Nota do guia de Ogum: "Caros e caras, seguimos com os contos medievais. De antemão aviso que este será um conto mais curto do que o anterior pelo motivo de que o espírito em questão ainda se encontra em recuperação na colônia de 'Nosso Lar' antes de ser transferido para outra que não posso ainda revelar o nome. Isto se explica por ter sido resgatado das zonas umbralinas de encarnação mais recente. Em conversa com nossos superiores, ficou acordado que a mensagem aqui a ser transmitida trata do maior evento daquela existência como verás a seguir. O importante disto tudo é, como deveis saber, o conteúdo e não a forma. Ressalto a atenção para este detalhe porque, conquanto títulos são dirigidos por vós a outros na Terra, os mesmos pouco importam, quando nada trazem, para o plano espiritual. Consequentemente, a História nunca é bilateral, principalmente daquela escrita pelos encarnados da Terra. Quando necessário, aparecei novamente. Desde já grato, George."
"O nome que me foi dado naquela existência foi Louis Philippe e penso que, apesar de ter reencarnado mais duas vezes, seja importante manter-me atrelado a esta designação. Penso que para o aprendizado de vós, seja relevante apresentar um contexto de minha vida espiritual e terrena. Sou espírito que, desde que me foi relevado de passados vividos, possuía fortes tendências belicosas. Na Antiguidade, estive nas mais diversas guerras que podeis imaginar. Chipre, Roma, Jerusalém, Israel e outros lugares da Península Itálica como da Germânica... foram locais que deixei minha presença. Nem sempre o bem foi cultivado. Em Chipre e Roma, por exemplo, abusei do poderio que me foi legado. Em Israel, porém, conheci a pobreza. Não obstante, cometi o crime do furto e do assassínio. A vida dá seus retornos e foi preciso que me limpasse de tais pecados até o grande destino que me aguardava no período que se convencionou chamar de Idade Média. Confesso, ainda, que para esta comunicação em particular senti dificuldade na comunicação porque a língua francesa e também inglesa ainda me confundem. São resquícios de vidas mais recentes. Depois de meu desencarne na fogueira em 1308, voltei à França outra vez mais para cumprir resgate com o homem que me condenou. Foi na época das Guerras Religiosas. Mais recentemente, vivi na Inglaterra da época de Napoleão. Lutei contra ele, isto não deve surpreender-vos. Mas guardei rancor e apego, por isso demorei a entender o que se passava. Fui resgatado somente no início dos anos 2000, na virada deste milênio e desde então tenho me esforçado para me curar destes resquícios que ainda me marcam.
Mas, enfim. Daremos início a este trabalho. Na França de Philippe IV, outrora reconhecido como "O Belo" mais pelas suas feições físicas do que espirituais, brigavam entre si a política religiosa e a dos homens. O materialismo era muito mais forte do que vejo ser nos dias de vossa contemporaneidade. Nasci no final do século XII, em 1290. Portanto não tinha mais de dezoito verões quando desencarnei em 1308.
Vim de uma família pobre que buscava se refugiar dessa politicagem do rei que, sem quaisquer escrúpulos, somente conhecia o amor carnal e frívolo de seu casamento com a rainha de Navarra. Embora houvesse genuína afeição entre ambos, o amor que ali existia não transformou o pobre rei. Digo pobre porque, embora possuísse vastas terras e riquezas, vivia em débito com terceiros e usava de sua autoridade régia para cometer crimes terríveis contra inocentes. Ai daquele que estivesse na mira da raiva de tal homem! Philippe de Capét era cruel e frio, não havia qualquer sentimentalismo na face daquela criatura. Governava com mãos de ferro e mesmo seu inimigo conterrâneo das ilhas britânicas o respeitava, quando não o temia.
