Cairo, Egito.
Há muito tempo atrás, quando cultuavam uma variedade de deuses, pouco importava de fato a quem deveriam dirigir suas preces. Na realidade, temiam os governantes que se atribuíam características divinas, as quais provavam ser mais mundanas do que o contrário. No entanto, o véu da ignorância mascarava tal perspectiva ao camponês mais simples, ao súdito mais ignorante, ao escravo cuja consciência de si próprio beirava à insignificância.
A despeito disto, havia muito esta civilização prosperava. Guardava em seu interior pessoas de espíritos elevados quanto aqueles de morais dúbias, e, assim, o avanço intelectual tornava-se visível. A astronomia, a escrita, a magia... traziam benefícios para a sociedade humana de uma forma admirável. Contudo, a corrupção moral predominava naqueles que não sabiam manusear o poder que receberam. Sendo assim, a população majoritariamente desfavorecida sofria com isso. E, no entanto, a balança nunca pendia apenas para um lado ainda que, de vez em quando, houvesse um equilíbrio nas forças opostas.
Desta vez, as experiências que me aguardavam me levariam a iniciar uma jornada diferente que seria concluída em existências posteriores. Nascido em um corpo de homem, recebi o nome de Ravi e, na verdade, vim de outro povo, de outra civilização. A bem da verdade, era filho de um comerciante e sua esposa, nascidos e criados na Babilônia. A primeira infância, até a idade dos quatro anos, foi passada por lá antes que meu pai optasse por migrar para o Egito. Cresciam boatos de que era possível prosperar naquela região quente, embora alertassem para uma série de perigos que poderíamos enfrentar: os corsários que navegavam por mares violentos, roubando e violando suas vítimas sem qualquer pesar; os monstros, as maldições de nossos deuses se os abandonássemos, outros tantos indignos de nossas atenções, e por aí vai. Era preciso coragem para mudar e mais ainda para enfrentar os malefícios do desconhecido. Apesar daquele povo do qual fiz parte nos primeiros anos de vida ter sido bastante sábio em tempos onde o instinto insistia em predominar sobre a razão, não era meu destino permanecer ali. Assim, no embalo do colo de minha mãe, deixei para trás o passado para viver o futuro.
Estabelecemo-nos em um vilarejo que ficava próximo ao rio Nilo para que pudéssemos usufruir da terra fértil que aquela região proporcionava por razões geográficas e ali, ignorante de uma série de problemas pelas quais passaram meus genitores, cresci. Recordo-me de ter vivido uma infância simples, marcada por um grau de pobreza significativo que estressava meu pai e fazia minha mãe lamentar, mas também pela presença de um misticismo enorme.
Embora meus pais não abandonaram seus deuses, eu, tampouco, fui apresentado a eles. Conheci aqueles que governaram o mundo espiritual do Egito. Para mim, aquela região era enorme, infinita, o centro do mundo. De tudo, a bem da verdade, pois tal era a visão de uma criança. Afinal, não conhecia outra realidade que não aquela em que deveria rezar e agradecer pelas cheias, temer os jacarés, respeitar as vacas e tantos outros animais que tinham suas ligações com os deuses egípcios. Conforme crescia, tornei-me amigo de um rapaz que chamarei de Harthor. Éramos bem próximos e sua mãe havia recebido a minha quando ela se estabeleceu por ali, portanto, foi apenas natural que nós nos tornássemos amigos.
Harthor era inteligente, calmo e pacífico. Não o via reclamar da falta de comida, das doenças que, de vez em quando, atacavam o povoado, nem das vezes em que um dos representantes do Grande Sacerdote de Rá o repreendia por sua passividade, pois ele não era muito aficionado nas artes militares como deveria. Preferia desenhar, o que quer que desenhasse, e passar seu tempo no templo. Não raro, fugia de seus afazeres todas as manhãs para o templo de Rá, de quem era devoto. Recordo-me da seguinte conversação quando tínhamos aproximadamente nove anos de idade:
--Você sabe o que acontece quando Rá vai embora, Ravi?--perguntou-me ele, seus olhos escuros brilhando com excitação. Admirava-o, se não o amava, e assim pus-me a ouvi-lo--Depois de todo o trabalho pelo qual passa para nos conceder sua luz, a única luz que torna a todos nós seres capazes e pensantes, ele regressa ao seu lar, passando, todavia, pela escuridão, onde deve derrotar seus inimigos como faz pelas manhãs.
--Parece-me tedioso e previsível--eu retruquei. Faltava em mim ainda a natureza religiosa e constante que Harthor possuía: ao contrário dele, era agitado demais para ouvir sermões e mais preocupado em desenvolver habilidades de guerra--Osíris, por outro lado, domou a morte. Isso não é mais fascinante?
Sempre que Harthor me encarava, sentia um arrepio percorrer minhas costas e uma sensação desconhecida. Apesar disso, ainda que corasse, não desviava o olhar. Desafiava-o, ao contrário, a fazê-lo. É claro que ele não fazia, pois sentia o mesmo que eu. A verdade era que nossas almas haviam se reencontrado, e negar isso era tolice, por mais infantis que fôssemos.
--Não há nada de fascinante em morrer e perder o vigor da vida, Ravi.
--Claro que há! --insisti--O fato de ele ter sido o rei dos mortos não lhe diz nada? Ora, me parece que não há nada para temer o outro lado se praticarmos o bem.
É realmente curioso constatar como enxergávamos a morte nesta época, mesmo nos limites que o estado infantil nos impunha. Afinal, todos conheciam a história do deus da morte, do rei guerreiro que a subjugou quando tornou-se rei do submundo e cuja criatura comia os corações dos mortos que cometeram algum crime em vida. Ele era quem julgava os falecidos, o que por si só implicava que a vida terrena não terminava no último suspiro e, para tanto, a mumificação era um processo importante nesse quesito.
--Você admira a escuridão, e eu a luz--ele comentou, soando sábio para a idade--Isso é enfadonho.
Eu revirei meus olhos.
--Que culpa tenho se você é entediante e não entende nada do que Osíris passou?
Conforme crescíamos, porém, as discussões de cunho religioso pouco se aprofundavam porque não me interessava muito por isso como Harthor. Ele, a propósito, decidiu aos dezesseis anos que seria sacerdote. Nesta época, nosso país estava em guerra com os vizinhos e passávamos por uma seca. No entanto, ainda que os pais concordassem que o filho deveria seguir este caminho numa tentativa desesperadora de (tentar) apaziguar a raiva divina, a verdade era que a natureza de Harthor sempre inclinou-se para esse caminho.
--Por que aceitou isso? --eu o questionei, em um dia em que caminhávamos perto do Grande Rio. Admirava como o sol queimava sua pele bronzeada, refletindo sua cabeça alongada e desprovida de cabelos. Era belo, forte e calmo. Havia uma serenidade em sua aura que me instigava, mas me provocava o desespero de não tê-lo, e foi quando percebi que o amava. E isso me deixava com raiva, tornava-me temperamental. Em retrospecto, penso que o amor sempre foi algo desesperador para mim, não a cura que eu pensava ser para meus problemas, afinal, não me valorizava como deveria. Por outro lado, esta não era uma preocupação da época, em lidar com nossos demônios interiores e subjugá-los--Por que seguir essa estrada? Sou tão desprezível assim?
Ele virou seu rosto para me encarar. Tratava-me com paciência, ternura e doçura, mas havia uma distância entre nós que eu não compreendia. A verdade era que ele era mais elevado que eu, e dificilmente se entregava as suas paixões. Eu o queria, e talvez ele me quisesse também, mas não da mesma maneira.
--Não se trata de você, Ravi. Nunca se tratou--ele retrucou e seus olhos se desviaram para o céu, contemplando o azul sem nuvens, a força da luz que iluminava o dia e tornava tudo mais quente--Sempre o senti me chamar, sabe? Já sonhei com ele.
Arqueei uma sobrancelha.
--Os deuses se comunicam com você?--desdenhei--Somos pobres, somos inúteis para eles, embora imploramos por sua afeição e sua proteção.
Harthor me encarou com tristeza. Deu um passo a frente e, por um instante, pensei que ele se aproximaria o suficiente para que não houvesse distância entre nós. E, talvez, eu ousasse o suficiente para que o fogo que me afligia o tocasse e diminuísse sua frieza. Mas eu não entendia, não compreendia a honra e o dever que ele carregava consigo, a missão que deveria cumprir, porque ainda era embrutecido pelo orgulho, pela vaidade, pela luxúria. Por mais que houvesse melhorado consideravelmente daqueles tempos para os de agora, ainda não era o suficiente.
