Nota do guia de Ogum: "Caros e caras leitores, concluímos hoje a segunda sessão do ciclo de contos medievais. Trago hoje comigo companheiro de longa data que se apresentará segundo o nome da encarnação que viveu nestes tempos e que compartilhará em seguida. Stephanos e eu já nos encontramos em vidas pretéritas, em particular ainda nas cruzadas. Como sabeis, "tragédia" aqui não deve ser interpretada à luz de seu significado literal, mas sob o entendimento da espiritualidade. Da mesma maneira como se foi dado em contos passados, este não será diferente e nos mostrará a vivência de um espírito que optou por provas que o regenerassem de erros pretéritos. Na próxima sessão, que provavelmente ocorrerá no mês que se segue, terminaremos estes contos com o ciclo de guerras, isto é, espíritos ainda marcados por existências belicosas que aceitaram participar desta missão conjunta que não se trata somente da médium que transmite com fidelidade suas mensagens, mas todos nós que caminhamos, com a graça e permissão divina, para um aprimoramento interno, moral e espiritual. Dito isto, como de costume, farei os comentários quando necessário. Agradecido por terem chegado aqui, rogo-vos meus melhores votos a vós. -George."
"A todos os que se dispõem a ler, eu vos saludo. Como já foi indicado acima por caro companheiro de vidas distantes, venho cá com a missão de auxiliá-los no que for possível a partir de memória de particular existência ainda na Terra no período histórico conhecido por vós como Idade Média. Meu nome é Stephanos Alexius e a memória da qual vim contar remete à queda de Constantinopla, a qual ocorreu no dia 29 de maio de 1453 depois de longos meses em cerco. Não pretendo me alongar muito porque, admito, não é com grandes alegrias que volto para estes tempos. As reencarnações posteriores, ocorridas outra vez na Grécia e, mais tarde, na Inglaterra e na Irlanda, me foram mais saudosistas se é que posso tratar desta maneira.
Mas, colocando as perspectivas de um espírito ainda em melhoramento de lado, vamos ao que nos interessa. Constantinopla, para os que desconhecem sua história, fazia parte de um império vasto que durou mais de 11 séculos. Este recebeu o nome de Bizantino, mas, na verdade, era reconhecido por ser o lado romano do Oriente. Tanto é que o grande imperador romano chamado Constantino deslocou a capital do império de Roma para Bizâncio e a renomeou segundo seu nome. A "cidade de Constantino" era extremamente bem localizada geograficamente por se situar entre os mares de Marmara e o Corno de Ouro, em ponto que "unia" tanto o continente europeu quanto o asiático. Não somente por isso, ela era rica em especiarias (eu, particularmente, como se verão depois, fui comerciante de cravo e canela), tecidos, artefatos, entre tantos outros. Isto permaneceu por bastante tempo e por ser cristã, atraía bastante os viajantes do ocidente.
Mas, pelo mesmo motivo, foi saqueada até por aqueles que se diziam obedecer a Cristo. Digo os cruzados que, no século XIII, ocuparam Constantinopla. Antes deles, porém, os turcos já estavam de olho nesta rica cidade, capital de império histórico e longevo, pois enquanto Roma caía em torno dos anos de 400, Bizâncio prevalecia. Justiniano I, um dos sucessores de Constantino, foi responsável pelas edificações de leis que ainda hoje, em seus dias modernos, existem. Zoe Porphyrogenita foi outra das mais conhecidas imperatrizes, embora fosse a única a ser coroada como tal, com todas as particularidades que lhe couberam em tais tempos. Fui seu contemporâneo, mas lamentavelmente não a conheci pessoalmente naquela existência.
Nomeei estes imperadores, muito conhecidos na história da Humanidade, para demonstrar quão grande, poderosa e relevante havia sido o império bizantino que abarcou territórios que iam desde o sul da Península Itálica até Jerusalém. Entretanto, desde as cruzadas, este império começou a se desmantelar. Sabemos que, sejamos cristão ou não, o que é construído pelo homem não dura pela eternidade. Seu amor, conforme nos ensinou Jesus, por outro lado, marca-nos a alma no infinito e além.