Em nome de nosso Pai, o Criador, e de nosso irmão, mestre Jesus, o rei Philippe, quarto de seu nome, não se limitou a incentivar, quando não renovar, as cruzadas contra os sarracenos, mas também promoveu uma caçada contra aqueles que deveriam ter sua proteção e sua aliança: seus súditos. Embora os nobres cavalheiros Templares respondessem exclusivamente à autoridade do Papa, restringindo, desta maneira, o poder secular do rei, isso não os isentava de agirem como "franceses". A identidade pode parecer complexa e em constante oposição: teoricamente, os templários eram "sem terra": ocupavam territórios, mas a única autoridade que deveriam obedecer era a do Senhor Patriarca, o bispo de Roma.
Em meio às constantes tensões políticas entre a Igreja e a Coroa, já que a primeira detinha sob si vastos territórios e ordens militares, ou militias, a seu favor, e a segunda precisava centralizar todo o poder para si, a popularidade dos templários vinha decaindo bastante e o próprio rei começava a perseguir os que detinham propriedades ao sul da França. Ou perigosamente perto de Navarra, reino de sua consorte, e que, portanto, lhe daria a desculpa de que precisava para impulsionar ação contra tais cavalheiros.
A Ordem dos Cavalheiros do Templo de Salomão nasceu em Jerusalém ainda no século XII, no auge das cruzadas dos cristãos contra os sarracenos, ou os chamados infiéis por serem muçulmanos, e tinha como principal função não somente lutar contra tais inimigos da verdadeira fé, mas lutar em nome de Cristo, viver em prol do voto de pobreza feito, cultuar o Pai e honrá-Lo diariamente. É verdade que através dos séculos, a ordem templária foi corrompida pelo acúmulo de riqueza e de terras, mas isto somente se deu por uma minoria que não soube fazer o bem com o poder que recaiu em suas mãos. A reputação da ordem, por conseguinte, foi manchada. No entanto, permaneceu ainda em alta estima pelos papas, mesmo depois de sua queda.
Eu era o terceiro filho de uma vasta família. Meu pai, camponês paupérrimo, entrou em desespero diante do nascimento de mais uma criança. Minha mãe morreu após me dar à luz, já que as condições de parto, aliadas à pobreza higiênica, eram terríveis para a mulher. Com isso, era o mais novo menino na casa. Tinha dois irmãos mais velhos, a quem chamarei de Charles e Louis, e três irmãs, Janette, Christine e Marie. Fiquei, a princípio, sem nome porque o senhor meu pai esperava que eu partisse logo. Afinal, era de comum conhecimento que as crianças não sobreviviam à infância. Em 1290, a França havia recentemente se livrado de outro ataque de peste negra. Mas enquanto eu me mostrava robusto, meu irmão Louis desencarnava com somente cinco anos. Disto se deu que eu recebi seu nome e Philippe em honra ao forte rei cristão que meu pai admirava.
No entanto, o que fazer com tantas bocas a alimentar? Era com o filho mais velho que o senhor pai se preocupava, pois ele herdaria sua ocupação na lavoura. Um dia, ele desabafava com o padre local quando ele sugeriu que eu enviasse dois de seus filhos à Igreja. Uma moça e um rapaz, dissera-lhe o padre, e para os outros, ajudaria arranjar matrimônios apropriadamente cristãos. Meu pai concordou de imediato e, antes do meu quarto ano de vida, estava entregue à Igreja Católica. Mas meu destino não era voltado para as letras, e sim para a guerra.
Cresci em um ambiente pacífico e gostava muitíssimo de ouvir as histórias do homem que seria celebrado séculos mais tarde, o grão mestre Jacques de Molay. À época, ele já era um grande cavaleiro e quem eu procurei emular em meu comportamento e ideais. Lembro que quando demonstrei interesse pela espada, o padre que me supervisionava, Augustine, exclamou:
--Ora, ora! Temos um talento entre nós!
E alegremente correu à procura de um contato da Igreja que tinha laços estreitos com os Templários. Seu nome era Johann, e ele já era velho quando me foi apresentado. Sua cabeça era tonsurada e suas vestes marrons indicavam que era um monge franciscano. Andava descalços e recusava qualquer bem material, embora dependesse de terceiros para se alimentar (e sobreviver).
--Esse aqui é o rapaz que me contou?
--Sim--disse o padre Augustine, depois de ter me chamado.