Sendo assim, ouvi dele o seguinte:
--Somos todos filhos de Rá. Da mesma forma como os deuses menores que acatam e respeitam sua ordem. Por que seríamos ignorados por ele? Por não sermos faraós? Lembre-se de que Osíris julga a nós todos quando descermos ao seu mundo. O coração será visto em sua essência e nada dele poderemos esconder--então, suavizou--Sentimos um pelo outro um carinho imensurável, eu bem o sei. Acha que não sofro com esse distanciamento entre nós?
Fui silenciado e senti-me envergonhado. O orgulho, ferido, fê-me baixar os olhos e encarar o chão que sujava meus pés. Eis que ele colocou seu dedo indicador sob meu queixo e o levantou para que visse o que havia em sua alma. Amor, na sua forma mais pura.
--Devemos seguir caminhos diferentes porque não há espaço para nós aqui--disse Harthor, delicadamente--Sei que compartilha comigo a sensação de que, sempre que nos encontramos, algo nos separa. Mas tudo há seu motivo, mesmo que não saibamos disso. Eu preciso servir ao deus Rá e lhe ser útil. Não posso ficar aqui e não fazer nada.
Assenti com a cabeça. Ele falava a verdade, eu sentia isso em meu coração. Desse modo, não falamos mais nada. Era como se, silenciosamente, houvéssemos entrado em consenso. Logo após, separamo-nos e, assim que ele partiu, pela primeira vez, chorei.
* * *
A jornada para os desfavoráveis seria difícil, e mais ainda para aqueles que detinham um grande débito com o Criador a ser pago. Estava determinado a ser alguém melhor, isso eu não podia negar, mas constantemente era vencido pelos meus vícios.
De todo o modo, eventualmente meus pais migraram outra vez e fomos todos para dentro do Cairo quando as oportunidades pareceram melhorar. Era ali, entretanto, que sofreria mais. Estava desolado por dentro, culpando-me por ter permitido que Harthor fosse embora, que me deixasse. Pensava nele noite e dia, e culpava Rá por tirá-lo de mim. E, no entanto, quando recebia constantemente as negativas de ser recebido no exército mais infame do faraó, eu percebia que aquilo era castigo do deus da luz.
Um dia, a senhora minha mãe veio conversar comigo. Era seu único filho e não a toa éramos muito apegados um ao outro, uma ligação aparentemente inexplicável. Ela sentou-se ao meu lado e disse:
--Sabe de algo que me surpreende, Ravi? Que eu tenha vivido quando tantos a minha volta vi morrer.
Encarei-a, pasmo. Mas ela falava com tranquilidade e sabedoria para além da idade, ainda que não fosse tão jovem como antes. Contava 35 verões, seus cabelos cacheados apresentavam mechas esbranquiçadas e seu rosto oval e cheio continha algumas rugas ao redor dos olhos.
--A vida é curta para aqueles que trabalham em prol de um objetivo, mais ainda para aqueles que não têm--ela prosseguiu--Preocupa-me ver que, depois que Harthor se foi, você se permitiu cair no labirinto. É como se os deuses o testassem.
Não falei nada, embora sentisse vontade de retrucar. Estávamos em um quarto pequeno de paredes sem cor e com uma janela apenas que dava para o exterior, onde ruas porcamente pavimentadas eram ocupadas por escravos e mercadores como meu pai, além de homens do faraó que supervisionavam os trabalhos feitos.
E foi naquele momento que espiei uma figura no canto daquele aposento empoeirado. Alta, esguia, apresentava-se como mulher. Sua pele era escura como a noite, assim como seus cabelos que caíam como uma cascata pelas costas. Um brilho azul cercava sua aura e foi quando meus olhos se esbugalharam levemente. Era a deusa Nut, e fiquei boquiaberto. Minha mãe percebeu minha expressão, mas não se assustou.
--Você os vê, não vê?--ela inquiriu.
Ao lado dela, um homem negro se materializava. Sua aura era alaranjada, e seu corpo forte indicava traços guerreiros. Na minha concepção, via o deus Hórus, embora não enxergasse seu rosto tão claramente quanto via a de Nut.
Sendo assim, não conseguia responder minha mãe, que tomou minhas mãos nas dela e disse:
--Sabe por que eles estão aqui? Porque o filho deles está perdido. Criança, ouça-me. Sei que vivemos uma vida além de nossas expectativas--e aqui ela se referiu às esperanças dela e de seu pai--Sinto falta daquilo que um dia chamei de lar, mas tudo bem. Quero que aprenda a não depender dos outros. Que seja livre, mas com um propósito. Está quase se afundando no esquecimento, na morte não vivida, na desesperança. Seu pai luta para manter esta casa e eu, para que seja alimentado.
Senti vergonha daquelas palavras. Vivi para mim mesmo, em torno do meu egoísmo, e esqueci de tudo que meus pais haviam feito por mim. Pensei em Harthor, e no quanto ele abdicou para ser um homem de luz. Um homem de Rá. Lembrei-me do som de suas risadas de quando, desde crianças, brincávamos. De como ele me ensinou a mergulhar no Nilo. Das estórias que ele ouvia do templo, das vezes que me levava a todos os templos que conhecia em que os pobres como nós podiam entrar sem atrapalhar.
Recordei-me de sua calmaria, de sua disciplina, de sua resignação do destino que ele tinha certeza que seguiria. Veio a minha mente as palavras de conforto que entregou à mãe viúva, e da frieza com a qual se despediu de mim. Nele, não havia o egoísmo, a vaidade, a percepção de si próprio. E a vergonha me atingiu porque, diante da presença de dois deuses, eu me via sujo. Impuro. E vi que só havia um caminho para me limpar de tais desregramentos.
--Perdoe-me, senhora mãe--eu me ouvi implorar, sem me importar com as lágrimas que caíam de meus olhos e como me humilhava ao me ajoelhar daquela forma--Eu não sei onde estava. Eu não sei o que fazer de mim. Sou um fracasso e isso acaba comigo.
Sem julgar-me, oh que alma caridosa foi a daquela genitora, ela me envolveu em seus braços. Fechou os olhos e nada disse. Por fim, colocou suas mãos sobre minha cabeça e fez uma prece à Isis:
--Que os caminhos certos sejam seguidos. Que o verdadeiro amor purifique e não cegue este coração. Senhora Isis, mãe de Hórus, ouça meu clamor e não permita que este filho meu, guiado pelo filho vosso, se perca nas estradas escuras. Que a paixão do corpo não vele o amor do coração. Que assim seja, minha deusa. Proteja-o, como sei que fará.
Abrimos os olhos instantaneamente e senti-me revigorado. Algo ali aconteceu, e eu, que podia ver tudo, vi o aspecto de uma mulher ao lado daquele que pensei ser Hórus. Sua pele era bronzeada, seu rosto era oval e os olhos miravam-me com intensidade. Sua figura me era familiar. Não porque a reconhecia como a deusa Isis que, aparentemente, era quem tomava conta de minha mãe... Mas porque, na verdade, era ela quem tomou conta de mim em outra existência, sob outra forma. O leitor saberá de quem falo.
Assenti em respeito às divindades que se apresentavam silenciosamente a nós todos. Levantei-me e, ajudando minha mãe a fazer o mesmo, tomei suas mãos e juntos rezamos a todos os deuses, sem exceção. O sol chegou ao crepúsculo quando terminamos nossos afazeres, afinal, a reza não era apenas murmurar palavras, mas oferecer os sacrifícios possíveis a cada um deles. A oferta que me foi possível fazer foi sacrificar uma ovelha à deusa Isis para agradecer pelos pais que tinha e por tudo o que fizeram por mim. Mas também pedi pela fartura. E ela haveria de vir.
Na manhã seguinte, senti minhas forças revigoradas e, como se as circunstâncias foram manipuladas pelos deuses, percebi que o faraó precisava de soldados. Assim, consegui me alistar. Mas, dali em diante, não veria mais minha mãe ou meu pai. Minha vida voltaria-se toda para as funções que desempenharia a partir de então.
No dia próximo, parti. Com muito esforço deixei minha única família para trás, carregando comigo a sensação de que não os veria novamente.
--Que os deuses o acompanhem, meu filho--disse minha mãe, devota dos novos deuses, enquanto meu pai permanecia ligado aos velhos.
