quarta-feira, 15 de maio de 2019

Velhas Memórias, Ciclo I.

Congo, continente africano. 

Não se contava o tempo naqueles dias como é feito atualmente. Ao contrário, guiávamos pela lua e suas fases. O céu era nosso mediador, nosso guia, nosso professor. As estrelas representavam a luz de um infinito cujo significado demoraríamos a descobrir. Ao menos naquela época, naquela existência. 
O calor não era nosso inimigo como o frio não era um visitante indesejável. Conhecíamos a natureza, a quem dirigíamos nossa fé. Pode-se dizer que este era um tempo em que o mestre ainda não havia descido à Terra, onde os grandes filósofos não haviam pregado ainda sua vinda e sequer os povos que chamam de celtas haviam se dissipado, tornando-se nômades, portanto, ao espalharem-se pelo globo.
Quanto a mim, era uma jovem que atendia pelo nome de Indira. Minha família era a  mais numerosa do vilarejo, contando 25 crianças das quais apenas 15 haviam sobrevivido à infância. Minha bisavó vivia bem para a época, uma anciã de 75 longos anos. Na verdade, ela era bem respeitada e consultada por todos de nossa tribo, principalmente pelos guerreiros que ansiavam em conhecer o futuro e pelas mulheres que buscavam consultar seus talentos místicos. 
Ela era possuidora de um par de olhos escuros como a noite e guardavam uma sabedoria bem além de seu tempo. Seus cabelos, grisalhos, mantinham-se firme em tranças grossas e longas e a pele, dourada, parecia resistir ao tempo. Para um observador, porém, os traços da idade estavam ali.
--Indira, filha, venha aqui--ela me chamara na noite em que a veria pela última vez--Sabe que herdou de mim qualidades excepcionais, não é? Principalmente quando deixa seu corpo para trás a fim de reencontrar nossos ancestrais em mundos além. Há tanto a ser compreendido, porém, tão pouco para ser dito.--a velha lamentou.
Esperei pelo que viria a seguir. Nana, como a chamava, sempre dizia que, por algum motivo, eu era especial. Pegou-me para criar quando minha mãe, a terceira esposa de meu pai, faleceu em decorrência das complicações do meu parto. Papai não contestou sua decisão, pois quem haveria de questionar a decisão da anciã de seu povo?
Com frequência, ela trançava meus cabelos pretos como os dela e, por vezes, mergulhava dois dedos na tinta avermelhada --cuja coloração era produzida através da remoção de pigmentos de determinados frutos e misturados até se atingir a cor desejada-- para pintar meu rosto, repetindo uma tradição milenar das mulheres escolhidas pelos deuses. Desse modo, Nana explicava, eu estava ligada não apenas ao divino, como também aos meus antepassados. Afinal, a natureza havia me concedido o dom de ver além do presente. 
--Seus olhos possuem a cor da luz que varreu a escuridão. Isso, minha querida, diz muito sobre você--tal foi a breve explicação que me dera por ter olhos azuis--Acredito que os deuses guardam um propósito para você, profetiza.
É verdade que profetas não foram apenas aqueles cujo principal propósito dedicava-se a servir ao verdadeiro mestre na posterioridade, mas os que foram agraciadas com uma responsabilidade de levar amor ao próximo para pudéssemos evoluir. Todavia, a corrupção moral e espiritual pairava sobre os espíritos terrenos, permitindo que a escuridão cegasse e desvirtuasse os homens de seu verdadeiro caminho.
--Que assim seja, senhora bisavó--dizia eu, sem compreender, de fato, o que me aguardava.
--Você é nova--disse a anciã, encarando-me com astúcia--Conhece pouco deste mundo. E, no entanto, é a escolhida deles. O que será de você, minha querida Indira?

Aquelas palavras titubearam em meus ouvidos mesmo dias depois em que a grande mulher da tribo viera a falecer. Todos já me encaravam como sua possível sucessora, tendo em vista que minha bisavó não hesitara em afirmar-me como escolhida divina por diversas vezes. Admito que, em verdade, tive experiências além da minha compreensão limitada e terrena, a despeito da curiosa pureza com a qual manifestava minha primeira existência naquele local. 
