segunda-feira, 20 de julho de 2020

Crepúsculo dos Deuses

"Helena era a mais bela dama de toda a Frankia. Nascida na mais alta classe da aristocracia, foi a segunda de três crianças de Charles e Bertha. Esta, por sua vez, era a irmã de um rei chamado Louis. Portanto, Helena fazia parte da realeza e seu tio régio guardava planos grandiosos para esta princesa de seu sangue.
Desconhecendo o futuro que lhe aguardava, porém, Helena seguia uma rotina bastante estrita imposta pela mãe: cedo, às 7h da manhã, ela despertava e às 8h ela assistia a missa junto aos pais, os dois irmãos e, ocasionalmente, na presença do rei e da rainha. Em seguida, quebrava o desjejum e logo dava início às lições apropriadas a de uma moça de sua posição. Costura, instrução nas artes religiosas (curiosamente, a mãe de Helena convenceu seu pai de que ela deveria saber ler para que pudesse exercer esta faculdade teológica), em particular das sagradas escrituras, dança, música e, claro, línguas. Sob a supervisão de sua atenta mãe, Helena era educada por três tutores: o responsável pela sua educação religiosa cabia a um monge chamado Johanne; aquele pela música e dança era um cortesão segundo a escolha do rei e uma dama de companhia da mãe foi escolhida para instruir Helena nas artes domésticas.
Apesar deste cenário agradável, Helena, embora impecavelmente obediente e cristã em todas as suas atitudes e pensamentos, sentia-se inexplicavelmente presa e com tal anseio pela liberdade que acreditava ser incapaz de expressá-lo em voz alta. E ainda que o fizesse, seria incompreendida.
Havia dias nos quais a melancolia tomava conta de seu espírito. Como sua mãe não a permitia sair sem sua companhia, Helena passava muitas das horas livres dentro do castelo, ora na biblioteca, pra em seus aposentos privados tocando o alaúde. Para os que desconheciam sua frustração interna, a vontade de conhecer o exterior, o cenário de uma natureza livre e destemida que se apresentava ao lado de fora, Helena era pura e quase uma santa. Uma vez o pai mesmo sugeriu colocá-la no convento. E foi a única vez em que surpreendeu os pais ao protestar veemente sua vontade.
--Não! Não irei ao convento, não serei enclausurada mais uma vez.
--Mas o que é isso, filha? Servir a Cristo não é prender-se ao vazio--contestou-a o pai, estarrecido por aquela reação e prontificado a dar-lhe um sermão quando a esposa o interrompeu, capturando a essência dos pensamentos da filha.
--Creio que ela tenha querido dizer que seu dever descansa no tradicional papel a que venho educando-a, marido. Para que seja a esposa devota de um consorte merecedor.
Fingindo ser esta a questão, Helena, com um meneio de cabeça, concordou prontamente. O pai muito se aliviou e trouxe à mesa com peculiar animação os possíveis nomes dos pretendentes de sua única filha. Embora sair do domínio dos pais fosse um sonho para a adorável princesa, ela reconhecia que o casamento só representava a liberdade no campo das ideias. Afinal, sua mãe nunca cessava de agarrar uma oportunidade para lembrá-la de obedecer, aquiescer e ser humilde àquele que a esposará perante Deus.
Sendo assim, poderia ela ser livre um dia ou permaneceria como um mero peão segundo a vontade parental? Apesar desta frustração interna sem quaisquer motivações aparentes, Helena reconhecia que sua vida não era de todo ruim e que havia privilégios dos quais poderia desfrutar. Um deles era poder dançar na corte de seu tio quando o rei convidava a família de sua nobre irmã para uma visita. Uma vez em Paris, Helena acompanhou suas primas em vários passeios pelos longos jardins que enfeitavam a residência régia.
E mesmo dentro do longo castelo de pedras onde morava, havia músicos que, para seu deleite, habilidosamente dedilhavam os alaúdes para alegrar seu espírito quaisquer que fossem as circunstâncias. Com suas duas damas de companhia, Clothilde e Adèle, amigas de infância que permaneceram ocupando esta posição mesmo depois do acordo feito pelas mães destas com lady Bertha, mãe de Helena, não havia motivo para tristeza.
Assim foi a maior parte de sua vida. Agora, contudo, havia Helena atingido a idade adulta aos 16 anos, quando veio a sangrar pela primeira vez. Na ocasião, a senhora Bertha veio aos seus aposentos e, enquanto penteava os cabelos dourados da bela filha, disse:
--Seu tio, o rei Louis, pediu que fôssemos à corte e certificou-se de que soubéssemos de que pretende desposá-la com alguém de sua escolha. Não se esqueça de que agora já é uma mulher, Helena. Suas responsabilidades, portanto, são outras.
Helena bondosamente aquiesceu e viu, através do reflexo do espelho que pairava sobre a escrivaninha que ocupava uma pequena parte de seus aposentos, o orgulho brilhar nos olhos de sua mãe. Por algum motivo que não lhe coube descobrir, aquilo partiu seu coração, mas conformou-se como costumava fazê-lo. Murmurou um agradecimento e, tão logo seus cabelos foram trançados por lady Bertha, ela se achou só novamente.
Caminhou até as janelas de forma a fitar os campos verdes e o lago azul ao fundo no belo cenário que raríssimas foram as vezes em que o explorou. Invejou os camponeses que, sob seu atento olhar, caminhavam com uma alegria incomum a sua posição. Podia ouvi-los cantar e ela se indagou por que o faziam. Detectou a inveja corroer seu coração e, identificando-o como um pecado nocivo, decidiu que deveria rezar três vezes mais como penitência.
Na manhã seguinte, lady Bertha e seu esposo, acompanhados de Charles, Louis e Helena, junto a uma pequena comitiva, viajaram para a residência do rei Louis. Uma vez lá foram recebidos bem, ignorantes quanto a uma invasão dinamarquesa que operava ao mesmo tempo em que punham os pés no castelo do soberano dos francos. Neste meio tempo, saqueadores vikings sob a liderança de Reginald adentraram Paris no que não seria nem a primeira ou a última vez que isto ocorreria. Mas a população, como de costume, sofreria com seus atos, a maior parte da qual teve suas vidas ceifadas pelo aço da espada quando não foram findadas pelo machado que carregavam tais homens.
Se fogo e sangue manchavam Paris, no castelo de pedras que o rei piedoso fez questão de inaugurar, músicas alegres animavam o ambiente e os cortesões desfrutavam de seus privilégios a fim de exibirem suas riquezas, traduzidas em vestimentas cujos tecidos vinham de lugares como a Itália ou tão longe quanto o Mediterrâneo. Em seu traje azul veludo que lhe cobria as mangas, Helena se recusou a adornar-se mais do que exigia sua posição. Entretanto, adorava suas madeixas douradas, as quais deixou cair soltas pelas costas, certa de que assim a embelezava ainda mais. Nas orelhas, via-se brincos discretos de esmeralda e nas mãos, alguns dos anéis que adorava usar.
Ao entrar no grande salão do rei Louis, Helena, como seus pais esperavam, capturou a atenção de todos, posto que o azul veludo refletia a cor de seus olhos. Isto, no entanto, a assustou, desacostumada que estava com este tipo de bajulação. Na verdade, a sermos sinceros, ela não gostou nem um pouco disso. Contudo, como seus pais eram orgulhosos, pouco importava como a filha se sentia e, assim, prontificaram a pavonear a pobre Helena para atingir seus próprios fins.
Infeliz, Helena, há muito acostumada a jogar o jogo de lady Bertha e sir Charles, aquiesceu segundo as vontades de seus pais e forçou um sorriso a estampar seus belos lábios rosados para qualquer pretendente que fosse do agrado dos pais ou do rei. Dançou com cada um dos filhos dos nobres senhores presentes, embora desfrutasse pouca afeição ou quase nenhuma por aqueles seus parceiros. Eles tampouco inspiravam qualquer insígnia de respeito, a arrogância deixando claro que era apenas sua beleza que os importava. Mas Deus guarda os mais estranhos momentos para escrever certo em linhas tortas.
Assim sendo, em meio às felizes circunstâncias (se do ponto de vista do rei e de tantos outros presentes), o piedoso rei Louis foi interrompido pela chegada de um mensageiro esbaforido que o alertava sobre o avanço cruel dos dinamarqueses. Caiu-se um silêncio constrangedor e amedrontador sobre todos os convidados, e de repente sir Charles percebeu a desvantagem de ter uma filha tão bela como a pobre princesa Helena naquele castelo. Que Deus fosse misericordioso, ele rezava.
Mas Louis decidiu que era melhor incentivar manter as aparências do que dar espaço para o pânico roubar as atenções de todos. Assim, ele ordenou que os músicos tocassem e, ansioso, instigou que os cortesões dançassem, pois não havia nada a temer. Ao mesmo tempo, porém, ordenava que seus melhores soldados guardassem o castelo e enviou toda sua guarnição para impedir que os vikings atacassem.
Helena, embora ciente dos fatos, limitou-se a lamentar por ter pais tão descuidados. Não expressou seu descontentamento, já mestra nos fingimentos. Mas foi surpreendida pelos próprios pensamentos, imaginando se a morte lhe seria bem-vinda acaso os inimigos invadissem a todos. Talvez fosse melhor o martírio do que ser um coquete sob a vontade dos pais.
--Está muito quieta, Helena—pela primeira vez a mãe pareceu notar que sua filha era um ser humano possuidor de sentimentos e capacidade de raciocinar—O que a aflige?
--Nada—mentiu Helena, tão doce quanto seu coração.
Mas lady Bertha não se convenceu. Na realidade, pela primeira vez em muito tempo, se deu conta de que, por mais exemplar fosse o comportamento de sua amada filha, ela nunca lhe pareceu contente com a vida que tinha nem com as tramoias planejadas. Aquilo amaciou seu duro coração, mas que outra opção teria para ela? Princesas não tinham vozes, e lady Bertha disso sabia por experiência própria. Contudo, aquele não era o cenário mais favorável para dar abertura a uma mais sincera relação entre mãe e filha, dada a tensão que, como véu, recaía sobre os presentes.
--Não creio—rebateu a filha de outrora grande rei franco—Mas conversaremos sobre isto mais tarde. Seu tio não gostaria de vê-lhe tão apática.
Palavras inúteis, observou a mãe, pois, embora Helena lhe fosse obediente em tudo, em seu coração retumbava o silêncio e aquilo passou a lhe atormentar. Mas logo a menina se distraiu na companhia de suas damas e o assunto, por ora, foi esquecido.
No restante da noite, tudo pareceu estar ocorrendo bem, apesar dos fingimentos no geral. Até que, no dia seguinte, chegou a todos uma decisão que o rei Louis tomou e que passou a alimentar em seu íntimo até o findar desta história.
--Receberemos aqui—ele anunciou após a primeira missa da manhã, quando todos os convidados se reuniam no grande salão—Reginald de Skanderborg vem acompanhado de dois irmãos seus de Kattegat, além de alguns outros que o seguiram em empreitadas... não muito louváveis para o padrão cristão, é claro.
Louis limpou a garganta, e, como suspeitava, não obteve uma aprovação dos nobres presentes de que estariam em companhia dos vikings saqueadores.
--Eles vieram por ouro e terras—prosseguiu o rei, mais como ator do que como governante—Por isso os darei de bom grado. Em breve, chegarão aqui.
Mas foi em questão de duas horas que os vikings enfim chegaram à corte. Helena observou o líder deles, o homem que vinha a frente de um pequeno grupo, aproximar-se com confiança e sem temer o julgamento dos que depositavam seu olhar rígido e cristão sobre tais pagãos. Reginald, ela notou, era alto e forte. Seus cabelos, curtos e raspados ao lado, eram tão louros que se confundiam com o prateado. Os olhos eram azuis como o céu, e ela se surpreendeu ao admirar-se quão profundos pareciam ser. Apesar das cicatrizes de batalha que marcavam o rosto, no qual também se via uma crescente barba loura-prateada, Reginald era belo.
Suas vestes indicavam que não era tão pobre quanto se poderia assumir. De porte de uma cota de malha, suas vestes negras cobriam-se de detalhes em ouro. Duas espadas embainhavam-se os lados, embora uma fosse mais longa e a outra menor. Nas costas, pendia-se um escudo redondo de cores coloridas e formato circular. Helena constatou que uma trança malfeita descia do alto da cabeça, dando-lhe aparência de selvagem. Apesar das reprovações gerais, ela, ao contrário, sentiu contra a própria vontade uma inexplicável atração.
Não obstante a censura da mãe por manter o olhar naquela figura estranha, Helena sentiu os ventos da rebelião despertarem em seu espírito passivo. Continuou a fixar o olhar em Reginald, singular bela criatura que de imediato cativou seu coração. Mas Reginald sentia-se observado e quando tornou a olhar para trás para ver que vinha da bela e recatada princesa de cabelos dourados, teria arriscado um sorriso desdenhoso se ela, pelo choque que sua reação provocou, não houvesse desviado o olhar.
Enquanto isso, o rei cristão dava relutantemente as boas-vindas aos convidados estrangeiros, fingindo confiança e despreocupação a fim de tranquilizar a corte ansiosa. Era preciso atuar bem, e ocupar o mais alto cargo do reino requisitava ser excelente ator. Louis reconhecia isso e fazia com tamanha convicção que, conforme conversava com Reginald despretensiosamente, aos poucos os nobres retomavam suas posições na corte. Entretanto, pairava silenciosamente sobre cada um deles a pergunta que ninguém ousava verbalizar: que seria deles? Que seria dos dinamarqueses?
--Fique conosco, Helena—ordenou sir Charles—Não deveríamos ter vindo.
Sempre altiva, lady Bertha retrucou:
--E como saberíamos disto? Não houve nenhum ataque destas criaturas deste outrora no governo de meu pai, e sabemos todos que ele os expulsou com maestria.
Helena, por outro lado, estava ignorante às discussões trocadas pelos pais. Ouvia, ao contrário, os comentários trocados pelas damas de companhia que diziam:
--Se não fossem selvagens e embrutecidos, os tomaria como belos e ousaria mesmo que fosse por eles cortejada.
Quis a princesa rir, mas isto chegou aos ouvidos de sua mãe que lançou um duro olhar à Adèle, que, tendo percebido, prontamente se aquietou. Mas a jovem continuou a fitar o belo Reginald de longe e dentro de si algo a fazia se perguntar se eram realmente feras aqueles dinamarqueses. Discretamente, repousava seu olhar a cada movimento que Reginald fazia, seu coração desejoso de poder ouvir mais o que ele dizia tão animadamente com seu régio tio.
Clothilde, tomando nota do interesse de sua senhora, aproximou-se e discretamente sussurrou-lhe o ouvido:
--Senhora, não posso crer que um homem como aquele, de todos os que porventura tomou como parceiro de dança até então, foi o que capturou seu coração.
Helena ruborizou e, desviando o olhar, retrucou em protesto:
--Claro que não, Clothilde! Mas que besteira fazer tal assumpção de mim.
No entanto, Clothilde era a mais próxima de si em personalidade e pensamento, embora fosse mais livre do que Helena por questões sociais, já que enquanto uma era princesa de sangue a outra era apenas descendente ilegítima de Carlos Magno. Não obstante, eram almas afins e se entendiam mutuamente. Por isso, Clothilde tomou a liberdade de insistir no assunto:
--Se o faço é porque a conheço deveras bem, senhora. Conheço-a o suficiente para fazer tal suposição. Acaso aquele homem não a ofereceria uma passagem para a liberdade que sonha? Uma possibilidade que nem seus pais nem outros senhores com quem dançou puderam ofertar?
Helena mordeu o lábio e entrelaçou os dedos das mãos a fim de posar-se de régia e distante para ocultar a tempestade que recaía sobre o espírito que despertava.
--Sou assim tão óbvia? —lamentou-se.
Clothilde sorriu compreensiva.
