia, a escrita, a magia... traziam benefícios para a sociedade humana de uma forma admirável. Contudo, a corrupção moral predominava naqueles que não sabiam manusear o poder que receberam. Sendo assim, a população majoritariamente desfavorecida sofria com isso. E, no entanto, a balança nunca pendia apenas para um lado ainda que, de vez em quando, houvesse um equilíbrio nas forças opostas.
Desta vez, as experiências que me aguardavam me levariam a iniciar uma jornada diferente que seria concluída em existências posteriores. Nascido em um corpo de homem, recebi o nome de Ravi e, na verdade, vim de outro povo, de outra civilização. A bem da verdade, era filho de um comerciante e sua esposa, nascidos e criados na Babilônia. A primeira infância, até a idade dos quatro anos, foi passada por lá antes que meu pai optasse por migrar para o Egito. Cresciam boatos de que era possível prosperar naquela região quente, embora alertassem para uma série de perigos que poderíamos enfrentar: os corsários que navegavam por mares violentos, roubando e violando suas vítimas sem qualquer pesar; os monstros, as maldições de nossos deuses se os abandonássemos, outros tantos indignos de nossas atenções, e por aí vai. Era preciso coragem para mudar e mais ainda para enfrentar os malefícios do desconhecido. Apesar daquele povo do qual fiz parte nos primeiros anos de vida ter sido bastante sábio em tempos onde o instinto insistia em predominar sobre a razão, não era meu destino permanecer ali. Assim, no embalo do colo de minha mãe, deixei para trás o passado para viver o futuro.
Estabelecemo-nos em um vilarejo que ficava próximo ao rio Nilo para que pudéssemos usufruir da terra fértil que aquela região proporcionava por razões geográficas e ali, ignorante de uma série de problemas pelas quais passaram meus genitores, cresci. Recordo-me de ter vivido uma infância simples, marcada por um grau de pobreza significativo que estressava meu pai e fazia minha mãe lamentar, mas também pela presença de um misticismo enorme.
Embora meus pais não abandonaram seus deuses, eu, tampouco, fui apresentado a eles. Conheci aqueles que governaram o mundo espiritual do Egito. Para mim, aquela região era enorme, infinita, o centro do mundo. De tudo, a bem da verdade, pois tal era a visão de uma criança. Afinal, não conhecia outra realidade que não aquela em que deveria rezar e agradecer pelas cheias, temer os jacarés, respeitar as vacas e tantos outros animais que tinham suas ligações com os deuses egípcios. Conforme crescia, tornei-me amigo de um rapaz que chamarei de Harthor. Éramos bem próximos e sua mãe havia recebido a minha quando ela se estabeleceu por ali, portanto, foi apenas natural que nós nos tornássemos amigos.
Harthor era inteligente, calmo e pacífico. Não o via reclamar da falta de comida, das doenças que, de vez em quando, atacavam o povoado, nem das vezes em que um dos representantes do Grande Sacerdote de Rá o repreendia por sua passividade, pois ele não era muito aficionado nas artes militares como deveria. Preferia desenhar, o que quer que desenhasse, e passar seu tempo no templo. Não raro, fugia de seus afazeres todas as manhãs para o templo de Rá, de quem era devoto. Recordo-me da seguinte conversação quando tínhamos aproximadamente nove anos de idade:
--Você sabe o que acontece quando Rá vai embora, Ravi?--perguntou-me ele, seus olhos escuros brilhando com excitação. Admirava-o, se não o amava, e assim pus-me a ouvi-lo--Depois de todo o trabalho pelo qual passa para nos conceder sua luz, a única luz que torna a todos nós seres capazes e pensantes, ele regressa ao seu lar, passando, todavia, pela escuridão, onde deve derrotar seus inimigos como faz pelas manhãs.
--Parece-me tedioso e previsível--eu retruquei. Faltava em mim ainda a natureza religiosa e constante que Harthor possuía: ao contrário dele, era agitado demais para ouvir sermões e mais preocupado em desenvolver habilidades de guerra--Osíris, por outro lado, domou a morte. Isso não é mais fascinante?
Sempre que Harthor me encarava, sentia um arrepio percorrer minhas costas e uma sensação desconhecida. Apesar disso, ainda que corasse, não desviava o olhar. Desafiava-o, ao contrário, a fazê-lo. É claro que ele não fazia, pois sentia o mesmo que eu. A verdade era que nossas almas haviam se reencontrado, e negar isso era tolice, por mais infantis que fôssemos.
--Não há nada de fascinante em morrer e perder o vigor da vida, Ravi.
--Claro que há! --insisti--O fato de ele ter sido o rei dos mortos não lhe diz nada? Ora, me parece que não há nada para temer o outro lado se praticarmos o bem.
É realmente curioso constatar como enxergávamos a morte nesta época, mesmo nos limites que o estado infantil nos impunha. Afinal, todos conheciam a história do deus da morte, do rei guerreiro que a subjugou quando tornou-se rei do submundo e cuja criatura comia os corações dos mortos que cometeram algum crime em vida. Ele era quem julgava os falecidos, o que por si só implicava que a vida terrena não terminava no último suspiro e, para tanto, a mumificação era um processo importante nesse quesito.
--Você admira a escuridão, e eu a luz--ele comentou, soando sábio para a idade--Isso é enfadonho.
Eu revirei meus olhos.
--Que culpa tenho se você é entediante e não entende nada do que Osíris passou?
Conforme crescíamos, porém, as discussões de cunho religioso pouco se aprofundavam porque não me interessava muito por isso como Harthor. Ele, a propósito, decidiu aos dezesseis anos que seria sacerdote. Nesta época, nosso país estava em guerra com os vizinhos e passávamos por uma seca. No entanto, ainda que os pais concordassem que o filho deveria seguir este caminho numa tentativa desesperadora de (tentar) apaziguar a raiva divina, a verdade era que a natureza de Harthor sempre inclinou-se para esse caminho.
--Por que aceitou isso? --eu o questionei, em um dia em que caminhávamos perto do Grande Rio. Admirava como o sol queimava sua pele bronzeada, refletindo sua cabeça alongada e desprovida de cabelos. Era belo, forte e calmo. Havia uma serenidade em sua aura que me instigava, mas me provocava o desespero de não tê-lo, e foi quando percebi que o amava. E isso me deixava com raiva, tornava-me temperamental. Em retrospecto, penso que o amor sempre foi algo desesperador para mim, não a cura que eu pensava ser para meus problemas, afinal, não me valorizava como deveria. Por outro lado, esta não era uma preocupação da época, em lidar com nossos demônios interiores e subjugá-los--Por que seguir essa estrada? Sou tão desprezível assim?
Ele virou seu rosto para me encarar. Tratava-me com paciência, ternura e doçura, mas havia uma distância entre nós que eu não compreendia. A verdade era que ele era mais elevado que eu, e dificilmente se entregava as suas paixões. Eu o queria, e talvez ele me quisesse também, mas não da mesma maneira.
--Não se trata de você, Ravi. Nunca se tratou--ele retrucou e seus olhos se desviaram para o céu, contemplando o azul sem nuvens, a força da luz que iluminava o dia e tornava tudo mais quente--Sempre o senti me chamar, sabe? Já sonhei com ele.
Arqueei uma sobrancelha.
--Os deuses se comunicam com você?--desdenhei--Somos pobres, somos inúteis para eles, embora imploramos por sua afeição e sua proteção.
Harthor me encarou com tristeza. Deu um passo a frente e, por um instante, pensei que ele se aproximaria o suficiente para que não houvesse distância entre nós. E, talvez, eu ousasse o suficiente para que o fogo que me afligia o tocasse e diminuísse sua frieza. Mas eu não entendia, não compreendia a honra e o dever que ele carregava consigo, a missão que deveria cumprir, porque ainda era embrutecido pelo orgulho, pela vaidade, pela luxúria. Por mais que houvesse melhorado consideravelmente daqueles tempos para os de agora, ainda não era o suficiente.
Sendo assim, ouvi dele o seguinte:
--Somos todos filhos de Rá. Da mesma forma como os deuses menores que acatam e respeitam sua ordem. Por que seríamos ignorados por ele? Por não sermos faraós? Lembre-se de que Osíris julga a nós todos quando descermos ao seu mundo. O coração será visto em sua essência e nada dele poderemos esconder--então, suavizou--Sentimos um pelo outro um carinho imensurável, eu bem o sei. Acha que não sofro com esse distanciamento entre nós?
Fui silenciado e senti-me envergonhado. O orgulho, ferido, fê-me baixar os olhos e encarar o chão que sujava meus pés. Eis que ele colocou seu dedo indicador sob meu queixo e o levantou para que visse o que havia em sua alma. Amor, na sua forma mais pura.
--Devemos seguir caminhos diferentes porque não há espaço para nós aqui--disse Harthor, delicadamente--Sei que compartilha comigo a sensação de que, sempre que nos encontramos, algo nos separa. Mas tudo há seu motivo, mesmo que não saibamos disso. Eu preciso servir ao deus Rá e lhe ser útil. Não posso ficar aqui e não fazer nada.
Assenti com a cabeça. Ele falava a verdade, eu sentia isso em meu coração. Desse modo, não falamos mais nada. Era como se, silenciosamente, houvéssemos entrado em consenso. Logo após, separamo-nos e, assim que ele partiu, pela primeira vez, chorei.
*                                                                             *                                                                                *
A jornada para os desfavoráveis seria difícil, e mais ainda para aqueles que detinham um grande débito com o Criador a ser pago. Estava determinado a ser alguém melhor, isso eu não podia negar, mas constantemente era vencido pelos meus vícios.
De todo o modo, eventualmente meus pais migraram outra vez e fomos todos para dentro do Cairo quando as oportunidades pareceram melhorar. Era ali, entretanto, que sofreria mais. Estava desolado por dentro, culpando-me por ter permitido que Harthor fosse embora, que me deixasse. Pensava nele noite e dia, e culpava Rá por tirá-lo de mim. E, no entanto, quando recebia constantemente as negativas de ser recebido no exército mais infame do faraó, eu percebia que aquilo era castigo do deus da luz.
Um dia, a senhora minha mãe veio conversar comigo. Era seu único filho e não a toa éramos muito apegados um ao outro, uma ligação aparentemente inexplicável. Ela sentou-se ao meu lado e disse:
--Sabe de algo que me surpreende, Ravi? Que eu tenha vivido quando tantos a minha volta vi morrer.
Encarei-a, pasmo. Mas ela falava com tranquilidade e sabedoria para além da idade, ainda que não fosse tão jovem como antes. Contava 35 verões, seus cabelos cacheados apresentavam mechas esbranquiçadas e seu rosto oval e cheio continha algumas rugas ao redor dos olhos.
--A vida é curta para aqueles que trabalham em prol de um objetivo, mais ainda para aqueles que não têm--ela prosseguiu--Preocupa-me ver que, depois que Harthor se foi, você se permitiu cair no labirinto. É como se os deuses o testassem.
Não falei nada, embora sentisse vontade de retrucar. Estávamos em um quarto pequeno de paredes sem cor e com uma janela apenas que dava para o exterior, onde ruas porcamente pavimentadas eram ocupadas por escravos e mercadores como meu pai, além de homens do faraó que supervisionavam os trabalhos feitos.
E foi naquele momento que espiei uma figura no canto daquele aposento empoeirado. Alta, esguia, apresentava-se como mulher. Sua pele era escura como a noite, assim como seus cabelos que caíam como uma cascata pelas costas. Um brilho azul cercava sua aura e foi quando meus olhos se esbugalharam levemente. Era a deusa Nut, e fiquei boquiaberto. Minha mãe percebeu minha expressão, mas não se assustou.
--Você os vê, não vê?--ela inquiriu.
Ao lado dela, um homem negro se materializava. Sua aura era alaranjada, e seu corpo forte indicava traços guerreiros. Na minha concepção, via o deus Hórus, embora não enxergasse seu rosto tão claramente quanto via a de Nut.
Sendo assim, não conseguia responder minha mãe, que tomou minhas mãos nas dela e disse:
--Sabe por que eles estão aqui? Porque o filho deles está perdido. Criança, ouça-me. Sei que vivemos uma vida além de nossas expectativas--e aqui ela se referiu às esperanças dela e de seu pai--Sinto falta daquilo que um dia chamei de lar, mas tudo bem. Quero que aprenda a não depender dos outros. Que seja livre, mas com um propósito. Está quase se afundando no esquecimento, na morte não vivida, na desesperança. Seu pai luta para manter esta casa e eu, para que seja alimentado.
