sábado, 28 de março de 2020

Memórias póstumas de um soldado

Rio Grande do Sul, entre os anos de 1835 e 1845. 

"Não me recordo de muitos detalhes e a precisão oblitera a memória de vez em quando, por isso peço paciência e compreensão conforme exponho meus erros, meus vícios e minhas virtudes em um período de tempo que o Brasil não mais recorda. Nesta quaresma, tive a oportunidade de refletir minhas ações pretéritas e agradeço por, enfim, ter sido possível ser resgatado das sombras a fim de servir à luz.

Permitam que eu me apresente. O nome que me foi dado nesta última vida foi José Bento Castro Alvez. Apesar do grande nome, não fui ninguém relevante e nem nasci em alguma família poderosa daqueles tempos imperiais. Na verdade, era o fruto de um ex-escravo alforriado e uma sinhá que deu sua vida à minha. O escândalo daquela relação foi abafado pelo pai dela que, afinal, optou por me adotar... desde que servisse no exército. Ou o que quer que significasse aquilo. A realidade mais crua se punha a mim da seguinte forma: meu pai fora livre, mas eu não o seria. Entregavam-me ao mundo onde meus irmãos de cor eram recriminados e subjugados como se nada significassem para os mais poderosos.

Não me lembro da infância vívida, mas a juventude se passou próximo aos pampas gaúchos. Havia uma pequena igreja onde a missa era rezada em uma língua que misturava o português com o espanhol e eu cultivei o hábito de frequentar os domingos do Senhor ao lado da senhora que me adotou como seu filho, embora fosse seu neto. Nunca perguntei o destino de meu pai de nascença, mas diziam que encontrar seu fim cedo demais, ou que os grandes deuses o haviam levado embora. Não me contavam muito, e eu achei mais seguro não questionar.

O vilarejo era pequeno e todos se conheciam. Nenhum evento significativo acontecia ali, e um dia os Alves decidiram que o mundo era maior do que aquilo e arriscaram a abandonar seu conforto para tentar a sorte em Laguna. Logo, os acompanhei. Havia diferença entre nós, é claro. Ninguém me tratava realmente como o filho da sinhá que era, eu sequer sabia seu nome. Minha avó, porém, sucumbia à piedade cristã e eventualmente se afeiçoou a mim. Quando seu esposo se ausentava, não era às filhas que fingiam pertencer à aristocracia que ela dirigia suas afeições, mas ao neto crioulo que todos tratavam com frieza.

--Sabe, filho, Cristo sempre ensinou que o amor deve ser repartido igualmente aos irmãos--ela contou--Sem qualquer distinção. 

Mas eu pensava o seguinte: ela me amava porque Cristo pediu ou porque em seu coração sentia qualquer ternura genuína por mim? Ou, pior: seria este amor sincero ou apenas uma exibição fingida para ir aos Céus e contar a Ele o quanto me amou por ser quem era, independentemente de minha cor? Afinal, eu tinha meus motivos para suspeitar daquele discurso: sempre que o chefe da casa estava presente, esqueciam-se de minha humanidade e pediam para que realizasse determinadas tarefas. Deu-se brecha para que o rancor dali nascesse.

Eu era paciente, apesar disso lhes parecer resquícios de um temperamento que, em vidas anteriores, tornava insuportável  (segundo me disseram) a convivência comigo. De todo modo, vivia em silêncio e ouvia. Aprendi a exercitar a audição e a visão: na ausência de palavras, meus caros, as ações (mesmo as desprovidas de som) são o termômetro do caráter de um sujeito. Por isso a desconfiança. 

Contudo, eu também julgava demais. Não conhecia a dor pela qual a senhora em questão passou por toda a vida. Um dia, ela se abriria comigo, o que me fez amargar por crer que eu era superior às vaidades que minha avó ostentava.

--Quando era jovem, me apaixonei--ela me contou. Seu nome agora me escapa, infelizmente... (Nota de Ogum: este rapaz ainda está em processo de cura no plano de espiritual, tendo sido resgatado do umbral recentemente).--Ele era mais escuro que você e tinha um belo sorriso no rosto. Seu nome era Zé. Quando meu pai não via, escapava com o auxílio de minhas irmãs para bailar com ele. Zé era namorador, gostava de uma rosada--minha avó riu e eu me vi com os olhos arregalados, surpreso. 

"Oras, acha mesmo que fui recatada durante minha vida inteira? Não, meu filho. Fui livre também. No que podia, desafiava os limites impostos ao meu sexo. Era corajosa e desafiadora... Mas, de todo modo, meu pai veio a descobrir e o escândalo... Não gosto de lembrar disso, foi terrível. Perdi meu Zé para todo o sempre e se evitei uma vida trancada no convento foi por intermédio de minha mãe."

Encarei-a, sem saber o que dizer. Perguntei a mim mesmo se era por esta razão que eu levei o nome de José. Que importava? No entanto, daquele dia em diante, nós forjamos um laço mais sincero e permanecemos juntos até o fim de seus dias.

Ainda tenho dificuldades de lembrar que tipos de atividade cumpria em Laguna. Não ficávamos próximos ao mar por questões de segurança. Como falei, a família não era rica como gostava de aparentar. Enfim, foi por essas bandas que soube das tensões cada vez mais crescentes entre o regente do Imperador e o Rio Grande do Sul. Sob a liderança de Bento Gonçalves, os chamados gaúchos enviavam constantemente suas demandas ao poderio imperial, que se situava no Rio de Janeiro. No entanto, como é de costume na história dos homens, relações políticas dificilmente olhavam de bom grado aos que necessitavam, por tanto que logo os idealistas do Sul perceberam que uma república separatista responderia melhor do que uma autoridade centrada em uma pessoa, ainda que Dom Pedro II fosse inocente das ambições descomedidas daquele que reinava em seu nome.

A guerra civil explodiu e foram dias sangrentos. Infelizmente, ou felizmente, não vivi o suficiente para ver seu crepúsculo e que fim levou. No entanto, conforme me situo aqui, percebo com desgosto que não deu em nada. E isso deveria surpreender a alguém como eu?

Éramos todos idealistas. Acreditávamos que somente os sulistas compreendiam uns aos outros. Recordo-me brevemente de que Bento Gonçalves almejava tal estado de liberdade que inspirava todos os homens de várias camadas sociais a segui-lo. Se minha memória não falha, ele era abolicionista também. Isto décadas antes da princesa Isabel ter assinado a lei que pretendia pôr fim de uma vez por todas neste sistema nojento escravatório [sic] que, infelizmente, foi um dos pilares da monarquia luso-brasileira. 

Em Bento e seus cabelos cacheados, olhos furiosos que... não, permitam que eu substitua este adjetivo ambíguo. Seus olhos eram apaixonantes e convidativos para a luta que pretendia travar. Ele não pretendia levar o debate ideológico para as armas, ciente das vidas que provavelmente perderia para um poder dominador. Embora os três estados do Sul do país se reunissem como um, nada era páreo para o Império que subjugou as vastas terras do Brasil sob um único regime.

Como dizia, Bento era carismático. Havia uma aura ao seu redor de um sujeito que caminhava para fins diplomáticos, despojando-se da belicosidade que, entretanto, deixava sua marca na alma. Não me surpreenderia se dissessem que sua vida revolucionária houvesse um dia o conduzido a outros tipos de revoluções que marcaram a humanidade, propulsionando determinados marcos que contribuíram para seu avanço. Isso digo com intuição, não com afirmação. Meu estado moral é limitador e não permite que entreveja mais do que os guias da médium auxiliam ver.

Não lembro como eu, o sinhô e a sinhá fomos, uma vez casadas o restante de suas filhas, rumo ao encontro deste líder tempestuoso. Não me aproximei porque o sinhô não permitiu, e eu optei pela distância respeitosa a despeito da curiosidade. Em um mundo como aquele, qualquer aproximação de um não-branco era vista com suspeitas. É irônico constatar isso mesmo sabendo que lutavam por uma liberdade segundo os moldes do continente europeu.

Mas havia outro motivo para me manter afastado: sinhá padecia de uma doença estranha, que mais tarde reconheceria como tuberculose. E ela pedia que eu não a deixasse ao encargo de outras moças. Tampouco recusou que enviasse uma carta às próprias filhas. Percebi, não sem algum lamento, que era uma ligação com seu passado, que nunca se tornou presente porque o pai interferiu em seu livre-arbítrio de uma maneira negativa. Quando as leis de espíritos brutos falam mais alto que o amor... mede-se aí o estado das coisas. Eventualmente, ela desencarnou, mas foi melhor do que testemunhar o conflito sangrento que mancharia os pampas gaúchos por uma década.

Nunca me casei nem me apaixonei. A missão a que vim era voltada para purificar-me de pecados pretéritos. Auxiliei no que podia com os soldados mortos, aqueles que disputavam por posições --e também, consequentemente, morriam por isso. Ainda posso ouvir os gritos de guerra, os tiros trocados, as barricadas.

--PELO SUL!--bradou um e seu grito de guerra ecoou pelos soldados moribundos.

--PELO SUL!

--PELA LIBERDADE!--gritei e fui seguido por um coro que repetia as mesmas palavras.

A liberdade era um conceito que enlouquecia o mais são dos homens, motivava os mais conformados e embravecia os covardes. Por ela surgiram revoluções, caíram governos, estabeleceram tantos outros. Naquele tempo, plantávamos a semente para um futuro republicano, sem saber aonde isso nos levava.

A igualdade, entretanto, não era muito bem vista dentro da liberdade ou da fraternidade. Os homens brancos que ali batalhavam contra o império do Brasil para fundar a república gaúcha, tinham em suas propriedades negros escravizados. Muitos deles os tratavam como coisas, embora a maioria houvesse lhes sido indiferentes como foi o caso do meu sinhô. E deveria surpreender a hipocrisia que acompanha a humanidade a cada ideologia levantada e defendida cegamente? E, no entanto, fui diferente destes que critiquei?

A adrenalina ocupava minha mente e me impedia de fazer estas reflexões que agora faço. Talvez elas sempre estiveram lá. Em meio à bravura, era invisível. Não havia distinção de cor quando usávamos o mesmo uniforme, tomávamos em armas e atirávamos no inimigo. É de envergonhar rever as cenas em que esperava matar os realistas tanto quanto possível. Em retrospectiva, perguntaria a mim mesmo: a liberdade que diz defender é a mesma que prega a morte de seu inimigo? Não é a bandeira de seu aliado que massacra seus irmãos diretamente?

Sistemas são sistemas, assim como crenças são crenças. O material é formado pelo e para o homem em evolução. Na falta da autocompreensão, prevalece o extremismo. Vejam como a república matou tantos quanto a monarquia! O que é correto? Qual é o mais adequado? Muitos dirão que a república (do grego res- pública, poder ao povo) é o ideal. Mas é isso que é, ideal. Que Platão me perdoe por emprestar seu nome, mas é nada mais que platônico. Não existe igualdade quando os indivíduos são diferentes. Eu vivi isso. Em tempos onde a cor importava mais que o caráter, os que bradavam pela igualdade e desdenhavam dos que permaneciam no poder eram os mesmos que praticavam tal desfortúnio com seus semelhantes negros.

Isto me cansa. Mas notei que a experiência grega ainda me é muito marcante, tendo sido um filósofo nos tempos de Platão. Não deveria me surpreender, de todo modo... Surpreende. Voltemos à narrativa, por gentileza. Como dizia, o sangue dos homens liberais manchava o verde da natureza. Antes de "ordem e progresso", existia uma desordem e regresso. Entrementes, a indagação persiste e mesmo então eu não concordava com tais dizeres. Teriam aqueles soldados lutado pela libertação dos meus irmãos?

Bento Gonçalves, sei que sim. Teria. Aquele foi um comandante ocupado demais e pressionado para resolver as demandas dos mais radicais. Dizia-se que em sua casa havia sete mulheres. Era apaixonado pela esposa, a despeito dos rumores de infidelidade. Ninguém é perfeito, mas a mentalidade da época era mascarada pela hipocrisia terrena. Eu não escapei dela, prezados leitores! Oh, não! Sucumbi ao orgulho que voltava para me ferir o bom senso, pois que me achava melhor do que meus companheiros de armas. Como também das mulheres. A única que respeitara de fato havia sido a sinhá. Nenhuma outra, portanto, conquistara-me da mesma forma e não digo no sentido romântico da palavra. 

Como falei antes, a liberdade enlouquecia o mais são dos homens. Eu fui tentado e corrompido por este ideal. Não suportava ver as mulheres serem subjugadas como nós, os negros escravizados, éramos por homens brancos. Poderão lembrar-se de Anita Guaribaldi. Corajosa, mulher de Laguna. Mas nunca a conheci. Nossos caminhos não se cruzaram.

Havia poucos dias em que a belicosidade dos homens permitia que se extinguisse as batalhas. Não à toa durou dez anos. Em minha memória, tudo o que conheci foram dias de guerra. Fome, frio, verão, instabilidades que não dependiam de mim muitas vezes para melhorar o moral dos homens. Conforme minha tropa seguia norte, era preciso estar atento constantemente. O silêncio andava a meu favor quando, em raros momentos, o desânimo propiciava um surgimento de uma rebelião. Isso aconteceu quando Bento Gonçalves foi preso. Deus sabe somente como foi possível ele escapar.