--Muito pelo contrário, senhora. Apenas para aqueles que ousam conhecer seu espírito como eu e Adèle, pelo que somos muito gratas.
Helena desejava abraçar sua querida amiga naquele instante, mas não pôde. A corte seguia rígidos protocolos, que, na opinião dela, eram desprovidos de qualquer significância. Mas seu pensamento não se demorou muito em tais questões porque, outra vez, seu olhar foi atraído para a imponente figura de Reginald.
Havia um tablado maior onde uma longa mesa retangular estava posta. Comida e vinho eram servidos enquanto o rei, um homem alto e franzino de olhos azuis penetrantes, tomava seu lugar de costume ao lado do dinamarquês. Ao lado esquerdo do rei, com expressões não muito agradáveis ao rosto, estava a esposa e o herdeiro do trono, seu filho. Quanto aos companheiros de Reginald, eles surpreendiam a corte por se portarem bem. Acoplaram-se em um canto e não incomodaram ninguém. Assim, com a permissão do rei, que sussurrava ao lado do viking, os músicos voltaram a exercer sua função e a doce melodia que saía em animado ritmo de seus talentosos dedos tirou do estupor os cortesões perplexos.
Readequando-se com este novo ritmo que a corte ditava, lady Bertha recobrou o orgulho e, decidida a fingir que o viking não era perigoso como tampouco estava presente, instigou a filha a retomar a dança com um dos filhos de um senhor da Frankia oriental. Mas Helena só tinha olhos para Reginald que, quando ela se distraía, também a havia notado. E provavelmente era dela de que falava com o rei, que começou a perceber que se entregasse uma princesa de sangue junto com terras ao norte para aquele homem... Nem tudo estaria perdido!
Ignorante quanto aos planos tecidos pelo destino, Helena murmurou finalmente sua frustração com as damas que mais confiava, as irmãs que Deus lhe concedera, já que seus irmãos eram rapazes ocupados demais para lhe prestar atenção.
--Não desejo fazer parte deste jogo. Cansei!
--Imagino que seja frustrante, senhora—disse Adèle, compreensiva—Mas veja, ao menos este que vem falar parece ter modos.
As três não puderam evitar trocar risinhos, ao que foram silenciadas com o olhar duro direcionado a elas por lady Bertha. Controlando seu mal humor, Helena novamente entrou no papel a que por muito tempo se acostumou a interpretar: a de submissa obediente filha.
Arqueou os ombros, levantou a cabeça e mirou seu olhar naquele que vinha arrogantemente pedir para ter-lhe uma dança. Seu nome era Philippe e ele vinha de uma região chamada Artois. Era alto—embora, segundo a comparação de Helena, fosse mais baixo que Reginald—e vestia-se adequadamente para a posição de filho de um senhor ducal. Não era particularmente belo aos seus olhos, que já se encantaram pela beleza exótica do dinamarquês. Mas que se cessassem as comparações, ela determinou a si mesma. Precisava cumprir com seu dever.
Assim, ela cedeu a mão ao homem que a levou para o centro da corte. No entanto, conforme a música deu início, sem que outros observadores pudessem tomar nota, foi aqui que a princesa encontrou a ousadia de levantar o olhar para prender o daquele que ela ansiava fazer sua vítima.
Seu coração batia descompassadamente enquanto o encarava como se o desafiasse em silêncio. Foram poucos segundos de fato, mas o suficiente para provocar admiração em Reginald. Este, por sua vez, havia se acostumado com mulheres livres, orgulhosas e teimosas, mas nenhuma delas evocava tal fascínio de Freyja como aquela cujo nome logo soube ser Helena.
Reginald sentiu sua alma estremecer, deixando-o assombrado por desconhecer a causa disto tudo. Ora, sabia que em parte havia luxúria, pois como não perceber a volúpia do corpo que bailava sob aquele vestido azul veludo? Mas havia outra...Era como se sua alma houvesse descoberto a metade que lhe faltava.
Louis, como o astuto que era, quase sorriu consigo mesmo. Pouco importava o que de fato se passava entre sua sobrinha e o dinamarquês ao seu lado, mas a cena lhe aprouve. Por isso, disse:
--Ah, vejo que se encantou com aquela dama. O que pensa dela?
Reginald tornou a olhar para o rei e, sem esconder a empolgação em seus olhos, o respondeu:
--Que ela é a mais bela de todas as criaturas que vi em minha existência. Que pode me dizer sobre ela?
O dinamarquês sabia por cada olhar que suas almas se comunicavam. Ela me chama para dançar, me desafia a fazê-lo. Talvez deveria.
--Seu nome é Helena—disse o rei—Ela é minha sobrinha, uma princesa de sangue deste reino. Vejo que ela se interessou por você.
--Tenho a permissão de cortejá-la?—ouviu-se o viking indagar, já que nunca antes fizera isto. Usualmente, um olhar e ele já levava a mulher desejada para a cama. Mas agora... Tudo, abruptamente, havia mudado.
--Concedo-a desde que ouça minha proposta—disse o rei ambicioso.
Reginald arqueou uma sobrancelha em questionamento. Louis prosseguiu:
--Se eu a oferecer em casamento junto a um punhado de terras ao norte de meu reino, nos deixará em paz e nos defenderá contra seu povo?
O viking coçou a barba por um pequeno instante, o suficiente para preocupar o rei. Que ele não fosse tolo de repensar tal proposta!
--Qual é a quantia de ouro que me oferece?
Uma vez exposto o valor, as duas partes acordaram secretamente o que deveria se valer a partir do dia seguinte. Mas, por ora, Reginald não pensava em casamento ou terras, apenas em dançar com aquela dama. Para o espanto de todos, ele se levantou da mesa e foi na direção de Helena. Os sussurros eram evidentes e a mãe desta, Bertha, prontificou-se a protestar ao lado do esposo, mas um aviso silencioso do rei os impediu de tomarem a filha para si.
--Senhora—ele se aproximou de Helena, afinal—cá estou.
O grande salão foi silenciado por breves segundos. Em outras circunstâncias, Helena teria detestado aquela atenção, os olhos de pessoas arrogantes e vãs sobre si como se a julgassem pelo que não fizera. Mas nada disso importava porquanto estava, diante de si, Reginald e seus penetrantes olhos azuis. A princesa mal conseguia respirar, pois pairava sobre ambos um magnetismo muito forte que, suspeitava-se, nem mesmo Deus poderia separar.
Reginald lhe deu um meio sorriso e falou:
--Não me convidou para a dança? Não me desafiou a fazê-lo?
Ele gostou quando Helena ruborizou, embora não desviasse o olhar.
--Ora, o senhor é mais esperto do que pensei—ela fingiu hesitar em entregar-lhe a mão—Acaso um selvagem como o senhor saberia dançar?
O dinamarquês riu.
--Vamos brincar de orgulho agora?
Nem quando o rei, impaciente, bateu as palmas e deu suas ordens para que os músicos tocassem seus instrumentos, eles cessaram a intensa troca de olhares.
--Sua presença evoca soberba, senhor. Não pode me censurar por fazer o mesmo.
--Não nego sua percepção, como filho de Odin, preciso sê-lo—disse ele, divertido.
--Filho de Odin—repetiu Helena, intrigada—Por que seu pai não está aqui?
--Ele é o pai de Todos—explicou o viking—Está aonde quer que esteja. É o deus que cultuamos. Não é como o seu deus crucificado—acrescentou, desdenhoso—Morreu pela sabedoria e cumpre punir aqueles que não a utilizam adequadamente. Mas nos salva quando morremos corajosamente na batalha.
Helena sequer notou que dançava com ele em perfeito ritmo quando respondeu:
--Ah, compreendo por que o chamam de pagão. Mas—e aqui ela arqueou as sobrancelhas—nosso deus crucificado prega a humildade e o amor ao próximo, a caridade e o perdão. Ama a todos sem distinção e sem esperar nada em troca. Não é belo?
--Estou intrigado com essa concepção—admitiu Reginald—mas por que amar a todos sem esperar nada em troca? E como perdoar seus algozes? É ridículo.
--Poderia perdoá-lo por tentar assaltar meu povo—disse Helena, docemente, o que o fez sorrir e ela decidiu que gostava de seu sorriso—E de que adianta amar alguém esperando algo em retorno? Não é este o propósito do amor.
--Creio que temos concepções diferentes do amor—retrucou Reginald—De todo modo, não vim assaltar seu povo.
--Não? E por que inspira medo aonde quer que vá? —e ela acrescentou—Não é melhor ser amado que temido?
--A senhora me coloca demasiadas questões para pensar—o dinamarquês fingiu reclamar—Isso a faz intrigante.
O rosto de Helena se iluminou diante deste elogio. Ouvia constantemente que era bela, e seu nome rendia incontáveis comparações com Helena de Tróia, mas saber que era intrigante e inteligente era muito mais do que um dia sonhou ouvir. E isto deixou Reginald bastante satisfeito. Imaginou-se passando toda uma vida com aquela jovem sorrindo alegremente e isso inundou sua alma de incontáveis felicidades até então desconhecidas.
--Obrigada—disse, afinal—O senhor também me inspira crer que possui um coração bom. Há salvação mesmo para os pagãos.
Ele riu.
--Vindo da senhora, tomo como elogio a balsama para meu coração.
Mas a conversa foi interrompida no instante em que a música cessou e os pais vieram tirar-lhe da presença de tal bruto homem. Reginald observou a tristeza apagar a luz de Helena, e constatou com irritação que ela aceitava facilmente ser dominada pelos pais sem esquivar-se de tamanha dureza. Um de seus amigos, um homem chamado Rollo, disse:
--Por que não a resgata para si?
--Não há necessidade disso, meu caro. Amanhã a desposarei. O rei me deu sua palavra—e dizer isto em voz alta o reconfortou.
Como prometido, o rei anunciou no dia seguinte que, a fim de estabelecer a paz com os dinamarqueses, cederia Lille para os mesmos, dando a Reginald o título de conde. A isto, acrescentou que era de sua vontade reforçar os laços com este povo a fim de defender seu reino contra os vikings. Para tal, ofereceu a mão de sua bela sobrinha, a princesa Helena, no intuito de solidificar a aliança entre os povos.
Naturalmente, desta decisão resultou protestos da parte dos pais dela... e dos pretendentes que se achavam muito mais superiores do que aquele sujeito para ser esposo da mais formosa dama do reino. Mas nada mudaria a ideia do rei e Helena rezou fervorosamente para que Deus estivesse ao seu lado. Afinal, sempre cumpriu com os deveres familiares sem pestanejar, mas que, ainda que Reginald fosse pagão, acreditava no bem que existia nele e cabia a ela transformá-lo por completo. Ademais, rezava a princesa, sentia que o amava como nunca poderia amar aqueles que seus pais desejavam arranjar para que fosse desposada.
O Pai Maior pareceu ouvir suas preces e em menos de três dias desde o anúncio do rei, Reginald se converteu à fé cristã e tomou como esposa a princesa Helena. As celebrações, para a infelicidade da família desta, ocorreram ostentosamente e ficou decidido que a consumação se realizaria antes que o novo casal partisse para suas terras.
--Como está se sentindo, senhora condessa?—indagou Adèle, empolgada. Estavam nos aposentos designados pelo rei para o casal e, enquanto o marido não chegava, as damas se certificavam de cuidar da princesa sob o atento olhar da desapontada mãe. Helena usava um camisolão de linho e seus cabelos dourados repousavam soltos, caindo na cintura. Um sorriso brincava em seus lábios.
--Não poderia estar mais feliz, Adèle—e, virando-se para a mãe, disse—Por favor, mamãe, não se entristeça. Ele é um bom homem.
--Só saberá disso convivendo com ele—resmungou lady Bertha, rancorosa—Mas se você está contente... Ah, filha! Como neta de grandes reis do passado, merecia um posto maior. De rainha, quem sabe!
Helena se aproximou da mãe, tomou as mãos nas dela e disse:
--Mamãe, que importam títulos diante da felicidade? Se não fosse a vontade de Deus, creio que nossas preocupações teriam fundamento. Mas não é o caso. Crê em mim quando digo que estou feliz e serei tão devota quanto me ensinou.
Emocionada genuinamente por aquelas palavras, lady Bertha enfim aquiesceu. Depositou dois beijos nas faces de Helena e, quando a porta se abriu para que seu genro entrasse, ela suspirou e disse:
--Que Deus a proteja, filha.
--Amém, senhora mãe.
E dito isso, lady Bertha saiu acompanhada das risonhas Adèle e Clothilde. Foram, porém, substituídas por um padre em trajes ricos—indicando ser, na verdade, um arcebispo—e o rei, que veio em pessoa dar bênção ao novo casal. Independentemente das motivações por trás daquela decisão, Helena lhe era profundamente grata.
Enfim, virou-se para o marido que a espreitava. Um rubor queimou seu rosto ao vê-lo utilizando um camisolão relativamente mais curto que o dela, e que logo ele fez questão de remover, deixando o corpo forte e com estranhas tatuagens à mostra.
--Senhora—ele a cumprimentou feliz, deitando-se na cama—Venha—pediu, gentilmente.
Tímida diante daquelas testemunhas, Helena não o respondeu de imediato. Assentiu e sentou-se ao lado dele. O padre fez uma oração e jogou em ambos água benta antes de fechar as cortinas em torno da cama de ambos. Afinal à sós, Reginald, ciente de que sua esposa estava intocada, perguntou gentilmente:
--Creio que a senhora se guardou para este momento?
Helena assentiu, envergonhada. Reginald disse:
--Compreendo. Não há necessidade de se assustar, garanto que não a forçarei a nada que não queira. Podemos só...—sem saber o que dizer, deixou as palavras se evaporarem no ar.
Para a surpresa de ambos, Helena se aproximou ainda mais dele e colocou uma mão ao redor do rosto dele, fazendo com que ele a encarasse nos olhos. O momento parecia magnetizar-se ainda mais, como um reencontro de almas.
--Eu confio em você, Reginald. E desejo consumar nosso casamento hoje. Apenas peço paciência ao tratar comigo.
Reginald sorriu e respondeu com um leve beijo sobre lábios tão doces quanto o mel. Sua presença o inspirava uma paz que por muitos anos buscou e, por estranho que fosse, apenas recentemente encontrou. Talvez devesse agradecer a este novo deus crucificado, mas seu coração o repelia, relembrando-o da bondosa deusa Freyja ao invés disto.
De todo modo, nenhum pensamento colocava-se entre ambos mais quando o suave beijo se aprofundou. Reginald era paciente e sempre o seria com ela, o amor de seu coração. E como se dois fossem um, ele adivinhou seus próximos movimentos, suas sensações e se antecipou. Ajudou-a remover o camisolão, justificando que ansiava em vê-la como é e sem medo algum, Helena despiu-se também de seus medos infundados.
Naquela noite, entregou-se uma, duas, incontáveis vezes. Amaram como duas almas predestinadas se amariam. Não se tratava apenas da combustão da carne, mas do amor além de concepções vazias e limitadas. Não era somente a luxúria, era o reflexo de um sentimento transcendental.
--Espero ter concebido hoje—confidenciou-o Helena ao final do ato. O sol começava a nascer, mas ela se sentia tão desperta quanto antes.
Reginald a puxou para si, beijando-as faces e sentindo um deleite que lhe era desconhecido até então. Dias curtos que porventura pareciam séculos tal era o reencontro destas almas gêmeas.
--Tenho certeza de que será uma excelente mãe para a prole que teremos—ele nunca havia imaginado ser pai, mas uma nova realidade despontava no horizonte que o fez considerar aposentar a espada.
Helena riu. Era uma liberdade estranha, embora para tantas de sua posição tal percepção não se encaixasse na ideia de casamento. Mas aquela noite seria a primeira de várias e ela tinha certeza de que, com ele, seria livre.
--E você, um pai admirável.... Desde que não o nomeie em honra aos velhos deuses.
Embora a princesa possuísse uma mente menos preconceituosa em comparação aos seus contemporâneos, nem por isso deixaria de ser um produto de seu tempo. Mas Reginald não lhe deu importância. Riu em vez de dar uma resposta pronta e aninhou contra si. Não pretendia pensar no dia seguinte tão cedo. E assim, o casal adormeceu.