Com isso, tornou-se frequente que chefes de tribos vizinhos viessem me procurar. Meu pai olhava-me admirado quando eu, sem qualquer entendimento do assunto, cumpria com meu dever sagrado. Olhos se fechavam enquanto o corpo sofria uma breve tremedeira... Era uma sensação boa, calma, porém bastante poderosa. Sentir o divino apossar-se de seu corpo, respeitando, todavia, sua consciência e seus trejeitos porque ele está concedendo seu caráter sagrado ao seu instrumento, fazia-me sentir útil. 
E quando abria aqueles olhos, uma inquietação tomava conta de mim. Não era minha voz que saía de meus lábios ao pronunciar sentenças:
--O deus dos caminhos exige sua humildade. Decreta que um sacrifício de um búfalo branco seja oferecido a ele na próxima lua negra. Ajoelhe-se e receba a benção daquele que fala por ele. 
Ou mesmo:
--Aquela que responde pelo amor ri e responde-te, mulher, que deveria ser honesta com ti própria antes de procurar uma fácil solução para teus problemas.
Ainda:
--O deus criador enviou o mensageiro sagrado de seu filho, que por vós é cultuado e respeitado, para dizer-lhes que guerra nenhuma trará o que foi perdido. Insistir na tola ambição é estar cego para as consequências do ato. 
Contudo, cada vez mais que as demandas, os pedidos, adquiriam um tom mais desesperador, mais raivoso tornava-se o tom dos deuses. Ou daqueles que falavam por tais entidades. Consequentemente, feria o orgulho dos homens movidos por nada se não instintos.
E um destes--oh sim, eu me recordo--selara seu destino miserável quando cedeu aos vícios que o comandavam. Era um homem robusto e garboso, é fato; alto, de ombros largos, inscrições pintadas por todo o seu peito, tinha os olhos que refletiam a tempestade. Pouco surpreende que fosse um guerreiro. Chefe de uma tribo que, por tanto tempo, foi rival de meu pai, embora nenhum conflito, pela graça divina, houvesse eclodido.
--Gostaria de me consultar com sua filha--assim exigiu o ganancioso P'trolles, o filho da tempestade, cabeça completamente pelada, embora em desenho visse-se o formato de runas. Logo reconheci que se tratava de um filho da deusa cujo símbolo era um búfalo--Agora!
Caros leitores, permita-me lembrá-los de um detalhe que, até então, havia optado por esconder: minha virgindade tornava-me intocada, pois meu corpo, fechado, pertencia aos deuses. Este é um fator importante para o desenrolar da história, como podem ver.
--Com que ousadia vem o senhor fazer demandas? --meu pai, que herdou a sabedoria de sua avó, falava com tranquilidade, embora em seus olhos escuros repousasse o pior tipo de fúria que se pudesse enxergar: a frieza controlada--Esquece-se das maneiras? Da hospitalidade?
Estávamos todos sob uma grande oca, construída a partir de palhas, e onde ocasionalmente a tribo se reunia para discutir e trabalhar, por vezes, consultar as vontades dos deuses. Raramente deixava o lado de meu pai, e quase nunca tinha olhares para outras pessoas. Confesso, porém, que me deleitava saber que era a favorita dos deuses e, mesmo contaminada pela vaidade, eles jamais haviam me deixado. 
Até então.
--Não fui bem recebido, portanto, não há por que ser cortês--retrucou P'trolles, acompanhado de cinco homens, todos eles fortes. Todos eles marcados pelo símbolo da deusa do búfalo, como notei.
Com um sorriso afetado em seu rosto, marcado pelo desdém evidente, embora agisse com cautela, meu pai respondeu:
--Perdoe-me, pois não contava com a presença daquele que tanto nos repudia--e, sem aguardar uma resposta, pediu que fosse servido ao intruso comida e bebida, assim como para aqueles que o acompanhavam.