Perdoem-me a falta de fé que tinha na humanidade. Ela fala mais alto que eu, por vezes, resultado do orgulho que anseio por extirpar. Mas não me culpo por isso, foram dias duros, como falei. Fui cruel na guerra porque explodia meu rancor aos inimigos que, muitas das vezes, obedeciam ordens como eu. No final da guerra, eu não me importava mais com a liberdade, a república, com mais nada. Era inverno quando comentei com meu pessoal:

--Somos de uma raça forte, rapazes. Não vejo fim para isso, mas não seremos esquecidos.

Roberto, um companheiro meu, me encarou. Em seu rosto marcados por cicatrizes, a desilusão pairava nos olhos acinzentados. Seu nariz quebrado não suavizava o semblante e posso me lembrar que ele não sorria porque perdera metade dos dentes. Seu uniforme era o mesmo desde o princípio, sendo remendado pelas fiandeiras que costumávamos encontrar pelo interior. Mas não tinha o hábito de se limpar e quem teria? Naqueles tempos, nossa preocupação consistia em sobreviver e ganhar a guerra. Seu retrato era o de tantos homens que viam que tantos homens haviam morrido para nada. A qualquer momento seríamos dispensados e rechaçados como traidores contra Vossa Majestade. 

--Creio que seremos, José. Sabe por que? A História se recorda dos grandes feitos, independentemente de quem quer que tenha os levado a cabo. Os guerreiros que serviram Alexandre, o Grande, quem foram? Ou os que acompanhavam e aconselhavam Napoleão. Quem sabe seus nomes? Ninguém. Vejo que o frustra este preconceito de cor e não o culpo. Os negros gaúchos também serão submetidos a um esquecimento porque, assim como nós, fomos nada mais que instrumentos de guerra.--Ele suspirou e sua voz reforçava o cansaço que o abatia--Eu acredito na causa e não mudaria o rumo se, anos atrás, alguém me dissesse que este seria o fim que levaria. Não me arrependo, bom amigo. Nada foi em vão, penso eu.

--Tenho esperanças de que o imperador seja melhor aconselhado--eu comentei, pensando em voz alta--Uma fagulha de bons pensamentos me impedem de desistir agora. No mais, tem razão. Esquecerão dos negros e brancos iguais. Mas Bento Gonçalves merece o mérito.

E foi pela primeira vez em anos que vi Roberto sorrir. Era um sorriso desdentado, porém acalentava mais que a fogueira.

--Sim, ele merece. Por ele, morreria mil vezes. É um bom homem.
--Sim, ele é--concordei.

E em silêncio ficamos. Naquela noite, sofreríamos um ataque surpresa dos realistas e pela última vez, lutaríamos pelo ideal libertário de uma república gaúcha. Desencarnamos juntos como haveria de ser, embora minha dificuldade em aceitar a morte e a perda de meus amigos tenha-me impedido de revê-los. 

No entanto, conforme me esclarecia, e continuo a ser devidamente educado nos aspectos espirituais, percebia os erros cometidos, mas não me envergonho porque eles me fizeram ser quem eu sou. E se todo Nero pode um dia a vir ser um Gandhi, retenho a esperança de ser o Platão que um dia conheci. 

Agora, é hora de partir. Estou em paz desta vez e agradeço à médium e aos seus guias espirituais pela chance de falar e ser ouvido. Por mais que minha causa não tenha dado frutos, a liberdade ainda hoje é algo pelo qual defenderia. Sem ela, como podemos ser nós mesmos? Pelo direito de expressar e ser respeitado é onde este conceito interfere positivamente. Ainda há muito o que aprender, e desejo abertamente prosseguir no caminho do conhecimento. A belicosidade não me pertence mais e nem toda guerra precisa de batalhas para vencer. 

Outra vez, agradeço. Por um mundo terreno melhor, onde não haja distinções de cor e gênero. Que prevaleça o amor ao próximo como o mestre amado Cristo nos instruiu. Abraços, meus confrades! De seu amigo, José Castro."

quinta-feira, 26 de março de 2020

A Queda do Orgulho (parte III)

Nota de Ogum: aqui estamos na parte final de nosso trabalho com a senhora Cecília, que se prestou a comparecer para dar sua palavra antes que seja guiada a outro desenvolvimento pela colônia onde está instaurada. Como de costume, me manifestarei quando achar ser pertinente.

"Embora houvesse resolvido minhas questões com os filhos cuja rivalidade fui a principal responsável, a paz me escapava ao tomar ciência de que não reencontraria os outros de quem sentia falta. O guardião que me seguia, assim explicou:

'Cada um deles foi responsável por suas ações. Embora tenhais sido a mãe, a genitora, são espíritos que precisam, também, de "correção", se assim compreendeis.'

'E é por isso que não verei Richard?' Eu perguntei, aflita.

'Sinto muito, Cecília, mas a espiritualidade acredita, segundo as leis de Deus, que tudo será no tempo do Pai.'

Suspirei. 'Longe de mim querer questioná-Lo. Eu só...'

'Sente a ausência dele, eu sei'. Ele disse, compreensivo. 'Mas tudo em seu tempo'.

'Quanto aos outros filhos? Edmund? Anne? Ou mesmo Margaret?'

O guardião apenas fixou seus olhos bondosos em mim e limitou-se a dizer:

'Tudo no tempo de Deus. Venha, Cecília. Há atividades que devemos exercer agora. Verás que não há ócio do lado de cá. Aqui, estamos constantemente ocupados, uma vez que a caridade não deve esperar nossa boa vontade se manifestar.'

Embora entristecida por não ver meus filhos, ou meus irmãos e irmãs, nossos pais, apenas assenti e o acompanhei. Era hora de seguir em frente e eu estava cansada do passado. O ambiente era bem agradável: jardins bem podados, pomares adequadamente alocados próximos a bancos para que os espíritos se sentassem. No centro, havia um chafariz, cujo epicentro se verificava a estátua de um anjo: de sua boca, caía a água como cascata.

À primeira vista, os jardins eram bastante extensos, o suficiente para fazer-me pensar que estava diante de uma produção infinita de flores, árvores e seus frutos. Uma pequena multidão dispersa passeava tranquilamente por entre aqueles corredores verdes: vi vários jovens de branco que acompanhavam senhores, idosos, e em suas feições estampava uma alegria tão pura e sincera que fazia tempo não ver algo assim. Um cenário tão simples, e tão cativante. 

'Aqueles idosos', o guardião se apressou a me explicar ao acompanhar o meu olhar, 'são entidades que, na Terra, sofreram caminhos tortuosos. Seja através de doenças incuráveis, ou outros tipos de expiação, compreendem agora que foram suas escolhas que os trouxeram aqui. Estão em paz consigo próprios e é provável que vão reencarnar em outro plano espiritual.'

É bem verdade que eu estava curiosa quanto ao "outro plano espiritual" do qual dizia, mas eu não insisti. Uma intuição me alertava de que não era hora de saber do que aquilo se tratava. Não ainda.

'E por que eles permanecem na velhice? Não estou como morri na Terra', eu comentei, genuinamente intrigada. Embora não fosse jovem, tampouco meu perispírito permanecera da mesma maneira como deixara a vida naquele tempo, enrugada e com fraqueza no corpo. Assemelhava-me ao que fora nos meus trinta ano. Pensar nisso, mesmo agora, não me traz nenhum tipo de orgulho ou vaidade: a verdade é que é quase engraçado constatar tal adequação espiritual.

'Eles preferiram continuar naquele estágio porque isso os recordaria de que a vida carnal é findável, um contraste com o espírito, que é imortal. Logo, isso os recomendaria a exercitar a empatia e a virtude da paciência: tendo a experiência de ter vivido todos os ciclos da vida terrena, saberiam como conduzir os mais jovens sem fazer juízo de valor.' Ele explicou. 'Mesmo aqui, a bondade não encerra suas atividades. Alguns poderiam atuar como meros velhos com a finalidade de guiar os jovens à sabedoria, como veremos, mas outros que veis,experimentarão outro lugar antes de atuarem neste campo.'

[Nota de Ogum: para o leitor mais atento e o estudioso da umbanda, verão aqui a falange dos pretos velhos ser mencionada bastante sutilmente pelo guardião, ou exú, da senhora Cecília. Quando ele se refere às entidades que possam optar por reencarnar em outro lugar (como, por exemplo, em planetas mais avançados tais qual Júpiter e Saturno, ou em sistemas planetários mais evoluídos) ou permanecer na colônia a fim de "guiar os jovens à sabedoria", nada mais é do que espíritos que atingiram sua 'quota' de processos reencarnatórios. Isso não significa dizer, como foi bem pontuado acima, que os trabalhos espirituais se encerraram. Ao contrário: guiar outro ser humano é uma tarefa complicada e que precisa de vários recursos. Em se tratando da Terra em particular, sabem, por uma literatura abrangente que há sobre o assunto, que os seres que não mais reencarnam e possuem uma vibração elevadíssima, sofrem certas dificuldades para se adequar à vibração deste plano. Nesse sentido, precisam "abaixar" para que possam trabalhar com a densidade dos espíritos que aqui vivem. É uma complexidade que não pretendo me alongar, mas deixo cá a recomendação para o estudo disso. A questão central sobre a qual pretendo dizer diz respeito aos espíritos que desejaram permanecer como deixaram seus corpos em sua encarnação final (ou, como acontece de forma similar, optaram por aquele tipo de "roupagem") a fim de se aproximarem dos mais humildes, que precisam de uma palavra amiga mas que, infelizmente, a formalidade de grandes religiões não permitem. O que a senhora Cecília testemunhou foi a preparação destas entidades para seus trabalhos, ainda que direcionada de maneira diferente como acontece com esta falange no Brasil. Independentemente destas particularidades, no mundo espiritual, não há diferenças: o que deve prevalecer é a vontade em ajudar, o amor ao próximo e, claro, a caridade.]

Mas foi rumo à determinada casa, de arquitetura no mínimo curiosa e diferente do que conhecia, e cujas palavras em vosso vocabulário não há algo que expresse com precisão o que vi, que fui conduzida. Em frente ao mar, sua construção era muito moderna, mais do que vossos dias. Lá dentro, era quase como se fosse um hospital, onde a presença de indivíduos adoentados era acompanhada, supervisionada por médicos ou outros conhecedores da área da cura espiritual. Não me surpreendi ao ver que estavam todos de branco. Mas o guardião que me acompanhava assim falou:

'Ficareis aqui agora', ele disse. 'O que achais?'

Olhei-o, confusa.

'P-Por quê?'

Ele sorriu e, logo, explicou:

'Não precisa se preocupar, Cecília. Estais a salvo aqui, e é claro que não vos forçarei a ficar por aqui se não desejardes. No entanto, permita-me explicar que a dinâmica daqui é diferente. Serais doutrinada no estudo dos espíritos para que possas compreender todo o processo pelo qual passou de sua recente encarnação ao desencarne e por quê "sofreu" no umbral por uma quantidade de tempo'.

Senti um ímpeto do orgulho passado vir em minha língua, tentada a retrucar "e se eu não quiser?", mas controlei meus pensamentos subitamente. Não havia nada naquele homem que não fossem suas boas intenções e eu não deveria retribuí-las com mau agrado. Na verdade, depois de tudo o que havia visto até então, deveria me envergonhar de permitir que pensamentos daquela natureza surgissem em minha mente. Suspirei, e como se pudesse perceber o que se passava comigo, João tomou minhas mãos nas dele e disse, calmamente:

'Não há motivo para que vos pressione a ser um indivíduo melhor. Não precisamos que sejais perfeita: isso seria impossível, visto que somente o Grande Pai é perfeito. Não desejamos que se autoflagele com a culpa que carregais. Esqueçais isso, Cecília. O passado não pode atormentá-la aqui e agora se assim quiserdes. Ofereço uma oportunidade a vós, como o Pai ensinou. Todos possuem o direito de redenção se assim quiserdes.'

Quando dei por mim, estava chorando. Suas palavras haviam tocado meu coração.

'Não sou merecedora de perdão, nem de redenção.'

Ele se aproximou de mim e envolveu seus braços ao meu redor. Nada falou por alguns minutos, permitindo que pranteasse o quanto tempo fosse preciso. Quando o choro cessou, ele disse:

'Todos nos somos merecedores de perdão. Conheço-vos há mais tempo do que pensais, Cecília, e sei que há uma faísca de luz aí dentro. Deixe-a sair, permita que ela faça sua aura brilhar. Outras chances para remendar os erros virão, mas tudo conforme a vontade de Deus. Não há pressa. Tudo na vida é um processo, e não cabe a nós adiantá-lo ou retardá-lo. Os erros são necessários para que possamos subir o pedestal e, a partir deles, melhorar e corrigir. Isso nunca termina. A vida como tal é infinita. Sois filha do Pai também, abrace sua piedade e sabeis perdoar a vós mesma.'

'Como faço isso?' Ouvi-me murmurar.