A vida em Lille para o conde e a condessa seria tranquila por um breve período de tempo. A princesa, é claro, rapidamente se adequou à tarefa de esposa que lhe era esperado. Reginald não cessava em ser surpreendido pela infinita bondade com o qual era tratado, mesmo quando, em seus dias ruins, exagerava na bebida ou se por descuido não era gentil em palavras. Embora fosse possível entrever o temperamento que Helena também tinha, prevalecia ainda mais a bondade de seu coração e o amor que um sentia pelo outro.
Ainda assim, a realidade longe de ser uma marionete dos pais provava ser a liberdade sonhada por Helena que ela ainda não acreditava ter obtido. Em uma das noites passadas nos aposentos do casal, ela confessou a Reginald que a vida junto ao esposo lhe parecia uma doce ilusão.
--Mas por que? —quis saber o dinamarquês, curioso, enquanto alimentava a lareira para que dormissem aquecidos naquela noite fria de inverno.
--Porque me acostumei a ter minha vida ser conduzida nas mãos de outras pessoas—disse ela—Amo meus pais, e a eles sou muito grata, mas sentia que se não agisse segundo suas vontades, os desagradaria e, bem, não é isso que eu gostaria.
Aquele assunto suscitava inseguranças que Helena fingia não ver, despertando sensibilidades que ela se envergonhava possuir. Mas Reginald a conhecia bem, e mesmo com pouco tempo de convivência, reconhecia todos seus humores. Ele se colocou ao lado dela, abraçou-a contra o peito e disse:
--Sei que isto é difícil. Tivemos criações diferentes, vejo agora. De onde vim, somos mais soltos, acreditamos que o destino está solto e entregamos às vontades dos deuses. Escrevemos nossos caminhos, de fato, mas há algo maior que nos rege. E não há nada de errado com a sua educação, em como foi instruída para a vida. Ao contrário, é o que a faz ser quem é.
Helena olhou para o rosto do marido, cujo olhar se derramou no seu. Uma lágrima descia do azul de suas írises, mas de felicidade que a movia. Ela sorriu.
--Amo-o, esposo.
Reginald sorriu para aquela que a tinha em seus braços.
--Amo-a, esposa.
E foi nesta noite que conceberam seu primeiro filho.