Todos observavam o desenrolar da cena na esperança de que os deuses se manifestassem e determinassem que P'trolles partisse dali. Pude sentir a tensão e as expectativas dos olhares não dirigidos a mim. De que adiantava evitar encarar-me quando os acontecimentos pareciam correr até a mim da mesma forma?
Surda diante da conversa dos homens, pois considerava-me além destes, tampouco me permitia deleitar com a doce melodia dos bardos que cantavam uma história antiga de um povo antigo que vivia nos cantos onde agora vivíamos. Nossos ancestrais, cujas mensagens ainda ecoavam através de suas épocas.
Concentrava-me, pois, na minha missão. Mas, como minha bisavó havia dito, era nova. E, portanto, facilmente tentada pela escuridão. É algo necessário que posteriormente reconheceria, que para conhecermos a luz, é preciso conhecer seu oposto para assim nos equilibrarmos.Talvez, tudo já estivesse escrito. Ou não. Mas era importante que acontecesse da seguinte forma.
Quieta estava eu, o rosto pintado e com uma expressão feroz que afastava qualquer presença de mim. Um homem, porém, foi corajoso o suficiente para adentrar minha morada. O pobre ser, veja bem, tinha lá sua própria sabedoria. Mas quando meus olhos repousaram em sua figura, não foi ela que enxerguei.
Alto, forte e de complexões firmes; pele escura e olhos mais escuros ainda, furtivo como a noite, deslizava elegantemente e discretamente para o meu lado. Em sua cabeça, não havia cabelos, e ao redor do rosto desenhos pintados que indicavam sua posição em nossa tribo: guerreiro da primeira legião. Logo pensei, com desdém, de sua ousadia em se aproximar de mim. Considerando sua posição social, ainda que houvesse pouca distinção em minha época, ele deveria se manter longe da minha presença.
E, entretanto, enquanto chefes de tribos rivais discutiam, ele se pôs ao meu lado.
--Você está diferente, Indira--assim ele começou, sem qualquer reverência ou respeito. Na verdade, com irritação percebi sua humildade ao se referir a mim pelo nome--O que os deuses fizeram com você?
Lancei aquele belo homem um olhar frio e não respondi. Mas ele sorriu.
--Um dia, sua inocência foi louvada pela anciã. Creio que hoje não teria mais o mesmo efeito, tendo em vista o que se tornou.
A esta hora, minha irritação se manifestou.
--Como ousa dirigir-me a palavra, estranho?
Pensei ter visto um deslumbre de mágoa por trás daqueles olhos escuros. Meu coração se inquietou, mas meu orgulho era maior e não admitiria tal fraqueza.
--Estranho? É o que sou para você agora? --ele riu--G'dollen é meu nome, e você se esqueceu dele. Como também se esqueceu de que costumávamos brincar juntos, partilhar sonhos e expectativas. Mas veja como endureceu a profetiza!
Senti meu rosto queimar e virei a face para que ele não visse. Aquelas palavras tiveram um efeito devastador sobre mim, queimando o orgulho com o qual aprendera a usar -ou talvez apenas as circunstâncias o tivessem arrancado de mim- em ocasiões como aquela.
Pensei que meu silêncio o afastaria, mas G'dollen permaneceu ao meu lado. Desprezava sua humildade porque não a compreendia.
--Nem sempre estamos preparados para o poder que nos dão--ele continuou--Mas espero que aprenda que, qualquer que seja o caminho que escolher, eles estarão vendo.
Encarei-o.
--Os deuses me escolheram por um propósito apenas, que é servi-los--retruquei--Não há caminho a seguir que não seja este.
G'dollen riu e eu me irritei, pois aquela risada sonora tornava-o atraente. E perceber isso me angustiava, pois até então não conhecia atração. Ou desejo. Reconhecer o desconhecido que pulsava em meu coração me assustava, pois com razão temia a ira divina. Pois como já mencionei previamente, a virgindade era uma característica essencial para que uma profetiza como eu mantivesse os poderes e os favores dos deuses.