Eu era um jovenzinho de oito anos. Meus cabelos eram pretos e cheios de piolho, mas sempre fugia dos padres da abadia que desejavam raspar meu cabelo. Também não gostava de tomar banho, era um rapaz um pouco rebelde, admito. A falta de disciplina, todavia, seria ajeitada depois que entrasse na ordem.
--Ele é muito agitado--prontificou-se a reclamar Augustine--e vivia nos dando trabalho até o dia em que o Senhor me falou em sonho para lhe dar uma espada.
--O Senhor lhe falou em sonho, Augustine?--admirou-se o monge Johann.
--De fato, monge!--exclamou o outro, alegre--Ele me disse que a espada é importante e nos ajudará a enfrentar tempos difíceis--ele fez um sinal da cruz, copiado pelo outro--E precisamos de um defensor. Bem, decidi o teste e o rapazinho aqui não somente concordou como adorou! Quando lhe contamos de Daniel, demonstrou particular interesse.
(Nota de Ogum: "A história a que ele se refere aqui é a de um dos mártires da Igreja Católica, Daniel, que foi levado à cova dos leões e "sobreviveu" ao ataque de tais criaturas. Daniel viveu no contexto do Império Romano e, como o espírito aqui já explicou, também ele viveu nessa época como um pretor do imperador. Não à toa, guardou em sua alma instinto de lembrança e por isso a identificação inconsciente como ele retrata. Não me cabe me aprofundar em tais questões, mas digo que, embora nada pudesse ter feito para condenar Daniel, tampouco fez algo para ajudá-lo. E por ter testemunhado tal cena, sentiu-se culpado. Para os leitores interessados nessas circunstâncias, Emmanuel ditou suas memórias para Chico Xavier em uma série de "romances" que mostram essas conjunturas com precisão. "50 anos depois" e "Há dois mil anos", além de "Paulo e Estevão", entre outros, retratam esse momento histório vivido por Louis-Philippe em existência anterior.")
--Desde então--prosseguiu o padre--vim contando a ele histórias dos nossos mártires e defensores da Igreja que o aproximaram mais de nós. Ainda que continue indisciplinado, demonstrou bastante melhora em todo o resto.
--É verdade!--exclamei, ansioso por agradar. O olhar daquele monge me deixava intranquilo, ao contrário dos padres com quem convivia, com quem meu jeito traquinoso despertava sorrisos--Sou capaz e posso prová-lo disso.
Foi quando os lábios do monge tremeram em sorriso e ele disse:
--Ora, mas este mocinho é bem ousado e atrevido. Por que deseja tanto me mostrar que é capaz de segurar uma espada se eu não formei meu julgamento sobre você ainda, rapaz?
--Porque eu quero ser como Daniel e todos os outros--falei com firmeza e confiança--Quero lutar e morrer por Cristo.
O monge arqueou as sobrancelhas e trocou olhares com o padre, que sorriu, um pouco presunçoso. Mas eu falava com a verdade inspirada em meu coração e continuei:
--Senhor, o Cristo morreu por nós, e é somente justo que morramos por Ele. Não me interessa ler nem pregar, é verdade, me falta oratória para isso--eu sorri porque descobri que podia usar palavras "difíceis"--Mas quero defender os que mais de nós precisam, senhor. Quero defender os pobres dos ricos, buscar o santo graal!
--Ah, então conhece o santo graal, não é mesmo?
--Sim, senhor. O rei Arthur era muito cristão e um dia sonhou com Deus, que o exortou a despir-se dos pecados de outrora ao procurar pelo santo graal. E ele juntou seus doze cavaleiros a fim de partir para cumprir com essa missão.
Com os olhos no padre, o monge Johann falou:
--É mesmo? Eu nem conhecia essa história.
--Mas é verdade!
--De fato--o padre Augustine interferiu, divertido--o rei Arthur era bastante cristão. Quer outro exemplo, monge?
--Não, não--e o sorriso dele se apagou--Mas vivemos tempos difíceis. Não sei se seria o correto aceitá-lo e...