--A fortuna haverá de segui-lo se fizer tudo certo--disse ele--Marduk não abandona seu filho jamais. Peça e ele o ouvirá, se souber fazê-lo com sabedoria.
--Que assim seja--eu murmurei.
Houve treinamentos, é claro. Não quer dizer que, com isso, tudo significou uma adaptação fácil. Afinal, não tinha perfil para ser o guerreiro que procuravam, o que conflagrou em vários tipos de provocação. A tudo isso, porém, enfrentei sem reclamar ou pestanejar. Sempre que me provocavam, via Hórus e, estranhamente, me sentia mais resignado. Preparado para o que viria.
Nesse sentido, meu silêncio, que a muito custo escondia meu verdadeiro temperamento, colheu bons frutos. Fui designado para a fortalecer os muros da fronteira. Com uma equipe de cerca de cinquenta homens, para os desertos fomos. Aquela primeira missão provaria ser difícil.
--Mas que calor! --reclamou um dos meus companheiros, um sujeito chamado Radamés--É como se o inimigo de Hórus viesse nos provocar constantemente.
Concedi ao homem um pequeno sorriso.
--Sejamos fortes para enfrentá-lo, pois--respondi.
Radamés era alto e forte, apesar de possuir traços relativamente delicados em torno do rosto. Era belo de se encarar, mas eu não ousava fazê-lo com frequência, pois seus olhos me lembravam Harthor. Havia cinco anos que não o via, sequer sabia de seu paradeiro.
--Você é um indivíduo curioso--disse ele, claramente querendo se entrosar. De todos ali, era o mais falante--Como crê que possamos enfrentar a ira dos deuses?
Naquela época, anterior à de Nefertiti, os cultos diferenciavam-se e as crenças tampouco seguiam uma conformidade. Apenas dei de ombros e falei:
--Hórus não derrotou seu tio? E seu pai não governa o submundo?
--Vejo que é filho de Osíris--disse Ramadés com um sorriso engraçado estampado no rosto--para falar assim dele, acho que é favorecido. Não conceberia tal arrogância de poder derrotar os seres que deveríamos temer.
Antes que pudesse respondê-lo, nosso superior mandou nos calar. Desta forma, passamos o restante do dia patrulhando as fronteira sob um sol escaldante. Fazíamos nada, mas cumpríamos algumas ordens. E, no calar da noite, trocávamos de turno. Sozinho estava, longe da fogueira onde os homens se cercavam, pois cada vez mais me percebia longe daquelas conversas fúteis. Que me importava a vida do faraó? Ou de sua família? Seu nome eu não guardei, embora a sua figura prestasse respeito. Não falavam de deuses, mas de prostitutas. Demoravam-se em detalhes desnecessários.
E ali, longe de meus companheiros, me peguei pensando em Harthor novamente e nas conversas que tivemos. Constantemente dominadas pelo teor religioso, rememorava seus pequenos sermões, sua curiosidade inocente sobre a vida, a cura, e tudo o que aquilo poderia ser. Sua devoção a sabedoria fê-lo logo ser visto como favorecido pelo deus Tut, e não à toa foi acolhido pelo representante do Grande Sacerdote. Creio que esteja com o próprio representante divino, e poderia visualizá-lo aprendendo sobre tudo o que, até a juventude, foi-lhe negado saber em decorrência das condições de sua vida.
Perdido em tais pensamentos, mergulhado num passado que não voltaria, não percebi que Ramadés, desnudo da cintura para cima, se aproximava. Deliberadamente, o sujeito sentou-se ao meu lado e disse:
--Você não é muito sociável. Alguns não gostam de você por isso, outros o acusam de não ser egípcio o suficiente para exercer a função de soldado do rei. Um dos veteranos foi longe o suficiente ao afirmar que babilônios deveriam ter se mantido longe daqui.
Levantei o olhar para encarar aqueles olhos curiosos e cheios de significado. Ele não me provocava, tampouco me julgava, mas havia malícia em seu semblante. A fogueira que eu havia acendido para mim refletia-se em seus olhos.
--Que seja. Deixem-os falarem. Homens sempre falam, mesmo no silêncio.
Ramadés riu, mas seu olhar penetrava o meu. A velha sensação de calor que se remexia em mim voltou. E eu não sabia lidar com isso. Rapidamente desviei o olhar.
--Você é sábio--ele comentou a seguir--e faz bem em sê-lo. Vivemos num mundo de aparências. O ter é mais importante que o ser.
--É porque precisamos do ter para ser--eu respondi, e quando voltei a encará-lo, ele estava perto de mim. O suficiente para sentir o cheiro de suor emanar de sua pele--Ramadés, o que pensa que está fazendo?
Um olhar foi o suficiente para que palavra nenhuma se pronunciasse. É verdade que eu poderia estar no caminho da sabedoria, mas longe de alcançá-la eu estava. Ainda era escravo da carne e, portanto, quando aquele homem pressionou seus lábios contra os meus, não hesitei em retornar. Pensava em Harthor, é verdade, mas mais ainda na dor que ele me afligia. E permiti que a necessidade do corpo se sobrepujasse aos meus sentimentos.
A verdade era que eu traí meus próprios princípios. E isso era pior do que ser açoitado. Mas só percebi isso quando o ato em si foi concluído e cada um de nós alcançou o prazer desejado.
--Foi errado o que fizemos--eu falei, amargamente.
--Não foi. Dizem que o faraó faz isso também--ele sorriu maliciosamente--E quem se importa? Não seremos castigados por amarmos uns aos outros.
--Eu amo outra pessoa--eu retruquei, exasperado.
--Não me pareceu.
Fechei os olhos. E Ramadés entendeu isso como se eu quisesse outra rodada, e de novo não consegui ser forte o suficiente para impedi-lo. Porque eu gostei. E isso foi o pior. A carne cedia, e eu não sabia dizer não.
A cada noite, isso se repetia. Eu me sentia vazio, mas percebi que essa era uma alternativa a sofrer eternamente por alguém que longe de mim estava. Todavia, a pureza de Harthor lembrava a mim mesmo de meus erros. E que eu havia feito de mim um escravo. Se um dia eu vira a luz, agora eu sucumbia à escuridão. E aos poucos eu percebi que não via mais meus protetores, os deuses que vinham comigo desde o dia que me despedi de minha mãe.
Foi preciso que, eventualmente, fôssemos flagrados e causássemos horror no superior para que eu voltasse à realidade. Sem resmungar, permiti que me castigasse. Ouvi ameças sobre castração, mas Ramadés exerceu sua influência, que eu imaginava ser promíscua, sobre outros poderosos ao lado do superior para que isso não acontecesse. Mas, talvez devesse. A vergonha não era suficiente. E se eu perdesse meu poder, o centro das minhas fraquezas, era mais provável que eu dobrasse meu joelho e enfim aprendesse sobre humildade.
No entanto, fui transferido para os muros internos do faraó. Fiquei aliviado em saber que Ramadés não acompanharia. A partir dali, prometi a ser o mais casto possível. Não me renderia aos desejos da carne, fosse o que fosse. Tendo em mente Harthor, eu me inspiraria nele.
Não foram dias difíceis, no entanto. Um dia, o sub sacerdote do faraó veio me encontrar patrulhando os jardins nas primeiras horas da manhã.
--Soube que cometeu o crime da fornicação--ele disse em tom de censura, sem cumprimentar-me, indo direto ao assunto. Diziam que aquele homem era um mago, e talvez fosse, mas nada respondi. Ele prosseguiu--Deveria ter perdido sua virilidade. Tornado-se escravo. Mas... Mas não. Intercederam por você.
Assenti com a cabeça, parecendo distante. Meu interlocutor era um velho de mais de 40 anos, cabeça grisalha e pele marcada por doenças que deixaram seus rastros ali. Não era bonito, e parecia ser deveras exigente com ele mesmo e com os outros. Sua presença exercia uma aura assustadora, autoritária, e eu me perguntei como um homem daquele tipo não ambicionava se tornar "o" grande sacerdote. Mas o que eu sabia de políticas? Mais ainda de religião? Nada. Aos vinte e cinco anos, eu era um tolo envaidecido, enraivecido e vazio... mas que aprendia com as lições duras da vida.
--O senhor Harthor insistiu que o mantivesse aqui. Ele virá falar com o senhor. O filho de Tot sabe das coisas, isso preciso reconhecer--ele resmungou--Mas, mais um crime e não terá piedade de nenhum de nós, está me ouvindo? Foi com muita dificuldade que escondemos isso do faraó. Não nos faça nos arrepender.