Senti vergonha daquelas palavras. Vivi para mim mesmo, em torno do meu egoísmo, e esqueci de tudo que meus pais haviam feito por mim. Pensei em Harthor, e no quanto ele abdicou para ser um homem de luz. Um homem de Rá. Lembrei-me do som de suas risadas de quando, desde crianças, brincávamos. De como ele me ensinou a mergulhar no Nilo. Das estórias que ele ouvia do templo, das vezes que me levava a todos os templos que conhecia em que os pobres como nós podiam entrar sem atrapalhar.
Recordei-me de sua calmaria, de sua disciplina, de sua resignação do destino que ele tinha certeza que seguiria. Veio a minha mente as palavras de conforto que entregou à mãe viúva, e da frieza com a qual se despediu de mim. Nele, não havia o egoísmo, a vaidade, a percepção de si próprio. E a vergonha me atingiu porque, diante da presença de dois deuses, eu me via sujo. Impuro. E vi que só havia um caminho para me limpar de tais desregramentos.
--Perdoe-me, senhora mãe--eu me ouvi implorar, sem me importar com as lágrimas que caíam de meus olhos e como me humilhava ao me ajoelhar daquela forma--Eu não sei onde estava. Eu não sei o que fazer de mim. Sou um fracasso e isso acaba comigo.
Sem julgar-me, oh que alma caridosa foi a daquela genitora, ela me envolveu em seus braços. Fechou os olhos e nada disse. Por fim, colocou suas mãos sobre minha cabeça e fez uma prece à Isis:
--Que os caminhos certos sejam seguidos. Que o verdadeiro amor purifique e não cegue este coração. Senhora Isis, mãe de Hórus, ouça meu clamor e não permita que este filho meu, guiado pelo filho vosso, se perca nas estradas escuras. Que a paixão do corpo não vele o amor do coração. Que assim seja, minha deusa. Proteja-o, como sei que fará.
Abrimos os olhos instantaneamente e senti-me revigorado. Algo ali aconteceu, e eu, que podia ver tudo, vi o aspecto de uma mulher ao lado daquele que pensei ser Hórus. Sua pele era bronzeada, seu rosto era oval e os olhos miravam-me com intensidade. Sua figura me era familiar. Não porque a reconhecia como a deusa Isis que, aparentemente, era quem tomava conta de minha mãe... Mas porque, na verdade, era ela quem tomou conta de mim em outra existência, sob outra forma. O leitor saberá de quem falo.
Assenti em respeito às divindades que se apresentavam silenciosamente a nós todos. Levantei-me e, ajudando minha mãe a fazer o mesmo, tomei suas mãos e juntos rezamos a todos os deuses, sem exceção. O sol chegou ao crepúsculo quando terminamos nossos afazeres, afinal, a reza não era apenas murmurar palavras, mas oferecer os sacrifícios possíveis a cada um deles. A oferta que me foi possível fazer foi sacrificar uma ovelha à deusa Isis para agradecer pelos pais que tinha e por tudo o que fizeram por mim. Mas também pedi pela fartura. E ela haveria de vir.
Na manhã seguinte, senti minhas forças revigoradas e, como se as circunstâncias foram manipuladas pelos deuses, percebi que o faraó precisava de soldados. Assim, consegui me alistar. Mas, dali em diante, não veria mais minha mãe ou meu pai. Minha vida voltaria-se toda para as funções que desempenharia a partir de então.
No dia próximo, parti. Com muito esforço deixei minha única família para trás, carregando comigo a sensação de que não os veria novamente.
--Que os deuses o acompanhem, meu filho--disse minha mãe, devota dos novos deuses, enquanto meu pai permanecia ligado aos velhos.
--A fortuna haverá de segui-lo se fizer tudo certo--disse ele--Marduk não abandona seu filho jamais. Peça e ele o ouvirá, se souber fazê-lo com sabedoria.
--Que assim seja--eu murmurei.
Houve treinamentos, é claro. Não quer dizer que, com isso, tudo significou uma adaptação fácil. Afinal, não tinha perfil para ser o guerreiro que procuravam, o que conflagrou em vários tipos de provocação. A tudo isso, porém, enfrentei sem reclamar ou pestanejar. Sempre que me provocavam, via Hórus e, estranhamente, me sentia mais resignado. Preparado para o que viria.
Nesse sentido, meu silêncio, que a muito custo escondia meu verdadeiro temperamento, colheu bons frutos. Fui designado para a fortalecer os muros da fronteira. Com uma equipe de cerca de cinquenta homens, para os desertos fomos. Aquela primeira missão provaria ser difícil.
--Mas que calor! --reclamou um dos meus companheiros, um sujeito chamado Radamés--É como se o inimigo de Hórus viesse nos provocar constantemente.
Concedi ao homem um pequeno sorriso.
--Sejamos fortes para enfrentá-lo, pois--respondi.
Radamés era alto e forte, apesar de possuir traços relativamente delicados em torno do rosto. Era belo de se encarar, mas eu não ousava fazê-lo com frequência, pois seus olhos me lembravam Harthor. Havia cinco anos que não o via, sequer sabia de seu paradeiro.
--Você é um indivíduo curioso--disse ele, claramente querendo se entrosar. De todos ali, era o mais falante--Como crê que possamos enfrentar a ira dos deuses?
Naquela época, anterior à de Nefertiti, os cultos diferenciavam-se e as crenças tampouco seguiam uma conformidade. Apenas dei de ombros e falei:
--Hórus não derrotou seu tio? E seu pai não governa o submundo?
--Vejo que é filho de Osíris--disse Ramadés com um sorriso engraçado estampado no rosto--para falar assim dele, acho que é favorecido. Não conceberia tal arrogância de poder derrotar os seres que deveríamos temer.
Antes que pudesse respondê-lo, nosso superior mandou nos calar. Desta forma, passamos o restante do dia patrulhando as fronteira sob um sol escaldante. Fazíamos nada, mas cumpríamos algumas ordens. E, no calar da noite, trocávamos de turno. Sozinho estava, longe da fogueira onde os homens se cercavam, pois cada vez mais me percebia longe daquelas conversas fúteis. Que me importava a vida do faraó? Ou de sua família? Seu nome eu não guardei, embora a sua figura prestasse respeito. Não falavam de deuses, mas de prostitutas. Demoravam-se em detalhes desnecessários.
E ali, longe de meus companheiros, me peguei pensando em Harthor novamente e nas conversas que tivemos. Constantemente dominadas pelo teor religioso, rememorava seus pequenos sermões, sua curiosidade inocente sobre a vida, a cura, e tudo o que aquilo poderia ser. Sua devoção a sabedoria fê-lo logo ser visto como favorecido pelo deus Tut, e não à toa foi acolhido pelo representante do Grande Sacerdote. Creio que esteja com o próprio representante divino, e poderia visualizá-lo aprendendo sobre tudo o que, até a juventude, foi-lhe negado saber em decorrência das condições de sua vida.
Perdido em tais pensamentos, mergulhado num passado que não voltaria, não percebi que Ramadés, desnudo da cintura para cima, se aproximava. Deliberadamente, o sujeito sentou-se ao meu lado e disse:
--Você não é muito sociável. Alguns não gostam de você por isso, outros o acusam de não ser egípcio o suficiente para exercer a função de soldado do rei. Um dos veteranos foi longe o suficiente ao afirmar que babilônios deveriam ter se mantido longe daqui.
Levantei o olhar para encarar aqueles olhos curiosos e cheios de significado. Ele não me provocava, tampouco me julgava, mas havia malícia em seu semblante. A fogueira que eu havia acendido para mim refletia-se em seus olhos.
--Que seja. Deixem-os falarem. Homens sempre falam, mesmo no silêncio.
Ramadés riu, mas seu olhar penetrava o meu. A velha sensação de calor que se remexia em mim voltou. E eu não sabia lidar com isso. Rapidamente desviei o olhar.
--Você é sábio--ele comentou a seguir--e faz bem em sê-lo. Vivemos num mundo de aparências. O ter é mais importante que o ser.
--É porque precisamos do ter para ser--eu respondi, e quando voltei a encará-lo, ele estava perto de mim. O suficiente para sentir o cheiro de suor emanar de sua pele--Ramadés, o que pensa que está fazendo?
Um olhar foi o suficiente para que palavra nenhuma se pronunciasse. É verdade que eu poderia estar no caminho da sabedoria, mas longe de alcançá-la eu estava. Ainda era escravo da carne e, portanto, quando aquele homem pressionou seus lábios contra os meus, não hesitei em retornar. Pensava em Harthor, é verdade, mas mais ainda na dor que ele me afligia. E permiti que a necessidade do corpo se sobrepujasse aos meus sentimentos.
A verdade era que eu traí meus próprios princípios. E isso era pior do que ser açoitado. Mas só percebi isso quando o ato em si foi concluído e cada um de nós alcançou o prazer desejado.
--Foi errado o que fizemos--eu falei, amargamente.
--Não foi. Dizem que o faraó faz isso também--ele sorriu maliciosamente--E quem se importa? Não seremos castigados por amarmos uns aos outros.
--Eu amo outra pessoa--eu retruquei, exasperado.
--Não me pareceu.
Fechei os olhos. E Ramadés entendeu isso como se eu quisesse outra rodada, e de novo não consegui ser forte o suficiente para impedi-lo. Porque eu gostei. E isso foi o pior. A carne cedia, e eu não sabia dizer não.
A cada noite, isso se repetia. Eu me sentia vazio, mas percebi que essa era uma alternativa a sofrer eternamente por alguém que longe de mim estava. Todavia, a pureza de Harthor lembrava a mim mesmo de meus erros. E que eu havia feito de mim um escravo. Se um dia eu vira a luz, agora eu sucumbia à escuridão. E aos poucos eu percebi que não via mais meus protetores, os deuses que vinham comigo desde o dia que me despedi de minha mãe.
Foi preciso que, eventualmente, fôssemos flagrados e causássemos horror no superior para que eu voltasse à realidade. Sem resmungar, permiti que me castigasse. Ouvi ameças sobre castração, mas Ramadés exerceu sua influência, que eu imaginava ser promíscua, sobre outros poderosos ao lado do superior para que isso não acontecesse. Mas, talvez devesse. A vergonha não era suficiente. E se eu perdesse meu poder, o centro das minhas fraquezas, era mais provável que eu dobrasse meu joelho e enfim aprendesse sobre humildade.
No entanto, fui transferido para os muros internos do faraó. Fiquei aliviado em saber que Ramadés não acompanharia. A partir dali, prometi a ser o mais casto possível. Não me renderia aos desejos da carne, fosse o que fosse. Tendo em mente Harthor, eu me inspiraria nele.
Não foram dias difíceis, no entanto. Um dia, o sub sacerdote do faraó veio me encontrar patrulhando os jardins nas primeiras horas da manhã.
--Soube que cometeu o crime da fornicação--ele disse em tom de censura, sem cumprimentar-me, indo direto ao assunto. Diziam que aquele homem era um mago, e talvez fosse, mas nada respondi. Ele prosseguiu--Deveria ter perdido sua virilidade. Tornado-se escravo. Mas... Mas não. Intercederam por você.
Assenti com a cabeça, parecendo distante. Meu interlocutor era um velho de mais de 40 anos, cabeça grisalha e pele marcada por doenças que deixaram seus rastros ali. Não era bonito, e parecia ser deveras exigente com ele mesmo e com os outros. Sua presença exercia uma aura assustadora, autoritária, e eu me perguntei como um homem daquele tipo não ambicionava se tornar "o" grande sacerdote. Mas o que eu sabia de políticas? Mais ainda de religião? Nada. Aos vinte e cinco anos, eu era um tolo envaidecido, enraivecido e vazio... mas que aprendia com as lições duras da vida.
--O senhor Harthor insistiu que o mantivesse aqui. Ele virá falar com o senhor. O filho de Tot sabe das coisas, isso preciso reconhecer--ele resmungou--Mas, mais um crime e não terá piedade de nenhum de nós, está me ouvindo? Foi com muita dificuldade que escondemos isso do faraó. Não nos faça nos arrepender.
Surpreso eu estava com toda aquela nova informação, pois pensava que, se eu havia sido transferido para aquele local, foi porque Ramadés seduziu o braço direito do superior e sussurrou palavras em seu ouvido para me salvar. Mas a politicagem ia além do que eu pensava e eu não conseguia conceber seu funcionamento. Era apenas um soldado.