No entanto, esta não é uma história de amor. Se esperam romance, lamento desapontá-los. Nesta vivência cujo contexto eu os expliquei parágrafos acima, optei por "sofrer" só todos os desenrolares da vida a fim de me regenerar de pretérito culposo. Na vida anterior, fui islâmico, mas radical e hipócrita. Antes desta, fui cavaleiro soberbo da Ásia. Como podem perceber, tais vidas me levaram, diretamente ou não, à Constantinopla. Quando renasci nessa "cidade de Constantino", o império estava a se desmantelar para sempre.
Fui órfão adotado pelo Estado, por assim dizer. Criado entre os empregados do palácio do imperador, recebi o nome de Stephanos. Do que haviam me dito dos meus genitores, que jamais conheci porque faleceram de pestilência (embora em diferentes tempos e por diferentes causos: meu pai, meses antes, desencarnou por ter sofrido da peste bubônica; e minha mãe retornou ao plano espiritual depois de passar pelo que a medicina do século XXI chama de "febre puerperal" que, até a Idade Moderna, era o responsável pelo falecimento "precoce" de mulheres após o parto), soube que era greco-romano segundo as ascendências parentais. Meu pai vinha de respeitável família grega e ele mesmo era chamado de Dyonisus. Fora comerciante, mas nunca prospera realmente. Minha mãe, por sua vez, descendia de romanos. Costumava afirmar orgulhosamente que seus ancestrais vinham de Júlio César, e por tradição de sua casa, recebera o nome de Júlia. De nada serviu-lhe "gabar-se" de tais linhagens porque éramos uma família pobre. Ao menos eu nasci em condições bastante humildes. E fui resgatado pela piedade de um amigo da família, que era um dos criados da família imperial.
Como podem ver, minha infância não foi das mais fáceis. Este amigo da família, a quem chamarei de Césarus tinha ascendência romana (e deixo isso claro para demonstrar a pluralidade das famílias que viviam em Constantinopla) foi um pai para mim, mas sua família nunca realmente me aceitou porque, em sua ignorância, eu os atrapalhava a ascender mais alto. Nunca sofri nenhum maus tratos, mas, caro leitor, a rejeição, por silenciosa que seja, deixa marcas na alma do sujeito. Mas por ter sido doutrinado no plano espiritual antes de encarnar, esperava por isso. Talvez seja por este motivo que eu nunca me rebelei. Creio que os espíritos em expiação e/ou regeneração guardam na consciência "instinto" de resignação e resiliência. Por outro lado, é claro que isto não isenta as dores pelas quais passei.
Não vou me prolongar nestes primeiros doze anos (de 1430 a 1442) porque não houve quaisquer eventos significativos que acrescentem a esta narrativa. Devo dizer, porém, que fui educado segundo o cristão ortodoxo daqueles tempos, frequentava bastante a Hagia Sofia e estudava aritmética, filosofia e geografia com Césarus. Ele gostava de mim e queria arranjar-me cedo matrimônio com alguma moça rica, mas, diante dos protestos de sua esposa e dos filhos de seu sangue que me rejeitaram em seu seio desde tenra idade, o planejamento nunca se concretizou.
Mas um dia me cansei disso tudo, de agradar e não ser agradado. De dar amor a quem me oferecia ódio. Há momentos em nossas vidas, prezados leitores, que não devemos ficar onde nós não somos queridos. Para tudo há um limite, e não devemos suportar mais do que nossa condição permite a fim de martirizarmo-nos em nome do Senhor. O Pai deseja ver-nos felizes, ou o Inferno seria uma realidade concreta. Nem mesmo Jesus permanecia no mesmo lugar quando seus ensinamentos não surtiam o efeito desejado. Nossa insistência vai até certo ponto, porque precisamos também respeitar e compreender o livre arbítrio desses com quem nos interagimos.