--Por favor, senhor monge!--eu implorei, interrompendo-o e sentindo um terror afundar meu estômago diante de uma possível negativa--Eu farei tudo o que me pedir, não me importam os outros. Quero servir a Cristo dessa maneira! Por favor!
O monge suspirou, trocou um último olhar com o padre e, enfim, falou:
--Muito bem, pegue sua espada. Quero vê-lo do que é capaz.
* * *
Eu o conheci quando abandonava a juventude e me preparava para a idade adulta, embora essa não duraria muito. Quando contava dezesseis anos, fui apresentado ao grão-mestre, Jacques de Maloy. Era um homem sereno, simpático e fiel a sua consciência em Cristo.
--Ouvi falar do senhor--disse-me ele, fazendo-me ruborizar de felicidade--Sua honra é admirável. E é verdade que tem visões?
Era perigoso falar em alto e bom som que se tinha visões. Mesmo para os homens, isso valeria como uma acusação de bruxaria. E eu já vinha testemunhando a queda gradual da ordem que eu me identificava. Apesar da jovem idade, pude praticar todo o ideal da cavalaria, cujo auge atingiria no final daquele século. Mas o monge Johann seguia como meu conselheiro, tarefa que ele dividia com dois outros homens que se tornaram amigos, para além de irmãos de armas, Geoffrey de Charney e Guy d'Aquitaine. E somente eles tinham conhecimento disso porque também eles viam de vez em quando figuras etéreas.
--Sim, senhor--eu admiti envergonhado--Mas só de vez em quando, senhor. Desejo fazer-me útil em tudo o que posso, isso é mais importante.
Jacques sorriu.
--E as visões, como presentes do Pai, também são úteis. Não devemos negá-los, jovem Louis. A caridade está no compartilhamento também, pois elas podem ajudar o próximo, não concorda?
--Sim, senhor. Eu só não sei muito bem o que fazer...
--Todos nós um dia fomos inexperientes--ele riu, e colocou a mão sobre meu ombro--Mas me conte destas visões.
--Às vezes vejo anjos e santos--eu falei quase em sussurro--São eles quem me indicam os caminhos, de onde devo ir e o que me é esperado fazer.
(Nota do guia de Ogum: "Se acaso isto vos lembrar da história de Joana d'Arc, não vos acanheis por fazer esta associação. A mediunidade não é recente na História da Humanidade da Terra, embora somente sua decodificação, feita através de excelso homem, Allan Kardec, assim o seja. Mas na Idade Média ela existia e se manifestava singularmente. Sua explicação variava segundo as interpretações dos homens, mas para os que estavam presos à esfera da brutalidade e da ignorância, isso era quase uma acusação de bruxaria. Por isso a maioria não compreendia os sinais "divinos". No caso do espírito Louis-Philippe, pelo próprio histórico na Terra, contava como "karma", ou melhor dizendo dharma tendo em vista o ensinamento da 'Verdade' a que se propôs aprender no tempo que serviu à Igreja, essa mediunidade. Deus foi misericordioso ao permitir que ele fosse recebido no círculo de espíritos louváveis e mais adiantados moral e espiritualmente para que aprendesse, ainda que dentro do conhecimento segundo a sociedade da época, sobre isso. Conhecimento adquirido que, mais recentemente, tem-se dado frutos bastante louváveis, se posso dizer").
--E já agradeceu ao Senhor por essa oportunidade incrível? Afinal, também Jesus, nosso irmão e filho do Pai, via nosso Criador. Anjos os cercavam. E quando Ele curou o cego que o buscava, passou a ver também suas companhias aladas--contou-me o grão-mestre--Fico feliz de ouvi-lo, Louis-Philippe. Principalmente sabendo que vem moldando sua conduta para o bem.
--Uma vez falei ao velho Augustine e também para Johann que eu morreria por Cristo como Ele morreu por nós--e me passou despercebido à ocasião o arrepio que passou por ele, já que eu antevia a minha morte e não percebia isso, mas ele sim--É somente justo que a honra me leve a Ele.