João se afastou de mim gentilmente e disse:

'Aceitando que sois filha do Pai, parte de Sua criação. Feita com amor e carinho, mas também com inteligência. Isto é: foi imperfeita, desviou-se do caminho várias vezes, mas nunca perdeu a fé naquele que vos criou. E como o Pai que amanha seu filho, por que Ele o relegaria ao sofrimento após tantos descuidos? Vós não perdoastes vossos filhos por terem seguido caminhos próprios que, no entanto, causaram-lhos tanta dor que poderia ser evitada? Vós esqueceríeis de vossos rebentos se acaso, após vos desagradar, regressassem ao seio materno? Já entrevejo em vosso pensamento o que crieis, Cecilia. A analogia, com todo o cuidado, é a mesma. Vosso Pai não a puniria nem a enviaria ao inferno para sofrer tormentos indescritíveis.' Ele riu. 'Isso não condiz com a bondade infinita, a compaixão e o amor que o Pai tem pelos filhos que habitam suas diversas moradas.'

Emocionada, chorei outra vez. A infelicidade não me abatia, mas a sensação do amor divino que lavava minha alma. Tão puro, cheio de luz, eu senti Nosso Pai. Sua presença foi mais real ali do que em minha lamentável existência em Terra. Afinal, compreendi e aceitei ser doutrinada. João disse que aquela tarefa caberia a outro mentor meu, que eu viria logo a conhecer. Ou, como disse, "reconhecer". Entristeci-me de saber que partiríamos, mas João assegurou-me de que não me abandonaria. Apenas tinha outros trabalhos que pediam sua atenção por ora.

Assim, ele me deixou e eu prossegui mais adentro daquela grande casa. Atravessei um corredor, observando diversas pessoas de cores, auras, personalidades diferentes, todas elas cooperando e co-habitando tal lugar com tamanha amabilidade que me intrigou. Quando dei por mim, todavia, estava no jardim, que se situava no centro daquele casarão, cercado de vidros, mas que permitia a luz exterior e o vento entrar e balançar as folhas das poucas árvores que ali existiam.

Em um banco acinzentado, me sentei e ali fiquei só, por um momento. Contemplei minha existência pregressa e me perguntei quem teria sido nas vidas anteriores, mas percebi que não gostaria de saber. Na verdade, não me importava. Apenas agradecia a Deus por uma segunda chance, pela oportunidade de me redimir.

Assim, não vi que um jovem e belo rapaz vinha em minha direção. A calma em seu semblante e a forma com a qual a luz o cercava prontamente me chamaram a atenção. Em seus olhos verdes, vi os meus. Mordi o lábio inferior ao reconhecê-lo, mais alto do que minha memória o guardava. Aquele era Edmund, meu segundo menino, quem eu perdi para a espada ao que parecia ser tantos e tantos anos atrás.

'Senhora mãe', ele me recebeu com um entusiasmo e um sorriso no rosto quando o abracei. Ainda recordo de seu cheiro de pétalas de rosas brancas. 'Como tem estado?'

'Melhor agora que o vejo aqui. Ah, meu rapaz.' Eu funguei, e logo vi que chorava novamente. Eu, que nunca pranteava em vida, recusava a ceder minhas emoções ao público, agora punha toda as emoções para fora. Se éramos vistos assim, não me importava. 'Você está aqui.'

'Estou, mãe. E em paz.' Ele sorriu, seus cabelos curtos lhe dando uma aparência mais madura. Edmund estava tão... diferente. 'Gostaria de agradecer pelas suas preces, mãe. Elas me ajudaram bastante naqueles dias. Apaziguaram o estupor que foi o desencarne, mas não demorei a compreender porque o ocorrido foi importante para mim.'

Franzi o cenho, confusa.

'V-Você foi parar no umbral também?'

Ele sacudiu a cabeça em negação.

'Não, mãe. Mas quando desencarnei, a dor ainda me cercava com muita intensidade. Fui levado imediatamente ao hospital, e eu continuava a rezar para que a ferida parasse. Quando parou, meus guias vieram me encontrar e explicaram tudo. Foi importante que morresse pela espada porque em outra vida causei a dor em outra pessoa fazendo o mesmo. Se não me engano, isso foi na Guerra dos Cem Anos.' Edmund sorriu. 'Por isso, meu pai desencarnou comigo. Ele, meu tio e meu primo. Em conjunto com outros soldados, é claro.'

Ele se referia a uma batalha que deu início à guerra civil entre as casas aristocráticas na Inglaterra medieval. Foram tempos sombrios e sangrentos, e eu havia sobrevivido aos meus irmãos, à maior parte dos meus filhos e ao meu esposo. Vivi demais, e a lembrança era como um açoite. Assenti com pesar diante do que ele me dizia com tanta tranquilidade.

'Por que continua carregando a culpa pelos descaminhos dos outros, mãe?' Edmund me perguntou, gentilmente. 'Precisa se desapegar disso. Enfrente e prossiga, a vida é assim'.

Inconscientemente, levei uma mão aos olhos para enxugá-los das lágrimas que insistiam em surgir.

'Não consigo. Não é fácil para mim, Edmund.'

Ele aquietou por um momento antes de compreender a dor que ainda me assombrava.

'Venha, mãe. Precisamos estudar. Isso será um auxílio para seu melhor entendimento. Assim, improvará, espero.'

Assenti com a cabeça. Seria Edmund o meu mentor? Mas, como se lesse meus pensamentos, ele riu e negou. Sua risada era doce e desprovida de preocupações. De repente, em meu peito se encheu um amor maternal que, em vida, gostaria de tê-la exibido a despeito das convenções do passado.

'Não se culpe, mãe. Está tudo bem', ele me tranquilizou. Havíamos parado diante de uma porta que nos levaria a uma sala pequena, mas Edmund não entrou. Em vez disso, ele me deu um abraço apertado e, tal qual João, me assegurou que nos veríamos novamente no futuro. Teria de partir por ora para que cumprisse seus deveres e seguisse a fazer caridade. Orgulhosa do homem que se tornou, percebi que, de fato, o amor genuíno e verdadeiro abria meus olhos e que era preciso que eu me perdoasse pela pessoa que havia sido no passado.

*                                                                                           *                                                                *
Antes das decodificações de Kardec e sem ter tido qualquer contato com este bondoso homem, fui permitida a ser lecionada com profundidade nos aspectos que tornam ser um médium. Não obstante, aprendi mais a respeito da caridade como Nosso Senhor Jesus nos ensinou: fazer o bem sem olhar a quem. Foi um processo longo e não muito fácil, admito, perceber onde errei. Havia momentos em que desejava escapar deles, mesmo dos crimes cometidos muito antes de vir a ser a duquesa Cecília. E, no entanto, meus guias permaneceram ao meu lado no decorrer de toda a doutrinação. Fui esclarecida apropriadamente, segundo o meu merecimento e o estágio moral de meu espírito. Nem a tudo pude entrever, é, afinal, um trabalho constante. Não estou no ócio e recontar isso tudo tampouco o seja. Tomo como dever alertar os jovens e os mais maduros do que o orgulho é capaz de fazer. É um vício que, em sua pior forma, mascara a virtude da piedade e a falsifica no auto enganamento. Em outras palavras: faz o mais religioso crer-se mais correto, acima de todos. O único cuja perspectiva se vale porque somente a ele Deus comunicou. Não por isso, o orgulhoso recusa ouvir conselhos, a ver a verdade mesmo quando seus guias vos falam através de diversos meios de comunicação que se possa pensar. Ao contrário do que dizem, os mentores, guias espirituais não abandonam seu protegido nem o permitem ser atacados livremente pelos malfeitores. No entanto, a vida estagnada e, muitas das vezes, a (auto)obsessão, são cultivos resultados do mau uso do livre-arbítrio.

Ainda há muito o que aprender, a contar. Confesso que a insegurança quanto ao passado ainda me impede a avançar o que gostaria, pois que pretendia recontar toda a minha vida. Apesar do esclarecimento, a dor desta existência mal aproveitada insiste em ferir. Como disse meu guardião chamado João: tudo ao tempo de Deus, tudo no devido tempo. Sendo assim, eu sinto e compreendo, não apago, não finjo esquecer. Creio que dei um passo à frente ao remontar todo o reencontro, a experiência do desencarne e da passagem pelo umbral, relembrando de minha entrada na colônia espiritual.

Creio ser deveras importante ressaltar ao leitor que não precisamos ser perfeitos para sermos amados por Deus. Nem excessivamente religiosos para que a espiritualidade atue em e sobre nós. O importante é o que passa em vossos corações, as intenções que mapeiam e coordenam vossas ações. Aceitar vossos defeitos já é um grande passo, abraçá-los e reconhecê-los sois ainda mais. Saber conviver é excelente. Não vos exijam tanto. Ameis mais, sejais mais solidários e humildes. 'Amai o outro como amais a ti mesmo'. Sejais tolerantes. Há guerras esperando serem vencidas, cujas batalhas não se limitam ao embate com vossos demônios, mas também com os dos outros. Até onde vais vossa tolerância, aceitação, consciência? Não permitais que o orgulho transforme isso em vaidade. Não sejais rancorosos nem vingativos, são venenos que purgam a alma em vez de curá-la. E quando precisareis, pedis ajuda. Estóis cercados de luz, não vos olvideis disto.

Agradeço à médium pela paciência com a qual transmitiu as mensagens dadas em três partes, pela análise e o trabalho de transcrever, entrever e auxiliar neste momento que ainda se faz difícil para mim. Não vos olvidarei vossa boa vontade. É sempre um prazer revê-la, senhorita. Que Deus vos abençoe.
                                                                                                                                                    Cecília.

quinta-feira, 12 de março de 2020

A história de Zé

"À época em que nasci, o Haiti passava por grandes problemas. Por muitos anos, havíamos sido submetidos ao domínio branco franco-espanhol, onde a pobreza predominava para todos os seus habitantes. Mulheres, crianças e escravos costumavam formar uma só casta que, para os caucasianos senhores de terra, era o mesmo que nada. 

Persistiram no abuso por séculos, um exercício de poder que corrompia suas almas e os carregava ao verdadeiro inferno. Pregavam a palavra de Cristo, mas agiam como se fossem Judas, o traidor. Hipócritas, eram comprados por ouro. Assim era o mundo para o qual vim encarnar. Apesar da tristeza que marca estas palavras minhas, ressalto que ter nascido naquele contexto turbulento pós-revolução/rebelião ou o que quer que preferem denominar a liberdade colonial foi a consequência de mau uso do livre arbítrio de vidas antecessoras. 

Permitam-me que me apresente: me chamo Zé, ou foi como escolhi o nome para trabalhar do plano espiritual. Mas, na verdade, Zé é apelido para Josué, ou simplesmente Joseph, como queiram chamar. Antes de descer ao Haiti como o filho bastardo de um senhor de terras com uma escrava provinda da Serra Leoa, vivi na Índia do século XVII e, ainda antes, foi um péssimo rei francês. Como consequência da ganância, da vaidade e, claro, do orgulho, optei por sofrer as correções adequadas a este tipo grave de erro que persisti por séculos a fio.

O século em que vim foi o dezenove, e as condições não pareciam ter melhorado mesmo depois da ruptura das relações com a França. A vida nunca foi fácil para aqueles que viviam à margem de uma sociedade patriarcal e materialista, cuja classe dominante fazia questão de diferenciar uns aos outros pela cor de pele. Não importa se determinado sujeito havia sido bom homem ou excelente rapariga conquanto fosse escuro como a noite ou tivesse um pigmento de pele que fugisse à branquitude alheia. A segregação existia e era forte. É de rir pensar em tais questões porque, vejam, eles eram a minoria... e mesmo assim dominavam todos os outros. O exercício do poder é enganador e não se faz apenas através de espadas, mas de línguas. 

Pois bem, prosseguimos. Meu pai, como havia dito, era um poderoso homem que concentrava em suas mãos as terras herdadas de seus ancestrais. Estes, por sua vez, vieram da França e faziam parte de uma aristocracia decadente (os mais espertos verão aqui uma ligação do passado com meu "presente", e eu rirei disso porque é verdade, não existe acaso quando se trata das aplicações das leis do Grande Pai). Podem imaginar como tudo se prosseguiu: vidas inocentes foram ceifadas, sangue foi derramado até que a conquista houvesse sido bradada para o mundo. Minha mãe, por sua vez, vinha de uma família de curandeiros da Serra Leoa, cultuavam seus próprios deuses, e faziam lá seus próprios feitiços. Não vou mentir: a mulher era conhecedora do vudu. No entanto, o vudu não era nada disso do que o estereótipo contemporâneo possa pintar aos olhos modernos: não se tratava de vingança, de espetar uma agulha no boneco e rir como um louco à espera da consumação de ódio fútil. Reverenciava-se a herança ancestral, os ensinamentos que, do outro lado (que, hoje, sabemos se tratar do plano espiritual), eram passados aos descendentes com respeito e serenidade. A magia estava nos mínimos detalhes, no equilíbrio com o qual se tratava as forças da natureza. Como sabem, porém, a História tem cor de pele e é escrita de acordo com os vencedores. Não me interpretem mal: o caráter espiritual não possui sexo, gênero, o que quer que seja. Um negro também pode ser um tremendo filho da puta, não é mesmo? Contudo, naqueles tempos, o privilégio e a dominação eram praticadas por outro grupo e, infelizmente, a distinção cabe aqui ser ressaltada. 