Pois bem, como dizia, fugi de casa aos doze anos. Procurei algum senhor que precisava de serviços. Para alguém que ainda tinha o orgulho marcado na alma, aquela não foi uma situação fácil. Correr pelas ruas de paralelepípedos em vestes simples e, como minha pele era mais amorenada, esperar não ser mal interpretado. De fato, o racismo já existia. Os mais pobres e desfavorecidos eram mal vestidos pelos "do alto", por mais que em ambos se enxergasse a mesma cor de pele.
Por alguns meses, morei na rua. Fugi de mendigos, me desviei de ladrões. Não foi fácil depender da fé, mas, mesmo em situação difícil, arranjava tempo de dirigir minhas preces a Jesus Cristo, à Virgem Maria, aos santos da Igreja. Mirava em silenciosa contemplação as iconografias que pintavam as vidas de espíritos elevadíssimos. Quando ouvia, ainda que escondido, as "missas", pranteava todas as vezes em que o padre fazia suas homilias. Tocavam meu coração e minha alma, por isso não desistia de rezar.
Era Páscoa quando vi (sim, eu sabia ler) um sapateiro anunciar pelas ruas que precisava de ajudante. Prontamente me apresentei.
--Você é muito sujo--ele me acusou assim que pôs os olhos sobre mim--Não quero você, saia.
--Não tenho lugar para ir--protestei--Preciso deste emprego, por favor.
Este sapateiro me encarou, eu via em seus olhos a rejeição pronta, mas Deus se compadeceu de mim. Um guia espiritual tocou seu coração e a raiva se transformou em compaixão.
--Tudo bem, garoto. Como se chama?
--Stephanos Alexius, senhor--eu disse, desejando me mostrar obediente.
O sapateiro não se vestia tão bem quanto gostava de se pensar, embora certamente fosse mais limpo que eu. Até para a Idade Média, eu os digo, Constantinopla tinha bons padrões de banhos.
--É um nome muito grego para um garoto como você--disse ele--Meu nome é Patroklus. Venha, vamos nos limpar. Imagino que não tenha casa tampouco, eh?
Sorri diante da perspectiva que parecia se apresentar diante de mim: teria Senhor Jesus se sensibilizado comigo e respondido minhas preces? Ansioso para agradar, eu falei:
--Sim, mas prometo que se o senhor me ceder até mesmo um lugar no porão de sua casa, me comportarei como uma ovelha obedece seu pastor.
Patroklus era um homem franzino de cabelos negros e encaracolados, de nariz grande e feições não muito belas, embora seus olhos fossem atipicamente esverdeados, cedendo-lhe uma suavidade que inspirava simpatia dos outros. Ao me levar para sua casa, grudada em tantas outras, notei simplicidade nos móveis e quão apertado era para sequer ter um porão. Apesar disso, ele me disse:
--Não preciso de muito, rapaz. E não há por que se rebaixar a tanto. Temos um quarto sobrando. Minha esposa e eu casamos uma filha recentemente de modo que há um cômodo vazio.
A esposa, uma bondosa e rechonchuda senhora chamada Niceia, apareceu da cozinha no instante em que adentramos sua casa. Usava um véu branco a cobrir seus cabelos escuros e vestes longas e coloridas sobre o corpo. Em seus olhos castanhos, brilhava uma bondade que acalentou meu coração. Logo soube que havia sido recompensado.
--Niceia!--exclamou Patroklus--Venha cá! Olha só quem achei!
Como se tomada de familiaridade, Niceia me recebeu com os braços abertos e olhos quase lacrimejando de emoção. (Nota de Ogum: "Ela havia sido mãe dele em outra vida. Niceia era um espírito que não mais precisava reencarnar, mas pediu ao Senhor para acompanhar Stephanos naquela existência e ajudá-lo a livrar-se dos resquícios que o maculavam a alma ainda. Tal era o amor de mãe que, verdade seja dita, vinha desde muito tempo antes. Como sabemos, este amor é o que mais nos aproxima ao de nosso Pai).
--Menino querido!--e ela me beijou as duas bochechas, fazendo-me corar--O que estava fazendo na rua? Vamos, depois conte. Precisa se alimentar, mas antes disto, vá se lavar. Não, Patroklus, deixa que eu mesma o lave.
