quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

O brado de Iansã e o pranto de Iemanjá, pelo Espírito Nimya.

Nota do guia de Ogum: "Caros leitores, estamos concluindo mais um ano de trabalhos espirituais segundo as determinações do Alto para que os mesmos transcorram apropriadamente à luz dos ensinamentos deixados por nosso mestre Jesus, sem que nada fujam dos mesmos. Com o propósito de transmitir os aprendizados espirituais segundo as entidades que se propuseram a trabalhar conosco nesta missão, trazemos hoje, em formato de conto, a memória do Espírito Nimya. Esperamos, como de costume, que a mensagem trazida neste relato deste bondoso espírito possa cumprir com seu propósito. No mais, nos veremos no próximo ano, e que as festividades possam ser de excelente proveito a vós todos e vossos familiares, recordando, entretanto, o equilíbrio em circunstâncias especiais como estas. -George."

“Em meu povo antigo, cantava-se sobre os mais diversos deuses, os quais nomeamos como orixás de determinado elemento: sol, água, terra, vento. Aquela que me regia era Iansã, e curiosamente, a de minha irmã, era Iemanjá.

Um dia, vi minha amada irmã, filha de nossa mãe com seu segundo esposo. Nimuê chorava copiosamente próximo de um lago local, e seu choro manchava toda a pintura de seu rosto. Sentei-me ao seu lado e coloquei minhas mãos ao redor de suas faces, de traços tão delicados e puros. Falei:

--O que causa tanta dor em minha querida companheira de sangue?

--Perdi-me, minha irmã e soberana. Perdi-me.

Não entendendo o que ela disse, franzi o cenho, confusa, e indaguei:

--Quer queres dizer com isto?

--Que nada sou sem aquela a que me rege. Pedi tanto, tanto à mãe Iemonjá para que me recebesse em seu seio e afundasse minhas dores causadas por aqueles a quem falhei em agradar. Mas tudo o que me deu foi a perda de meus dourados cabelos a que fui obrigada a raspar.

De imediato, entendi o que se passava e a abracei.

--Não devemos culpar os deuses pelo que fazemos, minha irmã. Nossa conduta não é responsabilidade deles, mas nossa. Não se lembra do conto de que nosso pai cantava? Escutai e te lembrais deste conto:

   ‘Das profundas águas do mar,

Ouviu Iemonjá

A filha prantear,

Pela dor de querer amar

Pelo anseio de se doar

A quem surdo e cego se fez

Ao teu próprio mar.

Oh, Iemonjá- ia ia, vem, vem a curar!

Oh, Iemnonjá- ia ia, vem, vem ensinar

A sermos o mar,

A cantarolar

A vida, a amar. Odociyá!

Vem, Iemonjá- ia-ia, a nos levantar

E abraçar, mãe, tua filha perdida

Despedida, despida de dores que tu conheces

Tu, que doastes teu cabelo, tuas longas madeixas para apaziguar

A guerra que Xangô preparava-se para travar e

Ogum a lutar!

Tu, que sacrificastes em nome de todos os teus filhos,

Pela paz a zelar.

Oh, mãe Iemonjá, vem vem amar!

Oh, mãe Iemonjá, vem vem ajudar

Oh, mãe Iemonjá, vem vem nos levantar.

Vem vem nos ensinar a nos amar.”

Cantava ela comigo e depois sorriu, como criança que recorda das cantigas que, por toda a infância, lhe foi cantada.

--Entendes agora? Como queres amar se não o fazes com ti mesma? Quem quereis ser: a dor causada por outrem, incapazes de te enxergar a luz, ou ser aquilo a que Iemonjá concebeu? Não vistes que ela me enviou aqui a ti para abrir-te teus olhos pois também ela pranteia por ti?

--Sou imerecedora deste amor divino e puro--ela voltou a soluçar.

--Não, minha irmã, não pense desta maneira. Assim está repugnando a força que a Mãe de Todos influencia em ti diariamente. Construa-te e reconstrua-te, assim o mar faz diariamente--fiz um suspiro--Também eu esqueço de mim mesma em prol daqueles que, acreditava, eram leais aos mesmos princípios que os meus. Escudei-me por trás do orgulho, doce irmã, e foi na tempestade de ontem que Iansã veio bradar.

--Oh, conheço esta canção.

Sorri.

--Deseja entoá-la?

--Uma irmã deve consolar a outra sempre--e, sorrindo-me, cantou:

“Voou, voou

A tempestade que aqui chegou

E levou para longe, longe do mar

O imerecido de teu amor!

Oh, Iansã, Iansã

Tu que conheces minha dor

Olvideis de mim mesma

Para saudar aquele senhor!

Oh, Iansã, Iansã,

Fraquejei minha batalha,

Que general poderia ser eu

Perdendo-me para o despeito do que não era meu?

Iansã veio montada em búfalo,

Aspecto de touro,

Séria em semblante.