--É claro--eu falei, e fiz um juramento sobre meus protetores de que não repetiria aquele erro grotesco. O velho me encarou, mas pareceu acreditar em mim e desapareceu de minha vista. Antes que pudesse assimilar tudo o que aconteceu até então, vinha em minha mente um jovem da minha idade em vestes brancas, cujo tecido, ao se olhar mais perto, continha ouro.
Com uma mistura de sentimentos que me fez quase engasgar, era Harthor quem via diante de mim. Com dificuldade, controlei-me, embora não negasse o abraço com o qual ele me recebeu. Fechei meus olhos e respirei seu perfume.
--Senti sua falta--falei, como o tolo que era.
Harthor me deu um sorriso triste, porém, quando relutantemente nos afastamos.
--O suficiente para ter dormido com outro?--ele retrucou, e eu corei.
--Sinto por isso--disse eu--Não negarei que fui movido por pensamentos obscuros. Sou fraco, Harthor. Gostei do que fiz, admito, de ter saciado a carne... ainda que pensasse em você todo o tempo.
Vi Harthor ruborizar, mas seu olhar era de repreensão. A culpa invadiu minha consciência, pois senti-me inferior a ele, o que era verdade. Mas a sensação era de que estava impregnado de sujeira e eu percebi que, mesmo que ele me tentasse naquele momento, eu não poderia repetir o que fiz com ele. Por mais que na juventude desejasse isso, percebi que a fornicação é insignificante.
--Estamos bem diferentes--ele comentou, depois de um momento de silêncio--Você se tornou o guerreiro que eu sabia que viria a ser.
Não respondi, porém. Fui corrompido, e não havia como mudar isso. Pensei em meus pais, na prece de minha mãe à Isis e senti mais vergonha ainda. Mas respirei profundamente, e olhei para baixo. Assim, não vi que Harthor se solidarizou comigo e, tomando-me pelos ombros, levou-me a um banco próximo, longe, porém, dos olhares desconfiados dos meus colegas.
--Julguei-o duramente--ele começou.
--E com justiça--eu respondi--Maculei o voto que fiz aos meus pais, traí meus protetores...
Com uma mão sobre meu ombro, Harthor falou:
--Não seja duro consigo mesmo, meu caro. Confesso ter falado por ciúmes, e veja quão imperfeito ainda sou. Amo-o e não suportaria vê-lo com outro. Mas preciso cumprir minha missão e, para isso, preciso renunciar às perspectivas de felicidade. Quando Rá me chamou, seria muito egoísta se virasse minhas costas para ele. Talvez, meu destino seria outro, teria tudo sido diferente. A vida, porém, não é feita de amores e desamores. É mais que isso.
Em silêncio, ouvi aquilo que ele dizia e, conforme compreendia verdadeiramente o significado de seu ato, percebi que ele me amava tanto quanto eu a ele.
--Não ficaremos juntos--comentei, mas sem rancor ou mágoa. Sem dor.
--Não--ele concordou--mas isso não impede que nossos caminhos não se cruzam novamente.
Aquiesci.
--O problema não está nos deuses e suas guerras--eu me ouvi pensando--mas em nós mesmos. Somos insignificantes, é verdade, mas somos seus instrumentos.
Harthor sorriu.
--Você entende agora porque segui o rumo que me trouxe aqui?
Pela primeira vez, entendia. E não o julgava por isso.
--Sinto como se estivesse me esclarecendo.
--Ah, e está, certamente--ele disse com um orgulho que me fez sorrir--Cada um com seu propósito, e ele está além de nossas vontades pessoais. Nem sempre o que queremos é o melhor para nós. Os deuses nos conhecem, e eles não desistem de nós, apesar do que dizem por aí.
--Obrigado--eu disse, e falei com uma sinceridade que o comoveu--Obrigado por me tirar da escuridão. Eu não quero me afundar novamente nela, mas temo que não sou como você.
Harthor ainda sorria quando falou:
--Erros precisam ser cometidos para que saibamos apreciar aquilo que temos. Sei que nós dois trilhamos rotas diferentes, opostas, mas nem por isso melhores ou piores do que as decisões tomadas respectivamente por cada um. Mas nem por isso deve se arrepender. Tudo é um aprendizado, meu caro. E temo que precisamos de soldados cada vez mais. Não há vergonha em ser um soldado. As polaridades da vida, como os deuses nos mostram, apontam para que as funções que desempenhamos em cargos distintos sejam cumpridas. E isso é que importa. Você diz que aprende comigo, mas não sabe o quanto me ensinou.
Aquilo me surpreendeu. Em meio ao caos que refletia ser minha vida, ele ter dito isso me deixou chocado.
--Como poderia eu ensinar alguém?
Harthor riu.
--Você se subestima demais, Ravi. Sua persistência e fé são inabaláveis, percebeu isso? A despeito do seu temperamento, você crê nos deuses, e entrega a eles sem hesitação o seu destino. Não questiona. Recebe o fardo que carrega. Por mais difícil que a vida seja, é corajoso o suficiente para enfrentar suas batalhas. Nem tudo é fácil, é verdade. Mas você insiste, você reconhece seus erros e aceita seus defeitos. Acha que os deuses não nos observam?
Emocionado com aquela perspectiva que ele tinha de mim, chorei. Não sabia se havia encontrado a redenção, mas talvez houvesse saída para o que eu fizera no passado. No final, não era mais o jovem embrutecido de outrora. E quando Harthor me abraçou, encontrei paz.
Mas aquela seria, como deveria esperar, a última vez que nos veríamos. A conversa dali seguiu para outros rumos. Não falamos de sentimentos ou deuses, mas da vida. De aprendizados. De coisas boas. Contei a ele dos progressos que fazia com o arco e a flecha, embora preferisse as lanças e os punhais. Como soldado, porém, o conhecimento de armas era necessário. Afinal, não se sabia o dia de amanhã.
--Conhecimento--eu falei--é algo que pretendo almejar. Mas sinto que não agora.
--Tudo no seu tempo--disse Harthor, sabedor como o homem que era--E nem por isso deva se envergonhar da posição que está. Lembre-se de aprender com os erros, de não esquecer de quem é. Seja corajoso.
--Serei. E você também.
Entreolhamo-nos quando o silêncio confortavelmente se estabeleceu entre nós. Levantamo-nos e ele disse, mantendo certa distância:
--Amo-o, Ravi. Sempre amei e amarei. Espero que me perdoe por...
--Não--eu o interrompi, e me surpreendi por estar calmo e sem carregar qualquer ressentimento, embora estivesse triste pela despedida que se formava--Não há o que ser perdoado. Precisamos cumprir nossos destinos, Harthor. Eu sou grato por ter me trazido à luz, por ter me ensinado a me perdoar também quando pensei que permaneceria na ignorância da escuridão, envergonhado diante da possibilidade de meu coração pesar na balança, diante de Osíris. Hoje, não sei o que me aguarda, mas minha fé se renovou, de fato. Hórus e Nut me acompanham na jornada que me trouxeram até aqui. É hora de partir.
Agora, era o frio Harthor quem lacrimejava.
--Cuide-se.
--Você também, meu amigo. Sabe que o amo, Harthor. Nenhuma outra pessoa ocuparia meu coração e minha alma como você.
Ele sorriu.
--Palavras poéticas. Poderia ter trabalhado com a escrita, ser um escrivão se quisesse...
Eu ri.
--Seria enfadonho demais para mim e o tédio não me cabe. Sou um homem das forças.
Harthor assentiu, concordando. Despedimos, então, e com a cabeça e o coração mais leves, retornei a minha posição de antes. Não vi meu caríssimo devoto de Rá desaparecer de minha vista e regressar ao templo onde seu superior o aguardava, pois fui chamado para atender uma emergência. Eclodiu uma revolta fora dos muros do faraó. E, embora tivesse sucesso em apaziguá-la, emergiram outros tipos de revoltas posteriores.
Pairava no ar uma ameaça de fora. Não saberia dizer de quem. Era apenas um soldado que obedecia a ordens. Dominei meus instintos carnais, mas havia outros ainda a serem dominados. A raiva, a frustração, o orgulho e a vaidade permaneciam como sombras que esperavam o momento de atacar. De todo o modo, quando a verdadeira ameaça se concretizou, estive lá para combatê-la. Em meio ao caos, fui ferido. Por mais que Hórus me protegesse e guiasse, meu destino era inevitável. Selei-o.
Assim, parti para o submundo. Ou era como pensava a partir do instante em que fui tomado pelo alívio no momento em que a dor que tanto me afligia... cessou.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Velhas Memórias. Ciclo II.

Serra Leoa, continente africano.

Ainda naqueles tempos antigos, onde a era dos heróis conflagrava-se em seu crepúsculo e valores aparentemente altruístas maculavam-se sob uma selvageria que, refletindo o sobrepujo da razão pelos instintos, não raro transformava atos nobres em guerras sangrentas, um conjunto de tribos vivia no local que no futuro se chamaria Serra Leoa.
A geografia era mais natural, é verdade. Cada povo dava início a contos que repassava aos seus herdeiros, contribuindo para que alguns destes tornassem-se nômades e levassem tais estórias para outros lugares, outras pessoas, uma prática tradicional que criaria raízes profundas. Mas não é este o foco que pretendo abordar aqui. Minhas memórias me levam de volta a um corpo mais forte do que o anterior, mais saudável e robusto, preparado para o contexto que me inseria. Como falei, a era dos heróis estava declinando e já não era mais fácil identificar o homem que defendia seu povo bravamente dos inimigos e monstros afora daquele que, corrompido pelo poder destes mesmos inimigos, vendia-se facilmente na falsa escusa de ser o escudo dos mais frágeis. Desta vez, nasci num corpo social mais fragmentado, por assim dizer: as guerreiras silenciosas. 
A distinção entre uma hierarquia a outra era determinada, até então, pela sabedoria em contraponto a possessão de ouro, embora aquele valor também estivesse em mutação. Os anciãos a tudo isso observavam com cautela, mas mesmos os mais sábios não demoravam a se entregar aquelas práticas corruptas também. Tudo em prol de uma causa... patriarcal.
A figura do herói, do homem viril que, em sua demonstração de poder cada vez mais incontestável, salvava seu povo dos destruidores, dos amaldiçoados pelos deuses, ressaltava a ideia de uma fraqueza feminina cuja sabedoria provava ser incapaz de defender a si própria e os demais em tempos de caos. A paz não era mais admirável quando a força apontava para um caminho mais glorioso. E o custo para tal para poucos importava. Naturalmente, ainda que a mulher ocupasse um cargo em armas em determinadas tribos, foi o herói quem minou o exercício de seu poder. Sua fragilidade exposta, em meio a gravidezes e doenças (como o sangramento da lua), quando as vitórias conquistadas por outros que não padeciam destas infelicidades, corroborou para fortalecer a crença de que a mulher precisava ser protegida. Sua liberdade, aos poucos, começou a ser circunscrita. 
As guerreiras silenciosas eram, como bem diz o nome, um grupo de mulheres que agiam quando podiam na ausência de seus valorosos heróis para o bem do povo. Agiam de uma maneira que os líderes tribais não fariam, pois a coragem, a bravura, a ousadia não combinavam com o silêncio. Um erro, meus leitores, muito associado ao orgulho, a cobiça, a vaidade... Na tribo onde nasci, porém, elas ainda eram relativamente respeitadas. Defendíamos a senhora que, ao lado do nosso chefe, poderia se encontrar em perigo. Isso incluía tanto internamente quanto externamente... E, como pode-se esperar, eu pagaria o preço por não ter aprendido com meus semelhantes.

Dito isso, permita-me que me apresente. Gandhira foi o nome que me concederam naquela época tão longe e esquecida pela História, cuja memória sabemos ser bem seletiva. Meu pai morreu quando era criança e, após minha mãe ter se casado novamente com um homem qualquer de nosso povo, tão logo engravidou e eu me vi aos cuidados de meu novo pai. Jor'a era seu nome, ele era escuro como a noite, mas seus cabelos eram brancos e os olhos, esverdeados como a mata. Tinha lá seus outros filhos, alguns dos quais dirigia especial afeição, mas a mim me tratava com certa indiferença, o que me fez ressentir dele logo quando me vi órfã antes de completar 12 voltas do sol.