Minha mãe se chamava Sh'la (ou, em um português mais familiar, pode-se traduzir para Sheila) e ela teve uma infância relativamente feliz até ser capturada e separada de seus familiares. Cercada por estranhos, foi enviada por um navio negreiro onde seria escravizada por um senhor qualquer. Este homem não esperaria ela crescer para que pudessem ter relações: Sh'la era bela demais para ser poupada das crueldades de um espírito embrutecido. Apesar disso, refugiou-se em sua fé e quando me deu à luz, seu mundo parecia ter saído da escuridão. Ela mesmo me dizia isso: curiosamente, meu nascimento representou o falecimento para o outro. Em meio à rebelião, os companheiros de Sh'la gritaram por vingança. Ou justiça. E meu pai, ou aquele que me gerou, desencarnou. Como era de se esperar, foi um desencarne muito perturbado. Ele não aceitou a morte, e sua aura já era inteiramente preta. Saiu apenas recentemente do umbral e o que posso dizer é que arrependimento sincero pode curar as pessoas se elas desejarem. Mas adianto que ele reencarnará em outro planeta porque aquela encarnação ele desperdiçou, ou não soube aproveitar tanto quanto deveria, e agora cabe melhorar em circunstâncias mais difíceis. 

Sh'la se responsabilizou pela minha educação. Em meio ao caos que os escravizados se elevaram contra seus senhores, ela preocupou-se em levar-me o mais longe disso tudo. Através de contatos, conseguiu se estabelecer no interior da capital. Lá, fui criado conforme a fé nos deuses (orixás) antigos, também aceitando os novos. Aprendi sobre magia, escutei histórias que minha mãe surpreendentemente soube guardar em sua memória (embora deva ressaltar que seus guias espirituais a tenham auxiliado neste processo). 

'Osún está conosco', ela me contou uma vez. Possuía a vidência. 'Vejo-a sempre, envolta em uma forte luz amarela.'

'E ye'san'babá?' Questionei, referindo-me à Yemanjá. 

Minha mãe, de sorriso fácil e olhos castanhos claros, me fitou amorosamente. Seu cabelo havia crescido, mas ela o escondia sob uma turbante, não sei por que. 

'Ela o acompanha, meu filho.' E, assim, ela me contava os mitos divinos e eu ouvia com muito deleite.

À época, não falava francês ou espanhol, mas a língua materna de minha mãe. Nossos companheiros, irmãos, vieram de Serra Leoa também e, juntos, praticávamos o antigo dialeto. Por um tempo, estava tudo em paz. Sh'la superou seus traumas passados e casou-se com J'olo. Foi uma união feliz. Mas eu crescia, e velhos hábitos não são facilmente sepultados.

'O que há para lá na capital?' perguntei. Já contava vinte verões, era alto, de pele doce-de-leite e olhos verdes. Gostava de manter a cabeça raspada e usava roupas largas. Não raro, era visto descalço e, de vez em quando, envolto em joias. 

'Franceses', ela respondeu e eu detectei o desprezo em sua voz. 'Por que a pergunta, filho?'

Dei de ombros, mas não consegui enganá-la. Um arquear de sobrancelhas e eu disse:

'Queria conhecer lá. Não pode ser tão ruim.'

'Você não conheceu a ruindade dos franceses', disse-me ela, simplesmente. 'Poupei-o disso depois da revolução.'

Algo dentro de mim não gostou da resposta.

'E o que a revolução nos trouxe de bom?'

Sh'la me encarou. Seu sorriso maternal agora era um resquício do que havia sido.

'Liberdade, Josué. Não percebe?'

'E o que a liberdade tem de tão valoroso, mãe?' Retruquei, sem medir as palavras. Tolo, eu era. 'O tédio predomina e só conhecemos a pobreza.'.

O lábio inferior de minha mãe tremeu, e eu percebi, tarde demais, que havia faltado com o respeito. Ela logo me deu um tapa no rosto. Merecido, reconheci.

'Como ousa? Tantos de nossos irmãos não possuem teto, sequer há o que comer! Deveria ser mais grato! Não lhe dei a vida para ser tão mesquinho!'

Eu queria discutir, era uma ânsia de ter a razão e prevalecer cujas origens desconhecia. Mas seu rosto permanecia alerta e bravo, e assim dominei meus instintos bárbaros... porque ela era minha mãe. E sua autoridade eu deveria prezar.

'Perdão', disse eu, sem saber se estava sendo sincero de fato.

Mas ela tomou minha mão na dela e me levou para o lado de fora. Nossa casa era simples, de madeira, e não havia quase nada lá. No entanto, ao sairmos dela, estávamos em constante contato com a natureza. E isso nos bastava.

'Eu por muito tempo me infligi a cegueira', Sh'la me contou, me levando para um passeio pelos "jardins". 'Tive muita paciência para tudo o que aguentei, embora meus pensamentos, às vezes, me levassem a imaginar situações onde eu não existiria mais. Sim, sofri e não nego, nem pretendo me apegar a esta vida que, hoje em dia, me é tão estranha. Pensei que, poupando-o disso tudo, estaria o salvando. Mas o tempo todo eu me acostumei com isso. Com o amor, com a vida doméstica. Não tive pai, nem mãe, não conheci o amor. Fui um objeto, um nada por muito tempo. Que Osa'l'a me perdoe, mas guardei ressentimento deste povo que deseja ardentemente conhecer. Não consigo conceber isso, filho. Sou falha como ser humano, mas...Não entendo isso. Talvez eu não tenha sido mãe adequada...'

Seu relato me tocou profundamente e, arrependido verdadeiramente do que passava comigo, a abracei. Ouvi-a prantear, soluçar e pôr para fora a dor que por longos anos aprendeu a conviver, a esconder, a conceder. Fechei os olhos e fiz uma prece sincera ao Grande Pai para que isso tudo melhorasse. Mas demoraria ainda antes que isso acontecesse.

Para agradá-la, naquele mesmo dia juntei os irmãos, nossa família, à fogueira. João foi o responsável por tocar o atabaque. E incitei-o a fazê-lo enquanto cantava louvores em alto ao bom som. Sempre gostei de dançar e quando me apresentei à mãe, chorei porque ela sorria. Reconectamo-nos e tudo parecia bem outra vez. Venci os instintos de outrora.

A felicidade terrena, porém, não dura para os errantes e isso era o que havia sido, portanto, ainda precisava pagar pelo mal que fiz. Não gosto de me demorar nesta questão, portanto, serei breve: houve um massacre. Os franceses desejavam subjugar-nos todos outra vez. Aquela noite foi memorável, mas igualmente triste. Minha mãe, pobre alma, desencarnou prontamente, mas sem sentir a dor da bala trespassando a carne. Mais tarde, no plano espiritual, ela me reencontraria com alegrias no rosto e disse que aquela vivência, por difícil que houvesse sido, foi significativa porque sua última batalha contra os resquícios passados fora vencida. Desde então, Sh'la não precisou encarnar mais. Atualmente, encontra-se encarnada em Júpiter, em sua missão designada pelo Alto. O mesmo se possa dizer de seu esposo, quem pouco mencionei aqui, mas por não ver necessidade disso. 

Embora nascido em liberdade, quão irônico seria admitir tê-la deixado escapar por meus dedos! Fui levado escravo para o centro. Dali, ouvi dizer, pretendiam enviar-me para o Caribe ou, por que não, de volta à França. Ainda que repudiasse meu pai de nascença, algo em sua ancestralidade europeia me chamava a atenção. Desejava retomar o poder perdido há tantas encarnações. Contudo, não era para ser assim: e eu aprenderia a ser humilde da pior maneira.

Passei cinco anos em uma prisão qualquer. Confesso que nos primeiros meses, desejava vingança. Mas não seria assim que a banda tocaria. Vivi com remorso, por ter desprezado os ensinamentos de minha mãe. Toda a noite, ela me visitava, acompanhada de Osún, e eu pranteava em dor. Ainda me recordo das palavras da deusa:

'Desejeis o que não possuístes, e agora quereis possuir o que perdestes. O mundo não é um brinquedo com o qual podeis manipular à vossa vontade. O tempo não se curva ao vosso poder, que, digo, não lhe pertence mais. Pretendeis persistir no erro, Joseph? Desonrarás a memória da mãe que vos amou e cuidou a despeito de tudo para alimentar a vaidade que um dia vos cegou?'

Dali em diante, substituí os pensamentos de vingança por preces. Foram anos complicados, de fato. Sequer bebia algo, comia o que tinha, e os que me vigiavam--companheiros de minha própria cor, vejam só!--... bem, eu dependia de sua vontade. Um dia, porém, a cela se abriu. Um francês da mesma pele que eu me fitou e falou, em língua que pude entender:

'Você. Como chama?'

'Joseph', falei. 

'Filho de...' ele citou o nome do meu pai. Eu confirmei. 'Ilegítimo, uh? Mas, serve. Levante-se e venha. O coronel deseja vê-lo.'

Aquele era um homem caucasiano de faces rosadas e olhos cansados. Experiente em batalhas, agora servia a alguém chamado Napoleão. 

'O imperador precisa de soldados', ele me disse. 'Sabe lutar?'

Não pensei duas vezes. 'Sim.' 

O velho me fitou com desconfiança, mas enxergou o desespero pela liberdade. Deu de ombros e disse:

'Que seja. Será enviado à Nápoles para servir a rainha e em seguida partirá à Paris.'

Hesitei. Embora uma parte de mim celebrasse aquele retorno, eu pressentia que algo ruim vinha como se fizesse um pacto com o diabo.

'Pretende permanecer aqui?' 

'Não, senhor.'

'Então, vá.'

Com isso, me despedi. Naquele dia, fiz amizade com Hughes, também bastardo de algum senhor de terras com uma ex-escrava. Seu cabelo era crespo, mas ao contrário de mim sua pele era mais escura. Usava com pompa o uniforme militar francês. 

'Sei que não sabe nada de guerras', ele me disse, me entregando uma pistola e uma espada. 'Deve saber manusear os dois se pretende sair ileso dos conflitos que iremos enfrentar.'

Tomei os objetos em minhas mãos, mas o encarei com desconfiança.

'Por que quer me ajudar?'

'Simpatizei-me com você', ele respondeu, friamente. 'Além do que, não me parece que gostava de sua situação ali.'

Era estranho ser livre outra vez, embora pensasse que agora servia a um senhor mais poderoso: o imperador da França. Apesar da pompa que isso pudesse soar, eu me sentia cada vez mais inclinado para a vida religiosa. No decorrer daquele ano, fui educado para o catolicismo, e ainda que não esquecesse os deuses de minha mãe, via-me ainda mais inclinado a adotar os ensinamentos de Cristo. Não raro, apercebia-me confuso. Quem deveria adorar? A quem deveria rezar? Por conveniência, tornei-me cristão, mas a cada noite, minhas preces seguiam a um panteão que eu criei para todos que eu insistia adorar sem excluir um ou outro.

Na realidade, não cheguei a conhecer a rainha de Nápoles. Sequer pus meus pés perto do palácio onde as marionetes de Napoleão governavam (ou assim pensavam) uma das regiões mais ricas e belas da Itália. Foi um ensinamento, portanto: quanto mais perto a vida me levava à realeza, mais dura era a queda. Sofri preconceito de cor pelos colegas militares e, como resultado, me envolvi em brigas. A belicosidade ainda estava muito fixa em mim. 

Durante a estadia na região napolesa, aprendi a beber com os poucos amigos que fiz. Hughes era um deles. Aprendi canções vulgares sobre mulheres, mas nada me queimava a alma como a vodka. Ou o vinho. Quem sabe também o conhaque. Bebidas onde exorcizava meus demônios interiores. Um dia, o padre que acompanhava o exército sentou-se ao meu lado numa espécie de bar e disse:

'O que te passa, homem, para murmurar amargamente a cada gole de bebida?'

Dei de ombros. 'Por que te interessa saber, padre?'

Apesar da minha grosseria, o homem da Igreja em sua batina sorriu para mim:

'Porque é também filho de Cristo e eu quero ajudá-lo.'

Encarei-o, mas não vi nada de impuro em suas palavras ou no semblante. Seu rosto era fino, possuía poucos cabelos em torno da cabeça e em seus olhos acinzentados havia uma infantilidade que jamais vi em outro homem. Seu nariz era longo, possivelmente característica de quem descendia de judeus, italianos, gregos ou aos três. Não havia barba que cobrisse os lábios ou parte das faces, e sua magreza indicava que praticava o jejum com frequência. Ali estava um espírito puro diante de mim.

'Não mereço ajuda de ninguém', eu falei, e percebi que a verdade estava solta em minha língua. O sabor do conhaque tinha esse efeito, percebi com desgosto. 'Muito menos de Cristo. O que Ele fez por mim ou por você? Morreu na cruz, vai me dizer, e para quê? Continuamos pecando.'

O padre ignorou minhas provocações.