Esposa de Ogum, também ela era escaldante

Derretia o inimigo em um instante.

Mirou-me terna e bradou:

“Teu amor me salvou,

 Tua fé o inimigo queimou!

 Oh filha, escutai teu coração

 Aprenda a dizer não

Se quiseres te poupar de dolorosa traição!

Oh filha, escutai teu coração,

Tu não é terra, é vento,

Para quem dar teu calento,

Bálsamo para os que seus são.”

E lá na ventania dançarei, eparrey!

E aqui na costa, bradarei, eparey!

Junto a minha senhora,

Recobro o agora

E deixo o passado no passado.

Iansã, Iansã,

Fraquejei em minha batalha,

Donde acharei a minha navalha

Para sê’ vencedora?

Iansã, Iansã,

Bradou a mim assim:

“Filha, filha, por que tratais te assim?

Vem de mim, vem a mim,

Que mais nada te fraquejará outrossim.

Não te olvides, eu te peço,

Para que sempre haja um recomeço!

Ventarei, ei ei ei,

Para que me diga ‘levantei’!

Filha, filha, sê’ a ti

Conquanto outros serão outros!”

 

Sorrimos, e contemplamos quietamente aqueles contos antigos. Olhei para os céus, a ventania estava forte naquele dia. Pensei em Iansã e na mensagem que dizia em sua cantiga e falei:

--Devemos respeito aos que nos respeitam, somos fortalezas em nós mesmas, minha irmã, pois nenhum deus nos olvidará. Mas a fé que entregamos a eles, entregamos a nós também. Do passado, fomos. Do presente somos. É disto que seremos o futuro.

Ficamos em silêncio por uns instantes e, a olhar o céu, falei:

--Lembramos sempre, companheira minha de alma e de sangue, o que nossa mãe nos falou. O amor não é uma guerra, é contra sua natureza sê-lo.Que possamos amar-nos antes de amar os outros, para que nos próximos combates possamos levantar melhores e mais fortes.

--Como farei isso?--ela murmurou.

Embalei-a contra meu peito e disse, sorrindo:

--Não precisa oferecer tuas longas madeixas a Iemonjá como não preciso montar um búfulo para provar minha coragem a Iansã. O amor é também energia pilar de nós mesmos. Não prantereamos por aqueles que não nos dão valor, mas pela cegueira de que, enquanto criaturas de Oxalá, se fazem à misericordiosa paixão que, através de nós, Ele nos devota. Se Ele nos ama e aceita como somos, por que vamos fugir Dele procurar em outros o que não nos completa?

  E, para findar, cantei:

“Meu pai, meu pai,

 Que do céu te lamentas

 Da gente lamacenta

 E perdida, cega de teu amor.

Meu pai, meu pai.

 Que erro cometemos

 Ao virar-nos contra ti

 Contra teus ensinamentos.

Meu pai, oh meu pai.

 Se hoje pranteamos,

 É porque ontem causamos

 Infindável dor.

Mas é meu pai, meu pai

Que nos levanta e sopra

Seu infinito amor

Para que nos curemos

E o próximo amaremos

Ainda melhores...

Oh meu pai Oxalá,

A paz que de ti emanas,

A serenidade que de ti vem,

Possamos ir além

Sob teu atento olhar.

Meu pai, meu pai.

Que graças são as tuas

As que buscamos eternamente

Em outrem, em outrem

Esquecendo-nos do amor de nós mesmos

Como tu nos ensinou.

Meu pai, meu pai.

Perdoai, perdoai.

Ainda que não sejamos merecedores

Mas dizes que somos vencedores

E não sofredores

Nesta terra tua.

Levai-nos para a lua

Fazei nossa alma nua

De todos os erros e crimes cometidos

Contra tua pureza divina.

Meu pai, meu pai,

Tu que destes o mundo ao teu filho

Tu que o trouxestes a nós

Para que jamais nos deixastes sós.

Auê auá, vamos louvar nosso pai Oxalá

Que nunca virá a nos esquecer

Diz ele “Companheira, tens nada a temer.”

Auê, auá, vamos louvar nosso pai Oxalá,

Que sempre estenderá a mão,

E dirá: “Companheiro, sede tua fortaleza como

Te entregas a mim. Também eu me entrego a ti.”

Auê, auá, meu pai, meu pai.

Adorai! Adorai!

Auê, auá, oh pai Oxalá.

A nós, virá!

 

Nota de Nimya: “Adaptei essas cantigas a tua língua materna e o significado é esse em sua essência que não se perdeu. Mas vede a mensagem que carrega e não foste longa o suficiente, poderiam ser pontos dedicados aos Orixás mencionados na história. Este é um trecho curto de minha história, pois, como te falei antes, identifico-me contigo por motivos pretéritos e já fomos parentes, embora não neste tempo nem em similar contexto. É hora, penso, de seguir com aquela tarefinha que te sugeri ainda nesta semana. Reflita, menina.”

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