De olhos arregalados, mas profundamente tocado por aquele amor que me foi negado toda a vida, apenas a acompanhei, entre silencioso agrado e desconfiança. Mais tarde, já limpo, com outras vestes e apropriadamente alimentado, expliquei àquele casal o que se deu de mim. Niceia sorriu:
--Louvores daremos a Deus por tê-lo trazido a nós. Fico muito contente por isso, estava mesma me sentindo sozinha desde que Alexia se casou. Ela vive ao sul de Constantinopla agora, e tem sua própria família. Penso que a casamos bem, embora seu esposo seja judeu.
--Não há nada de errado com os judeus, mulher, eu mesmo venho de uma família de uns--ralhou Patroklus.
Niceia ruborizou, constrangida.
--É verdade. Peço perdão por ter esta visão tão... enraizada, mas é que ultimamente os padres têm pregado contra os judeus, e Deus fala por tais homens.
--Homens falíveis--e Patroklus se mostrava mais sábio do que eu imaginava--Como Deus, ser perfeito que é, falaria através de tais criaturas? Ele não falha, mas os que atuam em Seu bom nome cometem erros diariamente.
--Concordo--cedeu Niceia, contemplativa, sem resquícios de orgulho--Mas penso que seja para regenerá-los. Se todos são passíveis de cometer erro, igualmente podem acertar. Nosso Senhor sabe disso, e espera receber em Seus braços as ovelhas que, por descuido próprio, fugiram de Seu pastor. Mas, de todo modo, será agora nosso filho, se assim permitir, Stephanos.
Eu sorri em deleite.
--Obrigado--e, como se inspirado por energia divina, acrescentei espontaneamente--Que Deus os abençoe a todos.
Até os meus dezoito anos, não sofri grandes calamidades, embora não queira dizer que tenha sido fácil. Patroklus, por melhor educador que tenha sido, era exigente e isso provocava alguns conflitos que, pela graça intercessora de Niceia, apaziguava as reminiscentes tensões. De pouco em pouco, o negócio começava a frutificar: de sapateiros, viramos comerciantes. Afinal, um dos clientes tomou gosto pela forma como Patroklus vendia seu produto e, de repente, tornamo-nos seus empregados. Entramos em contato com os mais diversos produtos, dentre eles especiarias.
Cravo-de-noz, canela, açúcar mascado, etc, eram bastante procurados e vendidos. A perspectiva para a família era boa. Nada mais pensava nisso. Claro, ao longo da minha juventude, fiz amigos. Melhor dizendo, reencontrei-os. Alguns haviam melhorado, tanto moral e espiritualmente quanto fisicamente. Da classe dos guerreiros, fiz amizade com um dos subtenentes e generais. Até um parente distante do imperador eu também conheci. Da velha família que me rejeitou na infância, porém, não vi mais... até o meu vigésimo primeiro ano.
Em 1451, dois anos antes da queda de Constantinopla, minha família e eu havíamos enriquecido mais do que nossos planejamentos. Não éramos ricos no sentido estrito da palavra, mas pudemos nos mudar para a região mais abastada da cidade. A prosperidade exigia cuidado, uma vez que entendemos que nada era definitivo. Observamos a sorte de conhecidos mudar de uma hora para a outra, pois assim se fazia valer a vontade do Pai.
Bem, como dizia, estava a vender uma dessas especiarias ao centro da cidade, que era muito agitada como podem pensar. Estrangeiros de todos os lugares passavam por ali e nós, eu e Patroklus, a quem passei a chamar de pai, tínhamos nossa própria tenda. Admito que era exibicionista quanto a isso, pois em tamanho era maior do que a dos companheiros. Mas não fazia questão de tornar mais óbvio do que era, já que Niceia, quem eu logo chamei de mãe, me ensinou com firmeza nos ideais cristãos. É verdade que moralmente havia me melhorado, mas não o suficiente, até porque é um processo em continuidade.
