"Meu nome, na espiritualidade, é outro. Mas optei por vir segundo uma de minhas encarnações na Antiguidade, Gaius Antoninus (ou, se preferirem, Gaius Antonius), de modo a facilitar o seu entendimento. Não pretendo me prolongar neste resumo de minha vida, pois somente vim aqui com o intuito de ilustrá-los ensinamentos muito pertinentes que a humanidade distorceu. Quando nos propomos a tratar da história da Roma ou da Grécia Antigas, é comum cairmos na seguinte dicotomia: glória de um lado, decadência de outro, ou vice-versa. Sob o prisma da espiritualidade, de igual maneira, sobretudo os que vivem agora no século XXI, verificam-se muitas entidades “atrasadas”, “embrutecidas” ou mesmo “limitadas” que marcaram o contexto histórico a ferro e fogo. Ora, se por um lado podemos ver que isso se decorreu, por outro, seria tão diferente de sua contemporaneidade? Não se aconselha estudar a evolução humanitária, segundo for a perspectiva que escolher, somente para criticá-la a partir dos pontos de vistas do agora. Em meu tempo, convivi com muitos seres evoluídos moralmente mas que, forçados pelas circunstâncias, tiveram de cometer atos injustos.
Enfim, nasci em tempos conturbados quando Roma já era o grande império que Augusto inaugurou. A glória da cultura paternalista, pois Roma, vista no sentido masculino da questão, se enxergava como “pater” (de origem grega: pai) de toda uma “pátria”, isto, é de várias colônias a que dominava, era ampla e esplêndida. Suas leis, embora contemplassem os homens (a partir de certa idade, dos 13 anos até os 60) com vigor e robustos, de quando em quando favoreciam mulheres (sobretudo as viúvas e herdeiras). Eram primitivas para muitas questões, e refletiam o valor que os romanos davam a sua pátria, a sua família, tanto que o culto dos ancestrais (não tão diferente de alguns africanistas que cultuavam seus “mortos”) era equiparado aos dos próprios deuses. E mesmos estes não eram iguais entre si. Da mesma forma como ocorreu na Grécia, o Júpiter de Roma era diferente do Júpiter da Sicília. A Vênus da capital apresentava características bélicas e sensuais de Ishtar, deusa do amor do oriente, que, entretanto, diferenciavam-na da Vênus cultuada em Pompéia. As individualidades dos encarnados de outrora faziam-se cobrir, a partir de um aspecto universal, por uma falsa ideia de unidade.
Bom. Eu era devoto de Júpiter, e era um senador romano que também era chamado à guerra. Em minha juventude, fui um pretor. Pertenci a uma das grandes famílias locais da cidade de Roma, e, portanto, era detentor de privilégios daquela classe patrícia. Como tal, estive presente a uma série de festividades, dentre elas a que se comemorava a ascensão do imperador Tibério. Estive sempre por dentro, embora, depois de certa idade, quando guardava carreira consolidada, muito me incomodava como falavam de honra aqui, honra acolá.
Disto nascia em mim um mal estar crescente. Conversei com minha esposa, Giulia, a este respeito. Ela disse:
“Se está sentindo mal, devemos procurar por alguém que saiba destas causas, marido.”
“Não, Giulia. Não posso”, e eu desabafei. “Angustia-me como tudo tem se dado. Assassinam-se políticos e o campesinato sem distinção. A barbaridade germana chegou a nós. Eis a causa de toda esta apreensão.”
“A mudança”, ela ponderou, “quando é enviada pelos deuses, não aterrissa pacificamente. Converse com Júpiter, ele o ouvirá. Disto tenho certeza. Não é dele devoto?”
“Os deuses são muito ocupados para ouvir os problemas dos mortais”, resmunguei uma resposta.
Giulia, tão doce e serena, aproximou-se de mim e, tomando minha mão na dela, disse:
“Permita-me convencê-lo do contrário, marido. Nossas preces são o alimento das divindades. E elas emanam de seu coração. Nenhuma divindade é distante o suficiente para se fazer surdo aos apelos de um homem desesperado. Não foi o grego Platão quem dizia que uma deidade está acima da capacidade humana de entendimento? É tão perfeita em si mesma que não poderia partilhar de nossas inferioridades. Confie em mim, em meu instinto de esposa. Ele o ouvirá.”