--É uma pena que pensa assim--disse ele, e seu sorriso o embelezou ainda mais. Céus.--Será mesmo que deveria ser trancafiada aqui para atender e responder pelos homens? Prendeu-se a auto-importância que lhe moldaram e esqueceu de viver.
--Se veio até aqui para me ofender, G'dollen, está perdendo seu tempo--retruquei, evitando encará-lo nos olhos--Está ofendendo apenas os deuses e seu castigo virá.
Ele se aproximou e eu senti a mesma queimação interna. Que os deuses me perdoassem, eu pensei, pois parecia que havia perdido o controle de meu corpo. E G'dollen parecia saber disso, pois sussurrou:
--Nas cachoeiras, viva a deusa dos rios. Banhava-se na ondulação das águas frias, mas sua pele era tão quente que sequer sentia o gelo insípido. Ali vivia em constante harmonia com tudo o que a cercava até que, um dia, conheceu o amor na figura do deus da guerra. Embora sujo pelos combates lutados, responsável pelas vidas e mortes que determinaram variados cursos de guerras de diferentes tribos, manchado pelo sangue, ele, ainda assim, queria limpar-se de tudo o que foi causado. De tudo o que ele provocou.
"E tão rapidamente deixou as florestas para encontrar as cachoeiras, pois sim, eram duas, quando a viu. Nua diante do luar, os cabelos negros soltos caindo em cascatas, coladas ao corpo, dona de um olhar impenetrável. A deusa virou-se para aquele homem e bradou:
'Com que direito vens aqui macular este ambiente?'
Ao que o guerreiro exclamou, ajoelhando-se diante de tal beleza, da inocência que nunca conheceu:
'Perdoe-me senhora se acaso a ofendo, mas desejo purificar este coração contaminado pelo orgulho dos homens. Pois nada vim a conhecer que não a necessidade de uns sobreporem-se aos outros. É disso que falo e digo nenhuma mentira.'
A deusa dos rios, portanto, concedeu-lhe passagem. O deus, portanto, se despiu e adentrou nas águas da cachoeira. Ali, em suma, enxergaram suas respectivas essências e se amaram. Pois o deus da guerra conheceu a inocência e a deusa dos rios conheceu a persistência. Dali em diante, juraram ajudar os homens a combater a escuridão que insistia cair como um véu sobre os olhos para que pudessem encontrar o caminho a luz."
Tocada por aquela história, era difícil manter a máscara que vinha usando até então. Lancei-o um olhar perplexo e falei:
--Como sabe disso?
--Acha que somente os deuses dirigem-se a você?
Corei. Meu silêncio confirmava minha tolice. Mas G'dollen não julgou e eu percebi que o amava por isso.
--Eles regem meu coração. Sou filho deles--disse-me G'dollen, com um sorriso suave--Guerreiro, sim. Bravo, corajoso, com certeza. Mas humilde e amoroso. Permita-me amá-la como deve. Não se esconda por trás disso. Acha mesmo que os deuses gostariam de vê-la servindo ao objetivo desses homens que lutam entre si por propósitos inúteis?
Meu coração batia forte e em meus olhos, subiam lágrimas. G'dollen me conhecia melhor que ninguém e me fazia recordar os dias imaculados que vivíamos antes de seguirmos caminhos separados. Gentilmente, ele tocou minha bochecha e a acariciou e eu desejei mais que isso. Na verdade, percebi que de nada adiantava ter a virgindade intocada quando todo meu ser havia se perdido na mais profunda vaidade, acreditando na superioridade sobre todos os outros de nossa tribo, permitindo ser tratada como a deusa que eu não era.
--Há bondade e pureza em você--ele me disse, mas vi uma tristeza em seus olhos--mas ainda há muito a aprender. Deixará que eu a ame? Que a lave de tudo isso que mergulhou?
