Nota do guia de Ogum: "Caros leitores, estamos concluindo mais um ano de trabalhos espirituais segundo as determinações do Alto para que os mesmos transcorram apropriadamente à luz dos ensinamentos deixados por nosso mestre Jesus, sem que nada fujam dos mesmos. Com o propósito de transmitir os aprendizados espirituais segundo as entidades que se propuseram a trabalhar conosco nesta missão, trazemos hoje, em formato de conto, a memória do Espírito Nimya. Esperamos, como de costume, que a mensagem trazida neste relato deste bondoso espírito possa cumprir com seu propósito. No mais, nos veremos no próximo ano, e que as festividades possam ser de excelente proveito a vós todos e vossos familiares, recordando, entretanto, o equilíbrio em circunstâncias especiais como estas. -George."
“Em meu povo antigo, cantava-se sobre os mais diversos deuses, os quais
nomeamos como orixás de determinado elemento: sol, água, terra, vento. Aquela
que me regia era Iansã, e curiosamente, a de minha irmã, era Iemanjá.
Um dia, vi minha amada irmã, filha de nossa mãe com seu segundo esposo.
Nimuê chorava copiosamente próximo de um lago local, e seu choro manchava toda
a pintura de seu rosto. Sentei-me ao seu lado e coloquei minhas mãos ao redor
de suas faces, de traços tão delicados e puros. Falei:
--O que causa tanta dor em minha querida companheira de sangue?
--Perdi-me, minha irmã e soberana. Perdi-me.
Não entendendo o que ela disse, franzi o cenho, confusa, e indaguei:
--Quer queres dizer com isto?
--Que nada sou sem aquela a que me rege. Pedi tanto, tanto à mãe Iemonjá
para que me recebesse em seu seio e afundasse minhas dores causadas por aqueles
a quem falhei em agradar. Mas tudo o que me deu foi a perda de meus dourados
cabelos a que fui obrigada a raspar.
De imediato, entendi o que se passava e a abracei.
--Não devemos culpar os deuses pelo que fazemos, minha irmã. Nossa
conduta não é responsabilidade deles, mas nossa. Não se lembra do conto de que
nosso pai cantava? Escutai e te lembrais deste conto:
‘Das profundas águas do mar,
Ouviu Iemonjá
A filha prantear,
Pela dor de querer amar
Pelo anseio de se doar
A quem surdo e cego se fez
Ao teu próprio mar.
Oh, Iemonjá- ia ia, vem, vem a curar!
Oh, Iemnonjá- ia ia, vem, vem ensinar
A sermos o mar,
A cantarolar
A vida, a amar. Odociyá!
Vem, Iemonjá- ia-ia, a nos levantar
E abraçar, mãe, tua filha perdida
Despedida, despida de dores que tu conheces
Tu, que doastes teu cabelo, tuas longas madeixas para
apaziguar
A guerra que Xangô preparava-se para travar e
Ogum a lutar!
Tu, que sacrificastes em nome de todos os teus filhos,
Pela paz a zelar.
Oh, mãe Iemonjá, vem vem amar!
Oh, mãe Iemonjá, vem vem ajudar
Oh, mãe Iemonjá, vem vem nos levantar.
Vem vem nos ensinar a nos amar.”
Cantava ela comigo e depois sorriu, como criança que recorda das
cantigas que, por toda a infância, lhe foi cantada.
--Entendes agora? Como queres amar se não o fazes com ti mesma? Quem
quereis ser: a dor causada por outrem, incapazes de te enxergar a luz, ou ser
aquilo a que Iemonjá concebeu? Não vistes que ela me enviou aqui a ti para
abrir-te teus olhos pois também ela pranteia por ti?
--Sou imerecedora deste amor divino e puro--ela voltou a soluçar.
--Não, minha irmã, não pense desta maneira. Assim está repugnando a
força que a Mãe de Todos influencia em ti diariamente. Construa-te e
reconstrua-te, assim o mar faz diariamente--fiz um suspiro--Também eu esqueço
de mim mesma em prol daqueles que, acreditava, eram leais aos mesmos princípios
que os meus. Escudei-me por trás do orgulho, doce irmã, e foi na tempestade de
ontem que Iansã veio bradar.
--Oh, conheço esta canção.
Sorri.
--Deseja entoá-la?
--Uma irmã deve consolar a outra sempre--e, sorrindo-me, cantou:
“Voou, voou
A tempestade que aqui chegou
E levou para longe, longe do mar
O imerecido de teu amor!
Oh, Iansã, Iansã
Tu que conheces minha dor
Olvideis de mim mesma
Para saudar aquele senhor!
Oh, Iansã, Iansã,
Fraquejei minha batalha,
Que general poderia ser eu
Perdendo-me para o despeito do que não era meu?
Iansã veio montada em búfalo,
Aspecto de touro,
Séria em semblante.