A paz a que conheceram por dois anos, porém, não duraria muito mais tempo. Era do temperamento de Reginald deslocar-se sem fixar residência, combatendo inimigos, saqueando desconhecidos e enriquecendo-se segundo a vontade divina. Embora a felicidade doméstica o acalmasse, infelizmente ainda prevalecia nele os instintos primitivos. Admirava na esposa a fé em seu Deus, o comportamento benevolente e até mesmo os rompantes de raiva que surgiam quando as diferenças de personalidade resultavam em discussões. Como de costume, todavia, prevalecia o amor.
Do aborto espontâneo que se sucedeu à concepção do primeiro infante, sucederam, porém, três crianças sadias a quem chamaram: Helga, Clóvis e Hugh. No entanto, Clóvis partiu da vida para o plano espiritual com idade tenra de dois anos, desolando a bondosa princesa. O marido, por sua vez, não sabendo lidar com a perda, preferiu partir em expedição.
--Por favor, volte—ela o pediu, impelida por um pressentimento que não saberia explicar.—Não sei se fiz algo para desagradá-lo, e desde já peço perdão por...
--Não diga mais nada—Reginald a interrompeu, sem pretender ser grosseiro—Não é culpa sua, esposa amada. Prometo que regressarei a casa, é só que...
--A vida aqui é tranquila demais para você—compreendeu ela com um sorriso triste de partir o coração—Mas voltará?
Reginald sentia-se culpado, tomado por remorso por deixá-la assim. Beijou-a apaixonadamente, e no crepúsculo deste dia fizeram amor. Mas precisava de um tempo para si. Assim, ele partiu.
Mas voltaria com o tempo depois de fazer parte dos vikings que assolaram Dublin e outras partes mais da Irlanda. É verdade que muitas das vezes foi tentado por várias mulheres, mas ele só conseguia ter pensamento para a bela Helena. No verão seguinte, esteve de volta a Lille e foi recebido com tanto amor pela esposa que, outra vez, o remorso o culpou por deixá-la só.
Helena, apesar da melancolia que crescia em seu peito como resultado da insegurança que a assombrava de vez em quando, encontrou conforto na tarefa da maternidade e mesmo que Hugh tenha sido muito temperamento, conseguiu educá-lo seguindo os princípios cristãos. Foi com os filhos que ela se dedicou, tendo observado poucos eventos sociais desde que Reginald havia ido à Irlanda. De suas damas leais, apenas Clothilde optou por acompanhá-la e, mesmo tendo recusado se casar para servir a sua senhora e amiga, eventualmente se apaixonou por um dos homens de Reginald. Com a bênção de ambos, estabeleceram família por perto da residência real de Helena e Reginald mesmo com os protestos da condessa de que poderiam residir em conjunto no enorme castelo de pedra.
Mas agora Reginald estava em casa e nada mais importava para a nobre Helena.
--Perdoe-me pela minha ausência.
--Não há o que perdoar, meu marido. Você voltou, está aqui, é o que importa.
Para sua surpresa, o esposo se mostrou comovido.
--Não mereço seu amor e sua piedade, minha senhora.
--Meu coração e minha alma são suas, amado meu. Nada mais importa.
E como se para provar o que dizia, beijou-o nos lábios com ternura. Naquela noite, consumaram mais uma vez o amor que os reunia e a paz doméstica se fixou por um tempo. Apesar das inquietações que o afligia, resultados de uma vida passada em devassidão antes do casamento, Reginald esforçou-se em pôr fim nelas. Devotou-se à Helena e aos filhos, alegrando-se ao ver o nascimento de outro menino a quem chamaram de Louis em homenagem ao rei, que foi padrinho de batismo da criança.
No entanto, um pressentimento ruim tomou conta de Reginald. Em uma de suas últimas noites naquele plano, ele teve um alerta da deusa Freyja, que vinha-o protegendo. Assim ela o havia informado:
--Nobre senhor, venho o observado e protegido nestes anos de sua vida. Apesar dos excessos, tem se esforçado para limpar-se das feridas da alma por você mesmo causadas. E por melhores que tenham suas intenções, está na hora de voltar a Valhalla. Ou, se assim o desejar, a vir comigo em meus salões.
--Nobilíssima deusa—disse o muito chocado dinamarquês—não sou merecedor de sua presença ilustre, e por isto agradeço. Mas que quer dizer com isto? Temo não compreender sua mensagem.
A bela mulher envolta em luz prateada sorriu e disse:
--No momento certo, recordará do que disse e tudo estará bem.
Mas no dia seguinte, quando despertou antes do nascer do sol, observou sua esposa dormir aninhada contra seus braços e lágrimas verteram de seus olhos. Entendeu de imediato que não a veria novamente. Sentiu que falhara com aquela bondosa alma, mas como se redimir? Acariciou gentilmente seu rosto, sentindo maciez de pele contra a rigidez de sua mão. Observou seu corpo, notando sinais de gravidez e seu coração somente se partia. Deveria ir antes que ela acordasse, sabendo ele que a morte se aproximava. Mas faltou coragem a este viking.
--Amo-a, cara esposa. Helena, amo-a com todo meu ser.
E, dizendo isso, beijou-a na testa. Fechou os olhos e, abraçando-a protetoramente, voltou a dormir.

Vikings da Noruega tentaram engraçar-se com os francos, mas, na graça de Deus, falharam. Quando Reginald preparava-se para a batalha, porém, mesmo Helena soube que aquela seria a última vez que o veria.
--Reze por mim como tem rezado—ele pediu.
Helena engoliu as lágrimas.
--Minhas preces são para você, meu amado marido. Volte a mim, é o que peço.
--Voltarei com a graça de Odin e seu Deus crucificado—ele ficou feliz de tê-la feito sorrir em meio a despedida.
--Não se esqueça de que o amo—ela implorou, falando com tal intensidade como se temesse perdê-lo—Não vá, por favor. Deixe que seus homens cuidem disto. Não precisa ir, meu senhor.
--Ah, minha cara senhora! Mas eles precisam de alguém que os lidere frente a inimigos de nossa terra passada—disse Reginald, resignado com o destino. Já montado em seu cavalo, havia se despedido dos filhos e, a muito custo, agora se separava de devota esposa—Não posso faltar com meu dever. Garanto que voltarei no crepúsculo deste mesmo dia. Guarda em seu coração meu amor e minha estima.
--E o senhor, não esqueça de que há uma dama de que o espera!—exclamou Helena.
Assim, os dois se separaram para nunca mais se verem em vida. A vitória para os francos custou caro a vida de Reginald e a pobre Helena não se recuperaria desta notícia.

Em meio aos salões de pedra do castelo de Lille, Helena brincava com os filhos quando surgiram dois dos homens de Reginald. Diante da expressão que pesava seus rostos, ela dispensou as crianças para o cuidado de Clothilde, amiga antiga que, pressentindo a pesada nuvem que em breve pairaria sobre tão leal e nobre mulher, havia chegado apenas no dia anterior.
--Diga-me—pediu Helena, a voz tremendo a cada passo que dava para receber aqueles homens.
Naquele salão, ela cultivava uma pequena corte. Havia músicos e padres, e até mesmo bardos eram recebidos por ela. Mas nada disso importava quando Rollo a informou a respeito da morte heroica de Reginald.
O mundo pareceu ter congelado diante de tais notícias. Helena sentiu um arrepio percorrer o corpo, os olhos vertendo de lágrimas antes de ouvir o que seu coração já sabia, que sua alma pressentia. O lugar ficou frio de imediato e a cor da vida se esvaneceu de Helena.
Empalideceu-se, e os homens pensou que fosse enfraquejar-se. De fato, perdeu as forças dos joelhos e eles a socorreram antes que tocasse o chão. Alguns dos presentes, mesmo os empregados, vinham socorrê-la e não foi se não quando gritou de dor. De desespero. Mais uma vez, mais uma vida separava-se de seu amado, daquele que Deus designou ser gêmea de sua alma.
Acudiam-na, os padres tentavam trazê-la de volta à razão, mas ela sucumbia ao tormento das emoções que Reginald um dia equilibrou. E, para desespero dele que tudo sentia do outro lado, nada podia fazer para acalmá-la. Ela precisava passar por isso, foi o que lhe disseram.
Helena pranteava de tal maneira que seu corpo tremia. Memórias de tantos momentos passados juntos a impediam de se recompor. Talvez nem mesmo quisesse. Como viver longe daquele que amava tanto? O cenário lhe era devastador, um futuro sem perspectivas. Foi preciso que se escrevesse a mãe. A única que lhe competiu recordá-la das tarefas que requisitavam de sua atenção.
--Seus filhos precisam da mãe. Guarde o luto com você, em seus momentos privados.
--Estou cansada de jogar conforme estas malditas regras que a nobreza criou!—gritou Helena, em terrível manifestação de coração partido—Por que cabe a mim resguardar-me depois que amado meu se foi? Por que Deus pensa ter sido justo tê-lo tirado de mim? Não tenho pretensões em viver. Oh, não! Não sem Reginald!
Ele também chorava ao vê-la daquela maneira. Mas, à noite, enquanto repousava o corpo, visitou o espírito.
--Minha amada Helena. Por que entregar-se a dor desta maneira?—ele acariciava suas longas madeixas—Por que? Ela agora a apreende ao corpo e não podemos nos reencontrar. Está tudo bem, crê em mim que tinha sido necessário o que se foi. Sei que me ama, mas precisa me deixar partir. Nós nos veremos de novo conforme seja a vontade de Deus.
No dia seguinte, como se inspirada por atuação de Deus, Helena recobrou o juízo antes que fosse tarde demais. A mãe se alegrou ao ver que não havia mais necessidade de interferir em questões domésticas, mas o luto para sempre afetaria a pobre princesa.
Embora fosse uma mãe presente e devota, uma presença constante na educação dos filhos e em suas vidas, ela não se casaria mais. Alimentou uma vida reclusa e, de vez em quando, pranteava antes de dormir. Rezava pelo amado que perdeu. Mas havia libertado Reginald de seus laços pendentes, apesar da erraticidade que ele permaneceria como resultado de seus atos na Terra.
No entanto, não era mais a mesma. Veria Hugh crescer na nobreza e despontar na riqueza, tecendo casamentos apropriados para sua riqueza. Concomitantemente, Helga também se casou por amor e de seus descendentes conta-se estar a celebrada rainha Eleanor d’Aquitaine."


Nota de Ogum: "Embora seja um conto demasiadamente longo, ele fora ditado previamente com o propósito de esclarecimento para a médium, levando-se em conta que aqui está presente um resgate para as duas partes. A princípio, foi recomendado, por este motivo, para que não lhe fosse divulgado até que disto uma lição fosse apreendida. Uma vez que assim se deu, o Pai Maior concedeu que tal fosse exposto a público, pois aqui também, como nas memórias psicografas previamente, cabem lições valorosas para os leitores dedicados a extraí-las e refleti-las. Por isso deixo esta nota ao final, e não como de costume no começo, pois desejo estimular em vós o exercício crítico da questão que esta entidade vos trouxe. Optei por não colocar aqui a mensagem que este bondoso espírito, encaminhado para a equipe de regeneração do "Nosso Lar", passou à médium pelas particularidades que envolve os dois. No mais, deixo cá meus agradecimentos aos leitores e aos trabalhos da parte do psicografado e daquela que o psicografou."




quarta-feira, 24 de junho de 2020

Mil e Um Dias

Nota de Ogum: "Aos leitores que acompanham este blog, sejam bem-vindos outra vez. No conto de hoje, o espírito de Almír Salamin vos ditará a história, ou melhor, uma parte dela conforme foi pedido. Darei aqui a voz  a ele, que viveu em tempos antigos e cuja presença foi apagada da História. Como de costume, farei minhas interferências nos momentos precisos."