Possuíamos uma relação um pouco complicada. Ele ignorava que eu tinha algo especial em mim, como poder enxergar nossos ancestrais -um traço que trouxe comigo de outra vida, aquela primeira, sem dúvida- ao nosso redor. Nem sempre eles me viam com bons olhos, o que me dava medo -e como haveria de ser, quando a ignorância cegava-me para a verdade como o véu misericordioso divino que me impedia de ter conhecimento sobre o passado- e fazia nascer em mim um ímpeto não muito positivo. 
Apesar disso, cresci em um ambiente normal onde, das crianças que nasciam homens, esperava-se que treinassem em armas e conhecessem todo o espaço marcado onde vivíamos, isto é, ter conhecimento da natureza, de seus ciclos e de como os deuses se comunicavam conosco: cada sinal era um indicativo de favorecimento (ou da ausência deste) de que eles estavam o tempo todo ao nosso redor, de olho em nossas ações. Quanto aquelas que nasciam mulheres, a educação voltava-se para o tricô, os contos ancestrais que repassavam aos filhos, a educação destes e das filhas que tinham, consultadas apenas em questões necessárias, pois mesmo os mais arrogantes dos homens reconheciam que a sabedoria divina recaiu sobre elas.
Em uma manhã, eu acompanhava uma senhora amiga de Jor'a e minha mãe que, com a permissão dele, tomou-me em seu círculo feminino para que pudesse desfrutar desta educação informal. Era costume que as mulheres passassem tempo juntas e não era de surpreender que Jor'a aquiescesse, permitindo que me juntasse a elas. Todavia, jovem como era, via naquela permissão uma maneira de livrar-se de mim.
Por isso, a rebeldia em meu espírito prevenia-me de completar alguns deveres como o tricô, a cozinha, dentre outras tarefas que esperava-se que alguém como eu devesse cumprir. Neste dia, a mulher em questão, a quem chamarei de Shilloha, pediu para conversar comigo a sós. Longe daquela oca de palha sob o qual eu e  outras meninas trabalhávamos, me vi ao lado daquela mulher de corpo esguio, olhos castanhos vivos e lábios carnudos. Seu semblante era sério, e a ausência de cabelos que cobrissem sua cabeça dava-lhe um aspecto de guerreiro deveras assustador. Encolhi-me, o pouco que meu orgulho permitia.
--Gandhira--ela disse, rigidamente--seu comportamento não tem sido muito exemplar.
Em silêncio, fiquei. Não sabia o que dizer, nem o que era esperado de mim responder. Shilloha prosseguiu:
--Seu pai ficará desapontado se...
--Jor'a não é meu pai!--retruquei, sem pensar no que estava fazendo.
Mas Shilloha compreendeu logo a questão.
--Então, é disso de que se trata--ela suavizou o semblante--Venha comigo, Gandhira.
A confusão estava estampada em meu rosto infantil, mas, apesar disso, a segui. Confiava naquela mulher não apenas porque era meu único elo com aquela que me concedeu a vida, mas porque era quem mais genuinamente se importava comigo.
Caminhamos por entre as relvas, as longas árvores, passando por animais de tamanhos diferentes que não constituíam qualquer ameaça a nós e nem nós a eles. Enfim, adentramos uma floresta densa antes de alcançarmos a foz de um rio. Ali, ela pediu para que eu me sentasse:
--Peça licença à divindade do rio antes--alertou-me Shilloha e, quando o fiz, ela disse--Aqui estamos em paz. Diante dos deuses, podemos conversar sem temer os homens.
Nada respondi, pois, diante de nós, via uma mulher de pele bronzeada e olhos escuros, toda pintada em ouro, embora seus cabelos fossem crespos como os meus. Uma áurea ao seu redor me dizia que ela era quem protegia aquela região onde eu e Shilloha nos intrometíamos, mas a deusa apenas nos observava, sem nada a dizer ou fazer. Pus me a concentrar, portanto, em Shilloha.
--Sei que suas aptidões inclinam-se para a guerra--ela continuou--Em outros tempos, tais qualidades a teriam valorizado. Mas os dias de nossos avós e antes deles, temo, acabaram.
Eu bufei.
--Isso é injusto.
--É assim que nós funcionamos, Gandhira. Quer você goste ou não--afirmou ela, com firmeza--Já sangrou?
Corei diante daquela pergunta. Sacudi a cabeça, ainda infantil em minhas maneiras embora quisesse provar-me como mulher.
--Por isso seu pai não a tem procurado tanto--ela especulou mais consigo própria, antes de dizer--Os deuses têm um propósito para você.
Lancei um olhar a deusa dourada, mas ela não estava mais ali.
--Desposar um rival de meu pai para fazer as pazes com a tribo dele? --eu perguntei, desdenhosa. Aquilo me soava estranhamente familiar e, como se para confirmar essa estranha sensação, um arrepio percorreu minhas costas.
--Nem sempre alianças são ruins. Os deveres devem ser cumpridos a todo o custo--respondeu ela, dura, antes de suavizar--Há missões que os deuses nos concedem, esperando que possamos levá-las a cabo. Sempre soubemos tecer nossas forças de outras formas que não envolvesse o linho, e agora não seria diferente. Os desafios mudam, e nós também. Em meio a tempestades que avistamos no horizonte, precisamos encontrar nossa força e resistir a elas. Ser derrubada não é uma questão.
A tudo isso ouvia, sem saber se entendia, de fato, a mensagem que ela me passava. Mas, conforme ela falava, tudo pareceu começar a fazer sentido.
--Não sei qual missão os deuses conceberam a você, mas sei que estou nela, de alguma maneira. Você precisa usar esse seu temperamento para algo... claramente, é abençoada pelo deus da guerra--fez uma pausa, e um sorrindo apareceu em seus lábios--As guerreiras silenciosas... Já ouviu falar delas?
Quase caí no rio diante do nome que, certamente, me era familiar. Aquele era um grupo seleto que, nos dias anteriores a ascensão dos heróis, reinava sobre seus povos e os comandava para longe da guerra, sem, contudo, fugir de um embate bélico caso ocorresse a necessidade. As amazonas, por exemplo, derivaram diretamente destas mulheres que pegavam em armas para defender a tribo que viviam e, sem qualquer medo, prostravam-se contra os que desafiavam sua autoridade.
--Já--eu falei, perplexa.
--O deus da guerra as apadrinha, embora muitos tenham dito que ele as havia abandonado--ela riu, ainda que seus olhos não refletissem o divertimento de sua risada--A guerra nem sempre está nas armas, no derramamento de sangue, criança. O mal está a espreita e é nosso dever empurrá-lo para longe. O silêncio é nosso maior aliado, pois o som expõe as sombras barulhentas como haveria de ser. Um exibido contará tanto para o mundo que, em verdade, fez nada. Mas sua ambição, sua forte e destreza não serão questionados porque a língua é tão poderosa quanto a espada.
"Mas é na quietude que os deuses se comunicam conosco. Somos apenas seus instrumentos, nada mais, nada menos que isso. Somos carne e eles, os espíritos. Somos morte, e eles, os eternos. Somos o finito eles, o infinito. Quanto mais cedo compreender isso, melhor será seu caminho. Nem sempre é fácil, eu sei. Queremos mostrar aos outros que somos competentes, queremos ser amados e, por que não, temidos. No entanto, ao abraçarmos esses falsos fundamentos, não estaremos indo a lugar nenhum. Ao contrário, nos estagnaremos."
Mas é claro que uma garota como eu não havia compreendido muito bem o que havia dito e não precisou que eu verbalizasse isso. Shilloha me conhecia melhor do que eu mesma.
--Você está aprendendo. Talvez, eu tenha falado antes do seu tempo. Mas acredito que não, ou do contrário não estaríamos aqui. A deusa do rio a abençoou, não vê?
Eu me arrepiei, pois sempre tive uma ligação com os rios e as cachoeiras, mesmo sem saber que tenha morrido próximo a uma delas numa encarnação anterior.
--De fato--eu murmurei e, num ímpeto, falei--Eu a vi! Eu a vi, Shilloha! Ela estava aqui!
Como uma sábia, Shilloha fez um meneio com a cabeça raspada e disse, ternamente:
--É claro que estava. Ela é sua mãe. Você é a filha dos rios, Gandhira. Não percebe isso?
Outro arrepio tomou-me.
--Mas... Mas minha mãe, disseram, morreu ao dar-me à luz?
Naqueles tempos, outra linguagem fazia-se necessária.
--Não. Ela foi como um casulo para que a deusa pudesse ocupar seu corpo. Tenha certeza disso.
--A deusa veio a nós e me trouxe aqui?--tal perspectiva não me assustava, mas me admirava--Que missão tenho a desempenhar?
Shilloha viu algo em meus olhos que a fez hesitar, mas então sorriu e disse:
--Pouco importa isso, criança. Mas lembre-se: o silêncio é a manifestação dos deuses, o que não pode ser dito, é ouvido. O que não pode ser gritado, é sentido. E o coração é a porta de entrada. Uma pequena mácula e o barulho a tornará surda para eles.
Em verdade, por mais que tivesse sido afetada por aquelas palavras, assim que me levantei, fui tomada por uma coragem súbita. É claro que eu gostaria de fazer o bem, mas sua concepção ainda não me era clara. Eu estava perdida. E talvez Shilloha soubesse disso.
--Vou ser uma excelente guerreira! A guerreira dos rios! --eu exclamei, orgulhosa.
--É claro que sim, desde que aprenda tudo o que foi dito--ela me disse, com um tom de aviso.
Assenti com a cabeça e daquele dia em diante, comecei a frequentar os treinos com lanças e pequenas espadas. O vento, me diziam, seria meu amigo, meu companheiro, se eu soubesse domá-lo. Nas areias distantes do povoado, era lá que eu passava meu tempo com outras moças que, como eu, eram ensinadas a usar os quatro elementos a nosso favor: o vento, o fogo, a terra e a água.
Por um tempo, usufruí de uma paz incontestável e tudo parecia dar certo. Meus cabelos negros cresciam com rapidez e eu não ousava cortá-los, pois via neles a minha força... como também meu orgulho. Encorpei, e tornava-me mulher conforme envelhecia, embora não tivesse sangrado até os meus 17 anos. E foi então que tudo mudou.
Nesta época, por mais comprometida que estivesse com meu dever, por mais leal que fosse aqueles que me eram leais também, por mais entendida -embora não o suficiente- que fosse com as distinções entre o bem e o mal, eu estava cega pelo orgulho. Uma mácula que não foi removida de mim, mesmo então.
Achava-me digna de ser a líder das minhas companheiras e nas poucas batalhas que havia ocorrido, testemunhei todas. Lutava sem escudo, levava os inimigos para a profundeza das florestas, pois lá o rio corria, e lá eles encontravam a morte. Não percebi que maculava os domínios que jurei defender, não percebi que a cada vida que me pedia clemência, eu negava. Não conhecia o amor ao próximo, não conhecia a caridade.
E a fúria parecia me levar a um velho caminho quando Jor'a veio me dizer que eu me casaria com um irmão de armas dele. Fiquei ofendida. Estava comprometida com as guerreiras silenciosas, e não com a ideia de ser a esposa de alguém.
--Você me odeia--ele disse com um tom de sabedoria, aquele preto velho que não me tratava mais com indignidade. Por algum motivo que não compreendia, ele havia mudado absurdamente desde que eu passei a ser educada junto às guerreiras silenciosas sob a tutela de Shilloha--E acho que mereço esse ódio. Não fui o pai que você mereceu. Não fui o homem que deveria ter sido, mas sabe, criança, nós mudamos se aceitamos a mudança. Se não lutamos contra ela. E acho que não é para você esse destino sangrento que almeja seguir.
--Com que direito o senhor me diz isso? --eu resmunguei, esquecendo-me do meu lugar e certamente ávida por colocá-lo no dele. Ou no que eu pensava ser.--Não foi você um dos grandes guerreiros que desposou minha mãe?
Ele riu, mas havia tristeza na risada dele. Um lamento quase.
--Não receberei meu perdão, vejo isso--ele disse para si próprio--E tudo bem, mas que os deuses sejam misericordiosos--e sua voz endureceu ao me encarar--Você irá se casar. Pode berrar, gritar, xingar-me como quiser. Meu destino está atado e não tenho poder para mudá-lo. Mas já chega, não vou tolerar seu comportamento!
Eu bufei e chorei. Joguei-me aos pés dele, humilhando-me para que aceitasse-me em seu lugar. Qualquer coisa que não envolvesse casamento. Mas Jor'a foi firme em sua decisão, e eu o odiaria por isso. Por manipular-me e brincar com minha vida como se ela nada significasse, como se eu fosse uma lança tão fácil de ser manuseada.