Surpreso eu estava com toda aquela nova informação, pois pensava que, se eu havia sido transferido para aquele local, foi porque Ramadés seduziu o braço direito do superior e sussurrou palavras em seu ouvido para me salvar. Mas a politicagem ia além do que eu pensava e eu não conseguia conceber seu funcionamento. Era apenas um soldado.
--É claro--eu falei, e fiz um juramento sobre meus protetores de que não repetiria aquele erro grotesco. O velho me encarou, mas pareceu acreditar em mim e desapareceu de minha vista. Antes que pudesse assimilar tudo o que aconteceu até então, vinha em minha mente um jovem da minha idade em vestes brancas, cujo tecido, ao se olhar mais perto, continha ouro.
Com uma mistura de sentimentos que me fez quase engasgar, era Harthor quem via diante de mim. Com dificuldade, controlei-me, embora não negasse o abraço com o qual ele me recebeu. Fechei meus olhos e respirei seu perfume.
--Senti sua falta--falei, como o tolo que era.
Harthor me deu um sorriso triste, porém, quando relutantemente nos afastamos.
--O suficiente para ter dormido com outro?--ele retrucou, e eu corei.
--Sinto por isso--disse eu--Não negarei que fui movido por pensamentos obscuros. Sou fraco, Harthor. Gostei do que fiz, admito, de ter saciado a carne... ainda que pensasse em você todo o tempo.
Vi Harthor ruborizar, mas seu olhar era de repreensão. A culpa invadiu minha consciência, pois senti-me inferior a ele, o que era verdade. Mas a sensação era de que estava impregnado de sujeira e eu percebi que, mesmo que ele me tentasse naquele momento, eu não poderia repetir o que fiz com ele. Por mais que na juventude desejasse isso, percebi que a fornicação é insignificante.
--Estamos bem diferentes--ele comentou, depois de um momento de silêncio--Você se tornou o guerreiro que eu sabia que viria a ser.
Não respondi, porém. Fui corrompido, e não havia como mudar isso. Pensei em meus pais, na prece de minha mãe à Isis e senti mais vergonha ainda. Mas respirei profundamente, e olhei para baixo. Assim, não vi que Harthor se solidarizou comigo e, tomando-me pelos ombros, levou-me a um banco próximo, longe, porém, dos olhares desconfiados dos meus colegas.
--Julguei-o duramente--ele começou.
--E com justiça--eu respondi--Maculei o voto que fiz aos meus pais, traí meus protetores...
Com uma mão sobre meu ombro, Harthor falou:
--Não seja duro consigo mesmo, meu caro. Confesso ter falado por ciúmes, e veja quão imperfeito ainda sou. Amo-o e não suportaria vê-lo com outro. Mas preciso cumprir minha missão e, para isso, preciso renunciar às perspectivas de felicidade. Quando Rá me chamou, seria muito egoísta se virasse minhas costas para ele. Talvez, meu destino seria outro, teria tudo sido diferente. A vida, porém, não é feita de amores e desamores. É mais que isso.
Em silêncio, ouvi aquilo que ele dizia e, conforme compreendia verdadeiramente o significado de seu ato, percebi que ele me amava tanto quanto eu a ele.
--Não ficaremos juntos--comentei, mas sem rancor ou mágoa. Sem dor.
--Não--ele concordou--mas isso não impede que nossos caminhos não se cruzam novamente.
Aquiesci.
--O problema não está nos deuses e suas guerras--eu me ouvi pensando--mas em nós mesmos. Somos insignificantes, é verdade, mas somos seus instrumentos.
Harthor sorriu.
--Você entende agora porque segui o rumo que me trouxe aqui?
Pela primeira vez, entendia. E não o julgava por isso.
--Sinto como se estivesse me esclarecendo.
--Ah, e está, certamente--ele disse com um orgulho que me fez sorrir--Cada um com seu propósito, e ele está além de nossas vontades pessoais. Nem sempre o que queremos é o melhor para nós. Os deuses nos conhecem, e eles não desistem de nós, apesar do que dizem por aí.
--Obrigado--eu disse, e falei com uma sinceridade que o comoveu--Obrigado por me tirar da escuridão. Eu não quero me afundar novamente nela, mas temo que não sou como você.
Harthor ainda sorria quando falou:
--Erros precisam ser cometidos para que saibamos apreciar aquilo que temos. Sei que nós dois trilhamos rotas diferentes, opostas, mas nem por isso melhores ou piores do que as decisões tomadas respectivamente por cada um. Mas nem por isso deve se arrepender. Tudo é um aprendizado, meu caro. E temo que precisamos de soldados cada vez mais. Não há vergonha em ser um soldado. As polaridades da vida, como os deuses nos mostram, apontam para que as funções que desempenhamos em cargos distintos sejam cumpridas. E isso é que importa. Você diz que aprende comigo, mas não sabe o quanto me ensinou.
Aquilo me surpreendeu. Em meio ao caos que refletia ser minha vida, ele ter dito isso me deixou chocado.
--Como poderia eu ensinar alguém?
Harthor riu.
--Você se subestima demais, Ravi. Sua persistência e fé são inabaláveis, percebeu isso? A despeito do seu temperamento, você crê nos deuses, e entrega a eles sem hesitação o seu destino. Não questiona. Recebe o fardo que carrega. Por mais difícil que a vida seja, é corajoso o suficiente para enfrentar suas batalhas. Nem tudo é fácil, é verdade. Mas você insiste, você reconhece seus erros e aceita seus defeitos. Acha que os deuses não nos observam?
Emocionado com aquela perspectiva que ele tinha de mim, chorei. Não sabia se havia encontrado a redenção, mas talvez houvesse saída para o que eu fizera no passado. No final, não era mais o jovem embrutecido de outrora. E quando Harthor me abraçou, encontrei paz.
Mas aquela seria, como deveria esperar, a última vez que nos veríamos. A conversa dali seguiu para outros rumos. Não falamos de sentimentos ou deuses, mas da vida. De aprendizados. De coisas boas. Contei a ele dos progressos que fazia com o arco e a flecha, embora preferisse as lanças e os punhais. Como soldado, porém, o conhecimento de armas era necessário. Afinal, não se sabia o dia de amanhã.
--Conhecimento--eu falei--é algo que pretendo almejar. Mas sinto que não agora.
--Tudo no seu tempo--disse Harthor, sabedor como o homem que era--E nem por isso deva se envergonhar da posição que está. Lembre-se de aprender com os erros, de não esquecer de quem é. Seja corajoso.
--Serei. E você também.
Entreolhamo-nos quando o silêncio confortavelmente se estabeleceu entre nós. Levantamo-nos e ele disse, mantendo certa distância:
--Amo-o, Ravi. Sempre amei e amarei. Espero que me perdoe por...
--Não--eu o interrompi, e me surpreendi por estar calmo e sem carregar qualquer ressentimento, embora estivesse triste pela despedida que se formava--Não há o que ser perdoado. Precisamos cumprir nossos destinos, Harthor. Eu sou grato por ter me trazido à luz, por ter me ensinado a me perdoar também quando pensei que permaneceria na ignorância da escuridão, envergonhado diante da possibilidade de meu coração pesar na balança, diante de Osíris. Hoje, não sei o que me aguarda, mas minha fé se renovou, de fato. Hórus e Nut me acompanham na jornada que me trouxeram até aqui. É hora de partir.
Agora, era o frio Harthor quem lacrimejava.
--Cuide-se.
--Você também, meu amigo. Sabe que o amo, Harthor. Nenhuma outra pessoa ocuparia meu coração e minha alma como você.
Ele sorriu.
--Palavras poéticas. Poderia ter trabalhado com a escrita, ser um escrivão se quisesse...
Eu ri.
--Seria enfadonho demais para mim e o tédio não me cabe. Sou um homem das forças.
Harthor assentiu, concordando. Despedimos, então, e com a cabeça e o coração mais leves, retornei a minha posição de antes. Não vi meu caríssimo devoto de Rá desaparecer de minha vista e regressar ao templo onde seu superior o aguardava, pois fui chamado para atender uma emergência. Eclodiu uma revolta fora dos muros do faraó. E, embora tivesse sucesso em apaziguá-la, emergiram outros tipos de revoltas posteriores.