"Meu nome é Almír Salamin e esta foi minha história. Na Antiguidade passada encarnei e tão longe do espaço conhecido por vós eu vivi. Fui contemporâneo da produção de "Mil e Uma Noites", portanto, fiz esta referência ao conto que levará a vós minha existência. É uma triste inverdade crer que a História é reproduzida somente por aqueles que possuíam ouro, riqueza para determinar o curso do movimento humano. A desigualdade resultou disto, mas penso que ela também se responsabilizou pela invisibilidade de tantos espíritos que anseiam pela oportunidade de serem ouvidos. O ponto é: fui rico, e, no entanto, igualmente esquecido.

Na verdade, não há nada fora de comum em minha vida. Fui um comerciante que enriqueceu, mas a vida humana era crua em todos os aspectos e comigo não foi exceção. Para o leitor curioso, adianto que encarnei algumas vezes depois. Minha última encarnação neste planeta aconteceu na Rússia de Pedro, o "Grande", mas não me marcou como esta aqui que vos trago para esclarecimento. Na realidade, nutro bastante carinho pelo Oriente e lamento os rumos a que vieram tomar aqueles países.

A fim de contextualizar-vos melhor para que me familiarizar convosco, permitam que eu ilustre o quadro de minha infância. Nasci em uma família cujo pai começara a enriquecer como vendedor de tapetes. Adair era o nome deste nobre homem de grande caráter. Quando ele mesmo era um infante, seus pais faleceram em decorrência de uma pestilência que atacou toda a Arábia, e como era filho único foi criado por um tio distante do lado materno. Este tio lho concedeu péssimos tratamentos, quase o colocando como escravo e negando a este homem a educação devida que, ao contrário, dera de bom grado aos próprios filhos. Não obstante, Adair possuía um intelecto afiadíssimo e paciência de um espírito expiador. A tudo observava e ouvia com cautela e todas as tarefas cumpria sem murmurar. Era tão silencioso que muitos acreditavam ser um mudo, posto que os deuses por algum motivo incompreensível lhes tirou a língua.

Na juventude, porém, Adair provou-se sábio com a língua. Carismático, vendia os produtos deste tio, e os clientes intrigavam-se por este homem alto de cabelos negros como a noite e pele de bronze. Seu riso era fácil e em seus olhos curiosamente verdes exploravam a qualquer cenário que se emergia de bom grado. Na realidade, mesmo aqueles que pouco conheciam sua família sabiam dos mal tratos dispensados à Adair e surpreendiam-se com a ausência de rancor deste homem. Adair tinha uma frase que, mesmo na maturidade, continuava a reproduzir. Era assim:

"Nós damos o que somos. Não exigimos dos outros o que não possuíamos. Sejamos honestos conosco e o mundo o será igualmente. Contudo, tudo isso só assim o será dependendo da forma com a qual se conduzireis entre os comuns."

Cego de inveja pelo sucesso do sobrinho que parecia eclipsar o seu, aquele tio pretendera lho findar a vida. Diziam por aí que Hal'ir era mexido com as artes trevosas. Se era verdade ou não, que importa? Sua intenção era ruim de todo modo. Mas sua esposa, a segunda mulher com quem contraíra o matrimônio, era uma doce jovem aparentada do Sultão chamada Jasmin. E ela se simpatizou com o pobre Adair desde a infância, criando-o como se fosse seu filho de sangue. Igualmente esta moça era de espírito ímpar e a ela Adair recorria nas diversas vezes. No entanto, quando Jasmin soube das intenções do marido... Ela disse assim a Adair:

"Enviarei-vos ao meu irmão, o Sultão. Lá serais por ele educado, e recomendo vossa cautela em tudo o que fizerdes".

Adair aquiesceu e partiu na madrugada com dois mensageiros de confiança de Jasmin. Mas, ah! Uma das senhoras de Jasmin era amante de Hal'ir e com isso soube imediatamente do que se passara. Meu pobre pai fora preso numa enrascada e, como castigo, fora obrigado a ver sua mãe espiritual ser morta a mais de cinquenta chibatadas pelas mãos do tio cruel. Embora lhe sorvessem lágrimas dos olhos, nenhum rancor o quebrou ou o submeteu a tal tirano. Não por isso, porém, os filhos de Hal'ir não tinham o pai em conta. Uma conspiração se formou, ainda que Adair ignorasse de tudo isso. Liderados a cabo pelo filho mais velho, embora este fosse um homem formidável, era suscetível a cometer tais faltas motivadas pelo orgulho, Hal'ir sofreu a consequências de seus atos. Meu pai não quis me informar qual fora o fim de seu tio déspota, pois que o mais importante disso tudo foi o amor que encontrou na prima, também chamada Jasmin, quando aquela família se livrou das correntes densas da escuridão que Hal'ir lhes incultou.

Jasmin, minha mãe, era a filha mais velha da mulher que lhe dera o nome. Era bela e bondosa, mas, como o primogênito da família, orgulhosa e ciumenta. Gostava de se vestir das melhores roupas e ostentar joias, razão pela qual fazia-se cega ao péssimo tratamento que Hal'ir lhe dispensava. Embora amasse profundamente meu pai, os primeiros anos de pobreza lhos foram difíceis por estar acostumada à riqueza de outrora. Mas, segundo ela me contava, quando meu pai notava os primeiros vestígios de frustração surgir em seu rosto, dizia ele:

"O amor a tudo vence, senhora. Que há mais de valoroso que o tesouro do amor que por vós nutro e cultivo? Por vós, submeti às crueldades de vosso pai, mas se estás assim miserável, a porta está aberta. Não sou homem de correntes, e respeitarei vossa decisão, qualquer que seja a tomares."

Minha mãe sentia-se culpada porque homem mais puro que meu pai não existia e foi assim que aprendera a ser mais humilde, logrando ao pretérito faltas que envergonhavam vosso espírito. Com isso, quando a felicidade doméstica se estabeleceu de fato, foi o momento de prosperar. Alguns de vós poderíeis pensar que o enriquecimento era um teste das virtudes de Jasmin e concordaria neste ponto convosco. Era provável que assim fosse, e ela foi aprovada com louvor. Conforme o pai avançava nos negócios, ela se concentrava mais na família, na casa e nas amizades que selecionava com louvor. Praticava sua fé na humildade e, quando inquirida por que não fazia sacrifícios às honoráveis deidades, respondia ela:

"A comunicação sincera do coração foi a lição mais valorosa que tirei das histórias contadas de nossos deuses. Se um dia a deusa do amor bater a minha porta e indagar sobre meus feitos, darei-os a ela e direi que nada sou sem que dela pudesse obter seu merecimento. Sem a fé, somos nada. E ouro algum apaga nosso erros dos olhos divinos que a tudo sabem, a tudo veem."

Esta sabedoria, que praticava costumeiramente e pondo logo a inculcar nos filhos que nasceriam, afastou dela a maior parte dos vizinhos, mas aproximou igualmente de presenças mais lustres. Tal era o contexto feliz de quando encarnei, seguido de três irmãos: Alayn, Romero e Safira.

Sendo eu o mais velho, recebi a educação paterna para os negócios, embora minha mãe, de personalidade admirável, insistisse de que eu também deveria acompanhar o regimento da casa o qual ficava sob sua responsabilidade. Neste ambiente crescia, e Alayn buscava me acompanhar. Éramos muito próximos na infância, companheiros de brincadeira. Alayn gostava de correr por entre os mercadores, e alguma das vezes era ousado o suficiente para roubar deles objetos insignificantes. Este hábito, todavia, foi prontamente cortado pela raiz quando nossos pais foram informados disto. A mãe ficou bravíssima, e nós pouquíssimas as vezes a vimos daquela maneira. 

"Tendes a inteligência, meu filho", disse ela a Alayn. "Por que usardes para o mal se poderíeis utilizá-la para o bem?"

Alayn era moreno como eu, de cabelos lisos e sedosos e pele bronzeada. De nariz mais longo e sorriso fácil, era vaidoso e orgulhoso, mas seu coração era bondoso e parecia inclinar-se para este caminho quando se permitia ser educado para estes instantes. Todavia, por mim sentia ligeira ciumeira que prevalecera nesta existência, surgindo de outras anteriores. Apesar disto, mo era leal quando vira que eu o era a ele. 

Romero, porém, tinha a saúde extremamente delicada. Este sim viera ao mundo sem a proeficiência da fala. Não obstante isto, era muito retraído e seus rompantes de fúria eram assustadores, testando constantemente a paciência de todos os que com ele moravam. Mais baixo de nós todos, herdara os cabelos tipicamente negros da família, embora fossem, em contrapartida, cacheados. Como era impossibilitado de gritar as suas frustrações, Romero descontava na comida. Era mais difícil de lidar do que Alayn. 

(Nota de Ogum: este é um dos casos que em contos passados já foi dito a respeito em que um espírito que encarna em determinada família não necessariamente possui qualquer vínculo espiritual com a mesma até então. Romero fora uma entidade bastante infeliz em existências pregressas. De origem venusiana, teve dificuldades bastante morais para adequar-se à Terra, mesmo que o planeta à época de sua primeira encarnação, fosse tão primitiva quanto seus instintos. Contudo, prevalecia em si  a vontade de fazer o bem e, apesar dos apesares, conseguira fazer-se avançar aqui. No entanto, havia pedido para um de seus guias superiores para encarnar entre a família de Almír para que pudesse aprender mais sobre a bondade, a caridade de Cristo, e, acima destas qualidades veneráveis, o amor. Se por um lado constituiria sua presença como expiação e missão para as partes envolvidas, receber este espírito também foi uma grande caridade destes membros. Adianto que, neste caso específico, sua vivência foi curta porque precisava aprender, expiar e "sofrer" diante das limitações impostas a fim de reencarnar sereno em outra vivência.)

Safira era, por ventura, a mais meiga de todos da casa. Era ela quem herdara, de todos nós, o melhor de nosso pai e o melhor de nossa mãe. De modo que sua beleza interior exteriorizava-se e tal bondade quase imputava uma aura diferente em seu corpo terreno. Afinal, como seu nome, era uma joia rara. De cabelos longos e macios, Safira possuía os olhos verdes do pai e seu sorriso fácil conquanto o nariz e as feições recordavam-nos a mãe. Seu humor era leve, e apreciava-lhe cumprir com todas as tarefas domésticas. Cabe mencionar que era a única dos irmãos que acalmava Romero em suas piores crises e a ele esteve em seu lado até os últimos momentos.

Quanto a mim, deveis vos perguntar como fui. Digo-vos que não diferi tanto de meus irmãos, era alto, meus cabelos eram igualmente negros e sebosos, mas meus olhos curiosamente detinham uma mistura de verde com castanho. Safira costumava dizer que à luz do sol ficavam verdes, e sob a luz, acastanhavam-se. De todo modo, após a puberdade, cultivei uma breve barba, hábito que manteria no restante de meus dias. Admito que, tal qual minha mãe, apreciava boas roupas, ainda que não fosse ao extremo para obter um tecido adequado segundo meu gosto privado. No mais, com meus vícios e virtudes, aquele era eu. E esta foi a família que vos descrevi.

Os mil e um dias que optei por contar e que levam a cabo o título deste conto que vos dito, representaram, a meu ver, um mar de sentimentos e experiências que hoje em dia sou grato por tê-las passado. Alguns poderiam argumentar que foi o declínio da boa sorte da família, mas penso que a vida seja como um ciclo lunar e nunca permanece a mesma.