--Ainda assim, é jovem. Não seja imprudente--ele me aconselhou--Muitas das vezes vivemos em razão da fé, mas, não sei se conheceu Thomas de Aquino, e eu o conheci. Ele dizia que a razão coabita com a fé. A fé vive pela razão. Sê paciente e verá que a vida criada pelo nosso Senhor está para além dos murais da Igreja. Do contrário, somos cegos guiando cegos e o resultado disso não é positivo. Como vivemos, porém, em tempos tais quais a fé camufla o pensamento livre e racional, aconselho-o a discrição. Não conte a outros o que me contou. E não seja tolo a ponto de se autosacrificar. Espero eu que não tenhamos de nos submeter a este tipo de coisa.
Foi uma breve conversa que não se prolongou por ele ter sido requisitado a outras tarefas. Quando me voltei a Guy, contei a ele disso e ouvi sua resposta:
--Como é sábio nosso grão-mestre. Sem dúvida, ele fala com bastante autoridade no assunto. Não vê como temos sido perseguidos por um rei que, em tese, deveria nos apoiar e trabalhar em conjunto contra os infieis? Que tipo de cristão persegue outro cristão e afirma ser ele o escolhido de Deus? Todos somos escolhidos de nosso Criador, Louis, apenas ocupamos cargos que Ele designa.
--Não contarei a ninguém das visões, portanto.
Guy sorriu, mas havia tristeza em seus olhos azuis escuros.
--Não, menino, não faça. São tempos escuros esse em que vivemos.
--Sombrios, de fato--concordei--Mas por que ele faz isso?--perguntei, percebendo que já falávamos do rei e de sua política ambígua com relação a nós.
Na França do primeiro decênio do século XIV, os templários precisavam ser discretos. Se um dia muito me alegrou usar a cruz vermelha estampada em meu peito, me amedrontava ser visto com ela. Um a um seus membros eram julgados primeiro por um falso tribunal religioso, para em seguida ser posto pelas mãos dos homens. O rei já havia deixado claro que não gostava de que os templários, pecaminosos e problemáticos segundo suas próprias palavras, e, como ele ressaltou, por motivos tais foram responsáveis pela expulsão de Jerusalém e a queda de Acre, não eram franceses, embora nascidos na França. Não eram cristãos, embora defendessem a cruz de Cristo. Eram nada além de corruptos e sodomitas. A lista de ofensas era grande, e cada vez mais o papa se via pressionado a nos excomungar.
--Alguns lhe diriam que foi inspirado pelo diabo--respondeu Guy, dando de ombros--Mas penso que não. Tomás de Aquino havia dito que cego guiar outro cego pela escusa da fé era como cair em um precipício de escuridão. Ele adaptou essa parábola de Cristo para indicar que a fé deve ser motivada e incentivada pela razão. Do contrário, que somos nós? Nada além de criaturas repetitivas e sem alma. Mas somos capazes de tomar decisões, por certo. O ponto é: há loucos usando o nome de Cristo em vão. Percebe o que digo?
--Extremistas--foi o que consegui murmurar.
--E, no fundo, tudo isso se leva às questões de riqueza. A honra, meu caro, por ela foi corrompida. E o pobre Cristo é usado como pano de fundo para tudo isto.
--Os hipócritas merecem o inferno--eu resmunguei.
Guy riu.
--O inferno está entre nós. Mas vamos lá, meu jovem, não sejamos pessimistas. Temos uma missão para seguir para lá da Hispânia ou, como dizem, Andaluzia. Os mouros avançam perigosamente sobre Granada.
--Achava que eles já ocupavam este território.
--É, e você não está errado. Mas Granada é um ponto perigoso que liga aquela região aos mouros do norte africano. Devemos impedir isso. O rei de Castela e Leão nos convocou.
Prontamente me animei diante disto. Fui designado para minha primeira missão fora da França! No entanto, a animação não duraria muito porque, naquele instante, fomos interrompidos por um dos nossos. Seu semblante era sério e havia gravidade em sua voz quando falou:
--Precisamos partir, imediatamente.
--Como assim?--exclamou Guy, surpreso--O que está acontecendo?
--Homens leais ao rei foram vistos próximos do terreno. Estão vindo em grande número.