E o verdadeiro teste veio nas pessoas que, desde o início, me rejeitaram de seu lar. (Nota de Ogum: "Foram inimigos de Stephanos, que ele provocou a morte na vida anterior e com muita dificuldade o haviam aceitado em seu seio somente para expulsá-lo dele. Sabemos, porém, que a lei do retorno jamais falha e pode ser inflexível com os que se recusam a aprender"). Mariah, esposa de Césarus, vinha ricamente vestida com três de suas belas filhas e dois rapazes que entendi serem seus filhos. À primeira vista, me pareceu que eram nobres, aristocratas, mas quando ela se dirigiu a mim, os cabelos castanhos escondidos sob o véu azul, vi de imediato que a aparência me enganara. Aqueles olhos olivas não me foram esquecidos da memória, e seu semblante, pouco envelhecido, não era fácil de se olvidar. Entretanto, pouco tempo tive para fazer o reconhecimento quando ela disse:
--É o senhor responsável pelas especiarias? Estão todos dizendo por cá que sua tende vende bastante produtos de tais espécies.
--De fato, senhora--eu falei, esforçando-me em ser gentil porquanto sua voz confirmou minhas suspeitas. Uma de suas filhas, tão bela quanto sua genitora, me fitava com divertimento. Mas não lhe dei atenção--Vendemos bem pela graça de Deus.
--Amém--disse ela, insincera--Desejo canela para o incenso.
--Incenso de canela?--disse eu, me esforçando para tratá-la como qualquer cliente--Já o vendemos pronto, madame.
--Oh!--exclamou Mariah, positivamente surpresa--Mas que maravilha é seu serviço. Gostaria de três, por gentileza.
E estava eu a me virar quando ela, gentilmente, me dirigiu novamente a palavra (parcialmente motivada pela filha que insistia-me em saber meu nome):
--Com licença, mas como poderia dirigir ao senhor?
Senti hesitação. Naquele dia, estava só. Patroklus havia ido ao norte da cidade para receber mercadoria vinda do porto, relegando a responsável das vendas a minha pessoa. Considerei inventar meu nome, sentindo uma ansiedade estranha bater em meu coração. Decidi confiar que a memória da mulher a trairia, portanto, optei em ser sincero:
--Stephanos, senhora--e entreguei-lhe o incenso desejado--Custam dez moedas de ouro.
O sorriso no rosto dela se esvaiu e os olhos se arregalaram. Ela se lembrara, mas seus filhos, não, pois um deles exclamou:
--Dez moedas de ouro por isso?!
--Eles vieram diretamente da Índia, senhor. A qualidade não permite ser vendida por baixos preços--e, não pude evitar, comentei--Certamente satisfará seus gostos.
O rapaz resmungou, mas concordou. Deu-me as dez moedas de ouro e se prontificou a ir embora, mas a mãe relutava e a filha estava a demonstrar em interesse quando notei que ela segurava seu pulso, impedindo-a de falar comigo.
--Stephanos?--disse Mariah, chocada--Seu nome é grego demais e pouco comum entre nós de cá. Conheci somente um e...
--Acho que a senhora deve ter se confundido--disse eu, recusando-me a ser rude. Ofereci-lhe um sorriso--Que Deus a abençoe, madame.
E, antes que ela pudesse responder, outro cliente apareceu. Para a minha sorte, aquele foi um dia cheio e que logo me distraiu daquele reencontro tenso. Mas com um canto de olho percebi o remorso transformar-se em raiva quando ela ralhou à filha que ela deveria prestar atenção em rapazes adequados. Não nego que ter ouvido aquilo feriu meu coração, ou melhor dizendo, meu ego. No entanto, minha consciência jazia tranquila: tratei-a bem como Jesus nos ensinou e sabia que deveria perdoá-la e sua família setenta vezes sete vezes. Não mais a reencontraria em vida.
* * *
1453.
Hora atrás de hora, dia atrás de dia, semana atrás de semana, mês atrás de mês. Em um ano tudo estava bem, próspero, tranquilo. Em um ano, conseguia me desprender dos negócios para seguir os conselhos de minha mãe adotiva, que insistia que eu deveria arranjar esposa. Em um ano, eu descobria a vida noturna, flertava, mas nada além disso... Porque naquele ano, tudo iria por água baixo.