Antes que eu pudesse respondê-lo, porém, meu pai levantou-se e teve um acesso de fúria. Logo compreendi o por que. G'dollen havia tocado em mim sem permissão, levando uma série de ações que eu, estúpida como era, fui incapaz de impedir.
Vi G'dollen ser esbofetado, apanhar por sua insolência. Ouvi-o pedir permissão para desposar-me e livrar-me do fardo que carregava e, como resposta, receber gargalhadas debochadas de toda a tribo. Testemunhei a humilhação do homem que, em sua inocência, apenas havia-me ofertado o amor. Filho de deuses, descido para sofrer nas mãos daqueles que não o mereciam.
Cega fiquei pelas lágrimas e aquela fraqueza, para meu pai, representava o abandono do favor divino. Sendo assim, fui culpada também pelo destino que ele anotou por nós dois. Surda fiquei diante do sacode de sua fúria sobre mim, exigindo que os deuses aparecessem, que eles explicassem aquele comportamento inadequado. Não compreendia por que aquele que me gerou agia daquela maneira comigo. E foi quando veio o desprezo pela aparente perda dos poderes que enxerguei numa dura lição sobre humildade.
Não obstante, permitiu que o líder da tribo rival me desposasse. Para nós, o casamento de uma profetiza representava a humilhação, o abandono dos deuses. Sofri com isso, mas para eles, que continuavam a acreditar no jogo das entidades divinas, era a posse mais valiosa que poderiam ter. Contudo, forçaram-me a ver a morte de G'dollen por açoitamento. Não me perdoei, e creio ter enlouquecido. Provavelmente, sim. Pelos vícios que me fizeram sucumbir, pelo desespero que não soube dominar, pela perda de vontade de viver.
Cedi a escuridão e foi somente então que percebi o quão cega estive. Apesar disso, procurei cumprir com o dever de esposa. Mas nada, absolutamente nada, curaria a dor que me sangrava. Tarde demais, percebi meus erros.
Até que um dia fui buscar pela minha redenção.
--Senhor marido--dirigi-me a P'trolles na doçura que ele tanto apreciava--tenho vossa permissão para me dirigir as cachoeiras acompanhada pelas senhoras de vossa confiança?
P'trolles arqueou uma sobrancelha, mas, tal como meu pai era, acreditava na força regida pelos deuses e pensava que ter me desposado foi um sopro de vitória para a tribo. Pois, logo em seguida, guerreou contra meu pai e o derrotou, matando-o eventualmente. Como, a partir de então, poderia negar-me alguma coisa? À época, carregava um filho em meu ventre, portanto, ele aquiesceu.
--É claro. Não demore, pois.
Fiz um movimento respeitoso com a cabeça, mas silenciosamente escolhi minhas próprias damas. Shira e Andira vieram comigo do leste do Congo, onde minha tribo um dia viveu, e serviam-me devotamente. Elas sabiam que eu pretendia dar à luz na cachoeira, e naquela noite, a nona lua chegava ao seu ápice.
Caminhamos à pé, seguindo um caminho que fugia do conhecimento dos homens do chefe que era meu esposo. Era arriscado, mas eu ainda detinha respeito sobre aquela tribo nova do qual havia me inserido. Meu corpo pesava e meu cansaço era evidente. Shira, a de cabelos prateados, ofereceu arranjar algum meio para levar-me floresta adentro, mas neguei que fizesse isso.
--Não. Preciso pagar pelo que fiz, e esta é a maneira de mostrar a eles o quanto me arrependo.
Meu pé sangrou, é verdade, pois o caminho era longo e árduo. Contudo, não desisti. Enfim, ao destino chegamos. Como na história de G'dollen, a cachoeira se prostrava ao luar, mas nenhuma deusa ou deus se faziam presentes. Despi-me e entrei na água gelada.
--Senhora! --Andira exclamou, preocupada.
Mordi o lábio inferior diante do choque do meu corpo quente e exausto com a água gelada e intensa. Soltei os cabelos e fui a frente. Senti a criança não nascida agitar-se.