Pairava no ar uma ameaça de fora. Não saberia dizer de quem. Era apenas um soldado que obedecia a ordens. Dominei meus instintos carnais, mas havia outros ainda a serem dominados. A raiva, a frustração, o orgulho e a vaidade permaneciam como sombras que esperavam o momento de atacar. De todo o modo, quando a verdadeira ameaça se concretizou, estive lá para combatê-la. Em meio ao caos, fui ferido. Por mais que Hórus me protegesse e guiasse, meu destino era inevitável. Selei-o.
Assim, parti para o submundo. Ou era como pensava a partir do instante em que fui tomado pelo alívio no momento em que a dor que tanto me afligia... cessou.
Desta vez, as experiências que me aguardavam me levariam a iniciar uma jornada diferente que seria concluída em existências posteriores. Nascido em um corpo de homem, recebi o nome de Ravi e, na verdade, vim de outro povo, de outra civilização. A bem da verdade, era filho de um comerciante e sua esposa, nascidos e criados na Babilônia. A primeira infância, até a idade dos quatro anos, foi passada por lá antes que meu pai optasse por migrar para o Egito. Cresciam boatos de que era possível prosperar naquela região quente, embora alertassem para uma série de perigos que poderíamos enfrentar: os corsários que navegavam por mares violentos, roubando e violando suas vítimas sem qualquer pesar; os monstros, as maldições de nossos deuses se os abandonássemos, outros tantos indignos de nossas atenções, e por aí vai. Era preciso coragem para mudar e mais ainda para enfrentar os malefícios do desconhecido. Apesar daquele povo do qual fiz parte nos primeiros anos de vida ter sido bastante sábio em tempos onde o instinto insistia em predominar sobre a razão, não era meu destino permanecer ali. Assim, no embalo do colo de minha mãe, deixei para trás o passado para viver o futuro.
Estabelecemo-nos em um vilarejo que ficava próximo ao rio Nilo para que pudéssemos usufruir da terra fértil que aquela região proporcionava por razões geográficas e ali, ignorante de uma série de problemas pelas quais passaram meus genitores, cresci. Recordo-me de ter vivido uma infância simples, marcada por um grau de pobreza significativo que estressava meu pai e fazia minha mãe lamentar, mas também pela presença de um misticismo enorme.
Embora meus pais não abandonaram seus deuses, eu, tampouco, fui apresentado a eles. Conheci aqueles que governaram o mundo espiritual do Egito. Para mim, aquela região era enorme, infinita, o centro do mundo. De tudo, a bem da verdade, pois tal era a visão de uma criança. Afinal, não conhecia outra realidade que não aquela em que deveria rezar e agradecer pelas cheias, temer os jacarés, respeitar as vacas e tantos outros animais que tinham suas ligações com os deuses egípcios. Conforme crescia, tornei-me amigo de um rapaz que chamarei de Harthor. Éramos bem próximos e sua mãe havia recebido a minha quando ela se estabeleceu por ali, portanto, foi apenas natural que nós nos tornássemos amigos.
Harthor era inteligente, calmo e pacífico. Não o via reclamar da falta de comida, das doenças que, de vez em quando, atacavam o povoado, nem das vezes em que um dos representantes do Grande Sacerdote de Rá o repreendia por sua passividade, pois ele não era muito aficionado nas artes militares como deveria. Preferia desenhar, o que quer que desenhasse, e passar seu tempo no templo. Não raro, fugia de seus afazeres todas as manhãs para o templo de Rá, de quem era devoto. Recordo-me da seguinte conversação quando tínhamos aproximadamente nove anos de idade:
--Você sabe o que acontece quando Rá vai embora, Ravi?--perguntou-me ele, seus olhos escuros brilhando com excitação. Admirava-o, se não o amava, e assim pus-me a ouvi-lo--Depois de todo o trabalho pelo qual passa para nos conceder sua luz, a única luz que torna a todos nós seres capazes e pensantes, ele regressa ao seu lar, passando, todavia, pela escuridão, onde deve derrotar seus inimigos como faz pelas manhãs.
--Parece-me tedioso e previsível--eu retruquei. Faltava em mim ainda a natureza religiosa e constante que Harthor possuía: ao contrário dele, era agitado demais para ouvir sermões e mais preocupado em desenvolver habilidades de guerra--Osíris, por outro lado, domou a morte. Isso não é mais fascinante?
Sempre que Harthor me encarava, sentia um arrepio percorrer minhas costas e uma sensação desconhecida. Apesar disso, ainda que corasse, não desviava o olhar. Desafiava-o, ao contrário, a fazê-lo. É claro que ele não fazia, pois sentia o mesmo que eu. A verdade era que nossas almas haviam se reencontrado, e negar isso era tolice, por mais infantis que fôssemos.
--Não há nada de fascinante em morrer e perder o vigor da vida, Ravi.
--Claro que há! --insisti--O fato de ele ter sido o rei dos mortos não lhe diz nada? Ora, me parece que não há nada para temer o outro lado se praticarmos o bem.
É realmente curioso constatar como enxergávamos a morte nesta época, mesmo nos limites que o estado infantil nos impunha. Afinal, todos conheciam a história do deus da morte, do rei guerreiro que a subjugou quando tornou-se rei do submundo e cuja criatura comia os corações dos mortos que cometeram algum crime em vida. Ele era quem julgava os falecidos, o que por si só implicava que a vida terrena não terminava no último suspiro e, para tanto, a mumificação era um processo importante nesse quesito.
--Você admira a escuridão, e eu a luz--ele comentou, soando sábio para a idade--Isso é enfadonho.
Eu revirei meus olhos.
--Que culpa tenho se você é entediante e não entende nada do que Osíris passou?
Conforme crescíamos, porém, as discussões de cunho religioso pouco se aprofundavam porque não me interessava muito por isso como Harthor. Ele, a propósito, decidiu aos dezesseis anos que seria sacerdote. Nesta época, nosso país estava em guerra com os vizinhos e passávamos por uma seca. No entanto, ainda que os pais concordassem que o filho deveria seguir este caminho numa tentativa desesperadora de (tentar) apaziguar a raiva divina, a verdade era que a natureza de Harthor sempre inclinou-se para esse caminho.
--Por que aceitou isso? --eu o questionei, em um dia em que caminhávamos perto do Grande Rio. Admirava como o sol queimava sua pele bronzeada, refletindo sua cabeça alongada e desprovida de cabelos. Era belo, forte e calmo. Havia uma serenidade em sua aura que me instigava, mas me provocava o desespero de não tê-lo, e foi quando percebi que o amava. E isso me deixava com raiva, tornava-me temperamental. Em retrospecto, penso que o amor sempre foi algo desesperador para mim, não a cura que eu pensava ser para meus problemas, afinal, não me valorizava como deveria. Por outro lado, esta não era uma preocupação da época, em lidar com nossos demônios interiores e subjugá-los--Por que seguir essa estrada? Sou tão desprezível assim?
Ele virou seu rosto para me encarar. Tratava-me com paciência, ternura e doçura, mas havia uma distância entre nós que eu não compreendia. A verdade era que ele era mais elevado que eu, e dificilmente se entregava as suas paixões. Eu o queria, e talvez ele me quisesse também, mas não da mesma maneira.
--Não se trata de você, Ravi. Nunca se tratou--ele retrucou e seus olhos se desviaram para o céu, contemplando o azul sem nuvens, a força da luz que iluminava o dia e tornava tudo mais quente--Sempre o senti me chamar, sabe? Já sonhei com ele.
Arqueei uma sobrancelha.
--Os deuses se comunicam com você?--desdenhei--Somos pobres, somos inúteis para eles, embora imploramos por sua afeição e sua proteção.
Harthor me encarou com tristeza. Deu um passo a frente e, por um instante, pensei que ele se aproximaria o suficiente para que não houvesse distância entre nós. E, talvez, eu ousasse o suficiente para que o fogo que me afligia o tocasse e diminuísse sua frieza. Mas eu não entendia, não compreendia a honra e o dever que ele carregava consigo, a missão que deveria cumprir, porque ainda era embrutecido pelo orgulho, pela vaidade, pela luxúria. Por mais que houvesse melhorado consideravelmente daqueles tempos para os de agora, ainda não era o suficiente.
Sendo assim, ouvi dele o seguinte:
--Somos todos filhos de Rá. Da mesma forma como os deuses menores que acatam e respeitam sua ordem. Por que seríamos ignorados por ele? Por não sermos faraós? Lembre-se de que Osíris julga a nós todos quando descermos ao seu mundo. O coração será visto em sua essência e nada dele poderemos esconder--então, suavizou--Sentimos um pelo outro um carinho imensurável, eu bem o sei. Acha que não sofro com esse distanciamento entre nós?