Como poderia, diante disto, ignorar seus apelos? Concordei em lhe dar ouvidos. Mas precisava de tempo ainda. Como era crepúsculo, tomei licença para banhar-me na casa do banho. Deslizei-me de minhas vestes e entrei na piscina aquecida, pondo-me a fechar os olhos. Acontece que adormeci e me vi fora do corpo. Espreitava-me, sentado em sua complacência, a figura divina de Júpiter. Era um homem alto de barba branca e olhos castanhos. Um halo pendia em torno de si a partir de sua cabeça, indicativo de ser celestial. Trajava, porém, roupas tipicamente romanas.
“Tua esposa foi sábia em te aconselhar a aproximar-te de mim. Venha, Gaius. Senta-te aqui.”
Estava confuso, mas não retruquei. Ao contrário, o obedeci. Tomando meu lugar ao seu lado, Júpiter virou-se a mim e disse:
“O que te incomoda tanto que vem pesando teu peito, meu filho?”
Irrompi-me, para minha surpresa, em lágrimas. Falei tudo o que pesava em meu peito. Minha discordância com as ordens do imperador, ou melhor dizendo, com a de seus subordinados que matavam inocentes e eram cruéis na tortura. Tudo aquilo me enojava e eu não conseguia me desvincular disto tudo. Reforcei em meus apelos que não compactuava com isso, mas não podia sair dali porque tinha uma tarefa para cumprir para com minha esposa e minhas filhas. Detinha uma ilustre reputação entre meus conrades, mas nada disso significava algo a mim. E, ao final falei, que Júpiter me perdoasse por tudo o que fiz.
Júpiter esperou que eu terminasse e quando assim o fiz, ele me lançou triste olhar. Assim, disse ele:
“Tendes um bom coração, meu filho. Pintam esta falange da qual sou mero representante como um ciumento, irascível e possessivo criador. Longe disto sou, jamais pedi que sacrificassem seus semelhantes a mim. Mas, permita-me que te console. Não se trata de mim nem de outras deidades a que te prestas culto. Trata-te de ti. Partas-te enquanto tens tempo, há pessoas e circunstâncias que não devem te ater mais. Sei que te achas em dificuldade, mas credes que eu o ajudarei. Tendes minha palavra. O processo é lento, mas é necessário para que te desenvolvas a paciência. Tu nascestes neste meio a teu próprio pedido porque em existência pretérita fostes tu um soldado, um guerreiro de Esparta que abusou da sorte e mandou à morte muitos dos prisioneiros atenienses que te agora cercam nesta existência. Sorte tens, todavia, que nenhum deles foi encaminhado ao poder de mesma fortuna que a tua, do contrário, terias te padecido de igual forma a César.”
Assustado, fitei-o, mas em minha alma soube que era tudo verdade. Observando meu assombro, Júpiter a isto continuou dizendo:
“Tendes aprimorado e cultivado o correto, transmitindo a tuas crianças os bons valores que, em verdade, foram trazidas pelo Nazareno. Não te alimentes a vaidade nem o orgulho, sobretudo através do entendimento supérfluo do que significa a honra.”
“Sou, pois, um desonrado”, falei.
“Não te coloques como um pobre coitado”, ele me repreendeu. “Não fostes criados para agir como um. Do pretérito fica o entendimento para o agir no presente a fim de alterar teu futuro. Recomendo que te partas para a Judéia, todavia, penso que serás redirecionado para a Gália.”
“E por que, senhor?”
“Te farias bem entrar em contato com o Nazareno. Mas penso que não sejas tua hora ainda. E não posso falar muito, deste diálogo te recordarás somente o essencial.”
Novamente coloquei-me de joelhos e pranteei.
“Perdoe-me, pai. Sou um errante. Perdoai meus erros, te rogo!”
Júpiter, que em outra vida me apareceu como Zeus, sorriu a mim e disse, levantando meu queixo para que pudesse encará-lo:
“Todos somos perdoados quando esclarecidos. Mantenha firmes teus princípios, meu filho, para que possas mudar a rota de tua vida. A História não te recordarás e haverá os que desdenharão de teu trabalho. Fazes bem em não cultivar tua reputação, pois esquece-se o homem que ela é mutável. O falso amor que dispõem uns para com os outros será pelo martelo de Vulcano dissolvido. É necessário que haja estes terremotos para que despertais os homens de suas cegueiras. Veio, pois, o Nazareno trazer a Boa Nova porque tua raça precisais dela. Tens se cultivado a vaidade acadêmica nos círculos do Senado e mesmo entre os sacerdotes. Conheceis a história de Cassandra?”