--Está tudo bem--eu as assegurei, virando-me com um sorriso. Era a primeira vez que sorria desde muito tempo e me sentia leve. Como se aquelas águas geladas não apenas me oferecessem um consolo de tudo o que perdi e deixei para trás, mas também... limpassem meus pecados, removendo os vícios de mim. Estava, ao final, aprendendo com a lição árdua que a vida me teve. E compreendi a moral que G'dollen havia tentado me passar com a história que jamais havia me esquecido--Venham!
Shira hesitou, mas entrou prontamente. Andira relutou igualmente, mas as duas logo me cercavam protetivamente. Pedi, portanto, que me fizessem boiar sobre a água e confiei meu corpo sobre aquelas mãos delicadas.
--O que está fazendo? --quis saber Andira, a de cabelos fogo.
Calmamente, repliquei:
--Entregando-me aos deuses.
Nenhuma das duas comentou, mas compreendi que estavam perplexas e temiam que morresse. Talvez fosse verdade que a morte viria me buscar em breve, na certeza de que não sobreviveria aquele parto. Mas não pensava nisso. Pedia apenas uma chance, outra que fosse, para me redimir do mal uso dos poderes concedidos a mim.
O silêncio foi essencial, mas quando abri os olhos levemente os vi ali. A deusa do rio e o deus da guerra que acompanhavam G'dollen. Quase surtei.
--Acalme-se, minha dama--ele disse, mas sua voz calma fez-me chorar copiosamente. Se aquilo era um sonho, não queria acordar--Está tudo bem. Vamos nos ver de novo. Não acha que os deuses ignorariam seu pedido?
--Sinto muito. Não foi o suficiente, eu me sinto envergonhada. Eu o amo, G'dollen--dizia eu--Por favor, me perdoe.
Ele se aproximou de mim. Vi que estava deitada numa cama branca, e fazia-se luz naquele lugar estranho. Mas quando aquele homem de beleza inestimável e coração mais puro deitou-se ao meu lado, soube que estava em paz.
--Não há o que perdoar. Você não teve culpa do destino que escolhi--disse ele, sempre tão sábio--A hora de melhorar virá e eu juro que não a abandonarei de forma alguma. Eu a amo, Indira. Sempre a amei, e esse amor que nós temos vai muito além dos tempos. Mas preciso que seja corajosa. A criança que carrega... tem uma missão dura a enfrentar. Não pergunte, não se preocupe. Apenas cumpra com sua parte.
Assenti, aflita. Mas não o questionei. Logo vi que, ao redor dos deuses pais de G'dollen, estavam tantos outros. Senti-me envergonhada, mas de nada aquilo adiantava. Em breve, outra oportunidade para provar que melhorei viria... E só me restava aguardar, por mais impaciente que estivesse. Ainda assim, levantei-me e pedi perdão. O deus-caçador, todo vestido em verde pois era o rei das florestas, aproximou-se e depositou sua mão em meu ombro:
--Nada tema. Quando um filho na sinceridade nos procura, no amor é recebido. No perdão é garantido. Na pureza é abraçado. Seja forte e humilde que há muito ainda para caminhar, embora este não seja o fim definido que pensas.
A princípio não compreendi a mensagem, mas, em breve, compreenderia. Agradeci e despertei. E no grito, meu corpo se sacudiu. Rapidamente, me tiraram da cachoeira. Diante dos deuses, todos ali presentes, a criança em meu ventre pedia para sair. Na noite escura e sem lua, sem estrelas, temi o que viria a seguir. Mas, como G'dollen havia me instruído, não questionei, não pedi, não perguntei. Deveria cumprir com meu propósito.
A dor era terrível, porém. Poderia ter pedido aos deuses que ali estavam para que amenizasse, mas meus crimes deveriam ser pagos assim e, por mais que gritasse e chorasse, não reclamei. Não rezei. Apenas me entreguei. E, surda aos apelos daquelas amigas fieis--que, como verão nas histórias seguintes, reencontrarei em outras vestes--deixei aquele mundo com alívio.
A jornada, no entanto, havia apenas começado.

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