Contudo, bastou o dia para me trazer o noivo que era como se tudo mudasse, adquirisse outros aspectos. É engraçado como o amor pode funcionar em meio às leis dos homens, nos tempos mais sombrios que sucumbimos, ele nos aparece como redenção. Ainda assim, tal não era meu pensamento ainda.
Mas, no momento em que meus olhos pousaram naquele homem alto e forte de complexões suaves e pele dourada, eu senti meus joelhos fraquejarem. Senti uma estranha familiaridade quando ele se aproximou em suas vestes tribais, as pinturas ao redor do seu braço indicando que aquele era o herói de nossa tribo. E meu rosto queimou diante disso, baixando olhos enquanto ouvia comentários das senhoras que o admiravam.
--Gandhira--ele disse, suavemente. Sua voz tinha um tom intenso, o que combinava com a forma pela qual ele me olhava. Ao levantar o olhar, pensei que sucumbiria a uma estranha sensação que me queimava o corpo. Os deuses certamente não poderiam ser cruéis assim, eu pensei--É um deleite estar em vossa companhia.
Suas palavras saíam de uma forma estranha aos meus ouvidos. É verdade que a sensação que eu tinha era a de sair de uma caverna e, no instante em que me pus rumo à luz, ceguei-me rapidamente naquele brilho.
--Obrigada--eu agradeci, sem jeito--Como devo chamá-lo?
--Hul'u.--ele respondeu simplesmente--Terei a honra de conhecê-la melhor antes da cantiga dar-se início?
A cantiga que ele se referia era um momento único no qual todos nós, sem distinção qualquer de posições e formalidades, juntávamos ao redor da fogueira. O sacerdote alimentava esse fogo, alto o suficiente para chegar aos céus, enquanto oferecíamos parte de nossa comida aos deuses e nossos ancestrais. Ele fazia uma leitura, cantava nossas histórias com sua bela voz e depois passava a vez para o ancião da tribo falar por todos. Certamente, nossa união seria anunciada naquela noite, já que Jor'a não teria me oferecido em casamento ao irmão de armas dele sem o consentimento do velho Kah.
--Se for apropriado--eu respondi, ainda tímida.
--Acredito que seja--ele me assegurou, confiante.
E, com a permissão de Shilloha, seguimos em frente, caminhando rumo a uma lagoa próxima, passando por animais livres e selvagens que, acostumados com nossa presença, sequer nos deram atenção.
--Jamais pensei que teria a honra de desposar uma guerreira silenciosa, filha da deusa dos rios--disse-me Hul'u, sorridente--É mais bela do que pensei que seria, embora sua beleza pouco importasse para mim. Estou ciente, decerto, de seu temperamento. Seu pai foi o deus dos trovões?
Eu não pude evitar de rir diante daquele pensamento, pois, por mais orgulhosa que fosse, no fundo eu me via como indigna dos deuses. Uma contradição que poucos conheceriam.
--Não sei. Acredito que minha mãe, a deusa, se apaixonou por um mortal como contam as estórias.
Ele sorriu, e era como se eu estivesse olhando para um deus.
--Você certamente me parece como um ser divino--eu comentei, sem pensar muito em segurar a língua. Era curioso como alguém podia me sentir intimidade, ao mesmo tempo que incentivava a intensidade com a qual sempre me motivou a fazer tudo na vida--Que deuses o acompanham, eu me pergunto?
--Você é muito curiosa--comentou Hul'u, divertido--Mas agradeço seus elogios, minha senhora. É muito gentil. Não creio que tenha pais divinos como a senhora, mas costumo pedir bênção e fortuna ao deus da sabedoria. Conhecimento é bom e valoroso.
--Será um ancião sábio, respeitado e amado--pontuei, como se tivesse visto o futuro e talvez fosse verdade. Os deuses me concediam vislumbres sobre acontecimentos breves, e isso era algo que eu não contava a ninguém.
Hul'u me encarou e a forma com a qual o fazia era como se mergulhasse em meus olhos para ler minha alma.
--Você é especial--ponderou ele--mas há muito o que aprender.
Dei um sorriso levemente debochado.
--Aprender? Ensinaram-me tudo o que eu sei--disse, em tom de desafio.
Com sua paciência, ele riu. Pensei que fosse de mim, mas ele logo respondeu:
--Não faça essa cara. Acho que é demasiada jovem e os jovens costumam se perder nas poucas glórias conquistadas. Permita-me compartilhar o pouco que eu sei?
A verdade é que eu não me sentia preparada para ouvir a sabedoria daquele homem, da mesma forma que eu me senti pequena diante da grandeza de Shilloha quando contava 12 verões. No entanto, assenti. Escutar era algo que sabia fazer.
--Tomamos para nós dores que não cabem a nós serem resolvidas ou mesmo compreendidas. Sentimo-las talvez porque seja inevitável sentir. Projetamos tais aflições, contudo, nos outros de tal forma que o ódio vem tomar conta do bem que existem em nós, como a noite devora a luz da estrela que queima de vez em quando.--ele fez uma pausa como se certificasse de que eu o ouvia atentamente antes de prosseguir--As sombras não são causadas pelos outros, eles apenas a despertam para que nós a enxerguemos apropriadamente. Tirar vidas não resolve o que está dentro de você. Açoitar-se tampouco.
--Eu não me açoito--retruquei, defensivamente. Por algum motivo, me sentia afetada por aquele discurso.
Mas Hul'u era paciente demais comigo para se deixar afetar pelas minhas provocações. Ele tomou minha mão na dele e senti minhas faces ruborizarem. Naquela hora, o sol se preparava para o crepúsculo. Não tínhamos mais muito tempo para desfrutar sozinhos.
--Quando digo açoitar-se, refiro-me a escravizar-se a culpa que carrega em prol de um evento passado. Você carrega ressentimentos, sentimentos não resolvidos e acredita que a violência seja a resposta para o que procura.--embora ele dissesse sem uma gota de julgamento em sua voz, me senti ferida--Há tempo para o resgate da luz que existe dentro de você se permitir.
--Você não me conhece.--disse, zangada, removendo minha mão da dele. Mas ouvir a verdade como ela era, sem máscaras, sem enfeites... doía--Não fale besteiras.
Hul'u suspirou, mas não foi frustração que vi em seu semblante, mas tristeza. Poderia ter me levantado e ido embora, mas havia algo nele que me fez ficar.
--Apenas gostaria de mostrar a você um caminho mais leve, Gandhira. Não seja tão dura consigo mesma.
Eu me recusei a mirar aqueles olhos tão profundos quanto o céu à noite e engoli o choro. Por que cargas d'água me sentia afetada por tais palavras? Quão significativas elas eram, na verdade? Tudo fazia sentido, eu comecei a perceber, porém, demoraria a aceitar. Porque não confiava nas palavras dos homens, por mais puro dentre eles que Hul'u pudesse se encontrar.
Meu silêncio era significativo por isso e ele compreendeu. Não insistiu no assunto. Em vez disso, hesitantemente procurou pela minha mão e eu, entendo o significado deste gesto, relutantemente concedi que a tomasse na sua. Enfim, ouvi-o dizer:
--Pretendo um dia sair daqui.
Eu me vi encarando-o, surpresa.
--Sair?
--Sim.--ele falava sério, eu notei, mas surpreendentemente não o julgava por aquela decisão.
--Por que?
--Vivemos em um mundo intenso. Há muito o que ser explorado, não acha? As perspectivas daqui não me interessam--disse Hul'u--Muitas guerras se fazem sem qualquer propósito. Penso que as montanhas são lugares mais tranquilos para se viver.
Ele apontou para um montanha não muito longe dali, onde se via apenas árvores e ouvia cantos de pássaros.
--Você gostaria que vivêssemos isolados de toda a gente?--eu inquiri, suspeitando de suas reais intenções.
--Não--admitiu ele--Nós dois somos guerreiros demais para viver longe de nosso povo, porém, acredito que um pouco de paz não faria mal.
Paz. Uma palavra que eu conhecia muito pouco, tanto externamente quanto internamente. Fitei-o, ainda intrigada.
--Quero conhecer as montanhas. Seja daqui, seja de lá. O mar, ouvi dizer, não fica muito longe daqui. Acha que o mundo como conhecemos termina aqui?
--São muitos questionamentos para os quais não tenho resposta, sequer algo que poderia ajudá-lo--eu disse, envergonhada de ser a consorte desse homem tão rico em palavras, certamente sábio e possuidor de um espírito livre das correntes mundanas que nos prendem ao material deste plano.
A verdade, contudo, era pior do que se poderia supor. Como fui educada nas armas, jamais me interessei no conhecimento passado oralmente. Sequer me aprofundei nos rituais que, sazonalmente, dirigiamo-nos aos deuses. Foi com Hul'u que eu percebi o quanto era limitada. Em apenas uma primeira conversa, senti-me instigada a melhorar. A deixar a escuridão que me cegava, que me acorrentava.
--Há reinos para o extremo norte--eu disse, subitamente--Ouvi dizer que eles receberiam-nos bem.
Mas Hul'u sacudiu sua cabeça e, para minha surpresa, disse:
--Não, minha querida. Aqueles do norte não se saciam pelo poder que descobriram. Não seria um lugar para nos estabelecermos. Não se preocupe, porém. Encontraremos nossa paz pelas montanhas.
Sua doçura não me enganava, porém, eu sabia que ele havia muito se decidido e não aceitava outra decisão. Isso poderia ter me abalado, admito, mas sua paciência com minha demonstração temperamental inclinava-me a perceber que ele era diferente, se não melhor, que outros de seu sexo. Jor'a sabia no que fazia ao decidir casar-me com ele. Contudo, por mais sábios que pudessem ser os homens, nossas opiniões continuavam a ser silenciadas.
--Que seja--eu disse, voltando ao meu mau humor--A última palavra há de ser a de vocês.
Novamente, Hul'u suspirou, mas havia um divertimento em seus olhos quando tomou minha mão contra seu lábios. E ao roçá-los contra minha pele, senti um formigamento que arrancou de mim um leve, doce sorriso.
--Você é bonita quando não está sendo teimosa--disse ele, e meu sorriso aumentou. Qualquer diferença que pudéssemos ter, rapidamente desapareceu. Senti que combinávamos e ele também parecia sentir o mesmo--Acha que a deixaria desprotegida? Sou um homem de deuses, herói do povo.
--Dizem que a era dos heróis está em declínio--eu pontuei, e o jeito como nós nos entreolhamos dizia muito sobre um reencontro das almas.
--Talvez esteja--ele concordou--E, no entanto, acha que todos os heróis são passíveis de ser corrompidos?
Antes que pudesse respondê-lo, porém, uma das filhas de Shilloha veio me procurar. Lançando um olhar sem significado a Hul'u, avisou-nos de que a hora da cantiga. Levantamo-nos e, em silêncio, a seguimos. Anoitecia quando chegávamos e a fogueira era acesa. O sacerdote louvou a todos que vinham, e, uma vez que toda a tribo estava ali, separou-nos para que sentássemos em nossos respectivos lugares. Juntei-me às filhas de Shilloha enquanto vi Hul'u sentar ao lado direito de Jor'a. Não prestei atenção a todos os outros. Pouco me importava se havia alguma distinção entre o chefe tribal e os outros.
O sacerdote pôs-se a falar, portanto:
--Hoje é um dia que deverá ser celebrado, pois os deuses enviaram suas bênçãos a nós! Sim, eu estive com eles, nossos ancestrais levaram-me alá! Cada deus solicitou-me que um trabalho fosse feito, e eu aqui repassarei o que deve ser feito--ele trouxe uma ovelha, um carneiro e um cavalo. Percebi de antemão que um sacrifício importante ocorreria em breve--Estamos sem chuvas há duas luas, e isso muito me preocupa, como doravante preocupa-os também. Não temem, meus caros, pois a colheita melhorará e, em breve, a provação pela qual passamos será resolvida!
Como se para corroborar o discurso do velho, ouvimos o retumbar de nuvens carregadas. De fato, como sofríamos com a colheita ultimamente, aquele barulho que anunciava chuva e trovões era como um prelúdio da presença divina. Assim, todos nós batemos os pés no chão e aplaudimos com as mãos, num gesto que agradecia como louvava os deuses.