Patroklus já sabia o que estava acontecendo, mas decidiu manter a todos nós na ignorância. A ameaça dos turcos não era velha, ao contrário, era de conhecimento geral que eles planejavam tomar nossa capital e destruir nosso império. Cego pela juventude, não me atentei para os problemas que chegavam. Não percebi que a inflação que começava a dificultar nossas vendas foi por conta das tomadas das rotas que, um dia, haviam nos favorecido o comércio. Ou que os guardas dia e noite reconstruíam muralhas que, no passado, eram inexpugnáveis. Tudo ficou caro, mas a vida continuava. Muitos de nós, povo comum, acreditava que isso passaria.
Certamente, a Cristandade nos ajudaria. Os cavaleiros do Papa não existiam mais, mas sua Santidade falaria com nosso Patriarca, enviaria ajuda necessária. Não se tratava de um inimigo qualquer, mas de um em comum: os muçulmanos. Quando demos por nós mesmos, ele estava à nossa porta. E o cerco havia começado.
* * *
Não me lembro com precisão a que ponto deixei de ser um mero comerciante risonho para aspirante a soldado, temente à vida. A que ponto a guarda imperial precisou de civis para impedir que os inimigos tomassem-nos. Mas, então, veio o silêncio... E a desesperança chegou.
Lembro de minha mãe rezar em tranquilidade de três em três horas, do pai ficar nervoso, da minha inquietação. Até ele falar:
--Por cargas d'água, malditam sejam! Não seremos salvos se não fugirmos disso tudo!
--Como vamos fugir? Estamos sendo sitiados!--falei, frustrado.
--E acha que eu não sei! Deveria ter aproveitado oportunidade de antes--rosnou em resposta--Malditos sejam, se eles tomarem nossa cidade não seremos mais cristãos.
O cenário era caótico. Perdíamos batalhas navais, a ajuda cristã não chegava... A maioria dos desfavorecidos acreditava no abandono de Deus.
--A morte não deve ser temida--disse-nos a mãe, depois de findar suas preces--É a alternativa que melhor devemos abraçar para chegarmos aos braços do Pai. Para que prolongar sofrimento?
--Valha-me Deus, mulher! Eu não quero morrer!--esbravejou-se o homem--Não, não. Ninguém vai morrer por esses mamelucos. Ninguém aqui virará islâmico.
E, sem esperar resposta, atravessou a porta. Mandou-me, porém, que ficasse com a mãe. Virei-me para ela, pois, e disse:
--Que será de nós? Sinto-me inútil. Por que isso está acontecendo?
Com serenidade, ela acariciou meu rosto e falou:
--Não deve se sentir inútil, pois que Deus guarda ocupações para todos nós desempenharmos em vida. Você fez o que pôde mediante as circunstâncias que foram criadas pelos homens. O que somos nós na guerra dos imperadores, de reis, dos bispos? A História não guardará nossos nomes, não saberá do que passamos, não recordará nossas alegrias e tristezas. Mas Deus tudo vê, tudo sabe, tudo guarda. Ele se lembrará e estenderá sua mão para nos ajudar mediante a misericórdia com a qual vem nos tratando. Não deve temer o porvir, meu filho. Antes deve lamentar os descuidos dos homens que, esquecendo-se de Deus, guerreiam contra seu semelhante em Seu nome.
Suspirei, mas entendi sua mensagem. Como para amenizar a tensão, falei:
--O pai discordaria de você.
Ela riu, e eu senti meu coração diminuir o peso que, há quase três meses, vinha me incomodando incessantemente.
--Seu pai é bravo porque os tempos exigem que o seja. Mas ele tem bom coração, e veja só, trouxe você a nós.
Aquilo me emocionou e, por um instante de fraqueza, permiti-me chorar. Ela me envolveu em seus braços e disse:
--Tudo dará certo.
E eu confiei em suas palavras.