Esposa de Ogum, também ela era escaldante
Derretia o inimigo em um instante.
Mirou-me terna e bradou:
“Teu amor me salvou,
Tua fé o
inimigo queimou!
Oh filha,
escutai teu coração
Aprenda a dizer
não
Se quiseres te poupar de dolorosa traição!
Oh filha, escutai teu coração,
Tu não é terra, é vento,
Para quem dar teu calento,
Bálsamo para os que seus são.”
E lá na ventania dançarei, eparrey!
E aqui na costa, bradarei, eparey!
Junto a minha senhora,
Recobro o agora
E deixo o passado no passado.
Iansã, Iansã,
Fraquejei em minha batalha,
Donde acharei a minha navalha
Para sê’ vencedora?
Iansã, Iansã,
Bradou a mim assim:
“Filha, filha, por que tratais te assim?
Vem de mim, vem a mim,
Que mais nada te fraquejará outrossim.
Não te olvides, eu te peço,
Para que sempre haja um recomeço!
Ventarei, ei ei ei,
Para que me diga ‘levantei’!
Filha, filha, sê’ a ti
Conquanto outros serão outros!”
Sorrimos, e contemplamos quietamente aqueles contos antigos. Olhei para
os céus, a ventania estava forte naquele dia. Pensei em Iansã e na mensagem que
dizia em sua cantiga e falei:
--Devemos respeito aos que nos respeitam, somos fortalezas em nós
mesmas, minha irmã, pois nenhum deus nos olvidará. Mas a fé que entregamos a
eles, entregamos a nós também. Do passado, fomos. Do presente somos. É disto
que seremos o futuro.
Ficamos em silêncio por uns instantes e, a olhar o céu, falei:
--Lembramos sempre, companheira minha de alma e de sangue, o que nossa
mãe nos falou. O amor não é uma guerra, é contra sua natureza sê-lo.Que
possamos amar-nos antes de amar os outros, para que nos próximos combates
possamos levantar melhores e mais fortes.
--Como farei isso?--ela murmurou.
Embalei-a contra meu peito e disse, sorrindo:
--Não precisa oferecer tuas longas madeixas a Iemonjá como não preciso
montar um búfulo para provar minha coragem a Iansã. O amor é também energia
pilar de nós mesmos. Não prantereamos por aqueles que não nos dão valor, mas
pela cegueira de que, enquanto criaturas de Oxalá, se fazem à misericordiosa
paixão que, através de nós, Ele nos devota. Se Ele nos ama e aceita como somos,
por que vamos fugir Dele procurar em outros o que não nos completa?
E, para findar, cantei:
“Meu pai, meu pai,
Que do céu te lamentas
Da gente lamacenta
E perdida, cega de teu amor.
Meu pai, meu pai.
Que erro cometemos
Ao virar-nos contra ti
Contra teus ensinamentos.
Meu pai, oh meu pai.
Se hoje pranteamos,
É porque ontem causamos
Infindável dor.
Mas é meu pai, meu pai
Que nos levanta e sopra
Seu infinito amor
Para que nos curemos
E o próximo amaremos
Ainda melhores...
Oh meu pai Oxalá,
A paz que de ti emanas,
A serenidade que de ti vem,
Possamos ir além
Sob teu atento olhar.
Meu pai, meu pai.
Que graças são as tuas
As que buscamos eternamente
Em outrem, em outrem
Esquecendo-nos do amor de nós mesmos
Como tu nos ensinou.
Meu pai, meu pai.
Perdoai, perdoai.
Ainda que não sejamos merecedores
Mas dizes que somos vencedores
E não sofredores
Nesta terra tua.
Levai-nos para a lua
Fazei nossa alma nua
De todos os erros e crimes cometidos
Contra tua pureza divina.
Meu pai, meu pai,
Tu que destes o mundo ao teu filho
Tu que o trouxestes a nós
Para que jamais nos deixastes sós.
Auê auá, vamos louvar nosso pai Oxalá
Que nunca virá a nos esquecer
Diz ele “Companheira, tens nada a temer.”
Auê, auá, vamos louvar nosso pai Oxalá,
Que sempre estenderá a mão,
E dirá: “Companheiro, sede tua fortaleza como
Te entregas a mim. Também eu me entrego a ti.”
Auê, auá, meu pai, meu pai.
Adorai! Adorai!
Auê, auá, oh pai Oxalá.
A nós, virá!
Nota de Nimya: “Adaptei essas cantigas a tua língua materna e o significado é esse em sua essência que não se perdeu. Mas vede a mensagem que carrega e não foste longa o suficiente, poderiam ser pontos dedicados aos Orixás mencionados na história. Este é um trecho curto de minha história, pois, como te falei antes, identifico-me contigo por motivos pretéritos e já fomos parentes, embora não neste tempo nem em similar contexto. É hora, penso, de seguir com aquela tarefinha que te sugeri ainda nesta semana. Reflita, menina.”
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