Fui silenciado e senti-me envergonhado. O orgulho, ferido, fê-me baixar os olhos e encarar o chão que sujava meus pés. Eis que ele colocou seu dedo indicador sob meu queixo e o levantou para que visse o que havia em sua alma. Amor, na sua forma mais pura.
--Devemos seguir caminhos diferentes porque não há espaço para nós aqui--disse Harthor, delicadamente--Sei que compartilha comigo a sensação de que, sempre que nos encontramos, algo nos separa. Mas tudo há seu motivo, mesmo que não saibamos disso. Eu preciso servir ao deus Rá e lhe ser útil. Não posso ficar aqui e não fazer nada.
Assenti com a cabeça. Ele falava a verdade, eu sentia isso em meu coração. Desse modo, não falamos mais nada. Era como se, silenciosamente, houvéssemos entrado em consenso. Logo após, separamo-nos e, assim que ele partiu, pela primeira vez, chorei.
* * *
A jornada para os desfavoráveis seria difícil, e mais ainda para aqueles que detinham um grande débito com o Criador a ser pago. Estava determinado a ser alguém melhor, isso eu não podia negar, mas constantemente era vencido pelos meus vícios.
De todo o modo, eventualmente meus pais migraram outra vez e fomos todos para dentro do Cairo quando as oportunidades pareceram melhorar. Era ali, entretanto, que sofreria mais. Estava desolado por dentro, culpando-me por ter permitido que Harthor fosse embora, que me deixasse. Pensava nele noite e dia, e culpava Rá por tirá-lo de mim. E, no entanto, quando recebia constantemente as negativas de ser recebido no exército mais infame do faraó, eu percebia que aquilo era castigo do deus da luz.
Um dia, a senhora minha mãe veio conversar comigo. Era seu único filho e não a toa éramos muito apegados um ao outro, uma ligação aparentemente inexplicável. Ela sentou-se ao meu lado e disse:
--Sabe de algo que me surpreende, Ravi? Que eu tenha vivido quando tantos a minha volta vi morrer.
Encarei-a, pasmo. Mas ela falava com tranquilidade e sabedoria para além da idade, ainda que não fosse tão jovem como antes. Contava 35 verões, seus cabelos cacheados apresentavam mechas esbranquiçadas e seu rosto oval e cheio continha algumas rugas ao redor dos olhos.
--A vida é curta para aqueles que trabalham em prol de um objetivo, mais ainda para aqueles que não têm--ela prosseguiu--Preocupa-me ver que, depois que Harthor se foi, você se permitiu cair no labirinto. É como se os deuses o testassem.
Não falei nada, embora sentisse vontade de retrucar. Estávamos em um quarto pequeno de paredes sem cor e com uma janela apenas que dava para o exterior, onde ruas porcamente pavimentadas eram ocupadas por escravos e mercadores como meu pai, além de homens do faraó que supervisionavam os trabalhos feitos.
E foi naquele momento que espiei uma figura no canto daquele aposento empoeirado. Alta, esguia, apresentava-se como mulher. Sua pele era escura como a noite, assim como seus cabelos que caíam como uma cascata pelas costas. Um brilho azul cercava sua aura e foi quando meus olhos se esbugalharam levemente. Era a deusa Nut, e fiquei boquiaberto. Minha mãe percebeu minha expressão, mas não se assustou.
--Você os vê, não vê?--ela inquiriu.
Ao lado dela, um homem negro se materializava. Sua aura era alaranjada, e seu corpo forte indicava traços guerreiros. Na minha concepção, via o deus Hórus, embora não enxergasse seu rosto tão claramente quanto via a de Nut.
Sendo assim, não conseguia responder minha mãe, que tomou minhas mãos nas dela e disse:
--Sabe por que eles estão aqui? Porque o filho deles está perdido. Criança, ouça-me. Sei que vivemos uma vida além de nossas expectativas--e aqui ela se referiu às esperanças dela e de seu pai--Sinto falta daquilo que um dia chamei de lar, mas tudo bem. Quero que aprenda a não depender dos outros. Que seja livre, mas com um propósito. Está quase se afundando no esquecimento, na morte não vivida, na desesperança. Seu pai luta para manter esta casa e eu, para que seja alimentado.
Senti vergonha daquelas palavras. Vivi para mim mesmo, em torno do meu egoísmo, e esqueci de tudo que meus pais haviam feito por mim. Pensei em Harthor, e no quanto ele abdicou para ser um homem de luz. Um homem de Rá. Lembrei-me do som de suas risadas de quando, desde crianças, brincávamos. De como ele me ensinou a mergulhar no Nilo. Das estórias que ele ouvia do templo, das vezes que me levava a todos os templos que conhecia em que os pobres como nós podiam entrar sem atrapalhar.
Recordei-me de sua calmaria, de sua disciplina, de sua resignação do destino que ele tinha certeza que seguiria. Veio a minha mente as palavras de conforto que entregou à mãe viúva, e da frieza com a qual se despediu de mim. Nele, não havia o egoísmo, a vaidade, a percepção de si próprio. E a vergonha me atingiu porque, diante da presença de dois deuses, eu me via sujo. Impuro. E vi que só havia um caminho para me limpar de tais desregramentos.
--Perdoe-me, senhora mãe--eu me ouvi implorar, sem me importar com as lágrimas que caíam de meus olhos e como me humilhava ao me ajoelhar daquela forma--Eu não sei onde estava. Eu não sei o que fazer de mim. Sou um fracasso e isso acaba comigo.
Sem julgar-me, oh que alma caridosa foi a daquela genitora, ela me envolveu em seus braços. Fechou os olhos e nada disse. Por fim, colocou suas mãos sobre minha cabeça e fez uma prece à Isis:
--Que os caminhos certos sejam seguidos. Que o verdadeiro amor purifique e não cegue este coração. Senhora Isis, mãe de Hórus, ouça meu clamor e não permita que este filho meu, guiado pelo filho vosso, se perca nas estradas escuras. Que a paixão do corpo não vele o amor do coração. Que assim seja, minha deusa. Proteja-o, como sei que fará.
Abrimos os olhos instantaneamente e senti-me revigorado. Algo ali aconteceu, e eu, que podia ver tudo, vi o aspecto de uma mulher ao lado daquele que pensei ser Hórus. Sua pele era bronzeada, seu rosto era oval e os olhos miravam-me com intensidade. Sua figura me era familiar. Não porque a reconhecia como a deusa Isis que, aparentemente, era quem tomava conta de minha mãe... Mas porque, na verdade, era ela quem tomou conta de mim em outra existência, sob outra forma. O leitor saberá de quem falo.
Assenti em respeito às divindades que se apresentavam silenciosamente a nós todos. Levantei-me e, ajudando minha mãe a fazer o mesmo, tomei suas mãos e juntos rezamos a todos os deuses, sem exceção. O sol chegou ao crepúsculo quando terminamos nossos afazeres, afinal, a reza não era apenas murmurar palavras, mas oferecer os sacrifícios possíveis a cada um deles. A oferta que me foi possível fazer foi sacrificar uma ovelha à deusa Isis para agradecer pelos pais que tinha e por tudo o que fizeram por mim. Mas também pedi pela fartura. E ela haveria de vir.
Na manhã seguinte, senti minhas forças revigoradas e, como se as circunstâncias foram manipuladas pelos deuses, percebi que o faraó precisava de soldados. Assim, consegui me alistar. Mas, dali em diante, não veria mais minha mãe ou meu pai. Minha vida voltaria-se toda para as funções que desempenharia a partir de então.
No dia próximo, parti. Com muito esforço deixei minha única família para trás, carregando comigo a sensação de que não os veria novamente.
--Que os deuses o acompanhem, meu filho--disse minha mãe, devota dos novos deuses, enquanto meu pai permanecia ligado aos velhos.
--A fortuna haverá de segui-lo se fizer tudo certo--disse ele--Marduk não abandona seu filho jamais. Peça e ele o ouvirá, se souber fazê-lo com sabedoria.
--Que assim seja--eu murmurei.
Houve treinamentos, é claro. Não quer dizer que, com isso, tudo significou uma adaptação fácil. Afinal, não tinha perfil para ser o guerreiro que procuravam, o que conflagrou em vários tipos de provocação. A tudo isso, porém, enfrentei sem reclamar ou pestanejar. Sempre que me provocavam, via Hórus e, estranhamente, me sentia mais resignado. Preparado para o que viria.