* * *
Havia aceitado que a morte era certa, não haveria escapatória e até mesmo ansiava por ela. Defenderia-me com o que quer que estivesse em minhas mãos. Tínhamos velhas espadas, corroídas pelo tempo, mas gostava de pensar que serviriam para causar mais dor ao inimigo. O desespero, apesar de tudo, permanecia. As preces atenuavam, mas a realidade inspirava medo. Não era como minha bondosa mãe, que não enxergava as circunstâncias segundo a carne, mas o espírito. Deste modo, ela não se amedrontava. Aceitava com paciência e recomendava que nós e os vizinhos, em rara oportunidade de encontro, fizéssemos o mesmo.
Mas, na madrugada para o dia 29 de maio de 1453, minha vida daria outra virada. Não minto nem iludo a vocês, leitores, nos detalhes que direi a seguir. Era quase uma hora da manhã, por suposto, quando o pai chegou à casa. Havíamos, eu e a mãe, pensado no pior. Mas antes que o recebêssemos com alívio, ele de imediato falou:
--Peguem suas coisas essenciais, nós vamos partir.
Minha mãe arregalou os olhos, mas eu disse:
--Como assim, pai? Estamos sendo sitiados.
--Isso eu sei--ele retrucou, impaciente--Mas consegui um jeito de sairmos daqui. Andem logo, não temos tempo a perder. O ataque dará início hoje mesmo, quando todos estiverem adormecidos.
Não esperamos por mais explicações. Pegamos somente o necessário, vestimos capas e, no calar da noite, deixamos tudo para trás. Rezei, a todo caminho, por proteção, mas também para que Deus abençoasse aqueles que ficassem e desconhecessem o destino. Estava tudo escuro, mas seguimos por caminhos que, mesmo à luz do dia, desconhecia o trajeto. Notei que um barco discreto nos esperava. Era de pesca. Não havia tempo para perguntas ou identificações. Corremos o quanto pudemos, renovando, a todo instante, as preces.
Entramos, e mal nos havíamos recolhido sob toda uma capa que o pescador havia jogado para cima de nós... O sinal foi ouvido. Já não sabia mais aonde estava, o medo era terrível e me amedrontava tanto que quase fê-me tremer o corpo. Não via nada, não queria sequer respirar. Temia sermos descobertos, já que o barulho que aumentava a todo instante parecia estar perto de onde estávamos. Senti em meus pais a tensão que também fez de meu corpo rígido. Estávamos em posições desconfortáveis. Um nó amargurava minha garganta, e tudo o que queria era sair dali.
Esse nó se dissolveu em lágrimas silenciosas quando os gritos transformaram-se em berros. Foi quando senti o barco movimentar-se. Gritos de angústia quebravam o silêncio, mas não ousava virar e ver de onde vinham. O desespero por si só era de cortar o coração. Ouvi barulhos de cascos, imaginei que estávamos ao mar. Mas o som continuava mesmo quando saíamos dali. Demorou tempo o suficiente para nos afastarmos de Constantinopla, embora nada apagaria o horror de ter ouvido meus compatriotas desfalecerem no jugo dos turcos.
Quando o silêncio eventualmente prevaleceu, meu pai foi quem disse:
--Este barco nos levará à Athenas. Tenho tudo preparado para ficarmos por lá. Se perguntarem, dizem somente que viemos de Lesbos para fixar residência na capital.
Ninguém mais falou nada, mas minha consciência pesava. Eu sobrevivia de novo contra todas as chances, mas sentia que deveria ter morrido junto com meus companheiros. Como se lesse meus pensamentos, minha mãe falou:
--Deus ouviu nossas preces e nos salvou para que pudéssemos exercer Sua vontade longe de qualquer perigo. Devemos dar a Ele graças por esta proteção.
--Não sou merecedor dela--eu me ouvi dizer, as lágrimas queimando meus olhos--Não deveria ter sido salvo.
--Cale-se, garoto--resmungou o pai em voz baixa--Gostaria que o deixasse ser saqueado pelos turcos, morto e, sabe-se lá mais o que, por eles?
--Deixei amigos, pai. Deixamos uma vida lá--foi tudo o que consegui dizer.
--Morreria por quem não faria o mesmo por você?--e, sem receber minha resposta, disse, mais calmamente--Devemos morrer por Cristo. Mas Ele não quis que assim se sucedesse. Agradeça-o em vez de se fazer de vítima. Você é melhor que isso.