Sendo assim, eu contava cerca de vinte e três anos quando o pai e chefe de família deu indícios de sofrer, a qualquer instante, seu desencarne. É verdade que ele prontamente, nos últimos anos, planejou casamentos para todos os filhos. Afinal, por mais avançado que fosse para a moral da época, era um homem de seu tempo. Planejando meu noivado com a sobrinha do Sultão, Aisha, ele disse:

"Filho, precisamos conversar. Preocupo-me que, já nesta idade vossa, não haveis encontrado uma noiva para que possa dar continuidade aos negócios da família."

Ele fez uma pausa e esperou ouvir meus motivos. Assim, tocado pelo seu respeito, eu disse:

"Pai, meu augusto senhor, não desejo inculcar aos vossos olhos a falsa perspectiva de que pretensão alguma possuo nestes termos. Confesso, todavia, de que dama alguma capturou minha atenção e, não tendo me ocupado em buscar alguma de valor inestimável para nossa família, preferi me ater a ajudá-lo no que fosse possível ao nosso labor."

Adair sorriu, compreensivo.

"De fato, filho, e nenhuma razão possuo para nutrir qualquer insatisfação convosco. Vossas virtudes muito me aprazem e a vossa mãe. Sei que deixarei um legado a ser bem apropriado e conduzido por vós. Sua seriedade conquanto vos instruo nos assuntos muito me alegra. Não obstante, gostaria muito de viver para ver um neto, outra geração a surgir dos filhos que me são queridos. Nesse sentido, não escolhi antes porque penso que, até por experiência própria, cabe a cada um seguir os caminhos do coração desde que estes sejam trilhados na sinceridade e na bondade segundo determinações dos deuses. Como, porém, não vejo de vós esta iniciativa, percebo que terei de tomar as rédeas. Compreendeis o que vos digo?"

"Creio que é natural do pai cumprir com as direções das vidas dos filhos". Falei, e eu não menti quando me submeti a sua vontade. Não havia, realmente, sentido atração alguma por mulheres até então e muito mais me interessava os negócios do que o prazer.

"Agradeço a confiança que deposita em mim, meu filho." Ele, então, hesitou. "Poderíeis comunicar o mesmo aos vossos irmãos?" 

Uma parte de mim queria questioná-lo pela tarefa que me dava. Contudo, a outra, mais perceptiva, logo constatou que uma transição silenciosa acontecia. Afinal, em breve seria o chefe da família. Assim, aquiesci.

Mas, como pensava, meus irmãos, à exceção de Safira, não aceitaram que as vontades de seus corações seriam conduzidas pela mão paterna. Em um texto, Romero foi o primeiro a escrever:

"Por acaso sou incapaz de escolher aquela com quem gostaria de compartilhar o restante de meus dias? Minha incapacidade de falar me torna igualmente incapaz de fazer minhas escolhas? Não era ele o velho que defendia nossa individualidade frente ao mundo cruel que nos espera ali fora? Ora, o que foi que o mudou? A deficiência deste filho?"

Suspirei. Um olhar de alerta de minha irmã me recomendou prudência na resposta. Antes que Alayn protestasse, eu levantei a mão e disse, enquanto enfrentava o olhar furioso de Romero:

"Nosso pai não é hipócrita, irmão. Sim, ele é falho como todos os outros homens, como nós, que diante da vontade divina somos nada. Creio que se nosso pai o achasse incapaz e um imbecil de viver, por que teria-lho dado tarefas domésticas a serem feitas? Se os deuses pensaram sábio ter-lho retirado a função linguística, é para que não nos ferisse com estas palavras."

Safira suspirou e eu notei, pelos pulsos semicerrados de meu irmão, que não fui sábio nas palavras. Ao contrário, me equilibrei em sua irritação e falei o que não devia. Tentei novamente.

"Peço-vos perdão, Romero. Não medi as palavras direito ao vos dirigir impropérios." Pausei. Esperei algum ataque de fúria silenciosa, mas me surpreendi diante de sua relutância aquietação. Prossegui. "Nosso pai, como dizia, não é perfeito. Nós sabemos, cada um a sua maneira, que ele já cometeu erros. No entanto, é o chefe da nossa família. Cabe a ele nos dirigir para que as tradições passadas não sejam perdidas e que nós façamos o que devemos ser feito. Quantas vezes ele não deu permissão para que seguíssemos caminhos que outros tantos teriam nos repreendido? Não ouvimos a vizinhança reclamar de suas qualidades, reconhecendo nelas a falta que porventura projetam em nosso pai? Do dever é possível que surja o amor. E ele está sendo o pai que merecemos, o pai que temos. Romero, não veis que ele vos protege e ama como todos nós?"

Safira me direcionou um olhar aprovador, mas ela nada disse. Romero, por outro lado, ponderava em sua quietude o que eu dizia. Embora estivesse ansiando por alguma resposta sua ao que disse, a reação veio de Alayn, que disse:

"Como podemos desposar mulheres que nunca vimos em prol de alianças que sequer sabemos se regará frutos no futuro?"

A isto, notei, Romero assentiu em concordância. Calmamente, expus a resposta da seguinte forma:

"Assim é que a sociedade da qual fazemos parte funciona. Por que acheis que poucos de nós casam-se por amor? E o que dizer de outros que o fazem por luxúria? Aonde estão eles?"

"A pobreza", manifestou-se Safira, "pode ser suportada quando há amor sincero de ambas as partes. Contudo, concordo convosco, irmão. Não vivemos ainda em um tempo em que se permite atingir o ápice da felicidade. Que a Deusa nos ajude a todos. E seremos fortunosos se, em meio ao dever, florescer o amor. Disto não há dúvida. Que a vontade do pai se cumpra."

Alayn encarou Safira, estupefato.

"Não creio no que direis, irmã."

Mas ela retornou seu olhar com serenidade.

"Se cumprimos com deveres para com nossos pais, o que será dito daqueles que a sociedade aguarda serem feitos? Não espero felicidade aqui, irmão, mas na morada dos deuses."

A despeito da infelicidade geral em reconhecer que não haveria como cada um escolher seus pares, era senso comum que tal era a melhor forma de proceder sabendo-se que a autoridade para isto caía no pai. No entanto, a aparência de paz doméstica não deve iludir o leitor. Alayn era tão impetuoso quanto Romero em suas paixões, a despeito de sua inclinação para para o bem, e, ingênuo como fui, não contei que ele fugiria da casa dentro de alguns dias para a consternação de todos.

Os únicos que permaneceram calmos em meio ao estresse provocado por Alayn foram Safira e o nosso pai, o que não é de surpreender a ninguém. 

"Como podeis ficar lúcido em meio ao caos provocado por vosso filho?!" A matrona chorava copiosamente, em repúdio à resignação do pai que, infeliz, mirava-nos a todos.

"É na lucidez que devemos permanecer para que a paixão do mundo não jogue suas redes sobre nós." Falou ele, cansado. "Crianças, procurem por vosso irmão. Temo me faltar forças para tal."

Franzi o cenho, pronto a contestar-vos, mas um olhar do pai calou minhas inquietações. Preocupava-me com ele, mas deveria obedecê-lo antes de tudo. Assim, acompanhado por Romero e Safira, saí em meio ao caos à procura do rebelde Alayn.

"Mas o que deu nele?" Inquiri, falhando-me ver motivações de qualquer natureza que pudesse provocar essa impetuosidade em nosso irmão.

"Está apaixonado", disse Safira, capturando as atenções de Romero e minha. "Ora, como podeis ser tolos? Por qual outro motivo teria fugido depois da decisão do pai em casar-nos todos?"

Envergonhado diante da lógica apresentada com sabedoria, aquietei-me. Nisto, Safira disse:

"A questão é... Quem foi a responsável por roubar-lho o coração?"

Minha mente começou a traçar possíveis questões para isto. Enquanto passávamos por uma multidão de senhores e escravos, atravessando o mercado da cidade, éramos tomados por uma ansiedade em não encontrar Alayn. Até que Romero me deu uma forte cutucada nas costelas e fê-me dirigir o olhar para a edificação de um palácio dourado não muito longe do centro.

"Ah, não."

Quando Safira se virou para perguntar o motivo de meu desalento, ao seguir para onde o olhar de seus irmãos haviam se fixado, ela também murmurou algo inaudível. Mas, ajeitando o véu rosa que cobria os cabelos negros e o vestido azul com traços de costura marrom que enfeitava o corpo, ela tomou a direção e nós, como bobos, a acompanhamos.

O palácio dourado em questão pertencia ao irmão do novo Sultão. Era, portanto, da realeza. Se Romero viu Alayn entrando por ali... Estávamos perdidos! Dali se iniciou a nossa desventura, pois que desconhecíamos a natureza do caráter daqueles que ali habitavam e nunca tivemos a pretensão de nos aproximar da realeza. A isto, confidenciou-me Safira:

"Como estes senhores reagirão ao ver-nos aqui?"

Uma pergunta que eu mesmo me fazia, mas a que não soube encontrar resposta. Novamente, encorajada por força maior, Safira tomou as rédeas da situação, mas antes que pudéssemos adentrar os grandes portões que, abertos estavam, interpunharam-se entre nós e a residência real, dois guardas vieram a ter conosco.

"O que quereis aqui?" Um deles rudemente perguntou.

"Pensamos ter visto nosso irmão entrar aqui", Safira respondeu na inocência, mas diante do lampejo de raiva daquele que inquiriu, soubemos que foi a resposta errada.

"Acaso a senhora está insinuando nosso desleixo na segurança do irmão do Sultão, nosso nobilíssimo senhor Jarvar?"

Safira enrubesceu, e desta vez falei com firmeza:

"Não se trata do caso, meus confrades. Apenas pensamos ter visto nosso irmão entrar aqui. Ele deve ter uma explicação para isso certamente ou nós nos enganamos..."

"Decerto se enganaram", aprovou-lho dizer o segundo guarda. "Não há ninguém aqui, exceto a filha do homem a que servimos e ela está muito bem protegida."

Uma sensação esquisita tomou-me o peito. 

"Se se trata de um engano, nós prontamente repararemos o erro", falei, tão humilde quanto possível. "No entanto, que custará verificar se o nosso irmão está dentro deste local? Como falei, deverá haver uma explicação plausível para isto."

Enquanto eu debatia razoavelmente com os guardas, um cenário risível se desenvolveu: nosso ousado irmão mudo, Romero, aproveitou da distração dos homens e rompeu residência adentro. Sua fuga, nitidamente silenciosa, só tomou nossa atenção quando Safira exclamou:

"Volte, homem! Volte, irmão! Sequer sabemos se Alayn está aí!"

Nisso que os guardas franziram o cenho, crendo que eu fosse um mentiroso, se não um ladrão na pior das hipóteses, que haveria coluido para tomar a residência. Um deles ameaçou-se de dispor força física para comigo, mas Safira novamente os distraiu quando ela se esqueceu de sua posição e correu atrás de Romero. 

"Ora, não perdemos tempo!" Eu tornei a bradar, impaciente com aquela situação.

Deixando as ameaças de lado, pomos a correr palácio adentro agora à procura de dois irmãos: Romero e Alayn. Em meio a tudo isso, ouvíamos os guardas gritar conosco e convocar outros de sua guarnição a fim de nos prendermos. Mas como o palácio era grande e espaçoso Safira e eu conseguimos nos desviar da minoria que vinha atrás de nós. Contudo, a movimentação logo alardeou os que habitavam nele e o leitor poderá rir quando, diante de nós, veio a princesa ao lado de Alayn. 

"Mas o que...."

"Ah!" Exclamou Alayn, cujo rosto ruborizava diante da situação que provocou. "São meus irmãos, Naysha."