O sacerdote pediu silêncio e nós, é claro, o obedecemos. Ele prosseguiu:
--Como gesto de agradecimento aos deuses que comungam conosco, nos protegem e auxiliam nos piores momentos, ofereço-os--e ele citou o nome de três dos grandes deuses--o sangue puro da ovelha, a carne do nosso cavalo mais feroz e os ossos do carneiro que nos livra de todo o mal a cada estação que segue. Não obstante, a deusa do amor pediu que fosse anunciado o noivado de nossos estimados guerreiros. Avante, Hul'u, filho de Esu, e Gandhira, filha de Osu!
Confesso que, mesmo ciente do que estava acontecendo, aquele anúncio me surpreendeu. Todavia, fiz como pediu e caminhei, como Hul'u também o fez, até o sacerdote. O sacrifício ocorreu e ele nos abençoou com o sangue da ovelha. Em seguida, retornamos aos nossos lugares e a cerimônia ocorreu tranquilamente.
--Nas águas da estação
  Pedimos aos vossos deuses por perdão
  Que nada do que fizermos for em vão
  Nas terras místicas das florestas
  Onde nada nesta vida nos resta
  Louvai o deus pai que nos testa
  A fim de alcançar nossos ancestrais
  E cobrir nossos ossos com vossos sais
  Nas chamas que aqui contemplamos
  Deuses fortes, deuses guerreiros,
  Nós vos saudamos
  A vós, pedimos; a vós amamos,
  Que a força nos conceda
  Para que nossas impurezas
  Queimem assim vossas labaredas
  Aos deuses que subjugam o ar
  Ensinem aqueles que não saibam amar
  Aqueles que se esqueceram a respeitar
  A tudo aquilo que de bom grado
  Nos ensinou a conquistar.
  Pelas quatro estações,
  Que os deuses escutem as canções
  Que dos homens vêm dos corações
  A fim de alcançar vossos perdões.
  Com sabedoria, energia e ardor
  Liderais aquele que sejas nosso protetor
  Para que inimigos não nos causem dor
  E se assim se faça ocorrer
  Que seja preferível morrer
  A permitir que nos façam sofrer.
  Sendo assim com humildade
  Pedimos aos nossos ancestrais pela trindade
  Que nos guie e abençoe
  Para os céus, para a torre.

E, assim, a cantiga terminava. Era muito bonita a forma como ele louvava nossos deuses e muito difícil não compartilhar do sentimento dele. Houve muitos sacerdotes que se mantiveram incorruptos,  na fé sincera e de coração devoto. Aquele homem não era exceção. Foi ali que eu percebi o quanto estava cercada de pessoas boas e sinceras. Ou assim achava. Deixá-las seria uma tarefa difícil, mas negar meu dever como esposa, seria também negar meu aprendizado como mulher também. Ademais, poderiam ter escolhido um marido pior para mim.
No decorrer dos dias, meu casamento aconteceu. Nada deslumbrante, belo ou memorável. Foi simples, como deveria ser, e íntimo. Poucas foram as testemunhas. E, logo em seguida, parti com Hul'u, sem olhar para trás.
--Sei que isso é difícil--ele comentou enquanto cavalgávamos para longe da nossa tribo--mas será um aprendizado para você.
--Se assim diz--eu retruquei, e não falamos muito no caminho.
Confesso que me sentia culpada por tê-lo destratado logo depois de termos casado, e admito que era alguém muito difícil de se lidar. Uma guerreira silenciosa ainda assim é uma guerreira, e não pensava que um dia deixaria de desempenhar esse papel. Perguntava-me a mim mesma se era isso o que os deuses queriam de mim, que relegasse a minha força para submeter-me a uma união.
Conforme cavalgava e passava por animais bastante curiosos e livres, percebi que estava sendo ingrata e isso me entristeceu. O novo e desconhecido era assustador, porém, igualmente incrível. Ao adentrarmos as florestas, o que eu fiz logo depois de pedir bênção ao deus caçador, eu senti uma paz que jamais senti antes.
--Gostei daqui--comentei enquanto subíamos a estrada engrume que nos levava para algum povoado distante que Hul'u queria conhecer--É bom, embora essa densidade me assuste um pouco.
Hul'u virou a cabeça para me encarar, e eu soube que ele se surpreendera comigo. Estava me abrindo, ou me esforçando em fazê-lo, e começava a admitir minhas falhas. Ele sorriu, pois isso o agradava. Por minha vez, não acreditava que alguém como ele tinha a paciência em lidar comigo e todas minhas faltas.
--Quando eu acompanhava seu pai nas buscas por aqueles inimigos que, outrora, atacavam nosso povoado, decidi que conheceria toda essa redondeza para que pudesse  me prevenir. Nos tempos de paz, precisamos nos preparar para a guerra, portanto pus-me a averiguar cada caminho possível a trilhar e que me levasse aos atacantes. Eventualmente, tive sucesso--ele contou, com um sorriso que faltava o orgulho que tanto conhecia--Mas nunca passei daqui. Soube de um ou outro povoado, mas sei que há muito mais por tudo aqui. Quero conhecer esse mundo. E fico feliz que tenha aceitado em vir.
Sorri a ele. Aos poucos me acostumava com a ideia de aventuras, e mais ainda gostava da companhia dele. Para um guerreiro forte e destemido, sua fala era suave e calma. Sempre que conversávamos, sua sabedoria estava em evidência. Por todo um dia e meio, apreciei sua companhia.
--Tudo acontece rápido demais conosco--uma vez, ouvi-me dizer enquanto chegávamos a esse povoado novo, estranho aos meus olhos--Seria obra dos deuses?
--Provavelmente--Hul'u disse com seu sorriso charmoso. Meu coração disparou--Ou talvez seja algo anterior a isso.
Ele me deu uma piscadela e antes que eu tivesse tempo de processar aquele mistério todo, Hul'u desmontou de seu cavalo e, por mais que protestasse que não precisava de ajuda, ele fez o mesmo comigo. Guiamos nossos preciosos animais até a vila, onde, curiosamente, vimos pouca quantidade de mulheres, homens e crianças de pele escura porém de cabelos prateados. Recordei-me de Jor'a e, instintivamente, senti remorso por não ter falado com ele antes da minha partida.
Observei Hul'u ir à frente e, logo, todos haviam cercado-no com curiosidade. Logo, ele me apresentou também. Falávamos um dialeto diferente, porém, surpreendentemente, conseguíamos nos compreender. Passamos a noite por ali, e foi diante da fogueira que aquecia nossa oca que consumamos nosso casamento.
A sensação de um corpo aquecer o outro me era nova, e mais ainda senti-lo dentro de mim. Não era apenas desejo, mas uma ânsia de amá-lo. Algo que, instintivamente, me pertencia. Gostei de como ele brincava com meu cabelo, como ele beijava cada parte de mim, e como suspirava seu amor por mim. Em pouco tempo, nos amávamos, mas como haveria de ser diferente?
Ficamos naquele vilarejo o suficiente para construirmos uma rotina. Aprendi o dialeto deles e, não muito tempo depois, concebemos uma criança. Ali tivemos nosso primeiro filho, um menininho saudável que chamamos de Olorum. Logo depois, deixamos aquele vilarejo para trás e seguimos subindo, sempre pelas montanhas.
Quando nos perdíamos e seguíamos a leste, avistávamos o mar, mas, temendo-o, mantivemos distância. Fizemos nossas saudações a deusa que tomava conta de toda aquela imensidão azul e, em seguida, contamos pequenas estórias dos deuses para nosso menino. Tudo parecia caminhar bem. De vez em quando, também avistávamos um povo que morava na imensidão das florestas, mas não nos fizeram mal.
Tudo parecia bem, de fato, até chegarmos a um vilarejo a extremo norte de Serra Leoa. Apesar de termos sido recebido bem, com leve desconfiança, descobrimos que aquele povo estava em guerra com outros.
--Se ficarem aqui, terão de ajudar-nos!--exigiu seu chefe, um homem quase velho de pele não tão escura e longos cabelos trançados. Sua ferocidade me lembrou daquela que um dia possuíra. E teria-me feito resguardá-la se não fosse Hul'u e sua calma a interferir na questão.
--Paz--ele disse com firmeza e mesmo aquele chefe teve de obedecê-lo--Viemos em paz. Se precisam de nossa ajuda, que assim seja. Ofereço-me como seu guerreiro se assim aceitar que eu, minha esposa e meu filho vivamos em paz aqui.
O chefe pareceu hesitar, mas seus conselheiros eram sábios o suficiente para identificar força quando vinham uma. E Hul'u tinha traços divinos em si próprio, o que aumentava sua áurea. Prontamente, receberam-no.
--Eu não me lembrava mais como era viver em guerra--eu disse, em tom acusatório enquanto Olorum dormia--Pensei ter melhorado como gostaria que melhorasse, e, contudo, nos traz até aqui.
--Os deuses têm seus propósitos e não cabe a nós questioná-los--ele retrucou, antes de suavizar e tomar-me em seus braços--Perdoe-me, amada. Estou apenas cansado. Mas é verdade que estamos cumprindo uma missão, e que assim ela seja feita.
Um sentimento ruim havia me assolado e eu me entreguei em seus braços. Havia conhecido o amor na sua forma mais pura em Hul'u, e com ele também aprendi suas outras dimensões, seja carnalmente ou através de nosso filho, Olorum. Não queria perdê-los.
--Prometa-me algo--ele disse abruptamente, fazendo-me encará-lo nos olhos--Não importa o que aconteça, cuide de nosso menino. Eduque-o para ser o homem que está destinado a ser.
Encarei-o e senti-me tão frágil que sacudi a cabeça. Ele não estava confirmando meus temores, certamente não estaria.
--Não seja tolo--retruquei, e quando o fiz, coloquei minhas mãos ao redor de suas faces--Não compre a guerra deles. Não foi você mesmo quem me explicou sobre os conflitos armados? O valor dos heróis?
Ele via as lágrimas que surgiram em meus olhos e beijou-me a testa antes de dizer:
--Estou orgulhoso da mulher que veio a se tornar. O amor é capaz de resgatar a luz que, por vezes, pensamos ter perdido. É preciso experimentar a escuridão, ser tomado por ela para que se sobressaia outra vez. Lembre-se disso--ele beijou meus lábios--Eu a amo. Como sempre amei, como hei de amá-la. Peço perdão por ter-nos trazido até aqui e...
--Shh--eu disse, e o beijei para que o impedisse de falar--Não diga mais nada. Eu sou sua e você é meu, e nada, nem ninguém mudará isso. Não é culpa sua se a honra, outrora valiosa mas agora esquecida pelos homens, o leva a tomar um caminho que não te pertence. Entrego-o aos deuses com pesar, mas peço que volte para casa. Se não por mim, por seu filho.
Não houve troca de palavras naquela noite porque o adeus já havia sido pronunciado. Amamo-nos em carne e em espírito e isso importava. Mas eu nunca mais o haveria de vê-lo outra vez.

A notícia chegou em um mês, antes do verão tornar-se outono, quando os ventos do mar começavam a esfriar e as folhas das árvores, a cair. O chefe daquela tribo retornou destroçado e acompanhado de poucos homens. A que custo a vitória foi conquistada? A ausência de Hul'u dizia tudo. Chorei, pranteei sua dor, e a sensação de coração quebrado foi sentida com tamanha comoção que as mulheres tentaram me ajudar, apaziguando o  que, na verdade, eu já sabia.
Então, me lembrei de Olorum. Ele estava crescendo, precisava da mãe. Portanto, depois de sofrer o luto, contei a ele. Já não era mais um bebê, mas uma criança que, um dia, se tornaria homem. Aprendi a educá-lo sozinha e, ao contrário do que esperavam de mim, me recusei a ficar naquela tribo. As memórias doíam e eu queria continuar o caminho que eu e Hul'u pretendíamos seguir.
Mas as noites ficavam frias e uma mulher, por mais guerreira que fosse, e seu filho poderiam ser alvos fáceis para aqueles de má índole, livres por aí. No entanto, os deuses foram bons e chegamos salvos a outra tribo. Que, curiosamente, estava sendo liderada por uma mulher como em outros tempos mais antigos.
A anciã me recebeu bem, e ali eu e Olorum ficamos. Recebemos permissão de ficar por um determinado tempo. Uma vez que aprendi os costumes daquele povo, passei-os a frente a Olorum. Procurei ser uma mãe presente, uma ânsia que vinha de não ter cumprido meu dever como mãe em outra vida, contudo, essa missão também logo seria cumprida.