'Por que é tão duro consigo mesmo? A autopiedade não lhe faz bem, meu caro rapaz. E transferir o que quer que sinta para Cristo, Nosso Senhor, tampouco apaziguará a tempestade que o atormenta.'

Sentia-me irritado, mas, antes que pudesse me controlar, falei:

'Eu poderia ter tido uma vida boa, mas Deus não quis assim'.

'Deus? Ou você?'

Engoli em seco. Que língua afiada, eu pensei com raiva. Mas não respondi, e o padre se viu no direito de prosseguir:

'Nós temos o péssimo hábito de atribuir nossos erros, defeitos, ou mesmo atos ruins que cometemos à Deus. Achamos que Ele nos castiga ao permitir que determinadas atrocidades caem sobre nós. Quando não O culpamos, fazemos isso com o diabo. Mas eu lhe pergunto: se Deus e o diabo nos fazem de marionete, o que somos nós? Onde está a consciência que Lutero um dia pregou? Ou o perdão que Erasmo salientou? Deus não é Pai, não é amor e divino? Por que concedemos a Ele nossas faltas? Os santos erraram também, mas a cada erro, subiram em vida porque lhes foi ensinado o perdão. O amor. Deus.'

Quando ele percebeu que eu não bebia e, ao contrário, o ouvia atentamente, o padre continuou alegremente:

'Muitos se esquecem do livre arbítrio, meu caro. O caminho que vamos trilhar depende somente de nós. Dificuldades existirão, é claro. Cristo sabia disso quando ceou pela última vez. Ele reconhecia a traição de Judas antes mesmo deste ter pensado em articular tamanho perjúrio. O perdão a tudo isso prevaleceu. Precisa se perdoar pelo passado e seguir em frente.'

Quando me dei conta, me ouvi confessando:

'Não tive escolha. Não queria me tornar um soldado que se afunda na bebida, padre. Não era o que pretendia.'

'E o que você propunha-se a fazer?

Hesitei, mas falei antes que pudesse controlar:

'Seguir uma vida mais tranquila. Mas minha família foi tirada de mim e eu não consegui defendê-los.'

'Compreendo', e ele de fato compreendia. 'Entrou na vida militar para vingar-se, não é mesmo? Se não dos que causaram infelicidade a sua família, mas a si mesmo por ter falhado em proteger os que amou. Não precisa seguir na violência, meu caro, não mais.'

Eu ri. O padre sorriu, e eu fiquei zangado porque ele não se sentiu ofendido. Por outro lado, o que eu pretendia com aquilo tudo?

'Estou perdido', admiti, sem orgulho algum. 

'E não há nada de errado em estar, filho. Mas Deus me pôs em seu caminho, e nem tudo está perdido. Na verdade, nós nos encontramos.' E com um sorriso que se alargava nos lábios, ele se levantou e me ofereceu o braço. 

'O que...'

'A taverna, a prostituição barata... Não merece isso', ele disse tão bondosamente que eu comecei a chorar. 'Ah, venha, filho. Vamos à casa de Deus. Ele os chama'.

E foi ali que minha vida mudou. 
*                                                                            *                                                                    *

Mais dez anos eu passei em serviço, desta vez em um mais pacífico. Rio só de recordar, porque é curioso como um rapaz perdido, ex-escravo (de certa maneira), ex-prisioneiro, tornou-se um soldado qualquer e... adotou o celibato. Oh, sim! Percebo que em vocês, leitores, há um riso fácil. Não os julgo, é engraçado pensar um militar sério e que combateu em algumas guerras aqui e acolá tão abruptamente devoto a Deus, pacificamente.

Padre Mattio me levou à ordem franciscana em Pádua, e lá permaneci até meus trinta e cinco anos de idade. Não foram anos fáceis, ao contrário do que possam supor. Sofri com a abstinência do álcool, arranjei brigas, uma nova rotina foi desafiadora para mim e os noviços que tinham a missão de me educar para Cristo. Não raro, era comparado à Paulo, o Apóstolo, por compartilharmos temperamentos complicados. Contudo, o padre franciscano foi o meu principal mentor naquela vida terrena e com muita paciência impediu que fosse expulso de lá. Ele levava a simplicidade e o voto de pobreza de São Francisco à sério. 

'Ele ensinava bastante sobre o desapego ao material', ensinou-me o padre italiano em um desses dias em que conversávamos. 'Seu voto de pobreza não se tratava apenas de despir-se do ouro que cobria suas vestes e ignorar o passado mundano. Não era ser miserável e pedir esmola que ele tanto falava. Mas ser humilde. Reconhecer os erros, pedir desculpas mesmo que pelo outro. Lavar os pés daqueles que nele pisavam. Hoje em dia, penso que não devemos aceitar cegamente as humilhações impostas, mas antes de questioná-las, pensamos: sou merecedor da paz que busco?'

Contemplando aquelas palavras, eu me ouvi dizer:

'Por que Deus permite a riqueza, padre?'

O padre me sorriu. Faltavam-lhe alguns dentes naquela época, mas não lhe pareciam fazer falta.

'Para que os ricos sejam humildes e aprendam a compartilhar o que lhes foi concedido', disse ele com sabedoria. 'Da mesma maneira que permite a pobreza, para que o homem seja obstinado. E humilde. A caridade deveria ser praticada por ambos neste sentido, mas o orgulho, como conhece bem, corrompe o melhor dos sujeitos, temo dizer.'

A isto, nada disse, e em silêncio ficamos até que eu disse:

'O livre arbítrio, não é? Fazemos mau uso dele, sem pensar nas consequências.'

'Parece que aprendeu.' Ele aprovou, mas eu não tinha tanta certeza disso. 'Para tudo nesta vida, meu caro Joseph, há resultados com os quais devemos arcar. A impulsividade pertence ao animal, e nós somos racionais. Possuímos cérebro e deveríamos fazer bom uso dele.'

Sorri quanto a isso. Minha mãe gostaria daquele sujeito, pensei.

'É possível melhorar, padre?'

Como se estivesse aguardando aquela pergunta e já houvesse uma resposta para ela, assim me foi dito:

'Santo Agostinho foi um libertino antes que as preces de sua mãe, Santa Mônica, o houvessem definitivamente convertido à luz do Senhor. E ele é um santo, veja bem.'

Meu sorriso se estendeu em meus lábios e o padre pareceu aprovar a linha de raciocínio que se formava em minha mente.

'Faça bom proveito do livre-arbítrio, meu filho, e a fortuna o acompanhará.'

Até os trinta e cinco anos, aqueles conselhos me serviram bem. Na verdade, eu gostei bastante de ter me tornado não um padre, na realidade, mas um frade franciscano. Apreciava pregar e, continuamente, me esforçar em praticar aquilo que dizia. Testemunhei práticas de corrupção, e não hesitava em denunciá-las. Mas só era tolerado porque o padre vivia e ninguém contestaria a santidade daquele homem. Entretanto, no momento em que ele deu seu último suspiro, o céu fechou as portas para mim e o inferno parecia se anunciar a qualquer instante.
*                                                                             *                                                                              *
O que é a história de um homem sem o amor, não é mesmo? Durante aquela existência, conheci diferentes tipos de amor: o maternal, paternal, fraternal e mesmo espiritual. Todavia, me havia poupado do carnal. Apesar de ter tido uma juventude libertina e passada complicadamente nos campos de batalha, minha companheira constante não era a cama aquecida de uma mulher, mas a bebida. Entrementes, uma vez feitos os votos franciscanos, esforcei-me cotidianamente para superar esse vício. Como falei, não foi fácil viver uma vida acética e moral. Apesar do auxílio e da educação recebida pelo padre Mattio, ali foi tão turbulento quanto na prisão ou ao lado dos companheiros de batalha.

Na maturidade, porém, sucessivamente dominei estes resquícios passados e subjuguei a tristeza. Encontrei consolo nas preces e até felicidade no que fazia. Ser frade não era mais um pesar, um refúgio, mas uma alegria. Estava contente, mas o grande teste viria na pessoa de uma mulher que me acompanha há muito tempo (se vocês compreendem o que quero dizer). 

Joana era uma camponesa italiana que sentia uma grande afinidade com os ideais de Francisco de Assis e Antônio de Pádua. Embora não possuísse dinheiro, o que detinha consigo ela oferecia ao monastério o que possuía. Como era apadrinhada pelo padre Mattio, seus esforços eram bem recebidos. Ouvia dele sempre elogios daquela moça simples, de cabelos dourados como o sol e faces rosadas. Mattio falava dela com admiração e não raro sugeria uma vida de monastério para ela. Mas Joana recusava. Dizia que, por maior que fosse seu amor por Deus e pelos santos que inspiravam nela a mais sincera devoção, não deveria negligenciar seu dever para com os pais, que ansiavam em casá-la bem.

Quando Mattio adoeceu, foi Joana quem veio lhe auxiliar na cura. Sua aptidão (na verdade, mediunidade) era admirável e mesmo os padres que reprovavam tal gesto, eram forçados a admitir a expressão da divindade ali. Apesar disso, era hora do desencarne daquele que, na verdade, um dia fora o companheiro do próprio Santo Antônio. Coincidência ou não, no dia 12 de junho, ele se fora. 

Inocente que era, Joana, de bom e puro coração, pranteou a perda de seu padrinho e eu, embora embasbacado por ter notado sua beleza juvenil, procurei consolá-la. A sensação era de que sua luz iluminava meu caminho e um tolo poderia ter sido cegado, mas não eu. Lutei contra minhas trevas interiores para que pudesse desfrutar de seu sol.

'Minha senhora', eu falei, 'deve deixar que os frades tomem conta agora. O corpo há de ser velado e apropriadamente enterrado.'

Mas ela estava inconsolável. 'Eu... Eu tentei!'

Um homenzinho de má fé aproveitou-se da situação e, tendo deliberadamente ouvido mal o que ela falou, exclamou:

'Uma bruxa não poderia ser capaz de grandes feitos, não é mesmo? Deus o salvou de você!'

Pobre Joana soluçou e caiu de joelhos. Quanto a mim, não dei ouvidos à boa razão e dei um soco na fuça daquele falso franciscano. Os outros presentes correram em seu socorro, é claro, e não demoraram a me acusar de auxílio à heresia. 

'Recordo-me de Joana d'Arc', ousei dizer, já versado nas histórias bíblicas, embora a dama em questão não houvesse sido canonizada ainda. 'Ela foi queimada pela própria Igreja por ter recebido visões de santas respeitáveis. Pergunto-me se não invejam o favoritismo que Deus concedeu a esta jovem na tentativa de curar nosso amado e finado padre, já que estão perdidos numa soberba que os conduzirá a cometer o mesmo erro de outrora?'

Rosnei protetivamente e, por ora, aqueles cães falsos se afastaram. Não é de surpreender que houvessem se ofendido com o que falei, afinal, eram reencarnações dos que julgaram e condenaram a santa em questão. Mas, enfim, prossigamos.

Depois desta confusão, conduzi a dama Joana para os jardins do monastério e ali a consolei apropriadamente. Uma vez dominada sua tristeza, ela me encarou e sorriu:

'Obrigada por ter sido tão gentil comigo. Ajudou-me mais do que pensa imaginar. Não merecia esta comparação com a formidável Joana, a donzela, de quem recebi o nome'. E ela corou. 'Mas agradeço, senhor.'

Sorri e foi neste momento que, sob os raios de um sol escaldante, eu percebi a natureza dos meus sentimentos. Mas fui sábio em mantê-los sob o controle, não somente por desconhecer a reciprocidade da parte de Joana, e sim pelo voto que fiz quando me juntei à ordem franciscana. No entanto, o conflito dava-se início e eu a amava.

'Sua humildade é muito inspiradora', eu disse, e era verdade. Repensava minhas ações e sentia vergonha do meu passado, mas, assim como Santo Agostinho, desejava melhorar. Contudo, sendo Joana o objeto de minhas afeições, pretendia fazê-lo por ela acima de tudo. E, no entanto, pairava a pergunta: eu seria merecedor do amor daquela jovem? Repreendi-me mentalmente por tais pensamentos e prossegui, como se nada acontecesse. 'Rezarei pela senhora e pela alma de nosso finado amigo, padre Mattio. Não carregue aflições desnecessárias, eu peço, dama.'

Joana me sorriu e era como se Deus houvesse permitido contemplar o caminho da luz. Senti-me emocionado e ela percebeu, pois disse:

'O que houve? O que o aflige, meu caro frade?'

'Nada', menti. 'Apenas estou agradecido por tê-la aqui, senhora. São tempos difíceis, mas penso que sobreviveremos a isso'.

Eu não sabia que aquilo seria outra mentira. Nápoles, em breve, seria novamente invadida pelas forças napoleônicas, e seus monarcas seriam depostos. Prenúncios de uma guerra e, com ela, doenças, pairavam ameaçadoramente no ar. 

Apesar disso, fazia questão de auxiliar dona Joana enquanto pude. Por mais intolerável que fosse ouvir picuinhas de alguns colegas, perseverava no exercício da paciência. Vê-la alegrava meus dias e a paz era como o alimento para meu espírito sempre que nos juntávamos para rezar na capela. No entanto, nem mesmo seus pais aprovavam a constante companhia que fazia a ela. E um dia, sua mãe, dona Sophia, veio a mim dizer:

'Ora, frade, tenho certeza que outras pessoas precisam de sua ocupação.'