Olhei de um para o outro, o coração acelerado.
--Mas por que?!--exclamei, ingênuo.
O portador das más notícias me encarou e falou:
--O rei nutra profundo ódio por nossa ordem porque o grão mestre se recusou a aceitá-lo. Na realidade, tal sentimento data antes disto, quando acumulou débitos para com a ordem e nem mesmo o papa ajudou seu lado. Está descontando sua raiva em nós, e já queimou um dos nossos bispos como retaliação.
--Vamos enfrentá-los--eu disse, soando mais infantil do que pretendia--Daniel também enfrentou os leões...
--E morreu--interrompeu-me Guy, exasperado--Garoto, admiro sua coragem e ousadia, mas não é tempo para isso. Estamos sendo caçados. E se quisermos cumprir com nossa missão em Hispânia, precisamos sobreviver primeiro. Estamos em desvantagem aqui.
A contragosto, aquiesci. Foram momentos tumultuados e que me deixaram bastante apreensivo. Por que um rei que se afirmava cristão faria isso? Uma voz na minha consciência me lembrou que tantos cristãos cometiam atrocidades contra outros em nome do Pai. O amor ao próximo, a caridade, a honra... de nada serviam para aqueles obstinados em vingança.
Rezei enquanto colocava meu elmo e vestia minha cota de malha, colocando por cima a armadura com a cruz vermelha pintada no peito. Vesti-a com orgulho, ainda que minha mente se dividisse entre medo e raiva. Medo pela perseguição e raiva por não entender a ignorância daqueles homens. Acusavam-nos de excessiva riqueza, mas não sabiam, ou escolhiam não saber, que distribuíamos o ouro e outros objetos de valor para os necessitados. Acusavam-nos de sodomita, por ter uma cerimônia que reproduzia, ainda em tais dias, o valor de selar a honra através de beijo na boca. Acusavam-nos de heresia, por cultuar o diabo, quando em nada disso tinham argumentos que comprovassem a mentira por eles criadas. Não compreendiam que o diabo era a maledicência deles mesmos, da arrogância, da soberba de seu próprio caráter e sua heresia ao usar Cristo para perseguir os que por Ele tinham defendido incontáveis reinos de infiéis.
Fui criado pela e para a Igreja. Desconhecia outro entendimento da vida, por isso me faltou a compreensão do que foi feito aos nossos irmãos muçulmanos e mamelucos ter retornado a nós... ainda que nada justificasse a maldade das mãos de poderoso homem que era o rei da França.
Havia muito bons homens entre os templários. Honrosos e corajosos, cristãos em todo o sentido da palavra. Mas pela corrupção de poucos, nossas vidas custavam muito.
Encurtarei a narrativa e irei direto ao ponto. A guerra silenciosa teve seu fim por ora quando fomos capturados. Um dos meus captores pretendia me torturar, mas eu lhe disse:
--Leve-me à fogueira.
--Seu destino será poupado se contar a nós tudo o que precisamos.
Notei a malícia em seu tom, percebi que ele não cederia. Rezei em meu coração, e como se inspirado por força amor, olhei dentro daqueles olhos escuros e disse:
--Lamento pelo senhor que desconhece o amor de Cristo. Quando o conhecemos verdadeiramente e levamos sua palavra aos que dela precisam, não tratamos com rancor, violência nem soberba. Não somos melhores nem piores que ninguém. Não somos fanáticos. Sabemos igualar a fé com a razão. Não, meu senhor, sua língua é como serpente e ela aqui não me tentará. Sou forte naquele que eu creio e vim defendendo até então. Abraço a morte que me é injustamente condenada.
O captor me encarou, embasbacado. Não vale apena descrever pobre homem, obsidiado pela ignorância. Mas notei que minhas palavras o tocaram de alguma maneira.
--Ninguém enfrenta a fogueira assim--ele rosnou.
--Eu enfrento. Aguardarei meu julgamento.
--Que assim seja.
E me largou na prisão com meus companheiros. Fomos tirados de nossas malhas de cota, mas roupas simples nos deixaram vestir. Pouco me importei, embora tenha ficado feliz de ter conseguido um blusão velho com cruz vermelha estampada no centro. Guy estava ao meu lado quando retornei. Pouparei-vos de descrição porque o pobre coitado estava terrível.