A princesa Naysha logo compreendeu do que se tratava e prontamente remediou a situação ao afirmar aos guardas, sem delongas, que aqueles eram seus convidados e os repreendeu por tratar-nos desta maneira. Constrangidos, eles se dispersaram, e assim na primeira oportunidade, esquecendo-me de quem estava perante, falei:

"Mas quanta irresponsabilidade, Alayn! Que pensais ao fazer isto, tomar de assalto a casa da princesa? Deixastes para trás a mãe em prantos e o pai desolado, e para quê?"

Naysha, de beleza indescritível, era o objeto de afeições de meu irmão. De longos cabelos negros e traços indianos, vestia-se como uma, de trajes que eram por nós, meros comerciantes, desconhecidos. Um véu vermelho com desenhos em dourados cobria-lhe a cabeça, e uma joia prendia-lhe uma narina ao ouvido através de uma corrente. Seu rosto moreno estava maquiado e no corpo esguio tecidos de diferentes corpos o enfeitavam. De personalidade forte, ela interveio em seu amor:

"Senhor, por favor! Escutai-nos!" Ela pediu. "Peço perdão por como tudo isto aconteceu, mas asseguro ao senhor  que nada foi feito para causar a vossa família qualquer tipo de embaraço. Nós nos amamos, meu senhor, e já tem tempo desde que nos vimos pela primeira vez que temos nos encontrado em segredo. Mas Alayn está preocupado com o fim de nosso amor porque vosso pai pretendes casá-lo com outra de posição vossa."

"Certamente meu irmão é indigno à vossa posição, senhora!" Exclamei, franzindo o cenho para Alayn, que se aproximava timidamente. "Dissestes a vós quem sois? Um filho de um vendedor de tapetes?"

Surpreendi-me quando Naysha respondeu com firmeza:

"Sim, meu senhor. Possuo razão e discernimento para entender também o que quiserdes dizer com vossa sugestão."

Enrubesci de raiva, mas ao mesmo tempo me espantei com tamanha colocação. Nós nos encaramos firmemente, um sem querer reconhecer o erro do outro até que Safira, sempre ela, interveio:

"Acalmai vossos ânimos. Peço perdão pelo comportamento infantil de meus irmãos, senhora." Ela disse com um sorriso doce. "Almír está desempenhando o papel que lhe caberá herdar quando nosso pai se for, é natural sua preocupação. Contudo, Alayn foi irresponsável em suas atitudes. Fugir de casa sem comunicar-nos de sua situação? Oras, não sabeis ele que tens em casa uma irmã que a tudo lho assiste e provê?"

"Receava ser julgado", afirmou Alayn enfim. "Por todos vós."

Mais calmo e de posse de minhas razões, falei:

"Não vos julgaríamos, irmão. Mas atitudes como essa nos deixam... Enlouquecidos." 

"E é realmente preocupante", acrescentou Safira, "que estejais apaixonado pela princesa. Vosso pai possuís conhecimento deste assunto, senhora?"

Também ela mais razoável que antes, a princesa Naysha suavizou em suas expressões e disse:

"Não, senhora. Ele não sabe."

"Oh, céus." Safira lamentou.

Alayn interferiu a situação constrangedora que se amontava e disse:

"Mas nós vamos nos casar, a todo custo."

Algo em minha expressão denunciou o temperamento que, com muita dificuldade, eu não conseguia controlar, porque Safira colocou a mão em meu braço e disse:

"Como fará isso se não possuíres dote, irmão? Nós sequer temos condições de auxiliar em vosso sustento. Sangue real não corre em nossas veias e..."

"Pouco me importa", afirmou a princesa com firmeza, interrompendo o volume de palavras que expressavam a preocupação de Safira, certamente um reflexo nosso. "O amor a tudo vence."

Quase soltei uma risada de desdém. Sabia que estava sendo testado pelos deuses, e admitia perante minha consciência a fraqueza minha neste teste, mas, pensando no que aquele absurdo provocou em nosso pai, falei:

"Como, se a senhora está acostumada a viver em meio ao luxo? Não estaríeis prometida a outro noivo mais adequado a vossa posição? Aceitaria de bom grado renunciar a tudo isto em troca de um amor humilde?" Suavizando o tom, falei: "Senhora, em breve serei o chefe desta família que conheceis. Aceitaríeis depender de mim?"

Mas a princesa Naysha retrucou:

"Estou firme em minha resolução."

No entanto, não penseis, leitor, que a vida é como um conto de fadas. Esta decisão afetaria a todos os que dela participaram, conscientemente ou não. Uma vez vendo a decisão do casal, e faltando a mim e a Safira argumentos para dissuadirem ambos daquele feito, falei:

"Que seja. Creio que os deuses do amor vos abençoareis. No entanto, volteis conosco, Alayn, pois que o pai o espera e a mãe pranteia vossa ausência descabida."

Observamos a troca de juras de amor entre eles, e voltamos, como se nada disso tivesse acontecido, à casa. Quieto a todo caminho, recusei conversas de Alayn, pensando, em minha tola ignorância, como um amor poderia vencer costumes e, mais ainda, tinha o poder de enlouquecer os mais aptos à razão. Que Ishtar nos abençoe a todos, murmurei em pensamento.

Mais tarde, nossos pais receberam Alayn no seio da casa com ternura e afeição. Quando nossa mãe recuperou o bom senso e o juízo que foram lhos tiradas com o estresse que o filho querido lho provocou, assustou-se diante das notícias que ele trazia. Meu pai, exausto e contemplativo, nada falou. No entanto, diante da insistência de que a mãe vos pedisse para comunicar algo a respeito, ele disse:

"Filho, me responda uma coisa. Que dizeis o coração?"

"Que ela é o objeto de minhas profundas afeições", disse Alayn, apaixonadamente. "Ela é mui bela, senhor, mas suas virtudes enaltecem sua beleza. Nenhum poeta no mundo compreenderia o que digo, mas, ah, se repousasse os olhos nela..."

Revirei os olhos, mas aquilo não passou despercebido de meu pai, que disse:

"Por que desdenhais do amor, filho meu?"

"Porque", falei impetuosamente, "não consigo ver como pode tornar tantos imprudentes à luz da razão!"

"Os deuses guardam propósitos a nós desconhecidos", disse o pai em sua eterna sabedoria. "Não obstante, não fostes fruto do amor que possuí e continuo possuindo por vossa mãe?"

Até mesmo aquela afirmação bastou para aquietar os protestos da mãe, lembrando que, ela mesma tendo se abjurado da riqueza, viveu em pobreza com o pai em amor a ele e a esta condição apreendeu o suficiente para que, mesmo que caminhássemos para a riqueza, não se sentisse a ela apegada. Diante disto, também eu me calei. Então, o pai voltou-se ao vitorioso Alayn e disse:

"Filho, se estás feliz em vosso coração, dou a vós meu apoio. Contudo, o pai daquela que vos ama possui reputação não muito favorável sequer aos olhos dos deuses. Estaríeis preparado para as consequências de vossos atos?"

Alayn hesitou e, por um longo instante, até eu temi que isso não se passasse de impetuosidade carnal. De repente, me vi diante do cenário de guerra, sangue, atrocidades, e percebi, em intima contemplação, que morreria por meu irmão se fosse necessário. Desconhecia o amor, mas via-o transformado por ela, e não valeria isso? O que é o dever quando amamos verdadeiramente e com a alma?

"Sim, meu pai, estou." Foi sua resposta final, a que atestava seu caráter. Sorri. "Por ela morreria se fosse necessário."

"Deuses queiram que não chegue a isso", me ouvi falar, atraindo para mim o olhar surpreso de Alayn. Diante disso, me forcei a explicar: "Irmão, se contestei antes a respeito de sua relação e se mesmo questionei o amor que sentireis pela princesa, foi, a princípio admito, primeiro por desconhecer que amor é este que vos move, mas, segundo, por me preocupar convosco. Vós partilheis de meu sangue, sois de minha família, e não estais só nesta empreitada. Confesso, no entanto, que preferia que tivesse se apaixonado por uma mulher de laços menos complicados."

Todos rimos desta última frase por mim professada. A união calou os últimos resquícios de desentendimento e trouxe a oportunidade que o pai almejava, o amor em família. Tal foram seus últimos instantes  que, infelizmente, se dissiparam diante da morte que o levou de nós. Um novo cenário se formava: era eu o novo chefe da família, a quem cabia determinar os destinos daqueles que de mim dependiam. No entanto, não procurei me favorecer sobre os outros. Na relativa paz que se seguiu ao desencarne do pai e antes da tempestade que viria nos atormentar pelos dois anos seguintes, procurei cumprir com as vontades de Adair. Nisto, primeiro concedi à mãe a pensão a que merecia e dei-lho permissão para a venda dos tapetes, aconselhando que nesta tarefa levasse Romero, que, surpreendia a nós todos com seu caráter cada vez mais tranquilo. Em segundo, busquei um noivo adequado para Safira, mas fiz questão de investigar apropriadamente a índole daquele que lho seria marido. 

"Ainda que possua um temperamento questionável", disse Safira, resignada, "cumpre-me fazer a vossa vontade, irmão."

"Agradeço o respeito que devotas a mim, irmã", falei com amabilidade. "No entanto, desejo assegurar vossa felicidade no que me for possível, ainda que sentirei falta de vossa sabedoria."

Ela me sorriu e disse:

"Possuís vós também o bom senso para as situações, querido irmão, mas muitas das vezes deixais que ela se submeta às vossas paixões."

Tal era o conselho dado e que pretendi levar para toda a vida. Em breve, contudo, foi casada por um senhor rico e de personalidade admirável da Síria. Era algo de alma, pois que o homem calhou de vir longe para procurar uma noiva naquela região. Pela graça dos deuses, seria uma reunião feliz e tranquila. 

Para Romero, procurei uma noiva adequada a ele, mas um dia fui surpreendido com um curioso pedido seu.

"Irmão, sou muito grato por tudo que fizestes por mim. Não fui uma criatura fácil de lidar, reconheço minhas faltas e por elas vos peço perdão. Não desejo causar-vos mais inquietações do que o necessário tendo em vista o que fiz por vós no pretérito. Creio que logo os deuses me convocarão para regressar à morada divina e, portanto, eis meu único pedido."

Comovido, abracei-o e pedi igualmente perdão pela falta de paciência com a qual muitas das vezes agi. Apesar das diferenças, nos reconciliamos e, não muito tempo depois, ele veio a falecer. Nossa mãe ficou desolada e tanto eu quanto Alayn a consolamos. 

"Peço-vos que vos case", ela me instou. "Sinto em meu coração que algo de ruim virá sobre nós. Despose uma moça decente, meu filho. É o que vos peço."

É verdade que relutei em aquiescer. Nos últimos anos, arranjei casamento para Safira, buscava uma pretendente para Romero, trabalhava arduamente para o sustento da casa e, principalmente, para formar o dote adequado para Alayn, que todas as noites escapulia para o palácio dourado, onde encontrava sua princesa.

Quando decidi me casar, procurei entre as mulheres que julgava ter o caráter temperado pela docilidade e inteligência. Logo antes da chegada da tempestade, encontrei aquela que disparou em mim a flecha do amor. Seu nome era Alysha e ela era a primogênita de um senhor também rico comerciante. Ela era bela como a noite, a pele bronzeada e de longos cabelos negros. Seu sorriso iluminava a alma e dissipava qualquer falta que estimulava o vício. Ao contrário, assim que a conheci, senti que a virtude era lho trazida naturalmente.