A leve repreensão à negligência de meus deveres causou-me rubor e eu não consegui sustentar o olhar. Nesta época, era um tolo de quase quarenta anos. Provavelmente não possuía certa maturidade para conduzir determinados assuntos, mas penso que poderia ter sido pior. Fiz o que pude, digo. 

'O que a senhora quer dizer? O padre Mattio permitiu que ocupasse a posição que ele vagaria assim que morresse', falei, sem medir palavras como de costume.

Dona Sophia me encarou com seus olhos azuis. Fora bela na juventude, mas agora a velhice havia lhe alcançado, deixando-a igualmente temperamental e sem paciência para lidar com a vida que tinha. Resquício de um espírito orgulhoso que não aceitou sua encarnação.

'Sim, mas...' ela hesitou. 'Ela não pode seguir uma vida monástica, senhor. Chamou a atenção do irmão de um nobre e o casamento será bom para nós.'

Senti um aperto no coração e uma tristeza que fazia tempos não sentir. A raiva pulsava em mim, motivada pelos ciúmes. No entanto, eu mesmo me recordava do voto que havia feito. Lembrava dos sacrifícios de que fizera Santo Agostinho quando se convertera para a vida monástica. Embora não cultivasse nenhuma pretensão a algum cargo hierárquico na igreja, tampouco pensava numa vida sem ela. 

'Compreendo', foi o que eu consegui dizer. 'Deixarei-as, portanto. Que Deus as abençoe, senhora.'

E assim, parti. Não pronunciei aquelas palavras com rancor ou raiva, sequer tristeza ou lamento. Desejava mesmo que o Grande Pai as abençoasse, não havia por que nutrir sentimentos ruins. Percebia que a vida me ensinava a despojar-me deles e eu, ansioso por me livrar daquilo que me incomodava, aceitava prontamente.

Mas a partida não seria fácil como gostaria. No dia seguinte, foi Joana quem me procurou em pessoa. Para minha surpresa, e na mesma medida o deleite e a tristeza, descobri que ela retornava meus sentimentos.

'Não permita que eu me case sem amor', ela implorou e isso me causou grande dor. 'Por favor, senhor. Sei que sente o mesmo que eu, não acredito que Deus nos tenha aproximado somente para causar uma ruptura tão... tão... drástica.'

Estávamos nos jardins, mais precisamente em uma capela que havia por ali, onde ninguém nos incomodaria. Como testemunha, Nossa Senhora nos observava de seu altar. E, claro, acompanhava-na São Francisco, suas imagens belamente talhadas (ainda que não fizessem justiça a quem haviam sido em vida, de fato).

'O que está me dizendo, minha senhora?' eu me ouvi balbuciar, como um tolo.

'Que eu o amo', ela professou seus sentimentos intensamente, seus olhos que refletiam a cor dos céus me miravam com tanto ardor que fê-me ruborizar. 'E peço aqui e agora que quebre seus votos para desposar-me. Tenho certeza de que...'

'Joana.' Eu a interrompi gentilmente e pus um dedo indicador sobre seus lábios macios e doces que, para minha consternação, não viria a senti-los. Minha garganta secou e se a morte me levasse naquele instante, abraçaria-a de bom grado a ter de enfrentar tal dissabor. 'Não posso permitir que faça isso, como me recuso a quebrar os votos. O matrimônio é santo perante os olhos do Senhor, e embora concorde que deva ser feito por amor, eu não posso voltar atrás ao que fui.'

Seus olhos enchiam-se de lágrimas e senti o lábio inferior tremer. O reflexo da dor que eu sentia, diante de mim. Mas precisava ser firme em minha decisão, por maior que fosse o remorso que aquilo me causaria. Negava uma oportunidade de grande felicidade para viver uma vida acética, guardando apenas uma vaga intuição de que deveria me limpar dos pecados, desconhecendo-os que fossem, porém.

'Perdoe-me. Sabe que eu a amo e sempre a amarei, nada me agradaria mais do que acordar todas as manhãs ao seu lado, mas...' e eu limpei a garganta, rezando para encontrar forças. 'mas não posso. Sinto muito.'

Joana, que sempre fora tão comedida e subserviente, religiosa e bondosa, permitiu que a intensidade com a qual vinha domando durante todo este tempo, tomasse conta de si. Fez o impensável e jogou seus braços ao redor do meu pescoço e envolveu-me em um abraço tão... tenro, tão gentil, que eu temi perder minha vitalidade naquele instante. 

'Eu jamais o esquecerei', ela jurou. 'Volte a mim, um dia. Esperarei por você.'

Um único beijo e nos separamos. Foi a última vez que a veria em vida.
*                                                                                *                                                                      *
Por cinco anos, fiz um voto de silêncio. Expulso da ordem que, infelizmente, havia sido corrompida pelos valores materiais, decidi caminhar à pé pelo interior da península itálica. A fim de me purificar dos pecados da carne e de me libertar de toda a dor que tais me impuseram no espírito, segui em peregrinação, rumo à Roma. 

Ainda que me recusasse a falar, havia outras formas de comunicação e nesse sentido, interagi com outras pessoas. Aperfeiçoei-me na arte da cura, e foi quando me recordei de minhas origens. Ex-escravo. Ex-prisioneiro. Quase um monge? Quem diria! Outrora um bêbado, aos poucos me voltava para a fé em Cristo na mais pura essência. 

Todavia, quando soube, de alguma maneira, que Joana havia morrido dando à luz a um menino que recebeu meu nome, meu coração se partiu irremediavelmente. E não soube suportar mais viver seja em Roma, seja em qualquer outro lugar. Mudei-me, portanto, para onde tudo começou: Serra Leoa. E lá, tudo foi voltando... 

Recordo-me de ter visto Osún no rio e ouvir dela:

'O que pensais depois de tudo o que vivestes, caro Joseph?'

Com um suspiro, encarei aquela bela mulher negra envolta em túnicas douradas e respondi:

'A liberdade não é nada sem o amor, minha senhora. O livre arbítrio é insignificante sem a fé.'

E sem esperar uma resposta, chorei. O único som na natureza, além do rio que corria tranquilamente, era de minhas lágrimas. Osún se aproximou de mim e, mais suavemente, disse:

'Aprendeis o que tinha de aprender. Por triste que tenha sido a jornada até aqui, carregais a cruz adequadamente. O Grande Pai conhece vosso coração. Não vos prenda à tristeza porquanto a eternidade o aguarda de braços abertos. Liberte-vos de vossa infelicidade, meu amigo. Está na hora.'

Com serenidade, cessei o choro. Acompanhei Osún ao rio e ali mesmo desencarnei. Foi como dormir, um sono curativo do qual despertei-me com alívio ao chegar ao outro lado. Minha mãe e minha amada Joana receberam de braços abertos. E, como minha mentora havia instruído, finalmente fui recompensado com a alegria infinita.

Fim."

Nota do espírito Zé: meus sinceros agradecimentos à médium por ter transcrito esta memória para os leitores que se dispuserem a tirar um ensinamento desta minha vivência. Aprendi tanto que, com a permissão divina, pretendia compartilhar o conhecimento adquirido naquela encarnação. Atualmente, sigo atuando tanto na linha kardecista quanto na umbandista, e creio que os mais atentos poderão constatar isso com mais "facilidade". Independentemente da linha espiritual atuante na Terra, é meu dever trabalhar junto aos que precisam, afinal, a caridade não cessa no desencarne: ao contrário, é reforçada. Por este motivo, recusei outras oportunidades de encarnar não somente aqui como em Marte ou Júpiter, ou mesmo em outra dimensão, porque creio ser mais útil no auxílio dos que precisam. Ainda preciso melhorar muito e é por isso que prossigo neste trabalho através da espiritualidade, sendo um mensageiro da paz, da caridade, e, claro, do amor como Cristo nos uniu. Mais uma vez agradeço, e para os que precisarem, pela prece atenderei.  
Com carinho, 
Zé Pelintra.

quarta-feira, 4 de março de 2020

A Queda do Orgulho (parte II)

Nota de Ogum: Cecília havia reencontrado o filho e à sós foram deixados. A respeito disso, deixarei que ela se manifeste aqui a fim de prosseguirmos com sua reconstituição dos fatos para vosso melhoramento.

"Pois bem. Com vosso instrutor vos dissera, sigo de onde parei. Reencontrar meu filho George foi um deleite que poucas palavras poderiam transmitir tal sentimento. Ele parecia bem, usava branco e continuava como me lembrava dele em vida: alto como o pai, de cabelos castanhos que, à luz do sol, pareciam quase adquirir uma cor mais ruiva, olhos curiosos e lábios que repuxavam no sorriso cativante do menino que um dia havia sido meu filho.

'Pensei que a senhora fosse me receber com mais afeto', ele fingiu reclamar e eu, uma vez recuperada de meu estupor, corri para abraçá-lo. Naquele instante, pranteei por tudo pelo qual passamos, mas mais ainda pelo reencontro feliz. Deus havia escutado minhas preces, afinal. E eu percebi com mais ardor o quanto fui desonesta comigo mesma em vida, quão orgulhosa fora e tão enfeitada pelas vaidades estava. 

'Meu menino', eu murmurei. Sei que a História me acusa de tê-lo favorecido sobre todos os outros, mas isto é uma inverdade que deve ser contestada. Amei todos meus filhos igualmente, apesar de nossas respectivas faltas. 'Como tem passado? Tenho tantas perguntas.'

'O que importa é que estou bem', ele me assegurou, transmitindo uma paz que há tanto não sentia, muito menos vindo dele. 'É estranho conceber isso porque sofri um bocado também, e não digo pelas circunstâncias de minha morte, mas na posterioridade. Entretanto, apesar de ter me custado a admitir meus erros, uma vez que me libertei deles, tudo ficou mais claro. Estou me preparando para regressar à vida terrena novamente, senhora mãe.'

Encarei-o com perplexidade. Ainda que estivesse confusa quanto ao que ouvia, estava apreendendo a doutrina da reencarnação. E George... meu George... ficaria longe de mim novamente. Como ele poderia estar tranquilo quanto a isso? Como se estivesse lendo meus pensamentos, ele disse:

'Não se aflite sem necessidade, mãe. Preciso remendar as faltas, e expiá-las em outra existência.' E, com relutância, acrescentou: 'Edward está se preparando para voltar também. Isto precisa ser feito, já se passou tempo demais e agora que entendo melhor sobre tudo isso [a vida espiritual], não desperdiçarei oportunidades para meu melhoramento.'

Se estivesse em corpo, poderia ter a certeza de que desmaiaria naquelas condições. E, entretanto, sentia espasmos no espirito. George franziu o cenho diante do que via, uma mulher que passava mal. Ele me pôs a sentar na cadeira mais próxima.

'É tudo novo para a senhora agora, depois da existência que teve lá. São muitas informações, eu sei, mas aqui você será doutrinada apropriadamente. Estamos em uma colônia espiritual, mãe, onde há espíritos amigos que nos conhecem de outras vidas, que nos acompanham e velam por nós. É aqui que seremos curados do que fizemos, ensinados a respeito das leis divinas (as verdadeiras leis, mãe, não as que nos ensinam lá na Terra), enfim, até que possamos seguir em frente de fato e trabalhar aqui ou voltar lá. Depende de nosso merecimento, é claro, mas nada é tão rígido e culposo como se possa pensar.'

Ainda não sabia o que dizer, sendo assim, ele continuou:

'Quando eu desencarnei, sentia ódio por meu irmão. Não nego isso. Ciúmes, inveja e raiva enraizavam em mim como o caule de uma árvore. Pode imaginar a frustração quando constatei que permanecia com a cabeça no líquido vermelho depois de ter sido afogado. Não compreendi de imediato, afinal, a aflição, o desespero de respirar permaneciam em mim. Sentia-me vivo ainda, e, pior, estava sozinho. Meus executores não estavam presentes, embora a Torre de Londres permanecesse a mesma quando a deixei.

Gritei de raiva, xinguei Edward. Afinal, pensei que tudo aquilo tivesse sido seu plano para que eu desacordasse, que sofresse e não morresse. E eu estava pronto a abraçar a morte. Mas pouparei-a de detalhes mais pesados, mãe, a senhora não merece ouvir isso. Suponho que tenha demorado o equivalente a 150 anos na Terra para aceitar ajuda dos mentores. Mas quando eles vieram, explicaram que eu havia colhido toda a maldade feita naquela existência. Tão logo me conduziram à verdade, aos poucos fui sendo esclarecido e curado do que fiz. Pedi perdão à Deus e aos meus guias. Embora eles se satisfizeram com minha sinceridade, precisava ir além das palavras e partir para a ação. Tudo, é claro, no devido tempo. 

Assim é que estou aqui, pronto para reencarnar. Fiz as pazes com Edward, mas precisamos superar as rivalidades de vivências pregressas, por isso outra encarnação se faz necessária. Não se culpe, mãe, a senhora fez o que foi possível. Devo desculpas pela discórdia que causei entre nós todos, espero que me perdoe por isso'.