Ele tinha sete anos quando sua saúde fragilizou-se e sua alma deixou seu corpo para retornar a imensidão onde os bons espíritos o aguardavam. Mas sua perda foi ainda mais pesada que a de Hul'u. Eu estava sozinha, sem amigos, sem conhecidos, sem família. O amor da minha vida partira, e nosso filho o seguira em seguida. Aquela tribo, por mais amigável que fosse, me era desconhecida. Eu poderia ter enlouquecido, é verdade. E talvez o tenha. No entanto, não me permiti ficar.
O outono se foi e eu me preparava para o inverno. O inverno da alma. Nos lugares quentes, é sabido que o frio vem com a mesma intensidade. E como lutar contra isso? Decidi, afinal, voltar ao meu lugar de origem, cada vez mais abatida. Só os deuses sabem como escapei de várias tentativas de violação, sequestro e outros tipos de violência.
De vez em quando, buscava refúgio numa cachoeira e no rio, mas a dor era demais para que eu ficasse ali. Me conformei. Deixei-me ser abalada. A verdade é que nem todas as guerras podemos vencer, por mais que colecionamos uma quantidade de batalhas vencidas. Derrotei inimigos, subjuguei meu próprio orgulho, mas era ali, sozinha, a caminho da minha tribo, que eu conheci a solidão. O amargor da perda. O aprendizado que a vida me propunha a duras penas. Enfim, poderia dizer que conheci a humildade.
E isso me bastou. 

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Velhas Memórias, Ciclo I.

Congo, continente africano. 

Não se contava o tempo naqueles dias como é feito atualmente. Ao contrário, guiávamos pela lua e suas fases. O céu era nosso mediador, nosso guia, nosso professor. As estrelas representavam a luz de um infinito cujo significado demoraríamos a descobrir. Ao menos naquela época, naquela existência. 
O calor não era nosso inimigo como o frio não era um visitante indesejável. Conhecíamos a natureza, a quem dirigíamos nossa fé. Pode-se dizer que este era um tempo em que o mestre ainda não havia descido à Terra, onde os grandes filósofos não haviam pregado ainda sua vinda e sequer os povos que chamam de celtas haviam se dissipado, tornando-se nômades, portanto, ao espalharem-se pelo globo.
Quanto a mim, era uma jovem que atendia pelo nome de Indira. Minha família era a  mais numerosa do vilarejo, contando 25 crianças das quais apenas 15 haviam sobrevivido à infância. Minha bisavó vivia bem para a época, uma anciã de 75 longos anos. Na verdade, ela era bem respeitada e consultada por todos de nossa tribo, principalmente pelos guerreiros que ansiavam em conhecer o futuro e pelas mulheres que buscavam consultar seus talentos místicos. 
Ela era possuidora de um par de olhos escuros como a noite e guardavam uma sabedoria bem além de seu tempo. Seus cabelos, grisalhos, mantinham-se firme em tranças grossas e longas e a pele, dourada, parecia resistir ao tempo. Para um observador, porém, os traços da idade estavam ali.
--Indira, filha, venha aqui--ela me chamara na noite em que a veria pela última vez--Sabe que herdou de mim qualidades excepcionais, não é? Principalmente quando deixa seu corpo para trás a fim de reencontrar nossos ancestrais em mundos além. Há tanto a ser compreendido, porém, tão pouco para ser dito.--a velha lamentou.
Esperei pelo que viria a seguir. Nana, como a chamava, sempre dizia que, por algum motivo, eu era especial. Pegou-me para criar quando minha mãe, a terceira esposa de meu pai, faleceu em decorrência das complicações do meu parto. Papai não contestou sua decisão, pois quem haveria de questionar a decisão da anciã de seu povo?
Com frequência, ela trançava meus cabelos pretos como os dela e, por vezes, mergulhava dois dedos na tinta avermelhada --cuja coloração era produzida através da remoção de pigmentos de determinados frutos e misturados até se atingir a cor desejada-- para pintar meu rosto, repetindo uma tradição milenar das mulheres escolhidas pelos deuses. Desse modo, Nana explicava, eu estava ligada não apenas ao divino, como também aos meus antepassados. Afinal, a natureza havia me concedido o dom de ver além do presente. 
--Seus olhos possuem a cor da luz que varreu a escuridão. Isso, minha querida, diz muito sobre você--tal foi a breve explicação que me dera por ter olhos azuis--Acredito que os deuses guardam um propósito para você, profetiza.
É verdade que profetas não foram apenas aqueles cujo principal propósito dedicava-se a servir ao verdadeiro mestre na posterioridade, mas os que foram agraciadas com uma responsabilidade de levar amor ao próximo para pudéssemos evoluir. Todavia, a corrupção moral e espiritual pairava sobre os espíritos terrenos, permitindo que a escuridão cegasse e desvirtuasse os homens de seu verdadeiro caminho.
--Que assim seja, senhora bisavó--dizia eu, sem compreender, de fato, o que me aguardava.
--Você é nova--disse a anciã, encarando-me com astúcia--Conhece pouco deste mundo. E, no entanto, é a escolhida deles. O que será de você, minha querida Indira?

Aquelas palavras titubearam em meus ouvidos mesmo dias depois em que a grande mulher da tribo viera a falecer. Todos já me encaravam como sua possível sucessora, tendo em vista que minha bisavó não hesitara em afirmar-me como escolhida divina por diversas vezes. Admito que, em verdade, tive experiências além da minha compreensão limitada e terrena, a despeito da curiosa pureza com a qual manifestava minha primeira existência naquele local. 
Com isso, tornou-se frequente que chefes de tribos vizinhos viessem me procurar. Meu pai olhava-me admirado quando eu, sem qualquer entendimento do assunto, cumpria com meu dever sagrado. Olhos se fechavam enquanto o corpo sofria uma breve tremedeira... Era uma sensação boa, calma, porém bastante poderosa. Sentir o divino apossar-se de seu corpo, respeitando, todavia, sua consciência e seus trejeitos porque ele está concedendo seu caráter sagrado ao seu instrumento, fazia-me sentir útil. 
E quando abria aqueles olhos, uma inquietação tomava conta de mim. Não era minha voz que saía de meus lábios ao pronunciar sentenças:
--O deus dos caminhos exige sua humildade. Decreta que um sacrifício de um búfalo branco seja oferecido a ele na próxima lua negra. Ajoelhe-se e receba a benção daquele que fala por ele. 
Ou mesmo:
--Aquela que responde pelo amor ri e responde-te, mulher, que deveria ser honesta com ti própria antes de procurar uma fácil solução para teus problemas.
Ainda:
--O deus criador enviou o mensageiro sagrado de seu filho, que por vós é cultuado e respeitado, para dizer-lhes que guerra nenhuma trará o que foi perdido. Insistir na tola ambição é estar cego para as consequências do ato. 
Contudo, cada vez mais que as demandas, os pedidos, adquiriam um tom mais desesperador, mais raivoso tornava-se o tom dos deuses. Ou daqueles que falavam por tais entidades. Consequentemente, feria o orgulho dos homens movidos por nada se não instintos.
E um destes--oh sim, eu me recordo--selara seu destino miserável quando cedeu aos vícios que o comandavam. Era um homem robusto e garboso, é fato; alto, de ombros largos, inscrições pintadas por todo o seu peito, tinha os olhos que refletiam a tempestade. Pouco surpreende que fosse um guerreiro. Chefe de uma tribo que, por tanto tempo, foi rival de meu pai, embora nenhum conflito, pela graça divina, houvesse eclodido.
--Gostaria de me consultar com sua filha--assim exigiu o ganancioso P'trolles, o filho da tempestade, cabeça completamente pelada, embora em desenho visse-se o formato de runas. Logo reconheci que se tratava de um filho da deusa cujo símbolo era um búfalo--Agora!
Caros leitores, permita-me lembrá-los de um detalhe que, até então, havia optado por esconder: minha virgindade tornava-me intocada, pois meu corpo, fechado, pertencia aos deuses. Este é um fator importante para o desenrolar da história, como podem ver.
--Com que ousadia vem o senhor fazer demandas? --meu pai, que herdou a sabedoria de sua avó, falava com tranquilidade, embora em seus olhos escuros repousasse o pior tipo de fúria que se pudesse enxergar: a frieza controlada--Esquece-se das maneiras? Da hospitalidade?
Estávamos todos sob uma grande oca, construída a partir de palhas, e onde ocasionalmente a tribo se reunia para discutir e trabalhar, por vezes, consultar as vontades dos deuses. Raramente deixava o lado de meu pai, e quase nunca tinha olhares para outras pessoas. Confesso, porém, que me deleitava saber que era a favorita dos deuses e, mesmo contaminada pela vaidade, eles jamais haviam me deixado. 
Até então.
--Não fui bem recebido, portanto, não há por que ser cortês--retrucou P'trolles, acompanhado de cinco homens, todos eles fortes. Todos eles marcados pelo símbolo da deusa do búfalo, como notei.
Com um sorriso afetado em seu rosto, marcado pelo desdém evidente, embora agisse com cautela, meu pai respondeu:
--Perdoe-me, pois não contava com a presença daquele que tanto nos repudia--e, sem aguardar uma resposta, pediu que fosse servido ao intruso comida e bebida, assim como para aqueles que o acompanhavam.
Todos observavam o desenrolar da cena na esperança de que os deuses se manifestassem e determinassem que P'trolles partisse dali. Pude sentir a tensão e as expectativas dos olhares não dirigidos a mim. De que adiantava evitar encarar-me quando os acontecimentos pareciam correr até a mim da mesma forma?
Surda diante da conversa dos homens, pois considerava-me além destes, tampouco me permitia deleitar com a doce melodia dos bardos que cantavam uma história antiga de um povo antigo que vivia nos cantos onde agora vivíamos. Nossos ancestrais, cujas mensagens ainda ecoavam através de suas épocas.
Concentrava-me, pois, na minha missão. Mas, como minha bisavó havia dito, era nova. E, portanto, facilmente tentada pela escuridão. É algo necessário que posteriormente reconheceria, que para conhecermos a luz, é preciso conhecer seu oposto para assim nos equilibrarmos.Talvez, tudo já estivesse escrito. Ou não. Mas era importante que acontecesse da seguinte forma.
Quieta estava eu, o rosto pintado e com uma expressão feroz que afastava qualquer presença de mim. Um homem, porém, foi corajoso o suficiente para adentrar minha morada. O pobre ser, veja bem, tinha lá sua própria sabedoria. Mas quando meus olhos repousaram em sua figura, não foi ela que enxerguei.
Alto, forte e de complexões firmes; pele escura e olhos mais escuros ainda, furtivo como a noite, deslizava elegantemente e discretamente para o meu lado. Em sua cabeça, não havia cabelos, e ao redor do rosto desenhos pintados que indicavam sua posição em nossa tribo: guerreiro da primeira legião. Logo pensei, com desdém, de sua ousadia em se aproximar de mim. Considerando sua posição social, ainda que houvesse pouca distinção em minha época, ele deveria se manter longe da minha presença.
E, entretanto, enquanto chefes de tribos rivais discutiam, ele se pôs ao meu lado.
--Você está diferente, Indira--assim ele começou, sem qualquer reverência ou respeito. Na verdade, com irritação percebi sua humildade ao se referir a mim pelo nome--O que os deuses fizeram com você?
Lancei aquele belo homem um olhar frio e não respondi. Mas ele sorriu.
--Um dia, sua inocência foi louvada pela anciã. Creio que hoje não teria mais o mesmo efeito, tendo em vista o que se tornou.
A esta hora, minha irritação se manifestou.
--Como ousa dirigir-me a palavra, estranho?
Pensei ter visto um deslumbre de mágoa por trás daqueles olhos escuros. Meu coração se inquietou, mas meu orgulho era maior e não admitiria tal fraqueza.
--Estranho? É o que sou para você agora? --ele riu--G'dollen é meu nome, e você se esqueceu dele. Como também se esqueceu de que costumávamos brincar juntos, partilhar sonhos e expectativas. Mas veja como endureceu a profetiza!
Senti meu rosto queimar e virei a face para que ele não visse. Aquelas palavras tiveram um efeito devastador sobre mim, queimando o orgulho com o qual aprendera a usar -ou talvez apenas as circunstâncias o tivessem arrancado de mim- em ocasiões como aquela.