Embora as palavras possam soar duras, eram verdadeiras em seu ensinamento. Em retrospecto, vejo que nunca pertenci inteiramente a Constantinopla. E não deveria ser ingrato por Deus, através de Seu filho, ter se compadecido de mim e de minha família. Eram provações duras, caros leitores, as que eu passava. Teste de fé, paciência, resignação e resiliência. Teste de humildade, lealdade e de amor. Amor pelos pais que me adotaram. E o desapego de tudo o que eu havia um dia possuído. Expatriado, exilado, pobre novamente. Mas, eu percebi, tinha comigo a fé em Pai, e que Ele retornava essa fé em mim ao me permitir viver. Carregava comigo meus pais que, para além da adoção, me ensinaram tudo o que eu sei. Desistir não era opção. E eu viveria pelos amigos que os turcos me tiraram.
De fato, concluí que eu possuía muito mais do que pensava. O amor e a fé bastavam. E foram estes pilares que me modificaram, afinal.
* * *
Em verdade, fomos parar na Ilha de Creta, onde lá optamos por ficar. Vivemos sem a prosperidade de outrora, mas isso não mais nos importou. Continuamos nossos trabalhos de maneira mais humilde, trabalhando em conjunto com a Igreja Ortodoxa daquela região. O pai, no ano seguinte, regressou ao plano espiritual em paz. Em seus últimos dias, havia percebido isso. Ele nos disse:
--Vê-los vivos e bem foi o presente maior que o Criador me concedeu. Sou grato por isso. Filho, gostaria que se casasse e desse continuidade à esta família, mas Deus sabe o que faz.
Naquele ano de 1454, recebemos também a volta da filha biológica do casal, minha "irmã", Alexia. Ela também sobreviveu à queda de Constantinopla, conseguindo fugir com os filhos pequenos. Mas o marido ficou para trás, falecendo na tomada da cidade que surpreendeu a todos. Nós nos demos muito bem e nossa mãe renovou suas energias que, por pouco tempo, perdeu quando o pai se fora.
Mas logo ela também cumpriu sua missão. Alexia e eu, junto às crianças, optamos por deixar o conforto de Creta e fomos à Athenas. No entanto, foi ali que o cansaço bateu forte meu espírito. A tuberculose me enfraqueceu em meio ás dificuldades econômicas pelas quais passamos, mas não desisti até vê-la casada novamente com um bom homem. Apesar de todas as misérias, aprendi a ser forte através delas. Fui grato, mas também, de certa maneira, infeliz. Não nego que morri saudosista dos alegres dias de Constantinopla, de vender as especiarias, de frequentar as "missas" dentro da Hagia Sofia.
E, no entanto, fui um sobrevivente. Aprendi o desapego a todo custo, a confiar na fé, a ser humilde diante de tudo e entregar minha vida ao Pai. Penso que isso tudo está presente nesta narrativa que, à princípio, pode parecer absurda. Eu mesmo, nos últimos dias, ainda estava perplexo por ter escapado ao domínio do Império Otomano. Tudo foi para meu ensinamento. Na existência seguinte, como já mencionei no início deste relato, voltei à Athenas para completar essa aprendizagem. Instruí-me muito mais nos trabalhos filosóficos de Platão, Aristóteles e tantos outros pensadores destes tempos. Foi uma curta missão para que a outra, na Inglaterra renascentista elisabetana, pudesse concluí-la adequadamente.
No entanto, foi na Irlanda e no seu processo de independência que eu, de fato, pude me desprender destes últimos vícios que tantas marcas deixaram em meu períspirito. Hoje em dia, trabalho do plano espiritual, a partir de colônia situada sobre o norte do Brasil.
No mais, concluo aqui com meus agradecimentos ao Pai Maior por esta bela oportunidade de auxiliar os que precisam através da escrita. Agradeço ao guia de Ogum desta médium paciente e de belo coração pelo líndissimo trabalho que vêm feito juntos. É um honra ter podido participar e contribuir de alguma forma. Que Deus os abençoe a todos nós, iluminando nossos caminhos!- Stephanos."
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