Pranteei como devem esperar que havia feito. Meu orgulho se desmanchava, meu coração (figurativamente falando, é claro) acelerava. Tantas emoções me cercavam, confundindo-me lucidez que prontamente enfraqueci-me. Foi quando a porta se abriu e dois indivíduos, sendo eles um homem e uma mulher, entraram gentilmente. Colocaram-me numa maca e levaram-me para o hospital perto. Não sei ao certo como explicar-vos, dar detalhes sobre os edifícios e as casas desta colônia, nem aonde ela é situada...

[Nota de Ogum: são várias colônias espirituais situadas sobre o globo terrestre, cujas missões são levadas a cabo pelos espíritos mais puros. Nesse sentido, cada um o administra conforme a necessidade planetária. Muitos aqui podem identificar a colônia onde o espírito de Cecília foi cuidado como algo próximo do "Nosso Lar", esta aqui localizada sobre um ponto específico acima do Brasil. Não penseis que há grandes diferenças entre uma colônia ou outra como não há distinções de um espírito para o outro, isto é mais do povo terrícola que vê necessidade em hierarquias, posições e outras tantas denominações. A função de uma colônia espiritual é praticar aquilo que Cristo Jesus nos ensinou: a caridade, o amor ao próximo, a solidariedade sem esperar qualquer coisa em troca. É fazer tudo isso de coração aberto, estender a mão ao espírito errante e abraçá-lo, guiá-lo de volta à morada, aos braços do Pai. Nomes terrenos, posições ocupadas em encarnações não importam. Ao contrário, o que importa são as ações do sujeito em Terra e suas intenções. Como o filho de Cecília explicou, e conforme falei no "conto" anterior, a cura e a doutrina auxiliam no despojo de faltas pregressas para o melhoramento futuro. Portanto, a reencarnação aqui encaixa-se como expiação, missão ou mesmo provação de acordo com a necessidade espiritual. Cabe às colônias fazer este tipo de preparação, lembrando, entretanto, de respeitar o livre arbítrio. Por que cada entidade passa 150 anos no umbral como no caso de George ou quase 300 anos como foi com Cecília? Porque, meus caros leitores, isso depende não somente do avanço moral do espírito como também da escolha em permanecer na erraticidade. Nós, servidores da luz, não podemos obrigá-los a melhorar, a avançar, se assim não desejarem. É claro que, como vos instruiu Kardec em suas obras, este tempo eventualmente chega, pois nenhum espírito consegue permanecer rigidamente no erro, por brutos que possam ser. As colônias desempenham papel importante de auxílio, de socorro a estes sujeitos, independentemente do grau moral que possuem. Há uma literatura mais kardecista a respeito delas que vos recomendo para melhor compreensão. Aproveito para acrescentar que há colônias também em outros sistemas solares e mesmo em planetas mais avançados como Júpiter.]

Quando despertei, uma mulher de rosto angélico e em roupas brancas me espreitava. Não a reconheci de imediato.

'Quem é você?' perguntei, antes de perceber que estava em um quarto branco com poucas janelas que, no entanto, mostravam uma vista bela onde o sol reinava absoluto em um céu azul sem nuvens, seus raios iluminando o verde da grama e as folhas das árvores. Um jardim belo, pensei, antes que meus olhos se voltassem para aquela figura curiosa.

'Nomes não importam agora', ela me respondeu com tamanha gentileza que me surpreendeu. 'Como está, Cecilia?'

Senti meu rosto enrubescer (se é que assim fosse possível, pois eu estava morta) diante do reconhecimento de meu nome. Que esquisito, pensei.

'Bem', admiti com relutânica. 'Onde está George?'

'Ocupado', ela se limitou a responder e, diante da dor que estava estampada em meu rosto, a mulher disse: 'Importa-te tanto assim vê-lo?'

'É o meu filho', retruquei. 'É claro que sim!'

A mulher assentiu. Observando-a com mais atenção, notei que seus cabelos estavam presos em um estilo de coque que nunca vi antes na Terra. Parecia simples, pensei com certo desprezo. As mechas douradas apenas se prendiam umas nas outras em formato oval. Seu rosto, porém, era belo e limpo; as maçãs de suas bochechas eram altas, o nariz era longo e um pouco empinado, os lábios eram róseos e carnudos. Havia algo de timidez em seu semblante, mas seus olhos azuis-estrelados me fitavam com calma. 

'Está me julgando', ela comentou com um sorriso. 'A orgulhosa Cis, não era como foi chamada por seus detratores terrícolas? Ora, depois de tudo, abre espaço para o orgulho, Cecília?'

Encarei-a, perplexa. Como ela poderia saber...? Mas recordei-me do último encontro com meu guardião, e percebi que não o vira mais. Sentia sua ausência, mas contive um suspiro e me concentrei naquela mulher. 

'Perdoe-me', disse, e fiquei envergonhada ao perceber que sentia ainda relutância em me desculpar com os outros. 'Não estou acostumada com isso.'

'Sim, não está', ela concordou. 'E gostaria de se desacostumar?'

Relutei, mas não sabia por que relutava. Baixei o olhar, e, para minha surpresa, quando a mulher voltou a dizer, não havia julgamento em sua voz:

'Não precisa se sentir envergonhada, Cecília. É hora de encarar seus erros e não fugir deles, nem se colocar em posição de vítima. Ninguém aqui é melhor que ninguém. Aqui, onde está, não será julgada pelo seu passado. E é isso que foi sua última vida: passado. Não é possível alterá-lo, minha querida, por maior que seja sua vontade. O que podemos fazer, juntas, é aprender a partir disso.'

Levantei o olhar, sentindo-me acuada como se tivesse doze anos outra vez, amedrontada diante da possibilidade de ser a esposa de alguém (especificamente, um filho de traidor que meu pai havia acolhido).

'É fácil dizer isso', e por mais duras que as palavras que saíram de minha boca pudessem ter sido, eu falava com tristeza. 'Ninguém aqui errou tanto quanto eu'.

A moça deu um risinho, mas não havia desdém no som que saiu de sua boca.

'Todos nós carregamos um passado também e cada um sabe onde dói seu calo. Não cabe a ninguém julgar isso, menos ainda você. Compreende?'

Soltei um suspiro, me sentia cansada.

'Sim, acho que sim.' E então perguntei: 'O que está acontecendo?'

'Por muito tempo, ficastes sob as energias umbralinas. Seu estado de consciência quando desencarnou em fins do século XV era de um espírito amargurado pelas perdas sofridas, pelas dificuldades de um sobrevivente de uma guerra como fostes. Entretanto, foram necessários 300 anos, e não 200, como pensa, para que aceitasse a morte e que o motivo pelo qual havia sido "trancafiada", ou, em vossas palavras, "feita prisioneira" no local de vosso último nascimento, estava ligado às faltas pelas quais precisais depurar.'.

Ela prosseguiu com sua explicação:

'Vosso filho explicou sobre as entidades que vos acompanham, seja por afinidade espiritual, seja por outros motivos que não me cabem aprofundar. Em particular, há aqueles que, para aprimorarem a si mesmos tanto quanto desejam fazê-lo junto a vós, se propõem a protegê-los, a guiá-los, a aconselhá-los no decorrer de vossa encarnação. Jamais estivestes sozinha, Cecília. Guardastes em vosso coração ainda que ínfima a recordação de vossa última estadia no plano espiritual. Aos poucos, recuperais vossa memória e compreenderá melhor o que vos digo.

Quando finalmente aceitastes vossos erros e faltas, e submetestes à vontade do Pai Maior, vosso guardião foi o responsável por trazê-la acá. Apesar de uma reconhecível melhora, precisais ainda de repouso para restaurar vossas energias a fim de que possamos doutriná-la apropriadamente para o entendimento de vossas ações e o funcionamento das leis do Pai.'

Ponderei a tudo o que ouvi, mas permaneci confusa.

'Energias?' Indaguei.

A moça sorriu, benevolente:

'Tudo no seu devido tempo. O que posso adiantar é que as energias nada mais são do que resultado daquilo que saem de nós, de nosso perispírito, este envoltório que guarda a memória de vossa última encarnação. Sim, poderíeis agir como o homem que fostes na existência anterior, porém, em decorrência de seu avanço moral, não podeis fazê-lo ainda.'

Embora assombrada pela possibilidade de ter meus pensamentos lidos por uma estranha, eu perguntei:

'Que energias são essas de que faleis e que me levaram ao umbral?'

Ela pareceu pensativa por um tempo antes de responder:

'Energias provocadas por vossas ações e intenções. Quando guardou orgulho, vaidade, prestando-se a julgar-se superior ao próximo, dentre outras faltas que vosso guardião já vos informou, criou para vós um envoltório negativo. No entanto, como não fostes um espírito bruto e ignorante, guardastes o sentimento de piedade que fê-la repousar sobre suas ações. E como reconheceu que não havia nada que pudesse fazer para modificar o passado, o remorso caiu sobre vós, por isso experimentou o estado de desespero que vossa soberba provocou. Do contrário, não teríeis experimentado o que chamamos de umbral.'

Antes que eu a interrompesse, ela disse:

'Não pensais que fostes habitar no inferno. Tal concepção como fostes ensinada não existe: ela foi uma maquinação do Homem para controlar os mais fracos a fim de exercer poder um sobre os outros. A ideia de inferno como fogo e tortura nada mais é do que uma imagem que espíritos pré-cristãos trouxeram para suas encarnações enquanto cristãos, projetando, desta maneira, sua "inferioridade" espiritual, se é que possamos denominá-los assim. Particularmente, prefiro usar o termo "brutalidade", já que não creio sermos melhores do que nossos irmãos perdidos na ignorância'.

Aos poucos, juntava as peças e se eu me sentia aliviada por reconhecer a invenção de um inferno que eu temia, por outro lamentava permanecer naquela colônia. Através de percepções mentais (que vosso guia previamente explicou sobre como funcionam as comunicações espirituais), a moça previu o que formava em minha mente. Sem esperar que verbalizasse, ela disse:

'Aqui não é o purgatório, e este é um termo ambivalente que, no futuro [e ela se referia ao Kardec] próximo, será contestado. Também foi resultado da criação de espíritos brutos em um contexto brutalizado, que pedia por reformas humanizadas.' Ela sorriu. 'Cada tempo, cada necessidade.'

Assenti, perplexa. Tantas informações me deram dor de cabeça. Mas como poderia senti-la se eu estava morta? A moça riu e, novamente, respondeu:

'Insistíeis no princípio de mortalidade do corpo e, por conseguinte, da alma? Não veis que é o contrário que aqui acontece, Cecília? Vosso corpo findou-se, mas não vosso espírito que é imortal.' E aqui ela me explicou outra vez, ainda que brevemente, a doutrina da reencarnação. 'E não te afligíeis por sentir dores "como se estivestes viva". Isto é comum entre os espíritos em avanço moral'.

Se eu dissesse que não me senti ofendida ao ser vista como "inferior" ou alguém ainda avançando moralmente, estaria mentindo. O orgulho era como veneno e ele purgava cada força minha ao ponto de quase cegar-me. Fechei os olhos, e nada mais falei, esperando dormir. Enquanto isso, a moça cuidava de mim. Sua energia era boa e tranquilizava-me, quase como se me amparasse do sofrimento interno que eu passava.

'Tenho ainda umas perguntas', comentei quase timidamente. 'Poderia respondê-las?'

Embora estivesse de olhos fechados, pude ver que a moça sorria. Ela aquiesceu e eu prossegui:

'Onde estão meu marido, e meus filhos? Soube que Edward, o mais velho, está em processo reencarnatório.'

Ela pareceu ponderar antes de dizer, quase que cuidadosamente:

'Sim, ele está. Podereis reencontrá-lo em seu devido tempo, mas isso não cabe a mim dizer. Ele não se recordará, enquanto estiver em um novo corpo, de uma existência passada, mas isso não impede de visitá-lo durante o sono. Quanto ao seu esposo, ele também está em recuperação, mas não posso dizer mais que isso. No devido tempo, vocês se reencontrarão, Cecília.'

Assenti, mas ainda estava aflita. Apiedada, a moça acrescentou:

'Podeis reencontrar alguns membros de vossa família quando recuperastes, Cecília. Não será impedida disso, a questão agora é vosso estado espiritual que precisa de amparo. A outros filhos lhos será permitido reencontrar igualmente. Porém, como disse, tudo no  seu devido tempo.'

Aquiesci, mas não pude evitar a pergunta:

'Mas estão eles neste umbral também?'

'Não, Cecília.'

E eu sorri.

'Obrigada, era isso que eu desejava saber.' Mas antes que pudesse descansar, ouvi-me indagar: 'Como poderia chamá-la, senhora?'

A senhorita em questão disse-me, risonha:

'Sempre curiosa, Cecília! Deixe-me ver... Aqui me chamam de um nome, mas creio que um mais familiarizado para contigo seria Philippa.'

Abri os olhos e a encarei, entre confusa e perplexa:

'Philippa?'

Ela sorriu:

'Sim, por que não? Tantas perguntas, tantos indagamentos. Vamos, Cecília, não é hora disso. Descanse.'