Nesse sentido, meu silêncio, que a muito custo escondia meu verdadeiro temperamento, colheu bons frutos. Fui designado para a fortalecer os muros da fronteira. Com uma equipe de cerca de cinquenta homens, para os desertos fomos. Aquela primeira missão provaria ser difícil.
--Mas que calor! --reclamou um dos meus companheiros, um sujeito chamado Radamés--É como se o inimigo de Hórus viesse nos provocar constantemente.
Concedi ao homem um pequeno sorriso.
--Sejamos fortes para enfrentá-lo, pois--respondi.
Radamés era alto e forte, apesar de possuir traços relativamente delicados em torno do rosto. Era belo de se encarar, mas eu não ousava fazê-lo com frequência, pois seus olhos me lembravam Harthor. Havia cinco anos que não o via, sequer sabia de seu paradeiro.
--Você é um indivíduo curioso--disse ele, claramente querendo se entrosar. De todos ali, era o mais falante--Como crê que possamos enfrentar a ira dos deuses?
Naquela época, anterior à de Nefertiti, os cultos diferenciavam-se e as crenças tampouco seguiam uma conformidade. Apenas dei de ombros e falei:
--Hórus não derrotou seu tio? E seu pai não governa o submundo?
--Vejo que é filho de Osíris--disse Ramadés com um sorriso engraçado estampado no rosto--para falar assim dele, acho que é favorecido. Não conceberia tal arrogância de poder derrotar os seres que deveríamos temer.
Antes que pudesse respondê-lo, nosso superior mandou nos calar. Desta forma, passamos o restante do dia patrulhando as fronteira sob um sol escaldante. Fazíamos nada, mas cumpríamos algumas ordens. E, no calar da noite, trocávamos de turno. Sozinho estava, longe da fogueira onde os homens se cercavam, pois cada vez mais me percebia longe daquelas conversas fúteis. Que me importava a vida do faraó? Ou de sua família? Seu nome eu não guardei, embora a sua figura prestasse respeito. Não falavam de deuses, mas de prostitutas. Demoravam-se em detalhes desnecessários.
E ali, longe de meus companheiros, me peguei pensando em Harthor novamente e nas conversas que tivemos. Constantemente dominadas pelo teor religioso, rememorava seus pequenos sermões, sua curiosidade inocente sobre a vida, a cura, e tudo o que aquilo poderia ser. Sua devoção a sabedoria fê-lo logo ser visto como favorecido pelo deus Tut, e não à toa foi acolhido pelo representante do Grande Sacerdote. Creio que esteja com o próprio representante divino, e poderia visualizá-lo aprendendo sobre tudo o que, até a juventude, foi-lhe negado saber em decorrência das condições de sua vida.
Perdido em tais pensamentos, mergulhado num passado que não voltaria, não percebi que Ramadés, desnudo da cintura para cima, se aproximava. Deliberadamente, o sujeito sentou-se ao meu lado e disse:
--Você não é muito sociável. Alguns não gostam de você por isso, outros o acusam de não ser egípcio o suficiente para exercer a função de soldado do rei. Um dos veteranos foi longe o suficiente ao afirmar que babilônios deveriam ter se mantido longe daqui.
Levantei o olhar para encarar aqueles olhos curiosos e cheios de significado. Ele não me provocava, tampouco me julgava, mas havia malícia em seu semblante. A fogueira que eu havia acendido para mim refletia-se em seus olhos.
--Que seja. Deixem-os falarem. Homens sempre falam, mesmo no silêncio.
Ramadés riu, mas seu olhar penetrava o meu. A velha sensação de calor que se remexia em mim voltou. E eu não sabia lidar com isso. Rapidamente desviei o olhar.
--Você é sábio--ele comentou a seguir--e faz bem em sê-lo. Vivemos num mundo de aparências. O ter é mais importante que o ser.
--É porque precisamos do ter para ser--eu respondi, e quando voltei a encará-lo, ele estava perto de mim. O suficiente para sentir o cheiro de suor emanar de sua pele--Ramadés, o que pensa que está fazendo?
Um olhar foi o suficiente para que palavra nenhuma se pronunciasse. É verdade que eu poderia estar no caminho da sabedoria, mas longe de alcançá-la eu estava. Ainda era escravo da carne e, portanto, quando aquele homem pressionou seus lábios contra os meus, não hesitei em retornar. Pensava em Harthor, é verdade, mas mais ainda na dor que ele me afligia. E permiti que a necessidade do corpo se sobrepujasse aos meus sentimentos.
A verdade era que eu traí meus próprios princípios. E isso era pior do que ser açoitado. Mas só percebi isso quando o ato em si foi concluído e cada um de nós alcançou o prazer desejado.
--Foi errado o que fizemos--eu falei, amargamente.
--Não foi. Dizem que o faraó faz isso também--ele sorriu maliciosamente--E quem se importa? Não seremos castigados por amarmos uns aos outros.
--Eu amo outra pessoa--eu retruquei, exasperado.
--Não me pareceu.
Fechei os olhos. E Ramadés entendeu isso como se eu quisesse outra rodada, e de novo não consegui ser forte o suficiente para impedi-lo. Porque eu gostei. E isso foi o pior. A carne cedia, e eu não sabia dizer não.
A cada noite, isso se repetia. Eu me sentia vazio, mas percebi que essa era uma alternativa a sofrer eternamente por alguém que longe de mim estava. Todavia, a pureza de Harthor lembrava a mim mesmo de meus erros. E que eu havia feito de mim um escravo. Se um dia eu vira a luz, agora eu sucumbia à escuridão. E aos poucos eu percebi que não via mais meus protetores, os deuses que vinham comigo desde o dia que me despedi de minha mãe.
Foi preciso que, eventualmente, fôssemos flagrados e causássemos horror no superior para que eu voltasse à realidade. Sem resmungar, permiti que me castigasse. Ouvi ameças sobre castração, mas Ramadés exerceu sua influência, que eu imaginava ser promíscua, sobre outros poderosos ao lado do superior para que isso não acontecesse. Mas, talvez devesse. A vergonha não era suficiente. E se eu perdesse meu poder, o centro das minhas fraquezas, era mais provável que eu dobrasse meu joelho e enfim aprendesse sobre humildade.
No entanto, fui transferido para os muros internos do faraó. Fiquei aliviado em saber que Ramadés não acompanharia. A partir dali, prometi a ser o mais casto possível. Não me renderia aos desejos da carne, fosse o que fosse. Tendo em mente Harthor, eu me inspiraria nele.
Não foram dias difíceis, no entanto. Um dia, o sub sacerdote do faraó veio me encontrar patrulhando os jardins nas primeiras horas da manhã.
--Soube que cometeu o crime da fornicação--ele disse em tom de censura, sem cumprimentar-me, indo direto ao assunto. Diziam que aquele homem era um mago, e talvez fosse, mas nada respondi. Ele prosseguiu--Deveria ter perdido sua virilidade. Tornado-se escravo. Mas... Mas não. Intercederam por você.
Assenti com a cabeça, parecendo distante. Meu interlocutor era um velho de mais de 40 anos, cabeça grisalha e pele marcada por doenças que deixaram seus rastros ali. Não era bonito, e parecia ser deveras exigente com ele mesmo e com os outros. Sua presença exercia uma aura assustadora, autoritária, e eu me perguntei como um homem daquele tipo não ambicionava se tornar "o" grande sacerdote. Mas o que eu sabia de políticas? Mais ainda de religião? Nada. Aos vinte e cinco anos, eu era um tolo envaidecido, enraivecido e vazio... mas que aprendia com as lições duras da vida.
--O senhor Harthor insistiu que o mantivesse aqui. Ele virá falar com o senhor. O filho de Tot sabe das coisas, isso preciso reconhecer--ele resmungou--Mas, mais um crime e não terá piedade de nenhum de nós, está me ouvindo? Foi com muita dificuldade que escondemos isso do faraó. Não nos faça nos arrepender.
Surpreso eu estava com toda aquela nova informação, pois pensava que, se eu havia sido transferido para aquele local, foi porque Ramadés seduziu o braço direito do superior e sussurrou palavras em seu ouvido para me salvar. Mas a politicagem ia além do que eu pensava e eu não conseguia conceber seu funcionamento. Era apenas um soldado.