"Minha senhora, ao que parece a deusa veio abençoar-nos." Falei, na primeira oportunidade em que tive para tomar conversa com ela. A cena aconteceu na sala de sua simples casa diante do testemunho de suas duas irmãs mais jovens, que, por vezes, interrompiam a conversa com suas risadinhas tolas. "A sensação de vos conhecer não é de hoje.."

Com a voz suave, ela respondeu:

"Sim, meu senhor. Com que graça penso o mesmo! Teria Ishtar nos juntado antes de virmos a esta vida? Penso que sim."

Ficávamos a nos fitar, e um sorriso seu trazia outro meu aos lábios.

"Fico sem palavras diante de vós, senhora. Que posso dizer para que ganhe vosso respeito, vossa contemplação?"

Uma risadinha escapou de si, mas ela se recompôs e disse da seguinte forma:

"Vosso devotamento sincero é o que busco em um companheiro. Se balanceado com vosso bom coração e respeito já estarei eternamente grata e em mim encontrará uma esposa tão devota e fiel."

O cortejo foi um sucesso, como poderíeis pensar. Damo-nos bem, as personalidades foram compatíveis. Quando logo obtive o consentimento dos pais e dela, o casamento logo foi realizado. Pensávamos que tudo se encaminhava nos conformes...até que, dois dias depois, um dos guardas de Jarvar bateu a nossa porta. Minha mãe, que muito gostava de sua nora e mais que contente estava por ter outra companhia de seu sexo por perto, prontamente atendeu e foi surpreendida com a confusão que, afinal, veio a nós.

"Onde está Alayn?" Perguntaram.

"Mas, por que quereis saber?" Minha pobre mãe teve a nobreza de responder. E, no entanto, recebeu um forte tapa daquele lamentável espírito ignorante.

Minha esposa correu para acudi-la, mas foi impedida por um dos guardas que, abraçando-a pelas costas, tentou incorrer à mesma pergunta. Diante da negativa e do nervosismo, jogou-a no chão. Enquanto isso, estava eu retornando dos negócios com Alayn quando notei a agitação de casa. Notando a riqueza dos guardas que reviraram o lar, eu prontamente entendi do que se tratava.

"Vá, irmão." Falei, nervoso. "Não me aguardeis, apenas vá. Busque vossa prometida e fujam."

"Mas..."

Eu vi a dor nos olhos dele, mas não havia tempo.

"Não se desculpe. Não vos culpe por vivermos em um tempo no qual infelizmente as riquezas possuem mais importância que o amor. Morrerei por vós se for necessário. Sê feliz, Alayn!"

Os deuses, entretanto, não pretendiam que isso se realizasse. É verdade que Alayn fugira, mas ah! A que custo? Ele corria para os braços de sua amada, contudo, desconhecia que o cruel Jarvar estava, depois de longa ausência, de volta à residência. Descobrindo que sua preciosa filha se comprometera e recusara o noivado que, em sua limitada concepção, houvera trabalhado dia e noite para arranjá-lo, subjugou a pobre princesa sob sua crueldade. E isto não seria feliz para Alayn que corria para resgatá-la. Ah, triste é o mundo em que o materialismo ofusca o amor puro!

De volta a ação naquele bairro de comerciantes onde residia com minha família, estávamos todos agitados, compreensivelmente. Entrei e exigi respeito pela minha família, preocupando-me ver as mulheres que amava terem sofrido qualquer violência da parte de brutos homens. Pela graça divina, porém, foram poupadas do pior. No entanto, dirigiram a mim a brutalidade que não ouso descrever. Como concluíram que auxiliei Alayn a fugir, pensaram que seria melhor se livrassem de mim.

Contudo, os vizinhos aglomerados que tinham ciência da impiedade dos sultões, prontamente se colocaram contra os guardas destes. A faísca de uma guerra civil deu início. Foi, entretanto, o suficiente para dispersar aqueles homens terríveis, embora poucos sobreviveram à raiva súbita dos comerciantes.

Mesmo machucado, tendo saído da situação com sobrevida, me recusei, a despeito da dor que isto me causava, a ceder. Planejei a fuga de mãe e esposa para Síria, a fim de que se hospedassem na segurança do lar de Safira.

"Não vou abandoná-lo!" Protestou minha amada e bondosa esposa. "Fiz os votos dos deuses e não os quebrarei agora."

"Filho meu sois, e como mãe não repudiarei meus deveres para abandoná-lo a esta tragédia que os deuses nos colocaram."

Tais foram seus apelos e inúteis minhas resistências diante delas. Mas os ataques de Jarvar a minha família não cessariam tampouco. O homem manipulou o Sultão e obteve o poder de executar todos aqueles que ousassem protestar contra sua autoridade. Disso se resultou enormes tragédias, lamentáveis de fato, e que não reproduzirei aqui. 

No entanto, mais do que minhas feridas agonizantes, me preocupava com o destino de Alayn. Não sabíamos dele e coube aos nossos vizinhos leais tentarem descobrir seu paradeiro. De imediato, lhos foi dito que Alayn foi preso. Compreendi que, em face ao autoritarismo de Jarvar, se meu irmão estava vivo ainda... Por mais quanto tempo?

Poupei, todavia, minha mãe de ouvir tais notícias. Ao contrário, preferi prepará-la para o pior. Foram dias terríveis, nebulosos, pois que a tensão cobria toda a região. O amor de Alayn pela princesa Naysha desencadeou descontentamentos que havia muito eram forçados a ser engolidos pela população. Logo, minha visão anterior se concretizou e a guerra civil eclodiu.

"É-vos imperativo de que saiam desta cidade!" Demandei, exasperado, quando recuperei o suficiente para fazer uso de minha autoridade doméstica. "Ditei a um servente a carta para Safira. Lá ficarão. Especialmente vós, minha amada esposa, cujo filho guardais em vosso ventre com cuidado."

A despedida foi terrível, de fato. Partiu-me o coração e não havia noites em que eu pranteava antes de cair em sono profundo. Contudo, em uma noite veio a mim o espectro de meu pai, cercado de luz divina.

"Filho meu, a que vos afligis?"

"Pai augusto, senhor, sou fraco para as questões que atormentam este que vos foi devoto." Declamei em dor.

"Por que dizeis isto, filho? Subestimais a vossa força e por qual razão? Senti-vos desamparados, e, no entanto, cá estou. Pois divindade nenhuma impele isto ao filho de boa fé."

Sorri diante de tais palavras.

"Lamento se vos desapontei."

Mas o velho Adair me sorriu com aquele sorriso fácil de outrora e disse:

"Se visses a vós como vos vejo, filho, não diria tais coisas. Sê forte e renove vossa fé, pois vosso irmão precisa de vós."

"Sou fraco, pai. Apenas um comerciante..."

"Sois filho do Grande Pai como todos nós o somos. Ainda haverá de vir os tempos em que perceberá isso. Confie em vós, se estais seguindo os destinos divinos fostes porque escolhestes. E se assim foi, é porque capacidade de enfrentar tudo isso vós possuirdes. Não estais só, filho. Nunca esteve. Confie e vigie."

Na manhã seguinte, renovado depois deste reencontro com meu finado pai, preparei-me para o encontro dos comerciantes revoltados a fim de unir a causa minha a deles. Foram tortuosas reuniões, indecisões que me desgastavam o espírito. Precisava reunir forças para resgatar meu irmão. E decidi fazê-lo só. 

Caminhei até o palácio dourado e, uma vez reconhecido pelos guardas que ali ficavam, tomaram-me e prontamente me levaram para a verdadeira força por trás do Sultão. Jarvar, envolto em negro tecido, me espreitava com olhos castanhos cheios de raiva. 

"O covarde decidiu vir em defesa do irmão?" Ele me recebeu grosseiramente. Ao seu lado, a filha, que, mal reconheci, estava desfigurada. Pobre criatura, cujo único pecado fora o de amar alguém abaixo de sua posição. 

"Covarde sois vós que, incompreendendo o amor e a honestidade, se esconde por trás de forças nebulosas para exercer seus escrutínios."

Jarvar arqueou uma sobrancelha.

"Acusações vazias de um pobre comerciante como vós significam nada para mim."

"Os deuses a tudo observam", falei. "Tudo sabem. Tudo veem."

Ele riu de mim e disse:

"E onde estão eles enquanto aqui estais, perante a mim, vosso comandante, vossa força superior? Não sois tolo, pare de agir como tal!"

"Onde está meu irmão?" Gritei, perdendo a paciência. Mas força superior inspirou-me coragem e eu resignei-me, arrependendo de ter dado vazão à raiva que Jarvar inspirava.

"Morto." Disse ele, friamente. "Ou vivo. Que importas?"

Encarei criatura vil nos olhos, perplexo com tamanha falta de humanidade. Como os deuses permitiam tal ser tomar corpo e, paradoxalmente, produzir filha tão pura? Diante da perplexidade que estampava em meu rosto, Jarvar riu e pediu que trouxessem meu irmão a minha vista. E mais chocado estive quando, de fato, o trouxeram a mim.

Mas o que se seguiu, em velocidade assustadora, foi assombroso. Jarvar ordenou que o matassem e, no grito surdo de um coração partido vindo da princesa, vi Alayn abraçar a morte com um quase alívio. Meus olhos volveram de lágrimas, mas se nenhum grito veio de mim foi porque compreendi que era melhor que assim fosse a viver continuadamente em dor. 

Jarvar, contudo, não tolerava isso. Aprouvia-lho que gritos enfeitassem seu pobre palácio, enquanto tal sensação provocava-o desgosto. Ante meus olhos vi o amor desfarelar quando a princesa foi silenciada para sempre. 

Não satisfeito por isso, ele se virou a mim e disse:

"Que achais deste espetáculo? Assim morre o amor!"

Recuperei-me do choque, e, logrando ao pretérito meus traumas, como se inspirado por força superior, encarei aquele demônio nos olhos e disse:

"Ao contrário, assim o nasce! Pois esta história, quer desejais ou não, seguirá seu rumo e inspirará tantos outros a revoltarem-se contra vossa tirania. Que pensais, pouco me importa. Hoje assinaste vosso destino e eu vos perdoo por isso." Falei com simplicidade, sorrindo aquele ser que, eu percebia, era vazio em tudo e precisava de regeneração. "Vos perdoo."

Foi neste instante, leitor, como presumivelmente deveis supor que aqui deixei minha vida pelo beijo do aço. No entanto, estava em paz e, amparado pela espiritualidade, nada me faltou nesta transição. Os guias que me cercaram logo me elucidaram sobre o ocorrido, mas foi preciso que ainda descansasse no hospital da colônia espiritual a que fui direcionado para que pudesse estar bem quando as mulheres que amei volvessem aos braços do Pai. 

Sendo assim, asseguro-vos de que Naysha e Alayn se reencontraram depois de um tempo. Já se recuperaram desde então, concluindo comigo também na Rússia do tzar Pedro o ciclo de encarnações na orbe terrestre. Digo o mesmo de minha mãe, meu pai, e meus amados irmãos. Romero, entretanto, segue encarnado na atualidade e Jarvar, conquanto acompanho seu desenvolvimento espiritual, desencarnou recentemente e está descansando em hospital adequado. Felicita-me informar-vos, porém, de que houve de fato uma grande melhora de lá para cá. Como costumam dizer: "Um Nero pode se tornar um Gandhi." 

Com isso, agradeço à médium pela paciência e disposição de tempo com os quais pude aqui contar os mil e um dias que foram bastante importantes para meu aprendizado espiritual e que agora relego a vós, na esperança de instruí-los sobre o perdão, o amor, e a caridade como Cristo nos ensinou."
-Almír Salamin.


Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...