Encarei-a novamente, mas fui tomada por um cansaço e achei melhor não discutir. De repente, a familiaridade tão calorosa me acalmou os espíritos e adormeci.

*                                                                                 *                                                                           *

Quando despertei, ainda me achava no quarto branco. Curiosamente, percebi que, a despeito de tudo que me era estranho, permanecia algo familiar no ar. A moça que cuidava de mim, cujo nome foi me dado como Philippa, não estava mais ali e eu lamentei por isso. Notei que em meu corpo havia um vestido branco e quando levantei minhas mãos foi com alívio que percebi que as veias não saltitavam da pele nem havia qualquer sinal de velhice. Apesar disso, eu me peguei pensando: e isso importa?

Ao sentar-me na cama, tornei a olhar através da janela e via com espanto que o espaço parecia tão perto daquela colônia onde estava! Podia ver constelações e, com certo temor, constatar a proximidade de Marte. Para minha infelicidade, vi que nada sabia e quando me recordei da minha vida, lembrava como gostava de exibir o conhecimento (ou o que eu presumia sê-lo) para os outros. Aos poucos, envergonhava-me o tipo de comportamento que tive. E foi por esse motivo que decidi levantar-me da cama e sair um pouco daquele quarto.

Atravessei um longo corredor de paredes brancas, onde o silêncio reinava absoluto. Imaginei quem residia por trás daquelas portas fechadas, qual teria sido a causa de sua morte ou, como chamam agora, desencarnação. Perguntava-me, com certa ansiedade, a respeito destes motivos, como deveriam ter vivido suas vidas e se estavam em paz. Percebi que eu mesma não estava. De repente, me vi diante do lado exterior. [Nota de Ogum: ela não recebeu permissão para descrever com detalhes o local onde havia residido por breve período]. Constatei que senti falta da vida, do vento correr pelos meus cabelos, das risadas. Quando me dei conta, lágrimas escorriam de meu rosto.

'Por que chora, bela moça?' Alguém se dirigiu a mim e, ao virar minha cabeça, vi uma mulher de aproximadamente 60 anos. Seus cabelos eram brancos e sua pele enrugada, mas sua aura emanava sabedoria. Seus olhos eram repuxados, seu nariz era longo e os lábios eram simpáticos. Usava, como a maioria dos presentes que passaram por mim desde minha chegada ali, branco no corpo.

'Sinto falta', admiti, sem ter o receio de contar a verdade. Não fazia mais sentido mentir. 'Dos que eu amei, acima de tudo'.

Ela me ofereceu um sorriso.

'Ou será que não sente falta do poder que costumava exercer?' Diante do choque com o qual recebi tão duras palavras, a mulher me indicou com a cabeça para segui-la. Relutantemente, a acompanhei e quando dei por mim, estávamos nós duas sentadas sob uma grande árvore com vista inexplicável para a galáxia.

'Vim de um povo que não era diferente do seu', ela me disse. 'Ao norte do norte, lá habitávamos tranquilamente. Mas o Homem é ambicioso como deve saber, criança. Nunca se contenta com aquilo que tem em mãos. Eis o problema da humanidade: quando deseja aquilo que não possui, recusa o que obteve. Nada a satisfaz, há uma constante busca por aquilo que teme, o desconhecido. Dali criam lendas, exortando à criação de um imaginário que reforça o valor material.'

Não demorei a perceber do que se tratava. Suspirei. Mas a mulher ainda sorria quando disse:

'Creio que entendeu de primeira o que digo. Isto é bom, poucos conseguem compreender tão rapidamente a mensagem. Como devo chamá-la?'

'Cecília', eu disse, ignorando os títulos que usava em vida. Novamente, percebi a invalidade deles e isso me entristeceu... porque reforçava o quão vazia havia sido, limitada de várias maneiras, na verdade.

'Cecília', a mais velha repetiu. 'Meu nome é Penélope. Foi o nome que procurei usar ao trabalhar aqui, nesta colônia.'

Ao encará-la, percebi que muitas perguntas me invadiam. Logo, verbalizei uma delas antes que pudesse me conter:

'Penélope, perdoe-me meus modos, mas... a senhora já teve várias vivências? Por isso está aqui?'

Penélope riu.

'Já vi aonde quer chegar. Está montando seu raciocínio baseado no que seus guias lhe contaram. Pois bem, não está errada. Estou atrasando minha próxima encarnação para trabalhar aqui. Quero ser útil aonde puder antes de voltar lá, o que será breve.'

Encarei-a com curiosidade.

'E isto pode ser possível?'

'Depende do grau de sua moralidade', ela ponderou quietamente. 'É verdade que poderia encarnar em outro planeta agora, mas tenho um carinho com este planeta e, como falei, gosto de ser útil.'

Quando ela disse isso, percebi que toda minha vida a religiosidade foi nada mais que instrumento de minha vaidade e meu orgulho, pecados que me assombravam. Diante do meu silêncio, Penélope disse:

'Seu pensamento é como um açoite. Por que é tão dura consigo mesmo, cara Cecília?'

'Eu me trouxe até aqui', foi tudo o que consegui dizer.

'Sim, é verdade', ela concordou. 'Mas agora está caminhando para a reabilitação. Isto não deveria ser motivo de júbilo?'

'Não consigo ver desta forma', eu admiti. 'Tudo o que eu acreditei... foram mentiras. Estou privada daqueles que amo. Eu....'

'Sente falta daquilo que conhecia, e você conhecia o poder', ela afirmou categoricamente como se completasse o que em meu íntimo pulsava com certidão. 'Por que pensa que está sendo privada de sua família? Não foi levada a um dos seus filhos? Sua avó não a recebeu e cuidou de você?'

Corei, se fosse possível. Penélope tomou minhas mãos nas dela e disse:

'Não estou a repreendendo, veja. Quero mostrá-la que não está sozinha, nem entre estranhos. Esta transição não é fácil, eu sei disso, mas Cecília... até quando vai ficar na posição de vítima? Diz reconhecer seus erros, mas e então?'

Ouvir aquilo era duro para mim. Respirei fundo e desviei o olhar, mas ela não fez o mesmo. Em vez disso, continuou:

'Sabe por que, de todas as encarnações, optei por esta? Os indígenas são simples, povo genuíno e desapegado voltado à Natureza. É claro que há entre eles os orgulhosos e maldosos como todo povo há. Aprendi muito com eles, filha, e vim a vós para ensiná-la isso também. A ser humilde e aceitar o destino com resignação. Nada é rígido e pré-determinado, mas o que podemos fazer com as opções que surgem diante de nós? Se lá embaixo, por quaisquer motivos que não me competem julgar, vos faltou esta sabedoria, aproveite sua estadia aqui e busque-a.'

'O que diz me faz sentido', eu falei, afinal. 'Mas gostaria de rever meus filhos, pedir-lhes perdão. Sei que para tudo há um tempo, mas...'

Não consegui completar a frase e novamente suspirei.

'Estais tão aflita por vossa família, vejo melhor agora', ela apertou minha mão gentilmente. 'Mas precisais curar-vos antes de tudo, filha. É por isso que está no hospital.'

'E se eu não conseguir me curar?' Indaguei, soando nervosa. 'Serei prisioneira?'

Ela tocou em meu rosto com afeto e imediatamente uma luz me invadiu. Senti calma e qualquer insegurança que havia me tomado, logo se dissipou.

'Os traumas estão surgindo, deixe-os vir. Para tudo, há etapas e elas devem ser cumpridas. Não estais sozinha, Cecília. Deus ouve, mesmo que não possa vê-Lo.'

E assim que Penélope retirou sua mão de minha face, chorei. Mas ela não me repeliu ou repreendeu-me por isto, ao contrário, envolveu-me em um abraço fraterno.
*                                                                                  *                                                                         *
Amanheceu no dia seguinte. Aos poucos, me adaptava à nova rotina daquele hospital. Interagia raramente com outras pessoas, embora Penélope vinha me fazer companhia, tornando logo o costume de me visitar todas as manhãs. Com ela fui aprendendo mais sobre mediunidade, aspectos espirituais da vida de uma entidade, o que eu era e o que eu fui. O que poderia ter sido. Mas era com minha avó Philippa que eu aprendia mais sobre as leis de Deus, a palavra de Cristo como era e não como foi interpretada segundo os costumes de cada época, manipuladas conforme as ambições dos homens embrutecidos.

Ainda que lentamente, me via mais tranquila conforme conversava com estas mulheres. Ensinavam-me muito sobre humildade e solidariedade, a julgar menos, a amar mais. A aceitar os outros como são, a me colocar em seu lugar. Acima de tudo, a perdoar. A mim mesma e aqueles que me fizeram mal.

Conforme ia me esclarecendo, um dia meu guardião retornou. Com sorriso nos lábios ele me recebeu e disse:

'Estou orgulhoso de vossos avanços, Cecília'

Enrubesci diante de seu elogio, mas sorri:

'Obrigada, senhor. Foi com muita luta, muito sacrifício, mas vejo que foi necessário para que me despojasse daquilo que fiz lá no passado. Ainda assim, preciso aprender mais.'

'Tenho certeza que sim. Escute, Cecília, vim aqui porque há algumas pessoas que gostariam de vê-la.'

No decorrer do que teria sido alguns anos para vós, o que me pareceu semanas ou meses, me esforcei em meu avanço moral para estar com minha família de novo. Esforcei-me genuinamente, apesar das dificuldades encontradas neste meio. Mas Deus, em sua misericórdia, permitiu que eu me encontrasse com Edward e George. Ambos haviam reencarnado, segundo me disseram, em uma mesma família (mas não me contaram detalhes) e seus respectivos guias os levaram ao plano espiritual novamente por merecimento para que pudéssemos nos ver. Embora não fossem permitido recordar-se novamente de quem haviam sido, naquele momento era como se fôssemos nós outra vez.

'Meus meninos!' eu exclamei e corri para abraçá-los.

Foi um momento significante, ainda que lamentasse pela ausência de todos os outros. Como Penélope havia me recordado, no entanto, tudo a seu devido tempo e eu aprendi a esperar por eles. Pela minha mãe, meu pai, meus irmãos, meus netos. Todos eles.

E quando cada um me abraçou em silêncio, embora em corpos diferentes daqueles que um dia os havia concebido, senti paz. E agradeci, às lágrimas, à Deus por aquele reencontro.

'Senhora mãe', meu primogênito disse. 'Sinto vossa falta'.

'Eu também, Ned', eu disse, usando o apelido que costumava chamá-lo. 'Mas nós nos reencontraremos, disso tenho certeza. Por favor, preciso pedir-lhe perdão.'

Ele me encarou, surpreso. 'Pelo quê?'

[Nota de Ogum: reencontros de familiares, independentemente do grau que pudessem ter forjado em circunstâncias variadas, podem acontecer como a senhora vem discorrendo. No entanto, vejam cá: Edward, seu primeiro filho, reencarnou antes da chegada de Cecília à colônia. Ele também passou por processos similares aos de George, seu irmão, e outros membros de sua família. Contudo, por algum motivo que não me compete pronunciar, saiu com menos demora do umbral àquele plano espiritual. Dadas as particularidades de cada entidade, sabe-se que, após a reencarnação, não há como recordar do passado ou, mais longe ainda, de nuances que ocasionaram em divergências espirituais. Com isso, é possível que Edward, embora tenha sido permitido recordar brevemente de quem havia sido ou pelo menos ter uma ideia da posição ocupada n'outra sociedade vivida ao reencontrar sua mãe de existência pregressa, não tenha se atentado ao que Cecília vinha remoendo. Isso só seria resolvido na posterioridade, quando Edward concluísse aquela reencarnação e os dois viessem a se reencontrar com mais certeza naquela colônia. Se Edward tampouco se recordava era porque Deus lhe fora misericordioso, pois havia muitas coisas a reparar sem tornar a lembrar de um passado que, naquele presente, lhe causaria dor desnecessária e provavelmente retardaria seu avanço moral. O mesmo se poderia dizer de George.]

Como ele não se lembrava, pelo bom senso inculcado a mim pelos guias espirituais, achei melhor não dizer nada. Mas, como se um pressentimento o incomodasse, foi ele mesmo quem assim disse:

'Eu a amo, mãe. O que quer que tenha feito, eu a perdoo. A senhora me perdoa?'

[Nota de Ogum: o espírito, vejam bem, pode guardar uma intuição da causa que levou à divergência com o outro de quem se depara no plano espiritual sem recordar-se desta com precisão. Neste sentido, movido por ela foi por que Edward foi inspirado a pedir perdão àquela que ele prontamente reconhecera como sua mãe de vida anterior.]

Aos prantos, eu concedi-lhe meu perdão, embora o houvesse perdoado antes mesmo daquele reencontro, achando-me, ao contrário, indigna de conceder-lhe qualquer escusa que fora feito contra mim porque fui orgulhosa, e colhi o que plantara. Abraçamo-nos e roguei para que os dois se amassem, respeitassem e seguissem genuinamente a lei de Cristo, a lei de Deus. Assim sendo, por breve que fosse aquele reencontro, nutri a esperança de revê-los... sempre no devido tempo.

(continua...)

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...