--Não foi torturado?--indagou ele surpreso.
--Me recusei. Força maior impediu--disse eu, fazendo o sinal da cruz, gesto que ele copiou--Mas aguardo a morte com serenidade.
Para minha surpresa, ele chorou.
--Não era para isso acontecer!
Sem jeito, procurei consolá-lo como podia.
--Como haveria de ser o contrário com o rei no poder? Devemos lamentar que a situação tenha chegado aqui... Entristeço-me como você, caro amigo, mas em breve tudo isso findará. Tal qual Daniel, os leões não nos arrebatarão. Mas Cristo, sim, Ele nos receberá de braços abertos.
Guy chorou ainda mais e me abraçou. Retornei-o e fechei os olhos. Éramos como um, almas afins enfrentando período tão difícil. A infelicidade inevitavelmente encontrou seu espaço no meu coração, afinal, que havíamos errado? Não entendia. E me angustiava saber que o rei não sofreria nada disto. Mas é claro que eu me enganava pensar daquele jeito.
Fui chamado pelo responsável da cela. Era o momento. Despedi-me de Guy e o abençoei antes de ir. Deixava para trás outros companheiros, de honras incomparáveis e indescritíveis, que, no entanto, mostravam-se abalados com aquela situação.
Fui levado ao tribunal que, para minha surpresa, não era nada clerical. Quem me julgaria seria os homens do rei, o que me enraiveceu ainda mais. Mas não cederia, agarrei-me ao orgulho naquele instante porque ignorava outra arma. Me faltava a serenidade de Guy ou do grão mestre Jacques, mas me recusava a ser quebrado por aqueles homens.
--Louis Philippe...--o guarda ao meu lado me levou para o homem que leria minha sentença--o bispo de Reins o condenou à fogueira por cometer lesa-traição contra Sua Graça, o rei Philippe de França e de Navarra, o quarto de seu nome da casa de Capét a reinar sobre estes territórios segundo a vontade de Deus.
Quase cuspi palavras mal criadas em responsa, mas algo me impediu de fazê-lo. Em vez disso, respondi:
--Que Deus dê longa vida ao rei.
O juiz em questão arqueou as sobrancelhas e disse:
--Detecto deboche em você, traidor? Rouba nossas terras, comete sodomia, espalha praga entre nossos homens e cultua o diabo...
E ele prosseguiu falando, mas eu não o ouvia. Encarei cada um dos homens que estava presente, e vi, afinal, não muito distante, a figura do bispo que me fitava com ódio. Imaginei que se tratava de vingança pessoal, embora não soubesse de imediato por qual motivo. (Nota de Ogum: "Relação pretérita de ódio que persistia nesta quase mútua obsidiação").
--...o senhor nega tudo isso?
Minha consciência estava tranquila, o que me surpreendeu. Mas eu me ouvi responder:
--De que adianta negar se serei condenado de mesma maneira? Afirmar ou negar, a morte me espera. Que seja. Nada tenho a temer porque em Cristo eu creio e disto não poderão tirar de mim.
--Mas que audácia!--ouvi o bispo vociferar--Condenem-no agora! Envie este homem à fogueira!
Lancei ao bispo um sorriso malicioso porque percebi que o afetei. Fui arrastado e levado até à madeira, onde fui amarrado ao lado de dois companheiros, pouco mais velhos que eu. Eles me receberam com tristeza em olhar, embora um deles tenha falado:
--Acalme-se, irmão. Iremos encontrar Cristo!
O guarda que raspou sem delicadeza meu cabelos pretos, retrucou:
--Que o diabo os carregue pessoalmente ao inferno!
Foi neste instante que percebi, verdadeiramente, quão cruéis podemos todos ser em nome daquele que, ao contrário, nos ensinou nada mais que o amor, o perdão, a caridade. A fé que matava era nada mais que a cegueira para a qual Thomas de Aquino nos alertava. E tudo me fez sentido enquanto era amarrado. E lancei um olhar para aquele guarda que esperava nos queimar logo e disse:
--Que Deus o abençoe, irmão.