--É claro--eu falei, e fiz um juramento sobre meus protetores de que não repetiria aquele erro grotesco. O velho me encarou, mas pareceu acreditar em mim e desapareceu de minha vista. Antes que pudesse assimilar tudo o que aconteceu até então, vinha em minha mente um jovem da minha idade em vestes brancas, cujo tecido, ao se olhar mais perto, continha ouro.
Com uma mistura de sentimentos que me fez quase engasgar, era Harthor quem via diante de mim. Com dificuldade, controlei-me, embora não negasse o abraço com o qual ele me recebeu. Fechei meus olhos e respirei seu perfume.
--Senti sua falta--falei, como o tolo que era.
Harthor me deu um sorriso triste, porém, quando relutantemente nos afastamos.
--O suficiente para ter dormido com outro?--ele retrucou, e eu corei.
--Sinto por isso--disse eu--Não negarei que fui movido por pensamentos obscuros. Sou fraco, Harthor. Gostei do que fiz, admito, de ter saciado a carne... ainda que pensasse em você todo o tempo.
Vi Harthor ruborizar, mas seu olhar era de repreensão. A culpa invadiu minha consciência, pois senti-me inferior a ele, o que era verdade. Mas a sensação era de que estava impregnado de sujeira e eu percebi que, mesmo que ele me tentasse naquele momento, eu não poderia repetir o que fiz com ele. Por mais que na juventude desejasse isso, percebi que a fornicação é insignificante.
--Estamos bem diferentes--ele comentou, depois de um momento de silêncio--Você se tornou o guerreiro que eu sabia que viria a ser.
Não respondi, porém. Fui corrompido, e não havia como mudar isso. Pensei em meus pais, na prece de minha mãe à Isis e senti mais vergonha ainda. Mas respirei profundamente, e olhei para baixo. Assim, não vi que Harthor se solidarizou comigo e, tomando-me pelos ombros, levou-me a um banco próximo, longe, porém, dos olhares desconfiados dos meus colegas.
--Julguei-o duramente--ele começou.
--E com justiça--eu respondi--Maculei o voto que fiz aos meus pais, traí meus protetores...
Com uma mão sobre meu ombro, Harthor falou:
--Não seja duro consigo mesmo, meu caro. Confesso ter falado por ciúmes, e veja quão imperfeito ainda sou. Amo-o e não suportaria vê-lo com outro. Mas preciso cumprir minha missão e, para isso, preciso renunciar às perspectivas de felicidade. Quando Rá me chamou, seria muito egoísta se virasse minhas costas para ele. Talvez, meu destino seria outro, teria tudo sido diferente. A vida, porém, não é feita de amores e desamores. É mais que isso.
Em silêncio, ouvi aquilo que ele dizia e, conforme compreendia verdadeiramente o significado de seu ato, percebi que ele me amava tanto quanto eu a ele.
--Não ficaremos juntos--comentei, mas sem rancor ou mágoa. Sem dor.
--Não--ele concordou--mas isso não impede que nossos caminhos não se cruzam novamente.
Aquiesci.
--O problema não está nos deuses e suas guerras--eu me ouvi pensando--mas em nós mesmos. Somos insignificantes, é verdade, mas somos seus instrumentos.
Harthor sorriu.
--Você entende agora porque segui o rumo que me trouxe aqui?
Pela primeira vez, entendia. E não o julgava por isso.
--Sinto como se estivesse me esclarecendo.
--Ah, e está, certamente--ele disse com um orgulho que me fez sorrir--Cada um com seu propósito, e ele está além de nossas vontades pessoais. Nem sempre o que queremos é o melhor para nós. Os deuses nos conhecem, e eles não desistem de nós, apesar do que dizem por aí.
--Obrigado--eu disse, e falei com uma sinceridade que o comoveu--Obrigado por me tirar da escuridão. Eu não quero me afundar novamente nela, mas temo que não sou como você.
Harthor ainda sorria quando falou:
--Erros precisam ser cometidos para que saibamos apreciar aquilo que temos. Sei que nós dois trilhamos rotas diferentes, opostas, mas nem por isso melhores ou piores do que as decisões tomadas respectivamente por cada um. Mas nem por isso deve se arrepender. Tudo é um aprendizado, meu caro. E temo que precisamos de soldados cada vez mais. Não há vergonha em ser um soldado. As polaridades da vida, como os deuses nos mostram, apontam para que as funções que desempenhamos em cargos distintos sejam cumpridas. E isso é que importa. Você diz que aprende comigo, mas não sabe o quanto me ensinou.
Aquilo me surpreendeu. Em meio ao caos que refletia ser minha vida, ele ter dito isso me deixou chocado.
--Como poderia eu ensinar alguém?
Harthor riu.
--Você se subestima demais, Ravi. Sua persistência e fé são inabaláveis, percebeu isso? A despeito do seu temperamento, você crê nos deuses, e entrega a eles sem hesitação o seu destino. Não questiona. Recebe o fardo que carrega. Por mais difícil que a vida seja, é corajoso o suficiente para enfrentar suas batalhas. Nem tudo é fácil, é verdade. Mas você insiste, você reconhece seus erros e aceita seus defeitos. Acha que os deuses não nos observam?
Emocionado com aquela perspectiva que ele tinha de mim, chorei. Não sabia se havia encontrado a redenção, mas talvez houvesse saída para o que eu fizera no passado. No final, não era mais o jovem embrutecido de outrora. E quando Harthor me abraçou, encontrei paz.
Mas aquela seria, como deveria esperar, a última vez que nos veríamos. A conversa dali seguiu para outros rumos. Não falamos de sentimentos ou deuses, mas da vida. De aprendizados. De coisas boas. Contei a ele dos progressos que fazia com o arco e a flecha, embora preferisse as lanças e os punhais. Como soldado, porém, o conhecimento de armas era necessário. Afinal, não se sabia o dia de amanhã.
--Conhecimento--eu falei--é algo que pretendo almejar. Mas sinto que não agora.
--Tudo no seu tempo--disse Harthor, sabedor como o homem que era--E nem por isso deva se envergonhar da posição que está. Lembre-se de aprender com os erros, de não esquecer de quem é. Seja corajoso.
--Serei. E você também.
Entreolhamo-nos quando o silêncio confortavelmente se estabeleceu entre nós. Levantamo-nos e ele disse, mantendo certa distância:
--Amo-o, Ravi. Sempre amei e amarei. Espero que me perdoe por...
--Não--eu o interrompi, e me surpreendi por estar calmo e sem carregar qualquer ressentimento, embora estivesse triste pela despedida que se formava--Não há o que ser perdoado. Precisamos cumprir nossos destinos, Harthor. Eu sou grato por ter me trazido à luz, por ter me ensinado a me perdoar também quando pensei que permaneceria na ignorância da escuridão, envergonhado diante da possibilidade de meu coração pesar na balança, diante de Osíris. Hoje, não sei o que me aguarda, mas minha fé se renovou, de fato. Hórus e Nut me acompanham na jornada que me trouxeram até aqui. É hora de partir.
Agora, era o frio Harthor quem lacrimejava.
--Cuide-se.
--Você também, meu amigo. Sabe que o amo, Harthor. Nenhuma outra pessoa ocuparia meu coração e minha alma como você.
Ele sorriu.
--Palavras poéticas. Poderia ter trabalhado com a escrita, ser um escrivão se quisesse...
Eu ri.
--Seria enfadonho demais para mim e o tédio não me cabe. Sou um homem das forças.
Harthor assentiu, concordando. Despedimos, então, e com a cabeça e o coração mais leves, retornei a minha posição de antes. Não vi meu caríssimo devoto de Rá desaparecer de minha vista e regressar ao templo onde seu superior o aguardava, pois fui chamado para atender uma emergência. Eclodiu uma revolta fora dos muros do faraó. E, embora tivesse sucesso em apaziguá-la, emergiram outros tipos de revoltas posteriores.
Pairava no ar uma ameaça de fora. Não saberia dizer de quem. Era apenas um soldado que obedecia a ordens. Dominei meus instintos carnais, mas havia outros ainda a serem dominados. A raiva, a frustração, o orgulho e a vaidade permaneciam como sombras que esperavam o momento de atacar. De todo o modo, quando a verdadeira ameaça se concretizou, estive lá para combatê-la. Em meio ao caos, fui ferido. Por mais que Hórus me protegesse e guiasse, meu destino era inevitável. Selei-o.
Assim, parti para o submundo. Ou era como pensava a partir do instante em que fui tomado pelo alívio no momento em que a dor que tanto me afligia... cessou.
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