Lancei ao deus um olhar irrequieto e ele pôs-se a rir. Novamente, pousou uma mão sobre meu ombro e anunciou:
“Diz-se que o pior cego é aquele que não quer ver. E para o vaidoso, é o que faz corretas anunciações e é ignorado. Não serás em teu tempo em que cairão os poderosos, mas em tua próxima vida, vivenciará isto. Pois os que hoje desdenham, precisarão de ti. Em meio ao caos, surgirá a luz. Em meio à morte, a ressurreição.”
“Falas em mistério, mas sinto-me como Cassandra: acesso possuo às predições, contudo, nada delas entendo.”
Ele riu outra vez.
“Entendeste mais do que pensais. Agora me vou. E certo estejas de que, na discrição, ages com mais senso do que os que buscam a glória sob atento olhar do imperador.”
E assim, sendo o sonho se desfez.
* * *
Conforme me falou Júpiter, o Imperador me transferiu não para Judeia como sugeri, mas para a Gália. Isto se sucedeu por conta dos conflitos pequenos e internos que tive com a guarda pretorial da qual fiz parte. Nada politicamente signifcativo porque Tibério me conhecia o suficiente para não temer que fizesse qualquer ressurreição.
Passei pelo norte da África, antes disto, donde fixei residência no Egito. Foi uma estada muito breve, porém, e lá entrei em contato com outros tantos pretorianos. No verão do ano de 32, porém, dei prosseguimento à jornada com minha família para enfim tratar naquela região a que fiz referência anteriormente.
Como Júpiter me instruíra em sonho, tudo se realizou como havia falado. Lá para o fim da vida, percebi que foram as dificuldades por que passei, breves que eram, que me fizeram renascer em mim mesmo. Tolos são os que se deixam cegar pela politicagem da maioria, pois em sua ignorância são por ela dominados. É o que se viu em Roma, sobretudo do alto de seu poder em que reinava a corrupção. A honra era supérflua, de fato: desonrado era o soldado que questionava, que, como um robô, repetia e seguia as ordens. Muitos faziam isso por medo, entretanto, já que suas origens remontavam às mais diversas cidades dominadas pelos romanos. No entanto, o que não diz a História é que mesmo entre os escravizados, quando a glória os tomava de assalto, eram por ela alimentados e se esqueciam de suas origens. Estes eram os mais temidos homens com quem tive de lidar porque, em excesso, eram materialistas.
Lá para o fim da vida, porém, tais contendas não me incomodaram mais. A que custo não mantive a reputação de honrado: homem de palavra que era justo de igual maneira com os ricos e os pobres. Foi um legado que me esforcei por deixar aos meus descendentes, embora soubesse que talvez se perdesse no tempo. Não é fácil cultivar princípios que vão de contra às ideologias viventes. Os mais radicais vão te condenar e os mais moderados vão te desconfiar.
Viviam, pois, os romanos, em eterna imagem de esplendor e glória, numa ânsia de domínio que, dois séculos depois, o desmantelaria. De fato, outra predição de Júpiter se cumpriu: encarnei à época da queda do Império Romano, vi o saque de Roma pelos visigodos e sofri uma morte não muito agradável. Foi preciso outra encarnação para vir cristão na sua acepção mais sincera que o termo compreende. E nesta aqui, foi-se vivida na própria Judeia dos anos 600. Sim, seis séculos após o desencarne de Cristo, vivi por lá.
Em seguida, vim duas vezes como monges: um, dinamarquês, em torno do ano 1000, e o outro, francês, pelo ano de 1135. Vim índio maia no século seguinte, e, como grande missão a testar-me depois de tantas vivências em “pobreza”, fui testado como rei. Não posso, e nem tenho qualquer anseio, em dizer de qual reino ocupei alto cargo porque seria facilmente identificado e isso poria fim ao propósito que trato aqui. Que é para mostrar quantas vidas se vive e quantos tantos mais aprendizados passamos para, em nossa vez, legarmos aos que desejarem aprender. É por isto que o Alto me enviou aqui. Em outra oportunidade, quem sabe, direi como foi viver como pescador na Judeia. Esta daí, digo, foi muito mais interessante do que ter sobre a cabeça uma coroa e sobre a mão um cetro.
Eis aqui o servo do Senhor, e que faça-se de mim segundo a sua vontade!
Gaius Antoninus."
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