E, junto aos outros dois, rezamos o "Pai Nosso" várias vezes. Pedi perdão aos Céus pelos pecados cometidos, e rezei para que o grão-mestre não fosse afetado pelo pobre julgamento dos homens. Pedi ajuda ao padroeiro São Jorge. E vi-o me buscar enquanto as chamas queimavam a pele. Chorei, de fato, mas não gritei. Suportei em lágrimas, mas chorava pela queda dos irmãos, da humanidade. E quando despertei, amigo santo me recebeu em seus braços.
(Nota de Ogum: "O que ele quis dizer por amigo santo foi o anjo protetor dele. Todos nós possuímos um anjo da guarda, que está conosco em todos os instantes da vida. No momento do desencarne, ele está ainda mais perto para aliviar todo o peso desse momento em que se rompe a vida e chega a "morte". Louis-Philippe passou pelas chamas para "purificar-se" de energias daquela existência quanto de outras. Como merecimento, seu anjo o recebeu ao lado de amigos familiares. E foi a partir dessa vida que ele pôde avançar bastante espiritual e moralmente. Quando, em sua última vida, ele foi parar nas zonas umbralinas, isto se deve mais pelo remorso de não ter se achado possível de cumprir certas questões dele para com pessoas específicas sobre quem não falarei, do que em termos morais maiores. Como já mencionei, ele tem se recuperado e avançado consideravelmente. Este relato é uma prova disso. A complexidade varia de caso para caso, mas os trabalhos prosseguirão agora do plano espiritual porque ele também atuará junto a São Jorge e, na umbanda, na falange de Ogum.")
Desde então tenho me conscientizado e doutrinado cada vez mais. Não sou perfeito e acredito que longe de mim está ter esta pretensão. O que vim contar a vós todos é do aprendizado que tive sobre ter uma visão mais racional da fé. Isto é: que minha fé não é melhor do que a do próximo, que ela não é mais "experiente" que a do irmão, e, principalmente, não deve ser ela o pilar para minhas faltas. Ao contrário, a fé à luz da razão deve ser o pilar para nossas qualidades morais, intelectuais e espirituais. O estudo e a fé se complementam e quem afirmar o contrário, deve-se questionar seus motivos. O fanatismo está presente nas sociedades humanas, apesar de ser costumeiramente associado às guerras religiosas do século XVI e, mais recentemente, nas políticas do século XXI. A leitura da Bíblia é feita ao pé da letra e com significações draconianas, para não dizer que é manipulada segundo os interesses de poucos. Esta também é a mistificação de Cristo, para a qual deveis ter cuidado se não quiserdes ser enganados. O amor ao próximo é o respeito a cada um, e inclui-se disto nas "ideologias" que vos segregais e dispersais para um vazio. Ninguém é melhor que ninguém, de fato. Tampouco pior. A escalada da evolução deve ser o objeto final e não o princípio de todas as coisas, pois deve-se olhar para dentro antes de tudo. Com isso, deixo aqui este pequeno ensinamento que fê-me refletir tanto após esta encarnação quanto nas conseguintes. É um dever, uma tarefa e uma salvação ter me esforçado em contar esta anedota, me centrando nos pormenores que vos ajudará a refletir. O infortúnio daquele que opta pela arrogância, soberba, entre outras faltas, merece nossa compaixão e não nossas raivas, pois ele desconhece o amor de Cristo. Quem o conhece não pratica atos execráveis em Seu nome.
Deixo cá, pois, meus agradecimentos sinceros à vós que transcreveis com fidelidade minha memória, pela paciência que tiveres comigo, não sendo fácil para mim ainda me desvincular das línguas que me marcaram, em particular o francês. Espero ter sido útil de alguma forma, e agradeço também ao benfeitor de São Jorge por ter-me trazido acá. Que Deus vos abençoe a todos! E que vós prossigais neste belo caminho, menina, com a honra de seu bom coração. Agradecido, saudações de Louis Philippe.
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