Pensei que meu silêncio o afastaria, mas G'dollen permaneceu ao meu lado. Desprezava sua humildade porque não a compreendia.
--Nem sempre estamos preparados para o poder que nos dão--ele continuou--Mas espero que aprenda que, qualquer que seja o caminho que escolher, eles estarão vendo.
Encarei-o.
--Os deuses me escolheram por um propósito apenas, que é servi-los--retruquei--Não há caminho a seguir que não seja este.
G'dollen riu e eu me irritei, pois aquela risada sonora tornava-o atraente. E perceber isso me angustiava, pois até então não conhecia atração. Ou desejo. Reconhecer o desconhecido que pulsava em meu coração me assustava, pois com razão temia a ira divina. Pois como já mencionei previamente, a virgindade era uma característica essencial para que uma profetiza como eu mantivesse os poderes e os favores dos deuses.
--É uma pena que pensa assim--disse ele, e seu sorriso o embelezou ainda mais. Céus.--Será mesmo que deveria ser trancafiada aqui para atender e responder pelos homens? Prendeu-se a auto-importância que lhe moldaram e esqueceu de viver.
--Se veio até aqui para me ofender, G'dollen, está perdendo seu tempo--retruquei, evitando encará-lo nos olhos--Está ofendendo apenas os deuses e seu castigo virá.
Ele se aproximou e eu senti a mesma queimação interna. Que os deuses me perdoassem, eu pensei, pois parecia que havia perdido o controle de meu corpo. E G'dollen parecia saber disso, pois sussurrou:
--Nas cachoeiras, viva a deusa dos rios. Banhava-se na ondulação das águas frias, mas sua pele era tão quente que sequer sentia o gelo insípido. Ali vivia em constante harmonia com tudo o que a cercava até que, um dia, conheceu o amor na figura do deus da guerra. Embora sujo pelos combates lutados, responsável pelas vidas e mortes que determinaram variados cursos de guerras de diferentes tribos, manchado pelo sangue, ele, ainda assim, queria limpar-se de tudo o que foi causado. De tudo o que ele provocou.
"E tão rapidamente deixou as florestas para encontrar as cachoeiras, pois sim, eram duas, quando a viu. Nua diante do luar, os cabelos negros soltos caindo em cascatas, coladas ao corpo, dona de um olhar impenetrável. A deusa virou-se para aquele homem e bradou:
'Com que direito vens aqui macular este ambiente?'
Ao que o guerreiro exclamou, ajoelhando-se diante de tal beleza, da inocência que nunca conheceu:
'Perdoe-me senhora se acaso a ofendo, mas desejo purificar este coração contaminado pelo orgulho dos homens. Pois nada vim a conhecer que não a necessidade de uns sobreporem-se aos outros. É disso que falo e digo nenhuma mentira.'
A deusa dos rios, portanto, concedeu-lhe passagem. O deus, portanto, se despiu e adentrou nas águas da cachoeira. Ali, em suma, enxergaram suas respectivas essências e se amaram. Pois o deus da guerra conheceu a inocência e a deusa dos rios conheceu a persistência. Dali em diante, juraram ajudar os homens a combater a escuridão que insistia cair como um véu sobre os olhos para que pudessem encontrar o caminho a luz."
Tocada por aquela história, era difícil manter a máscara que vinha usando até então. Lancei-o um olhar perplexo e falei:
--Como sabe disso?
--Acha que somente os deuses dirigem-se a você?
Corei. Meu silêncio confirmava minha tolice. Mas G'dollen não julgou e eu percebi que o amava por isso.
--Eles regem meu coração. Sou filho deles--disse-me G'dollen, com um sorriso suave--Guerreiro, sim. Bravo, corajoso, com certeza. Mas humilde e amoroso. Permita-me amá-la como deve. Não se esconda por trás disso. Acha mesmo que os deuses gostariam de vê-la servindo ao objetivo desses homens que lutam entre si por propósitos inúteis?
Meu coração batia forte e em meus olhos, subiam lágrimas. G'dollen me conhecia melhor que ninguém e me fazia recordar os dias imaculados que vivíamos antes de seguirmos caminhos separados. Gentilmente, ele tocou minha bochecha e a acariciou e eu desejei mais que isso. Na verdade, percebi que de nada adiantava ter a virgindade intocada quando todo meu ser havia se perdido na mais profunda vaidade, acreditando na superioridade sobre todos os outros de nossa tribo, permitindo ser tratada como a deusa que eu não era.
--Há bondade e pureza em você--ele me disse, mas vi uma tristeza em seus olhos--mas ainda há muito a aprender. Deixará que eu a ame? Que a lave de tudo isso que mergulhou?
Antes que eu pudesse respondê-lo, porém, meu pai levantou-se e teve um acesso de fúria. Logo compreendi o por que. G'dollen havia tocado em mim sem permissão, levando uma série de ações que eu, estúpida como era, fui incapaz de impedir.
Vi G'dollen ser esbofetado, apanhar por sua insolência. Ouvi-o pedir permissão para desposar-me e livrar-me do fardo que carregava e, como resposta, receber gargalhadas debochadas de toda a tribo. Testemunhei a humilhação do homem que, em sua inocência, apenas havia-me ofertado o amor. Filho de deuses, descido para sofrer nas mãos daqueles que não o mereciam.
Cega fiquei pelas lágrimas e aquela fraqueza, para meu pai, representava o abandono do favor divino. Sendo assim, fui culpada também pelo destino que ele anotou por nós dois. Surda fiquei diante do sacode de sua fúria sobre mim, exigindo que os deuses aparecessem, que eles explicassem aquele comportamento inadequado. Não compreendia por que aquele que me gerou agia daquela maneira comigo. E foi quando veio o desprezo pela aparente perda dos poderes que enxerguei numa dura lição sobre humildade.
Não obstante, permitiu que o líder da tribo rival me desposasse. Para nós, o casamento de uma profetiza representava a humilhação, o abandono dos deuses. Sofri com isso, mas para eles, que continuavam a acreditar no jogo das entidades divinas, era a posse mais valiosa que poderiam ter. Contudo, forçaram-me a ver a morte de G'dollen por açoitamento. Não me perdoei, e creio ter enlouquecido. Provavelmente, sim. Pelos vícios que me fizeram sucumbir, pelo desespero que não soube dominar, pela perda de vontade de viver.
Cedi a escuridão e foi somente então que percebi o quão cega estive. Apesar disso, procurei cumprir com o dever de esposa. Mas nada, absolutamente nada, curaria a dor que me sangrava. Tarde demais, percebi meus erros.
Até que um dia fui buscar pela minha redenção.
--Senhor marido--dirigi-me a P'trolles na doçura que ele tanto apreciava--tenho vossa permissão para me dirigir as cachoeiras acompanhada pelas senhoras de vossa confiança?
P'trolles arqueou uma sobrancelha, mas, tal como meu pai era, acreditava na força regida pelos deuses e pensava que ter me desposado foi um sopro de vitória para a tribo. Pois, logo em seguida, guerreou contra meu pai e o derrotou, matando-o eventualmente. Como, a partir de então, poderia negar-me alguma coisa? À época, carregava um filho em meu ventre, portanto, ele aquiesceu.
--É claro. Não demore, pois.
Fiz um movimento respeitoso com a cabeça, mas silenciosamente escolhi minhas próprias damas. Shira e Andira vieram comigo do leste do Congo, onde minha tribo um dia viveu, e serviam-me devotamente. Elas sabiam que eu pretendia dar à luz na cachoeira, e naquela noite, a nona lua chegava ao seu ápice.
Caminhamos à pé, seguindo um caminho que fugia do conhecimento dos homens do chefe que era meu esposo. Era arriscado, mas eu ainda detinha respeito sobre aquela tribo nova do qual havia me inserido. Meu corpo pesava e meu cansaço era evidente. Shira, a de cabelos prateados, ofereceu arranjar algum meio para levar-me floresta adentro, mas neguei que fizesse isso.
--Não. Preciso pagar pelo que fiz, e esta é a maneira de mostrar a eles o quanto me arrependo.
Meu pé sangrou, é verdade, pois o caminho era longo e árduo. Contudo, não desisti. Enfim, ao destino chegamos. Como na história de G'dollen, a cachoeira se prostrava ao luar, mas nenhuma deusa ou deus se faziam presentes. Despi-me e entrei na água gelada.
--Senhora! --Andira exclamou, preocupada.
Mordi o lábio inferior diante do choque do meu corpo quente e exausto com a água gelada e intensa. Soltei os cabelos e fui a frente. Senti a criança não nascida agitar-se.
--Está tudo bem--eu as assegurei, virando-me com um sorriso. Era a primeira vez que sorria desde muito tempo e me sentia leve. Como se aquelas águas geladas não apenas me oferecessem um consolo de tudo o que perdi e deixei para trás, mas também... limpassem meus pecados, removendo os vícios de mim. Estava, ao final, aprendendo com a lição árdua que a vida me teve. E compreendi a moral que G'dollen havia tentado me passar com a história que jamais havia me esquecido--Venham!
Shira hesitou, mas entrou prontamente. Andira relutou igualmente, mas as duas logo me cercavam protetivamente. Pedi, portanto, que me fizessem boiar sobre a água e confiei meu corpo sobre aquelas mãos delicadas.
--O que está fazendo? --quis saber Andira, a de cabelos fogo.
Calmamente, repliquei:
--Entregando-me aos deuses.
Nenhuma das duas comentou, mas compreendi que estavam perplexas e temiam que morresse. Talvez fosse verdade que a morte viria me buscar em breve, na certeza de que não sobreviveria aquele parto. Mas não pensava nisso. Pedia apenas uma chance, outra que fosse, para me redimir do mal uso dos poderes concedidos a mim.
O silêncio foi essencial, mas quando abri os olhos levemente os vi ali. A deusa do rio e o deus da guerra que acompanhavam G'dollen. Quase surtei.
--Acalme-se, minha dama--ele disse, mas sua voz calma fez-me chorar copiosamente. Se aquilo era um sonho, não queria acordar--Está tudo bem. Vamos nos ver de novo. Não acha que os deuses ignorariam seu pedido?
--Sinto muito. Não foi o suficiente, eu me sinto envergonhada. Eu o amo, G'dollen--dizia eu--Por favor, me perdoe.
Ele se aproximou de mim. Vi que estava deitada numa cama branca, e fazia-se luz naquele lugar estranho. Mas quando aquele homem de beleza inestimável e coração mais puro deitou-se ao meu lado, soube que estava em paz.
--Não há o que perdoar. Você não teve culpa do destino que escolhi--disse ele, sempre tão sábio--A hora de melhorar virá e eu juro que não a abandonarei de forma alguma. Eu a amo, Indira. Sempre a amei, e esse amor que nós temos vai muito além dos tempos. Mas preciso que seja corajosa. A criança que carrega... tem uma missão dura a enfrentar. Não pergunte, não se preocupe. Apenas cumpra com sua parte.
Assenti, aflita. Mas não o questionei. Logo vi que, ao redor dos deuses pais de G'dollen, estavam tantos outros. Senti-me envergonhada, mas de nada aquilo adiantava. Em breve, outra oportunidade para provar que melhorei viria... E só me restava aguardar, por mais impaciente que estivesse. Ainda assim, levantei-me e pedi perdão. O deus-caçador, todo vestido em verde pois era o rei das florestas, aproximou-se e depositou sua mão em meu ombro:
--Nada tema. Quando um filho na sinceridade nos procura, no amor é recebido. No perdão é garantido. Na pureza é abraçado. Seja forte e humilde que há muito ainda para caminhar, embora este não seja o fim definido que pensas.
A princípio não compreendi a mensagem, mas, em breve, compreenderia. Agradeci e despertei. E no grito, meu corpo se sacudiu. Rapidamente, me tiraram da cachoeira. Diante dos deuses, todos ali presentes, a criança em meu ventre pedia para sair. Na noite escura e sem lua, sem estrelas, temi o que viria a seguir. Mas, como G'dollen havia me instruído, não questionei, não pedi, não perguntei. Deveria cumprir com meu propósito.
A dor era terrível, porém. Poderia ter pedido aos deuses que ali estavam para que amenizasse, mas meus crimes deveriam ser pagos assim e, por mais que gritasse e chorasse, não reclamei. Não rezei. Apenas me entreguei. E, surda aos apelos daquelas amigas fieis--que, como verão nas histórias seguintes, reencontrarei em outras vestes--deixei aquele mundo com alívio.
A jornada, no entanto, havia apenas começado.

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...